A Desumanidade Humana: Novos Ensaios Sobre a Cegueira (por Eduardo Carli de Moraes)

Ghandi01web
A Humanidade como Fraternidade permanece no horizonte das utopias. A cada passo em sua direção que damos, para relembrar um célebre dito de Galeano, a utopia dá dez passos para trás. Como se fugisse do abraço. Como se quisesse forçar-nos a ser camelos no deserto, em busca de oásis incerto, pelos séculos e milênios. Já são mais de 3 décadas desde que John Lennon imaginou, sentado ao piano branco, que não haveria mais céu nem inferno, apenas uma “brotherhood of man”. Mas ele, que só estava dizendo “dê uma chance à paz”, acabou assassinado.

Outro célebre pacifista, que peregrinou de pés descalços por toda a Índia, tentando ensinar a hindus, muçulmanos e sikhs a arte da convivência pacífica e do respeito à multiplicidade e à diferença, dizia: “O olho-por-olho vai deixar o mundo todo cego.” A triste verdade é que a cegueira venceu e também Gandhi foi assassinado, tendo seu ideal tripudiado pela catástrofe histórica da Partição Índia / Paquistão: em 1947, o pior dos pesadelos gandhianos se tornou realidade quando estourou a guerra civil entre hindus e muçulmanos. O saldo trágico do conflito: mais de 1 milhão de mortos e mais de 7 milhões de refugiados.

Invocar uma canção de Lennon, um dito sábio de Gandhi, um convite à caminhada de Galeano: de que serve isso diante da desumanidade dos assassinos, diante do militarismo brucutu dos tiranos? Cantar sobre a beleza das flores e dos pássaros algum dia já impediu os tanques-de-guerra de marcharem sobre os jardins e de metralharem os sabiás? Clamar para que o valor da vida humana seja respeitado é o bastante para dissuadir os homens de uniforme, armados por seus Estados com licença-para-matar?

“A humanidade é desumana”, cantava Renato Russo, que encontrava razões para ser otimista no fato de “que o Sol nasce pra todos (e só não sabe quem não quer)”. O Sol pode até ser o mesmo, mas é bem diferente vê-lo nascer de uma cobertura de luxo em Ipanema ou Miami, e vê-lo nascer em um campo de refugiados na Palestina.

Em Gaza, hoje o Sol ilumina uma pilha de cadáveres, uma multidão de estropiados, um oceano de lágrimas. Às vezes me pergunto se o Sol não tem vergonha de iluminar certas realidades que meus olhos consideram obscenas. Por que ele não protesta e se recusa a nascer? Suspeito que também o Sol seja desumano.

* * * * *

2

JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

Enquanto as utopias de paz fogem para longe, enfiando-se no horizonte distante, cá estamos com as pernas enfiadas em poças de sangue. No rés-do-chão da realidade contemporânea, permanecemos cindidos em facções frequentemente fratricidas. Como não poderia deixar de ser, escrevo isso sob o impacto dos acontecimentos horrendos que tem se desenrolado nas últimas semanas na faixa de Gaza.

Há quem pense que há justificativas aceitáveis para a ofensiva de Israel contra os palestinos, mas não sinto senão nojo e desprezo por genocidas que procuram justificar o injustificável. O que dizem os carniceiros sionistas que participaram ativamente do massacre de bebês e crianças? Que isso se justifica pois toda criança palestina pode crescer e um dia tornar-se um terrorista afiliado ao Hamas? Tudo não passa de uma louvável e pia ação de prevenção ao terrorismo?

E como justificar a matança de moças, mulheres e senhoras, que não oferecem nenhum perigo militar ao estado de Israel? Também neste caso se trata de prevenir o terrorismo, já que toda fêmea palestina tem um ventre com potencial de parir futuros terroristas? E que justificativas para a destruição de escolas e hospitais, de universidades e usinas de eletricidade, de abrigos da ONU e de instituições humanitárias? Tudo não passa, é claro, de uma tentativa de enfraquecer a infra-estrutura de uma sociedade que abriga terroristas, não é isso?

Pensei em escrever um conto sobre um jovem estudante em Gaza, que dedicou toda a sua breve existência a uma tentativa de compreensão e solução da discórdia sangrenta que opõe árabes e judeus na região. Devorador de livros, em especial os de Edward Said e Ilan Pappe, este jovem estaria no interior da Universidade Islâmica, nutrindo-se com o saber de Maimônides e Averróis, quando o prédio da Universidade é bombardeado.

Uma parte do teto despenca e rasga sua testa. Os livros mancham-se de sangue e concreto. Ele abandona as ruínas da universidade e corre para casa, só para descobri-la também bombardeada, com toda a sua família dentro. Mortos estão seus 3 irmãos, todos com menos de 10 anos de idade; mortos seu pai (um médico), sua mãe (uma professora de história), e sua avó (que completaria 90 anos no próximo mês). Esmagado pela súbita tragédia, rasgado internamente pelo trauma, ele chora torrentes de lágrimas sobre os cadáveres de sua ex-família e as ruínas de seu frágil lar, agora só escombros.

Ele nunca havia simpatizado ou participado de nenhuma organização armada islâmica; sempre havia discordado do terrorismo inspirado na idéia de jihad (guerra santa). Agora, num ímpeto de indignação e raiva, toma nas mãos uma pedra, um pedaço da parede que outrora protegera sua família contra as intempéries.

