“Demente, absurdo, herético!” – assim a Inquisição romana condenou o heliocentrismo proposto por Copérnico, de acordo com a peça de Bertolt Brecht.
É relevante recordar: aquilo que é hoje uma verdade banal, ensinada a todas as crianças na escola deste o início de seu processo formativo, o fato observável e mil vezes comprovado de que a Terra gira em torno do Sol, foi furiosamente negado por pessoas cheias de fé (e de desrazão). Absurdo e demente não é Copérnico, operador de uma das mais cruciais mudanças de paradigma na história das revoluções científicas (cf. Kuhn), mas demenciado mesmo é aquele monge que, na peça de Brecht, com uma Bíblia aberta em suas mãos, “golpeando com o dedo fanaticamente uma passagem” (trata-se de Josué 10:12-14), berra:
“O que dizem as Sagradas Escrituras? ‘Sol, detem-te sobre Gibeão!’ Como poderia deter-se o Sol se ele não se movimentasse, como sustentam os hereges? Por acaso mentem as Santas Escrituras?” (BRECHT, Teatro Completo, p. 958)
Quando ocorre a “controvérsia sobre o heliocentrismo”, a Europa encontra-se sob o domínio de uma Cristandade então cindida entre catolicismo e protestantismo. Este cisma que gerou violentas guerras e vasto derramamento de sangue. A Europa católica, dominante na Itália de Galileu, tinha um clero poderoso que fazia o continente feder com o aroma de carne chasmucada de cientistas demasiado perscrutadores de fatos. Cientistas, feiticeiras e livros proibidos queimavam no grande churrasco promovido pelos fanáticos.
A importância contemporânea de uma compreensão ampla da vida e obra de Galileu Galilei (cientista e polímata que nasce em 1564 e morre em 1642) está no que ela ilumina acerca do obscurantismo e do negacionismo, fenômenos trevosos que ainda não pudemos aposentar de nossa história.

Trevas atravessam a história e projetam-se no futuro. Ao fim de 1968, as trevas espessas que desceram sobre o Brasil têm por emblema o AI-5, quando a brutalidade da a Ditadura Civil-Militar e Católico-Conservadora (1964-1985) atingiu seu cume repressivo, torturador e assassino. Neste contexto, com ousadia admirável, o Teatro Oficina decidiu encenar em Sampa a peça de Brecht que à época Zé Celso Martinez Côrrea descreveu como “uma história do tempo em que a verdade era subversão”. Ela estreou exatamente no 13 de Dezembro de 1968 em que foi decretado o Ato Institucional #5 que estaria vigente nos próximos 10 anos.
Com suas sarcásticas equivalências entre os inquisidores do Santo Ofício e os militares vestidos com fardas verde-oliva, a peça foi performada no Bixiga em meio à tensão quanto a uma nova incursão violenta do C.C.C., o “Comando de Caça aos Comunistas”, milícia fascista apoiada pelo regime nascido do golpe de 1964 e que já havia vandalizado o teatro e agredido os artistas que encarnaram a Roda Viva de Chico Buarque. (*)
O artigo de MAYRINK, Zé Vale-Tudo (In: Revista 451, 2023, Ed. 71. URL: https://quatrocincoum.com.br/artigos/teatro/ze-vale-tudo/), destaca: “O que pensa Galileu? Ele queria provar que a Terra não é o centro do universo, que gira em torno do Sol e que a Lua não tem luz própria. Mas não pensa sempre nisso: pensa em conseguir melhor salário como professor, pensa nas garrafas de vinho, pensa que a morte nas fogueiras da Inquisição deve doer muito…”
Galileu não foi assado nas chamas do fanatismo por desposar a tese de que a Terra se movia ao redor do Sol, hoje uma banalidade ensinada nas escolas desde o ensino básico, mas… foi quase. Brecht constrói um retrato humanizado, tragicômico, deste herói da ciência que teria aceitado abjurar e se submeter, mas para que tivesse tempo de escrever, no cárcere, o livro em que a verdade seria contrabandeada através da fronteira para que pudesse ser publicada alhures. Retomar esta história importa de muitas maneiras e é por isto que em 26 de Setembro, no IFG câmpus Anápolis, faremos um cinedebate de pertinência.

