Elza Soares retorna com suas flamejantes canções de libertação em “Planeta Fome” (2019) – Ouça o álbum íntegra e leia a matéria @ A Casa de Vidro

Deixem Elza cantar até o fim. Nada será para este país mais salutar. Depois de A Mulher do Fim do Mundo (2015) e de Deus é Mulher (2018)a diva afrobrasileira chega com estrondo, sambando na cara da opressão, fula da vida com o blá blá blá do macho tóxico e racista, apresentando ao mundo sua mais nova coleção de canções de libertação.

“Não vamos sucumbir”, garante Elza na aurora de “Libertação”, acompanhada pelo BaianaSystem. Com esta aliança com os autores do sensacional O Futuro Não Demora, Elza também mostra-se interessada em “seguir cantarolando e bolando altos planos pra poder contra-atacar”.


Enquanto nos cinemas Bacurau estremece o chão do conformismo com seu neo-cangaço cineguerrilheiro, desembarca entre nós um disco que vem todo efervescente de insurgência cultural e política, evocando ícones e proliferando links – Marielle Franco, Rosa Parks, Wakanda… – para mandar um forte recado. Toda a resiliência, toda a ancestralidade guerreira, todo o ímpeto dionisíaco-carnavalesco do povo afrobrasileiro pulsa nesta obra-prima recém-parida por uma gênia do Planeta Fome.

É negro, é branco, é nissei
É verde, é índio peladão
É mameluco, é cafuzo
É confusão Oh, Pindorama eu quero o seu porto seguro
Suas palmeiras, suas feiras, seu café
Suas riquezas, praias, cachoeiras

Há muitos Brasis – e Elza quer mesmo é o “Brasil de cabeça em pé” e ciente de sua própria confusão. Dessa mixórdia de etnias e tradições dos Brasis todos nasceu toda a nossa desgraça e maravilha – eis o que Elza parece querer expressar através de um álbum destinado a ecoar pelo mundo e quebrar muitos paradigmas do que os gringos consideram como world music. E lá vem os rótulos espertinhos para catalogá-la como “dirty samba” ou algo que o valha.

Mas restam poucas dúvidas de que na história de nossa arte, Elza Soares expressa como poucos a tragicomédia épica desta pátria fraturada. Ela exige, com seu cantos e batuques, um “País do Sonho” na mais utópica das músicas do disco:

Eu preciso encontrar um país
Onde a saúde não esteja doente
E eficiente, uma educação
Que possa formar cidadãos realmente

Eu preciso encontrar um país
Onde a corrupção não seja um hobby
Que não tenha injustiça, porém a justiça
Não ouse condenar só negros e pobres

Eu preciso encontrar um país
Onde ninguém enriqueça em nome da fé
E o prazer verdadeiro do crack
Seja fazer gols como Garrincha, obrigada Mané!

Eu preciso encontrar um país
Onde tenha respeito com austero pudor
E qualquer pessoa em pleno direito
Diga: “Adeus preconceito de raça e de cor”

Eu preciso encontrar um país
Onde ser solidário seja um ato gentil
Eu prometo que vou encontrar
E esse país vai chamar-se Brasil.

No título de “Planeta Fome” (2019), Elza relembra o episódio lendário de seu passado: com cerca de 13 anos de idade foi participar do programa de rádio do Ary Barroso, que perguntou à jovem aspirante a cantora de onde ela tinha vindo e ela cravou: “Vim do Planeta Fome”.

De fato: a carioca, nascida em 1937, hoje com 82 anos, emergiu do Planeta Fome de sua infância e ascendeu até o destino de alguém que já marcou para sempre a história da Música Popular de seu país. E Elza sempre teve um talento espontâneo pela subversão, por uma cultura comprometida com a libertação, com a superação da opressão. Tudo isso jorra na nova obra da cantora, que traz em sua capa uma cromática odisséia criada pela pena da pessoa pós-binária Laerte (que declarou, sobre o processo criativo:  “Primeiro dei uma ouvida nas canções e achei que era o caso de evocar as turbulências da nossa realidade combinadas com os movimentos siderais. Minha intenção era produzir uma sensação de caos”).

Este álbum já nasce clássico. O primeiro clássico novíssimo em folha dos nossos Brasis em meio a este hospício em chamas que é o desgoverno BolsoNero. Elza recupera duas canções de Gonzaguinha, um dos artistas mais censurados pela Ditadura Militar, para reativar na Nova Ditadura a mordaz dissidência dos que se insurgiram na arte contra a Velha Ditadura. Em “Comportamento Geral” e “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória”, Gonzaguinha revive na voz de Elza em arranjo classudo e complexo.

Ainda que transpire tanta revolta ardente e indignação justa, a constelação afetiva do novo disco é sobretudo afirmação da vida, sim à resistência que a vivacidade ergue contra as hordas da necrofilia. Mauro Ferreira propôs, em seu artigo para o G1, que:

“A cantora concilia indignação e esperança ao discorrer sobre questões sociais do Brasil no disco produzido por Rafael Ramos. (…) No país dos banguelas, a cantora carioca tem fome de igualdade e justiça social, assuntos recorrentes no repertório do 34º álbum dessa artista cuja dureza na queda é reafirmada nos versos quase clichês da letra da ‘Virei o jogo’ (2019).

Música inédita escrita por Pedro Luís para Elza, Virei o jogo é ouvida em gravação cujos vocais remetem à arquitetura sonora do álbum anterior da cantora, ‘Deus é Mulher’ (2018), cuja composição-título também é da lavra de Pedro. “Se vem de não / Eu vou de sim / Afirmação até o fim”, brada Elza na penúltima faixa do disco ‘Planeta Fome’. [https://glo.bo/2lOIh3i]

Elza é a verdadeira voz que o Brasil, em sua pluralidade de povos, deveria propagar para os outros povos do planeta. A boca-ânus que não cessa de vomitar atrocidades dos Bolsonaristas brazileiros, a começar pelo pseudo-Mito, só nos envergonha diante do mundo e só macula nossa História. A cultura não se cala diante deste crudelíssimo neofascismo, desde bárbaro capitalismo neoliberalizado até as raias da insânia. Elza, ao contrário, é uma vida extraordinária que hoje lembra às novas gerações sobre lutas pretéritas que voltaram a se tornar nossas urgências presentes.

Genialmente, trazendo versos fortíssimos de Gonzaguinha de volta da tumba, des-censurando quem outrora foi ditatorialmente censurado, Elza realimenta todo o potencial subversivo dos Brasis que se recusam a sucumbir ao pesadelo neofascista que por enquanto nos desgoverna. E com poesias cantadas de intensa beleza como as que seguem, ela nos conclama, de novo, “vamos à luta!”:

“Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança
Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta.”


Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro.
Setembro de 2019. Faça o download do álbum completo.

Leia também: Pan African MusicTireless advocate of the women’s rights, and loud activist for the Afro-Brazilian culture, legend Elza Soares released her 34th studio album with Planeta Fome via Desk Records. The new album features notable artists from Soares’ native country, such as veteran rapper BNegão and rising artist Rafael Mike. On the single “Libertação” the diva invites Brazilian vocalist Virgínia Rodrigues and afro-futuristic band BaianaSystem.

FLERTANDO COM O APOCALIPSE – Em “Sobre Lutas e Lágrimas”, Mário Magalhães biografa o interminável ano de 2018 no Brasil

SINOPSE DA EDITORA RECORD – Um livro indignado, escrito em um tempo que exige indignação. Com o rigor dos grandes repórteres e a vivacidade dos melhores ensaístas, o premiado jornalista Mário Magalhães – autor de “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” – apresenta um retrato do Brasil de 2018, escrito a quente, no olho do torvelinho. Os protagonistas são Marielle Franco, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

O autor articula de forma magistral acontecimentos e personagens como: a caçada irracional a macacos considerados transmissores da febre amarela, a intervenção militar no Rio de Janeiro, o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, a prisão de Lula, a paralisação dos caminhoneiros, o Dr. Bumbum, a ascensão da censura, a tragédia do feminicídio, a queda de Neymar na Copa, o delírio Ursal, o espectro do nazifascismo, o incêndio no Museu Nacional, a violência no processo das eleições, a facada em Bolsonaro, a ilusão do vira-voto, o triunfo da extrema direita, o “ninguém solta a mão de ninguém”…

E também o clã Bolsonaro e suas ligações perigosas, o ideário obscurantista do novo governo, a pregação do movimento Escola Sem Partido, a luta contra as trevas, entre outros eventos que fizeram de 2018 um ano que tão cedo não vai terminar.

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FLERTANDO COM O APOCALIPSE
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Viddro

A vivacidade e urgência de Sobre Lutas e Lágrimas decorre não só do talento literário de seu autor. Com sua prosa ágil e repleta de ironia, Magalhães evoca figuras como García Márquez ou Lima Barreto. O carisma do livro vem sobretudo do fato de ter sido “escrito a quente, no olho do torvelhinho”, como o autor revelou a Fernando Morais em entrevista ao programa Nocaute. Boa parte dos 43 artigos reunidos saiu no The Intercept Brasil (click para ler todos os artigos de Magalhães) – órgão da imprensa que participa intensamente da História em 2019 através da Operação #Vaza Jato.

