VÍTIMAS & ALGOZES NO CINEMA DE FERNANDO COIMBRA – Sobre “O Lobo Atrás da Porta” (2013) e “Castelo de Areia” (2017)

Chico Buarque, que escreveu a tragédia Gota D’Água em 1975 (em parceria com Paulo Pontes), deu uma ótima resposta à seguinte questão: por que adaptar uma peça trágica grega – a Medéia de Eurípides, no caso – para o contexto brasileiro? “No Rio de Janeiro”, retrucou Chico, “acontecem umas 5 tragédias gregas por dia.”

O longa-metragem de estréia de Fernando Coimbra, O Lobo Atrás da Porta (2013), entrega ao espectador, com pitadas de uma dramaturgia à la Nelson Rodrigues, um thriller que é uma autêntica tragédia carioca. Inspira-se num caso real que chocou o Brasil em Junho de 1960, quando Neyde Maria Maia Lopes, a mulher que ficou conhecida como A Fera da Penha, sequestrou, assassinou e carbonizou o corpo de uma criança de 4 anos, Tânia Maria Coelho Araújo, filha de seu amante Antonio Couto Araujo.

A imprensa marrom debruçou-se intensamente sobre este caso, seguindo os preceitos do jornalismo sensacionalista que tem como lema “espreme que sai sangue!”, e ainda nos anos 1960 o cinema já havia se apropriado da história, com a realização de Crime de Amor (1965), de Rex Endsleigh. Mais do que requentar um enredo de sangue com novos atores, o cineasta e roteirista Coimbra pôde realizar uma obra impactante, memorável, que permite ao espectador fazer profundas reflexões sobre o que leva os seres humanos ao extremo, ou seja, ao mal radical.

O filme O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, convida a pensar nos complexos meandros das relações humanas que acabam mal, que tem um fim trágico, um desenlace fatal, em que vidas arruinadas são o fruto de um amor cujos efeitos são a ruína e a destruição. Encarnada de maneira muito autêntica por Leandra Leal, a protagonista Rosa envolve-se emocional e sexualmente com Bernardo (interpretado por Milhem Cortaz), homem casado e com filha. Para falar feito um grego: Eros, no caso, cairá em hýbris; e os excessos passionais terão que ser punidos pela Nêmesis que re-estabelece os equilíbrios do mundo, mas com um alto preço a ser pagos pelos humanos desiquilibradores….

Os dois se conhecem em uma estação de trem do Rio e um clima de paquera e tesão logo se instaura, com a aproximação erótica ocorrendo, a princípio, naquela ingênua inconsequência dos amantes que não tem a mínima idéia das consequências futuras daqueles primeiros flertes e encontros. A história tem algo do tempero de Nelson Rodrigues e este caso extraconjugal tem inúmeros análogos nos casos relatados em A Vida Como Ela É. A arte brasileira, aqui, mostra-se novamente afim de sujar de sangue o vestido de noiva…

Já o lobo do título, se inicialmente ficamos tentados a imaginá-lo com figura masculina, como uma figura peluda que quer praticar de seus malefícios e crueldades contra a Chapéuzinho Vermelho (a criança desaparecida / sequestrada), o fluxo narrativo virá embaralhar todas as cartas. Pois se “o homem é o lobo do homem”, na formulação de Hobbes, fica-se tentado a esquecer, pelo próprio masculinismo da frase e pelo vício de linguagem, que a mulher inclui-se dentro do conceito “homem”, e que as mulheres também podem ser lobas – em especial, quando violadas, violentadas, humilhadas, oprimidas, silenciadas, situação existencial propícia para que germine, no solo do ressentimento, a colheita fatal da fúria assassina, da fatal desforra.

A fúria de Bernardo se destrava contra a moça quando ela, ao invés de manter-se na posição submissa e servil da amante eventual, demonstra estar querendo coisa mais séria. Bernardo parece desejar que Rosa se submeta à posição de mera boneca sexual, que aceite seu papel de mulher-secundária. Rosa, porém, não aceita ser posta em segundo plano e começa a tomar medidas para se envolver mais de perto com a família do amante, talvez averiguando a possibilidade de uma intervenção para destruir o casamento e abrir uma brecha para assim fazer de seu amante um marido.

Quando Rosa começa a penetrar perigosamente no lar da família, dando bolas e bonecas para a filha do casal, Bernardo sente-se em risco e precisa impedir a verdade do adultério de vir à tona, por quaisquer meios possíveis. A violência do macho que deseja manter a fachada hipócrita do marido monogâmico fiel, quando sua conduta cotidiana é de um lascivo que deseja se aproveitar de mulheres com as quais não deseja compromissos muito estreitos, irrompe para fora do recalque.

Quando Rosa fica grávida e passa a carregar em seu ventre o filho (ilegítimo) de Bernardo, o macho diante daquele flagrante passa a ver o rebento em potencial como um destruidor de seu Castelo de Areia matrimonial. O feto, futuro filho, não é visto com bons olhos por Bernardo, mas sim como uma evidência perigosa de seu adultério. E é aí que ele comete contra Rosa uma enorme violência: convence-a que deve ir ao médico, fazer uns exames para checar se de fato a gravidez se confirmava. Mas Bernardo estava de conluio com o doutor: ambos já haviam combinado em fingir que tirariam sangue de Rosa, mas na hora H iriam injetar nela uma anestesia geral para consumar, sobre o corpo desacordado da jovem, um aborto forçado.

Em outra uma cena terrível, encarnando o falocentrismo e o patriarcado em suas atitudes repletas de testosterona em excesso e razão em déficit, Bernardo espanca e estapeia Rosa com truculência, de uma maneira que lembra os PMs em seus baculejos contra a juventude pobre-preta-periférica (o filme, aliás, também tem escárnio a despejar sobre os Procedimentos Padrão do delegado de polícia, que ameaça Rosa com a tortura quando a interroga sobre a desaparição da criança).

O machão, para mostrar quem está no comando, ordena com voz grossa que ela tire a calcinha. Com a cinta nas mãos, ameaça Rosa com os punhos levantados, puxa seus cabelos, manda que ela abra as pernas. Rosa chora, treme de pavor, está em pânico diante da besta fera que Bernardo se transformou. O homem delicado e galante dos primeiros encontros agora mostrou-se como lobo que se vestia com pele de cordeiro.

O trauma psíquico, ainda que o estupro não tenha sido consumado, é certamente equivalente a de um estupro concreto, com penetração. Há críticos que evocam, para falar das atitudes de Bernardo com Rosa, o conceito de gaslighting, um estrangeirismo que serve para se referir a táticas de manipulação e humilhação do outro praticadas, em especial, por homens misóginos contra mulheres que são estigmatizadas como loucas.

O termo origina-se numa peça de teatro de Patrick Hamilton, escrita em 1938, depois adaptada pelo menos duas vezes para o cinema, com destaque para o filme Gas Light (1944), dirigido por George Cukor e estrelado por Ingrid Bergman, obra que, segundo o artigo da Vox, é o melhor tratado sobre o gaslighting que temos à disposição. Não faltam, atualmente, críticos do governo de Donald Trump, atual ocupante da Casa Branca, que apontam no presidente-bilionário tendências não só para o racismo, a xenofobia, o elitismo e a misoginia – Trump seria quase um PhD em gaslighting…

Cena do filme “Gaslight” (1944), de George Cukor

No caso de O Lobo Atrás da Porta,  Rosa é penetrada simbolicamente, mas com estragos concretos em sua estrutura psíquica, por uma postura e um discurso machista, de truculência e de apagamento da vontade feminina, um modo de proceder que visa reduzir a mulher a objeto servil e obediente, que abre as pernas quando ordenada pelo chefe da pica grossa.

Quando Bernardo obriga que ela repita a frase que ele ditou – “por favor, eu quero que você me coma pelo resto da minha vida!” -, Rosa só lhe obedece para não tomar mais sopapos, para não pegar um caso grave de olho roxo. Obedece com aquele ódio recalcado com o qual os súditos e oprimidos de todos os tempos obedeceram a seus tiranos, déspotas, reis, imperadores… Rosa, oprimida mas sem poder reagir à altura diante de uma força física que lhe é superior, obedece externamente, mas mantendo dentro de si uma íntima recusa e uma secreta revolta.

Nelson Rodrigues, que como dramaturgo escreveu inúmeras tragédias, volta a ser evocado pelo desfecho de O Lobo Atrás da Porta, em que Rosa comete façanhas dignas de uma heroína trágica como Medéia (uma peça que ganhou um tratamento forte nas mãos de Lars Von Trier). Não se trata, é claro, de uma mãe matando seu próprio filho: Rosa, na verdade, foi privada à fórceps do feto que crescia em sua barriga por uma brutal intrusão do macho, que tratou o bebê-em-potência apenas como prova incriminadora, como índice de seu adultério, e que ignorou completamente o desejo da mulher. O querer de Rosa, nesta relação, é repetidas vezes violado. A vontade da mulher é tida como pouca porcaria pelo Bernardão, que com seu caráter de macho-alfa impõe sua vontade e não aceita tê-la negada.

Vítima de abusos tremendos, Rosa não fica resignada na posição de vítima. Só que seu ressentimento, transbordando com a fúria de uma lava de vulcão artificialmente tampado, acaba vindo à tona como violência vingativa. É da própria natureza do ressentimento que ele se manifeste, tempos depois de uma ofensa que não pode ser respondida na hora (penso no conceito Freudiano de ab-reação); os ofendidos que não puderam levantar-se ou sublevar-se contra seus ofensores, guardam dentro de si uma mágoa que, conforme o tempo passa, contamina a psiquê e espraia-se pelo inconsciente, impulsionando para uma ação tardia, uma ab-reação, um golpe que se dá hoje contra uma ofensa sofrida no passado.

Rosa quer ferir Bernardo, mas ao invés de ir direto a seu corpo, ao crivá-lo de balas ou empurrá-lo em um abismo, ela prefere uma via de sadismo indireto: ferir a filha de Bernardo para que possa feri-lo aonde mais lhe doeria; ela parece querer fazê-lo sentir o próprio terrível ferimento que ela sentiu ao ver-se na situação traumatizante de passar por um aborto importo pela coerção bruta.

O filme de Coimbra consegue, através deste enredo, problematizar o problema do aborto e fornecer muito alimento para debates pós-filme, pois se é perfeitamente legítimo que as mulheres possam ter direito à interrupção da gravidez, caso tenham boas justificativas para isso (como no caso de estarem grávidas por causa de um estupro prévio, ou seja, se são vítimas de uma agressão sexual e não desejam carregar a criança do violador), não conheço vertente do feminismo que justifique a legitimidade de um aborto que possa ser uma decisão de terceiros e não da própria mulher que escolhe interromper sua prenhez.

O Lobo Atrás da Porta concede ao debate público uma espécie de emblema exemplar de um aborto injustificável, pois provêm de uma decisão unilateral e violenta do macho, que impõe à mulher grávida algo que esta, em sua autonomia, não havia escolhido. Que possamos dar às mulheres, como direito cívico, o aborto como escolha, é uma pauta importante, legítima e urgente, mas que seja sempre a partir do máximo de decisão autônoma da mulher sobre seu próprio corpo, e não uma imposição heterônoma e coercitiva que viola a vontade do corpo a sofrer a intervenção…

Bernardo, na perspectiva de Rosa, virou uma espécie de mutilador, uma espécie de besta truculenta que fez uma intervenção horrorosa nas entranhas de seu delicado e complexo corpo de mulher. O crime de Bernardo, para Rosa, beira o imperdoável – e ela talvez nem mesmo saiba como proceder para procurar Justiça nos termos da lei, buscando profissionais do Direito para processarem o infrator. A dor extremada de Rosa a fez atravessar a fronteira fluida entre vítimas e carrascos. Seu trauma psíquico a leva ao mal radical de uma vingança brutal que se realiza sobre uma criança inocente. Ela, vitimada em uma fase de seu relacionamento, em outro momento urde um plano para vitimar seu ofensor. A espiral de decadência moral é chocante: todos vão chafurdando em um mal radical, até que fetos e crianças comecem a ser sacrificados no jogo fatal desses adultos enlouquecidos, que utilizam como armas de seus jogos de tesão e fúria as sacrificáveis vidas dos mais novos e dos ainda não nascidos.

Tudo isso me deixou pensando no seguinte: temos a tendência a pensar em vítimas e algozes como se fossem dois grupos heterogêneos, isolados um do outro, cada um estanque em seu tanque. Porém, a vítima pode tornar-se algoz, e vice-versa, ao sabor das alterações das relações de poder. Lembremos de Adolf Eichmann, que um dia foi um assassino de gabinete a serviço do III Reich, obedecendo à Ordem Hitlerista e sendo um dos operadores da Solução Final: este algoz acabou sendo levado a julgamento e condenado à morte pelo Estado de Israel no Julgamento de Jerusalém (documentado pelo livro-reportagem de Arendt). O mesmo Estado de Israel, nascido após a 2ª Guerra Mundial para acolher os sobreviventes do Holocausto, jamais poderia ser considerado como um Estado de Vítimas, já que tornou-se, por décadas, o cruel algoz do povo palestino, aprisionado e massacrado pelo carrasco sionista em Gaza e na Cisjordânia.

O que me lembra também de uma importante lição de Augusto Boal sobre a opressão: o grande dramaturgo, criador do Teatro do Oprimidosempre disse que um mesmo sujeito pode ser simultaneamente opressor e oprimido, ou seja, algoz e vítima. Um exemplo de fácil compreensão é um pobre operário, explorado e humilhado em seu trabalho pelo patrão burguês, que vivencia todos os dias a condição de oprimido da luta de classes, mas que quando chega em seu lar entra na pose e na postura do Poderoso Chefão, sendo o machista-mandão que oprime a mulher e os filhos.

 Para além de qualquer vitimismo – a noção de que uma vítima é sempre inocente e pura -, o filme de Coimbra desnuda os mecanismos que conduzem Rosa a atravessar situações onde ela é claramente a vítima de um relacionamento abusivo, tornando-se alguém capaz de ser a carrasca de seu antigo amante. Essa assustadora transmutação de vítimas em algozes deveria nos alertar sobre a necessidade de fundar uma ordem social onde multidões de humanos não estejam condenados à cotidiana humilhação, espoliação e exploração, pois esta é a receita da catástrofe e da violência infinita: os ofendidos da terra, em outra configuração de poder, motivados pelo impulso de seu ressentimento e seu ímpeto vingativo, vão à desforra e assim a tragédia não cessa.

Era este um dos ensinamentos de Paulo Freire quando dizia que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor”. Poderíamos parafraseá-lo dizendo que quando a sociedade está repleta de exploradores e algozes, a tendência inevitável dos ofendidos é a brutal vingança que pensa poder equilibrar as balanças ao pagar a maldade com a maldade. É neste lodaçal que repetidas vezes afundamos, são estas as marés cíclicas de violência que derrubam sem piedade aquilo que nossa civilização pretensamente civilizada constrói: nossos Castelos de Areia.

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Convidado pela Netflix a dirigir o filme Sand Castle – Castelo de Areia, o cineasta brasileiro levou para o exterior uma reflexão sobre vítimas e algozes que já era o cerne de O Lobo Atrás da Porta. Após a Invasão do Iraque pelos EUA em 2003, vemos um grupo de soldados do U.S. Army descobrindo as realidades iraquianas transtornadas pela guerra, sendo que nenhum heroísmo patriótico marca os acontecimentos. Mais uma vez, Coimbra inspirou-se em fatos reais: o roteiro foi escrito por Chris Roessner, soldado que esteve lutando em solo iraquiano e relatou experiências autobiográficas.

No centro do enredo, há uma cidade iraquiana cujo sistema de abastecimento de água foi devastado pelos bombardeios dos Yankees. Em uma cena chave, a população está desesperada: com seus galões e garrafas vazias, clamam por água. Com metralhadoras e rifles, os estadunidenses tentam comandar a distribuição de água com caminhões-pipa. Quem assistiu ao filme Até a Chuva (Hasta La Lluvia), de Iciar Bollain, sobre a Guerra da Água de Cochabamba, pode estabelecer os vínculos entre as tragédias hídricas análogas, a do Iraque e a da Bolívia.

O grupo de soldados que protagonizam o filme acabam se envolvendo no trabalho de reconstrução do que acabam de destruir. O protagonista, chamado Soldado Ocre, sente-se um pouco fora-de-lugar naquela conjuntura alucinante e, em meio ao caos das bombas que explodem, busca – em vão – conter sua confusão e seus arroubos de pura fúria irracional.

O diretor brasileiro, Coimbra, estreou bem em sua primeira incursão na carreira gringa – seguindo os passos de outros cineastas brasileiros que tentaram o mesmo, como Fernando Meirelles, que fez O Jardineiro Fiel Ensaio Sobre a Cegueira lá fora, Walter Salles, que cometeu Água Negra Diários de Motocicleta, e José Padilha, que fez o remake de Robocop 7 Days in Entebbe. Coimbra, sem ser panfletário, imprimiu uma sutil veia crítica ao filme, o que o torna bem diferente de uma patriotada que tenderia a justificar a Cruzada dos EUA batizada de “Guerra Contra o Terror”.

Os iraquianos são descritos em seus dramas e urgências, mas só são “humanizados” só até certo ponto, pois são vistos pela ótica deformadora daqueles soldados estadunidenses, brainwashed com o sabão ideológico do militarismo. A empatia é difícil entre estes campos antagônicos, mas ainda assim a experiência direta com os iraquianos concretos faz com que o canto de sereia da ideologia oficial seja soterrado.

