A 9ª SINFONIA DE BEETHOVEN (1770 – 1827) – Da Inefável Graça da Música (Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro)

Tanto já se falou e escreveu sobre a Nona Sinfonia de Beethoven a ponto de parecer tarefa condenada à irrelevância ou à redundância tentar traçar algumas novas linhas sobre essa realização colossal. O que dizer sobre o indizível?!? Eis uma peça musical já tratada em toneladas de textos e palestras, alvos de inumeráveis apreciações bem mais eruditas e bem-informadas do que eu jamais saberia escrever. Mas algo me compele ao esforço de expressar, ainda sob o impacto recente sobre meus sentidos deste tornado, desta estarrecedora obra de um genial orquestrador-dos-ventos. Algo me empurra a repetir o que todos estão carecas de saber: que esta é uma das obras-primas da história da música e uma das manifestações supremas do Gênio Humano através de nossa História. O tipo de magnum opus que nos deixa tagarelando este tipo de hipérboles dos altos cumes de nossa paixão incendiada.

Nona é tão carregada de belezas que a língua não sabe articular que pode servir de paradigma para explicar o que quer dizer aquela palavrinha escondida no fundo dos dicionários: inefável. Os encantos mil da obra-prima de Beethoven estão entre aquelas catedrais-de-sons dotadas de tamanha Graça e Beleza que não podem ser expressas verbalmente a contento. A palavra, ferramenta humana necessária mas limitada, parece pálida e fraca diante da chama incendiária da Música, linguagem universal capaz de afetar a sensibilidade humana em quaisquer latitudes do planeta.

Recentemente pude estar de tímpanos bem abertos para duas performances magistrais de Beethoven em Goiânia: primeiro, a Quinta Sinfonia, com a Filarmônica, no concerto de abertura para o show com Lenine no Centro Cultural Oscar Niemeyer; depois, a Nona apresentada pela Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, no Teatro Escola Basileu França, em 11 de Outubro. Nas duas ocasiões, os teatros estavam lotados e, nem é preciso dizer, a aclamação ao fim foi estrondosa, com um escarcéu de palmas, gritos, urros e “bravos!” instaurando uma linda anarquia da alegria e da gratidão.

Fico pensando no velho Ludwig Van, já no fim de sua estadia entre os vivos, com a surdez avançando impiedosamente sobre sua audição, compondo algo que ele mesmo nunca iria ouvir de fato. Nas primeiras performances da Nona, ele deve ter recebido em seu corpo a onda de aclamação de modo bem diferente de nós hoje em dia: Beethoven, surdo, incapaz de ouvir em toda a sua potência a aclamação das platéias diante de seu último rebento sinfônico, ainda assim deve ter sentido em seu corpo, em sua consciência, em sua sensibilidade, as pessoas a produzirem sinais visíveis e sensíveis de que foram profundamente tocadas por aquela inefável criação do engenho humano.

É uma música capaz de instigar uma certa filantropia, um certo apreço pela humanidade, quase que um orgulho por pertencer à raça humana, servindo de antídoto contra as marés montantes de misantropia e pessimismo que temos todo o direito de sentir na era do Antropoceno e da Sexta Extinção em Massa na história da vida neste planeta (a primeira, como diz Elizabeth Kolbert, causada por uma espécie, o homo sapiens, que hoje transformou-se não só em força geológica, mas em cataclismo planetário…). Beethoven e sua Nona até permitem que a gente pense por alguns minutos que a estadia humana nesta esfera que roda em torno do Sol não foi totalmente em vão.

É uma daquelas coisas que nos faz eventualmente discordar daquele pessimismo tão sedutor que Shakespeare expressa em Macbeth e fala da vida como a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing. Depois da Nona, sentimos que ao menos algumas doses de Sentido foram injetados no mundo e que, para além do som e da fúria, há uma beleza capaz de nos fazer acreditar que todo sofrimento, ainda que não seja redimido, gera frutos dignos de toda nossa celebração.

Poderíamos usar a Nona, no eventual contato com civilizações alienígenas, para provar a estas que somos seres orgânicos capazes de algumas grandes realizações. O problema com este pensamento sci-fi um tanto surreal é que muito provavelmente os ETs teriam ouvidos e tímpanos bem diferentes dos nossos e talvez, ao contato com Beethoven, Schubert, Wagner, Beatles etc. talvez sentissem penas cócegas em seu aparelho auditivo. Ou pior: sentiriam uma ofensa semelhante à que motosserras e britadeiras produzem na sensibilidade de um ser humano. A música é humana, demasiado humana! Tanto que a nossa cadelinha Crackinha, notável Schnauzer de ancestrais alemães, não consegue encontrar graça nenhuma na música de Beethoven tocando no talo…

A Ode à Alegria, musicada por Beethoven a partir de um poema de Schiller escrito em 1785, faz sua entrada triunfal no 4º movimento da Nona e é uma daquelas ocasiões onde a Voz humana alça-se a suas mais incríveis alturas. Ouvir dúzias de vozes entoando em coro esta poderosa melodia, de ritmicidade contagiosa, leva-nos aos cumes da admiração pelas potencialidades da humanidade. Não duvido nem um pouco da capacidade humana para a estupidez mais tacanha, para as ações mais cegas e auto-destrutivas, para os massacres e guerras mais brutais, mas algo como a Nona revela o outro lado desta moeda, descortinando todo o sublime e toda a inefável e inesgotável beleza que é capaz de surgir da colaboração e da criatividade conjunta dos humanos. Ainda que a gente não entenda bulhufas de alemão, o canto nos toca e nos comove nas profundezas da carne. As vozes em uníssono fazem-se como uma força coletiva que irrompe coração adentro para despertá-lo do torpor, para varrer dali as teias de aranha, para tentar irradiar por ali o sol cálido da alegria de viver.

Transformada em hino oficial da União Européia, a Ode À Alegria de Beethoven foi alçada a outro patamar como “símbolo civilizatório” do Velho Continente. Os europeus fazem desta obra uma espécie de certificado de sua excelência – e não faltam, é claro, aqueles que, vítimas do velho eurocentrismo, a utilizam como prova da superioridade européia sobre todos os outros continentes deste triste planeta.

Jamais superaremos o estarrecimento, porém, diante da Alemanha, este país de tantos gênios artísticos, a pátria de Goethes e Schillers, de Beethovens e Heines, que pôde cair tão fundo no abismo da barbárie genocida sob o comando do Partido Nazista. Um povo supostamente tão culto e civilizado pôde cair sob o encanto fatal de uma ideologia racista, totalitária, praticante de extermínios em massa, e isso com a cumplicidade e mesmo a aprovação de boa parte da população alemã. O mais assustador do conceito de Banalidade de Mal formulado por Hannah Arendt está em revelar que toda a engenhoca horrenda da Solução Final não poderia ter trucidado tantos milhões de vida sem o auxílio da gente simples, dos reles funcionários, dos obedientes cordeiros do Estado que trabalhavam para que os trens saíssem no horário e com as cargas devidas (ainda que seus destinos fossem campos de concentração e câmaras de gás).

É um dos elementos mais interessantes do uso de Beethoven por Stanley Kubrick em Laranja Mecânica (1971): no filme, baseado no brilhante romance de Anthony Burgess, A Clockwork Orange, nada impede que o protagonista Alex, entusiasta de Beethoven, seja o líder de uma gangue de malfeitores que pratica inúmeras atrocidades. Há uma cena onde Alex e sua trupe, tomando seu leitinho no Korova, testemunham uma cantora entoando o Hino à Alegria. Alex, o delinquente cínico, agride um de seus companheiros que ousa zombar daquela música; diante de Beethoven, ele exige solene reverência.

 

Slavoj Zizek tem interessantes reflexões a fazer sobre o uso ideológico da Nona de Beethoven pela União Européia. Zizek diz que a Ode à Alegria, à primeira vista, é lida como uma celebração da fraternidade humana, da união de todos os povos. De fato, Schiller e Beethoven tingiram esta obra com altas doses de Romantismo e Idealização, sendo que a obra culmina em versos que falam sobre um Criador que mora por cima das estrelas e a quem o hino é dedicado. Segundo Zizek, o que é estarrecedor na obra é o quanto ela pode ser cooptada por movimentos políticos diametralmente opostos:

“Na Alemanha nazista, foi amplamente utilizada para celebrar grandes eventos públicos. Já na União Soviética, Beethoven era adorado e a Ode à Alegria era tocada quase como uma canção comunista. Na China, durante a grande Revolução Cultural, quando quase toda a música ocidental estava proibida, a Nona Sinfonia foi aprovada e permitida pelo regime por ser uma peça de música burguesa progressista. (…) Já o Presidente Gonzalo, líder do Sendero Luminoso, uma guerrilha de extrema esquerda do Peru, quando foi perguntado por um jornalista qual era sua música predileta, respondeu que era a Nona Sinfonia e sua Ode à Alegria.”

Zizek tira daí a seguinte lição sobre a ideologia veiculada pela Nona: ela pode até, da boca pra fora, em seu sentido mais explícito, pregar a unidade da raça humana, a fraternidade universal, a Brotherhood of Man sobre a qual cantará Lennon em “Imagine”. Mas sempre devemos nos questionar se, para além da mensagem idealizada, se a música, em seus usos sociais, não põe em ação um mecanismo de exclusão de vastos contingentes da população humana sobre a face da terra, aqueles sem acesso a bens culturais como esses, muito menos à formação artística que capacitaria a compreendê-los. Celebrar Beethoven pode virar uma tática elitista de certos grupos celebrarem seu próprio “bom gosto”, o primor estético de suas escolhas artísticas, sentindo-se assim superiores às massas incultas que chafurdam no kitsch da cultura de massas. Celebrar Beethoven pode virar uma espécie de “certificado de detentor de capital cultural” – e é com arrogância que Alex, em Laranja Mecânica, circula pela loja de discos, na pose de um dândi inglês que se sente totalmente superior à riff-raff, à ralé.

Não é que Beethoven seja de fato um ideólogo servindo às classes dominantes, apesar de ser cooptado, às vezes, para fins alheios às suas intenções originais. Para Zizek, Beethoven, nesta obra, não é o ingênuo celebrador da humanidade como Grande Família Feliz, como sua apropriação kitsch quer fazer supor, mas sim o gênio que lança em distúrbio todas as ideologias ortodoxas, que cria uma obra que não é encaixável em nenhuma caixinha previamente formulada, que em sua inefabilidade acaba por propiciar um tipo de experiência capaz de causar o naufrágio das ideologias oficiais no oceano tempestuoso dos afetos que mobiliza. A Nona Sinfonia é o tipo de rebento criativo de um gênio não-domesticado, jamais servil a interesses de Estados ou Mercados, um compositor quase-surdo que realiza um espantoso palácio de som, mais estrondoso para os tímpanos que muitas tempestades, mais encantador para a sensibilidade que a mítica lira de Orfeu, e visceralmente arredio a qualquer jaula ideológica em que possamos querer encarcerá-lo.

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – 12/10/2017

 

ODE À ALEGRIA – Schiller (Trecho)

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!

Alegria, mais belo fulgor divino
Filha de Elíseo
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave

A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma
Uma única em todo o mundo
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza
Todos os bons, todos os maus
Seguem seu rastro de rosas
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóbada celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória

Alegria, mais belo fulgor divino
Filha de Elíseo
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóbada estrelada
Deve morar o Pai Amado
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóbada estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.

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A FILOSOFIA, O TEATRO E A REVOLUÇÃO: Ensaios para uma Reunião (por Eduardo Carli de Moraes em A Casa de Vidro)

Teatro do Oprimido Em Ação! (1975)

Augusto Boal gostava de dizer que “nada é, tudo está sendo”, como relembra seu filho Julián no posfácio do livro Teatro do Oprimido: “talvez porque tinha o espírito de um dialético, por demais consciente dos processos que transformam constantemente o mundo, meu pai jamais elaborou uma definição globalizante do Oprimido, do Opressor ou da Opressão. Estas palavras não podem ser reduzidas a uma visão maniqueísta do mundo. Um trabalhador oprimido pela exploração capitalista pode ser também um marido opressor que bate na mulher.” (JULIÁN BOAL, p. 214, 215)

O Teatro do Oprimido, de maneira análoga à Pedagogia de Paulo Freire, concebe a realidade como algo dinâmico, em perene devir, o que implica que ninguém é opressor ou oprimido – está sendo. É tarefa tanto da arte quanto da educação contribuir com o advento de uma sociedade sem opressão, utopia que pulsa no seio daquilo que Boal gostava de chamar de Poética do Oprimido e que “propõe a própria ação” – o teatro como ensaio da revolução:

“O que a Poética do Oprimido propõe é a própria ação! O espectador não delega poderes ao personagem para que atue nem para que pense em seu lugar, ao contrário, ele mesmo assume um papel protagônico, transforma a ação dramática inicialmente proposta, ensaia soluções possíveis, debate projetos modificadores: em resumo, o espectador ensaia, preparando-se para a ação real. Por isso, eu creio que o teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente por ser um excelente ensaio da revolução…” (AUGUSTO BOAL, Teatro do Oprimido, pg. 124)


Boal, na esteira de figuras como Bertolt Brecht e Paulo Freire, idealizou e concretizou uma prática social, essencialmente coletiva e inter-relacional, onde o teatro, a revolução e a filosofia dão-se as mãos, em congregação, em reunião, somando suas forças, reconhecendo seus vínculos, sintetizando-se em algo que as transcende. Nasce um teatro-filosófico-revolucionário, arte que é práxis transformadora, força coletiva que serva para debater nossa situação concreta em vários contextos sócio-históricos, testando possíveis soluções para conflitos reais. A Estética do Oprimido deseja ser eficaz força concreta que se insere no devir do mundo para buscar nele agir como força crítico-construtiva, transformadora, des-opressora.