Mário faz magnífico jornalismo ao reagir à enxurrada de desnorteantes acontecimentos de 2018. Evocando Zuenir Ventura e sua obra sobre 1968, Mário Magalhães lida com 2018 como um “ano-personagem” que “está longe de sedimentar suas tramas e seus traumas”, “mas se sabe que suas consequências influenciarão decisivamente o país por tempo prolongado. Por isso, tão cedo não vai terminar.” (Prólogo)

No fim das contas sua obra não tem nada da descartabilidade dos jornais que, lidos hoje, amanhã embrulham peixes na feira. Mário Magalhães realizou uma obra destinada a se tornar referência para os historiadores do futuro que quiserem se debruçar sobre o labirinto deste ano que deixou muitas sequelas e feridas abertas. E sobretudo pois empoderou a própria Besta do Apocalipse.

Um pouco antes de ser assassinada por milicianos em um crime político ocorrido em Março de 2018 – 50 anos após a PM assassinar o secundarista Edson Luís no Calabouço -, a vereadora Marielle Franco, do PSOL 50, manifestou-se sobre o cerco golpista dos togados contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Marielle apoiava a candidatura de Guilherme Boulos para o Planalto, mas defendeu o direito de Lula concorrer à eleição com fortes palavras: “Aqueles que querem derrotar Lula e lançam mão dos atalhos togados sentem náusea da democracia. Defender a democracia é defender o direito à candidatura de Lula.” (In: MAGALHÃES, Mário. Sobre Lutas e Lágrimas, p. 22).

Os “atalhos togados” dos que “sentem náusea da democracia” foram escancarados, em 2019, pela Operação #VazaJato capitaneada por The Intercept Brasil. Já que todas as pesquisas de intenção de voto prognosticavam a 5ª vitória consecutiva do PT – Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais, era necessário à Elite do Atraso recorrer a expedientes anti-democráticos para retirar das urnas o nome daquele que se consagraria o vencedor.

Lula cumprimenta a mãe de Marielle Franco em ato no Circo Voador, em Abril de 2018. Foto por Ricardo Borges / Folhapress.


Em abril de 2018, no Circo Voador lotado com mais de 5.000 pessoas, Lula participou de um comovente ato que contou com a presença da mãe de Marielle Franco, sua esposa transformada em viúva Mônica Benício e do hoje deputado federal Marcelo Freixo. Ali, acarinhou com empatia e solidariedade o luto daqueles que choravam a perda brutal de Marielle, e poucos dias antes de ser encarcerado soltou palavras destinadas à História:

– Eles não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus sonhos. Se não me deixarem andar, vou andar pelas pernas de vocês. Se meu coração deixar de bater, ele baterá no coração de vocês. (Fonte: Folha de S.Paulo)

Com o assassinato de Marielle e o aprisionamento de Lula, dois fenômenos conectados com a ascensão da extrema-direita Bolsonarista, entrou em colapso acentuado a frágil democracia que havíamos começado a reconstruir em 1988. A historiadora francesa Maud Chirio sugeriu que “nos livros de história, vamos escrever: Nova República, 1985 – 2018”.

A ascensão de Bolsonaro ao poder supremo do Executivo federal enterra quaisquer planos de democracia com inclusão social e horizonte utópico de igualitarismo. Empodera uma figura que, para além de saudosista da ditadura e apologista da tortura, abençoa grupos milicianos e preferiu não se pronunciar sobre a execução de Marielle pois sua fala seria muito “polêmica”. Em 2008, entrevistado pela BBC, o atual ocupante da função de presidente da república disse sobre as milícias que “o governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las.” (Magalhães, op cit, p. 24)

O grau de amortecimento de nossa sensibilidade e capacidade de indignação já atingiu tal alturas, dada a enxurrada cotidiana de horrores patrocinados pelo desvario Bolsonarista, que quase não nos surpreende mais que um dos executores do homicídio contra Marielle morasse no mesmo condomínio que a família Bolsonaro e que o Filho Zero Quatro namorasse a filha do assassino. Meras coincidências?

Prestes a ser eleito após ser favorecido pelo “golpe togado” chefiado por Sérgio Moro, depois recompensado com o cargo de Superministro da Justiça e da Segurança Pública, Bolsonaro escancarou de novo sua brutalidade e boçalidade ao se referir a Lula como um “cachaceiro” e ao discursar por telefone para eleitores que rosnavam diante de um telão na Avenida Paulista: “Você, Lula, vai apodrecer na cadeia!”

O Google divulgou que, em 2018, a pergunta mais frequente digitada por internautas brasileiros foi “o que é fascismo?”. Restam poucas dúvidas de que o Brasil de 2018 concede à História Global um dos melhores exemplos recentes da ascensão do fascismo através de episódios emblemáticos como a execução de Marielle, o cárcere de Lula e a vitória eleitoral fraudulenta de Bolsonaro. O fascismo, numa definição talvez simplista mas que não deixa de ser oportuna, é o triunfo do ódio e o empoderamento do sadismo.

O curioso do fascismo à brasileira é a atrofia do senso crítico de milhões de nossos cidadãos, incapazes de perceber a contradição flagrante entre a defesa de valores conectados a “Deus, Família e Tradição” e o apoio ao Bolsonarismo e seu satânico projeto todo calcado em ganância, elitismo, racismo, misoginia, homofobia e privilégios expandidos para os velhos mandões: os homens cis brancos e ricos.

No quesito “Família”, por exemplo, é bastante bizarro que os auto-proclamados “Cidadãos-de-Bem” vejam em Jair um exemplo – ele que está em seu 3º casamento, que foi acusado por ex-esposa de tê-la ameaçado de morte e que trata sua filha caçula como “fraquejada”, lamentando que tenha nascido mulher (aliás, os 4 filhos machos estão sempre no noticiário e dominaram a política institucional através do deslavado nepotismo do Papai… mas alguém já ouviu a voz ou viu a imagem da filha de Bolsonaro?). Os que votaram em Bolsonaro diziam estar defendendo a Família, mas a ascensão desta figura odienta e boçalizante, agente da barbárie e da crueldade desrecalcada, produziu uma enxurrada de catástrofes familiares:

“O ódio devastou vínculos afetivos. Estremeceu a tradição de celebração natalina familiar porque muitos se recusaram a confraternizar com quem se associara à beligerância que Bolsonaro sintetizou, apregoando que ‘as minorias se adéquam ou simplesmente desapareçam’ – a admissão do extermínio. Opositores das almas hidrófobas estabeleceram uma distinção: nem todo parente é família; família é quem cultiva amor e amizade, aceita a diferença e consagra a tolerância.” (MÁRIO MAGALHÃES, op cit, p. 32)

É por isso que, em milhões de nós que fomos pras ruas e militamos nas ruas pelo #EleNão e que hoje aderimos ao espírito solidário do “Ninguém Solta a Mão de Ninguém”, família expandida é algo que envolve a dor alheia dos que derrubam lágrimas pela injustiça: são nossa família Anielle e Mônica Benício em seu luto que compartilhamos pela perda de Marielle, são nossa família o viúvo Lula que teve que chorar a morte de Marisa, de Vavá e de seu neto, são nossa família os parentes de Evaldo dos Santos Rosa, músico de 51 anos que foi metralhado por mais de 70 tiros por soldados do Exército que o “confundiram” com um bandido…

Diante do oceano de sofrimento que o desvario neofascista no Brasil está acarretando, precisamos de famílias estendidas e alternativas, que transcendam os tradicionais “laços de sangue” tão capturáveis por discurseiras racistas e segregadoras. Um conceito de família que possa abarcar em nosso coração expandido um afeto por aqueles que são oprimidos e trucidados pela injustiça. Um país menos sórdido só se construiria caso conseguíssemos sentir, como se fosse a de um familiar, a dor do menino de 7 anos, filho de Evaldo, que estava naquele carro que o Exército metralhou. Um país mais humano só se construiria caso a dor inominável do órfão de Evaldo pudesse se tornar a nossa – e sabemos que afundamos no abismo da desumanidade galopante quando a indiferença e a apatia nos toma diante do sofrimento injusto imposto a outrem só porque este outro não é de nossa família…

“Por cinco dias, o presidente Jair Bolsonaro silenciou sobre o episódio. Então, falou: ‘O Exército não matou ninguém, não…'”

O que nos mata em vida é a indiferença perante o sofrimento injusto imposto a Marielles, Lulas, Evaldos… o que nos mata em vida é a conivência com o neofascismo odiento que aniquila nossa solidariedade enquanto hipocritamente relincha seus clichês sobre Deus e a Família, quando tudo o que o Bolsonarismo faz é destruir vínculos, promover o apartheid e lançar cada vez mais toxicidade no esgarçado tecido nas relações social neste país que, em 2018, flertou com o Apocalipse. E que agora está sendo (des)governado pelos próprios Cavaleiros do Apocalipse e seu séquito de seguidores acríticos que lhe servem como gado, sem saber que estão em um matadouro e que o Chefe da parada toda só os engorda para depois trucidá-los.

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A Casa de Vidro

 

LEIA ARTIGOS E ENTREVISTAS DE MÁRIO MAGALHÃES:

Diálogos Contemporâneos – Tema: Biografias do Brasil

Trilha de Letras – TV Brasil

Conversa Afiada com P. H. Amorim

A CORAGEM DA VERDADE EM NOVA TEMPORADA: Sobre Greenwald & David Miranda, #VazaJato & #LulaLivreUrgente

Orwell ensina que “quanto mais uma sociedade se afasta da verdade, mais ela vai odiar aqueles que a falam”. Ensina também que “em tempos de enganação universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário.” A distopia de 1984 envolve explicitamente um Partido (encabeçado pelo Grande Irmão) que deseja ser a única entidade a possuir controle total sobre toda a sociedade, e sua inspiração histórica são os partidos Nazista e a perversão do bolchevismo na URSS sob Stálin. Crítica do totalitarismo em forma de romance sci-fi, o livro mostrava a constante falsificação da História de acordo com os interesses da tirania reinante – e, é sempre bom que se lembre, 1984 não era um manual de instruções! Era um manifesto de denúncia.

Aquele contexto orwelliano tem ressonâncias em obras-de-arte posteriores que marcaram época, a exemplo da graphic novel de Alan Moore V For Vendetta, onde as viralização das vertentes anarquistas, através dos sujeitos escondidos por detrás das máscaras de Guy Fawkes, traz à baila um tema crucial: até que ponto é legítimo e direito a insurreição violenta dos oprimidos quando esta se levanta contra a violência estrutural-sistêmica dos opressores? Na HQ de Moore, depois transformada em filme com direção de James McTeigue, um dos ensinamentos principais é este: o governo é que tem que ter medo do povo, e não o povo quem deve temer seu governo.

Ousar sair do rebanho dos conformados e dos obedientes, levantar a voz para dizer uma verdade intragável aos ouvidos dos poderosos, é sempre arriscado. É práxis que tem um preço, é uma ação que suscita reações às vezes intensas, até mesmo psicopáticas e homicidas. É por isso, como Foucault ensina através do exemplo histórico de Diógenes de Sínope, que a coragem da verdade (que os gregos chamavam de parresía) sempre comporta um certo risco.

O que é bastante óbvio: a virtude da coragem exige que o sujeito encare o obstáculo do risco, que vença a ressonância interna deste risco que se manifesta nos afetos do medo. Só é corajoso quem ousa ser verídico pois ele, ao manifestar-se, corre o risco de ter sua língua, ou mesmo seu pescoço, ou até mesmo sua cabeça, cortados. Olympe de Gouges foi guilhotinada por falar contra os jacobinos revolucionários, ousando defender direitos iguais para as mulheres e para as populações dos colonizados africanos sob a opressão do Império Francês…

Hoje, é de praxe que o discurso liberal politicamente correto, conexo à defesa da “democracia capitalista” modelo-ocidental, reclame pela liberdade de expressão como direito inalienável. Desde que fique dentro de certos limites, que não viole os direitos alheios – como, por exemplo, o direito do outro de não ser humilhado em sua dignidade por discursos ofensivos por seu teor racista, misógino ou elitista. De acordo, mas esta mesma atitude liberal “moderada” enche-se de melindres quando uma insurreição popular deixa vidraças de empresas estilhaçadas e caixas eletrônicos em chamas. Aí, aqueles que outrora falavam na sacralidade da liberdade de expressão, pedem pela criminalização e aprisionamento dos “vândalos” – que em seu protesto contra um sistema estruturalmente injusto teriam atentado contra os direitos sagrados das vidraças e dos prédios de bancos.

Em 2018, “o ano em que o Brasil flertou com o Apocalipse”, para emprestar a expressão de Mário Magalhães, tivemos duas tragédias conexas ao tema que estamos discutindo: o assassinato de Marielle Franco e o encarceramento de Luiz Inácio Lula da Silva. Até mesmo os adversários de Marielle e Lula, os que se situam à direita do espectro político, hão de convir que ambos marcam época por sua lábia ousada, ou seja, pelo que ousaram expressar. 

Marielle, criada na favela da Maré, mulher negra e lésbica, teria tudo, caso tivesse respeitado o estereótipo, para não ter “lugar de fala” em nenhum espaço de poder. Ascendeu como um meteoro como agente política, elegeu-se vereadora, envolveu-se por anos nas causas do PSOL, colaborou com Marcelo Freixo, escreveu uma tese de mestrado sobre as UPPs, deliciou-se com a literatura de Chimamanda, fez planos de casar-se com Mônica, e tudo isso fez com voz altissonante, cabeça altiva, postura rebelde, ethos de quem sabe a razão que tem e a relevância do que diz. E ousa dizer, doa a quem doer.

Luiz Inácio também representa o raro caso de uma vida ascensional, que estabelece no universo uma espécie de arco de empoderamento: ele poderia ter sido só mais um zé-ninguém, um anônimo retirante nordestino que, escapando das dificuldades conexas à seca e à miséria em Pernambuco, muda-se para o centrão industrial paulista para se tornar proletário, uma das carnes mais baratas do mercado. Lula poderia ter sido um dentre muitos operários que já perderam dedos, mãos, pés e outros membros por amputação nas linhas-de-montagem.

Lula poderia ter permanecido nas sombras e longe dos holofotes, mas ousou ir além, fez-se líder sindical e estrategista da greve que confrontou a Ditadura Militar no fim dos anos 1970. Ao invés de apegar-se aos comezinhos interesses pessoais, a um restrito projeto-de-vida conservador que tivesse a família e a religião como centros absolutos (atitude sempre potencialmente idiotizante), lançou-se na aventura da transformação social coletiva. Ajudou a fundar um partido político, candidatou-se a cargos públicos, consagrou-se presidente da república eleito e re-eleito, e fica difícil negar que tudo isso tem a ver com a parresía lulista. 

Não há coragem da verdade senão no exercício de tornar público aquilo que é fato, mas muitos recusam a tomar consciência: por exemplo, a farsa da “democracia racial” brasileira, que Marielle soube tão bem denunciar, de modo recorrente, frisando que há uma cor predominante para a pessoa que é violentada, que morre prematuramente nas mãos do aparato repressor do estado, que está preso em nosso superlotado sistema carcerário. O quanto há de racismo em nossa violência sistêmica que banaliza o genocídio da juventude periférica negra fica velado, semi-mascarado, por reações excessivamente sensacionalistas diante de violências específicas perpetradas por indivíduos.

Por isso é tão importante a distinção operada por Žižek entre a violência sistêmica e a violência individual. Quem oprime mais, o capitalismo neoliberal que abandona a população de Nova Orleans após o rompimento dos diques no pós-Furacão Katrina, ou as famílias que desesperadas e famintas cometeram naquela ocasião saques contra mercados e farmácias? Quem oprime mais, o sistema policial-carcerário que fez do Brasil um dos 3 líderes globais do encarceramento em massa, e com explícitas colorações racistas, ou o revoltado mascarado que vai às ruas com vontade de incendiar carros e quebrar vitrines de bancos?

“As pessoas dormem tranquilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”, dizia Orwell. E outro grande escritor, Mark Twain, segundo Slavoj Žižek em sua obra Violência, “contesta a afirmação de que a resposta violenta das multidões é pior do que a opressão que a instiga”:

“Havia dois Reinos de Terror, se quisermos lembrar e levar em conta: um forjado na paixão quente; o outro, no insensível sangue frio… Nossos arrepios são todos em função dos horrores do Terror menor, o Terror momentâneo, por assim dizer, ao passo que podemos nos perguntar o que é o horror da morte rápida por um machado em comparação à morte contínua, que nos acompanha durante toda a vida de fome, frio, ofensas, crueldades e corações partidos?

Um cemitério poderia conter os caixões preenchidos pelo breve Terror diante do qual todos fomos tão diligentemente ensinados a tremer e lamentar, mas a França inteira dificilmente poderia conter os caixões preenchidos pelo Terror real e mais antigo, aquele indizivelmente terrível e amargo, que nenhum de nós foi ensinado a reconhecer em sua vastidão e lamentar da forma que merece.” (TWAIN, M. “Um ianque na corte do rei Artur”, São Paulo: Rideel, 2011.)

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PARTE 2 – VAZA JATO E LULA LIVRE

Nos últimos anos, esta saga épica da Coragem da Verdade ganhou novos capítulos e celebridades – como é o caso de Edward Snowden e Julian Assante. Agora, tudo indica que a Operação #VazaJato está destinada a entrar para a História da comunicação social contemporânea, a ser estudada pelos midiólogos em conjunto com os fenômenos Wikileaks e Snowden. Através de sua bem-sucedida operação de vazamento das conversas secretas entre Sergio Moro e os procuradores do Ministério Público Federal, o The Intercept Brasil fez aquilo que espera-se do bom jornalismo: que ilumine a opinião pública com informação bem contextualizada e de interesse de todos, ousando dizer o que Bolsonaro e seus cupinchas não desejam que seja revelado.

Glenn Greenwald, jornalista estadunidense do The Intercept, casado com David Miranda (deputado federal pelo PSOL, que assumiu após o exílio de Jean Wyllys), tornou-se uma espécie de símbolo da Resistência ao ilegítimo e violento desgoverno Bolsonarista. Rapidamente, Glenn e David viraram alvos das milícias digitais e dos assassinos-de-reputação on line, com direito a ofensas homofóbicas e ameaças de morte.

Assim emergiu no “xadrez do Golpe”, para emprestar a metáfora do tabuleiro tão utilizada por Luis Nassif em suas análises, um elemento novo: Glenn Greenwald e sua equipe, como intermediários midiáticos entre a sociedade civil e as antes secretas “tenebrosas transações” que conduziram à condenação e à prisão, em ano eleitoral, de Lula. Não é pouco significativo, neste contexto, que Glenn tenha sido um dos primeiros jornalistas a entrevistar Lula na prisão, em um vídeo com mais de 900.000 acessos:

Sinais de que a cultura popular já acordou para a importância histórica das revelações estão surgindo. Hackeando o samba de Chico Buarque “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, o Roni Valk mandou uma pedrada poético-satírica bem na cara do Moro: “Glenn Te Viu, Glenn Te Vê”. Ao parir a paródia, no processo acabou por explicitar uma fenômeno que despontou neste Junho de 2019, a farsa jurídica que costuma ser descrita como um caso típico de lawfare. Confiram a música na interpretação de Leo Almeida Filho:

“Você era a mais bonita das galhofas dessa farsa
Você era o queridinho e ele era seu comparsa
Hoje a gente toda fala da verdade que está nua
Suas noites são em claro porque tem mais falcatrua
Hoje a casa caiu – laiá laiá – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT
Quando o Telegram rolava, você era o mais brilhante
O showzinho da defesa e que in Fux we trust
Pra Deltan deu tanta dica. Juiz Investigador
Pelo que vi tudo indica que mentira é o senhor
Hoje a casa caiu – pra Dallagnol – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT
Hoje é só esperar mais lista com sua demagogia
Quero mais que você vaze com sua conje e companhia
E pra quem tá arrependido, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é esquerdista
Hoje a casa caiu – desmoronou – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT…”
(Roni Valk)

Não estava nos planos dos golpistas que fosse nascer, logo no primeiro semestre do “novo” governo, vazamentos de tal monta que explicitam as vergonhas das entranhas da Lava Jato, transformada em instrumento de luta política, pontiaguda lança de lawfare que apunhalou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e, por tabela, feriu de morte a legitimidade das eleições presidenciais de 2018.

Vencedor do prêmio Pulitzer de jornalismo, Glenn Greenwald participou ativamente do “Caso Snowden” – o gigantesco leak de documentos secretos da NSA (National Security Agency) que explicitou o grau e a magnitude da espionagem global dos cidadãos comuns praticada à margem da lei pela “inteligência” de Tio Sam. E por aquela mesma CIA e aquele mesmo Pentágono tão especialistas em golpes de Estado e guerras imperiais de agressão fora das suas fronteiras.

Torna-se um pouco ridículo, e extremamente desleal, o ataque bolsonarista contra Glenn, que não é apenas um jornalista de comprovada competência, um premiado agente das mídias digitais, como também já marcou até mesmo o cinema contemporâneo. No filme de Oliver Stone, baseado em fatos reais, sobre Snowden, Glenn é um dos personagens principais, auxiliando o dissidente Eddie Snowden a publicar o material que tinha em mãos em órgãos como o The Guardian, de modo a fazer com que o apito deste whistleblower não pudesse ficar ignorado. Glenn também já esteve com um Oscar nas mãos, de Melhor documentário, por sua parceria na realização de Citizenfour (2014), de Laura Poitras.


Greenwald torna-se agora uma das vozes globais com maior responsabilidade de iluminar as consciências, lá fora, sobre o que se passa aqui dentro – o que pode inclusive ser determinante para a plausível premiação de Lula com o Nobel da Paz. A cada dia que passa, Lula aparece a uma quantidade maior de consciências bem-informadas em nossa Aldeia Global como a vítima de um mecanismo de lawfare que equivale a um crime político infligido contra sua cidadania.

Nos últimos dois meses, tivemos um significativo e massivo #TsunamiDaEducação, uma greve geral em 14 de Junho e agora o maremoto da Lava Jato: sinal de que a “Bolsonada” suscita ampla resistência e rebeldia. Com a #VazaJato bombando em Junho de 2019, o xadrez ganha novos elementos e a saga épica de nossa infindável luta de classes, em acelerado processo de uma polarização que se encaminha para a tragédia (afinal, a tragédia provem do entrechoque de forças irreconciliáveis, que possuem entre elas uma contradição ou conflito que não há remédio que sane).

Aqui n’A Casa de Vidro, onde não acreditemos no mito do jornalismo imparcial, não acreditamos tampouco num jornalismo que minta por interesse. Na medida do nosso possível, estamos na blogosfera e nas mídias sociais para tomar posição na trincheira ao lado daqueles que julgamos como os mais justos e os verídicos. E isto significa, hoje, imbuídos do ethos do “ninguém segura a mão de ninguém”, estar de mãos dadas com Marielle Franco, Jean Wyllys, Débora Diniz, Glenn Greenwald, David Miranda, Luiz Inácio Lula da Silva. Os que têm a ousadia da verdade e assim não permitem que o fluxo da História fique esclerosada na estagnação em que os conservadores desejam imobilizá-la.

TRANSMISSÃO – THE INTERCEPT INTERNACIONAL

RAFINHA BASTOS ENTREVISTA GLENN GREENWALD

DEMOCRACY NOW ENTREVISTA GREENWALD

CONHEÇA ALGUNS ESCRITOS DE GLENN GREENWALD:

GLENN: POR QUE MINHA AMIGA ERA UM POÇO DE ESPERANÇA E A VOZ DOS BRASILEIROS QUE NÃO TINHAM VOZ17 DE MARÇO DE 2018 

Enquanto milhares tomam as ruas do Brasil para protestar contra esse brutal assassinato, Glenn Greenwald lembra a vida e a amizade desta formidável e destemida defensora dos mais pobres.

Original, em inglês, em Independent.

Uma das mais promissoras, carismáticas e amadas figuras políticas brasileiras foi brutalmente assassinada na noite de quarta-feira no centro do Rio de Janeiro, em um crime que as autoridades concluem que foi uma execução política. A vereadora Marielle Franco, de 38 anos, foi assassinada quando seu carro foi atingido por atiradores com nove balas, quatro nas quais em seu crânio. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, também foi morto.

Franco foi assassinada por volta das 9h30, depois de deixar um evento intitulado “Jovens Negras movendo estruturas”. A polícia acredita que ela foi monitorada por seus assassinos desde que ela deixou o prédio, afinal, apenas assim eles saberiam onde, exatamente, ela estaria sentada no carro, que possuía vidros escuros.

O assassinato de Marielle sacode o Brasil no momento em que o país atravessa um massivo escândalo político, um crise política sem fim visível, anos de recessão econômica e ainda uma espiral de violência epidêmica.

O ousado assassinado ocorreu nas ruas do Rio de Janeiro justamente um mês depois que o presidente brasileiro, Michel Temer, ordenou uma intervenção militar na cidade com o objetivo de estabilizar a segurança. Foi a primeira ação como essa depois dos 21 anos de ditadura, que se encerraram em 1985.

Marielle denunciava veementemente a intervenção militar e recentemente foi nomeada relatora de uma comissão que iria fiscalizar possíveis abusos desta medida.

No entanto, o que é mais notável – e mais devastador – sobre o assassinato de Marielle é como sua trajetória pública é única e improvável: uma mulher negra LGBT, em um país notoriamente dominado por racismo, machismo e conservadorismo religioso, que cresceu em uma das maiores, mais pobres e mais violentas favelas do Rio, o Complexo da Maré.

Ela se tornou uma mãe solteira aos 19 anos, mas, ainda assim, cursou a faculdade de sociologia e se tornou uma das mais efetivas ativistas pelos direitos humanos do Rio de Janeiro, liderando frequentemente perigosas campanhas contra a violência policial, corrupção e execuções extra-judiciais, que atingem os cariocas pobres, negros, moradores de lugares como aquele que ela cresceu.

Assim que ela aumentou sua incidência política, Marielle aderiu ao novo partido da esquerda brasileira, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e, rapidamente, tornou-se uma de suas estrelas.

Em 2016, ela concorreu para um cargo público pela primeira vez como candidata a vereadora e foi eleita como uma votação expressiva. O resultado atordoou a classe política da cidade: pela primeira vez, uma mulher negra da Maré tornou-se a quinta candidata mais votada (eram mais de 1.500 candidatos, dos quais 51 foram eleitos).

O sucesso solidificou o status de Marielle não apenas como uma nova força política a ser reconhecida, mas também com um sopro de esperança para os brasileiros de grupos excluídos que, historicamente, não tiveram voz: os moradores de favelas, os pobres e as mulheres.

Assim que assumiu o cargo, Marielle, imediatamente, usou a sua estrutura para focar naquilo em que sempre foi seu trabalho: investigar, denunciar e organizar campanhas contra a violência policial que incide sobre os moradores negros e pobres.

Dias antes do seu assassinato, ela esteve em Acari, uma favela plana do Rio, para protestar contra os recentes assassinatos de um dos mais conhecidos, violentos e sem-lei batalhões de polícia. O que torna difícil determinar exatamente quem matou Marielle é, precisamente, sua bravura. Ela era uma ameaça para muitas facções violentas, corruptas e poderosas. Assim, a lista de suspeitos e de motivos da morte é longa.

O assassinato de Marielle é uma terrível perda para o Brasil e para o Rio, mas também devastou a minha família. Meu marido, David Miranda (conhecido por ter sido detido, abusivamente, pelas autoridades britânicas no Aeroporto de Heathrow em 2013) foi eleito como vereador do Rio no mesmo momento que Marielle foi, como parte do mesmo partido. As histórias dos dois eram extremamente similares: como Marielle, David cresceu em uma das mais violentas favelas da cidade e, apesar de se tornar órfão, foi o primeiro homem, assumidamente gay, a ser eleito como vereador.

Eles falavam frequentemente em agregar mais candidatos como eles para o PSOL, que, assim como muitos partidos no Ocidente, tem tido dificuldades de atravessar ricos e intelectuais enclaves da esquerda e chegar até às pessoas pobres, aos trabalhadores, às minorias que reclamam para falarem e serem ouvidas. Isso se deve, em parte, porque muito poucos representantes vêm destes lugares pobres.

Os assentos de Marielle e David no plenário da Câmara eram um do lado do outro, e eles se tornaram não apenas camaradas, trabalhando nos mesmo projetos, mas melhores amigos. Assim como ela fez por muitas pessoas de todo o Rio, Marielle tornou-se uma inspiração essencial para nossos filhos, recém adotados. Ela foi uma poderosa professora para mostrar que, mesmo em um país com racismo, desigualdade econômica, preconceitos de todo o tipo que persistem como uma força tóxica, todos os muros injustos podem ser quebrados.