Ao ser solicitado pela instituição em que atuo, como servidor público federal da educação, a propor uma atividade para todos os estudantes da Licenciatura em Ciências Sociais, propus ao IFG e à coordenação do curso, hoje encabeçada por Francine Rebelo, abordar os impactos sociais dos ataques negacionistas-obscurantistas à ciência partindo do “Caso Galileu”.
Este foi objeto de inumeráveis estudos e controvérsias, muitas das quais ainda ignoro e não pude estudar; então preferi focar nas representações de Brecht, do Teatro Oficina e do filme de Joseph Losey, mas também nutrido pela leitura do crucial livro de Mario Livio, Galileu e os Negadores da Ciência. Ali, Livio mostra que a empreitada de Galileu, seu heroísmo de cientista-polímata enredado com a dogmática de seu tempo, representa também “o último prego no caixão da ideia aristotélica de céus imutáveis” (p. 77):


“De acordo com a cosmologia aristotélica, que ao longo dos séculos havia se entrelaçado intimamente com a ortodoxia cristã, havia uma clara distinção entre as coisas terrestres e as coisas celestes. Enquanto tudo na Terra era corruptível, mutável, podia sofrer usura, se deteriorar e até morrer, os céus eram supostamente perfeitos, puros, duradouros e imutáveis.Ao contrário dos quatro elementos clássicos que deveriam constituir tudo o que é terrestre (terra, água, ar e fogo), acreditava-se que os corpos celestes eram feitos de uma quinta substância diferente e imaculada, denominada quinta essência ou, literalmente, a quinta essência. As observações de Galileu, no entanto, mostraram que havia montanhas e crateras na Lua e que, ao refletir a luz do Sol, a Terra se comportava como qualquer outro objeto planetário. Nenhuma prova foi dada até essa altura para sugerir que a Terra estivesse realmente se movendo, mas a declaração de Galileu de que ela é móvel falava muito no sentido do copernicanismo. Se a Lua era, de fato, sólida e muito parecida com a Terra e se movia em órbita ao redor do nosso planeta, por que a Terra, que era semelhante à Lua, não poderia se mover ao redor do Sol?” (LÍVIO: Record, 2021, pg. 75)

Como docente da disciplina Filosofia da Ciência e da Técnica, enxergo no Caso Galileu um vasto campo propício a reflexões sobre o errático e dificultoso processo através do qual a verdade tenta triunfar sobre as ilusões, as falácias, as superstições e os dogmas cegantes que formam legião. As grandes descobertas de Galileu possuem uma dívida inegável em relação a um invento técnico, um avanço no campo da óptica, o surgimento na Holanda dos primeiros telescópios🔭.
Brecht o destaca muito bem, mostrando um Galileu um pouco espertalhão e de ética questionável, que apresenta à Signoria de Veneza o seu “tubo” que permite enxergar o longínquo como se fosse um invento de seu gênio. Quando na verdade ele já era vendido em Amsterdam e os mercadores neerlandeses já estavam prestes a inundar o mercado italiano colocando-os à venda.

É através de uma ferramenta técnica que expande os poderes do olho humano, para que enxerguemos o longínquo, que Galileu consegue observar os 4 satélites que giram ao redor de Júpiter, testemunhar as diferentes fases de Vênus (semelhantes às fases da Lua) e inferir que é desprovida de luz própria a Lua que nos arrodeia.
O que é interessantíssimo nas cenas inaugurais da obra-prima teatral brechtiana é a didática de Galileu diante de uma criança, Andrea, a quem o cientista convence da realidade do heliocentrismo através de experimentos empíricos muito palpáveis e reprodutíveis: senta o pimpolho numa cadeira, e depois move ambos pelo espaço, de maneira que o objeto que representa o Sol está, no início do experimento, à direita de sua cabeça, e no fim já se encontra à sua esquerda.
Um modo sagaz e simples de mostrar que o nascer e o pôr do Sol ☀, tal como aparecem em nossa percepção, não devem ser considerados como provas de que o Sol de fato se move, pois é possível, e é comprovável, que o sujeito a bordo do astro errante Terra é que está orbitando ao redor de uma estrela que exerce aquilo que posteriormente Newton demonstrará ser a força gravitacional.


