ESTRÉIA NO CANAL D’A CASA DE VIDRO: “Malandragem”, de Cazuza, interpretada por Walter Villaça e Cejane Verdejo no Elegia, à la Cássia Eller: https://youtu.be/sUGy0TMYLjs?si=KmGL4a4AZWCLOQVg
“Eu sou poeta e não aprendi a amar”
Cazuza e Cássia: que confluência! Em 1994, o terceiro álbum de Cássia Eller (1962 – 2001) foi propulsionado ao ápice pelo single “Malandragem”. Originalmente escrita por Cazuza e Frejat para ser cantada por Angela Rô Rô, a canção explodiu nacionalmente. O que também fez com que a vulcânica cantora decidisse que seu quarto álbum, “Veneno Anti-Monotonia”, lançado em 1997, seria totalmente dedicado aos rebentos cazuzísticos.
O guitarrista Walter Villaça, que tocava com Cássia, e inclusive esteve na gravação do “Acústico MTV” (2001) em que a pop song malandra também marca presença, esteve em Goiânia para um impressionante show que rolou no Elegia em 11 de junho de 2026, em que convocou o apoio do vozeirão de Cejane Verdejo para uma digna homenagem à “versão Cássia Eller” desta comovente canção brazuca (a performance contou ainda com Carlos Foca no contrabaixo, Fred Valle na bateria e Cândido nos teclados.)
Fico matutando que o misterioso impacto das obras de arte chamadas canções só se explica a partir das emoções que são mobilizadas por meio da arte dos sons e das palavras cantadas: “Malandragem” serve como oportuno exemplo, com sua evocação de uma infância invencível, que persiste no cerne da pessoa adulta. O ouvinte é imediatamente impactado pelo vozeirão de uma mulher feita que parece estar ainda de mãos dadas, no recôndito interior, com a criança que foi: “quem sabe eu ainda sou uma garotinha / esperando o ônibus da escola, sozinha.”
Apesar de estar bem distante das enjoativas e repetitivas louvações ao Senhor, que infestam o ramo do música comercial (altamente lucrativa) que é o gospel, esta música tem vários “elementos religiosos” tratados de maneira bem mais original e “literária”, a começar pela evocação da garotinha que, por pressões sociais e por uma (de)formação cristã desde o berço, está “rezando baixo pelos cantos por ser uma menina má”. O refrão é uma prece em que ela pede algo a Deus: nada mais e nada menos do que a tão brasileira malandragem, de que Garrincha ou Bezerra da Silva eram repletos. O mais massa dessa prece é que, logo depois de entoada, o eu lírico se expõe e se explicita como alguém muito distante de qualquer fanatismo ou dogmatismo: “eu sou criança e não conheço a verdade / eu sou poeta e não aprendi a amar.”
Ao emaranhar os fios da infância e da religiosidade, a canção acaba por sugerir que é, de fato, aquela invencível criança interior, trêmula e vulnerável, que se expressa através dos adultos com fé. Ao pedir ao Deus-Pai, também conhecido como Papai-do-Céu por muitos pirralhos, pela dádiva da malandragem, do jogo de cintura, da capacidade de driblar as adversidades, implicitamente o eu lírico reconhece sua ingenuidade em estado de mutação ou dissolução. Por todo o lado da canção, a ingenuidade vai sendo mostrada em estado dinâmico de arruinação, inclusive aquele romantismo, em seu sentido banal, que consiste em esperar o príncipe encantado e o “viveram-felizes-para-sempre”: “quem sabe o príncipe virou um chato / Que vive dando no meu saco! / Quem sabe a vida é não sonhar!”
No core da canção há o germe da subversão. “Bobeira é não viver a realidade” expressa isso com perfeição. Há estrofes em que o eu lírico já se mostra como alguém que trocou de pele e adentrou na maturidade – esta que consiste, no microcosmo do conto que a letra veicula, em dirigir seu carro, trocar um cheque, tomar um pileque e ainda ter tempo pra cantar. Eis a realidade profana, que exige de nós uma coragem malandra, e que seria uma bobeira rejeitar, para ir se enfronhar em um mundo de sonhos, de ideias ingênuos, de romantismos que apenas fomentam as decepções amargas. Ser poeta e não ter aprendido a amar acaba sendo, no emocionante refrão, uma confissão de incompletude, um reconhecimento de um aprendizado necessário, um déficit que impulsiona a busca, ao mesmo tempo que expressa um abraço ao estilo de vida poético, criativo, audaz, navegação em mares turbulentos e sem a segurança dada pelas boias dos dogmas.
“Malandragem” é uma obra-prima da canção brasileira justamente por brincar de maneira marota com as práticas e os afetos da fé, retirada de um pedestal e reinserida no âmbito da psiquê. A chave para a compreensão da religião, dizia Feuerbach, é a antropologia; talvez Cazuza diria que a religiosidade só pode ser compreendida a partir da emoção e da teimosa presença na subjetividade adulta da invencível criança que chama e clama pelo papai do céu. Colocando a malandragem como objeto de desejo, como pedido ao cosmocrata que supostamente escuta as preces dos fiéis, esta música também aponta para uma vontade impregnada de brasilidade. Aqui, para o bem viver, concebe-se como virtude cardeal a malandragem profana que se expressa no futebol, no carnaval e na indomável expressividade de nossos gênios artísticos como Cazuza e Cássia.
Eduardo Carli, Goiânia, 12/06/2026
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Publicado em: 12/06/26
De autoria: casadevidro247
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