Em uma das melhores cenas, um pai tenta atravessar uma estrada com sua filha doente, em busca de uma farmácia, mas é visto como suspeito pelas forças de ocupação. Suspeito não por portar armas ou fazer qualquer coisa ameaçadora, mas sim pela velocidade que imprime ao seu veículo ao acelerar rumo à ajuda médica que tanto precisa. Um pai com pressa para salvar sua filha da doença que a tortura: eis o que é logo convertido, na alucinada “lógica” paranóica dos soldados, em um perigo público, um suspeito de jihadismo… E é por um triz que esse pai aflito não acaba todo estropiado com balas no chão da estrada. É só por pouco que essa criança não testemunha o assassinato de seu pai pelas forças militares de ocupação que dizem estar lá para “ajudar”…

Em outra cena memorável, o diretor de uma escola desespera-se diante da situação insustentável que a guerra trouxe: alunos e equipe de educadores estão sem acesso à água, o que coloca o estabelecimento escolar em estado de colapso humanitário total. Difícil não lembrar dos ensinamentos de Naomi Klein sobre New Orleans devastada pelo Furacão Katrina, quando os business men apaixonados pelas doutrinas dos Chicago Boys viram no desastre… uma oportunidade para uma mega-privatização do sistema público de educação.

“Depois do Furacão Katrina, hordas de prestadores de serviços militares privados chegaram à cidade de New Orleans inundada. Estavam em busca de formas de lucrarem com o desastre, enquanto milhares de habitantes da cidade, abandonados por seu governo, eram tratados como criminosos perigosos apenas por tentarem sobreviver… Com a cidade atordoada e seus residentes espalhados pelo país, incapazes de proteger seus próprios interesses, emergiu um plano para pôr em prática uma lista de desejos corporativos em velocidade máxima. Milton Friedman, então com 93 anos, escreveu um artigo para o Wall Street Journal no qual declarava: ‘A maioria das escolas de New Orleans está em ruínas… É uma tragédia. É também a oportunidade de promover uma reforma radical no sistema educacional.'” (KLEIN, Não Basta Dizer Não, capítulo 8, p. 147 – 171)

A situação que Coimbra escolhe para a sua crônica – esta escola desafortunada, atingida pela guerra, incapaz de seguir seu trabalho educativo, circunstância provavelmente considerada pelo Pentágono como mero Dano Colateral (para lembrar do livro brilhante de Bauman), serve como emblema da estupidez de todo o processo da Guerra Contra Um Terror.

A guerra não constrói porra nenhuma, está lá mesmo é para destruir – com um adendo, um requinte de crueldade: aqueles que destruíram, estarão por perto para oferecer ótimos deals para a reconstrução do que eles aniquilaram. Com excelentes lucros para as empresas norte-americanas, é claro… No Iraque, a própria Zona Verde era administrada pela Halliburton, e as áreas destruídas pelos bombardeios eram depois “rifadas” para empresas interessadas na reconstrução civil ou na construção de penitenciárias privadas…

Por tematizar a questão da educação pública em tempos de guerra, o filme ganha pontos. Em outro momento, um engenheiro mecânico iraquiano estarrece o Soldado Ocre por seu conhecimento técnico e sua maestria no manejo tecno-científico dos equipamentos. É que Ocre sofreu com a lavagem cerebral que o leva ao preconceito dogmático de que os iraquianos são todos os bárbaros, uns selvagens, uns jihadistas medievais, e quando este preconceito desmorona diante das evidências empíricas, ou seja, do testemunho humano do outro, sua mente entra num tilt. Ele percebe que lhe mentiram pra caralho sobre o Iraque e os iraquianos.

Uma das lições mais preciosas que ele tira desta guerra estúpida, neste Novo Vietnã, está nas interações com iraquianos que lhe ensinam algo de bom. O engenheiro mecânico iraquiano, dizendo que aprendeu tudo aquilo estudando de graça na Universidade, estarrece o Soldado Ocre – e o o estadunidense responde com uma síntese da perversão que carcome o cerne de seu país: “In America, nothing’s free.”

A descoberta de que o ensino universitário iraquiano é grátis deixa o soldado em maus lençóis na tentativa de acreditar que os EUA são a Civilização e o Iraque a barbárie. O filme está repleto de alfinetadas na atitude etnocêntrica e narcísica dos Yankees, que vem imbuídos de uma ideologia que conta a lorota suprema: eles estão ali para levar Liberdade e Democracia para um país antes governado pelo doidão-das-armas-de-destruição-em-massa, Saddam Hussein.

Hoje já sabemos que a Coalizão liderada por George W. Bush, apoiada pela Inglaterra e pela Espanha, cometeu alguns dos piores crimes contra a humanidade deste jovem século XXI com o início das agressões ao Iraque em 2003 – já que não havia vínculo demonstrável entre o regime de Hussein e o 11 de Setembro,  e além disso jamais foram encontradas as tais armas de destruição em massa que foram utilizadas para justificar a empreitada militar. De tudo o que já se escreveu sobre o tema, para além de recomendar as análises de Noam Chomsky, considero que Arundhati Roy foi a pensadora-ativista que melhor expressou a verdade sobre o tema.

Em sua estréia como cineasta brasileiro no exterior, Fernando Coimbra soube imprimir uma perspectiva crítica, talvez conectada ao seu status de latino-americano, a esta história em que o protagonista vai deixando de crer na ideologia simplista do “ou você está conosco, ou está com os terroristas”.

É a crônica do colapso da ideologia conexa à Guerra Contra o Terror que Castelo de Areia flagra. As comunidades devastadas pelos bombardeios, sistemas de água e eletricidade destruídos, abastecimento de alimentos caotizado, tudo isso por graça da Intervenção Filantrópica das Forças Armadas dos EUA!

No meio de tal overdose de desespero, crianças iraquianas circundam os tanques made in USA, desprovidas de armas mas fazendo com as mãos o gesto de atirar contra os invasores. Os soldados, por detrás de seu heavy gear militar, protegidos por coletes à prova-de-bala e capacetes anti-choque, às vezes olham para aquilo e tentam se apegar ao discurso oficial: essa criançada não presta, são um bando de jihadistas, não podemos ter piedade!

Para o protagonista Ocre, porém, a máscara da ideologia já está caída no solo, arruinada, rasgada pelas próprias violações constantes e brutais dos direitos humanos cometidas pelo Exército Interventor.

Torna-se impossível crer que os soldados dos EUA estão ali como força filantrópica, para o bem dos iraquianos, pois eles são testemunhas oculares do imenso sofrimento humano acarretado pelo caos bélico instaurado pela invasão. Não se trata de pintar um retrato idílico do Iraque antes de 2003 – o filme destaca que vem de longe, na história, o conflito sangrento entre xiitas e sunitas, com períodos de exacerbamento das rixas que constituem irrupções de guerra civil sectária.

Mas o que Castelo de Areia torna explícito é que os EUA não estavam ali como Anjos da Redenção, mas sim aplicando à risca aquilo que Naomi Klein teorizou sob o conceito de Doutrina do Choque.

Primeiro, uma intervenção militar brutalizante, shock therapy com munição bélica pesada, realizada com todo o poderio de destruição possuído pela nação do mundo de maior orçamento militar do planeta, além de ser a pátria com maior arsenal atômico e a única a já ter utilizado de bombas atômicas contra populações civis (em Hiroshima e Nagasaki). Depois, com o país arruinado pelas bombas, o “Momento da Bondade”: os EUA, delegado pelo próprio Bom Deus misericordioso como agentes de exportação da Freedom and Democracy, oferecem aos Iraquianos umas excelentes oportunidades de negócios na reconstrução do país.

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Junho de 2018


ASSISTA CURTAS-METRAGEM DE F. COIMBRA:

TRÓPICO DAS CABRAS (2007)

POBRES-DIABOS NO PARAÍSO (2005)

NÃO BASTA DIZER NÃO – A utopia de Naomi Klein para um outro mundo possível

“Um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de ser consultado.”
Oscar Wilde (1854 – 1900), escritor irlandês

PARTE 1 – O FUTURO TURBULENTO AO QUAL JÁ ESTAMOS CONDENADOS

“Não basta dizer não!”brada Naomi Klein em seu novo livro (Bertrand Brasil, 2017, 292 pgs, compre), uma obra crucial para navegarmos nas águas revoltas de nosso mundo convulsionado. Não há dúvida de que precisamos manter em nosso arsenal toda uma resoluta gama de nãos – não ao sequestro do sistema político por gangues de plutocratas! não ao extrativismo e queima de combustíveis fósseis que aquecem o planeta e propulsionam catástrofes ecológicas e humanitárias! não ao massacre dos povos originários, ao encarceramento em massa dos desvalidos, ao desrespeito aos direitos civis de refugiados! etc. – mas ao que desejamos e necessitamos dizer sim?

A jornalista e ativista canadense, sempre intrépida na denúncia dos horrores ocorridos em um planeta vendido, onde a febre da corrida aos lucros transforma grupos humanos e ambiente natural em entidades descartáveis, agora dá sequência a uma carreira de imensa coerência e coragem, que já tinha nos legado Sem Logo, Doutrina do ChoqueIsso Muda Tudo, tríade de livros que desmascaram com contundência as injustiças e desigualdades produzidas pela hegemonia neoliberal.

Agora, em plena Era Trump, Naomi Klein nos fornece outro guia essencial “para enfrentarmos o futuro turbulento ao qual já estamos condenados”, para emprestar uma expressão do Manifesto Leap, que ela ajudou a redigir e disseminar. Para além das necessárias resistências contra a ascensão neofascista, as práticas de ódio racista e xenófobo, a manutenção de opressões instituídas baseadas em segregações de gênero, raça e classe, ela chega para propor uma coalização ampla que ouse sonhar com uma plataforma de soluções integradas

“para fazer avançar políticas que melhorassem vidas de forma dramática, acabassem com o abismo entre ricos e pobres, criassem grandes números de empregos com bons salários e baixas emissões de carbono e revigorasse a democracia de baixo para cima. Isso seria o inverso da Doutrina do Choque. Seria um Choque Popular.” (p. 254)

O Choque Popular não é apenas uma fantasia utópica desconectada da realidade concreta, pois temos muitos exemplos dele em ação: os protestos de Seattle contra a OMC em 1999 e o levante popular dos bolivianos de Cochabamba contra a privatização da água sendo alguns dos exemplos mais citados. Naomi Klein gosta de nos relembrar também do que ocorreu na Argentina, entre o fim de 2001 e o começo de 2002, quando o país, que era considerado pelo FMI como um “estudante modelo”, totalmente servil aos ditames do capital financeiro, desmoronou para uma crise sócio-política que derrubou quatro presidentes em apenas três semanas.

O modo como o Levante de Buenos Aires contestou de modo radical a Doutrina do Choque neoliberal, contrapondo a esta uma autêntica onda de Choque Popular muito bem documentada pelo documentário de Klein, The Take – inspira-nos a forjar táticas em que uma democracia de baixo para cima ouse se erguer na era em que as multidões cada vez mais percebem a falência e o fiasco dos mecanismos tradicionais de representação política. Pois nossos sonhos não cabem nas urnas.

Citando Eduardo Galeano, Naomi Klein também diz que a utopia, ainda que se afaste de nós enquanto caminhamos em sua direção, tem sua serventia. A utopia serve para caminharmos. Olhando para o passado, Naomi Klein tenta nos convencer da importância crucial que teve, nas transformações sociais do passado, a coragem

“das pessoas que ousavam sonhar grande, em voz alta, em público – explosões de imaginação utópica. (…) É essa capacidade imaginativa, a habilidade de vislumbrar um mundo radicalmente diferente do presente, que está em larga medida faltando desde que o grito de NÃO começou a ecoar ao redor do mundo em 2008. No Ocidente, há pouca memória popular de qualquer outro tipo de sistema econômico. Há culturas e comunidades específicas – mais notavelmente comunidades indígenas – que mantiveram vivas, de maneira zelosa, memórias e modelos de outras formas de viver, não baseadas na propriedade da terra ou em uma obtenção infindável de lucro. Porém, a maioria de nós que estamos fora dessas tradições se vê completamente dentro da matriz do capitalismo.

O que explica em parte por que os movimentos que de fato emergiram – do ‘movimento das praças’ europeu ao Occupy Wall Streeet e até mesmo à revolução do Egito – tinham muita clareza em relação ao seu não: não à ganância dos banqueiros, não à austeridade e, no Egito, não à ditadura. Mas o que muitas vezes faltava era uma visão clara e cativante do mundo além desse não. E, nessa ausência, os choques continuaram vindo.

Com a misoginia e a supremacia branca desencadeados, com o mundo à beira do colapso ecológico, com os últimos vestígios da esfera pública destinados a serem devorados pelo capital, está claro que precisamos fazer mais do que apenas traçar um limite e dizer BASTA. Sim, precisamos fazer isso e precisamos traçar um caminho crível e inspirador para um futuro diferente. E esse futuro não pode simplesmente ser onde estávamos antes de Trump aparecer (também conhecido como o mundo que nos deu Trump). Tem que ser um lugar no qual nunca estivemos antes.” (KLEIN, N: 2017, p. 236, 237)

Boa parte do ativismo de Naomi Klein concentra-se atualmente na denúncia de um sistema energético viciado em combustíveis fósseis, fontes não renováveis e altamente poluentes, que estão entre as causas principais do Efeito Estufa. A plataforma Leap propõe um salto para bem longe de uma economia insustentável como esta em que ainda estamos presos, a de um capitalismo ecocida pois baseado em extrativismo e consumismo desmesurados, em explícito desrespeito aos equilíbrios ecossistêmicos que sustentam a vida sobre a face da terra.

“Temos um sistema baseado na apropriação e extração ilimitadas, na exploração máxima… Somos todos parte de um sistema que explora incessantemente a generosidade natural do planeta, sem proteger os ciclos de regeneração, ao mesmo tempo que dá perigosamente pouca importância aonde estamos despejando poluição, sejam os sistemas hídricos que sustentam a vida, seja a atmosfera que mantém nosso sistema climático equilibrado… Isso é o que um sistema viciado em lucro e riqueza a curto prazo tem que fazer: tratar as pessoas e a Terra como recursos a serem explorados até o limite ou como lixo a ser descartado bem longe das vistas, seja nas profundezas do oceano, seja no fundo de uma cela de prisão.” (p. 258)

Em seus trabalhos jornalísticos, muito esforço é posto por Klein na tentativa de nos convencer de que temos que migrar urgentemente para uma economia de energia limpa trabalhos verdes. Isso exige um enfático não ao atual reinado de mega-corporações petrolíferas (como a Shell e a ExxonMobil) e a todo o complexo industrial conexo à indústria automobilística e à infraestrutura rodoviária. É suicídio civilizacional que continuemos com uma economia tão fortemente baseada em automóveis com motores de combustão interna que queimam petróleo, vomitando CO2 na atmosfera, quando temos tecnologia para migrar para carros elétricos, painéis solares, energia eólica etc.

“Por exemplo, quando falamos em TRABALHOS VERDES, geralmente pensamos em um indivíduo de capacete instalando um sistema de energia solar. E esse é um dos tipos de trabalho verde, e um tipo importante, mas não é o único. Cuidar de pessoas idosas e doentes não consome muito carbono. Fazer arte não consome muito carbono. Ensinar é baixo em emissões de carbono. Trabalhar em uma creche também. Entretanto, esse tipo de trabalho, em grande parte realizado por mulheres, tende a ser subvalorizado e mal remunerado, e com frequência é o alvo dos cortes governamentais. Então decidimos ampliar deliberadamente a definição tradicional de trabalho verde para qualquer coisa útil e enriquecedora para as nossas comunidades que não queime muitos combustíveis fósseis. A enfermagem é energia renovável. A educação também… Foi uma tentativa, em resumo, de mostrar como substituir uma economia baseada na destruição por uma economia baseada no amor.” (p. 259)

A utopia de Naomi Klein – “uma economia baseada no amor”, onde trabalhos vinculados à educação e à medicina sejam melhor remunerados do que trabalhos na indústria poluidora e ecocida – confronta-se hoje com o poderio, altamente distópico, de figuras como Donald Trump, Marine Le Pen, Jair Bolsonaro etc… Por isso Não Basta Dizer Não é um livro tensionado pela dialética entre a denúncia e o anúncio, sobre a qual tanto nos ensinou Paulo Freire.

É preciso denunciar (não), mas também anunciar (sim): são duas faces da mesma moeda a denúncia dos inúmeros crimes sócio-ambientais cometidos por corporações petrolíferas ou automobilísticas (a Shell já foi eleita a pior empresa do mundo pela ONG Global Witness; a Volkswagen envolveu-se em escândalos corporativos por ter mentido por décadas sobre o impacto ambiental de seus motores; a General Motors só não foi à falência por ter sido salva com bilhões de dólares em recursos públicos…) e o anúncio de um outro mundo possível (também responsabilidade que assumiu para si, desde a Era Lula, o movimento internacional do Fórum Social Mundial, inaugurado em Porto Alegre em 2003).