Os negadores da ciência não são coisa nova, aliás esta é uma das velharias que mais teima em não morrer. Galileu, que conhecia o destino que havia sido imposto a Giordano Bruno em 1600, queimado vivo na fogueira até virar cinzas, teve que encarar toda a fúria do negacionismo: exigiram que renunciasse à sua opinião heliocêntrica que contrariava a Bíblia Sagrada e a doutrina de São Aristóteles e do devoto Ptolomeu.
Era verdade então como é verdade aqui e agora: é com frequência a religião dogmática, infectando o cérebro de um animal humano, que conduz grupos sociais, cimentados em seita pelas mesmas crenças (por mais falsas, errôneas e equivocadas que sejam), que conduz a tratar o cientista como herege e a publicação da verdade como crime de lesa-teocracia
Hoje qualquer pirralho na segunda série aprende que a Terra gira ao redor do Sol, mas em 1600 você podia assar nas chamas da Santa Inquisição por ousar confrontar a verdade sagrada defendida pelas escrituras santas: a Terra era o centro imóvel de todo o cosmos, o Sol girava em nosso entorno para melhor iluminar o destino das criaturas privilegiadas que Deus criou à sua imagem e semelhança…
O destino de Bruno, estigmatizado como herege e reduzido ao silêncio das cinzas, ilumina de maneira sombria o destino de Galileu, o cientista aprisionado, o cientista que abjura da convicção que toda uma vida de estudos nele consolidou, o cientista num clash com a sacralidade intolerante instituída. É interessante notar também que o heliocentrismo faz sua entrada no palco da história, até onde sabemos, na Antiguidade clássica, antes de Cristo, com Aristarco de Samos (310-230 a.C.), conterrâneo e contemporâneo de Epicuro, o grande sábio materialista que teve suas dezenas de tratados de física destruídos pela oposição idealista-platônica. O Cosmos de Sagan, em The Backbone of Night, teve o grande mérito de nos ensinar esta importante lição sobre Aristarco, percursor de Copérnico e Galileu e Spinoza (o polidor de lentes de Amsterdam também era um convicto heliocêntrico!):
Tendemos a olhar com respeito excessivo para Platão e para Aristóteles, no entanto… estes dois aristocratas, ambos escravocratas, eram intolerantíssimos com a obra dos atomistas, ou seja, aqueles dentre os filósofos antigos que mais fizeram avançar a “ciência grega”. Platonismo e Aristotelismo foram também responsáveis pelo atraso de milênios no triunfo da lucidez científica que eles atacaram em prol de suas dogmáticas rígidas. Tanto é assim que Galileu, em seu tempo, está em batalha não apenas contra o sistema de Ptolomeu, que caducou e nada explica direito, mas também contra o sacrossanto aristotelismo!
O que me interessa ao tecer este tenso texto não é narrar a vida de Galileu como ela foi – eu não teria a mínima capacidade de versar sobre a biografia do homem, o que já foi aliás feito à exaustão – mas sim sondar a refração que as obras-de-arte impõe à imagem de Galileu, sobretudo na peça de Brecht, no filme de Losey e na notável encarnação dramatúrgica operada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona – que, logo após O Rei da Vela e Roda Viva, decide estrear o Galileu Brechtiano no fim de 1968.