Sua ira é tamanha – maior do que qualquer que ele jamais sentira – que ele não pensa antes de agir. Simplesmente precisa liberar um pouco da insuportável pressão psíquica, realizar algum tipo de catarse-pela-agressividade, e assim lança o pedregulho contra soldados israelenses protegidos dentro de um tanque.

Um dos soldados mira em sua cabeça com um rifle M-16 e estoura seus miolos.

Os mortos da família eram seis, agora são sete. Mas com uma diferença: os seis primeiros entrarão nas estatísticas como mortos entre os civis, meros “efeitos colaterais”; o sétimo será caracterizado como terrorista (a evidência: lançou um pedregulho!) e sua morte será, nas estatísticas de Israel, justificável, legítima, irreprochável.

* * * * *

A ÁLGEBRA DA JUSTIÇA INFINITA

Assisto, via Al Jazeera, com um misto de indignação fervente e melancólica sensação de impotência, as reportagens realizadas em Gaza. Quanto mais assisto, mais concluo que o Estado de Israel perdeu todo o senso de proporção, toda a capacidade de distinguir entre alvos legítimos e ilegítimos. Partiu para a truculência ignorante mais desumana: aquela que mata à esmo, que “mata geral”, que mata todo um coletivo para puni-lo pelos atos de uma parcela deste coletivo.

Mas matar crianças às centenas, e julgar que isso é um “efeito colateral” de uma ofensiva legítima contra o Hamas, parece-me o supra-sumo da cegueira desumana destes que Bob Dylan cognominou “Masters of War”. Escrevo para dizer que vejo através de suas máscaras.

Deixemos de balela. Se formos aos dicionários buscando a palavra mais adequada para descrever as ocorrências, com certeza esta não será “conflito”, mas sim “massacre”. O que Israel está praticando nestas últimas semanas não é uma campanha militar de auto-defesa legítima, é um genocídio. E eu diria que vai além do genocídio, porque os crimes do sionismo israelense vão além da destruição em massa de vidas; o que Israel está tentando fazer é transformar Gaza num Inferno terrestre, num território inabitável, ao destruir hospitais, escolas, universidades, usinas de eletricidade etc.

É como se o objetivo de Benjamin Netanyahu e sua trupe fosse não somente cometer um genocídio, mas depois impedir que água, comida, remédios, médicos, ajuda humanitária internacional, entrem em Gaza para aliviar os imensos danos causados pelos ataques. É como se Israel, depois da chuva de bombas, quisesse que os sobreviventes morressem de fome, de sede, no escuro, que agonizassem por semanas com suas feridas e queimaduras.

É o Guernica de Picasso, redivivo em território palestino. É um ato de extermínio do Outro, de aniquilação da infra-estrutura da sociedade do Outro. Não é só matar; é transformar a vida dos sobreviventes em algo tão insuportável, tão desumano, que eles enfim se decidam: ou vazam logo para longe, indo procurar refúgio em algum outro país do mundo árabe, ou então que se levantem em uma nova Intifada, ou juntem-se aos grupos armados, o que então daria uma justificativa extra para que Israel prossiga com o massacre.

* * * * *

Mural_del_Gernika

GUERRA AO TERROR OU TERRORISMO DE ESTADO?

Sob a máscara da Guerra ao Terror, o que Israel está praticando é terrorismo de Estado. Os quase 2 milhões de seres humanos que vivem em Gaza – em péssimas condições de existência, aliás – estão sendo tratadas pelo Estado de Israel como sub-humanas, como se fossem pragas e não pessoas. É um processo de desumanização que lembra aquele perpetrado contra os judeus pelo III Reich e que agora a teocracia sionista aplica aos palestinos.

A propaganda sionista e seus aliados ocidentais – EUA e Reino Unido entre eles – podem até ter o cinismo repugnante de justificar o injustificável. No entanto, as evidências concretas não deixam dúvidas: há uma imensa desproporção entre as forças em combate. A pilha de cadáveres palestinos sobe até o céu, enquanto a pilha de cadáveres israelenses mal bate no teto. É triste que haja pilhas de cadáveres dos dois lados, mas isto não nos deve cegar para a enormidade da discrepância entre o tamanho das pilhas.

Sei bem que isto não é um filme de Hollywood onde são facilmente discerníveis os bandidos e os mocinhos. Sei bem que toda análise que queira ser fiel aos fatos tem que evitar o perigo do maniqueísmo. O escritor israelense Amoz Os diz que o conflito Israel e Palestino é muitas vezes um choque entre “certo e certo”, ou entre “errado e errado” – pois ambos os lados do conflito tem demandas legítimas. Segundo ele, é uma situação que constitui uma tragédia grega muito mais do que um faroeste hollywoodiano.

Até concordo que o choque entre o Estado teocrático-sionista de Israel e os grupos islâmicos fundamentalistas como o Hamas possa ser descrito como um choque entre “errado e errado”. Uma questão importante, porém – e Amoz Os prefere não mencioná-la – é a desproporção da força militar. Israel tem um exército mega-mortífero e recebe centenas de milhões de dólares de seus aliados ocidentais, em especial os EUA; o Hamas pode até ter seus foguetes, mas seu poderio de destruição é minúsculo quando contrastado com as hecatombes que Israel é capaz de causar.