“Hoje, a energia que a maioria de nós usa pertence a um número minúsculo de corporações que a fornecem para gerar lucro para seus acionistas. Seu principal objetivo, na verdade seu dever fiduciário, é maximizar o lucro – e é por isso que a maioria das empresas de energia tem encarado com tanta relutância a mudança para fontes renováveis. Mas e se, perguntamos, a energia que usamos fosse propriedade de cidadãos comuns, controlada de maneira democrática? E se mudássemos a natureza da energia e a estrutura de sua propriedade?” (p. 262)

A proposta de Naomi Klein é retirar a energia das garras do domínio corporativo, lutar para que “a geração de energia fosse propriedade pública, das comunidades e de cooperativas energéticas. Se os sistemas energéticos nos pertencerem democraticamente, então poderemos usar o lucro para construir as estruturas sociais necessárias nas áreas rurais, vilas e cidades – creches, assistência para idosos, centros comunitários e sistemas de trânsito” (p. 262), o que não pode ser desprezado como mero devaneio utópico pois tem um exemplo concreto na Dinamarca, que

“na década de 1980, foi pioneira na mudança para um sistema de energia controlado pelas comunidades, com políticas governamentais que encorajavam e subsidiavam parques eólicos pertencentes a cooperativas. (…) Na Dinamarca, em 2000, cerca de 85% das turbinas eólicas do país estavam nas mãos de pequenos proprietários, como agricultores e cooperativas.” (p. 263)

Imaginem – como fez John Lennon – um mundo-alternativo, onde tivéssemos acabado “com os subsídios para os combustíveis fósseis, que são cerca de 775 bilhões de dólares em todo o mundo” e tivéssemos concordado com cortes nos gastos militares (“se os orçamentos militares dos 10 países que têm mais gastos militares no mundo sofressem um corte de 25%, seriam liberados até 325 bilhões de dólares, de acordo com números informados pelo Stockholm International Peace Research Institute”, p. 265).

Diante da emergência em que estamos, com a iminência de catástrofes sócio-ambientais e o acirramento de conflitos bélicos e fluxos migratórios de refugiados, é preciso levar a sério, e logo, o alerta e o convite de Naomi Klein. Saltemos, antes que o cometa que nos tornamos venha colidir com nossa civilização condenada.

É preciso dizer não a um capitalismo cuja democracia de fachada só permite que escolhamos com qual molho seremos devorados, após devidamente cozidos no fogaréu do caos planetário. Nossos sonhos não cabem nas tuas urnas, plutocratas que hoje nos dominam! Queremos um mundo onde caibam todas as vidas. Com a somatória de nossos nãos – os motivos que temos para a revolta, a indignação e a insurreição legítima não faltam – unida à coerência utópica de nosso sim de soluções integradas, podemos rumar – aos saltos! – rumo a uma alter-realidade, a uma outra sociedade, que deixou de ser apenas intensamente desejável para tornar-se imprescindivelmente necessária.

PARTE 2: TRUMPLÂNDIA, A DISTOPIA ENCARNADA

Naomi Klein chama a tomada da Casa Branca por Donald Trump de golpe corporativo. Como esta catástrofe, que antes de ocorrer parecia apenas o tipo de bizarrice horrenda capaz apenas de ilustrar um episódio de South Park, pôde acontecer após os 8 anos de presidência de Barack Obama? No diagnóstico veiculado por Não Basta Dizer Não, Trump é o sintoma de uma sociedade enlouquecida, posta fora de órbita de qualquer bom senso racional sobre a gestão social por uma certa agudização do ideário neoliberal, anarco-capitalista, uma ideologia tóxica e que precisaria ser urgentemente superada :

“Trump não é de maneira nenhuma uma ruptura, mas sim a culminação – o fim lógico – de muitas histórias perigosas que nossa cultura vem contando há muito tempo. Que a ganância é uma coisa boa. Que o mercado comanda tudo. Que dinheiro é o que importa na vida. Que os homens brancos são melhores do que o resto das pessoas. Que o mundo natural existe para ser saqueado por nós. Que os vulneráveis merecem seu destino e que o 1% merece suas torres douradas. Que qualquer coisa pública ou comunitária é sinistra e não merece ser protegida. Que estamos cercados de perigos e deveríamos cuidar apenas de nós mesmos. Que não há alternativa para nada disso.

Ao se considerar que essas histórias são, para muitos de nós, parte do ar que respiramos, Trump realmente não deveria ser encarado como um choque. Um presidente bilionário que se gaba de poder pegar mulheres por suas genitálias ao mesmo tempo que chama os mexicanos de estupradores e zomba das pessoas com deficiência é a expressão lógica de uma cultura que garante níveis indecentes de impunidade aos ultrarricos, que é obcecada por competições no estilo ‘o vencedor fica com tudo’ e que está fundamentada em uma lógica da dominação em todos os níveis… Passei a acreditar que deveríamos encarar o primeiro presidente norte-americano saído de um reality show e no comando de armamentos nucleares de maneira similar, como uma ficção distópica real.” (p. 276)

Donald Trump na Casa Branca é a encarnação da distopia em nosso real histórico. Não é à toa que explodiram nas livrarias dos EUA, logo após a eleição de Trump,  as vendas de livros de distopia política, como 1984 de George Orwell e Não Vai Acontecer Aqui de Sinclair Lewis. Também não é mera coincidência que a história da teledramaturgia e da arte tenha sido tão marcada por The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), obra de Margaret Atwood escrita nos anos 1980 e que se tornou uma série que tornou-se uma das obras-primas culturais lançadas em plena Era Trump.

Por detrás do slogan Make America Great Again, o que há é um bilionário narcisista, infantilóide, repleto de tendência à psicose e à megalomania, que mostrou-se um manipulador de massas tão eficaz quanto um dia foi o Ministro de Propaganda do regime Nazi, Goebbels. “A parte mais potente da promessa de Trump a sua base eleitoral: vou acabar com a competição das pessoas pardas, que serão deportadas ou banidas, e dos negros, que vão ser presos se lutarem por seus direitos. Em outras palavras, ele ia colocar o homem branco de volta no topo em segurança.” (p. 106)

Trump, com seu discurso repleto de ódio, mostrou algo cada vez mais óbvio: não devemos subestimar jamais o poder do ódio, e a escalada fascista que hoje vivenciamos é também um reaflorar, um voltar à tona, de uma raiva irracional, de um horror à alteridade, de uma intolerância em relação à outridade variante, de uma fobia da diversidade, e que no caso de Trump está conectada a uma personalidade doentia de tão racista e xenófoba que se manifesta.

Trump é a encarnação tão grotesca de um grosseirão da supremacia branca e de um empresário who has shit for brains que ele parece ter sido criado, não por um Divino Deus (que não teria perdido seu tempo criando tal estrupício), mas sim por um caricaturista que estivesse a serviço de Lúcifer… Agora, em prol da própria sobrevivência da possibilidade de uma civilização humana minimamente capaz de fornecer condições de vida digna aos humanos, precisamos compreender “o complexo suporte que permitiu que um bandido cleptocrata colocasse as mãos no cargo mais poderoso do mundo como se fosse a recepcionista de um clube de strip-tease…” (p. 111)

O Tuiteiro-General, que hoje ocupa a Casa Branca e parece brincar de bravatas envolvendo bombas nucleares com a maturidade de um pirralho pré-adolescente que joga videogame contra um vilão de HQs chamado North Korea, foi um dia o produtor e apresentador de um reality show chamado O Aprendiz (The Apprentice), que passava na NBC e que estreou em 2004. 

Naomi Klein, para que ninguém precise perder seu tempo assistindo essa bosta, resume a série: “O Aprendiz era explicitamente sobre a corrida para sobreviver na selva violenta do capitalismo moderno. O primeiro episódio começava com a cena de um sem-teto dormindo na rua – em outras palavras, um fracassado. Então a câmera cortava para Trump em sua limusine, vivendo o sonho – o grande vencedor… ” (p. 61)

“A mensagem era inequívoca: você pode ser o morador de rua ou pode ser Trump. Esse era o grande enredo sádico do programa: faça as jogadas certas e seja o único e sortudo vencedor, ou sofra a humilhação abjeta de ser criticado e em seguida demitido pelo chefe. Era um grande feito cultural: depois de décadas de demissões em massa, queda do padrão de vida e normalização de empregos extremamente precários, Mark Burnett e Donald Trump deram o golpe de misericórdia: transformaram o ato de demitir pessoas em entretenimento de massa.

Todas as semanas, para milhões de espectadores, O Aprendiz transmitia o argumento de venda central da teoria do livre mercado, dizendo que, ao dar vazão a seu lado mais egoísta e implacável, você está, na verdade, agindo como um herói – criando empregos e estimulando o crescimento econômico. Não seja legal, seja um predador. É assim que você ajuda a economia e, mais importante, você mesmo…

Nas temporadas posteriores, a crueldade subjacente do programa ficou ainda mais sádica. O time vencedor vivia em uma luxuosa mansão, bebendo champanhe em espreguiçadeiras infláveis na piscina, indo e vindo de limusine para encontrar celebridades. O time perdedor era deportado para barracas no quintal, estacionamentos de trailers de Trump… Os moradores das barracas, a quem Trump se referia alegremente como ‘os desafortunados’, não tinham eletricidade, comiam em pratos de papel e dormiam ao som de cachorros uivando. Eles espiavam por uma fresta na cerca viva para ver de quais maravilhas extravagantes os ‘afortunados’ estavam desfrutando.

Em outras palavras, Trump e Burnett criaram deliberadamente um microcosmo das desigualdades muito reais e cada vez mais acentuadas fora do programa… Havia uma atmosfera de Jogos Vorazes, embora limitada pelas restrições das redes de TV no que diz respeito à violência não simulada. Em um dos episódios, Trump dissse ao time das barracas que ‘a vida é dura’ e então era melhor que eles fizessem todo o possível para passar por cima dos perdedores e se tornarem vencedores como ele… esse tipo particular de luta de classes televisionada mostrou que a farsa vendida para a geração anterior – de que o capitalismo ia criar o melhor dos mundos possíveis – estava completamente ausente. Não: trata-se de um sistema que dá origem a alguns poucos grandes vencedores e hordas de perdedores. Então era melhor se certificar de estar no time vencedor.” (p. 61)

 

PARTE 3 – A DIALÉTICA DA UTOPIA E DA DISTOPIA

Uma das novidades que Não Basta Dizer Não traz aos leitores de Naomi Klein está no mergulho mais aprofundado que ela faz no âmbito da dialética entre utopia e distopia. Ela está ciente de que vivemos um autêntico boom cultural distópico e que ele reflete, como um Black Mirror, tudo que há de sinistro no presente e nas tendências para o futuro próximo que manifesta o atual status quo:

“A cidade murada onde os poucos ricos vivem em relativo luxo enquanto as massas do lado de fora lutam umas contra as outras pela sobrevivência é basicamente o pressuposto fundamental de todo filme de ficção científica distópica produzido hoje em dia, de Jogos Vorazes, com a decadente Capital versus as colônias desesperadas, a Elysium, com sua estação espacial de elite que mais parece um spa pairando sobre uma favela crescente e letal.” (p. 201)

As distopias invadem até mesmo um território cultural normalmente dominado pelo kitsch, como é o caso das animações de grandes estúdios como Disney e Pixar, como o caso Wall-E explicitou: em um planeta reduzido a escombros de uma hecatombe nuclear, um exército de robôs lixeiros tenta limpar o terreno de toda a baderna criada pelos humanos, cujos poucos exemplares sobreviventes agora habitam resorts em órbita onde chafurdam na junk food e na TV estupidificante, sempre viciados em telas brilhantes que lhes alimentam com alienação constante e sempre requentada.

A imaginação distópica parece estar vencendo a imaginação utópica. A síntese dessa dialética têm, por hora, propendido para o lado da distopia, mas Naomi Klein não acha que devemos nos resignar a isso. Também nossa imaginação não pode e não deve ficar refém de um imaginário negativista, que sempre imagina o pior – o que eu costumo chamar de Síndrome de Schopenhauer. Que é também uma fé dogmática na Lei de Murphy…

“Nós imaginamos coletivamente esse fim extremo de vencedores e perdedores para a nossa espécie tantas vezes que uma de nossas tarefas mais prementes é aprender a imaginar outros fins possíveis para a história humana, fins nos quais nos unimos diante das crises em vez de nos dividirmos, acabamos com fronteiras em vez de construirmos mais.

Porque sabemos muito bem aonde a estrada na qual estamos vai nos levar. Ela vai nos levar a um mundo de Katrinas, um mundo que é a confirmação de nossos pesadelos mais catastróficos. Embora haja uma subcultura florescente de ficção científica utópica, as safras atuais de livros e filmes distópicos de sucesso imaginam e reimaginam aquele mesmo futuro de Zona Verde / Zona Vermelha repetidas vezes. porém, o objetivo da arte distópica não é atuar como um GPS temporal, mostrando-nos nosso destino inevitável. O objetivo é nos alertar e nos fazer despertar, de forma que, vendo aonde esse caminho temerário vai nos levar, sejamos capazes de mudar de rumo.” (Klein, p. 202)

Há algo de chocante no modo como os EUA caiu de joelhos diante de Trump, consumando a entrega do poder político a uma figura notória por seu comportamento de “tubarão” capitalista impiedoso, mas Naomi Klein acredita que

“a falta de constrangimento de seu golpe corporativo contribuiu erormemente para fazer com que uma mudança sistêmica pareça mais necessária. Se os titãs da indústria americana podem se enfileirar avidamente atrás desse homem – com todos os seus terríveis ódios, sua venalidade e seu vazio -, se Wall Street pode se regozijar com as notícias de seus planos de deixar que o planeta queime e que os mais velhos morram de fome, e se uma parte tão grande da mídia é capaz de elogiar os seus mísseis… bem, então muitas pessoas estão chegando à conclusão de que não querem fazer parte de um sistema como esse. Com essa elevação da figura mais baixa de todas à posição mais elevada, a cultura da extração máxima, da apropriação e do descarte infindáveis chegou a uma espécie de nível crítico. Claramente, é essa cultura em si que deve ser confrontada agora, e não política por política, mas em sua raiz.” (Pg. 280)

Essa raiz envenenada, que têm produzido o câncer na Árvore da Vida hoje tão tripudiada a ponto de estarmos vivenciando a Sexta Extinção em Massa da biodiversidade planetária (a primeira causada pela Humanidade como força geológica), não é outra senão a ideologia capitalista em sua vertente ultraliberal. “Eis o que precisamos compreender profundamente: o feitiço do neoliberalismo foi quebrado, massacrado sob o peso da experiência vivida e de uma montanha de provas”, diz Naomi Klein (p. 281). Ela ensina-nos de maneira muito didática as evidências que provam que o capitalismo neoliberal não é uma proposta com futuro. Seguindo no mesmo rumo, praticando o business as usual, nossa única destinação é o abismo e a catástrofe.

A percepção social da ineficácia, da injustiça e do ecocídio conectados à hegemonia neoliberal cresce na esteira de eventos como o crash financeiro de 2008 e os eventos climáticos extremados, como o Furacão Katrina, que expôs a fratura exposta no seio da sociedade dos EUA, quando o poder público explicitou sua incompetência para atender às necessidades da população de New Orleans em meio às urgências do desastre.

Vamos na direção de um mundo repleto de Katrinas – e é a Doutrina do Choque aquilo que nos promete o atual status quo. Já passou da hora de nos engajarmos na construção de um outro mundo, a ser construído com o colorido explosivo de nosso Choque Popular.

PARTE 4 – O SALTO QUE É PRECISO TER A OUSADIA  DE DAR

O que Naomi Klein propõe com o Movimento Leap, do qual ela é uma importante liderança, mas que também tem como intelectuais e artistas propulsores figuras como Avi Lewis, Neil Young, Bill McKibben, dentre muitos outros, é um salto para fora da piscina tóxica do capitalismo neoliberal globalizado. “O Leap é parte de uma mudança no zeitgeist político, à medida que muitos vão se dando conta de que o futuro depende de nossa capacidade de nos unir acima de divisões dolorosas e obter liderança daqueles que tradicionalmente têm sido mais excluídos. Chegamos ao limite da política de silos, na qual todos lutam em seu próprio canto sem mapear as conexões entre as nossas várias batalhas e sem uma ideia clara dos conceitos e valores que devem formar a base moral do futuro do qual precisamos.” (p. 271)

Eis uma faceta ainda pouco explorada do trabalho multifacetado de Naomi Klein: seu lado de filósofa da ética, de “moralista” no sentido Chamfort e La Rochefoucauld da palavra, o desejo desta autora de discutir valores e pôr em julgamento ideologias, que transforma sua obra em algo que transborda o mero jornalismo. Naomi Klein, se consegue informar-nos com enorme competência, não se vê como alguém que deve limitar-se à informação: seu texto age como formação e também como tribunal de julgamento. Ela nos forma para o pensamento crítico e para os desafios da práxis transformadora em um movimento simultâneo à sua denúncia do neoliberalismo no Tribunal da História… É uma ambição estratosférica, e ela é irreverente o bastante para se pretender à altura da tarefa.

Migrando do jornalismo para as trincheiras da luta global altermundialista, Naomi Klein hoje se enxerga como uma cidadã global e influenciadora da opinião pública cuja voz é fortemente ouvida. Entre seus leitores, admiradores, que acompanham seu trabalho e debatem com suas ideias, ela conta com um dream team que inclui Noam Chomsky, Cornel West, Arundhati Roy, Michael Stipe, Danny Glover, Michelle Alexander, dentre outros.

Investindo suas energias na imaginação utópica de um “sim cativante que estabeeça um plano de melhorias tangíveis na vida diária, sem medo de palavras poderosas como redistribuição reparação”, “determinada a desafiar a equação da cultura ocidental de uma ‘vida boa’ com confortos cada vez maiores dentro de casulos ainda mais isolados de consumo” (p. 280), Naomi Klein é hoje uma das mestras daqueles entre nós que sabem: não basta dizer não. Mãos à obra, companheiros! Um outro mundo possível é um constructo que a nossas mãos e mentes compete.

Para “ampliar os horizontes do que é politicamente possível” (p. 141), Naomi Klein recomenda sobretudo uma abordagem inter-seccional, que una as diferentes causas em um movimento solidário, superando a dispersão das pautas e das lutas, o que ela chama de “política de silos”, quando as pessoas ficam presas a “caixas de causas únicas”: alguém que é ativista apenas da causa anti-racista, mas não vê razão para se envolver com a causa feminista ou socialista, fracassa em perceber os vínculos necessários, que intelectuais vinculadas ao feminismo negro como Angela Davis e Audre Lorde mostraram, que há entre as opressões baseadas em raça, gênero e classe. Se as opressões estão entrelaçadas, nossas lutas contra essas opressões também devem entrelaçar-se.

Não há porque temer uma união entre o Black Lives Matter e a Marcha Global do Clima (People’s Climate March); não há razão para que as Marchas de Mulheres se vejam isoladas em relação às mobilizações ao estilo Ocuppy Wall Street; assim como a força seria expandida caso MST e MTST, no Brasil, pudessem se perceber como um movimento solidário que luta pela reforma agrária e urbana.

Os zapatistas de Chiapas e os maoístas da Índia são aliados em potencial para os levantes anti-neoliberais que no futuro virão, contestando as políticas de austericídio brutal (como aquela praticada pelo regime Temer após o golpe de 2016). E, diante da distopia corporativa que se globalizou, o brasileiro tem que saber aprender as lições com os bolivianos que, em Cochabamba, conseguiram expulsar a Bechtel do país na “Guerra da Água” – onde o povo boliviano mostrou, através de um Choque Popular, que não aceitava a privatização da água.

“Nos meses e anos por vir, as várias táticas de resistência vão ser mais necessárias do que nunca: os protestos nas ruas, as greves, as contestações judiciais, os refúgios, a solidariedade acima das divisões de raça, gênero e identidade sexual – tudo isso vai ser essencial… Está se tornando possível ver um caminho genuíno adiante – novas formações políticas que, desde a sua origem, vão unir a luta por justiça econômica a uma profunda análise de como o racismo e a misoginia são usados como ferramentas poderosas para impor um sistema que enriquece ainda mais os já obscenamente ricos à custa tanto de pessoas quanto do planeta. Formações que podem se tornar o lar de milhões de pessoas que estão se engajando no ativismo e na organização pela primeira vez, costurando uma coalizão multirracial e intergeracional unida por um projeto transformacional comum.” (p. 271 e 274)

Este projeto utópico é embasado, por Klein, em uma doutrina sobre a natureza humana, uma teoria sobre o que nos move psicologicamente, somada a um amplo diagnóstico histórico e sociológico sobre as causas do fascínio das ideologias capitalistas, como aquela vinculadas às marcas comerciais e que foram alvo do bisturi crítico da jovem Klein em Sem Logo. A distopia encarnada que é Donald Trump é a culminação grotesca da mesma lógica das marcas que Naomi Klein já denunciava no início de seu percurso enquanto midiativista. Agora, ela é capaz de enxergar como ninguém os vínculos entre Donald Trump, sintoma de uma doença, e a causa determinante deste grave adoecimento da democracia estadunidense:

“Se é que existe um aspecto real no festival de fraudes que é a presidência de Donald Trump, é a voracidade em sua essência. A pura insaciabilidade. Trump gosta de falar sobre como não precisa de mais dinheiro – ele tem mais que o suficiente. No entanto, não consegue conter o ímpeto de vender seus produtos em todas as oportunidades, não consegue parar de explorar todos os ângulos. É como se ele sofresse de alguma obscura doença moderna – vamos chamá-la de um distúrbio de personalidade de marca – que faz com que promova sua marca quase que involuntariamente (…) Essa fome insaciável, esse oco no centro, de fato reflete algo real – um profundo vazio no coração da cultura que gerou Donald Trump.” (p. 73)

Donald Trump na Casa Branca é sintoma de uma cultura carcomida pelo câncer do ultracapitalismo que Stiglitz chamou de “fundamentalismo de mercado”. A ideologia neoliberal é isto: fundamentalista em sua defesa da liberdade dos mercados, ou seja, da liberdade dos ultraricos de ficarem ainda mais ricos, com prejuízo de quase todos. O laboratório foi o Chile de Pinochet, em que um golpe derrubou o governo socialista e democraticamente eleito de Salvador Allende, para instaurar um regime de adoração aos Chicago Boys e à doutrina de Milton Friedmann. Ronald Reagan e Margaret Tatcher depois levariam isso ao mainstream político anglosaxão.

Trump é só a careta obscena do estertor de uma doutrina que, se tiver futuro, aniquilará com o nosso. Se houver futuro digno de ser vivido, ele só se fará caso conseguirmos superar este capitalismo fundamentalista neoliberal, que hoje se mescla com o fascismo, filho da burguesia assustada. É contra a atual fusão de neoliberalismo e fascismo, respaldado pela demagogia populista da direita racista e xenófoba, que precisamos nos unir – e não basta dizer não. Temos que dizer sim à missão de construir um mundo melhor que este, arruinado e aos destroços, que nossos adversários estão, já faz tempo demais, perpetrando.

O que o neoliberalismo, enquanto ideologia tóxica mas sedutora, oferece-nos é um beco-sem-saída: consumismo narcísico, individualista; batalha por honras e famas em sociedades rachadas entre winners losers, com mentes lobotomizadas pelo discurso da meritocracia; extrativismo acéfalo, somado à continuação da queima de combustíveis fósseis e à proliferação do modelo agropecuário ecocida das factory farms; tudo isso azeitado por um petróleo que vem de reservas globais declinantes e é cada vez mais conquistado à base de guerras imperiais de conquista que estão entre os piores eventos contemporâneos de genocídio e crime contra a humanidade (como a invasão do Iraque pelos EUA em 2003 explicitou).

A ascensão neoliberal veio em um momento em que “as principais instituições que costumavam dar aos indivíduos um senso de comunidade e identidade partilhada estavam em forte declínio”, escreve Klein, apontando que assim o neoliberalismo disseminado acabou por fuzilar na raiz a própria possibilidade da felicidade humana autêntica. Pois, segundo ela, “nós, humanos, precisamos para o nosso bem-estar de algo pelo que nunca deixamos de ansiar: comunidade, conexão, um sentido de missão que vai além dos nossos desejos atomizados imediatos.” (p. 73)

O declínio das instituições comunitárias e a expansão das marcas corporativas, expressões da hegemonia neoliberal, nos trouxeram a um estado de alta insatisfação massiva dos humanos com a realidade que os circunda, instaurando um estado de divórcio e discórdia que expressa a vastidão da infelicidade humana, e isto pois

“ainda que nosso mundo dominado pelas marcas possa explorar a necessidade não atendida de ser parte de algo maior do que nós mesmos, não consegue satisfazê-la de maneira sustentável: você compra algo para fazer parte de uma tribo, uma grande ideia, uma revolução, e por um momento a sensação é boa, mas se dissipa quase antes de você jogar fora a embalagem do novo par de tênis, do último modelo de iPhone ou qualquer que seja seu substituto. Então você tem que encontrar uma maneira de preencher o vazio novamente. É a fórmula perfeita para um consumo infindável e uma perpétua automercantilização por meio das mídias sociais, e um desastre para o planeta, que não consegue sustentar esses níveis de consumo.

Mas é sempre importante lembrar: no cerne desse ciclo está uma poderosa força: o desejo humano de comunidade e conexão, que simplesmente se recusa a morrer. E isso significa que ainda há esperança: se reconstruirmos nossas comunidades e começarmos a extrair delas mais significado e uma sensação de vida boa, muitos de nós ficarão menos suscetíveis ao canto da sereia do consumismo irracional (e, nesse processo, podemos até passar menos tempo produzindo e editando nossa marca pessoal nas mídias sociais).” (p. 73-74)

 

Eduardo Carli de Moraes

Goiânia, Junho de 2018

 

SIGA VIAGEM – VEJA TAMBÉM:

AS REVOLUÇÕES SÃO INFINITAS – As lições da obra prima da ficção científica distópica, “Nós” de Zamiátin (URSS, 1920s)

Escrito na Rússia pós-Revolução Bolchevique, no início dos anos 1920, quando a nação estava em plena Guerra Civil, o livro Nós de Zamiátin (Ed. Aleph, 2017, 344pgs.) já teria entrado para a história da literatura distópica do século XX somente por esta façanha: inspirar a criação de duas das obras mais significativas da literatura no séc. XX: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984 de George Orwell.

No entanto, o livro vai muito além de ser somente o inspirador de obras primas subsequentes, sendo uma obra-prima por seu próprio mérito. E que segue pulsando relevância no contexto atual, quase 100 anos após sua publicação.

George Orwell foi uma das mentes brilhantes do século XX que melhor viu a fulgurância artística e política do magnum opus futurista-distópico de Zamiátin. Em uma resenha publicada em Londres, em 1946, o autor de A Revolução dos Bichos, que nunca escondeu o impacto que a leitura de Zamiátin teve sobre seu fazer artístico e sua atividade política, resumiu os porquês da forte ressonância de Nós na posteridade:

No século 26, na visão de Zamiátin, os habitantes de Utopia perderam a individualidade tão completamente que somente são conhecidos por números. Vivem em casas de vidro (isso foi escrito antes da invenção da televisão), o que permite que a polícia política, conhecida como Os Guardiões, possa supervisioná-los mais facilmente. Todos vestem uniformes idênticos, e costuma-se fazer referência a um ser humano tanto como “um número” quanto “um unif” (de “uniforme”). Se alimentam de comida sintética, e a recreação habitual é marchar em filas de 4 pessoas enquanto o hino do Estado Único toca em alto-falantes. A intervalos estabelecidos, é permitido, durante uma hora (conhecida como “Hora Pessoal”), baixar as cortinas em torno dos apartamentos de vidro… – GEORGE ORWELL (p. 318)

É impressionante a habilidade que Zamiátin, com fina ironia, tem ao delinear os contornos do Estado Único, gerido por um monarca-imperador chamado O Benfeitor –  que tem óbvias ressonâncias nas figuras de autoridade do Big Brother (O Grande Irmão) orwelliano e do Chefe-de-Estado em V de Vendetta (graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, adaptada para o cinema por James McTeigue em 2005).

Lá pelo século 26, na fantasia inventada por Zamiátin, todo o globo terrestre foi submetido ao poderio do Estado Único, que agora inicia a colonização de outros planetas. “Nós” tematiza, pois, uma espécie de imperialismo intergalático, subsequente ao período em que se exauriu completamente a possibilidade do bom e velho imperialismo internacional. A abordagem ousada desta temática prenuncia também a obra magistral de outro dos maiores gênios da ficção científica, Ray Bradbury, autor das Crônicas Marcianas e de Farenheit 451 (adaptado ao cinema duas vezes, por Truffaut e Bahrani).

Não tendo mais continentes a pilhar, nações a invadir, riquezas naturais a roubar, massacres e pogroms a perpetrar, o imperialismo capitalista deseja agora lançar seus foguetes para a empreitada de buscar colônias em outros planetas – e é esta a finalidade principal da nave Integral, super-foguete em que trabalha o protagonista e narrador de Nós. Trata-se um livro constituído inteiramente por anotações no diário realizadas pelo narrador em primeira pessoa, um matemático, engenheiro e astrofísico conhecido apenas pela sigla D-503.

D-503 é uma figura que, assim como Winston Smith, o protagonista do 1984 de Orwell, vai se descobrindo como ovelha negra no rebanho, como mosca na sopa das autoridades. Ele descreve-se, a certo ponto, como “um dedo cortado da mão”, saltitando por aí (p. 145).

Ele vai desviando da norma, saindo dos eixos da uniformidade compulsória, adquirindo uma doença perigosa: desenvolve uma alma. E neste mundo as autoridades querem que sejamos todos mecanismos. Que funcionemos como relógios e que todas nossas ações sejam cronometradas e coordenadas pela central estatal, o Estado Único.

Há uma Tábua das Horas destinada a sincronizar as milhões de pessoas que constituem as massas adestradas: todos acordam e dormem, almoçam e jantam, trabalham e se divertem, sempre nos mesmos horários. Tudo se pratica sob a Ditadura do Despertador e do Cronômetro.

Tudo isso se passa numa espécie de território-bunker, todo cercado por um gigantesco Muro – que segrega aquela nação, que está sob rédeas curtas e governada por control freaks,  da natureza selvagem e exuberante que a rodeia.

O protagonista nos conta ainda que esta civilização é herdeira da “Guerra dos 200 Anos”, conflito que atravessou dois séculos e no qual as mortandades em massas foram tão gigantescas que apenas 0,2% da Humanidade sobreviveu (p. 41).

Na fachada, esta civilização é uma Utopia; quando penetramos em suas entranhas, ela se expressa como Distopia. Ela faz propaganda de si mesma como civilização que gera a Felicidade para todos os seus cidadãos – e os inimigos do Estado Único são, por isso, chamados de “inimigos da felicidade”.

Como Orwell bem viu, “o princípio condutor do Estado é que felicidade e liberdade são incompatíveis. No Jardim do Éden, o homem era feliz, mas em sua loucura exigiu liberdade e foi expulso para o ermo. Agora o Estado Único restaurou sua felicidade ao retirar-lhe a liberdade.” (ORWELL, p. 319)

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções

Em Nós, de Zamiátin, também há um movimento clandestino de libertação que está em pleno levante contra o Estado Único e planeja sequestrar a espaçonave Integral.

O protagonista, D-503, acaba se enredando nas teias de aranha desta conspiração anti-estatal, deste grupo revolucionário em insurreição, cuja natureza e ideologia não se delineiam com clareza.

Sabemos apenas que os revolucionários agem concretamente através do projeto de sequestrar a Integral, numa espécie de apropriação/expropriação de um artefato tecnológico de primeira ordem para o Estado Único. Sabemos também que tomam a iniciativa de dinamitação do Muro Verde – uma entidade que eu imagino parecida com o Muro entre EUA e México, a famigerada La Migra.

O conflito lancinante e alucinatório que atravessa o psiquismo do protagonista do romance, o atormentado D-503, tem a ver também com sua posição desconfortável no meio de um cabo-de-guerra entre Estado e Revolução.

Pois D-503 é um tecnocrata importantíssimo para o Estado Único e tem sob sua responsabilidade o projeto aeroespacial Integral, mas acaba se apaixonando por uma moça, número I-330, que integra o movimento de resistência clandestino. É um tema que depois Bradbury replicará em Farenheit 451 através do romance entre Montag e Clarice.

Por força dos magnetos poderosos do amor, D-503 é arrastado, por parte da travessia que registra em seus diários, à rota da rebelião. Ou pelo menos a atos de insubmissão aos ditames do Estado. D-503 descobre então que “só se pode amar o insubmisso” (p. 105).

Em tempos em que o amor é proibido, amar se torna um ato revolucionário.

Porém D-503 não é um revolucionário, mas um funcionário do Estado, e nem mesmo a força magnética do amor é capaz de vencer o cabo-de-guerra em prol da revolução: o Benfeitor acaba sendo mais poderoso. D-503, que flerta com a revolução, termina no peleguismo. Prefere a cumplicidade com o establishment à insurreição transformadora. Orwell foi ao ponto nevrálgico:

Quando a rebelião irrompe, parece que os inimigos do Benfeitor são, de fato, muito numerosos, e que, além de tramar a derrubada do Estado, eles se entregam, no momento que as cortinas estão abaixadas, a vícios tais como fumar cigarros e beber. D-503 acaba por fim se salvando das consequências de sua própria loucura. As autoridades anunciam a descoberta da causa das recentes desordens: alguns seres humanos sofrem de uma doença chamada imaginação. Agora, o centro nervoso responsável pela imaginação foi localizado, e a doença pode ser curada por meio de um tratamento de raio-X. D-503 é operado e então se torna fácil fazer o que sabia ser sua obrigação desde o início – a saber, denunciar seus cúmplices à polícia. Com total equanimidade, ele observa I-330 ser torturada com gás comprimido sob uma redoma… (ORWELL, p. 320)

O narrador D-503 revela-se um anti-herói. A “terapia” pela qual ele passa para limpar sua psiquê evoca procedimentos da barbárie psiquiátrica, como a lobotomia e o eletrochoque. É como se, na sociedade que Nós descreve, todos os súditos do Estado Único tivessem que ser lobotomizados. Um processo de normalização autoritária, de imposição de uma norma única. À fórceps, enfia-se o conformismo nos comportamentos por meio de um procedimento de dano cerebral patrocinado pelo Estado Único.

Já os rebeldes, os insubmissos, os revolucionários, esses são considerados como matáveis, extermináveis, liquidáveis, como se fossem a escória do mundo – eis o título, aliás, do excelente livro de Eleni Varikas, publicado pela Ed. Unesp, que analisa a figura do pária através da história.

Impossível não lembrar do triste fim dos desviantes, dos transviados das normas sociais vigentes, em obras também distópicas como Laranja Mecânica (livro de A. Burgess, filmado por Stanley Kubrick) e Um Estranho no Ninho (livro de Ken Kesey, filmado por Milos Forman).

Na sociedade retratada em Nós, reina suprema a rítmica do trabalho de Taylor e tudo se justifica com apelo à sacrossanta Razão. Os bem ajustados ao sistema consideram-se ultra-racionais e desejam estar isolados da selvageria que há do outro lado do Muro Verde, onde reina aquele “insensato e repugnante mundo das árvores, pássaros, animais” (p. 132).

O ser humano segregado de sua matriz natural é aquilo que esta civilização consagra. Tanto que o protagonista D-503 julga que os sonhos noturnos representam uma patologia, devido à irrupção do irracional (p. 141-142), e ele desejaria que sua consciência fosse blindada contra o mundo onírico.

O tipo de personalidade que é considerada normal e louvável nos faz lembrar dos ensinamentos do psicólogo social Wilhelm Reich, formulador do conceito de Couraça do Caráter. O Estado Único deseja súditos encouraçados, duros como diamantes, que não devem nunca se deixar derreter por emoções malsãs como o amor e a piedade.

Em uma cena memorável, o foguete Integral está sendo testado e, no processo, um acidente acarreta a morte de 10 pessoas. Porém, “ninguém se abalou”, já que 10 mortos não são nada diante dos 100 milhões que constituem a massa do Estado Único: “só os antigos conheciam a compaixão iletrada: pra nós ela é cômica.” (p. 150)

A ideologia corrente reza que “o amor mais difícil e elevado é a crueldade” (p. 169). E o Grande Benfeitor não tarda a dar amostras deste amor cruel: no Dia da Unanimidade – aquilo que conhecemos por Eleições – o chefe de Estado massacra os que não se juntam ao coro uníssono que o celebra.

A tal Unanimidade é manufaturada a golpes de chacinas contra os que são dissidentes. As eleições só são unânimes pois não fica vivo ninguém daqueles votam contra. O massacre institucionalizado é praticado contra os que denunciam no Grande Benfeitor um crápula e um malfeitor, expondo o reverso de sua máscara de Cidadão de Bem.

A ideologia dominante no Estado Único pede que se imagine a Justiça assim: há dois pratos na balança, o prato do EU e o prato do NÓS. Ora, não é difícil de ver, mesmo que você não seja um gênio da matemática, que o EU não pesa quase nada, é equivalente a 1 grama, enquanto o NÓS pesa mais de 1000 toneladas.

Esta moral simplista quer que nenhum eu tenha direito à sua singularidade e que o nós seja um organismo único, homogêneo, descrito de maneira biologicista como um corpo dotado de milhões de cabeças. Cada súdito é uma célula deste Grande Corpo.

Nos anos 1920, Zamiátin já previa, em contornos gerais, muitos dos elementos da doutrina eugenista-racista do III Reich hitlerista, onde o anti-semitismo genocida estava conexo a uma noção do Povo Alemão, do Volk, como um corpo que precisava ser “purificado” de uma infecção: os inimigos da saúde do corpo coletivo eram judeus, ciganos, comunistas, doentes incuráveis etc.

Em Nós, quem fala pela segunda pessoa do plural? Quem é este sujeito coletivo que se expressa em uníssono? Quem seria senão a voz altissonante da ideologia da classe dominante? “Somos um organismo único com milhões de células”, mas estas células não podem ter autonomia alguma: devem se submeter ao projeto do Estado, que deseja uma massa homogênea, unânime, sem diversidade.

Por isso o “processo eleitoral” descrito em Nós é a negação mais crassa da Democracia. É o consentimento aterrorizado de Todos ao reinado inconteste do Um. É a farsa pública sempre repetida de ritos ensaiados onde a Unanimidade deve sempre ser re-afirmada. Aqueles que destoam, ou seja, que impedem a unanimidade de se constituir, devem ser tratados com máxima severidade pois são doentes: “anormalidade e doença são as mesma coisa”, lê-se na página 179.

A Democracia é uma polifonia, o totalitarismo é uma monofonia. Só se chega à monofonia – negação da música, reinado atordoante da monotonia! – através do silenciamento e do assassinato das vozes dissonantes. Isto fica claro quando o protagonista de Nós descreve a monofonia eleitoral, seu “grandioso uníssono”:

Amanhã assistirei ao mesmo espetáculo que se repete ano após ano e cada vez emociona de uma maneira diferente: o poderoso Cálice do Consentimento, as mãos erguidas em reverência. Amanhã é o dia anual do Benfeitor. Amanhã voltaremos a confiar ao Benfeitor as chaves da inabalável fortaleza da nossa felicidade.

Sem dúvida, isso não é parecido com as eleições confusas e desorganizadas dos antigos, quando – é engraçado dizer – o resultado das eleições sequer era conhecido de antemão. Construir um governo sobre causalidades inteiramente incalculáveis, às cegas – o que pode ser mais sem sentido? E ainda assim, foram necessários séculos para entender isso.

Seria importante dizer que, tanto nisso como em tudo o mais, não temos lugar para quaisquer casualidades, o inesperado não é possível. As próprias eleições têm um significado mais simbólico: recordar que somos um organismo único, poderoso, de milhões de células, que somos, nas palavras do ‘Evangelho’ dos antigos, uma única Igreja. Isso porque a História do Estado Único não conhece um incidente em que, nesse dia solene, uma única voz tenha ousado perturbar o grandioso uníssono. (ZAMIÁTIN, p. 188)

Ora, pouco tempo depois de nosso protagonista dizer ao leitor que a unanimidade está garantida, que sempre foi e sempre será assim, irrompe na cena o imprevisto. O uníssono manifesta-se como farsa quando a resistência insurrecional manifesta sua dissonância.

A ideologia dominante segue justificando que assassinar friamente os que se recusam a juntar-se a Nós é uma medida de higiene, uma política sanitária, destinada a limpar o organismo coletivo de um “pequeno distúrbio provocado pelos inimigos da felicidade” (p. 202), como as autoridades fazem publicar no jornal oficial, a Gazeta do Estado Único.

Autoritário com seus súditos, de quem espera submissão total e consenso unânime (as votações, nesta civilização, são uma farsa completa), o Estado Único, diante de seus opositores e contestadores, mostra a sua face totalitária e genocida.

Isso se explicita quando o Estado Único pratica a tortura e faz uso frequente de uma guilhotina hi-tech. O instrumento para execução da pena capital chama-se “A Máquina do Benfeitor” e há momentos do romance em que Zamiátin rivaliza com Kafka em sua capacidade de pintar um pesadelo judicial que evoca a absurdidade de O Processo ou A Colônia Penal. Orwell impressionou-se:

Há muitas execuções na utopia de Zamiátin. Elas ocorrem publicamente, na presença do Benfeitor, e são acompanhadas pelas odes triunfais recitadas pelos poetas oficiais. A guilhotina, evidentemente, não é aquele antigo e grosseiro instrumento, mas um modelo muito aprimorado, que literalmente liquida a vítima, reduzindo-a a fumaça e uma poça de água límpida em um instante. Com efeito, a execução é um sacrifício humano, e a cena que a descreve recebe deliberadamente a cor das sinistras civilizações escravocratas do mundo antigo. É esta apropriação intuitiva do lado irracional do totalitarismo – sacrifício humano, crueldade como um fim em si, idolatria de um Líder a quem se atribui características divinas – que faz do livro de Zamiátin superior ao de Huxley (Brave New World). – ORWELL (p. 321)

Denúncia de um totalitarismo que depois Hannah Arendt se devotaria a explicar e elucidar em seus clássicos estudos como Eichmann em Jerusalém As Origens do Totalitarismo, a obra de Zamiátin permanece atualíssima, infelizmente.

Pois ainda pende sob nossas cabeças a espada de Dâmocles da guilhotina totalitária, desta vez sob a forma de uma espécie de fundamentalismo de mercado, anarco-capitalista e neoliberal, globalizado e sem controle, que encontrou em Naomi Klein uma de suas críticas mais penetrantes e perspicazes. A Doutrina do Choque é um manual essencial para a compreensão de nossos tempos. Tempos estes em que podíamos dizer a recém-chegados de outro planeta: Bem-Vindos à Distopia do Real! (Zizek)

Muito antes de Naomi Klein, Arundhati Roy ou de Zygmunt Bauman nos fornecerem muitas das chaves para a decifração da sociedade capitalista atual, Zamiátin denunciou a intentona totalitária de inventar um mundo onde o único está em guerra contra o múltiplo, o homogêneo em guerra contra o diverso, e o autoritarismo dos lucros em guerra contra as liberdades civis… Tudo disfarçado por trás de uma fachada alegre como Mickey Mouse ou Ronald McDonald: a máscara da Sociedade da Felicidade.

Vale ressaltar, para terminar, que nada tenho contra a noção de Felicidade Pública como conceito político – a Bolívia sob Evo Morales é um exemplo da possibilidade de um socialismo focado na felicidade pública e na sabedoria Pachamâmica. Mas o sistema atualmente hegemônico, nosso status quo, fala de uma felicidade como possibilidade apenas para indivíduos isolados e em competição por este recurso escasso. Prega que o acesso à felicidade se dá pelas escadarias estreitas e acessos limitados da Meritocracia, a Sociedade das Áreas VIP.

Hoje vivemos sob a ditadura “branda” de um fundamentalismo capitalista neoliberal que, anti-democrático e excludente, concentrador de capital de maneira exorbitante, prefere dizer que a Felicidade é para poucos, para escolhidos, exclusivo para empreendedores capitalistas.

Apenas algumas migalhas caem da mesa para os microempreendendores do neocapitalismo, com seu trabalho Uberizado, em que ter uma máquina de cartão de débito permite que você “seja seu próprio chefe” e onde somos convidados a engolir o capim de uma ideologia que diz: “conquiste para si sua felicidade, e pague em 12 prestações no cartão de crédito com pequeno juro mensal!”…

Aquela felicidade que hoje em dia nos pregam os apóstolos do Livre Mercado e do Estado Mínimo está historicamente vinculada a um modelo de regime social que não costuma gostar do processo democrático, visto que adora subir ao poder depois de perversos golpes de Estado. Foi assim na instalação do Laboratório Neoliberal em 1973, no Chile, com a derrubada violenta da União Popular de Salvador Allende; e todas as ditaduras militares instauradas antes disso na América do Sul (Guatemala, 1954; Brasil, 1964; Argentina, 1976) tiveram a ideologia dos Chicago Boys – os neoliberais ao estilo Milton Friedman e Gary Becker – como motor do empreendimento golpista.

Hoje em dia, é difícil não cair na gargalhada, ou não se indignar com a má fé, daqueles que dizem que o neoliberalismo respeita a democracia…

Hoje, Zamiátin ensina-nos a desconfiar de toda sociedade que busque decretar o fim da História e procure tornar o mundo homogêneo. Querem hoje que sejamos todos consumidores, e não mais cidadãos; espectadores, e não mais agentes.

Pode-se dizer que Zamiátin criou uma obra irrotulável, um livro difícil de domar: não é nada fácil colar uma etiqueta classificatória neste livro, até mesmo porque ele reúne uma mescla de ideários que, de maneira um pouco simplista, poderíamos dizer que se enquadram no antagonismo que opõe Liberalismo e Comunismo através da história.

O Liberalismo clássico, aquele de figuras como Locke, Stuart Mill e Tocqueville, era um movimento burguês contra a tirania e o despotismo do Antigo Regime. Reivindicava os direitos civis individuais, entre eles o direito à privacidade, compreendido como o direito de não ser incomodado pelo monstro do Estado – o Leviatã conceituado por Thomas Hobbes – em excesso.

De certo modo, Nós denuncia uma sociedade em que os direitos reivindicados pela tradição liberal não existem, como provam as casas de vidro e as tábuas das horas, sinal de uma gestão estatal invasiva e altamente despótica. Uma leitura liberal de Nós pode apontar as similaridades entre o Estado Único e o Estado Bolchevique, então em sua constituição primordial. O argumento seguiria sendas trilhadas, muitas décadas depois de Zamiátin, por Paulo Leminski, que falará de uma “unanimidade compulsória” que teria marcado o bolchevismo.

Mas Nós não é um panfleto pró-liberal, como são os livros de Ayn Rand. Nós quer também debater a tese comunista, em atuação na época histórica onde Zamiátin escreveu, na plena vigência e efervescência do regime que decretou “todo poder aos sovietes!”

A ideologia dominante, em que o Grande Benfeitor parece-se muito com a figura do velho Czar, diz que qualquer levante revolucionário é inútil: “é uma loucura como tapar a boca do cano de uma arma com a mão e achar que é possível deter o tiro.” (p. 221)

Por séculos, o czarismo disse aos seus súditos que ele era inderrubável, que jamais seria vencido, até que em 1917 tudo colapsou e um mundo novo começou a ser forjado, com os bolcheviques liderando as massas proletárias russas a partir dos escombros do velho mundo.

Escrevendo ainda nos tempos em que Lênin encabeçava o empreendimento revolucionário bolchevique, o livro de Zamiátin é também célebre por veicular a tese bastante Trotskysta da revolução permanente. É óbvio que, tendo sido escrito antes da contra-revolução Stalinista tomar conta dos processos revolucionários desencadeados em 1917, o livro de Zamiátin não poderia ter como intenção a denúncia da URSS pós-1929.

Se este livro pode ser dito visionário, é pois foi capaz de criticar o Stalinismo sem nem saber que o estava fazendo, foi anti-stalinista avant la lettre: Zamiátin lançou em 1920 palavras que, nos anos 1930, atingiam em cheio o coração do pesadelo burocrático e genocida que transformou Stalin em um “Benfeitor” que, na real, enterrou a revolução real – internacionalista e permanente – com a mesma brutalidade com que lidou com Trotsky, liquidando-o fisicamente e buscando depois apagá-lo da História…

No fim das contas, o romance de Zamiátin comunica fortemente a noção de que as revoluções não vão parar. Não há o pretenso “fim da História” pregado por Fukuyamas e congêneres – a História segue, e no futuro talvez ninguém mais vá se lembrar de que houve alguém chamado Fukuyama. Enquanto houver tirania, opressão, espoliação, injustiça, as revoluções serão infinitas.

D-503: Isso é inconcebível! Um absurdo! Por acaso não está claro que o que você está começando é uma revolução?

I-303: Sim, uma revolução! Por que isso é absurdo?

D-503: É um absurdo porque uma revolução não é possível. Porque a nossa revolução foi a última. E não é possível haver outras revoluções. Todo mundo sabe disso.

I-303: Meu querido: você é um matemático. Inclusive mais do que isso: um filósofo da matemática. Então: fale-me sobre o último número… O último, o mais elevado, o maior.

D-503: Mas, I, isso é um completo absurdo. Os números são infinitos, que último número é esse que você quer?

I-303: E que última revolução é essa que você quer? Não há última, as revoluções são infinitas. Último é para as crianças: o infinito as assusta, e é imprescindível que as crianças durmam tranquilamente à noite… (ZAMIÁTIN, p. 236)

Nós, que não somos mais tão crianças, já acordamos para o fato de que as tiranias nunca se instalam sem resistência, que as opressões nunca reinam sem insurreições, que as ditaduras nunca deixam de suscitar guerrilhas: nós sabemos que nenhuma das configurações societárias é imutável, pois tudo é dialético e dinâmico, pois tudo está em disputa e os dados ainda estão rolando. De modo que vivemos na certeza e no entusiasmo de que, como diz a rebelde de Zamiátin, ecoando Trótsky e prenunciando Che Guevara, as revoluções são de fato infinitas.

Eduardo Carli de Moraes
http://www.acasadevidro.com

 

P.S. Soube pelo site A Escotilha que Existe um filme de 1982, inspirado no romance, criado pela rede de televisão alemã ZDF, chamado Wir e disponível na íntegra no Youtube com legendas em inglês:

NÓS SOMOS A CATÁSTROFE: A Humanidade Como Força Geológica Cataclísmica na obra “A Sexta Extinção” de Elizabeth Kolbert

“Ao longo dos últimos 500 milhões de anos, o mundo foi assolado por 5 grandes extinções em massa, nas quais a biodiversidade diminuiu de maneira drástica e violenta. Atualmente, a sexta extinção vem sendo monitorada por cientistas, que a consideram a mais potencialmente devastadora desde a que pôs fim aos dinossauros. E, desta vez, nós somos a catástrofe. Elizabeth Kolbert mostra que a sexta extinção corre o risco de ser o legado final da humanidade e nos convida a repensar uma questão fundamental: o que significa ser humano?” (Texto da apresentação da editora)

Poucos livros publicados na atualidade revelam de maneira mais inquietante e estarrecedora a atual crise sócio-ambiental global do que A Sexta Extinção (Ed. Intrínseca, 2015, 336 páginas, acesse na Amazon). A autora Elizabeth Kolbert escreve na revista The New Yorker desde 1999 e venceu o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção em 2015 por esta obra.