Um exemplo concreto pode ser eloquente: no Peru, um trabalhador de um porto pesqueiro relata seus terríveis sofrimentos, pois “tinha um patrão terrivelmente explorador, que obrigava os operários a trabalhar das 8 horas da manhã às 8 da noite… 12 horas de trabalho contínuo. Todos pensavam  em lutar contra essa exploração desumana.” (p. 145)

Trata-se de um problema concreto, vivido por seres humanos de carne-e-osso, que penam, que suam, que choram, que sofrem: é a humilhação, a ofensa, sentida na pele. O teatro, como ensaio da revolução, como ferramenta para um debate filosófico sobre a ação humana, intervêm aí servindo como arena para que várias opções de comportamento sejam avaliadas. Alguns propõe “atirar uma bomba e incendiar a fábrica”; outros, acham preferível uma greve; outros ainda, sustentam que o melhor de fato é fundar um sindicato. Como decidir?

A democracia simples – votar e deixar a maioria decidir – possui muitas falhas caso antes da votação não se exercitar uma deliberação, uma conscientização, um esforço conjunto de compreensão, que sopese as consequências possíveis e desejáveis de cada curso de ação. Daí a importância, não apenas política, mas filosófica também, do teatro como arena de debate público. Qualquer ágora fica manca e capenga sem que haja nela teatro e filosofia.

O “teatro-debate”, também conhecido como “teatro-fórum”, como sublinha Boal, “não tem a finalidade de mostrar o caminho correto… mas sim a de oferecer os meios para que todos os caminhos sejam estudados. Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas essas formas teatrais são certamente um ensaio da revolução. A verdade é que o espectador-ator pratica um ato real, mesmo que o faça na ficção de uma cena teatral. Enquanto ensaia jogar uma bomba no espaço cênico, está concretamente ensaiando como se joga uma bomba; quando tenta organizar uma greve, está concretamente organizando uma greve. Dentro dos seus termos fictícios, a experiência é concreta.

Aqui não se produz de nenhuma maneira o efeito catártico. Estamos acostumados a peças em que os personagens fazem a revolução no palco, e os espectadores se sentem revolucionários triunfadores, sentados nas suas poltronas, e assim purgam seu ímpeto revolucionário: para que fazer a revolução na realidade, se já a fizemos no teatro? Mas isso não acontece neste caso: o ‘ensaio’ estimula a praticar o ato na realidade. O teatro-debate e essas outras formas de teatro popular, em vez de tirar algo do espectador, pelo contrário, infundem no espectador o desejo de praticar na realidade o ato ensaiado no teatro. A prática dessas formas teatrais cria uma espécie de insatisfação que necessita complementar-se através da ação real.”  (p. 147)

O ser humano, que segundo Jean-Paul Sartre está “condenado à liberdade”, segundo Boal está condenado à criatividade. E criativíssimo Boal foi, inventando e re-inventando o teatro, que ia buscar inspiração nos jornais, prenunciando a Imprensa Cantada de Tom Zé, nos sindicatos e greves da classe proletária em movimentação (tema do clássico Eles Não Usam Black Tie, de Guarnieri), praticando até mesmo o teatro invisível, aquele que transborda para fora do teatro, esparrama-se pela cidade, ganhando praças, escolas, parlamentos, penitenciárias…

A ousadia de figuras Boal ensina-nos que a arte não pode se resignar a espaços estreitos e fechados, precisa sair em aventura e respirar em ar livre, indo em busca de seus públicos por aí, principalmente entre aqueles que não conseguem pagar os caros ingressos do teatro burguês. Aqueles que menos podem pagar os ingressos para entrar no teatro são aqueles que, no fundo, mais precisam do Teatro do Oprimido, que oferta-se como um arma de libertação a serviço da tarefa interminável da des-opressão, da criação de alguns dos “muitos mundos possíveis” (outra expressão de Boal).

Não sejamos, porém, reducionistas. Tomar partido não significa reduzir o mundo a um combate épico entre mocinhos e bandidos, heróis e vilões. Boal não quer enxergar o mundo em preto-e-branco, mas sim quer que enxerguemos todo o arco-íris do desejo, the rainbow of desire. Nem oprimidos, nem opressores, podem ser confundidos com anjos e demônios; “quase não existem em estado puro, nem uns nem outros” (p. 21).

Cada um de nós, se tiver a coragem da autocrítica, pode descobrir dentro de si tanto o oprimido quanto o opressor – e, na fábrica, Fulano pode ser humilhado pelo patrão, oprimido que vai calando sua revolta, para depois em casa tornar-se o tirano dos filhos, autoritário ou espancador… Nem arcanjos nem bestas-feras, os seres humanos não são nada de uma vez para sempre, não estão fixados nem congelados em um estado imutável, mas fluem e transformam-se, o que coloca os imobilistas, na sociedade, necessariamente do lado do erro, do engano, da defesa do impossível.

“Não podemos conceder perdão e oferecer nossa amizade a quem escolheu o proveito próprio às custas da infelicidade dos outros, e decidiu gozar a própria vida ao custo da morte alheia. Aqueles que querem a todos perdoar, ‘ver os dois lados da questão’ ou ‘ver a questão de todos os lados’, aqueles que tentam justificar as razões dos opressores, são os imobilistas do mundo. Se fosse verdade que todos têm razão, e que todas as razões se equivalem, seria melhor que o mundo ficasse do jeito que está. Nós, do Teatro do Oprimido, ao contrário, queremos transformá-lo, queremos que mude sempre em direção a uma sociedade sem opressão. É isto que significa humanizar a humanidade: queremos que o ‘homem deixe de ser o lobo do homem’, como dizia um poeta.

Sabemos que todas as sociedades se movem através de estruturas conflitantes: como poderíamos nós, então, assumir uma virginal posição isenta diante de conflitos dos quais, queiramos ou não, fazemos parte? Seremos sempre aliados dos oprimidos… ou cúmplices dos opressores. Fazer Teatro do Oprimido já é o resultado de uma escolha ética, já significa tomar o partido dos oprimidos. (…) Em um confronto entre David e Golias, a neutralidade significa tomar o partido do opressor, o gigante Golias; se quisermos tomar o partido do oprimido David, temos que ajudá-lo a encontrar as pedras…” (AUGUSTO BOAL, Oprimidos e Opressores, p. 22-23)

Nem o Teatro nem a Pedagogia do Oprimido, nem Boal nem Paulo Freire, aceitam a legitimidade de uma suposta neutralidade, de uma “isenção virginal” típica daqueles que não querem tomar partido. No mesmo espírito, disse Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, muito citado em manifestações e ocupações mundo afora, “se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor”.

Encontraríamos facilmente inúmeras formulações semelhantes na obra de Florestan Fernandes, de Marx e Engels, de Franz Fanon, de Brecht, de Malcolm X, de Angela Davis… É nesta companhia que devemos situar Boal e sua convicta afirmação de que “temos a obrigação cidadã de nos colocarmos ao lado dos humilhados e ofendidos” (p. 25). O Teatro do Oprimido é, pois, “teatro de luta”: “DOS oprimidos, PARA os oprimidos, SOBRE os oprimidos e PELOS oprimidos”, como brada Boal em letras garrafais (p. 26).

Boal deseja contribuir para a emergência e a disseminação de uma poética política que rompe, de modo revolucionário, com vários dos dogmas reinantes na história do teatro, a começar pelo “sistema trágico coercitivo de Aristóteles” (p. 29 a 68). Após uma análise crítica da teoria estética aristotélica, em que destacam-se os conceitos de catarse harmatia, Boal conclui que

“esse sistema funciona para diminuir, aplacar e eliminar tudo que possa romper o equilíbrio social; tudo, inclusive os impulsos revolucionários, transformadores. Aristóteles formulou um poderosíssimo sistema purgatório, cuja finalidade é eliminar tudo que não seja comumente aceito, legalmente aceito, inclusive a revolução, antes de que aconteça… O seu Sistema aparece dissimulado na TV, no cinema, nos circos e nos teatros. Trata-se de frear o indivíduo, de adaptá-lo ao que preexiste… Se, pelo contrário, queremos estimular o espectador a que transforme sua sociedade, se queremos estimulá-lo a fazer a revolução, nesse caso teremos que buscar outra Poética.” (p. 68)

Em política, Boal afirma a necessidade de optar por uma aliança com os oprimidos, já que a outra alternativa é a cumplicidade com os opressores; em filosofia, assume posição nas trincheiras ao lado do materialismo de Marx e não do idealismo de Hegel; já em estética, ele também escolhe sua companhia: muito mais a de Brecht que a de Aristóteles.

“A Poética marxista de Brecht afirma que o personagem não é sujeito absoluto e sim objeto de forças econômicas ou sociais, às quais responde e em virtude das quais atua. (…) Se, por um lado, para a Poética idealista, o pensamento condiciona o ser social, por outro lado, para a Poética marxista, o ser social condiciona o pensamento social. Para Hegel, o espírito cria a ação dramática; para Brecht, a relação social do personagem cria a ação dramática. (…) Para Brecht, não existe ‘natureza humana’ e, portanto, ninguém é o que é porque sim! É necessário buscar as causas que fazem com que cada um seja o que é. ” (p. 105-107)

“O que afirma Brecht é que, nas peças idealistas, a emoção atua por si mesma, produzindo o que ele chama de orgias emocionais, enquanto as Poéticas materialistas, cujo objetivo não é tão somente o de interpretar o mundo mas também o de transformá-lo e tornar esta terra finalmente habitável, têm a obrigação de mostrar como pode este mundo ser transformado. Uma boa empatia não impede a compreensão e, pelo contrário, necessita da compreensão… O que faz Brecht, fundamentalmente, é colocar a ênfase na compreensão (enlightnenment), na dianoia. Em nenhum momento Brecht fala contra a emoção, ainda que fale sempre contra a orgia emocional… 

Como não vai o espectador emocionar-se com a Mãe Coragem que perde os seus filhos, um a um, na guerra? É inevitável que nos emocionemos todos até às lágrimas. Mas deve-se combater sempre a emoção causada pela ignorância: que ninguém chore a fatalidade que levou os filhos da Mãe Coragem, mas sim que se chore de raiva contra o comércio da guerra, porque é esse comércio que rouba os filhos à Mãe Coragem… Já a peça Os Fuzis da Senhora Carrar produz uma profunda emoção de ódio contra Franco e seus sequazes… É necessário insistir: o que Brecht não quer é que os espectadores continuem pendurando o cérebro junto com o chapéu, antes de entrarem no teatro, como o fazem os espectadores burgueses.

Brecht era marxista: por isso, para ele, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, em equilíbrio. Deve, pelo contrário, mostrar por que caminhos se desequilibra a sociedade, para onde caminha e como apressar sua transição. Num estudo sobre teatro popular, Brecht afirma que o artista popular deve abandonar as salas centrais e dirigir-se aos bairros, deve mostrar suas imagens da vida social aos operários, que estão verdadeiramente interessados em transformar essa vida social, já que são suas vítimas. Um teatro que pretende transformar os transformadores da sociedade não pode terminar em repouso, não pode restabelecer o equilíbrio. A polícia burguesa tenta restabelecer o equilíbrio, impor o repouso: o artista marxista, ao contrário, deve propor o movimento em direção à liberação nacional e à liberação das classes oprimidas pelo capital… Brecht expõe contradições e propõe transformações. (…) Deseja que o espetáculo teatral seja o início da ação, o equilíbrio deve ser buscado transformando-se a sociedade e não purgando o indivíduo dos seus justos reclamos e de suas necessidades.” (p. 112-113)

Tanto na vida quanto na arte, Boal execra a passividade do espectador. “Sim, esta é, sem dúvida, a conclusão: espectador, que palavra feia! O espectador, ser passivo, é menos que um homem e é necessário reumanizá-lo, restituir-lhe sua capacidade de ação em toda sua plenitude… Todas essas experiências de teatro popular perseguem o mesmo objetivo: a libertação do espectador, sobre quem o teatro se habituou a impor visões acabadas de mundo. E considerando que quem faz teatro, em geral, são pessoas direta ou indiretamente ligadas às classes dominantes, é lógico que essas imagens acabadas sejam as imagens da classe dominante. O espectador do teatro popular (o povo) não pode continuar sendo vítima passiva dessas imagens.” (p. 163)

Na conclusão de Poética do Oprimido, escrito em seu exílio argentino, em Buenos Aires, no ano de 1973, Augusto Boal re-manifesta sua fidelidade para com Brecht, porém propõe ir além da Conscientização, propondo como télos último, objetivo supremo, a Liberação. “A poética de Brecht é a Poética da Conscientização: o mundo se revela transformável e a transformação começa no teatro mesmo, pois o espectador já não delega poderes ao personagem para que pense em seu lugar, embora continue delegando-lhe poderes para que atue em seu lugar. A experiência é reveladora ao nível da consciência, mas não globalmente ao nível da ação. A ação dramática esclarece a ação real. O espetáculo é uma preparação para a ação.

A poética do Oprimido é essencialmente uma Poética da Liberação: o espectador já não delega poderes aos personagens nem para que pensem nem para que atuem em seu lugar. O espectador se libera: pensa e age por si mesmo. Teatro é ação! Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas não tenham dúvidas: é um ensaio da revolução!” (p. 163)

Este estímulo para ação transformadora-revolucionária que o Teatro do Oprimido busca fornecer ao espectador-que-devem-ator tem, como é evidente, muita fraternidade e comunhão com a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. Ambos têm norteado minha prática na sala-de-aula em que, como jovem professor sem afeição por dogmas e que experimenta inventar um caminho enquanto segue seus instintos e seus fascínios de caminhante. Pois a sala-de-aula não só pode, como deve tornar-se palco para uma arte coletiva onde esses elementos, artificialmente mantidos separados, possam reunir-se: teatro, filosofia e revolução, afinal de contas, têm tudo a ver. Diálogo, debate, dialética – este DDD está no DNA destes três elementos, essencialmente inter-relacionais, devotados à construção de convívios mais humanizados e mais sábios.

Em sua autobiografia, Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas, Boal soube criar pontes entre o teatro e a filosofia de modo explícito em certos trechos, como no capítulo “A Pobreza”, onde presta homenagem conjunta a Stanislavski e a Sócrates: “O estudo de Stanislavski foi pedra fundamental na minha carreira. Foi ele que sistematizou um método que ajuda o ator a buscar, em si, ideias e emoções atribuídas aos personagens. Nesse sentido, uma das principais funções do diretor é ser maiêutico, como Sócrates no seu processo de filosofar – o filósofo é a parteira que faz o aluno descobrir o que já sabe, sem saber que o sabe, através de perguntas que provocam a reflexão, abrindo caminho para a descoberta. Assim deve ser o diretor teatral: ajuda o ator a parir personagens.” (p. 161)

Poderíamos aproveitar para propor que, assim como Stanislavski ensina o ator a parir personagens e Sócrates ajuda seu interlocutor a parir verdades, Boal e seu Teatro do Oprimido propõe uma maiêutica artística, reunião e congregação de teatro, filosofia, política transformadora (revolução). Augusto Boal ensinou-nos como ninguém que a arte pode ser aliada e arma nas nossas lutas de libertação, que o teatro é uma parteira de revoluções, que o artista digno deste nome é alguém que acata sua condenação à criatividade e, num laboratório imenso, no Theatrum Mundi, está constantemente engajado no parto de outros mundos possíveis. De preferência, mundos mais libertos da opressão do que este em que  vivemos – não como espectadores de um espetáculo que nos é externo, mas como co-agentes e co-partícipes de uma trama comum.

por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Junho de 2017

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Cosac Naify, 2013, 224 pgs.  
————. Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas. Cosac Naify, 2014, 416 pgs.  


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Augusto Boal e o Teatro do Oprimido – Um documentário de Zelito Viana (2010)
Resenha por Amanda AouadDownload torrent

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Arena conta Zumbi (1968) – Álbum Completo

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AUGUSTO BOAL [1931 – 2009], “Estética do Oprimido”
Acesse e/ou baixe o ebook completo: http://bit.ly/2siGu5b ou http://bit.ly/2rvg8iz
(256 pgs, 2009, Ed. Garamond, MinC e Funarte, PDF, 1.4 MB)

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O SÉCULO DE STANISLAVSKY (DOCUMENTÁRIO FRANCÊS)

“Chegamos ao X da questão: por que, quando crescemos, deixamos de indagar? Por que nos acomodamos às explicações que nos são oferecidas e nos incomodamos com quem insiste em tentar nos retirar dessa situação?” – Marta Vitória Alencar

Perguntas

“Tenho tantas perguntas para suas respostas…”

POR QUÊ?
Por Marta Vitória de Alencar

Por volta dos 4 anos de idade, a criança começa a bombardear os pais com perguntas sobre as coisas. Elas querem saber o que é, como é e por que é. Apropriam-se do entorno e são tomadas de admiração que as move no sentido de questionar.

Perguntam por que chove, o que é o Sol, o que é a Lua, por que há dia e há noite, como ela e o irmãozinho nasceram e por que os bichinhos morrem.

Fazem perguntas que a humanidade um dia já fez e num primeiro momento foram respondidas simbólica e magicamente, à moda da história da cegonha.

A criança aceita essas respostas durante certo tempo. Mas, uma vez que sua razão se desenvolve, ela encontra uma maneira de levar adiante seus questionamentos e volta a perguntar: por quê?

Persiste nela uma inquietude – nem tudo faz sentido, ela percebe que há erros de conexão nas explicações e suas perguntas permanecem à espera de uma resposta satisfatória. Esse tipo de postura diante do que nos é dado é o que chamamos de atitude filosófica: ser tomado pelo pasmo, pelo sentimento de espanto e a partir dele indagar.

E chegamos ao xis da questão: por que, quando crescemos, deixamos de indagar? Por que nos acomodamos às explicações que nos são oferecidas e nos incomodamos com quem insiste em nos tirar dessa situação? Temos aqui uma questão filosófica.

Nossa vida está repleta de filosofia, colocando-nos questões existenciais, íntimas e outras que se referem à nossa relação com os outros – meu amigo, meu inimigo, a natureza, o universo e até mesmo deus.

PENSAMENTO E MÉTODO

De tanto se perguntar, o homem inventou a filosofia, tomou consciência de si e de sua capacidade de refletir sobre tudo que o cerca. O passo seguinte foi questionar sobre o próprio pensamento e sobre a melhor forma de realizar tal questionamento. Assim, a filosofia ganhou corpo, organizou-se, sistematizou-se, desenvolveu técnicas discursivas, métodos de investigação, tornou-se especulação, análise, reflexão e crítica.

Abriu as portas para o surgimento de todas as ciências e permanece junto a elas como um espírito que anima um corpo. Ela é aquela pergunta que toda criança guarda consigo à espera de uma resposta. É a recusa a uma adesão imediata, é o adiamento de uma resposta para dar lugar ao lançamento de um olhar para além da aparência. Assim, a filosofia são aquelas perguntas provocantes que nos permitem olhar para o mesmo sob outra perspectiva, nos chacoalhando e dizendo: abra os olhos.

A diferença das respostas filosóficas é que, diante de uma dada situação, a filosofia não produzirá uma resposta instantânea, e sim um novo problema. Ao frenesi pós-moderno, quase que agonizante, a filosofia opõe-se com seu paciente questionar. Isso não quer dizer que ela seja puramente contemplativa, mas a atenta observação é a maneira pela qual ela nos permite descobrir um modo particular de entrada no mundo.

Para que a utilidade da filosofia seja percebida, precisamos entender que atribuímos significados a tudo e que conferimos valor a cada uma de nossas experiências. A filosofia é uma das formas pelas quais os homens compreendem de que maneira dão significado às coisas, como articulam e constroem uma realidade, é um modo de se compreender e se colocar no mundo. E sua marca é a maneira crítica como faz isso. Constitui-se como um instrumento de orientação, como uma bússola que indica o lugar aonde se quer chegar.

PAPEL DE FILÓSOFO

Ao longo da história da humanidade, alguns homens têm percebido, com base em suas experiências pessoais e históricas e das contínuas transformações sociais, que não há um ponto final absoluto, uma verdade ou conhecimento absoluto, e que a filosofia é uma forma de pensamento que põe o homem no mundo e o ajuda a se desvendar. Esses homens são os filósofos. Filosofar é estar no mundo, é ser propriamente humano – um ser ativo, pensante, autor consciente das próprias ações e capaz de transformar a própria realidade.

Hoje supervalorizamos a tecnologia e seus produtos. Com os critérios que regem esse universo é que temos definido a utilidade das coisas. Mas essa valoração se dá sem nos questionarmos em que sentido concentramos nossos esforços e qual é a posição do homem diante da técnica. Acreditamos nos benefícios do progresso e, orientando-nos por ele, agimos sem avaliar quem realmente está sendo beneficiado, se existem prejuízos e de que ordem. Alimentamos a ideia de “quanto mais, melhor” e, à medida que esse quanto aumenta, perdemos nossa capacidade de articular a torrente de informações e utensílios que se renovam a cada instante, abandonando aquela nossa genuína pergunta: por quê?

Fica para você pensar se essas questões realmente existem ou se não passam de um falso problema, pois como declarou Kant “não se ensina filosofia, mas ensina-se a filosofar”. E é pelo próprio filosofa que gradativamente vamos compreendendo o que é a filosofia e onde mora sua utilidade. Para os que dizem que a filosofia “é uma ciência com a qual ou sem a qual o mundo permanece tal e qual”, podemos responder que as ciências pragmáticas são o espelho d’água, o senso comum, os respingos, e que nas profundezas das águas movimenta-se a mãe de todas as ciências, a filosofia – aquela que especula e busca os fundamentos para o conhecimento.

Já dizia Shakespeare: “Existe mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.” Assim, a questão é saber quem somos, onde estamos e o que fazemos com isso. Caso contrário, continuaremos a ter vertigem.

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Este artigo foi publicado na revista Discutindo Filosofia, número 2, pg. 39-40. Marta Vitória Alencar é professora de filosofia da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP.

In Praise of Arundhati Roy’s “The God of Small Things” – by Eduardo Carli de Moraes

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“She is one of the great writers and intellectuals of our time. I was thinking about what makes her a really great writer, a really great person, and a really great rebel: someone who listens more than she talks. Someone who goes to find where the silence is, and tries to understand why the silence is there. She is so precious and so rare. Like Charles Dickens, like Charlotte Brontë, like Virginia Woolf, like Victor Hugo, like all those wonderful writers who spoke for the people who had no voice. Arundhati Roy joins a long and proud list of people who care deeply, and who listen deeply, and who then speak fearlessly. This is our salvation, this kind of writer, this kind of person…” – ALICE WALKER , author of Pulitzer-Winning novel The Color Purple (filmed by Steven Spielberg)

I.  A SUNBEAM LENT TO US TOO BRIEFLY

ARUNDHATI ROYTo listen attentively, to care deeply, to speak fearlessly: these are some of the many virtues of our brave sister, Arundhati Roy. Even if she never writes another book of fiction, she already deserves a place in the history of English-language literature: The God Of Small Things, the winner of 1998’s Booker Prize Award, can be easily included in the Olympus of the 20th century’s true masterpieces in the realm of novels.

Her story-telling talents are such that it’s hard not to get hooked on the tale she’s telling so compellingly: The God Of Small Things entrances with its language, seduces withs its humour, and then delivers, apart from a delicious verbal banquet, a blood-soaked tragedy.

She told BBC that she never meant to write a thriller, but her novel is filled with thrills, like a rollercoaster ride through Aymenem, Kerala, India, where Arundhati Roy grew up. Perhaps it’s her own way of embarking on a Proustian recherche du temps perdu. 

Yet this book ain’t a memoir or an auto-biography, but something much more ambitious: an Indian tragedy, set to the background of a nation in turmoil. Bloody messy turmoil. We only need to remember what happened in Gujarat in 2002 – more than 1.000 Muslims butchered and murdered openly in the streets by Hindu fanatics, and more than 150.000 fleeing the scene of the pogroms as refugees – to have a glimpse of the turmoils of India. Its dawned to the 21st century happened on the brink of a nuclear war with Pakistan, while Kashmir was held hostage by India through the biggest military occupation in the word. This is a scary picture of India which Arundathi Roy paints – and it rings so much truer than the demagogues propaganda.

She belongs to a pantheon of writers capable of writing passionately, with words that a sensible reader feels at the same time as he deciphers them. While reading The God Of Small Things, I was frequently aware not only of an intellectual process going on in my head – the whole process of language-deciphering – but of something else, ringing with truthfulness and verve: Arundathi’s words were injected with feeling. These are sentences written to be felt rather than simply understood. In a prose so marvellous that I can only find something similar in writers, which I cherish a lot, such as Anton Tchekov, Katherine Mansfield, Heinrich Heine, Manoel de Barros…

And yet The God of Small Things, so often, seems to focus on banalities, on minute occurrences – for example, the funny description of the twins in their “delight with underwater farting”. Several times, it seems she’s jokingly playing with language like Lewis Carroll or James Joyce did so well. She evokes images – for example: a child being forced to eat spinach – that seem at first sight to be trivial chronicles of day-to-day life. But Arundhati Roy portrays this commonest matter of life as something dynamic, in perpetual motion, and that can undergo sudden changes. As if she is saying that the extraordinary is the most ordinary thing there is, yet not all among us can see it and realize it. The motto, running like an underground stream in her narrative, is this: “things can change in a day”. So we better be prepared.

 When you reach the last page of the book, and you look behind you, remembering the path you’ve traveled together with Arundhati, you can feel the wisdom of every minute detail to the general composition. It reminds me of an interesting piece of literary criticism written  by an excellent Artist-of-the-Word, Cioran:

“No true art without a strong dose of banality. The constant employment of the unaccustomed readily wearies us, nothing being more unendurable than the uniformity of the exceptional.” (CIORAN, The Trouble With Being Born, p. 37)

In other words: a work-of-art doesn’t necessarily need to be an overdose of extraordinary occurrences and events. The common fibre that weaves human life must be used to compose a portrait of human life as it is – and life undeniably includes in its bosom much minute trivialities and minor events without further consequence. Until it comes: the day that changes everything.

The genius of Arundathi Roy’s book lies in her hability to portray how the extraordinary disrupts the web of common life. Thus the leitmotiv in The God of Small Things – “things can change in a day”, which means: your whole life may be suddenly transformed. It may be thrown out of its usual tracks, like a derailed train bound to a blind-date with fate.

After reading this book, I also emerge from it like a diver rising up from the seas, where he saw and witnessed little fish behind devoured by big ones (just like in Radiohead’s song). Life as a frail flame that can be blow off by the wind. Life as quicksand where our feet can never quite stand in firm ground. Life as box-of-surprises (not necessarily gentle ones).

These are some of the feelings about life Arundathi’s novel  may evoke and provoke. When she describes injustices being done against the powerless, her words have the beauty and the courage of similar ones written by Simone Weil or Emma Goldman. It seems to me that Arundathi depicts the destructibility of life as something that’s part of its essence –  mortality is something no mortal can escape from – and yet Arundathi’s voice is far from depressing.

Her words have an up-lifting effect, like an injection of enthusiasm shot right in the veins. It’s a voice filled with such compassion and boldness, and such lucid indignation and witty critique, that listening to her is a delight. Art can be empowering, it can communicate enthusiasm, it can teach a frame of consciousness, and it also certainly can act upon life – like Spinoza taught, it can become something we love because it enhances our vitality, adds vigor to our conatus.

This book may be playful and filled with wit, but ain’t kitsch at all: there’s pedophilia and police brutality and class struggles ending up in bloody mess. There’s scenes to make a punk’s hairdo spike up. There’s enough to make Chuck Norris cry. She extracts beauty from tragedy, from loss, from terrible grief, as if Arundathi was some sort of magic bee capacle of manufacturing sweet honey even from fly-trap plants. From brief sunbeams drowned out too soon.

Elizabeth Bishop’s famous poem says that “the art of losing isn’t hard to master”; Arundhati Roy also paints a poignant portrait of loss, and also points out that even the most precious things can easily be lost (“things can change in a day…”). Like the fateful day in which Sophie Mol tried to cross a river on a little small-boat with her cousins, the twins Rahel and Estha. Touched by tragedy in childhood, the twins learn from life some lessons that are usually reserved for older people. The wisdom that dawns upon them, written in their flesh by death’s killings upon the living, is stated very cleverly by little Estha: “Anything can happen to anyone, so it’s better to be prepared.”

20130628-gramsciThe wisdom of keeping eyes opened to the possibility of the worst, and yet continuing the struggle to act in order to build something better, is something that, it seems to me, is one of the many virtues of Arundhati’s work. Maybe she agrees with Gramsci that we should keep burning two flames, simultaneously: pessimism of the intellect, optimism of the will.

It’s always good news to discover that Humanity still holds among the living some people so wise and so courageous.

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II. HOLES IN THE UNIVERSE

In The God Of Small Things, I kept bumping into some re-occuring events, popping up several times in the narrative: the Holes in the Universe. No: this novelist isn’t venturing into the territories of astrophysics, nor trying to decipher the mystery of supermassive Black Holes. Arundhati Roy uses “holes in the universe” in order to portray the human mind’s experience of death: “Joe was dead now. Killed in a car crash. Dead as a doorknob. A Joe-shaped Hole in the Universe.” (p. 113)

Of course not only death can open these holes in the Universe, subjectively-perceived, and Arundathi knows it well. It’s so brilliant the way she is able to communicate a lot with a single word, when for example she writes “die-vorce”  (p. 124). This is no crass error of misspelling, and this is no mere typo that the publisher’s reviser didn’t detect: this, my friends, is poetry in action. 

Instead of writing the word as the dictionary demands (“divorce”), she subverts official language, and in this process links divorce with death. Both death and divorce – understood not only as the end-of-marriage, but as a sudden separation between affectively bonded humans – have the power to “open” these Holes in The Universe that The God Of Small Things so frequently talks about.

She also uses, with equivalent brilliancy, the witty expression “die-able” (154), to convey the sense of “being able to die”, of being in a state of danger.

The way she deals with Time in her narrative is also quite fascinating, and it works really well: instead of following a straight path in her story-telling, always going forward in linear time, she messes up with our coordinates. Like a brat willing to spread confusion in a world of bureaucrats and stock-market money-junkies, she sets the clocks to different times and steps back to laugh at how confused and lost in Time we really are.

We are short-sighted short-term-beings, who are neither beasts nor prophets. She does not only take us on a ride through India – it’s also a ride through Time. For example: Ammu’s death occurs in the middle of the novel, at page 154 (out of 315), and yet Ammu is present in the very last chapter. She even says the very last word of the book (“Tomorrow”).

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“The church refused to bury Ammu. So Chacko hired a van to transport the body to the electric crematorium. He had her wrapped in a dirty bedsheet and laid out on a stretcher. Rahel thought she looked like a Roman Senator. (…)  It was odd driving through bright, busy streets with a dead Roman Senator on the floor of the van. (…) Outside the vans windows, people, like cut-out paper puppets, went on with their paper-puppet lives. Real life was inside the van. Where real death was.

The crematorium had the same rotten, rundown air of a railway station, except that it was deserted. No trains, no crowds. Nobody except beggars, derelicts and the police-custody dead are cremated there. People who died with nobody to lie at the back of them and talk to them. When Ammu’s turn came, (…) the steel door of the incinerator went up and the muted hum of the eternal fire became a red roaring. The heat lunged out at them like a famished beast. Then Rahel’s Ammu was fed to it. Her hair, her skin, her smile.

20 minutes: that’s how long Chacko and Rahel had to wait for the pink receipt that would entitle them to collect Ammu’s remains. Her ashes. The grit from her bones. The teeth from her smile. The whole of her crammed into a little clay pot. Receipt No. Q 498673.”

(pg. 154-155)

aroyrArundathi paints images of holes in the Universe that emerge and take the place where joy was once intensely present. She portrays beautifully some occurrences that are far from cute – including pedophilia; child-sized coffins; police brutality against people from the lower castes; several acts of violence (both verbal and physical).

As if she was trying to paint a huge mural of a world – ours, the real one – where careless words are legion, and where sometimes death comes to claim life’s yet to be lived, or who had many fruitful years ahead of them. Untimely deaths.

No one should live somewhere where infancy is normally considered as a very “die-able” age. And yet India, may I remind us, has the largest population of undernourished children in the planet. And the emergence of shopping malls and billionaires, of Bollywood movie-stars and triumphant stock markets, ain’t stopping neither the tragedy of massive deaths by famine, of children and adults alike, nor the tragedy of massive suicides of empoverished peasants, which sometimes end up killing themselves by drinking pesticides made by Monsanto…

algebraWithout resembling in any way a political pamphlet, the novel is in fact deeply political. I would strongly recommend to you Arundhati Roy’s books of essays, excellent and thought-provoking books such as Algebra of Infinite Justice and Listening to Grasshoppers: Field Notes on Democracy.

After reading them recently, I got the impression that, both in her fiction and non-fiction writings, she delivers a portrait of India as a country still suffering from the tragedies that ensue from the rigid social hierarchy of a Caste System.

Baby Kochamma, for example, feels very proudly that she is higher and nobler in society than those she calls “the sweeper class” (pg. 132). It seems to be one of the main intentions of The God of Small Things to give voice to the voiceless. To portray those who are so often killed without leaving behind them no portrait. No footprints in the sand’s shore. Those Power wants to throw into Oblivion. Arundhati Roy, through the means of such a compelling story, communicates to the reader the lived experience of the lower castes, the toiling masses, and she makes us suffer together with those who suffer from the anathema and the stigma of being “Untouchables”, the pariahs of Indian society.

Some books, after we finish them, never quite leave us. They become part of us. We move on, but transformed by them. We have been taught to care more for the voiceless, for the powerless, for the wretched of the Earth; we have learned empathy towards small frail things such as ourselves. We now have been enriched by the new holes we now carry in our hearts: a Sophie-shaped hole in the Universe; a Velutha-shaped hole in the Cosmos; an Ammu-shaped hole in the Fabric of Life…

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III. THE LOVE LAWS (AND THE RISKS OF TRANSGRESSION)

It’s evident that Arundhati Roy is pretty well-read, and that she has learned a lot from the masters of the English Language: she evokes images and characters from Joseph Conrad’s The Heart of Darkness, for example, and she inserts into her narrative verses from Shakespeare’s Julius Caesar. 

Apart from the direct references to other books, she also can remind the reader of highly creative artists such as Virginia Woolf, Samuel Beckett or Julio Cortázar, especially because of her ability to invent a language of her own, a verbal landscape that’s quite unlike any I’ve ever read.

Of course some of the scenes may remind us of other novels – for example: when Arundanthi described the minute details of the family business Paradise Pickles & Preserves (“Emperors of the Realm of Taste!”), I felt some resemblance to John Steinbeck’s marvellous narrative in The Winter of Our Discontent. And wild rivers, with dangerous secrets lurking below the surface of the waters, may also make some experienced reader reminisce the days he spent surfing the pages of Melville’s magnum opus Moby Dick.

Of course a little boat, with three children in it, crossing a river in India, is quite different from Ahab’s vessel, in its epic journey in search of the giant white whale. But what I mean to point out is this: The God of Small Things is such a great book also because it can evoke in us past reading experiences, and good thrilling ones such as Herman Melville or Steinbeck wrote. Arundhati Roy’s work can “drown” us in a literary experience of aesthetic amazement.

However, there’s  no l’art pour l’art here: this novel can teach us a lot about India, if we care to listen to the narrative’s details. When you least expect it, she writes, for example: “Some days Estha walked along the banks of the river that smelled of shit and pesticides bought with World Bank loans.” (p. 15) That’s how politics manifests itself in this novel: acting directly on the characters and their environment. Politics is something the flesh-and-blood, the pulsating heart, knows about by its effects on life.

There’s a mist of mystery surrounding the narrative that contributes a great deal to the thrilling sense of suspense of the book. He are told right from the beginning  about the tragic loss of Sophie Mol, but Arundhati takes her time in unveiling what happened to this English child visiting her cousins and aunts in India.

Sophie and her mother came to India after experiencing trauma in England – the death of Joe – but unaware that they would be further traumatized rather than healed. After all this is India, a country filled with “public turmoils”, where “various kinds of despair competed for primacy”, “poised forever between the terror of war and the horror of peace”, and where “Worse Things kept happening” (20).

I see in The God of Small Things a tragedy set in India, a country where “caste issues are very deep-rooted” (263). People are “conditioned from birth”, says Comrade Pillai, to think and feel in accordance with the caste system – which is, of course, a system of stratification of social classes in which a lot of violent conflict keeps exploding (in his century, the Mumbai terrorist attacks of 2008 and the Gujarat pogrom of 2002 stand as examples). This Caste Segregation is the political background for a tale of forbidden love, and love loved in spite of laws forbidding it.

Ammu and Valutha are a bit like Romeo and Juliet, daring to love when the social landscape around them deems it a scandal. What an obscenity, to love someone outside of one’s caste! In Arundathi Roy’s novel, two persons from two castes who aren’t supposed to mix end-up choosing the experience of forbidden love, even tough they know this could be their doom.

When Ammu and Velutha join their bodies in the delights of wild love-making, there’s a big fear lurking inside them. There’s an anguished panic poisoning their delightfully forbidden love. This love, in the wildness of its force, tramples underfoot the taboos of caste. They will be punished, for certain, by their transgression. This love is risky business. By daring it, you gamble with your life.

Stanton_R&J CoverIt’s quite similar to what happens in Shakespeare’s Romeo and Juliet: the “clash” and conflicts that sets apart Capuletos and Montecchios, as you well remember, is the background for the forbidden love between Romeo and Juliet. They transgress the Laws of Segregation with their Union in Love. Though brief, it’s a symbol of love’s power to demolish frontiers and unite what has been kept severed. Romeo and Juliet refuse the segregation imposed by their families and by the social structure, and dare to love and unite amidst a conflict filled with bloody hate.

I wouldn’t say that The God Of Small Things is inspired by Romeo and Juliet, but rather that Shakespare’s famous play deals with similar dilemmas.

Rahel and Estha, Ammu and Velutha, are characters which transgress the Love Laws, which lay down who should be loved, and how much, and according to what dogmas and rules. “…once again they broke the Love Laws. That lay down who should be loved. And how. And how much.” (p. 311)

Ammu and Velutha unite in the art of seeing the common, beyond differences, in the boundary-transcending light of a loving eye. They transgress the Love Laws and then they are crushed to an horrendous death. And yet the genius of Arundhati lies not only in the tragic grandeur she can convey in her story-telling, but also in the lush sensuality of her imagery. The sex scenes at the very end of the novel are the greatest example. Love-making description skyrockets to Shapespearean heights in these pages, and the beauty of them resembles the beauty in D. H. Lawrence’s Lady Chatterley or in Abdel Kechiche’s film Blue Is The Warmest Color… 

In Arundhati’s Roy, the tragedy of the lovers runs parallel with the children-in-the-boat subplot. An accident happens, the children’s boats hits some obstacle in the waters of the river, and then the fragile vessel throws into the water Rahel, Estha and Sophie.  “Just a quiet handing-over ceremony. A boat spilling its cargo. A river accepting the offering. One small life. A brief sunbeam.” (pg. 277)

Velutha – the Romeo of the forbidden-love saga – now is claimed by another play, another saga: he’s to be a scape-goat, the one to be punished by the death of a child. Velutha, tender lover and hard-working man, an activist of the Marxist Party and a friend of maoists, ends up being beaten to death by the police. Beaten out of existence. To be buried in the Pauper’s Pit.

And then one suddenly awakes to the fact: what impels Arundhati Roy to write is clearly indignation for the horrors and strifes that she describes. She suffers with these crushed lives because of her extraordinary capacity for empathy. An hability to have attentive antennas to listen to the voices of human diversity.

In recent years, amazing works-of-art also reflected upon false accusations and unjust punishments – Ian McEwan’s Atonement and the film The Hunt by Thomas Vinterberg are examples take occur to me. It would certainly be interesting to attempt a comparison of these works with The God of Small Things. My impression is that Arundhati Roy deals with matters of Crime and Punishment with such depth and intelligence as one can find only in the works of great masters such as Franz Kafka or Dostoiévski.

Alive, awake, alert. That’s what some books do for us: they kick-start our mind’s capacities to marvel and wonder. They expand our horizons by unveiling the magnitude (it’s huge) of all that we can’t understand. They enchant us with their language, until we wake up to what what we were previously unaware of. They tell stories that we feel that needed to be told. When he reach the last page, we feel that the book isn’t finished, it will reverberate and echo inside us, perhaps for years.

We close this book and it’s possible we’ll be burdened by a grief similar to the one we feel when a loved-one dies. I surely carry now within me a Velutha-shaped hole in the Universe, a Sophie-shaped hole in Existence. And yet I feel enriched by these new holes, by these tales of transgressive love, by these human kaleidoscope flowing in Time on the Earth Woman’s bosom.

“We belong nowhere”, Chako said. “We sail unanchored on troubled seas. We may never be allowed ashore. Our sorrows will never be sad enough. Our joys never happy enough. Our dreams never big enough. Our lives never important enough. To matter.”

Then, to give the twins Estha and Rahel a sense of Historical Perspective, he told them about the Earth Woman. He made them imagine that the earth – 4600 million years old – was a 46-year-old woman. It had taken the whole of the Earth Woman’s life for the earth to become what it was. For the oceans to part. For the mountains to rise. The Earth Woman was 11 years old, Chacko said, when the first single-celled organisms appeared. The first animals, creatures like worms and jellyfish, appeared only when she was 40. She was over 45 – just 8 months ago – when dinosaurs roamed the earth.

“The whole of human civilization as we know it”, Chacko told the twins, “began only 2 hours ago in the Earth Woman’s life.”

It was an awe-inspiring and humbling thought, Chacko said, that the whole of contemporary history, the World War, the War of Dreams, the Man on the Moon, science, literature, philosophy, the pursuit of knowledge – was no more than a blink of the Earth Woman’s eye.

“And we, my dears, everything we are and ever will be are just a twinkle in her eye…”

The God Of Small Things is a fountain of life: drink it up with might, O you who thirst for Truth, Freedom, Justice, O you all who grieve everyday by witnessing them crushed!

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Os Trabalhos da Eternidade

O que mais me espanta neles, os trabalhos da eternidade, é que eles prosseguem na ativa, mesmo depois da labuta de incontáveis milênios. É como se o tempo, o incansável, jamais se fatigasse de passar. Passa o tempo, e passa o tempo, e passa mais um pouquinho e mais um poucão, sem que haja como retê-lo. Construir uma montanha em seu caminho? Inútil! O tempo pisoteia todas as barricadas. E nada fará com que o amanhã não venha!

Por acaso resolve pedir em oração para que os deuses intervenham e nos retirem desta sina de impermanência e nos instaurem no duradouro? Nada disso adianta: é o tempo quem nos carrega, é ele quem manda, e cada um de nós é um lampejo de consciência, um ente temporário que brota do mundo e que dura por tempo limitado em meio à ilimitação infinita do Tempo… Neste Universo, ao que me parece, não existe a tecla pause. Estamos em play perpétuo. Corre o rio do Tempo sem freeze.

Há quanto tempo já gira a Terra em torno do Sol? E a Lua em torno da Terra? Eu, péssimo em matemática, não faço a mínima ideia. Minha mente fica confusa diante de quantias tão estratosféricas… Consigo contar com facilidade uma dúzia de bananas, mas quando começo a subir para domínios mais aéreos, quando vou, fogueteiro, subindo rumo às nuvens… aí me ferro. São incontáveis, meu caro, absolutamente arredias às aritméticas humanas estas miríades de estrelas enxameando na noite!

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Se oca de índio, iglu de esquimó e apê de metrópolis já me espantam, prodígios da engenhosidade humana que são, o que dizer da estupefação de meus míseros miolos diante das estrelas e das constelações?

“Amai para entendê-las”, aconselhava o poeta Bilau Bilac. Amei e não entendi porcaria nenhuma – a não ser isto: que quando se ama, o entender perde a importância. E que o amor não é questão de aritmética: se concordo com Santo Agostinho em algo, é nisso – “a única medida do amor é amar desmedidamente”.

“Será mendigo todo amor capaz de ser medido”, derrama-se em amores por Cleópatra o Antônio de Shakespeare. E digo eu: são pobres as coisas que podem ser descritas! Não nasci para ser mensurador da eternidade: minha incompetência nesta matemática é crassa. Ah!… como sou ruim de número quando me pedem para dizer a soma da luminosidade, o produto da multiplicação da água pelo éter!

 Ainda assim, barco que sou, descendo rio sem saber em que cachoeiras hei de ser lançado, sem poder prever em que dia serei estraçalhado contra as rochas, procuro como remédio do viver… o escrever e o amar. Têm me bastado para um tipo todo meu de plenitude, toda polvilhada de buracos e imperfeições.

 Palavras, palavras! Com elas esculpimos o vento, introduzimos afeto nos ares, trombeteamos nossos corações fora de suas jaulas toráxicas! Palavras: tanto… e tão pouco! Tanto e tão pouco. São muralhas que erguemos contra as marés montantes do esquecimento? São confissões de nossas carências, nossas ânsias por aplauso, nosso inconfessado desejo de comunhão?

 Quiçá as igrejas, estas bagaças de matéria que mãos humanas ergueram com tijolos no solo da Terra, sejam instituições a confessarem um segredo da humanidade: nossa vontade de comungar. Comungar é estar enlaçado, para além da solidão.Ler Durkheim me impregnou com essa impressão de que o segredo da religião é “sociológico” ou “antropológico”.  Feuerbach dá às mãos à Durkheim e eles celebram na mata suas saturnálias: os deuses não passam, pois, de rebentos de peitos humanos, frutos de nossas angústias, remédios inventados contra nosso medo da morte e nosso pavor da insignificância, servindo às comunidades como instrumentos para o estabelecimento de laços.

 Inventamos Deus pois éramos muito sós. Prosseguimos sendo sós, no melhor dos casos, e fratricidas e genocidas, no pior. Criamos o divino como cola para nossos enlaces, mas ela só nos separou. A fé trouxe a guerra e a promessa de comunhão ficou frustrada: lá nas terras de Jerusalém as bombas, os mártires, os terroristas suicidas, os ódios furibundos, prosseguem nos campos de batalha da “terra sagrada”, aparentemente condenada pelos deuses ao conflito eterno…

 A pergunta que não quer calar é: precisamos necessariamente de deuses para comungar? Não há amores e amizades que são comunhões que, apesar de plenamente atéias, são consumados triunfos do Enlace? Para que possamos nos reunir, para que vençamos cada um e todos os tormentos infindos das solidões inúmeras, precisamos realmente ter as mesmas crenças sobre os mesmos seres sobrenaturais? Tanto sangue merece ser derramado em nome de uma quimérica concordância universal em matéria de religião? Por que não deixar subsistir e coexistir miríades de diferentes religiões, cultos, seitas, clubes, sociedades secretas, comunas de interesses comuns e o caralho a quatro?

 Fede à tirania tudo aquilo que deseja uniformizar a sociedade. Tirano é quem quer que todo mundo pense igual – no caso, igual a ele, tirano. Nesse sentido, todo Papa é um tirano. E o único ato digno de um Papa que quisesse se levantar contra a Tirania seria a renúncia, a abdicação, o adeus à batina.

 Abaixo com todos os papas, creiam eles em deuses ou não! É mais do que quimérica – é fabulosa – a utopia de alguns de fazer com que a humanidade inteira (7 bilhões de criaturas!) sigam todas a mesmíssima doutrina. Isso jamais houve, jamais houverá, e continuar tentando é continuar a sina de guerra que polui a História…

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 Quem sou eu para estar aqui, jorrando sobre a brancura que a folha defende estes verbalismos arrebatados e essas heresias impudicas? Juro: só falo pois calar seria mais terrível. Tento ir direto ao ponto, sem cirlunlóquios, mas a complexidade desnorteante do real me envolve de volta no caos. Não escrevo conhecendo todas as respostas: escrevo aos tateios, em busca. Sem saber o que o futuro reserva. Que tesouros? Que cansaços? Que epifanias? Que quedas? Que versos? Que lágrimas? Que beijos? Que nadas? Escrevendo como quem sopra para o ar as bolhas de sabão: voam pelos ares, alados, esses pontos-de-interrogação nômades e dúvidas ambulantes, propagando pelo mundo o ácido corrosivo das certezas!

 Ah! O terrorismo lírico bombardeando as certezas! Soa a meus ouvidos como um bom emblema poético. Bandeiras em riste contra os tiranos! Serei eu formiga diante do elefante, clamando no deserto, destinado a ser esmagado pelos poderes contra os quais me levanto? Não sei, mas dane-se!

 Pois quem não tem coragem de ser amaldiçoado, ah!… este permanecerá inofensivo feito um santo. Já os criadores, os renovadores, os revolucionários, estes, me parece, têm a coragem de ser ofensivos, e não por qualquer ímpeto destrutivo gratuito ou sadismo terrorista. Eles não são coniventes com a mediocridade de consciência dos que vivem com a mente encarcerada nas estreitezas do cabresto dogmático. Cabresto não é comigo! E também não gosto que cabresteiem os outros com intenções de maracutaia.

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 A vida: não é preciso compreendê-la para desejá-la. O desejo é mais forte que o saber: fomos desejantes antes de nos tornarmos racionais (ao menos parcialmente racionais, é claro…). Aliás, a Razão, me parece, precisa ser considerada mais à maneira bergsoniana: como algo que, a princípio, tinha como função servir às necessidades vitais dos organismos. Ela nasce serva e depois pretende emancipar-se: lacaia que pretende-se rainha.

 A Razão, quando se faz presunçosa, gera rebentos como este: a ideia de que um ser humano tem um valor moral superior aos outros caso consiga sufocar e reprimir seus desejos naturais espontâneos, impondo ao seu querer uma rígida disciplina repleta de severidades ascéticas. O platonismo é um dos resultados da Razão quando esta se faz tirana e volta-se contra o próprio prosperar fisiológico dos corpos humanos.

 Sobre o assunto, Cioran soube encontrar, em seus Silogismos da Amargura, uma expressão poética eloquente o suficiente para sugerir a imensidão do que está em jogo: “O Espírito é o grande favorecido com as derrotas da carne. Enriquece-se à sua custa, a saqueia, regozija-se com suas misérias; vive do banditismo. A civilização deve seu êxito às proezas de um bandido.” (pg. 18)

 Já eu, graduei-me com o Doutor Conatus, passeei pelos Jardins de Epicuro e mandei o Imperador Pimpão sair da frente do meu Sol. Fiz extensão no Instituto Wilhelm Reich de Libertação Sexual, teoria e prática, ambas com imenso prazer. Retirei todas as cruzes e crucifixos de minhas paredes e pescoço, e fiz-me spinozista – destes que amam o amor, isto é, as alegrias causadas em outros e por outros causadas em nós, únicos êxtases certos desta vida.

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“Únicos êxtases”? Sinto muito por ter dito isto: desconsiderem esta palavrinha incômoda, “únicos”. Prefiro re-invocar o múltiplo e fazer valer os direitos da Diversidade. Também de êxtases, afirmemos, há uma enorme diversidade! Tristes as épocas, e tristes as civilizações, que são tão estreitas em seu horizonte que só enxergam o êxtase… no consumir, no comprar, no possuir. Que êxtase mais medíocre! Será digno de ser chamado de “êxtase”, ou devemos reservar essa palavra para algo mais condigno?

 Hoje em dia, forças colossais ao nosso redor tentam reduzir-nos ao status de “consumidores”. Deixamos de ser “cidadãos”, de ser “compatriotas”, de ser “conterrâneos”, de ser “camaradas”, e passamos a ser tratados como nada mais que carteiras e bolsas das quais é conveniente arrancar um troco… Ou mesmo uma fortuna.

 A fúria anti-consumista de um Tyler Durden, essa frase que assombra nossos tempos feito um fantasma errante, “the things you own end up owning you”, tudo isso é sintoma de uma irritação crescente, de um protesto cada vez mais veemente, contra esta civilização que tenta nos reduzir o homos economicus, pisoteando o sapiens e o ludens em prol do business e do free-market…

 Thoreau, em seu poderoso livro Walden, soltava seu fel contra a laborosidade de muitos de seus contemporâneos. Critica os que trabalham freneticamente, o que no mundo empresarial de hoje se chama de workhalics, cujo fervor existencial está todo voltado para isso: ganhar dinheiro, poupar dinheiro, administrar dinheiro. É o que meu querido punk Johnny Thunders chama de uma “one-track mind”, ou “mente de uma faixa só”: sempre toca o mesmo hit irritante, e sempre “Money, Money, Money” (cançãozinha fajutíssima perto de uma “Smells Like Teen Spirit”, de uma “Take the Power Back” ou uma “Do The Evolution”…).

 Thoreau parece dizer: vivemos no tempo e a sabedoria não é nada além de saber como bem empregá-lo, não desperdiçar o tempo limitado que temos de vida com algo que consideramos vil, aviltante, envilecedor. Ele é tanto um crítico da laborosidade workaholic quanto do ócio entediado: não prega nem o “fim do trabalho”, nem o “ficar de papos pro ar”. Mas alfineta, com poesia afiada, aqueles que, na vida, perdem o tempo ou matam o tempo: “as if you could kill time without injuring Eternity…” (THOREAU, Walden)

 Qualquer leitor de Thoreau que abra os olhos para a realidade de hoje, com o olhar do eremita de Walden Pold, não pode deixar de notar: ainda há multidões que nunca param para contemplar os trabalhos da eternidade. E é pois estão muito ocupados laborando duramente atrás de salários – e através, é claro, de durezas, sacrifícios, fadigas, suores… Em nome do quê? Em nome do dinheiro que é poder, do poder que permite atingir, através da compra, este alvo supremo, o Conforto, deus venerado pelo neoliberalismo consumista. Pobres as épocas que só sabem dizer da Felicidade que ela é um “estado confortável”! Nietzsche e McCandless, para ficar em dois exemplos que me tocam mais intimamente, discordam. “Destoam do coro dos contentes”, para usar o lindo verso do des-toante Torquato.

 * * * * *

Um erro muito comum, um preconceito tenaz nutrido por muitos humanos que nunca viveram fora da fé, é crer que descrer em Deus significa perder todo tipo de transcendência. Da maneira como fui ensinado nos catecismos que segui, na escola dos monoteísmos, Deus é propagado como algo de alheio, de estrangeiro, de fora-deste-mundo. Se não posso crer num Deus que esteja assim tão alonjado de nós, que transcenda-nos de modo a permanecer alheio como a Lua para nossas mãos, não é somente por ter frequentado a escola de Spinoza, que nos convida a pensar na brisa que bate em nosso rosto como um “atributo de Deus” pois parte da natureza. É também pois me parece um tanto absurda esta noção de exterioridade radical de um deus em relação ao mundo.

Descrer no Deus transcendente, aquele cuja casa parece ser tão distante que tendemos a descrevê-lo como algo fora do mundo, não significa perder tudo – significa, bem ao contrário, TUDO GANHAR.

O que muitos não entendem é que há a possibilidade de conciliar ateísmo com êxtase. Um dos mais tenazes preconceitos humanos é aquele de acreditar que ateísmo rima com tristeza, com desespero suicida, que é ideia “perigosa” de quem acaba por cortar os pulsos…

Minha recorrente descoberta, ao contrário, é a de que existe, sim, ateus felizes, ateus sábios, ateus serenos, ateus éticos, ateus que são, sob todos os parâmetros, “ótimos sujeitos”: André Comte-Sponville é prova vivíssima disso, e o será ainda, depois de sua morte. Isso mostra, pelo menos, que um ateu pode ter aspirações éticas tão elevadas quanto qualquer homem-de-fé – que, em outras palavras, não é pela fé que se julga o caráter. Por exemplo?

 Foram homens-de-fé, muitos deles que se consideravam pios cristãos, que saíram das caravelas, servos das Majestades portuguesas e catalãs, para realizar este ato – a Conquista da América – cuja capacidade de morticínio em massa não conhece muitos símiles na História: só no México, como apontam em suas obras autores como Todorov e Clastres, haviam 25 milhões de índios antes da chegada dos europeus; cinquenta anos depois, restavam cerca de… 1 milhão.

Não consigo não voltar a este assunto: ele desperta em mim uma atração quase obsessiva. Rodeado por religiões que se vendem como uma maravilha, sou aquele que gostaria sempre de apontar os podres destas presunçosas senhoras. As vovós religiosas não param de evocar os séculos passados, as tradições veneradas, temerosas das novidades que lançam o Tempo rumo a novos amanhãs. Gostariam que os Hojes se repetissem, idênticos, seguindo a mesma toada, conforme o ritmo de que, de cima dos púlpitos, lhe ditam os sacerdotes.

Descrer significa também perder a confiança nestas figuras de autoridade que nos mantêm no terror, que lucram com nosso medo, que nos querem de joelhos e acatando ordens. Se antes éramos ovelhas, respeitosas e submissas, fazendo tudo o que dizia o patrão, seguidoras fiéis das ordens do pastor, passamos a rugir leoninamente. É disso que Zaratustra, me parece, está falando: o camelo, aquele que carrega nas costas o duro fardo que ali foi colocado por outrem, que é a besta de carga de conteúdos que uns folgados quiseram obrigar-nos a transportar, deve libertar-se de sua submissão e fazer-se leão. O leão é aquele que se debate com fúria, que se recusa com violência, quando tentamos algema-lo, pô-lo numa jaula, mantê-lo de joelhos. Ele é expressão da força física exuberante, da recusa tenaz da vontade em submeter-se aos fardos impostos por autoridades.

 Um desses fardos, segundo Nietzsche, é certamente a moralidade – que seria uma espécie de algema psíquica, uma camisa-de-força. A moralidade é coisa ensinada desde o berço: e vocês sabem bem por quais lindíssimos métodos! Todo mundo já tomou um tapa, um xingo, uma chinelada, um espanco… Nos prometem um bombom ou um brinquedo se formos “bons mocinhos”, e algum doloroso castigo caso fracassemos a agradar, com nosso comportamento, os parâmetros deles. Muita da moldagem que nos impõe é realizada através de coerção, violência, ameaça, promessa. O sistema utilizado de praxe para transformar o bestinha do pivete em um sujeiro moral é a promessa de torrão de açúcar e a ameaça do chicote. Isso é que cria os camelos carregadores de fardos, que de cabeça baixa, adoradores da cruz, vão choramingando pelos áridos caminhos terrestres, bestas-de-carga, tristes e pesadas.

 Perder Deus é desvencilhar-se desse fardo: é possibilitar-se a chance de volver a ser criança, e não um velho camelo carregador de pesos. Infelizmente, a palavra ateísmo carrega um grave inconveniente: este “a”, indicativo de negação, parece carregar demais de negatividade o sentido, como se ateísmo fosse somente uma ausência, uma falta, um buraco na alma. O preconceito tenaz a que me refiro, em outras palavras, consiste em crer que o ateu é um ser que sofre mais que os outros pois lhe falta algo de importante, como se não passasse de um aleijão religioso, cambaleando de muletas.

 Na perspectiva do ateu, ao contrário, é o crente quem é o aleijão, cambaleante, de muletas. Ateísmo, longe de ser negação, é para ele afirmação: deste mundo, desta realidade, destas pessoas. O religioso é apressado em condenar; crê em infernos onde seres humanos “maus” vão arder por toda a eternidade; concebe o mundo “rachado”, cindido, entre dois grandes grupos, e somente dois: os eleitos e os danados… Se isso não é uma miopia do olhar, eu não sei o que é!

 A perda da autoridade transcendente que outros nos convenceram a adorar implica, para o homem, em um aumento de sua liberdade. Ele fica de pé após ter permanecido por séculos de joelhos: e de pé, vocês sabem, há muito mais a ser feito. Qualquer um sabe, é lição elementar de biologia, que um fato seminal em nossa evolução foi termos podido nos erguer e adotar a posição ereta. Não somos mais quadrúpudes: somos criaturas eretas. Por que deveríamos, pois, cair de joelhos nas igrejas?

 Sei bem: saber cair de joelhos é dar prova de humildade. O homem não pode ser arrogante, diz a sabedoria dos séculos, se não quiser atrair a desgraça – se quiser escapar às garras de Nêmesis, a deusa que os gregos imaginavam como punidora das arrogâncias dos mortais. A religião seria, pois, esta humildade diante da grandeza? Sim, acredito que sim! Mas a questão a ser colocada é: grandeza do quê? Da autoridade do papa? Do prestígio dos sacerdotes? Do ouro que refulge nas igrejas? A humildade que as religiões exigem de seus fiéis, que querem convencer-nos a tomar por uma das virtudes cardeais, não será um estratagema para conquistar a submissão? Pois, pensem bem: poucas doutrinas são menos humildes que as religiosas. Eu diria até que as religiões fabricam justamente as ideias mais presunçosas já formuladas por seres humanos: elas beiram a megalomania desvairada, às vezes, elevando o humano ao um tal status de grandeza que não há bomba enchedora de ego mais poderosa.

 Descrer em Deus decerto não anula a transcendência, nem no tempo, nem no espaço. O passado imenso que pre-existiu ao nascimento de cada um de nós é uma transcendência temporal inegável; tanto quanto o futuro ainda não vivido e aquele que transcorrerá, também imenso-imensurável, depois que estivermos mortos. Também não nego que meu corpo, que o corpo de cada um de nós, encontra-se limitado no espaço, que está sempre necessariamente localizado, e com uma perspectiva limitada: há sempre uma única paisagem à frente dos olhos, e bilhões de outras que a transcendem. A finitude humana, a limitação da nossa perspectiva, a exiguidade de nosso corpo, nos obriga a estar sempre num estado existencial onde exorbita tudo aquilo que nos transcende. O ateísmo não nega isso mas, pelo contrário, tal como o concebo, procura expandir a consciência humana para o que eu chamaria, sem medo do paradoxo, de transcendência imanente.

 “ÃãÃãÃhhhnnn?!?!?”, levanta-se a confusão na mente de quase todos. Eu explico! – ou tento. Julgamos que algo é transcendente sempre em relação a algo: é uma relação de exterioridade que presume sempre dois termos. A casca do ovo é exterior à gema e à clara que contêm dentro de si: é só por isso que seria possível dizer que, da perspectiva da clara e da gema, o mundo lá fora é transcendente.

 Mas, quebrada a casca, avança a gema sobre o mundo, mistura-se com ele, até perceber, ovo sábio e clarividente, que o suposto transcendente não era o absolutamente alheio, mas uma imanência que aceita a transa. Em outras palavras: o mundo aceita a mescla. A matéria gosta mesmo é duma transa. Portanto, o transcendente como o intransável, o remoto, o distantíssimo, o intocável, o alheio estrangeiríssimo, ao ser descrido – é essa uma das revoluções operadas na mente pelo ateísmo – conduz à percepção de um mundo que nos rodeia muitíssimo apreciador duma mistureba.

 Somos feitos, todos e cada um, de matéria mesclável: e isso já é uma lição de amor. O ateísmo conduz à noção de que este mundo, onde já estamos, e esta vida, que estamos vivendo, são o verdadeiro lugar. Antes, ficávamos sonhando, de olhos perdidos em horizontes distantes, com Deuses e Paraísos que ficavam lá nas brumas distantíssimas do remotíssimo alhures… A felicidade era coisa pra mais tarde, bem mais tarde: coisa pra depois da morte. Enfim: a felicidade era promessa, algo que se espera, mas não algo vivido na pele, em carne-e-osso. Deus: algo como um parente que mora muito longe, que não conhecemos muito bem, que nos disseram ser poderoso, e a quem suplicamos por bens, muitas vezes em vão.

 Em suma: quem crê no transcendente periga ficar em relações com o distante, esquecendo-se do próximo. Só que o próximo é o local ínfimo e minúsculo onde está o nosso corpo: e uma imensidão transcende de fato, no interior da imanência, as limitadas capacidades de nossa percepção! Concebo a imanência como o todo do conjunto cósmico e a transcendência como algo típico da consciência, que é fenômeno englobado dentro da imanência. Enfim: o círculo da transcendência está encerrado dentro do círculo da imanência de modo análogo ao círculo da consciência, que está encerrado dentro do “círculo cósmico”, se é que assim posso me expressar na aventura fadada ao fracasso de explicar o inefável…

 O ateísmo não impede a sensação de infinito. Da praia, observo a grandiosidade do mar que se perde de vista. As montanhas mais distantes, já meio escondidas pela bruma, me são outro testemunho de que há muito mais além daquilo que consigo ver. A estrada vai além, muito além do que se vê. A transcendência é o conjunto de todas as estradas que vão além do que se vê. Se víssemos mais longe, a transcendência seria menor. Ela é, pois, um efeito da limitação e da finitude de nosso humano viver. Transcende-nos somente pois somos consciências finitas, fora das quais exorbita uma imanência polvilhada de consciências. A exorbitância da imensidão cósmica – a imanência – quando entra-nos consciências finitas adentro… acaba diminuída. Ninguém tem olho na nuca e ninguém enxerga a outra margem do oceano. Nossa finitude é o berço de todos os deuses; e a morte dos deuses equivale a uma nova abertura para a imensidão transável do exorbitante cosmos que nos inclui e nos rodeia.

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 “Conhece-te a ti mesmo”, convida-nos o velho Sócrates. A simplicidade da fórmula desse imperativo esconde uma complexidade imensa. Se o “quem sou eu?” é questão de tão difícil resolução, isto se deve, me parece, por várias razões – a primeira delas sendo a mobilidade perpétua deste objeto-a-conhecer que chamamos, cada um de nós, de “eu”. O eu é mais um rio do que uma montanha, mais um mutante do que uma múmia, mais uma lebre serelepe do que uma tortuga. Em outras palavras: a gente nunca é, a gente sempre está sendo.

 “Eu” é coisa mais líquida do que sólida. Que me entendam os poetas, se puderem! Que façam o experimento de conceberem-se como águas que correm e não como rochas perduráveis: vale a pena fazer, com o cérebro, destas cambalhotas. Fluidificar têm sua delícia.

 Os estar-sendos dos eus são múltiplos. Logo, Sócrates nos lança ao labirinto, à louca sala de espelhos, ao invés de resolver nossos problemas, quando nos insta à auto-inspecção auto-interrogante do “conhece-te a ti mesmo!”.

 Outra razão para a labirintite que acomete qualquer perscrutador sério de si mesmo é que o eu, por sua inclusão necessária no interior do Tempo, é sempre, não uma pura instantaneidade sem passado nem futuro, mas algo que dura e que conecta-se.

 O eu dura em sua mutabilidade, ou pelo menos é inegável termos a sensação da duração, sem a qual jamais conseguiríamos, aliás, ouvir uma sinfonia. A sinfonia do eu, cheia de suas dissonâncias e desafinos, é, ainda assim, algo que mutatis mutandis…dura.

 Não sabemos, enquanto vivemos, da data de nossa morte. Morte certa, hora incerta. Em outras palavras: não sabemos – a não ser que sejamos suicidas ou moribundos – o tamanho exato do nosso futuro, o tempo que ainda temos pela frente. E também o dia-após-a-nossa morte nos preocupa, desde hoje. Alguns são absolutamente incapazes de sequer conceber uma destruição integral do eu, e projetam fantásticos Paraísos e Redenções que supostamente decorreriam no além-túmulo. Ernest Becker nos convida a enxergar aí o verdadeiro útero dos deuses: eles nascem dentro de organismos humanos que, aterrorizados diante do fato brutal da mortalidade, fabricam símbolos e mitos destinados a provar-lhes sua suprema significância cósmica.

A morte é aquilo que põe em cheque o sentido. A morte é aquilo que nos deixa com esta pulga-atrás-da-orelha de suspeitar sempiternamente do sentido de nossas vidas. Quer parecer a criaturas tal como somos que desaparecer integralmente não é algo agradável a nosso ego: sentimos isto como uma ferida infligida sobre o nosso narcisismo. Isto explica porque Sigmund Freud e a psicanálise são tão antipáticos a tantos: pois uma tal demolição do narcisismo humano não se leva à cabo sem despertar severos reproches da parte dos narcisistas ofendidos, dos “humanistas” humilhados… Em outros termos: quem sai por aí a derrubar Narcisos de seus pedestais, a empurrar Narcisos na água gelada, onde antes deliciavam-se diante do espelho, deve esperar mesmo pelos chiliques e pelas negações dos Narcisos destronados.

 O sentimento de valor-próprio que tanto ansiamos possuir, pois ele nos dá a sensação de possuirmos também maiores chances de sobrevivência post mortem, não é algo que possamos conquistar sozinhos: o espaço social é onde cada um vai buscar, na convivência e na troca com os outros, o sentimento de valer. Os atos que decorrem dessa “ânsia por valer”, desse craving for meaning, são os mais diversos, e Ernest Becker com certeza centrou seu lúcido e penetrante foco justamente sobre os mais malévolos e destrutivos desses atos. Becker mostrou que estar “faminto por sentido” não é necessariamente coisa boa: que disso podem nascer massacres e genocídios.

 O desejo do “eu” de “sentir-se valioso” está intimamente conectado com o ato, cotidianamente repetido e reiterado, de imaginar um cosmos de tal modo “ordenado” que a criatura mais resplandecente, luminosa e relevante dentre todas (vejam só que “criação de gênio” de Narciso!) SOU EU. Como somos gabarolas sempre que criamos religiões! Elas sempre nos honram: acariciam nosso ego com promessas de que ele, Vossa Majestade, o Eu, reinará eternamente, está destinado à felicidade infinda, foi criado para ser o cume e o pináculo da criação, filho que é do Sujeito Que Manda no Cosmos. Esta breve caricatura da religião monoteísta não dá conta, porém, de transmitir a grandiosidade da invenção humana na arte da glorificação própria e do auto-engrandecimento.

O homem conta a si mesmo, através das religiões que cria, histórias que lhe dizem: “a espécie a qual eu pertenço é a espécie maior e melhor, o supra-sumo dentre os animais, tão mais refinado e très sofistiquèe, o único dotado de uma alma que não morre, sendo portanto absolutamente distinto das “bestas selvagens”… Ah, o homem! Criatura sublime! Cheia de sentido é a existência humana, acreditem, pois tão poderosas e benignas e justas são as forças que a criaram!”

O discurso religioso, quando dissecado com perspicácia beckeriana, aparece-nos como um discurso emanado dos organismos mortais humanos, rebelados contra a mortalidade a ponto de não querem reconhecê-la, fabricando como remédio às suas angústias infindáveis fantasias narcísicas auto-reconfortantes.

 O que o tempo nos ensina de mais claro é o seu fluxo: não é à toa que se compara seu ser ao das águas de um rio. Mas qual seria o leito do tempo? Que águas são essas que nele correm? Dirigem-se os dias a algum oceano, escondido por detrás dos montes, lá nos amanhãs vindouros?

O que o tempo nos ensina de mais recorrente é que sempre estamos em algum lugar do espaço, algum ponto do cosmos, alguma coordenada encontrável nos atlas terrestres por latitudes e longitudes: não é possível ser uma criatura temporal sem estar em meio à extensão movente, graveto que a correnteza arrasta.

 Quando a consciência individual se acende, ela não cria o Tempo: passa simplesmente a ser cônscia de estar nele, arrastada por ele, englobada num rio que carrega tudo numa enxurrada cósmica exorbitante e sem limites.

“Percorrendo o caminho que a natureza traçou para nós, assemelhamo-nos a nadadores forçados a seguir a corrente que os carrega. Acreditamos ser livres porque ora consentimos, ora não consentimos em seguir a maré que sempre nos arrasta. Nós nos acreditamos os senhores do nosso destino porque somos forçados a mexer os braços no temor de ir para o fundo. ‘O destino conduz aqueles que o aceitam e arrasta aqueles que resistem a ele’ (Sêneca).” (Barão de Holbach – “Sistema da Natureza” (1770) – Editora Martins Fontes)

“O Terceiro Olho”, Um Ensaio Gonzo sobre Bob Dylan (+ Discografia Básica Para Downloadar)

“Do not go quietly into that good night!
Rage, rage against the dying of the light!”

Dele se dizia que “tinha sua mão sobre o pulso de sua geração”. Com a sabedoria que foi pescar em Steinbeck, Walt Whitman e Woody Guthrie, cantou aquela América que não está no cartão-postal: a América com a história conspurcada pela Klu Klux Klan e pelo ódio racista; a América da Guerra Fria, com seu arsenal nuclear pavoroso, ávida por Vietnãs a invadir e morta de pavor diante do espectro do comunismo; a América que acredita ter Deus a seu lado e que por isso se sente justificada a santos morticínios (“you don’t count the dead when God’s on your side…”).

Garoto judeu nascido nos EUA enquanto a Europa era assolada pelo Holocausto (em 1941), Robert Zimmermann tinha menos de 5 anos de idade quando seu país natal lançou as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (detalhe sinistro: com três dias de distância entre os dois massacres). Uns vinte anos depois, mostraria com algumas de suas canções – “A Hard Rain’s Gonna Fall” e “Masters of War”, por exemplo – que soube transformar sua indignação em crítica ferina. Nascia um artista cujas poesias e melodias traziam a marca de uma singularidade sem par. A música de protesto jamais seria a mesma. AMúsica jamais seria a mesma.

Robert Zimmerman despontou como “menino prodígio” na cena do Greenwich Village, Nova Iorque, com vinte e poucos anos de idade, com seu violãozinho surrado e sua gaitinha de boca, celebrizando-se rapidinho com uma escrita esperta e ousada que flertava com a dos beatniks. Revolucionou a vazia verbolatria da mídia-de-massas levando o “espírito” de Ginsberg, Kerouac e Cassady para as letras de música.  Além de um vasto conhecimento literário, o jovem folkie, que havia assumido o codinome “Dylan” em homenagem ao poeta Dylan Thomas, parecia haver devorado antropofagicamente todo o passado da música popular americana: era admirador de Hank Williams, Robert Johnson, Little Richards e Elvis Presley, sem estabelecer fronteiras entre o country, o blues e o rock. Os amores não respeitam os departamentos.

Para cantar a América – aquela de As Vinhas da Ira, não a da Disney! – Bob Dylan conquistou seu arsenal nas mais variadas fontes, enraizou-se fundamente no solo fecundo da cultura popular americana, aquela criada espontaneamente pelos folks que jamais assinam contratos com mega-gravadoras. Soube ouvir, longa e profundamente, ao que dizia a Voz do Povo. É por isso – esta capacidade de “escutar” aquilo que expressa sua geração e sintetizar isto numa expressão criativa – que Dylan foi um marco tão crucial nos anos 1960, inspirando “gentinha” miúda como… Jimi Hendrix e John Lennon. Bob Dylan faz parte da rara estirpe de artistas que desdenham de fronteiras, inventam novas misturas e redefinem tudo o que será feito depois deles. Como marcos divisores que racham a História em duas: uma antes deles, outra depois.

Dylan misturava sem dó nem pudor as referências mais eruditas com as mais popularescas gírias. Não acreditava nesta invenção de letrados que é o muro intransponível entre os cultos e os analfabetos, a Academia e o povo. Levou as tretas entre Rimbaud e Verlaine para suas canções de amor, e elevou canções de amor ao status de obras-primas da literatura (“Visions of Johanna” é ou não é um dos mais belos poemas do século?).

Diante de um artista tão audaz nas transformações que impôs a seu som e à sua identidade lá pelo meio dos anos 1960, os puristas, é claro, levantaram-se ofendidíssimos: que heresia eletrificar seu folk e lançar-se elétrico na Era dos Beatles! “Judas! Traidor!”, bradavam do público. Ele não queria nem saber e, numa atitude proto-punk de fodam-se os puristas, dizia para a The Band, debaixo das vaias dos indignados: “toquem alto pra caralho!” Porque o artista não existe só para agradar, mas tem que ousar agredir. Para dizer às pessoas o que elas querem ouvir já existem as religiões e as propagandas, os best-sellers de auto-ajuda e os mercadores de ilusões reconfortantes. O artista será um dedo na ferida, alguém que nos abre o olho, ainda que à nossa revelia, ou não será um artista.
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Bob Dylan, me parece, foi um dos homens mais cultos da história de seu país, um colosso em relação à norma: escrevia aos 20 e poucos anos de idade algumas quilométricas canções narrativas que remetiam às peças de Brecht (“Only A Pawn In Their Game”) e que às vezes atingiam a beleza poética de William Blake (“Gates of Eden”, “Highway 61 Revisited”…). Usava como personagens tanto figuras bíblicas quanto trágicos heróis e heroínas de Shakespeare (como Ofélia, que transita por “Desolation Row” na companhia ilustre de Ezra Pound, T.S. Eliot e o Fantasma da Ópera). Bob Dylan, décadas antes do procedimento ser “viralizado” por Beck e pelo Rap, inventou um tipo de composição altamente “linkada”, que se assemelha a uma rede, repleta de setas apontando para fora dela mesma. Uma canção de Dylan era uma janela que se abria para um horizonte cultural mais amplo, que nos retirava os véus e as pálpebras que, bem em cima da testa, mantêm fechado o que Nietzsche gostava de chamar  “O Terceiro Olho”.

Não à toa, Dylan, nos 1960, foi defensor da cannabis – que, conta a mitologia, ele teria apresentado aos Beatles… – e teve a desfaçatez de iniciar seu  Blonde on Blonde com o mais lúdico e brincalhão de seus sons, clamando: “Everybody must get stoned!” Dylan, além do elogio explícito das substâncias químicas que abrem o Terceiro Olho, nos mostrou que a poesia também podia ser um barato embriagante:a poesia, este bem gratuito e disponível a todos, também é uma espécie de dispositivo psicodélico que, se consumido em doses adequadas, com os olhos corretos abertos, com o coração suficientemente vulnerável para que seja afetado e chaqualhado e impactado, abre-nos, súbito, na testa, um 3º olho.

Leminski, quando especula sobre a razão que explica porquê os povos amam seus poetas, esquece de comentar que a expansão de consciência sempre foi considerada pelo homo sapiens um bem em si mesmo, sempre foi acompanhada por um êxtase diretamente proporcional à abertura de horizonte conquistada, amada por todos aqueles que conquistavam o sentimento oceânico, ou órfico, ou dionisíaco, ou místico, chamem como quiser este Inefável. Não é por outra razão que a ayahuasca chegou até nossos dias, com sua receita milenar transmitida de geração em geração: é pela mesma razão que Shakespeare, Heine ou Fernando Pessoa prosseguem entre nós, consumidos como se fossem ácido, por mentes esfomeadas por enxergar mais longe do que permitem os cabrestos que nos enfiam na mente os Senhores.

Esse garoto judeu que vemos no festival folk de Newport em sua primeira ascensão, este Dylan cheio de energia juvenil, que não se envergonha de sua tosquice no afinamento do violão nem do nasalamento patolino de sua voz, é a convicção encarnada de que o poder da palavra importa mais do que ornatos, adornos e fogos de artifício. Ninguém foi menos glitter do que Dylan: ao invés de posar de estrelinha, ele preferia parecer-se com um andrajoso cigano, caroneiro de trens de carga, vadio cheio de dignidade, pobre em roupas mas rico em poesia. Dylan nunca foi realmente um showman e sempre esteve mais para um rapsodo vadio e esfarrapado. Tom Waits soube aprender muito com ele – assim como Nick Cave.

Victor Hugo dizia: “os poetas são milionários de estrelas”. Dylan é a riqueza interior que se afirma com as aparências exteriores mais humildes. Às vezes quer me parecer que em algumas de suas músicas há um ideal, não muito distante daquele de Alexander Supertramp, que consiste em crer que  mesmo sem ter no bolso um vintém, mesmo sem ter no mundo qualquer propriedade, é possível sentirmo-nos plenos simplesmente por estarmos vivos diante de um céu estrelado que se recusa a responder a nossos assombros.

“A resposta, meu amigo, está soprando no vento…”

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Bob Dylan não cessa de fascinar e desconcertar pois é um vivente que talvez nenhum outro vivente entenda por completo – nem ele mesmo. Quando entramos no mundo destas canções que ele criou, a sensação que nos toma é a de uma alteridade misteriosa, como se ele próprio gostasse de se vestir de Esfinge e fazer se multiplicarem nossas dúvidas sobre ele. Não é possível definir Dylan com nenhum rótulo: a própria torrente infindável de suas canções, este caudaloso rio poético de mil faces, é uma correnteza que arrasta, como teias de aranha, toda tentativa de fixá-lo, esgotá-lo, domesticá-lo.

O que tantos evocam para explicar o charme, a graça e o talento de um David Bowie ou um Raul Seixas – o fato deles serem “mutantes”, metamorfoses ambulantes, homens-iguana… – também vale para Dylan: ele se revoltou contra a idéia de uma identidade única, fixa, imutável, e dissolveu-se em muitos eus, muitas faces, muitas cores, muitos Dylans, que formam um caleidoscópio que a Razão não entende por completo, mas que a sensibilidade sabe admirar, espantada e atingida.

É isso, me parece, que explica o poder de “Like a Rolling Stone”, aquilo que a faz ser considerada uma das melhores canções populares já compostas, digna de ser esmiuçada por livros inteiros (como o de Greil Marcus, por exemplo). Há toda uma “corrente afetiva” subterrânea que anima a canção e que convence o ouvinte que Dylan está falando sobre algo de crucial sobre a condição humana. Dylan usa a imagem poética da pedra que rola – que integra o que eu chamaria de “mitologia do rock and roll” em muitas versões, em Muddy Waters e nos Rolling Stones, por exemplo – mas não está falando somente sobre pedaços de matéria rolando por aí: não se trata somente de deslocamento no espaço, mas de mudanças no tempo. Não se trata somente de correr mundo, mas de correr de si mesmo. Dylan tematiza esta imposição cósmica que o Universo obriga todo eu a suportar como um Destino: mudar, transformar-se, correndo como o rio de Heráclito. E o Dylan dos anos 1960 marcou época por abraçar a mudança com um sábio amor fati: isso de transformar-se inexoravelmente em outra coisa sem nunca estagnar-se e conformar-se a ser o que já se é. A tragédia e a glória da pedra que rola é que ela não possui nenhum freio possível. É como na vida mesma, onde não existe como puxar o freio-de-mão, a não ser pelo suicídio – que aniquila qualquer possibilidade da vida re-aventurar-se em novos aceleramentos. O tempo não pára: ninguém énada, de uma vez por todas, mas sempre estamos sendo.

“Once upon a time you dressed so fine / Threw the bums a dime, in your prime, didn’t you?” Aí já se desenha, nos primeiros versos, um quadro de apogeu e decadência, de mudança brusca no curso dos tempos, algo que ele tematizou de modo poderoso também em “The Times They A-Changin'”. Ser um rolling stone é estar sempre na estrada, em busca de um lar que parece nunca se encontrar. É um sentimento (“without a home… a complete unkonwn…”) que dá o tom daquela melancolia saturnina que assombra os blues de Son House. Mas em Dylan sempre houve também uma paixão pelas raízes, por algo como um home sweet home que nos livre da sina de vagar, vadios, a procurar. É como se sua alma fosse um cabo-de-guerra entre o enraizamento e a vontade de correr mundo. Como se suas canções fosse um testemunho e um tributo deste fecundo diálogo existencial entre a atração do desconhecido e a vontade de settle down.

Estou longe de ser um dylan-maníaco que bate palmas para tudo que o “gênio” fez – estou convicto, aliás, que ele fez muita porcaria e que a Musa faltou ao encontro em numerosas ocasiões. Uma discografia tão imensa certamente comporta muitos álbuns fracos, desnecessários, que talvez ele tivesse feito melhor em engavetar. Olho com um pouco de desdém, mesmo, para os anos 80 de Dylan, marcados pela infame conversão ao cristianismo e por alguns flertes desavergonhados com a música gospel, mas logo me belisco para me acordar e percebo o absurdo que é ousar desdenhar de Bob Dylan sem ter feito um centésimo do que ele fez, sem ter criado porcaria nenhuma que chegue aos pés do que ele já criou. Minha admiração irrestrita se restringe àquela que considero a Fase de Ouro de Dylan – aquela que se extende mais ou menos de 1963 a 1976 e que inclui obras-primas como Freewheelin, The Times They Are-A Changin’, Another Side, Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, Nashville Skyline, Blood on the Tracks, Desire… O “resto” é algo ainda por explorar, mas que não me atrai com um magnetismo tão forte: é como se eu soubesse que vou me decepcionar e preferisse a companhia daquele jovem Dylan que preencheu, plenificou e fascinou tantos inquantificáveis momentos da minha juventude.

Sei bem que Dylan ainda está vivo, e por sinal acaba de soltar seu novo álbum, Tempest. Mas costumo falar dele como se ele estivesse no passado, como se já tivesse se transmutado em mito. São poucos os vivos, hoje, que já sabemos do status mítico que terão quando baterem as botas – caso, no Brasil, de um Chico Buarque ou um Tom Zé. O velhinho Dylan, hoje por aí, espanta-me um pouco com a falta de vergonha que ele demonstra em relação à sua voz, que por mais de uma década está estragadaça: quanto mais o tempo passa, ele se transmuta de Pato Donald em Bruxa do 71. Mas logo me lembro que uma das maiores graças de Dylan sempre foi isso: o fato dele colocar o conteúdo, a mensagem, a letra, muito acima dos ornamentos externos. Se ele acha que tem uma boa letra, ele irá cantá-la, mesmo com a pior voz do mundo, pois julga que aquilo precisa ser dito.
Dylan só marcou época como cantor de protesto pois seus ouvintes e admiradores reconheceram que aquilo que ele disse precisava ser dito: ele é uma figura que encarna, como Kurt Cobain nos 90, o status de “voz de uma geraão”. Depois, lançou por terra todos os rótulos que quiserem grudar nele: enfiou a guitarra elétrica no folk, abandonou a seriedade do engajamento político e abraçou a poesia surrealista e dadaísta, dando vazão ao homo ludens que trazia dentro de si. Atravessou a vida sendo um criador e morrerá um criador. E suas criações são tão complexas, multifacetadas e crípticas que Dylan é um homem indecifrável – daqueles que não permitem que a gente termine um ensaio sobre ele com satisfação, mas sim com a frustração de não ter dado conta de compreender e explicar um destino que escapa à Razão. Mas talvez todos os destinos escapem ao domínio da Compreensão? Talvez todos levaremos para o túmulo uma fatia imensa de Mistério? Sei lá eu… Sei que Dylan, pedra rolando pelo mundo, sempre se re-inventando, obcecado por sua mania criativa, sempre me inspirou o sentimento de que viver é inventar, que viver é mudar, que viver é não se conformar, que viver é saber que o nascimento não é algo que ficou pra trás, mas uma tarefa ainda por cumprir. É como se Dylan quisesse morrer ainda em pleno trabalho de parto criativo – em suma: morrer ainda nascendo. “Get Born!” é, talvez, o slogan dylanesco que mais adoro. E meu verso predileto das Obras Completas de Mr. Zimmermann talvez seja aquele: “he not busy being born is busy dying“. Pois, como diria o poeta Murilo Mendes, “nascer é muito comprido”. E pra ninguém é missão cumprida.
 
Eduardo Carli
Goiânia, Setembro de 2012
Originalmente publicado no Depredando

Este é o 3º ensaio que dedico a tentar decifrar Dylan. 
Eis os outros dois: X e Y.

“Murray Lerner’s documentary features Bob Dylan’s performances at the Newport folk festival between 1963 and 1965 – the time when Dylan changed the music of the world and changed himself from the fresh-faced cherub singing “Blowin’ in the Wind” to the rock ‘n’ roll shaman who blew pop music apart when he went electric. The film No Direction Home told the story of how Dylan affected the world and the world affected Dylan, but this film brings you face to face with the work itself. Like the discovery of a hitherto unknown manuscript or an unseen masterpiece, this is a treasure trove, newly opened up.”

BOB DYLAN
DISCOGRAFIA BÁSICA
Another Side (1964) [download]
Blonde on Blonde (1967) [download]
Blood on the Tracks (1975) [download]
The Freewheelin’ (1963) [download]
The Times… (1964) [download]
Highway 61 (1966) [download]
Bringing It All Back Home (1965) [download]

Os Relâmpagos da Fatalidade: Reflexões Sobre o Trágico a Partir de Nietzsche & Shakespeare

“Ofélia” – John Everett Millais (1828-1896)

Caros leitores desta goma vítrea,

Segue abaixo um artigo que escrevi na tentativa de ilustrar as reflexões nietzschianas sobre a Tragédia com o auxílio das desgraceiras geniais presentes na obra shakespeareana. Eis um estudo dedicado a todos os inocentes que não escaparam que lhes caísse na cabeça um raio; a todos os que morreram em terremotos e tsunamis; a todas as vítimas de tiranias, e que nada fizeram para merecer uma existência desgraçada… É uma reflexão sobre todo o sofrimento, neste mundo, que não se explica por uma culpa prévia nem é justificável por qualquer raciocínio razoável. Chestóv me convenceu de que o trágico só está nos livros pois faz parte da vida e é parte integrante da história. Este trabalho foi apresentado na XIX Semana de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás), em maio de 2012, na mesa sobre Estética/Filosofia da Arte, e deve muito ao inspirador curso sobre o trágico do Prof. Adriano Correia. Para ler com mais facilidade, sugiro dar um pulo lá no Scribd.