Há uma cena notável que traz um emblema do negacionismo: diante do duque de Florença, um pirralho de 9 anos rodeado pela fina flor da nobreza retrógrada, Galileu convida a todos que olhem através das lentes do tubo óptico, mas todos se recusam. Cegueira voluntária que evoca o atualíssimo filme “Não Olhe Pra Cima”.
Entram num debate intelectual e verbal, em que filósofos defendem que o sistema de Aristóteles é tão belo e harmonioso que não é necessário que um heregezinho impertinente venha propor a discórdia. Os homens do clero preferem defender a sua noção estapafúrdia de Deus mesmo que esta implique arrancar os olhos da cara e jogá-los no lixo (ou simplesmente se recusar a usá-los, como fazem nesta cena). Ora, se tá escrito na Bíblia, em Josué, que Jeová mandou parar o Sol no céu para que o exército de Israel chacinasse seus inimigos, por que emprestar olhos e ouvidos a um cientistazinho herege que ameaça nossa bem-aventurança eterna com o espalhamento de doutrinas sacrílegas?
Em outro momento, um jovem astrônomo, descobrindo que a investigação científica pode ser muito perigosa (pois pode implicar a repressão por parte dos poderes geocêntrico-teocráticos instituídos), argumenta a Galileu: as pessoas simples, os camponeses, desde o berço foram ensinados que estão no centro de tudo e que há um deus que se preocupa com sua salvação, e é esta estabilidade que possibilidade que trabalhem duramente, carreguem azeitonas, criem filhos. Ameaçando desistir da carreira como astrônomo, o moço pergunta a Galileu: estes camponeses simplórios, ingênuos, apegados aos dogmas que beberam com o leite materno, como você acha que se sentiriam se nós lhes disséssemos que they’re living in a chunk of stone spinnin’ in empty space around a second-rate star? (1h1min)
A frase sugere que é o narcisismo humano a fortaleza que defende a religião, esta punheteira das vaidades dos homens. Se nossa vaidade é ferida pela ideia de estarmos em um planetinha que gira ao redor de uma estrelinha entre milhões de outras, isto não significa que nossa vaidade, defendida contra as afrontas, seja a dona da verdade. Muito mais é índice de que a vaidade, o narcisismo, o ego e o antropocentrismo são cegueiras voluntárias que nos empurram ao lodaçal das mentiras confortáveis às quais nos apegamos com virulência. Freud foi o incomparável pensador disto através de suas 3 Feridas Narcísicas.


As três feridas impostas à humanidade narcisista começam justamente pelo heliocentrismo, ou seja, como destaca um cardeal católico em Brecht, “ouvi dizer que o senhor Galilei desloca o homem do centro do universo para um local marginal. Por conseguinte, é um inimigo do gênero humano! E como tal deve ser tratado! O homem é o rei da criação, qualquer pivete o sabe, a criatura mais alta e predileta de Deus! Como teria podido Deus situar esta maravilha, fruto de tanto esforço, em um pequeno astro apartado e sempre em fuga? Enviaria seu filho a um local assim? Como pode haver gente tão perversa para emprestar credibilidade a estes escravos das tábuas de cálculo? Que criatura de Deus pode tolerar semelhante coisa?” (Brecht, p. 958)
O discurso religioso deste personagem indica com imensa clareza algo sobre o poderio da cosmovisão criacionista: como Freud mostrou em Futuro de Uma Ilusão, a força da fé não está em sua veracidade, mas no desejo que ela nutre e afaga, isto é, nossa vontade de acreditamos na espécie humana como central, importantíssima, criatura favorita dentre todas as inventadas por Deus-Pai. É isto o que colapsa com Copérnico, Galileu, Kepler, Spinoza etc. numa Renascença tardia que é também a retomada de uma doutrina que em Samos já era defendida 2 milênios antes (na ilha natal de Pitágoras, de Aristarco e de Epicuro). As duas outras feridas foram infligidas pela teoria da evolução de Darwin e pela psicanálise freudiana.
É ainda um tabu, “em pleno século 21” depois de Jesus Cristo, ousar levantar a tese de que a fé pode ser um obstáculo cognitivo e um impedimento da lucidez. Somos ainda olhados com fúria similar àquela dos inquisidores diante de Bruno e Galileu ao sustentar que a fé não é esta maravilha toda como o defendem papas e pastores. Alguns séculos de psicologia – literalmente, ciência da mente – de ponta não deveriam ter aberto nossos olhos para fenômenos como o narcisismo e os obstáculos epistêmicos que ele enfia em nossas psiquês? E não seria a fé o recorrente recurso de nossa vontade narcísica para distorcer e torturar a verdade para colocar no lugar uma doutrina que, apesar de falsa e nefasta, afaga nossos egos e nos dá uma centralidade e importância cósmica que de fato não temos?…
APRECIE TAMBÉM:
DOCUMENTÁRIO COMPLETO: Galileo’s Battle for the heavens –
https://www.youtube.com/watch?v=jvlr2iMWQyc
AND YET IT MOVES (1978) – Um filme de Kurt Tetzlaff: https://www.umass.edu/defa/film/37234/
SATAN’S GUIDE TO THE BIBLE:
Publicado em: 24/09/26
De autoria:
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia