
O Millôr Fernandes tem uma frase que eu acho esperta e engraçada em que ele diz que “são muito admiráveis as pessoas que não conhecemos bem” – e me lembrei um pouco disso ao assistir o filme O Drama, que tem no seu centro uma cena onde há um jogo da verdade entre dois casais. E a pergunta que está ali circulando na mesa enquanto os copos de vinho são enxugados é: qual é a pior coisa que você já fez na vida?
Então surge ali esse mind game, esse jogo mental que pressiona as pessoas a confessarem aquilo que há de mais inconfessável no passado delas. Os segredos mais sombrios. Os esqueletos escondidos no armário. E eu acho que aquela cena é muito a chave que “abre” os segredos do filme. Inclusive no trailer tem um grande destaque dado a essa informação, ou melhor, a essa confissão que a personagem Emma, interpretada por Zendaya, nesse momento faz, o fato que revela àqueles três que estão com ela, inclusive ao personagem Charlie, vivido pelo Robert Pattinson, há poucos dias deles se casarem.

Então existe um pouco a construção justamente de um drama tragicômico com a revelação de uma verdade bombástica sobre a vida pretérita de Emma quando era adolescente, mais ou menos aos 15 anos, quando ela planejou cometer um mass shooting, um assassinato em massa na sua escola.
E é curioso que eu acabei de realizar a leitura deste livro aqui que é Depois do Futuro, de Franco Berardi (vulgo Bifo), e estava muito fresca na minha memória uma discussão que ele faz nesse livro acerca de Elefante de Gus Van Sant, que é um filme que dramatiza, que ficcionaliza e que reencena o massacre de Columbine. Então eu fui ao Cine Cultura com uma leitura do Bifo muito recente me fazendo refletir acerca desse fenômeno que é muito massivo, é muito difundido, ele é muito widespread nos Estados Unidos, que é essa violência com o uso de armas de fogo. Que é de fato um fenômeno social viral. E estou evocando a palavra viral justamente para falar um pouco sobre a cybercultura, sobre os nativos digitais e sobre como pensadores como Bifo têm buscado compreender essas novas patologias que emergem e, longe de ser algo que captura um ou outro indivíduo, acaba se tornando uma grande máquina de captura massiva dos indivíduos para esse tipo de comportamento.
E o que eu acho muito interessante no filme O Drama é algo que envolve a performance de redes. Então nós estamos diante de um filme que, como tantos outros, inclusive o filme anterior do cineasta, Sick of Myself (Doente de Mim Mesma), existe uma onda no cinema de debater as consequências das mídias sociais em nossas vidas e desse desejo de visibilidade a todo preço.
Então acho que a personagem da Zendaya é muito bem desenhada, é um roteiro realmente brilhante e ela também foi uma atriz bem escolhida e que chegou bem preparada para esse papel, até mesmo em virtude da atuação em Euphoria, na série da HBO. Então ela nos transmite um pouco, ao menos, de uma mentalidade que é a seguinte: é melhor eu ser infame, mais famosa, do que eu ser anônima, do que eu ser desconhecida, do que eu ser ninguém na rede.

Então são muito interessantes as cenas onde a Emma, a personagem que Zendaya interpreta, ela é recuperada nos seus 15 anos nessa sua adolescência traumática. O filme introduz uma segunda atriz para representar essa adolescente de maneira discrepante dessa jovem adulta que a Zendaya se tornou enquanto atriz. Então nós temos a Zendaya fazendo essa jovem adulta prestes a se casar e uma outra atriz trazendo esses flashbacks que acabam invadindo a vida desse casal e acabam realmente transtornando o personagem do Charlie, do Robert Pattinson, que, enfim, descobre meio chocado esse outro lado sombrio, esse darker side da jovem mulher com quem ele está prestes a se casar.
Então, eu acho muito interessante e digna de ser enfatizada uma cena onde a Emma adolescente está com o rifle do seu pai militar e ela se posta diante de uma webcam. E ela está fazendo uma espécie de discurso pré-crime. Na véspera de assassinar na escola seus colegas, seus professores, os servidores, a limpeza, a elétrica. Enfim, na véspera da passagem ao ato, ela está gravando um vídeo e ela está performando uma personagem. E aí o filme constrói uma certa graça com o bug informático, a tela azul, o software que trava dizendo que você precisa de um update. Ou seja, toda uma série de interrupções, toda uma série de pequenos problemas que impedem, na minha compreensão dessa cena, que ela consumr a gravação desse vídeo – esse vídeo que seria um testamento seu e que ela provavelmente imagina que poderia se tornar viral na web depois.