O argumento sionista, que me parece estar sendo abraçado pela maioria da sociedade civil em Israel, é o seguinte: “se o Hamas tivesse maior poderio militar, o que vocês acham que ocorreria? Se o Hamas tivesse em seu poder uma bomba atômica, Tel Aviv já teria se tornado a nova Hiroshima!” Isso é usar a paranóia como justificativa para o genocídio; é fazer uma previsão sobre o genocídio que o Hamas poderia vir a cometer, caso tivesse os meios, servir como pretexto para o genocídio que Israel está cometendo, em posse plena dos meios (e com o amém dos Estados Unidos da América).

Não subestimo o ódio do Hamas – e de outros grupos jihadistas – contra Israel. Também sei o quão repugnantes são muitas das doutrinas do Hamas – por exemplo o tratamento autoritário das mulheres, com a imposição patriarcal violenta das jihabs e burcas ou a pena de morte sem julgamento para as “adúlteras”. Há uma cena no “Palestina” de Joe Sacco que me parece emblemática do que está errado na visão-de-mundo tacanha, dogmática e moralista de muitos fundamentalistas islâmicos: uma mulher com os cabelos à mostra, dentro de seu carro, é apedrejada por uma gangue de fanáticos, que só descobrem que ela é uma cristã depois que o rosto da pobre mulher já está todo arrebentado e o sangue já jorrou pra todo lado.

Joe Sacco, Palestina

Joe Sacco, Palestina

Ser contra o Hamas, sua ideologia, seus métodos, seus atentados, não significa ser a favor da carniceria genocida do sionismo em sua luta contra o Hamas. Centenas de pessoas que foram assassinadas por Israel nestas campanhas de Julho e Agosto de 2014 não tem conexão alguma com o Hamas, com o terrorismo, com intifadas; considerá-las como meros “efeitos colaterais” de uma guerra santa e justa é uma abominação lógica, política, moral.

A propaganda sionista quer nos convencer de que Israel é uma pobre vítima dos foguetes do Hamas e que a ofensiva contra Gaza faz parte de um programa justo e legítimo de Defesa Contra o Terrorismo. Porém, a grande ironia dessa História é que as dores de parto do Estado de Israel estiveram repletas de atos de terrorismo perpetrados por grupos sionistas. Anos antes da fundação do Estado de Israel em 1948 – após a expulsão forçada de centenas de milhares de palestinos, chutados para fora do território em que haviam vivido por gerações – os sionistas utilizaram múltiplos atentados terroristas como método de “pressão política” para conquistar sua “Independência”. Por exemplo:

“O atentado do Hotel King David foi um ataque terrorista na cidade de Jerusalém, na então Palestina, ocorrido a 22 de Julho de 1946 , tendo como idealizadores uma organização sionista denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional) e como alvo as instalações do Hotel King David.

O Hotel King David, um hotel de luxo de sete andares, situado a oeste da zona da Cidade Antiga de Jerusalém, sediava quase toda a administração do mandato da Palestina, atribuído pela Sociedade das Nações ao Reino Unido.

O ataque foi organizado por Menachem Begin, que mais tarde ocupou o cargo de primeiro-ministro de Israel por duas vezes. O ataque terrorista resultou na morte de 91 pessoas e ferimentos graves em outras 45 pessoas…” – Wikipédia

Os palestinos que hoje recorrem ao terrorismo para protestar contra as condições de vida desumanas, impostas por Israel nos campos-de-concentração a céu aberto para onde foram empurrados os refugiados, estes “terroristas” são pintados como demônios e devotos do deus errado; já os sionistas que recorreram ao terrorismo lá atrás são, é claro, heróis da pátria e devotos do deus certo…

* * * *

peace_quote1

TRANSCENDER AS DUAS CEGUEIRAS

Se tivéssemos que escolher entre o fundamentalismo do Hamas e a teocracia sionista de Israel, estaríamos limitados a uma escolha entre duas cegueiras. Gostaria de arriscar-me a propor aqui um caminho, difícil de ser trilhado e sem dúvida utópico, mas que me parece um dos poucos capazes de nos libertar destes infindáveis fratricídios. Este caminho passa necessariamente por uma vitória contra o dogmatismo. Nietzsche dizia que “convicções são prisões”; quando a mente adere rigidamente a uma certa convicção, perde sua graça, sua leveza, seu dinamismo, solidifica-se em uma espécie de rigor mortis. A idéia de que judeus e árabes são incapazes de coexistência pacífica e frutífera não passa de um dogma, jamais de uma verdade absoluta. Trata-se de desalojar este dogma das mentes, dos comportamentos, das identidades.

Gosto muito de um pensamento de Montaigne, nos Ensaios, em que ele questiona as relações entre as identidades que assumimos e as condições em que nascemos: ele pergunta a um cristão francês, por exemplo, o que teria acontecido se ele tivesse nascido no Tibet ou na China. Nascido em outras circunstâncias, não teria ele se tornado um budista, um taoísta, um confuciano? A idéia aqui, no fundo, é a seguinte: ninguém “é” cristão ou judeu ou muçulmano, como se já nascesse com isso nos genes, mas ao contrário “torna-se” cristão, judeu ou muçulmano pelo acaso de ter nascido em um certo meio, em uma certa família, ter sido educado e doutrinado em uma certa cultura.

No fundo, as pessoas aderem a uma certa identidade, vestem uma certa máscara, introjetam uma certa ideologia, e depois se esquecem de que, na origem, a doutrina religiosa ou política que transformaram em dogma é fruto de um condicionamento social, dependente de um tempo-espaço histórico específico. Este caminho para a convivência pacífica que tento pensar passa necessariamente por des-dogmatizar as identidades – ou seja, precisamos deixar de levar tão a sério as nossas identificações identitárias com religiões, raças, pátrias etc.

Como fazê-lo? Eis o ponto mais complicado, até porque algumas das possibilidades que eu sugeriria seriam desprezadas como absurdas e irrealizáveis. Por exemplo: uma das experiências mais destroçadoras de dogmas, uma das vivências mais libertárias em relação às jaulas das identidades rígidas, é sem dúvida a expansão de consciência possibilitada por agentes psicodélicos naturais (como o chá de ayahuasca) ou sintéticos (como o LSD).

Os dogmatismos e fundamentalismos, tanto dos sionistas quanto dos jihadistas, poderiam ser intensamente postos em nova perspectiva pelas capacidades descomunais do ácido lisérgico de liberar-nos das crenças identitárias e abrir-nos para uma vivência visceralmente cosmopolita. “Namastê!” Vão querer me internar no hospício (ou me mandar pra delegacia…) por dizê-lo, mas direi-o do mesmo jeito: um dos problemas de nosso mundo é que está faltando psicodelia e está sobrando dogmatismo. Entenda-se: uso o termo “psicodelia” aqui como sinônimo de uma capacidade existencial de permitir que a psiquê se transforme, que a mente seja dinâmica, que os valores se modifiquem e evoluam, sem a rigidez cadavérica dos fanatismos de toda estirpe.

coexist1

Percebo muito bem que é preciso encontrar alguma solução realista – já que é quase demandar o impossível sugerir que árabes e judeus expandam sua consciência e libertem-se de suas obsessões identitárias e fanatismos religiosos. Já que despejar litros de LSD no sistema de entrega de água está fora de questão, teríamos que atingir por outros meios esta amplidão de visão e esta liberdade quanto às máscaras que a experiência psicodélica possibilita. Por exemplo, com uma mega-campanha de educação para a laicidade, para a coexistência frutífera, para o amor à idéia de convivência no seio da multiplicidade e de enriquecimento mútuo na trans-individualidade. As identidades sólidas, a filiação dogmática a seitas e ideologias, a incapacidade de enxergar o que nos une ao invés do que nos separa, tudo isso precisaria ser transcendido para que fôssemos capazes de nos perceber como conviventes sob o mesmo sol, todos juntos no mesmo planeta, todos iluminados pela luz distante da mesma miríade infindável de estrelas.

Seria preciso que enxergássemos, para além de nossa cegueira habitual, já encrustada nas retinas e nos neurônios, que ninguém está condenado, do berço ao túmulo, a ser algo de fixo – judeu, muçulmano, cristão, budista, ou o que quer que seja. Que uma identidade não só pode, mas deve ser fluida, móvel, mutante. Que não há nada mais sábio do que mudar acompanhando a mudança do mundo. Que viver é deixar-se afetar e crescer pelas interações e contatos com os outros. Que coexistência é nossa condição ontológica, nossa necessária situação no mundo, e que aprender a conviver é aprender a viver.

Nosso apego a dogmas, nossa recusa em retirar da cara as máscaras, nosso neurótico vínculo a uma “persona”, faz-nos construir apartheids e muros, fronteiras e arames farpados. As diferenças são tidas como razão para massacres e genocídios, quando as mesmas diferenças poderiam ser vistas como estímulo para a convivência fecunda e mutuamente recompensadora. Bastaria, para isso, que nos víssemos como unidos por nossa humanidade comum, por nossa comum pertença à Terra, por nossa comum condição de cidadãos do cosmos.

* * * * *

EPÍLOGO: UMA CANÇÃO DE AMOR A NOSSOS EUS MESTIÇOS

Não faz muito tempo que o escritor indiano Salman Rushdie, após a publicação de seu romance “Os Versículos Satânicos”, foi fulminado pela fatwa (pena de morte) decretada pelo aiatolá xiita do Irã, só podendo sobreviver por ter recebido guarida na Inglaterra. Rushdie defendeu-se das perseguições do regime de Khomeini com as seguintes palavras – sublimes – de seu livro “Pátrias Imaginárias”:

RushdieOs Versículos Satânicos celebra a hibridez, a impureza, a mistura, a transformação que provém de novas e inesperadas combinações de seres humanos, culturas, idéias, políticas, filmes, canções. Exulta com o cruzamento de raças e teme o absolutismo do Puro […] Certamente que não põe em causa os direitos das pessoas à sua fé, embora eu não tenha nenhuma. Discorda manifestamente das ortodoxias impostas de todos os tipos, da opinião que o mundo é muito claramente Isto e não Aquilo. Discorda do fim do debate, da disputa, da discordância. Discorda também do sectarismo comunalista hindu, do tipo de terrorismo sikh que faz explodir aviões, das fatuidades do criacionismo cristão, bem como das definições mais limitadas do Islã […] É uma canção de amor à nossos eus mestiços…”

Cantemos, pois, nossas canções de amor a nossos eus mestiços!

Eduardo Carli de Moraes
Toronto, Agosto de 2014

“Palestina” de Joe Sacco: um marco na história do Jornalismo Gráfico (Baixe completo em PDF de alta qualidade)

palestine-covers

JOE SACCO (1960 – ), “Palestine”
Prefácio de Edward W. Said (1935-2003)
Download da Graphic novel (PDF, 127 mb,  english):
http://bit.ly/1tnS0sX (via Library Genesis: http://bit.ly/1zZuNPB)

COMPATILHAR NO FACEBOOK OU NO TUMBLR

A landmark of journalism and the art form of comics. Based on several months of research and an extended visit to the West Bank and Gaza Strip in the early 1990s, this is a major work of political and historical nonfiction. Prior to “Safe Area Gorazde: The War In Eastern Bosnia 1992-1995” — Joe Sacco’s breakthrough novel of graphic journalism — the acclaimed author was best known for “Palestine”, a two-volume graphic novel that won an American Book Award in 1996. In order to accomplish it, Joe Sacco conducted over 100 interviews with Palestinians and Jews. “Palestine” was the first major comics work of political and historical nonfiction by Sacco, whose name has since become synonymous with this graphic form of New Journalism. “Palestine” has been favorably compared to Art Spiegelman’s Pulitzer Prize-winning “Maus” for its ability to brilliantly navigate such socially and politically sensitive subject matter within the confines of the comic book medium. Sacco has often been called the first comic book journalist, and he is certainly the best. This edition of Palestine also features an introduction from renowned author, critic, and historian Edward Said (“Peace and Its Discontents” and “The Question of Palestine”), one of the world’s most respected authorities on the Middle Eastern conflict.

 * * * * *

You might also enjoy:

Edward Said

EDWARD W. SAID – The Question of Palestine
(Vintage, 1980, 265 pgs)
DOWNLOAD E-BOOK  (via libgen.org)

Médico sem Fronteiras fala sobre a situação em Gaza

Priso
Jonathan Whittall, humanitarian advisor for Doctors Without Borders/ Médecins Sans Frontières (MSF):

“An entire population is trapped in what is essentially an open-air prison. They can’t leave and only the most limited supplies – essential for basic survival – are allowed to enter. The population of the prison have elected representatives and organised social services. Some of the prisoners have organised into armed groups and resist their indefinite detention by firing rockets over the prison wall. However, the prison guards are the ones who have the capacity to launch large scale and highly destructive attacks on the open-air prison.”

Source: The Independent

Share on Facebook
 or Tumblr

* * * * *

You might also enjoy;

Reflexões sobre a Sabedoria e a Felicidade – por Alain (Émile-Auguste Chartier, 1858-1951)

BattleofIssus333BC-mosaic-detail1

Alexandre e Bucéfalo (Detalhe de mosaico romano encontrado em Pompeia. Museu Arqueológico Nacional, Nápoles, Itália)


I. BUCÉFALO E SUA SOMBRA

“Quando Bucéfalo, cavalo ilustre, foi apresentado ao jovem Alexandre, nenhum cavaleiro conseguia se manter sobre o lombo deste animal formidável. Sobre isto um homem vulgar dizia: “Este é um cavalo malvado.” Alexandre, no entanto, procurou o X da questão, e logo encontrou, observando que Bucéfalo estava terrivelmente apavorado diante de sua própria sombra. Como o seu medo fazia agitar-se a sombra, o pavor não acabava mais. Alexandre então dirigiu o nariz de Bucéfalo em direção ao Sol, e então, nesta posição, pôde tranquilizar e domar o animal. Assim, o aluno de Aristóteles já sabia que nós não temos nenhuma potência sobre as paixões enquanto não conhecemos suas causas reais.”  ALAIN, Propos Sur Le BonheurGallimard, 1928. Pg. 9.

AlainEvocando a imagem de Alexandre e Bucéfalo, Alain (1868-1951) inicia seu livro de reflexões sobre a felicidade, Propos Sur Le Bonheur, publicado em 1928. O pavor de Bucéfalo diante de sua sombra é lido por Alain como um símbolo do descontrole e da inquietude que as paixões exercem sobre suas vítimas. Alexandre, por sua vez, aparece nesta parábola como representante da inteligência, da racionalidade, capaz de serenizar os arroubos irracionais e controlar a selvageria do temor e da intranquilidade.

Eis algo que deve soar bem familiar àqueles acostumados a flanar pela história da filosofia, onde é recorrente a ideia de que a Razão deve agir como um cavaleiro que doma o corcel selvagem da Emoção. Enquanto formos semelhantes a Bucéfalo, ou seja, aterrorizados por fenômenos que não compreendemos, que nos assustam justamente pois somos ignorantes de suas verdadeiras causas, estaremos bem longe da serenidade e daquilo que em francês é conhecido pelo bela expressão la joie de vivre.

O que também me parece notável, e que eu gostaria de explorar mais a fundo na sequência, é que o “caso Bucéfalo” nos permite refletir sobre o medo distinguindo entre suas manifestações legítimas e aquilo que eu chamaria de um medo-sem-fundamento.

Para evocar um exemplo que está na crista-da-onda, marcando presença nas mídias: se você é um habitante de Gaza, em Julho de 2014, tem amplas razões para temer por sua vida e por sua integridade física, mesmo que você não tenha conexão alguma com o Hamas ou com qualquer organização islâmica militante, já que existem provas empíricas aos milhares de que a ofensiva militar de Israel tem matado e ferido os palestinos sem grandes esforços de distinção entre civis e militares. Em Gaza, o medo é um afeto plenamente legítimo, justificado pela presença de perigos reais, e a ausência deste afeto em tais circunstâncias é que pareceria bizarra, incompreensível e anormal.

Bucéfalo, ao contrário, oferece-nos um exemplo de um medo desproporcional ao perigo real: a sombra, afinal, não tem o mínimo potencial de destruição. Se o cavalo se debate em pavores, é pois se equivoca em seu juízo eqüino e enxerga uma ameaça onde não há nenhuma. Dando um passo além, poderíamos inclusive dizer que Bucéfalo ilustra um comportamento supersticioso, que tem suas similaridades com o pavor sentido, em épocas mais remotas, por aqueles que presenciavam um eclipse ou um terremoto: incapazes de compreender as causas dos fenômenos físicos, perdiam o sono em temores e taquicardias, imaginando que os deuses estavam furiosos.

Bucefalo

II. O IMAGINÁRIO COMO INIMIGO

Com esta distinção entre medos legítimos e medos injustificados em mente, fica mais fácil compreender algumas das principais teses de Alain – como esta: “o imaginário é nosso inimigo” (XV, Sur La Mort, pg 45). Os poderes de imaginação da mente humana nem sempre agem em nosso favor: não é incomum que a pessoa saudável imagine doenças possíveis e assim contamine sua saúde com males imaginados, meramente possíveis, que provavelmente não vão se materializar.

Mesmo que esteja em um estado físico ótimo, sem dores corporais ou sinais de desagregação orgânica, a pessoa pode sofrer com as ansiedades, as insônias e os pavores decorrentes de uma imaginação demasiado pessimista. Em seus comentários psicológicos, Alain destaca com frequência o quanto a imaginação “compõe horrores”  (p. 39), em especial quando se lança ao futuro e representa os próximos estágios do percurso existencial – que tem a morte, necessariamente, por horizonte.

Diante das superstições humanas que levam ao temporal desnorteante da esperança e do temor, Lucrécio já pintava o retrato do sábio como aquele que, em terra firme, observa em serenidade os navegantes em mar revolto. Se Lucrécio, em seu poema-filosófico Da Natureza, visa como um de seus objetivos supremos o de libertar os humanos das superstições, utilizando para isto a doutrina de seu mestre Epicuro, é pois as superstições são consideradas como doenças do imaginário que desviam-nos do caminho da sabedoria. “A superstição consiste sempre, sem dúvida, em explicar efeitos reais por causas sobrenaturais”, escreve Alain (XVIII, Prières, pg. 53).

Hortus Deliciarum

Ilustração medieval do Inferno no manuscrito Hortus deliciarum, de Herrad of Landsberg (aprox. 1180) – via Wikipedia

 Àqueles que não dormem à noite, ou que se supliciam durante o dia, pois temem estarem sendo reprovados por um deus vingador, que os observa furibundo sentado em sua nuvem, o sábio apenas recomenda a dissipação da ilusão como melhor remédio. Assim como Bucéfalo não tem razão para temer sua própria sombra, não há razão para temer o Inferno ou qualquer outra punição do além-túmulo. Não há sabedoria ou felicidade possível sem que antes nos livremos de fantasias, compostas por imaginações humanas e escritas por mãos humanas em livros ditos “sagrados”, que tendem a disseminar temores sem fundamento e terrores sem realidade.

O X da questão, para Alain, é que tanto o cavalo Bucéfalo quanto o devoto que teme a fúria de Jeová, os  relâmpagos de Zeus ou o inferno criado por Deus-Pai para queimar os ímpios, sofrem de verdade com seus males imaginários. Para recuperar o exemplo citado acima: a pessoa saudável que age como o personagem de Moliére, O Doente Imaginário, acaba sofrendo de fato com seus temores, ansiedades e inquietudes. Pois bem se sabe que não é só fisicamente, “na carne”, que sofre o homem; um sofrimento não é menos sofrido por ser “psicológico”, por estar “na mente”.

 Ao invés de ser vítima de seus afetos, arrastado pelas circunstâncias a cóleras e pavores, transtornado constantemente  em seus humores por tudo o que lhe ocorre, o sábio tem o bom senso de temperar os arroubos passionais e serenizar seus temporais internos ao compreender – “clara e distintamente”, como recomendam Sócrates, Descartes ou Spinoza – as causas reais daquilo que é sentido.

Como dirá André Comte-Sponville, fiel discípulo de Alain, compreender a causa de uma tristeza já é um começo de alegria. “Les malheurs sont rendus légers par la connaissance des causes”, escreve Alain (X, Argan, p. 30), ou seja, os infortúnios e desgraças são suavizados e tornam-se mais leves através do conhecimento de suas causas. Algo que se assemelha ao motto spinozista que recomenda: “não desprezar, não lamentar, não odiar, mas compreender”. No divã do psicanalista, por exemplo, o melancólico tem a chance de se libertar de sua condição de prisioneiro da paixões tristes quando começa a compreender os porquês dos afetos, das paixões, dos sonhos, que o acossam e o afligem. Compreender, contudo, não é tudo. Falta o essencial, que é o agir.