Crucial para a compreensão da magnitude alarmante das transformações impostas pelas atividades humanas ao Planeta Terra, o livro é uma daquelas obras-primas do jornalismo científico. Uma leitura que é das mais cruciais e urgentes para a Humanidade, afinal, como pergunta a autora, “após sermos alertados sobre as maneiras como estamos pondo outras espécies em risco, não podemos tomar uma atitude para protegê-las? Afinal, o objetivo de espreitar o futuro não é conseguir mudar de curso e evitar os perigos à frente?” (p. 271)

“A Marcha do Progresso”, obra de Mark Henson

Elizabeth Kolbert é uma intelectual que atua como uma inestimável agente de conscientização – semelhante nisto à Edmund O. Wilson, Carl Sagan, David Attenborough etc. No entanto, pelo menos no Brasil, ela permanece bem longe das listas de best-sellers.  A Sexta Extinção tende, ao contrário, a ser um daqueles livros que vai parar no saldão pois encalha nos estoques das livrarias. Talvez esteja aí uma das raízes do problemão em escala planetária: a maioria dos seres humanos não se interessa por saber dos impactos que os 7 bilhões de homo sapiens estão gerando na bioesfera; não estão afim de mudarem seus hábitos diários de consumo em prol da sustentabilidade da teia da vida sobre a face da Terra; e contam-se às centenas de milhões aqueles que estão medicando seus pavores e angústias com a noção de que, quando o clima ficar ainda mais caótico do que está, podemos correr todos para as igrejas e fazer nossas preces ao Senhor, que há de vir nos resgatar com uma nova Arca de Noé…

Ao invés de terem a coragem de encarar a verdade, boa parte dos humanos preferem a tática do avestruz que esconde a cabeça na areia e prefere não enxergar nada que não sejam boas notícias e finais felizes. Até que o cataclismo que nos tornamos venha, com a força de mil furacões, expulsar todos os humanos com cabeça de avestruz de seus precários refúgios. A ecologia é desprezada demais no mainstream midiático e político, considerada a relevância extrema que possui o que Rachel Carson, autora de Primavera Silenciosa (Silent Spring), de “o problema em partilhar nossa Terra com outras criaturas” (p. 271).

A ecologia precisaria sair do gueto, explodir os limites de nichos universitários, transcender as jaulas dos cursos de biologia e ciências exatas, ganhar as ruas e as redes, tornar-se força intelectual e material capaz de mobilização e transformação social, caso contrário o legado do homo sapiens ao futuro será o de uma vilania imperdoável. As criaturas que herdarem a Terra após a Sexta Extinção em Massa da vida sobre o planeta, caso desenvolvam um dia a capacidade de consciência, hão de olhar para trás enfurecidas para este tal de Humanidade, que hoje atua com o poder cataclísmico do asteróide que causou a Quinta Extinção (aquela sobre a qual ficamos sabendo, em nossas infâncias, não a partir de campanhas científicas de conscientização, mas por espetáculos da Indústria Cultural como o Jurassic Park, blockbuster de Steven Spielberg baseado no romance de Michael Crichton, ou o programa de TV de imenso sucesso, Família Dinossauro). Nosso abissal desconhecimento, ignorância e desinformação sobre um tema tão imensamente importante como a Extinção de Espécies Vivas é algo que Elizabeth Kolbert nos ajuda a sanar:

Hoje em dia, qualquer criança aprende na escola, desde cedo, desde as aulas mais básicas de biologia, sobre a extinção de espécies – um fenômeno que a teoria da evolução, formulada por Charles Darwin, também prevê e explica. Kolbert lembra que

“a extinção talvez seja a primeira ideia científica com a qual as crianças de hoje em dia precisam lidar. Com um ano, elas ganham dinossauros de brinquedo e, aos dois anos, entendem, pelo menos de maneira vaga, que aquelas pequenas criaturas de plástico representam animais enormes. Se forem rápidas no aprendizado, crianças ainda de fraldas conseguem explicar que já existiram vários tipos de dinossauro no mundo e que todos eles foram extintos muito tempo atrás… Tudo isso para dizer que a extinção nos parece uma ideia óbvia. Não é.

Aristóteles escreveu a História dos Animais em 10 livros, sem jamais levar em conta a possibilidade de que os animais tivessem de fato uma história. A História Natural de Plínio inclui descrições de animais verdadeiros e também de animais míticos, mas nenhuma descrição dos animais extintos. A ideia não floresceu na Idade Média nem durante o Renascimento… No Iluminismo, a visão preponderante era de que todas as espécies estivessem ligadas a uma imensa e indestrutível ‘cadeia de seres’. No século XVIII, ossadas de mamutes começaram a aparecer da Europa à Sibéria. Esse caso também foi encaixado à força dentro do sistema. Os ossos pareciam bastante com os dos elefantes. Como claramente não existiam elefantes na Rússia daquele tempo, concluiu-se que aquelas ossadas deviam pertencer a bichos que foram arrastados para o norte pelo dilúvio do Gênesis.

A extinção só surgiu como um conceito na França revolucionária – e não deve ter sido coincidência. Isso aconteceu em grande parte graças a um animal, a criatura hoje em dia chamada de mastodonte-americano, ou Mammut americanum, e um homem – o naturalista Jean Léopold Nicolas Frédéric Cuvier (1769 – 1832).” (p. 32-33)

O que está causando a Sexta Extinção da Vida sobre o planeta é um conjunto de causas antropogênicas, muito bem desvendada por Kolbert, e que eu ando gostando de chamar de Antropocalipse. Este Apocalipse ambiental causado pelas ações humanas tem várias faces – desmatamento de florestas, queima de combustíveis fósseis, vastidão da agropecuária industrial e da dieta carnívora, poluição atmosférica e hídrica, uso excessivo de pesticidas e agrotóxicos, manipulação genética, dentre outros. No seguinte trecho, Kolbert revela o tamanho colossal do problema:

“Desde o início da Revolução Industrial, os seres humanos queimaram combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural – o suficiente para adicionar 365 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. O desmatamento contribuiu com mais 180 bilhões de toneladas. A cada ano, despejamos outros cerca de 9 bilhões de toneladas de carbono, uma quantidade que tem aumentado até 6% ao ano. Em consequência de tudo isso, a concentração de dióxido de carbono no ar hoje – um pouco mais de 400 partículas por milhão – é superior à dos últimos 800.000 anos. É bem provável que seja maior do que em qualquer momento nos últimos milhões de anos. Se essa tendência continuar, em 2050 as concentrações de CO2 atingirão 500 partículas por milhão, mais ou menos o dobro dos níveis encontrados na era pré-industrial.

Espera-se que tal aumento produza um crescimento da temperatura global média entre 1,9 e 3,8º C, o que desencadeará diversos eventos capazes de alterar o mundo, inclusive o desaparecimento da maioria das geleiras restantes, a inundação de ilhas rasas e cidades litorâneas e o derretimento da calota de gelo do Ártico. Mas isso é só metade da história…

Os oceanos cobrem 70% da superfície terrestre… Só em 2014, os oceanos absorveram 2,5 bilhões de toneladas de carbono. (…) A acidificação dos oceanos desempenhou um papel em pelo menos duas das Cinco Grandes Extinções (no fim do Permiano e no fim do Triássico) e é bem possível que tenha sido um dos fatores primordiais numa terceira (o fim do Cretáceo). Por que a acidificação dos oceanos é tão perigosa? Dependendo da firmeza com que os organismos são capazes de regular suas químicas internas, a acidificação pode afetar processos básicos como o metabolismo, a atividade enzimática e a função proteica. Como a acidez maior muda a composição das comunidades microbiológicas, ela vai alterar a disponibilidade de nutrientes essenciais…

Cerca de um terço do CO2 que os seres humanos já lançaram no ar foi absorvido pelos oceanos. Isso alcança espantosos 150 bilhões de toneladas. No entanto, como é o caso da maior parte das características do Antropoceno, não se trata apenas da quantidade, mas também da velocidade com que isso ocorre. Uma comparação útil (embora imperfeita) pode ser feita com o álcool. Assim como é bem diferente para o seu sangue se você consumir 6 latas de cerveja em uma hora ou em um mês, para a química marinha faz uma enorme diferença se o dióxido de carbono é acrescentado ao longo de milhões de anos ou numa centena. Para os oceanos, assim como para o fígado humano, essa proporção é importante…” (KOLBERT, 2015, p. 122 – 132)



 

A nova época geológica em que agora estamos foi batizada de Antropoceno por Paul Crutzen, “químico holandês que compartilhou o Prêmio Nobel pela descoberta dos efeitos das substâncias depletivas de ozônio (ODS). A importância dessa descoberta não é um exagero. Se ela não tivesse ocorrido – e se continuássemos utilizando os produtos químicos com a mesma difusão – o ‘buraco’ na camada de ozônio que se abre todas as primaveras sobre a Antártida teria se expandido até circundar toda a Terra.” (KOLBERT, p. 116)

A revista Piseagrama publicou a tradução artigo de 2000 de Crutzen, em parceria com Eugene Stoermer, texto que é uma espécie de Marco Zero da proposta, hoje vastamente aceita e disseminada, de que o planeta entrou em uma nova era em virtude da ação conjunta da espécie humana. O embarque da espaçonave Terra na era do Antropoceno está diretamente vinculada com a ação conjugada dos mais de 7 bilhões de seres humanos, em especial dos países ditos “ricos” e suas escolhas econômicas tresloucadas, pois altamente poluentes e insustentáveis:

“Em poucas gerações, a humanidade está exaurindo os combustíveis fósseis que foram gerados ao longo de centenas de milhões de anos. (…) A atividade humana aumentou a taxa de extinção de espécies entre mil e dez mil vezes nas florestas tropicais, e vários gases estufa importantes em termos climáticos aumentaram substancialmente na atmosfera: o CO2 aumentou mais que 30% e o CH4 mais de 100%. (…) Considerando esses e vários outros crescentes impactos das atividades humanas na terra e na atmosfera, que acontecem em todas as escalas possíveis – inclusive global –, parece-nos mais do que apropriado enfatizar o papel central da humanidade na geologia e na ecologia propondo o uso do termo Antropoceno para a época geológica atual. Os impactos das atividades humanas vão continuar por longos períodos. Segundo um estudo de Berger e Loutre, devido às emissões de CO2 antropogênicas, o clima pode se afastar significativamente de seu comportamento natural ao longo dos próximos 50 000 anos.

(…) A não ser que ocorram grandes catástrofes como uma enorme erupção vulcânica, uma epidemia inesperada, uma guerra nuclear em larga escala, um impacto de asteroide, uma nova idade do gelo ou o contínuo saqueamento dos recursos da Terra por tecnologias ainda primitivas (os últimos quatro perigos podem, no entanto, ser prevenidos em uma noosfera em funcionamento), a humanidade vai continuar sendo uma importante força geológica por muitos milênios, talvez por milhões de anos. Uma das principais tarefas futuras dos homens será desenvolver uma estratégia mundialmente aceita que leve à sustentabilidade de ecossistemas contra estresses induzidos por humanos, e isso vai requerer pesquisa intensiva e aplicação inteligente do conhecimento até aqui adquirido na noosfera, mais conhecida como sociedade do conhecimento ou da informação. Uma tarefa empolgante, mas também difícil e assustadora, se coloca para a comunidade mundial de pesquisa e engenharia, para que lidere a humanidade em direção a um gerenciamento ambiental que seja global e sustentável.” (CRUTZEN; STOERMER – Leia na íntegra)

A noção assustadora de que a Humanidade possa ser extinta por completo em decorrência dos próprios processos geofísicos que ela desencadeou reativa-se com cada vez maior frequência.  Os jornais se enchem de notícias sobre mega-furacões devastadores, como o Katrina que golpeou o Golfo do México em 2005, e catástrofes de vazamento de petróleo ou de rejeitos de mineração, como a hecatombe que devastou o Rio Doce nos estados brasileiros de Minas Gerais e Espírito Santo em novembro de 2015. Diante de um cenário tão alarmante, fantasias apocalípticas e distópicas marcam cada vez mais a produção artística contemporânea. Na sala de cinema, a destruição do planeta ou de toda a teia-da-vida que nele existe foram temas de impressionantes obras recentes como o Melancholia de Lars Von Trier e Expresso do Amanhã (Snowpiercer) de Joon-Ho Bong.

Com Cuvier e os fósseis de mastodonte, desperta enfim na Humanidade a noção de que ocorrem de fato na história da vida no planeta a extinção de espécies – as “espèces perdues”. Com Cuvier – celebrado por autores da época como Balzac – intensifica-se o interesse por pesquisar as causas para os cataclismos e catástrofes que pudessem explicar os períodos críticos, na história do planeta, onde ocorrem as grandes extinções em massa.


“Cuvier insinuou que conhecia a força motriz por trás da extinção, quiçá seu mecanismo exato”, escreve Kolbert. “Haviam sido todos extintos por algum tipo de catástrofe… Nem mesmo os eventos mais devastadores conhecidos no mundo contemporâneo – erupções vulcânicas, digamos, ou incêndios florestais – eram suficientes para explicar a extinção… Portanto, as mudanças que causaram as extinções deviam ter atingido magnitudes muito maiores – tão imensas que os animais não tinham sido capazes de se adaptar a elas. O fato de tais eventos tão extremos nunca terem sido observados por Cuvier ou qualquer outro naturalista era outra indicação da mutabilidade da natureza: no passado, ela operara de modo diferente – mais intenso e mais selvagem – do atual. (…) Cuvier observou que muitos mitos e textos antigos, incluindo o Antigo Testamento, aludiam a algum tipo de crise – em geral, um dilúvio – que precedeu a ordem atual.” (KOLBERT, p. 55)

Um dos méritos maiores do livro de Kolbert está em destacar o ineditismo da situação atual: o processo que estamos vivenciando, a Sexta Extinção, é a primeira em que uma espécie animal (o homo sapiens) é o agente cataclísmico que causa a gigantesca queda de biodiversidade hoje em curso e em processo de aceleração. Nunca antes na história desse planeta houve um animal que pudesse colocar em risco a Vida como um todo. No Antropoceno, o asteróide somos nós mesmos. O piloto tresloucado deste sistema suicida é o capitalismo globalizado e a desregulação dos mercados propugnada pelo neoliberalismo – este que, se houver alguém vivo para contar esta história daqui uns séculos, será reconhecido como a Ideologia do Apocalipse Sócio-ambiental.

O mais alarmante de tudo talvez seja o abismo gigantesco entre o conhecimento científico que já possuímos sobre o estrago que a Humanidade vem causando ao planeta, por um lado, e as miúdas e insuficientes ações sócio-políticas concretas que estamos realizando no sentido de pelo menos amenizar os impactos catastróficos que já causamos e as tragédias futuras e iminentes que já não podemos evitar. Nada parece minimamente suficiente para que a Humanidade acorde de seu torpor e sua apatia a tempo de salvar-se do cataclismo que ela tornou-se.



Nem os clamores do Papa Francisco, nem os livros brilhantes de Naomi Klein, nem os encontros internacionais como a Rio 92 e a Rio +20, nem os acordos como o Protocolo de Kyoto ou o Pacto de Paris (COP 21), tem o poder para impor uma mudança de rumos e paradigmas. Para evitar a catástrofe completa, seria preciso não queimar a imensa maioria das reservas de combustíveis fósseis que temos no planeta. Pisando no acelerador de um mecanismo suicida e causador de extinção em massa, boa parte daqueles que hoje tem o poder político de decisão (Donald Trumps e outros retardados similares) hoje tomam a decisão escrota e babaca de colocar vendas sobre os próprios olhos. Vendas compostas por notas de 100 dólares… Seguindo adiante com o projeto capitalista, extrativista, crescimentista, baseado no delírio nefasto de que é possível o crescimento contínuo de capital no seio de um mundo finito e onde em breve teremos 9 milhões de estômagos para alimentar e saciar, vamos com tudo na direção do Antropocalipse.

A loucura hoje hegemônica e dominadora, o capitalismo neoliberal ecocida, praticante impune das piores hecatombes sócio-ambientais, conduz os mais pessimistas de nós a pensar que o deus Capital é aquele tipo de divindade cultuada pelo tipo de estrutura orgânica que se auto-destrói e lega ao futuro apenas o exemplo grotesco de sua própria estupidez suicida. Ao invés de acordar para a necessidade de escolha entre uma nova alternativa – parafraseando Rosa Luxembrugo, a alternativa é: ecossocialismo ou barbárie! – seguimos em larga medida adotando a técnica do avestruz: escondemos nossas cabeças na areia para não enxergar o tamanho da encrenca em que nos metemos. Mas isso não tem como durar muito tempo: os miolos dos avestruzes logo serão torrados pelo calor escaldante de um planeta em chamas.