Então há uma cena muito à frente no filme, mais encaminhando para o desfecho, que é propriamente o casamento, e é uma cena muito cáustica e muito provocativa que me lembra de Festa de Família de Winterberg, me lembra da primeira metade de Melancolia do Lars von Trier. Tem algo nesse cinema nórdico de provocação, de demolição dessas instituições como a família e o matrimônio. E aí nessa cena o pai, a certo momento, vai fazer uma fala e ele revela que Emma desde criança foi muito teatral, que ela fazia pequenas peças de teatro. Ele relembra que ela fingia ser um cego. Então enquanto criança ela brincava de atuar, brincava com a cegueira e se colocar na posição, na pele, no corpo de uma pessoa diferente, por exemplo, de um cego. Então é relatado uma personalidade com tendência à performatividade, à performance, à atuação.
E aí me parece que o filme traz um elemento muito interessante que é: não é que ela tenha cometido de fato algum crime punível pelo aparato penal, pelo aprisionamento ou algo assim. Ela não passou ao ato. Ela planejava isso, mas também, mais do que o planejamento pragmático, ela fazia uma brincadeira performativa. Uma brincadeira muito séria que poderia ter tido consequências muito graves, mas que no enredo do filme se torna algo que se limita à performance e não passa propriamente ao ato. E eu acho que é isso que o filme está tematizando. E é essa sacada genial também desse desfecho. Um desfecho que me pareceu bastante surpreendente porque ele tem um teor quase de um happy end. Quase, né?
Porque você tem ali os personagens muito alquebrados. Você tem o Charlie, enfim… Todo fodido, todo quebrado, todo ensanguentado. Ela também acabou de sair de um casório catastrófico, de uma festa terrível onde o seu segredo foi revelado. Mas eles encontram ali um novo jogo, que é proposto por ela várias vezes durante o filme, que é o Let’s start over. Vamos começar de novo, né? Deu merda. Algo se quebrou. Vamos dar um rewind. Vamos voltar a fita. Vamos começar de novo. Vamos performar diferente.


Então me parece que, do ponto de vista ético, esse filme também pode suscitar boas discussões a respeito da possibilidade de condenação ética de algo que fica no âmbito da intenção ou da performance. E podemos pensar na história da ética nesses dois caminhos também que nós filósofos descrevemos como 1) o consequencialismo: você julga os atos de uma pessoa a partir das consequências que ele causou nas outras pessoas, no mundo; você avalia as perdas e danos ou os ganhos e benefícios; então, por assim dizer e parafraseando William James, você julga a árvore pelos seus frutos, você julga o caráter ético da pessoa pelos efeitos. E tem um outro caminho que é o 2) deontológico, que é um pouco mais essa noção da moral kantiana, do imperativo categórico, e também do mundo cristão, judaico-cristão, onde você julga a partir de princípios, de deveres universais, inescapáveis, que esse sujeito tenha que nutrir, e ele tem que ficar aferrado a esses valores e a esses princípios. E não importa tanto o que ele faça, não importa tanto as consequências dos seus atos sobre os outros, sobre o mundo – que podem ser avaliados por uma perspectiva mais objetivista. Não, o que importa são os princípios, as boas intenções.
Então eu acho que esse filme é interessante para pensar essas duas grandes correntes éticas, consequencialismo e deontologia. Porque me parece que do ponto de vista consequencialista, a personagem Emma, vivida pela Zendaya, ela causa mal sobretudo a si própria. Nessa performance adolescente de uma pessoa que vai atirar na escola, que praticará um massacre escolar, ela acaba perdendo a audição de uma das orelhas ao treinar na mata com o rifle. Cenas muito fortes do filme, inclusive, revelam aquele fluxo de sangue saindo da sua orelha e molhando a sua roupa branca. São cenas bem impactantes. Portanto, ela causa um mal a si mesma. Ela destrói um órgão de audição. Mas, do ponto de vista objetivo, ela não matou ninguém, ela não baleou ninguém, ela não derramou sangue. Ela, digamos, performou de maneira semi-secreta. Inclusive não há sinal no filme de que ela tenha publicado aqueles vídeos que ela gravou, que ela tenha feito algum tipo de participação em fóruns ostentando previamente.
Então me parece que é algo que remete ao âmbito da atriz, da atuação, do adolescente que está testando personas. E que nesse processo a jovem vai errando. Somos assim, somos errantes. A gente adere a personas e vai testando as consequências dessas personas. E acho que a grande mensagem positiva, entre aspas, desse filme é essa possibilidade de nós, enquanto seres falíveis, enquanto seres imperfeitos, enquanto seres que fazem cagadas, de recomeçarem.
Não apagando, porque há algo que é inapagável – no sentido de que a audição dela não vai voltar, ela vai sempre viver com as consequências desse passado e desse tiro que explodiu o próprio tímpano. Não se trata de apagar esse passado, mas se trata de seguir em frente e de performar de outra forma, de mudar de personagem, de descartar uma máscara e assumir uma outra, e não no sentido de uma hipocrisia, mas uma performatividade que não impede um bom grau de autenticidade.