III. O PERIGO DA RAZÃO EXTREMISTA

Não faltaram na História os que explicaram o Mal a partir da Ignorância – para ficarmos só entre os gregos, duas figuras de considerável impacto na posteridade, Sócrates e Epiteto, sustentaram que o saber racional, em especial o conhecimento daquilo que nos move, a compreensão das causas de nossos sentimentos, é o “caminho do bem”. Donde o “conhece-te a ti mesmo!”, mais célebre dos mottos socráticos, inscrito no Templo à Apolo em Delfos ao lado de outra “dica” existencial apolínea: “nada em demasia”. Um dos valores cardinais da civilização grega era justamente a sophrosyne – traduzível por temperança, moderação ou auto-controle.

O difícil, porém – e ninguém disse que a sabedoria é fácil! – é saber dosar o quanto de “controle racional” sobre as paixões deve ser exercido. Aristóteles sustentava que a virtude está em encontrar o ponto ótimo entre dois excessos: por exemplo, a virtude da coragem encontra-se entre os dois extremos, o de sua carência (a covardia) e seu excesso (a temeridade).

Também a racionalidade nos oferece um risco duplo: por um lado, um excesso vicioso, o desregramento passional, que leva, por exemplo, um homem a enforcar sua esposa em um arroubo de ciúme injustificado, como faz Otelo contra Desdêmona na obra de Shakespeare (com o auxílio cruel do invejoso Iago, desejoso de envenenar o deleite do casal). Por outro lado, outro excesso vicioso, o racionalismo ultra-controlador, que pode levar alguém a dotar-se de um caráter rígido, autoritário, severo em demasia, descrito muito bem pela gíria da língua inglesa control freak.

9780140443295Na história da filosofia, um dos mais importantes legados do pensamento de Nietzsche é justamente ter colocado em questão a predominância, na filosofia ocidental, de um racionalismo hiperbólico que se manifesta com frequência como moralismo castrador, repressor, autoritário. A crítica que Nietzsche empreende contra o do Ideal Ascético, tão presente no seio da ética judaico-cristã,  visa justamente questionar os efeitos de doutrinas que querem lidar com as paixões com a tática do extermínio, como faria um dentista que, diante das cáries de seu paciente, só soubesse receitar a extração dos dentes.

Contra Sócrates, encarnação do “homem teórico” que transforma a Razão em ídolo, Nietzsche nos põe em guarda contra aqueles que querem transformar a razão em panacéia e que pensam servir a este novo deus quando praticam, contra si e contra os outros, a repressão sexual, a supressão dos prazeres sensórios, a caça às “bruxas” e aos “hereges” etc.

Em seu Propos Sur Le Bonheur, Alain decerto reflete do interior de uma tradição filosófica ancestral, que atravessa os séculos, mas consegue nos dizer algo de novo, ou melhor, algo de peculiarmente seu. Quando recorda as razões que o levaram a abandonar o catolicismo, remete-nos a uma vivência que experimentou aos seus 10 anos de idade: visitar uma “capela mortuária onde os mortos permaneciam por uma semana, para edificação dos viventes. Estas imagens lúgubres  e este odor cadavérico perseguiram-me por muito tempo. Todo meu ser se revoltava e eu me livrava da religião deles como de uma doença.” (LXXIII, Bonne humeur, 10 Octobre 1909) Alain manifesta uma repulsa visceral contra a morbidez tão frequente em certos cultos religiosos Tanatocêntricos, que pregam o quietismo e a resignação.

Alain, ao contrário, busca sua sabedoria em outras fontes: em Spinoza, por exemplo, que considera um “mâitre de joie” (pg. 57), um mestre do júbilo. A ênfase que a filosofia spinozista devota à afetividade humana – a Ética sendo em larga medida um tratado psicológico que procura explicar os complexos mecanismos causais dos sentimentos humanos – é amplamente abraçada por Alain. A crítica da esperança e do temor, compreendidos como “irmãos gêmeos”, é algo que Alain também assume como um legado spinozista digno de permanecer vivo – e que Comte-Sponville posteriormente expandirá e detalhará como um dos temas-chave de sua obra (em especial no Tratado do Desespero e da Beatitude). 

O remédio contra a “síndrome de Bucéfalo”, isto é, com a tristeza de padecer com paixões que não controlamos nem compreendemos, está não só na compreensão mas também na ação. Trata-se de viver no esforço de agir ao invés de padecer; entender ao invés de ignorar; enfrentar os perigos reais ao invés de temer, na impotência e no tremor, perigos imaginários.

A felicidade, pois, não é algo que a gente receba como um presente, ou que devamos esperar sentados com a bunda confortavelmente instalada nos sofás da inação esperançosa. A felicidade está em agir para construi-la. E não há situação mais infeliz do que aquela do devoto que, em lágrimas, de joelhos, implora por ajuda do alto.