Raj Patel, author of Stuffed and Starved and The Value of Nothing

Em seus livros altamente relevantes, o ativista e pesquisador Raj Patel também nos fornece um quadro estarrecedor de um sistema econômico que está em guerra contra o mundo natural – “se vencermos”, como diria Hubert Reeves, “estamos perdidos”. Este é o tipo de Guerra Mundial – como a apelidou o filósofo Michel Serres em sua obra homônima – que não deixa de evocar um velho lema pacifista: ninguém vencerá esta guerra, só haverá perdedores. Em O Valor de Nada, Patel busca demolir os mitos da doutrina neoliberal e escreve que

“A Sociedade de Mercado está incrustada no mundo natural, coisa que o mito do mercado autorregulado também procura negar. A civilização humana depende da ecologia da Terra, embora a estejamos explorando até sua morte – segundo algumas estimativas, a atividade humana aumentou a taxa de extinção de outras espécies em cerca de 1000 vezes (Cf. Millenium Ecosystem Assessment). No cercamento implacável do mundo natural, destruímos nosso planeta e, caso os sussurros ouvidos entre cientistas do clima devam ser levados a sério, talvez já seja tarde demais para fazer alguma coisa. A eterna busca por crescimento econômico transformou a humanidade num agente de extinção, por meio da contínua desvalorização dos serviços ecossistêmicos que mantêm nossa Terra viva.” (PATEL, Ed. Zahar, 2009, p. 25)

Não faltarão os milhões que buscarão refúgio nas igrejas, que constituirão rebanhos de fiéis desejosos de salvar suas almas do Apocalipse e que adotarão a tática perfeitamente inútil de rezar – o que é o contrário de agir. Não faltarão também aqueles que estarão mobilizados, nas ruas, nas redes, nas barricadas, buscando a somatória de forças coletivas em prol de um outro mundo possível – como temos exemplos nos Fóruns Sociais Mundiais e em eventos impressionantes como a People’s Climate March de 2014.

O livro de Kolbert, se é assustador, também é salutar. Eles nos sacode do torpor e nos diz claramente que “a extinção em curso tem sua própria causa original – não é um asteróide ou uma erupção vulcânica maciça, mas uma ‘espécie daninha’.” (p. 276) A maioria de nós não gosta de pensar sobre a Humanidade nestes termos: faz parte do narcisismo de todo indivíduo a estratégia de manutenção da auto-estima que consiste em acreditar-se pertencente a algo de muito maravilhoso, a Humanidade, ápice da Evolução, senhora da Natureza, cume do orgânico. Às Três Feridas Narcísicas de Freud teremos que adicionar uma quarta: no Antropoceno, a Humanidade vai precisar a se acostumar com a noção de que estamos sendo, neste planeta, uma “espécie daninha” e um agente de extinção da biodiversidade que nos assemelha a um cataclismo.

Segundo o antropólogo Richard Leakey, “o homo sapiens pode ser não apenas o agente da Sexta Extinção, mas corre o risco de ser uma de suas vítimas” (p. 278). É o que sintetiza de forma brilhante o ecologista Paul Ehrlich, em uma frase que está no Salão da Biodiversidade em Stanford:

AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

 

Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro
Goiânia, 18 de Outubro de 2017

* * * * *

VÍDEOS

A DOUTRINA DO CHOQUE TEMERÁRIA: Reflexões sobre o Brasil pós-Golpe no Le Monde Diplomatique Brasil

Estampando em sua capa dois símbolos da sinistra situação em que hoje chafurdamos, o Le Monde Diplomatique Brasil chega às bancas fornecendo excelentes análises sobre os descaminhos do país. Na ilustração da capa, o pato amarelo da Fiesp, ícone maior da classe empresarial-patronal, anti-democrática e elitista, que entre nós é adepta de golpes de Estado desde tempos imemoriais, é a vela no bolo do Sr. Michel Temer, o traíra-usurpador que foi alçado à presidência pelo golpe parlamentar capitaneado por Ali Babá e seus 40 Ladrões – digo, Eduardo Cunha e a Bancada BBB.

Vitor Teixeira

Um ano após o início do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, o crápula do Cunha já está no lugar onde merecia estar desde anos atrás: detrás das grades, como gangster de comprovados malefícios prestados à república por sua sistemática utilização de cargos públicos para seu enriquecimento privado ilegal – suas pançudas contas na Suíça que o digam. Mas como no filme da História não há rewind, não é possível voltar no tempo para impedir a cadeia causal catastrófica que ganhou tanto ímpeto naquele grotesco espetáculo de 17 de Abril de 2016. The damage is done.

Naquela ocasião, na Câmara dos Deputados presidida pelo bandidão hoje encarcerado, assistimos estarrecidos aos nossos congressistas agindo como uma gangue de vândalos que depreda sem pudor a democracia, o voto popular e a presidenta da república legitimamente eleita. Assistimos aos fascistas saindo do armário e aplaudindo Jair Bolsonaro enquanto ele cagava pela boca, como é seu costume: ele elogiou a tortura na Ditadura Militar e fez apologia aos métodos de Ulstra contra Dilma Rousseff, enquanto a Globo transmitia tudo ao vivo, para delírio do Coxinato e dos patológicos idólatras de patos amarelos, todos empanturrados com o filé mignon fornecido pelo Skaf (quem engolia a farsa ainda não sabia que a Carne era Fraca…).

Com um Senado similarmente acanalhado e um STF que lavou as mãos como Pôncio Pilatos, o Golpe Sem Tanques passou. E a esquerda tratorada teve que engolir uma derrota histórica monumental, em que temos que admitir que nossa potência não foi suficiente para que construíssemos, no real concreto, através de greves gerais, boicotes, sabotagens, ocupações, insurreições populares e desobediência civil organizada, a consumação do alardeado mote anti-fascista “no pasarán!” (não passarão!) 

Os golpistas não só passaram acelerando sobre nossos corpos, ignorando regiamente até mesmo as mais de 1.000 ocupações da Primavera Estudantil de 2016, como já trataram de congelar os gastos públicos por 20 anos com a PEC 241/55, aprovada em Dezembro de 2016 após muita brutalidade policial e imensas nuvens de gás lacrimogêneo contra nós que manifestávamos nossa discórdia em Brasília.

Agora segue a doutrina do choque Temerária, escancarando os dentes de seu neoliberalismo elitista e inclemente, que vem aí com as reformas trabalhistas e previdenciária, além de prosseguir em sua sanha entreguista, abrindo às pernas a todos os abutres do mercado financeiro e a todos os parasitas que lucram na mamata como credores da dívida pública. Taxar grandes fortunas, avançar a reforma agrária, investir em saúde e educação, trabalhar em prol da melhoria de nosso imenso déficit habitacional ou realizar uma ampla reforma política que impeça o sequestro dos partidos pela corrupção empresarial conexa aos financiamentos privados de campanha, nada disso interessa aos que estão hoje – ilegitimamente – no poder.

Na sequência, A Casa de Vidro compartilha dois artigos do Le Monde que esclarecem bem o nosso atual dilema coletivo nestes tempos sombrios. Em uma época em que o “desprezo pelo povo” (a começar pelo desrespeito ao sufrágio universal) e o autoritarismo elitista voltam a trucidar com nossos labores e esperanças de construção de comunas mais justas, é preciso seguir resistindo à maré de retrocessos que ameaça nos afogar. Ainda nadamos e respiramos, rumo à greve geral.

E.C.M., 16/04

Vitor Teixeira

O BRASIL PÓS-IMPEACHMENT

A DOUTRINA DE CHOQUE TEMERÁRIA

 Está longe de ser uma mera coincidência o fato de, mais uma vez, o país encontrar-se sob um vigoroso avanço da agenda neoliberal neste momento. A terapia de choque temerária prospera precisamente por conta do atual ambiente brasileiro, resultado de um processo de impeachment extremamente polarizado e contestado, para ser eufemístico
por: Ramon Blanco

O Brasil vive um momento desassossegador. Não é necessário ser o mais atento dos observadores para perceber que o país passa por um processo caracterizado por ser muito mais do que o mero retrocesso de entendimentos e práticas progressistas, o que evidentemente já seria bastante preocupante. Mais do que isso, o que se observa é o avanço de uma série de pautas políticas, no mínimo, alarmantes. Pode-se mencionar, por exemplo: a alteração das regras para a exploração do pré-sal; a reforma da Previdência; a reforma trabalhista; a emenda à Constituição de modo a limitar os gastos estatais durante duas décadas; a desvinculação de receitas da União; ou até mesmo a privatização de empresas estatais ligadas a bens vitais, como é o caso da Cedae no Rio de Janeiro;1 para mencionar apenas algumas.

Apesar de todas essas pautas serem individualmente inquietantes, é míope compreendê-las isoladamente e de modo singularizado. Elas são partes individuais de um mesmo conjunto, vinculado a um processo internacional mais alargado. Somente assim, entendendo-as de modo agregado e contextualizando-as internacionalmente, é possível compreender, de modo mais acurado, o real processo em marcha no país. Mais do que simples medidas pontuais em esferas particularmente selecionadas, o que está em curso é nada menos do que uma profunda reestruturação do tipo de Estado estabelecido no país.

Nomeando de modo mais preciso o processo que está em desenvolvimento no Brasil, trata-se de uma temerária terapia de choque neoliberal. Dentro desta, é expectável que, por um lado, políticas como a desregulação de diferentes esferas, medidas de austeridade, privatizações, o desmantelamento de serviços públicos, para ficar em apenas algumas, sejam fortemente estimuladas e, por outro lado, políticas como programas estatais, regulações e atividades sindicais, entre outras, sejam constantemente desestimuladas. É enganoso, contudo, entender tal terapia de choque neoliberal como um processo particular ao país. Uma leitura cuidadosa do cenário internacional percebe que, desde a afirmação do neoliberalismo enquanto uma ideologia dominante no cenário internacional,2 e precisamente funcionando enquanto um contínuo instrumento de manutenção de tal domínio, tais terapias de choque são constantes e periódicas ao longo do tempo e ocorrem em diferentes partes do mundo. São visíveis em locais e contextos tão díspares quanto, por exemplo: o Chile de Augusto Pinochet na década de 1970; a América Latina dos ajustes estruturais dos anos 1980 e 1990;3 Portugal e Grécia da recente crise europeia; e até mesmo em locais menos evidentes, como nos processos de reconstrução pós-bélica em cenários como Camboja, Timor-Leste, Iraque e tantos outros.4

Apesar de completamente díspares no tempo, no espaço e nos contextos sociais, há uma particularidade bastante comum às diferentes terapias de choque neoliberal pelo globo, inclusive atualmente no Brasil. Em geral, elas têm grande dificuldade de avançar durante períodos normais de democracia. Por isso, é ingênuo pensar que tais terapias se desenrolam de modo suave. Ao contrário, o avanço desse tipo de pauta política é regularmente acompanhado de um grande grau de violência e de intensa velocidade. Isso ocorre pois tal agenda demanda um ambiente bastante particular para prosperar.

A dinâmica do processo é bastante simples, porém aterradora. Por dificilmente prosperar em um ambiente democrático normal, é necessário um choque inicial, uma suspensão da normalidade política – desastre ambiental, guerras e conflitos, ataques terroristas, golpes de Estado, entre outros –, para haver o ambiente adequado e propício ao avanço de tal agenda. É precisamente explorando a instabilidade advinda desse choque inicial – amparado no medo, na desorientação, na desarticulação política de oposicionistas, e assim por diante – que o choque neoliberal avança. Mais, avança necessariamente de modo muito rápido e com diferentes pautas ao mesmo tempo. Em caso de oposição a ele, é esperado um terceiro choque – as cargas policiais reprimindo manifestações. É Naomi Klein quem melhor apreende o desenrolar dessa dinâmica no cenário internacional como um todo ao denominá-lo como uma doutrina do choque.5

Nesse sentido, está longe de ser uma mera coincidência o fato de, mais uma vez, o país encontrar-se sob um vigoroso avanço da agenda neoliberal neste momento. A terapia de choque temerária prospera precisamente por conta do atual ambiente brasileiro, resultado de um processo de impeachment extremamente polarizado e contestado, para ser eufemístico. Portanto, o fato de a profunda reestruturação do Estado brasileiro resultar de uma pauta política que nunca passou pelo voto popular nada tem de atípico. Pelo contrário, trata-se da regra desse tipo de terapêutica doutrinária. São mais do que conhecidas as consequências e os pesados custos sociais advindos do avanço de tal agenda.6 Isso é perceptível por todo o globo. Na América Latina, por exemplo, a terapia de choque neoliberal resultou em uma década perdida. Contudo, nos tempos que correm, os fatos têm menos relevância do que as crenças. Resta saber que escombros restarão do país após o temerário choque em curso. A perspectiva, infelizmente, não é nada animadora.

*Ramon Blanco é professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, onde coordena o Núcleo de Estudos para a Paz e a Cátedra de Estudos para a Paz, e é colaborador no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 116  – março de 2017}


1          A privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos, até o momento, é uma das condições impostas pelo governo federal para liberar empréstimos ao estado do Rio de Janeiro, a fim de que este alivie sua dívida.

2          Sobre a emergência do neoliberalismo como ideologia dominante no cenário internacional, ver, por exemplo, Daniel Jones, Masters of the Universe: Hayek, Friedman and the Birth of Neoliberal Politics [Mestres do Universo: Hayek, Friedman e o nascimento da política neoliberal], Princeton University Press, Nova Jersey, 2012.

3          Ver, por exemplo, Laura Soares, Ajuste neoliberal e desajuste social na América Latina, Vozes, Petrópolis, 2001.

4          Para a visão alargada do processo de neoliberalização ocorrido em processos de reconstrução pós-bélica, ver Roland Paris, At War’s End: Building Peace after Civil Conflict [Ao fim da guerra: construindo a paz após o conflito civil], Cambridge University Press, 2004.

5          Para uma visão mais aprofundada dessa reflexão, ver Naomi Klein, The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism [A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre], Picador, Nova York, 2007, especialmente p.25-26.

6          Ver, por exemplo, Laura Soares, Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina, Cortez, São Paulo, 2006.


Vitor Teixeira

EDITORIAL

AS GRANDES EMPRESAS E A CORRUPÇÃO

O foco das notícias, propositalmente, é nos servidores públicos e políticos que praticaram os ilícitos. Apenas recentemente, em razão de vários escândalos e denúncias, é que começa a surgir o papel das grandes empresas nesse processo todo.

por: Silvio Caccia Bava

Todos os dias, os jornais impressos e os noticiários de televisão apontam mais alguém como corrupto graças às delações estimuladas pela Lava Jato e outras investigações. A rigor, todos os partidos estão envolvidos e as figuras mais proeminentes entre os políticos, a começar pelos presidentes da República, do Senado e da Câmara dos Deputados, são acusadas de receber propina para influir, de maneira ilícita, em decisões que favorecem interesses empresariais.

O foco das notícias, propositalmente, é nos servidores públicos e políticos que praticaram os ilícitos. Apenas recentemente, em razão de vários escândalos e denúncias, é que começa a surgir o papel das grandes empresas nesse processo todo. Hoje, sabe-se que a corrupção é uma prática generalizada entre as grandes empresas, que não conhecem limites para maximizar seus ganhos.

A corrupção é um fenômeno internacional. Nada menos que 25% do PIB mundial estão escondidos em paraísos fiscais por empresas que dessa forma sonegam impostos. No Brasil não é diferente. A Global Finance Integrity, uma instituição internacional de controle do fluxo internacional de capitais, estimou em R$ 660 bilhões a evasão fiscal no Brasil entre 2003 e 2012, para não pagar impostos.1

Alguns escândalos recentes tiveram grande visibilidade. Em 2012 foi denunciada a manipulação da taxa Libor por vinte dos maiores bancos internacionais. A taxa Libor determina a remuneração dos empréstimos a bancos, que precifica os juros pagos pelo setor produtivo e pelos consumidores. Sua manipulação assegura elevados ganhos para esses grandes bancos. Outro exemplo recente, denunciado em 2015, é o da Volkswagen, que fraudou os resultados do controle de emissão de poluentes em motores a diesel em 11 milhões de veículos. Os casos são inúmeros, mas o importante é reconhecer que a corrupção é um expediente ilegal das grandes empresas para aumentar seus ganhos. Os limites para coibi-la são dados por leis e pelo exercício por parte do Estado da fiscalização e do controle para fazer cumprir as leis. Quanto mais democracia, maior o controle político sobre as grandes empresas e menor a corrupção.

A mudança nos últimos anos está na força crescente desses grandes grupos econômicos, muitos dos quais com faturamentos anuais maiores que o PIB de muitos países. Tendo à frente os grandes bancos, essas corporações multinacionais controlam hoje instituições multilaterais, como o FMI, o Banco Mundial, o Banco Central Europeu e, inclusive, a ONU. E passam também a controlar governos. Vários dos principais quadros de governo nos países que sofreram ajustes estruturais recentes, como Grécia, Portugal e Itália, vêm do mundo das finanças e tiveram passagem pelo Goldman Sachs, um dos mais importantes bancos internacionais de investimentos.

Se temos como paradigma o controle pela democracia da voracidade das grandes empresas, o que vemos hoje é uma inversão dos termos. As grandes empresas passaram a controlar a democracia.

No Brasil isso fica claro nas eleições de 2014. Investindo cerca de R$ 5 bilhões, dez grandes grupos econômicos elegeram 70% do Congresso Nacional. O financiamento foi direto aos candidatos, e os partidos políticos se tornaram irrelevantes. Esses grupos passaram a controlar o Legislativo. Some-se a isso o fato de que os atuais ministro da Fazenda e presidente do Banco Central são seus representantes no governo.

Assim, temos os interesses dessas grandes empresas e desses grandes bancos dos dois lados do balcão. Explica-se assim a maioria parlamentar conservadora que consegue quórum para fazer mudanças em nossa Constituição, como a PEC que congela os gastos públicos por vinte anos. Não são os parlamentares os proponentes, eles apenas cumprem ordens.

O fato é que a democracia que temos e suas instituições foram capturadas pelo poder econômico e deixaram de defender o interesse público. Resgatar a democracia e recuperar o controle político e democrático sobre a economia torna-se o grande desafio do presente.