Qualquer um que conhecia Marielle sabia, logo na primeira vez, que falava com alguém realmente especial, uma certeza que se reforçava a cada vez que você passasse algum tempo ao seu lado.

Nesta semana, não apenas o Rio de Janeiro, mas, praticamente, cada cidade do Brasil, centenas de milhares de pessoas se reuniram no luto da perda de um símbolo de esperança tão virtuoso. Mas essas pessoas ainda registraram seu desgosto e raiva pelos reais culpados de sua morte: a elite, política e econômica, do Brasil que engoliu a si mesmo em corrupção, frutos apodrecidos da desigualdade maciça. Enquanto isso, o resto da população é obrigada a se defender em um clima de violência, ilegalidade desenfreada, abuso policial e pobreza destruidora da alma.

Mais trágico do que tudo é que Marielle era exatamente o que o Brasil, repleto de carências, mais precisa: pessoas que entendam a tragédia da maioria dos brasileiros e que estejam empenhados em melhorá-la, não explorá-la. Marielle vive em sua parceira Mônica; em sua filha Luyara Santos, de 19 anos, que escreveu ontem: “Eles mataram não apenas minha mãe, mas também seus 46 mil votos; Marielle vive em sua mãe e também em seus familiares.

Marielle vive em um país e em uma cidade que a amavam, que agora lutam para entender como isso pôde acontecer. Além do mais, o país é desafiado a encontrar uma maneira de garantir que essa morte não se torne outro episódio que reforça uma antiga realidade onde facções violentas matam qualquer um em impunidade. O desafio é para garantir, finalmente, que a morte de Marielle não foi em vão e que ela servirá para forçar milhares e dezenas de milhares de novas Marielles, inspiradas em seu potente exemplo pessoal.

Glenn Greenwald

SAIBA MAIS:

SILÊNCIOS QUE BERRAM: Os assassinados Marielle, Moa e Evaldo ainda gritam – e suas ausências denunciam a vigência cruel da Necropolítica.

SILÊNCIOS QUE BERRAM

Brasil: eis um pesadelo de que não conseguimos despertar, similar à definição de História de Stephen Dedalus, o alterego literário de Joyce. Aqui, o real é um pesadelo num “país com um imenso passado pela frente”, como profetizava Millôr, nosso brilhante poeta-dramaturgo-comediante. São tempos em que a Elite do Atraso parece determinada em transformar todo o território numa Sucursal do Inferno – pra relembrar o título de um livro do Izaias Almada. Uma trogloditocracia nos desgoverna – e ao invés de estarmos nas barricadas, nas insurreições pra parir uma realidade menos sórdida, estamos debatendo o terraplanismo, zoando as “opiniões” evanjegues de Damares ou quebrando o pau em controvérsias se Olavo é filósofo, ou apenas astrólogo charlatão…

Diante de fatos recentes como a morte de dois músicos negros, um em Salvador e outro no Rio de Janeiro, não se pode calar as questões: quando o Exército criva um carro de família com 80 balas e mata um cidadão carioca, o músico Evaldo Rosa, e depois o chefe-de-Estado usa a frase “o Exército não matou ninguém” e qualifica o equivocado derramamento de sangue pelas forças armadas a serviço do Estado como apenas um “incidente”, não se torna explícito que estamos diante de alguém que considera, em massa, certa categoria de cidadãos como “ninguéns”, ou seja, como extermináveis?

O SILÊNCIO QUE BERRA – por Carlito Azevedo: “3 planos na foto. No primeiro plano, quase invisível, representando o nadinha de nada que nos isola do absurdo, fica o cordão de isolamento. No meio, a dor indescritível, o silêncio que berra (já aqui a cabeça entra em parafuso). Ao fundo, um pelotão de fuzilamento, nem próximo, nem distante, e 80 balas mais leve.” Foto de Fábio Teixeira.

Quando, em dia de eleição nacional, um eleitor do candidato de extrema-direita apunhalou pelas costas, com 12 facadas, o mestre de capoeira Moa do Katendê, e a resposta do então presidenciável do PSL foi, ao invés de solidarização com a vítima e atitudes de luto, tentar chupar os holofotes para si e para “sua” facada (o que ele queria saber, vocês se lembram, é quem tentou matá-lo em Juiz de Fora…), já não estamos diante da barbárie do empoderamento de um irresponsável?

São episódios em que o sangue escarlate derramado na bandeira já evidencia o erro na postura intolerante e intolerável dos que relinchavam “nossa bandeira jamais será vermelha!” Deixam claro que estamos entregando poder em demasia a um Sinhô incapaz de qualquer empatia com as vítimas das violências odiosas e sectárias que ele próprio disseminou, e que hoje comanda.

Não seria novidade histórica caso, diante das atrocidades que virão, o responsável-mor buscasse se esconder no argumento fácil e clichê da irresponsabilidade, do “não tenho nada a ver com isso”. “Pô, se um eleitor meu dá 12 facadas em alguém, depois de euzinho ter subido no palanque pra falar que tinha que ‘metralhar a petralhada’ e que ‘a ditadura matou pouco’, o que eu tenho a ver com isso?!?” É diante deste tipo de patologia da desresponsabilização que teremos que lidar. O próprio fato de Bolsonaro querer pular fora da responsa já é um sinal inequívoco que estamos diante de um temperamento ou caráter típico de um líder fascista. Pois Eichmann também era assim…

Diante da irresponsabilidade satisfeita-de-si que ostenta Bolsonaro, parecido com um pré-adolescente de 11 anos que ainda não tivesse aprendido qualquer noção de responsabilidade e solidariedade, é preciso lembrar das catástrofes conexas à esta incapacidade do sujeito de assumir a responsa pelo que diz e pelo que faz. O sujeito que alguns (cerca de 57 milhões de eleitores) escolheram para ser o Chefão do Executivo Federal está conduzindo o país a uma tragédia anunciada, e que já se processa em velocidade acelerada. E temos refletido muito pouco, coletivamente, sobre o quanto tudo isso tem a ver com aquele colapso da responsabilização que Erich Fromm e Wilhelm Reich, que Hannah Arendt e Theodor Adorno, nos ensinaram estar vinculada umbilicalmente aos genocídios e atrocidades cometidas por sociedades sob o feitiço maligno de uma liderança fascista.

O Brasil parece estar se afundando cada vez mais no lodaçal desta política irresponsável e sádica que presidiu também à “Solução Final” perpetrada pelo III Reich em seu trato com o “problema judeu”. Em sua “Cruzada por um Brasil Medieval”, como escreveu Sakamoto, o Bolsonarismo depende de suas redes de fake news e disinformação, com suas táticas à la Goebbels de produção da histeria anti-comunista, da mobilização dos ódios antipetista, antipsolista, antifeminista, antiLGBTQ etc.

E assim vamos embarcando no trem de horrores que a extrema-direita neo-fascista, mundo afora, costuma encabeçar e liderar: aquilo que Hannah Arendt chamou de “massacres administrativos”. A desgovernança do Bolsonarismo, este delírio fundamentado na filosofia Olavista, somado à idolatria pela ditadura e suas práticas-de-porão, conduz diretamente a uma política de extermínio, a chamada necropolítica, tão bem analisada pelo pensador camaronês Achille Mbembe.

Assumindo o poder após o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff, o traíra Temer (MDB) se referiu à “intervenção militar” que ordenou na cidade do Rio de Janeiro como um “laboratório” do que depois seria expandido para o resto do Brasil. Quando Marielle Franco e seu motorista Anderson foram metralhados em Março de 2018, a expressão de Temer ganhou contornos mais sombrios, uma ironia mais macabra.

Ao calarem com brutalidade a voz de uma representante do povo, eleita a despeito de suas origens pouco convidativas à ascensão aos palacianos espaços de poder, os poderosos mandaram a mensagem de que a execução ali era “laboratorial”. Parte de um experimento mais amplo. Parte de um plano de extermínio. Pois as velhas elites escravocratas, viciadas na mentalidade colonial, viciadas em subserviência em relação a metrópoles, sempre quiseram ver certos estratos da população como os ninguéns e os extermináveis. Na visão de mundo deles, uma mulher negra, nascida na favela da Maré, que ainda por cima comete o pecado de ser socialista e lésbica, é o suprasumo do sujeito aniquilável.

Com a eleição de Bolsonaro, aquele laboratório de aniquilação que foi o assassinato de Marielle Franco tornou-se uma das piores pedras no sapato do governo que, em 4 meses de caos e patifarias, deu a muitos a impressão de ser um governo natimorto, agonizante. Só não devemos subestimar a resiliência do capitalismo agonizante de arrastar-se nas vísceras, no suor e do sangue das pessoas que explora e oprime: é este o pântano predileto para que este monstro nos dê o espetáculo repugnante de seu rastejamento de agonia. O fascismo é como um capitalismo rastejante, já sem forças para pôr uma máscara de civilidade sobre o seu rosto transtornado pelo sadismo e pela perversidade.

Eliane Brum soube compreendê-lo a fundo e tem analisado em minúcias o que significa estarmos hoje sob o domínio dos perversos:

“Estamos sob o jugo de perversos, que corrompem o poder que receberam pelo voto para impedir o exercício da democracia.

Os exemplos são constantes e numerosos. Mas o uso mais impressionante foi a recente ofensiva contra a memória da ditadura militar. Bolsonaro mandou seu porta-voz, justamente um general, dizer que ele havia ordenado que o golpe de 1964, que completou 55 anos em 31 de março, recebesse as “comemorações devidas” pelas Forças Armadas. Era ordem de Bolsonaro, mas quem estava dizendo era um general da ativa, o que potencializa a imagem que interessa a Bolsonaro infiltrar na cabeça dos brasileiros.

Aparentemente, Bolsonaro estava, mais uma vez, enaltecendo os militares e dando seguimento ao seu compromisso de fraudar a história, apagando os crimes do regime de exceção. Na prática, porém, Bolsonaro deu também um golpe na ala militar do seu próprio Governo. Como é notório e escrevi aqui já em janeiro, os militares estão assumindo – e se esforçando para assumir – a posição de adultos da sala ou controladores do caos criado por Bolsonaro e sua corte barulhenta. Estão assumindo a imagem de equilíbrio num Governo de desequilibrados.

Esse papel é bem calculado. A desenvoltura do vice general Hamilton Mourão, porém, tem incomodado a bolsomonarquia. O que pode então ser mais efetivo do que, num momento em que mesmo pessoas da esquerda têm se deixado seduzir pelo “equilíbrio” e “carisma” de Mourão, lembrar ao país que a ditadura dos generais sequestrou, torturou e assassinou civis?

Bolsonaro promoveu a memória dos crimes da ditadura pelo avesso, negando-os e elogiando-os. Poucas vezes a violência do regime autoritário foi tão lembrada e descrita quanto neste 31 de março. Foi Bolsonaro quem menos deixou esquecer os mais de 400 opositores mortos e 8 mil indígenas assassinados, assim como as dezenas de milhares de civis torturados. Para manter os generais no cabresto, Bolsonaro os jogou na fogueira da opinião pública fingindo que os defendia.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro lembrou aos generais que são ele e sua corte aparentemente tresloucada quem faz o serviço sujo de enaltecer torturadores e impedir que pleitos como o da revisão da lei de anistia, que até hoje impediu os agentes do Estado de serem julgados pelos crimes cometidos durante a ditadura, vão adiante. Como berrou o guru do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho, em um de seus ataques recentes contra o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da presidência: “Sem mim, Santos Cruz, você estaria levando cusparadas na porta do Clube Militar e baixando a cabeça como tantos de seus colegas de farda”.

A ditadura deixou marcas tão fundas na sociedade brasileira que mesmo perseguidos pelo regime se referem a generais com um respeito temeroso. Nenhum “esquerdista” ousou dizer publicamente o que Olavo de Carvalho disse, ao chamar os generais de “bando de cagões”. Mais uma vez, o ataque, a réplica e a tréplica se passaram dentro do próprio Governo, enquanto a sociedade se mobilizava para impedir “as comemorações devidas”.

A exaltação do golpe militar de 1964 serviu também como balão de ensaio para testar a capacidade das instituições de fazer a lei valer. Mais uma vez, Bolsonaro pôde constatar o quanto as instituições brasileiras são fracas. E alguns de seus personagens, particularmente no judiciário, tremendamente covardes. Não fosse a Defensoria Pública da União, que entrou com uma ação na justiça para impedir as comemorações de crimes contra a humanidade, nada além de “recomendações” para que o Governo não celebrasse o sequestro, a tortura e o assassinato de brasileiros. Patético.

(…) Diante do populismo de extrema direita de Bolsonaro e seus companheiros de outros países, o neoliberalismo é apresentado como a melhor saída para a crise que ele mesmo criou. Mas Bolsonaro e seus semelhantes são os produtos mais recentes do neoliberalismo – e não algo fora dele.

(…) Recente pesquisa do Datafolha mostrou que ele é o presidente pior avaliado num início de governo desde a redemocratização do país. Mas Bolsonaro aposta que é suficiente manter a popularidade entre suas milícias e age para elas. Bolsonaro está dentro, mas ao mesmo tempo está fora, governando com sua corte e seus súditos. Governando contra o Governo. Essa é a única estratégia disponível para Bolsonaro continuar sendo Bolsonaro.

A oposição, assim como a maioria da população, foi condenada à reação, o que bloqueia qualquer possibilidade de ação. Se alguém sempre jogar a bola na sua direção, você sempre terá que rebater a bola. E quando pegar esta e liberar as mãos, outra bola é jogada. Assim, você vai estar sempre de mãos ocupadas, tentando não ser atingido. Todo o seu tempo e energia são gastos em rebater as bolas que jogam em você. Deste modo, você não consegue tomar nenhuma decisão ou fazer qualquer outro movimento. Também não consegue planejar sua vida ou construir um projeto. É uma comparação tosca, mas fácil de entender. É assim que o governo Bolsonaro tem usado o poder para controlar o conteúdo dos dias e impedir a disputa política legítima das ideias e projetos.” – Eliane Brum em EL PAÍS Brasil.

2. Eichmann deve morrer na forca? – A resposta de Hannah Arendt

Neste tristes tempos sombrios em que nos foi dado viver, torna-se crucial questionar o que devemos fazer contra aqueles que, hoje, mostram-se, tal como Eichmann, como agentes da banalidade do mal. Bolsonaro, ao ser eleito, cessou de ser o paspalhão meio cômico, uma espécie de versão fascista do Tiririca, e passou à condição de potencial genocida, já que lhe entregaram poder em demasia de controle do Estado.

De um ridículo velho racista e misógino, celebrado por alguns psicopatas idólatras como “Mito”, ele se alçou a fenômeno de massas, subindo nas asas das fake news, do antipetismo e da venda de soluções fáceis pra problemas complexos. Fazendo arminha à torto e a direita, ensinando crianças os gestos bélicos, denunciando adversários pelas lendárias mamadeiras de pirocas e kits gay, o campo Bolsonarista surfou na onda de ridículo e grotesco que ele criou.

Partícipe e cúmplice do golpe de Estado de 2016, Bolsonaro chegou pra explicitar a face sórdida do golpismo nacional: uma “gente careta e covarde”, como cantava Cazuza, que mobiliza solidariedades somente usando o cimento do ódio. Uma gentalha que dissemina mentiras para assassinar reputações – Manu veste camiseta “Jesus é travesti!”; Jean Wyllys é um pedófilo! Marielle Franco defendia traficantes de entorpecentes! Lula e Dilma são os cabeças do maior esquema de corrupção da História do Mundo!…

Não é nova a noção de que o governo deve construir seu poder sobre a mentira – a pia fraus que, na obra de Platão, já é mobilizada como instrumento do filósofo-rei em seu controle da pólis: na Politéia, Sócrates faz-se o porta-voz de uma espécie de “despotismo esclarecido” que se permite a utilização de uma “fraude pia” para o consumo das massas.

Mas o Bolsonarismo leva a noção de “governo da mentira” a outro patamar, pois quer praticar também o assassinato da memória através de sua re-escritura: assim como há historiadores negacionistas do Holocausto, como David Irving, confrontado brilhantemente por Deborah Lipstadt, há no Brasil os que desejariam escrever a nossa História negando as atrocidades cometidas por agentes do Estado durante a ditadura militar. Ustra será herói nacional, Paulo Freire perderá a posição como Patrono da Educação Brasileira para o tão maior Olavo de Carvalho, o golpe de 1964 terá sido uma revolução nacionalista (nada a ver com os EUA, a CIA, aquilo tudo que está no doc O Dia Que Durou 21 Anos) para nos salvar do vírus comunista que estava nos transformando numa nova Cuba…

O vazio de proposta, a ausência de utopia e a baixa capacidade ética e cognitiva marcam este desgoverno Bolsonarista, mas eles conseguem nos manter “entretidos” por suas patifarias, por sua capacidade infinita de produzir monstruosidades, pois no fundo encenam algo de quixotesco, algo de bastante ridículo. Vocês já notaram o quanto homenzinhos másculos e covardes, belicosos e estúpidos, como Hitler, Franco, Mussolini, Pinochet, Pol Pot, Bolsonaro, são sempre algo ridículos para quem quer que os enxergue com lucidez? São palhaços perigosos, e suas piadas às vezes só tem graça pra uma platéia que é tão chucra quanto eles.

O machista ri da piada machista, o racista da injúria racial fantasiada de anedota. Esta identificação idólatra que leva um sujeito submetido a cair de joelhos e lamber as botas – “meu Mito! meu querido Subjugador!” – só se processa caso não se perceba o ridículo das poses fascistas. Não se segue com subserviência um líder percebido como ridículo, ou seja, só digno de nossa insolência e desobediência! Posudos, posers, cheios de empáfia, atores escrotos de uma peça ruim, assim são os líderes fascistas quando debaixo dos holofotes midiáticos. Só dignos de que os denunciemos em coro por seus atentados contra a dignidade humana, cuja essência está em sua diversidade.

O antídoto contra as atrocidades de que o século XX foi repleto, ensina Arendt, é reflexão, responsabilidade, exercício autônomo do juízo. Em sua reportagem Eichmann em Jerusalém, ela faz um epílogo que ainda tem muito a dizer a nosso tempo. Hannah aí confessa que quis escrever o livro para sondar “em que medida a corte de Jerusalém esteve à altura das exigências da justiça” (p. 322). E um dos aspectos mais interessantes da obra é descobrir que, em seu cerne, cintila o questionamento: “Eichmann deveria mesmo ter morrido na forca? O Tribunal de Jerusalém cumpriu com o dever de Justiça ao condená-lo à morte?”

O debate filosófico sobre a pena de morte possui um dos seus ápices, no século XX, nas interações entre Albert Camus e Arthur Koestler, mas a obra que nasce daí – Reflexões Sobre a Pena Capital -, por mais brilhante que seja, passa ao largo do problema que Arendt decide enfrentar. Pois o Holocausto, a Shoah, é um crime sem precedentes. E os criminosos eram sujeitos diferentes de quaisquer outros criminosos já julgados em um aspecto: pareciam agentes de uma engrenagem que os transcendia. Eichmann, talvez querendo comprar um pouco de crença em sua inocência, dizia que estava só cumprindo ordens. Just a pawn in their game, como cantará Dylan. E, no entanto, Arendt exerce a fundo seu juízo e conclui: sim, há sim boas razões para enforcar Eichmann.