Então esse é um aspecto um pouco misterioso, um aspecto um pouco paradoxal que esse filme parece que revela. E eu quero terminar esse vídeo tentando explicar essa ideia com uma comparação entre duas personagens. Nesse jogo da verdade que eu me referi, que é a cena-chave do filme, existe aquela outra personagem que relata uma outra história onde ela teria prendido uma pessoa com deficiência dentro de um armário e teria corrido, não avisou ninguém; de fato ela fez alguma coisa, ela cometeu um ato que poderia ter tido um desfecho inclusive fatal. Essa pessoa que ficou presa ali poderia ter morrido de inanição sem ser encontrada por vários dias, a despeito dos seus gritos. E essa personagem que cometeu esse ato, ela julga que tê-lo cometido é muito mais perdoável do que a outra ter intencionado ou ter planejado um mass shooting.
Então, eu acho que tem um debate ético, inclusive jurídico e psicológico também interessante aí. Porque numa perspectiva um pouco mais realista a respeito dos seres humanos e dos sujeitos que somos, não existem anjos, não existem nem mesmo pessoas do bem, como se diz na concepção maniqueísta. Eu acho que todas as pessoas têm potencialidades para fazer coisas de muito benefício e de muito dano. Podem fazer coisas que produzem catástrofes e podem fazer coisas maravilhosamente generosas, e podem também estar no meio do caminho entre virtudes e vícios e serem nem virtuosas nem viciosas, serem absolutamente banais.

Ou seja, partindo de uma concepção não maniqueísta dos sujeitos humanos, me parece que essa personagem da Zendaya, essa Emma, ela de certo modo conquista um pouco a nossa empatia com a sua falibilidade humana, com a sua capacidade também de revelar isso aos outros. Naquele momento, tudo bem, o vinho subiu à cabeça e tal, mas ela é sincera em revelar o seu lado menos nobre, o seu lado mais assustador, o seu lado mais chocante. E ela traz isso à tona, ela põe isso em público. E isso de certo modo é uma sinceridade radical. E que coloca para ele, coloca para o Charlie, um grande desafio.
E aí tem uma certa cena onde, de modo muito rápido, ele está refletindo sobre o que é o amor verdadeiro. E ele fala uma frase que me marcou, que me impactou. Ela é dita muito en passant, mas ele fala: “True love is radical acceptance.” O amor verdadeiro é aceitação radical. E eu acho que é pra aí que o filme está conduzindo, digamos, esse seu final quase happy end, né? Essa moral da história quase redentora, onde eles, depois dessa catástrofe toda do casório, se encontram ali naquela lanchonete de madrugada, ambos fodidos e alquebrados, e eles falam assim: “Bom, pelo menos as máscaras caíram. Pelo menos a hipocrisia ruiu. E pelo menos a gente acabou de se casar e todas as falsidades estão estilhaçadas.”
E aí ela é muito sagaz ao trazer à tona esse, well, let’s start over. Vamos começar outra vez. Vamos performar outros personagens. Vamos vestir outras máscaras. Vamos brincar com outros enredos. Vamos nos pensar como pessoas que não são reféns daquilo que fizeram no passado, e vamos pensar as pessoas que fomos no passado como vestindo máscaras que podem ser retiradas, que podem ser jogadas ao fogo, que podem ser transcendidas.
Então é isso: um filmaço. Gostei muito de O Drama e em breve, assim que eu elaborar melhor essas ideias que eu trouxe aqui como primeiras impressões – acabei de assistir o filme, eu e a Gi no Cine Cultura na noite de hoje, quis deixar algumas impressões quentes logo depois de sair da sala de cinema – mas assim que eu puder elaborar melhor essas ideias, ler um pouco do que está sendo escrito sobre o filme, eu pretendo voltar com a segunda parte desse vídeo comentando as ideias do Franco Bifo Berardi sobre Tiros em Columbine do Michael Moore, sobre Elefante do Gus Van Sant, e também quero comentar algo sobre Euphoria, que está agora com a sua terceira temporada em cartaz nas plataformas de streaming, uma das grandes séries do século XXI estrelada pela Zendaya. Vou voltar então a falar sobre esse tema. E é isso, recomendo esse filmaço do cineasta norueguês K. Borgli e também recomendo muito o filme anterior desse cineasta, Sick of Myself (Doente de Mim Mesma). É isso, obrigado a todos que assistiram mais um episódio do KinoKritik do Carli aqui da Casa de Vidro.
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Publicado em: 07/06/26
De autoria: casadevidro247
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