Curiosamente, essa proposição de os Estados readquirirem o poder de controlar o grande capital não é uma proposta somente das esquerdas. A revista conservadora The Economist, algumas edições passadas, propôs em editorial denominado “True progressivism” que a situação atual só se resolve com uma legislação internacional que controle e taxe o fluxo de capitais, com o fim dos paraísos fiscais e com o fracionamento das grandes corporações transnacionais em empresas menores, capazes de serem controladas pelo poder público. Sem isso o poder das empresas continua sem limites e a corrupção continuará sendo um instrumento desses atores para influir no poder público segundo seus interesses.

Ainda que essa seja a realidade atual, os sentidos da democracia continuam em disputa e as mobilizações sociais contra a destituição de direitos são cada vez mais importantes. Democracia e direitos sociais são irmãos gêmeos. Para garantir os direitos é preciso garantir a democracia – uma democracia de novo tipo, capaz de colocar no centro das preocupações o bem-estar da população e de controlar os grandes grupos econômicos e financeiros em defesa do interesse público.

*Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil
{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 117 – abril de 2017}


1 – Ladislau Dowbor, “El capitalismo cambió las reglas, la política cambió de lugar”, Nueva Sociedad, out. 2016

LEIA TAMBÉM:

Matérias de Capa:

* O desmonte do Estado de proteção social – O governo Michel Temer​ poderá, em pouco tempo, colocar em prática um conjunto de reformas que significará uma revisão do papel do Estado brasileiro, que, em lugar de combater desigualdades, prestar serviços públicos de qualidade e formular políticas públicas de interesse social, se voltará para garantir o direito de propriedade, assegurar o cumprimento de acordos e honrar os compromissos com os credores das dívidas interna e externa

por: Antônio Augusto de Queiroz

* Os governos e as ruas – A polarização do último ano de governo Dilma perdura. Mesmo se houvesse pauta comum, o fosso que separou famílias, amigos, colegas de trabalho em dois continentes políticos é profundo. Alguém será capaz de lançar uma ponte?

por: Angela Alonso, Hellen Guicheney e Rafael de Souza

Nas bancas!

http://diplomatique.org.br/edicao-do-mes/

Angeli

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS – Sobre o filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS
por Eduardo Carli de Moraes​

“Nós somos todos refugiados”, dispara Carmem Silva, uma ativista da Frente de Luta por Moradia (FLM) de São Paulo. “Somos refugiados da falta dos nossos direitos.”

Carmem, esta mulher da vida real que interpretou a si mesma em “Era o Hotel Cambridge”, fusão de ficção e documentário, talvez seja a responsável pela frase mais emblemática deste memorável, contundente e relevantíssimo filme dirigido por Eliane Caffé.

O filme é espetacular por sua capacidade de transcender o cinema e tornar-se um evento cívico, um acontecimento político, uma “experiência de cinema colaborativo em São Paulo que aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática.” (Rede Brasil Atual)

Eliane Brum​, em artigo magistral para EL PAÍS Brasil​, disse que o desembarque entre nós deste OVNI cinematográfico equivale a “um acontecimento político-cultural capaz de expressar as tensões e a potência do Brasil atual”:

“O Hotel Cambridge, personagem central do filme, foi na vida real de São Paulo um hotel de luxo construído no final anos 50 com evocações hollywoodianas. Com o crescimento da cidade e o abandono da região central pelos mais ricos, ele testemunhou sua própria decadência. Em 2004, cerrou suas portas e tornou-se mais um esqueleto do centro, um morto insepulto, abandonado ao vazio. Em 2012, foi ocupado pelo movimento dos sem-teto, uma das forças de maior potência da maior cidade do Brasil.

O hotel foi ocupado por cerca de 140 famílias, mais de 240 crianças. A quantidade de meninos e meninas fica explícita em cuidados como um surpreendente e bem organizado estacionamento de carrinhos de bebê. Na dinâmica da especulação imobiliária, que se impõe como uma lógica questionada por poucos, o fato de o Cambridge ter ficado abandonado por oito anos, juntando lixo e empoçando água, tornando-se um criadouro de mosquitos numa época de dengue, zika e chikungunya, não parece ser um problema para a população.

Já quando o velho hotel foi ocupado para a moradia de quem não tem, os ocupantes são tachados de “invasores” – e a urgência de sua denúncia é apagada pelo processo perverso da criminalização.”

(ELIANE BRUM – Leia na íntegra em http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/20/opinion/1490015804_432739.html)

Em “Era o Hotel Cambridge”, baseado em livro de Carla Caffé, o cinema brasileiro alça-se às alturas artísticas que dele se espera por sua gloriosa história pregressa (de Glauber e Sganzerla, a Meirelles e Coutinho, com incontáveis outros gênios que poderiam ser lembrados). É uma obra coloca-nos algumas questões cruciais para o século 21, época em que vivenciamos a pior crise de refugiados no pós-2ª Guerra Mundial (1939-1945) (sobre o tema, leia: Vladimir Safatle) e em que as utopias urbanas têm insistido em sonhar e construir outros mundos possíveis baseados em ideários como “se a cidade fosse nossa….”.

“Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.” – CAROLINA CAFFÉ em REDE BRASIL ATUAL – Click e leia o artigo na íntegra

Refugiados e imigrantes provenientes do Congo, da Palestina e da Colômbia estão entre os personagens principais desta obra polifônica, rica em diversidade humana, em que Eliane Caffé inscreveu de vez seu nome nos anais da 7ª arte em nosso país. Desde já, a obra merece ser estudada nas aulas de sociologia, já que torna explícita a práxis deste conceito, às vezes compreendido de modo demasiado teórico ou abstrato do  Direito à Cidade, tão essencial na obra da cientistas sociais como Henri Lefebvre e David Harvey (autor de Cidades Rebeldes), e que possui no Brasil um de seus principais pensadores e praticantes na figura do Guilherme Boulos, filósofo e líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

Eliane Caffé já havia realizado um filmaço com “Narradores de Javé” (2003), onde um banquete linguístico de deixar contente qualquer fã de Guimarães Rosa, José Cabral de Melo Neto ou Ariano Suassuna somava-se à descrição de um drama social que retorna ao foco, ainda em que transformado e em outras condições, em “Era o Hotel Cambridge”.

Ambos filmes falam sobre aqueles que são refugiados no Brasil, apesar de serem brasileiros; são gente que poderia figurar no tratado “Os Excluídos da História”, da historiadora francesa Michelle Perrot (Ed. Paz & Terra); são aqueles que foram expulsos de seu direito constitucional à moradia, ao território tradicional/originário, ao usufruto da terra que nos é comum.

São gente como a gente, da qual subtraem-se direitos a fórceps. São gente que sofre na carne as incontáveis desumanidades institucionalizadas que em toda parte vem maculando esta Terra que hoje encontra-se toda conspurcada pelas cercas, arames farpados e muros altos edificados pelas elites dos privilégios.

Em “Narradores de Javé”, os refugiados são os moradores do vilarejo de Javé, que está sob ameaça de desaparecer debaixo d’água devido à construção de uma gigantesca hidrelétrica. É surpreendente notar que um filme realizado no ano de 2003 pode hoje soar profético, emblemático de uma era do nosso Brasil que prossegue vigente 15 anos depois. É como se Eliane Caffé tivesse previsto com uma quase miraculosa clarividência, desde o começo do século, que vivenciaríamos os conflitos e antagonismos que hoje nos atravessam com os projetos à la Belo Monte e os fluxos migratórios desordenados e caóticos que hoje ocorrem pelo globo afora, piorados após as desastrosas campanhas da chamada Guerra Contra o Terror no Oriente Médio.

A resistência rural à redução do cidadão ao estado de refugiado interno tinge “Narradores de Javé” de um teor contestatório latente, transformando o filme, que poderia ser visto apenas como excelente entretenimento, a um só tempo humorístico e pedagógico, ao patamar mais alto das obras-de-arte que são também documentos históricos e sócio-culturais. É uma obra que permite-nos, por exemplo, avançar uma compreensão mais cheia de empatia e de entendimento dos dramas atuais como a luta do povo Munduruku contra as hidrelétricas no Rio Tapajós.

Em “Era O Hotel Cambridge”, os refugiados são os moradores da megalópolis paulista que têm negados pelos gestores palacianos da sociedade a chance, constitucionalmente garantida, à casa própria e digna. São aqueles que, obrigados por circunstâncias adversas a ocuparem imóveis abandonados, dão suor e sangue a prédios abandonados com a nova vida que lhe infundem através da ocupação.

A ocupa, força vivificante, resistente, que contesta o império atualmente vigente da especulação imobiliária e da gentrificação, serve como laboratório de outros mundos possíveis. Um mundo onde a propriedade de privilégios que privam concidadãos do mais básico para a existência digna seja reconhecida pelo que é: privilégio é só propriedade abusiva, ilegítima, reconhecível apenas como “roubo”, como dizia Proudhon. O privilégio é um roubo.

Em uma resenha escrita por Isabel Wittmann, ela pontuou muito bem o potencial do filme em pôr em questão o abismo existente entre a Constituição de 1988, em sua dimensão igualitária e em suas pretensões de instaurar justiça social, com nossa realidade atual, tão marcada por direitos que nos são violentamente subtraídos, em especial com a avalanche de retrocessos patrocinada pelas forças sociais e políticas responsáveis pelo Golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016-2017.

“O artigo sexto de nossa Constituição Federal estipula que “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. O Estado tem a obrigação de garantir que sua população tenha moradia, mas o que fazer quando os governos não só se recusam a fazê-lo, como reagem no sentido de silenciar movimentos que tentar garantir seus direitos? Essa é uma das muitas questões levantadas em Era o Hotel Cambridge, da diretora Eliane Caffé.

Trabalhando nos limites entre o ficcional e o documental, Caffé registra o cotidiano dos moradores do Hotel Cambridge, edifício abandonado no centro da cidade de São Paulo, destacando as vivências caleidoscópicas de alguns personagens que dão corpo à experiência coletiva. A rotina, as reuniões as tarefas e momentos de engajamentos são retratados com fluidez. Dentre as personagens, o destaque é Carmem, líder real da Frente de Luta por Moradia (FLM), que aqui tem sua força coordenadora descortinada para o público. Mas a narrativa é polifônica: não só se pauta em muitas vozes, como é perceptível a colaboração dos participantes com suas experiências reais nas falas de seus personagens. Em certo momento, Apolo (José Dumont), que organiza um espécie de vlog da ocupação, pergunta “Cadê o foco narrativo?“. Não há um foco pois o protagonista é a luta, sendo cada um apenas uma faceta dela.” (WITTMANN, Isabel)

(http://estantedasala.com/era-o-hotel-cambridge/)

Se o filme oferece-nos motivos para indignação, em especial quando desponta toda a truculência das Tropas de Choque, sob comando do Tucanistão, trata-se de um filme bem mais esperançoso do que, digamos, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. A São Paulo focalizada por ambos os filmes é semelhante: é a cidade suja, abandonada, fervilhante de contradições, vista de cima pra baixo, sob a perspectiva dos mais humilhados e ofendidos pelo Sistema; em suma, não é Sampa vista de uma heliponto na Avenida Paulista ou de uma cobertura de 5 milhões no Morumbi, é a Sampa tal como ela é vivenciada nas Crackolândias, favelas e cortiços da maior cidade da América Latina.

“Riocorrente” parece evocar uma Sampa distópica, mais dark que Blade Runner 2049​, onde um dia o Tietê virará nada menos que um rio de fogo – e os protagonistas não vão economizar nas fagulhas e faíscas que tem a fornecer pra que tudo pegue fogo.

“Era o Hotel Cambridge” acredita mais na empatia humana e na força telúrica do amor sob sua encarnação social, expandida para além da cela individual e familiar – aquilo que chama-se comumente de “solidariedade” ou “fraternidade”. O bicho pode estar pegando – a Tucanalha fardada está prestes a chegar, com toda a grosseria brucutu de herdeiros da Ditadura Militar, para cumprir mandato judicial de reintegração de posse com a delicadeza e o respeito humano que viu-se no Pinheirinho (São José dos Campos) – mas o povo, unido, pode até ser vencido, mas luta com união, fortalece-se no esforço de superação das opressões vigentes, reergue-se como Fênix de cada derrota.

Se o Brasil não é um pesadelo totalmente desesperador, é pois existem fortes focos de resistência contra a mercantilização e canalhização completa de nossas vidas. No campo e nas cidades, MSTs e MTSTs, Levantes Populares de Todas as Juventudes, resistências enraizadas dos povos indígenas e quilombolas, artistas com consciência crítica, intelectuais orgânicos atentos aos horrores galopantes, midiativistas e artivistas, dentre outras forças, fazem desta pátria pluritétnica algo muito mais interessante e amável do que a pálida e pútrida propaganda pra patriotário que é a “Ordem e Progresso” do regime Michel Temer​.

Após o golpe de Estado de 2016, “Era o Hotel Cambridge” levanta-se como uma das mais preciosas respostas da Arte Brasileira ao cenário de devastação que está sendo gestado pelos arquitetos da Ponte Para o Futuro (“imaginem quantos milhões de pobres vão morar debaixo dela”, como provoca a tirinha de André Dahmer – malvados​). Este filme pode inclusive ensinar-nos um bocado sobre solidariedade internacionalista, este pilar básico do movimento socialista, que jamais acreditou em emancipação paroquial, mas sim na união de várias emancipações coordenadas, pois onde quer que haja opressão, há resistência e ímpeto de revolução, algo a tecer em união numa grande Internacional Comunista. Com o perdão deste arroubo Trotskysta, voltemos aos refugiados…

Zygmunt Bauman, o finado sociólogo polônes que tanto nos ensina sobre o mundo atual e o drama global dos refugiados, talvez diria, assistindo ao filme de Eliane Caffé, que ele exemplifica perfeitamente o conceito de “sub-classe”, ou de “sub-gente”, que com tanta frequência é mobilizado por nossas elites que tratam vastos contingentes populacionais como simplesmente “matáveis”.

Em “Danos Colaterais – Desigualdades Sociais Numa Era Global” (Ed. Zahar), ele escreveu:

“A condição de subclasse é a de emigrados internos, ou imigrantes ilegais, ‘estranhos de dentro’ – destituídos dos direitos de que gozam os membros reconhecidos e aprovados da sociedade; em suma, um corpo estranho que não se conta entre as partes ‘naturais’ e indispensáveis do corpo social. Algo não diferente de um tumor cancerígeno, cujo tratamento mais sensato é a extirpação…” (BAUMAN, 2011, p. 10)

Esta é a ideologia do nosso inimigo: o fascismo das elites que elegem certos povos, etnias ou territórios como “zonas de sacrifício” (Naomi Klein​), lidando com gente como se fosse sub-gente, meros bichos a serem mandados para matadouros, danos colaterais a aparecerem nos gráficos dos senhores da guerra reunidos em um bunker do FMI…

Como Eliane Brum bem percebeu, “Era o Hotel Cambridge”, sem nenhum panfletarismo explícito – quero dizer, sem nunca ficar parecendo com um discurso de Guilherme Boulos – trabalhou com uma noção crucial para nós no mundo contemporâneo: a fraternidade dos refugiados.

“Esta ideia está explícita na síntese produzida por Carmen Silva, ao abrigar estrangeiros de diversas origens com brasileiros de diversas origens sob o teto da mesma palavra-casa: refugiados”. Ela sinaliza que a identidade só pode existir como atravessamento de múltiplos.

Este é o amálgama que une todos aqueles homens e mulheres, adultos e crianças que se dedicam ao absurdo da vida nos corredores do Hotel Cambridge. O amálgama que coloca os brasileiros como um “fora” mesmo dentro do seu próprio país, os estrangeiros como um “fora” de suas pátrias de origem. Mas todos eles sem refúgio de fato, exceto o do provisório, do efêmero, que constroem num antigo hotel de luxo abandonado. O único refúgio permanente é o desta identidade atravessada que permite que se movam e que confrontem o sistema por “dentro”, eles que são aqueles que foram colocados “fora”. O refúgio permanente é justamente o improvável de sua existência coletiva.

E assim, “Era o Hotel Cambridge” (…) converte-se em uma das obras culturais mais criativas e criadoras dos últimos muitos anos. E uma obra que incorpora a política, na sua expressão mais profunda, como a própria carne do seu fazer. Vida e obra se entrelaçam de tal maneira que o filme está nos cinemas e nas ruas ao mesmo tempo. Para Carmen Silva e moradores do Cambridge, a obra se tornou um instrumento de luta na medida em que se converteu em um meio para se fazer conhecer.” (BRUM)

No ano em que “Eu, Daniel Blake” (de Ken Loach) faturou a Palma de Ouro em Cannes, colocando no epicentro do debate cinematográfico global o tema das desumanidades cometidas pelo neoliberalismo reinante, e em que iniciou de modo tenso a Era Trump na Casa Branca, com ameaças palpáveis de um recrudescimento das guerras imperialistas e de uma piora tanto da crise dos refugiados quanto da insana caminhada para catastróficas mudanças climáticas, o Brasil ergue-se à altura do tempo histórico com um filme que têm algo a dizer a todo o Globo.

EXTRAS


Reportagem TVT


No estúdio TVT, entrevista com Carmem Silva, uma das líderes do Frente de Luta por Moradia (FLM)



Trailer oficial



Metrópolis – TV Cultura


Depoimento de Camila Pitanga
https://www.facebook.com/eraohotelcambridge/videos/1282159991875503/?hc_location=ufi