Camus, em O Homem Revoltado, também sondou o abismo da questão: existe um assassinato legítimo, por exemplo no caso de um tiranicídio? O problema de Arendt é outro: temos direito, nós enquanto comunidade de vítimas, enquanto judeus sobreviventes do massacre, condenar à morte um alto funcionário da maquinaria assassina nazista, um perpetrador de “massacres administrativos”? Já sabemos a resposta: Hannah Arendt não se opõe a que o tribunal de Jerusalém condene Eichmann a morte. Assim como outros líderes nazistas haviam sido nos trials de Nuremberg.

O que haveria de surpreendente na atitude da judia alemã que, sobrevivendo ao massacre através de seus exílios, exerce seu juízo ético para justificar a punição capital para um dos agentes supremos da Solução Final? Eichmann, para Arendt, é visto não como irresponsável, mas sim como responsável e punível por ter participado, por sua irreflexão, na cruel engrenagem da banalidade do mal. Se Eichmann pode ser condenado à morte, é pois antes ele foi um agente da condenação em massa de outros à morte, ele foi um agente do extermínio da pluralidade que constitui a essência da humanidade; assim, “o agente é um ofensor à ordem do mundo como tal. Para usar outra das metáforas de Jesus: ele é como a erva daninha, ‘o joio no campo’, com o qual nada se pode fazer exceto destruí-lo, queimá-lo na fogueira” (ARENDT, Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 192).

Arendt, ainda que não aplauda a pena capital, neste caso a aceita, justificando sua posição nas palavras que encerram este livro fundamental do século XX. Ela diz: “se é verdade que a justiça não deve ser apenas feita, ela deve ser vista, então a justiça do que foi feito em Jerusalém teria emergido para ser vista por todos se os juízes tivessem a ousadia de se dirigir ao acusado em algo como os seguintes termos”:

Hannah Arendt em 1941. Retrato por Fred Stein (1909-1967)

“Você, Eichmann, admitiu que o crime cometido contra o povo judeu durante a guerra foi o maior crime na história conhecida, e admitiu seu papel nele. Mas afirmou nunca ter agido por motivos baixos, que nunca teve inclinação de matar ninguém, que nunca odiou os judeus, que no entanto não poderia ter agido de outra forma e que não se sente culpado. Achamos isso difícil, mesmo que não inteiramente impossível, de acreditar… Você disse também que seu papel na Solução Final foi acidental e que quase qualquer pessoa poderia ter tomado seu lugar, de forma que potencialmente quase todos os alemães são igualmente culpados.

O que você quis dizer foi que onde todos, ou quase todos, são culpados, ninguém é culpado. Essa é uma conclusão realmente bastante comum, mas que não estamos dispostos a aceitar. E se não entende nossa objeção, recomendaríamos à sua atenção a história de Sodoma e Gomorra, duas cidades bíblicas que foram destruídas pelo fogo do céu porque todo o povo delas havia se tornado igualmente culpado.

Isso, incidentalmente, nada tem a ver com a recém-nascida idéia de ‘culpa coletiva’, segundo a qual as pessoas são culpadas ou se sentem culpadas de coisas feitas em seu nome, mas não por elas — coisas de que não participaram e das quais não auferiram nenhum proveito. Em outras palavras, culpa e inocência diante da lei são de natureza objetiva, e mesmo que 8 milhões de alemães tivessem feito o que você fez, isso não seria desculpa para você.

Felizmente não precisamos ir tão longe. Você próprio não alegou a efetiva, mas apenas a potencial culpa da parte de todos que vivem num Estado cujo principal propósito político se tornou a perpetração de crimes inauditos. E a despeito das vicissitudes exteriores ou interiores que o levaram a se transformar em criminoso, existe um abismo entre a realidade do que você fez e a potencialidade do que os outros poderiam ter feito. Nós nos ocupamos aqui apenas com o que você fez, e não com a natureza possivelmente não criminosa de sua vida interior e de seus motivos, nem as potencialidades criminosas daqueles a sua volta.

Você contou sua história como uma história de dificuldades e, sabendo das circunstâncias, estamos até certo ponto dispostos a admitir que em circunstâncias mais favoráveis é altamente improvável que você tivesse de comparecer perante nós ou perante qualquer outra corte criminal. Suponhamos, hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta ofato de você ter executado, e portanto apoiado ativamente, uma política de assassinato em massa.

Pois política não é um jardim-de-infância; em política, obediência e apoio são a mesma coisa. E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações — como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo —, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca.”

ARENDT, HannahEichmann Em Jerusalém. Cia das Letras, pg. 300 a 302. Consulte o PDF.

A tarefa de nosso tempo foi sintetizada por Adorno: evitar que Auschwitz se repita. Quem hoje não souber se responsabilizar, assumir o trabalho da reflexão autônoma e do juízo justo, terá as mãos sujas de sangue alheio tanto quanto os carrascos – pois os cúmplices (ainda não aprendemos?) também tem sua responsabilidade nas atrocidades. O que importa é evitar que Bolsonaro se transforme numa espécie de Hitler tropical, praticando a necropolítica do extermínio em suas ações contra pretos, mulheres, petralhas, gays, sem-terras, sem-teto, professores esquerdistas, paulo-freirianos, gramscianos, marxistas, que poluem o mundo com sua escória e agora serão varridos pela ação profilática da Raça Neo-Ariana.

É a velharia velhaca da pretensa supremacia branca de volta com todo seu racismo explícito. É a velha macheza patriarcal que subjaz, como atmosfera afetiva, aos feminicídios e aos homicídios homofóbicos. É a velhíssima crueldade das elites econômicas contra a massa espoliada. É a velha submissão ao capital estrangeiro e às seduções do conforto conformista de se submeter a ser teleguiado de fora, pela metrópole rica e sábia… Só que não: Trump não passa de outro fascistinha com dinheiro demais no banco. E o capitalismo neoliberal afunda-se no pântano sem fundo de sua própria catástrofe, coveiro de si mesmo como já previam Marx e Engels.

O que estamos vendo é o processo infindável do capitalismo a cavar sua própria cova. Ele consegue sempre que o buraco seja mais embaixo. Nosso buraco se chama Bolsonaro, mas também ele, como indivíduo, vai passar. Em algumas décadas o cadáver de Bolsonaro já estará decomposto. O que nos importa agora é lidar com o legado que ele vai deixar. É nossa tarefa histórica impedir que seja um legado de estrago. E a tudo estragar ele e sua trupe estão determinados. Não será fácil, como nunca foi, para aqueles que Brecht diz que “lutam a vida toda” e são por isso os “imprescindíveis”. Responsabilidade, afinal, é aquilo que é imprescindível para a experiência autêntica da ética vivida, é estar acordado para o fato de que “ninguém vive só nem para si” – como já dizia o poeta William Blake.

“Toda geração”, escreve Arendt, “em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais” (Eichmann em Jerusalém, p. 321). Um pensamento similar também se expressa nos textos fundadores do marxismo: “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”

Não há dúvida que, entre nós, a ideologia Bolsonarista e suas atrozes práticas conexas representam o que de pior nos legou a nossa sacrossanta tradição. Em Bolsonaro, como pústulas pululam as tradições nacionais: machismo patriarcal, homofobia violenta, supremacismo racista, elitismo anti-massas, economia ultracapitalista neoliberal ligada a caretice nos costumes, autoritarismo mandonista, aniquilação da alteridade e da diversidade (tanto a humana, quanto a de fauna e flora; é epistemicídio, etnocídio e genocídio no mesmo pacote com a hecatombe ambiental).

Talvez esta seja, na terra brasilis circa-2019, a melhor encarnação contemporânea da necropolítica e suas ânsias de extermínio (não tenham dúvidas: “o sonho ideal” dos Bolsonaristas é um mundo purgado, pela violência das armas, das hordas bárbaras de petistas, psolistas, esquerdistas, mariguellistas, guevaristas, marxistas etc…).

Muito do que tenho escrito reflete minhas angústias diante da questão que não quer calar: como podem os filósofos contribuir não só para a compreensão disso de que somos contemporâneos, mas também para a transformação sábia da existência que é a indestrutível missão secular da filosofia? Em outros termos, será que os filósofos não podem justamente ajudar a coletividade a perceber os perigos que perpassam o colapso da reflexão, da autonomia, da responsabilidade?

A lição de Arendt que poucos tiveram a coragem de ouvir é a de que não se deve tolerar os intolerantes, nem perdoar os genocidas. Nem encontrar desculpas no “meio” ou nas “circunstâncias” para lidar com misericórdia e complacência aqueles que são perpetradores e cúmplices das barbaridades praticadas pelas engrenagens que banalizam o mal.

Quem está com o fascismo, está com a morte cruel imposta às massas de colorida alteridade, marcadas como indigna de viver por pertenças de raça, classe ou gênero (o eixo articulador da Opressão, ensinam as teóricas da Interseccionalidade, é o tripé do opressor: racismo, classismo, sexismo). Sob o fascismo, a Diversidade é o “cabra marcado pra morrer”.

Quem é cúmplice do extermínio da pluralidade constitutiva do mundo não merece, daqueles que em carne viva compõe a teia vivente desta pluralidade humana, nenhuma complacência, mas sim toda resistência ativa e combativa, toda ação por mudança (inclusive de mentes alheias). Pois queremos um mundo onde caibam todos os mundos. Todas as cores e ritmos. Todas as peles e ideias. Menos as que aniquilam a própria diversidade.

Responsáveis agem; ovelhas passivas obedecem – ainda que o pastor esteja ordenando que se taquem de cabeça no abismo. Responsáveis seremos apenas quando assumirmos a ação coletiva, no mundo comum, coordenada e baseada nos Kropotkinianos preceitos da ajuda mútua, em que expressaremos que não toleraremos tal grau de intolerância, que nosso neo-iluminismo não deixará quieta esta nova maré alta do obscurantismo, que com todo nosso amor ao mundo e a nós dentro dele, em nosso colorido multidiverso, batalharemos com todo o nosso alento e ímpeto para que cessem de triunfar os exterminadores da diversidade e os silenciadores dos dissensos.

Democracia é a sábia permissão ao dissenso dialogado no horizonte de uma reflexão coletiva sobre o bem comum; Ditadura é a imposição, de cima pra baixo, dos valores, normas e hierarquias de uma minoria minúscula que trabalha pelo extermínio da diversidade. De que lado você está? Com os que se levantam juntos por um possível melhor futuro, ou com os que se ajoelham sobre as poças de sangue que derramaram em gangue?

-Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 16/04/2019

 

EPÍLOGO: UMA SÁBIA CANÇÃO RECÉM-NASCIDA DE CEUMAR

 

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Manuela D’Ávila – “Resistir: o desafio do Brasil” (UFG, 12/03/2019) [Vídeo Completo]

Manuela D’Ávila (PCdoB – Partido Comunista do Brasil), lançando seu livro “Revolução Laura: Reflexões sobre Maternidade e Resistência” (Editora Belas Letras2019: https://bit.ly/2Y2OOpy), palestrou sobre “Resistir: O Desafio do Brasil” na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás em 12/03/2019. Uma realização do Caxim – Centro Acadêmico XI de Maio – Faculdade de Direito da UFG. Estivemos lá e te mostramos como foi neste vídeo exclusivo d’A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com).

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Manuela D’Ávila em ensaio fotográfico para matéria “Manu Mulher”, da revista VIP.

SOBRE O LIVRO: A maternidade é revolucionária. Este livro é o registro afetivo de uma mulher, mãe de uma criança de dois anos, que aceitou o desafio de concorrer à presidência do Brasil em novembro de 2017 e que, em agosto de 2018, tornou-se candidata a vice-presidente, chegando ao segundo turno. Uma mulher que percorreu um país continental, amamentando sua filha e construindo uma nova forma de ocupação do espaço político. Também é uma conversa, sobre uma jornada de aprendizado e acolhimento. Sobre privilégios; sobre as lutas para que privilégios não existam mais. É sobre direitos. É sobre feminismo e liberdade. É sobre afeto, carreira e amor, porque não tem sentido ser pela metade. É sobre estar e não estar; presença e ausência. Sobre ser mãe e mulher; ser madrasta e não ser bruxa. Sobre acolher, sonhar um outro mundo e ser o outro mundo sonhado. E, profundamente, é sobre uma revolução chamada Laura. Uma revolução de amor, de amor próprio, de potência. Porque depois de gerar um filho não há nada, nadica de nada que uma mulher não possa fazer.

SOBRE A AUTORA: Mãe da Laura, madrasta do Gui, jornalista e mestre em Políticas Públicas. Foi vereadora, deputada federal e estadual, além de candidata a vice-presidente do Brasil na chapa de Fernando Haddad (PT). Lançou recentemente em seu canal no Youtube o programa E Se Fosse Você?, devotado ao combate contra as fake news e a cultura do ódio:


 

RELEMBRE POSTS D’A CASA DE VIDRO: OUTUBRO DE 2018 >>>

A candidatura Bozonazista merece ser impugnada por flagrante e recorrente violação da legislação eleitoral. Não há um pingo de respeito, nem por parte da chapa Bozo/Mourão, nem por parte das hordas de fanatizados Bolsominions, pelas mais básicas regras do Estado Democrático de Direito (aquilo que está hoje com a cabeça na guilhotina e com a lâmina, afiada pela extrema-direita, prestes a despencar).
 
Não me lembro de nenhuma campanha política que tenha sido tão ignóbil na quantidade e canalhice das falsidades que dissemina, no assassinato de reputações que busca realizar, na baixeza de suas táticas de “demonização” do outro. Não é só desrespeitoso e inescrupuloso, ou seja, não é só eticamente execrável; é ilegal, fraudulento, golpista. Algo típico de um grupo político que encarna uma barbárie análoga à da Ku Klux Klan ou das Freikorps. O nome disso é Fascismo e este “marketing” político é uma espécie de cruzamento maligno entre Goebbels e as táticas-Trump que levaram a extremos a lógica da “Pós-Verdade”.
 
Uma enxurrada de mentiras contra a Manu e o Haddad se disseminaram pelas redes, com um impacto gigantesco. As reações tardias e tímidas do TSE colocam apenas um band-aid nessa hemorragia.
 
O Bolsonarismo não tem economizado esforços nem capitais para jogar no lixo qualquer tipo de “fair play”, em uma das campanhas mais sórdidas de que se tem notícia no mundo. Boçalnaro e sua trupe jogam muito sujo, de maneira irresponsável e canalha. Não compreendem que o sufrágio universal é um processo que deve ser precedido por um amplo debate público sobre as propostas concretas dos pretendentes ao governo para que a opinião pública possa tomar uma decisão sensata e bem-informada.
 
Além de fugir dos debates feito um arregão, além de posar de machão e ensinar armamentismo às crianças, além de elogiar torturadores e vomitar misoginias, além de recusar-se a assumir responsabilidade pela onda de crimes cometidos por Bolsominions, o candidato da extrema-direita é uma espécie de mitomaníaco: caso fosse Pinóquio, estaria com o seu nariz batendo lá nos anéis de Saturno.

#EleNão
acasadevidro.com

MULHERES COMPORTADAS NÃO FAZEM HISTÓRIA: Assista ao curta-metragem documental filmado no 8M Goiânia || “O feminismo é pra todo mundo.” Bell Hooks

“A Liberdade é uma luta constante.”
Angela Davis

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.”
Conceição Evaristo

“Quando Marielle Franco morreu”, diz a advogada e ativista Sara Macêdo Kali, “fizemos um compromisso de que seríamos semente”. Cerca de um ano após o assassinato da deputada do PSOL e seu motorista Anderson Gomes, tanto o 8M quanto o 14 de Março levaram às ruas do Brasil (e do mundo) a estrondosa e multidiversa voz destas coligações-de-sementes que garantem: Marielle vive, Marielle presente!

O Dia Internacional das Mulheres foi mobilizado não só pela memória de Marielle e pela demanda de justiça (afinal, apesar da prisão dos assassinos, a pergunta que não quer calar permanece: quem mandou matar, e porquê?), mas pela denúncia da opressão de gênero e pelos alarmantes índices de violência contra as mulheres: o Brasil registrou 60.018 casos de estupro em 2017, o que corresponde a uma média de 164 por dia, ou um a cada 10 minutos, segundo o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Um estudo divulgado em novembro de 2018 pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas para Crime e Drogas) mostra que a taxa de homicídios femininos global foi de 2,3 mortes para cada 100 mil mulheres em 2017. No Brasil, a taxa é de 4 mulheres mortas para cada grupo de 100 mil mulheres, ou seja, 74% superior à média mundial.

Diante de um cenário como este, agravado pelo empoderamento da extrema-direita misógina nas últimas eleições, fomos às ruas com as câmeras e microfones em sincronia e sintonia com esta ideia manifestada por Rosângela Aguiar, jornalista e ativista que integra o Jornal Metamorfose: “mulheres comportadas não fazem história!”

LEITURAS SUGERIDAS: ELIANE BRUM E JUAN ARIAS EM EL PAÍS; LAURA CARVALHO NA FOLHA DE S. PAULO; BLOG DO SAKAMOTO

“A semente de Marielle Franco vive em nós hoje e sempre”, dizia a faixa na vanguarda da marcha 8M aqui em Goiânia. Marcadas pela Mangueira, cujo desfile de carnaval, campeão na Sapucaí, havia honrado a memória de Marielles e Malês, celebrando também os ícones culturais (Lecis e Jamelões), as manifestantes botaram a boca no trombone.

“Ai ai ai, Bolsonaro é o carai!”, cantavam em alegre insurgência musical. A preocupação era geral com os alarmantes índices de homicídio. E na boca de todos se dava voz à indignação contra a Reforma da Previdência que o governo Bolsoasno e o Congresso dos 300 Picaretas com Anel de Doutor pretende ao nosso povo impor.

Eis aí o curta-metragem documental que rodamos nas ruas de Goiânia/GO em 08 de Março de 2019, durante o ato do Dia Internacional das Mulheres: “MULHERES COMPORTADAS NÃO FAZEM HISTÓRIA”, disponível em várias plataformas (Youtube, Vimeo, Facebook):

Um filme de Lays Vieira e Eduardo Carli de Moraes; uma co-produção Jornal Metamorfose e A Casa de Vidro. Entrevistas com Sara Macêdo Kali, Mariana Lopes, Rosângela Aguiar. Músicas por Larissa Luz, Tássia Reis, Samba-enredo da Paraíso do Tuiuti 2018, canção “Bella Ciao” versão #EleNão. Prestigie e apoie o jornalismo e o documentarismo independentes! Dissemine e divulgue o midiativismo de relevância!

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FOTOGRAFIAS – por Eduardo Carli e Érika Borba / Mídia Ninja