Uma longa tradição filosófica, que inclui Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Alain, Comte-Sponville, une-se em coro para cantar: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” A felicidade nunca vem de graça; é preciso conquistá-la. E há boas razões para crer que jamais alguém a conquista em solidão, ao contrário do que pregam ascetas e anacoretas.

Chris McCandless, vulgo Alex Supertramp, precisou buscar o isolamento extremo, nas geleiras do Alaska, para descobrir, em Into the Wild: “happiness is only real when shared”. Os filósofos assinariam embaixo, e Alain entre eles: o amor e a amizade são elementos sine qua non na construção de qualquer felicidade, que é sempre trans-individual, conectada com a presença de uma teia de relações humanas em que a convivência aumenta a potência de existir (e, logo, a alegria) daqueles que interagem.

Into the Wild

IV. EPÍLOGO: A FELICIDADE É POESIA 

A sabedoria, como aponta a etimologia,  é a meta suprema do filósofo, aquele que nutre philia (amor ou amizade) pela sophia (sabedoria). Ler Alain é uma experiência filosófica seminal pois equivale a encontrar alguém motivado por um engajamento existencial na busca pela vida sábia (e, logo, feliz). Este grande educador e escritor francês, autor de cerca de 5.000 propos (termo francês traduzível por reflexões em português, ou por remarks em inglês), teve sua obra celebrada por um de seus alunos, André Maurois, como digna de figurar em todas as bibliotecas ao lado dos Ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592). Não é elogio pequeno.

A carreira de Alain como professor de filosofia foi longa e fecunda, tendo influenciado o pensamento de alunos que viriam a marcar época, caso de Georges Canguillem (1904-1995), Simone Weil (1909-1943) e André Comte-Sponville (1952 – ). Pouco conhecido no Brasil, onde existem poucos de seus livros traduzidos, Alain não é um filósofo de sistema, mas muito mais um pensador-artista, um filósofo-literato, cujos textos tem o sabor de pequenas obras-de-arte verbais, que instigam a refletir e ensinam os caminhos que o autor descobriu para um autêntica arte de viver e de gozar.

Sem dúvida, Alain pende mais para uma sabedoria apolínea, baseada na temperança e na primazia da razão, do que para uma sabedoria trágica ou dionisíaca (como Nietzsche, p. ex., procurou pensar). De certo modo, é como se Alain quisesse agir sobre seu leitor de modo similar ao que Alexandre fez com Bucéfalo: suas reflexões parecem animadas pelo ímpeto de ajudar o leitor a curar-se das paixões tristes, dos afetos mortificantes, das confusões mentais caóticas. O caminho da serenidade passa pela compreensão das causas reais de nossos sentimentos, sustenta Alain, o que significa que grande parte dos males afetivos de que padecemos tem relação com uma imaginação desregrada que é preciso “domar”.

Para que nos libertemos da impotência triste a que nos entrega o fatalismo, e da ansiedade apavorada a que nos condena um imaginário desregrado, Alain recomenda um remédio simples: compreensão e ação. A felicidade, logo, é como a poesia: é preciso criá-la, construí-la, escrevê-la, com um arranjo próprio e inimitável de palavras, ao invés de esperar por ela, rezar por ela, sonhar com ela. O ser humano gosta bem mais dos prazeres que ele conquista do que daqueles que lhe vem de graça: o alpinista, ainda que sofra e pene para atingir o topo da montanha, goza muito mais intensamente com a paisagem solar que observa quando atinge o pico, tendo ali chegado através de seu esforço e de sua ação, do que aquele que “um trem elétrico conduziu ao célebre cume e que não pode encontrar ali o mesmo Sol” (XLIV, pg. 116).

Filósofo que ama o bom humor e a alegria, Alain sabe ser duro contra “aquela feroz religião que nos ensinou que a tristeza é grande e bela, e que o sábio deve unicamente pensar na morte, enquanto cava seu próprio túmulo. (…) Resta-nos, após termos descartado as mentiras dos padres, abraçar a vida nobremente e não atormentarmos a nós mesmos e uns aos outros com declamações trágicas” (LXXIII, Bonne Humeur, pg. 184). 

Ao invés de exagerar a tragicidade da existência, Alain recomenda que não transformemos pequenas pedras em montanhas, nem perigos imaginários em razões para inquietudes de Bucéfalo.

Ao invés de acusar amargamente o mundo e os outros pela infelicidade própria, convêm muito mais perceber que cada um de nós é seu pior inimigo quando padece com seus juízos falsos, seus temores vãos, seus conformismos preguiçosos.

O primeiro passo para a sabedoria está em despertar para o fato de que nossas relações com o futuro não devem ser norteadas pela imaginação ou pela esperança, mas sim pela ação, que constrói um futuro ao invés de padecer com um futuro que tomba sobre nós ou nos atropela. A felicidade é poesia: trata-se de sacudir a impotência, despertar nossas forças criativas e criá-la – como se escreve um poema, como se compõe uma sinfonia, como se nutre uma amizade, como se constrói um amor.

Henri Matisse, "La Joie de Vivre" (1906)

“Tout bonheur est poésie essentiellement, et poésie veut dire action; l’on n’aime guère un bonheur qui vous tombe; on veut l’avoir fait.” – ALAIN (1858-1951), Propos Sur Le Bonheur (XLII, “Agir”, pg. 111. 3 Avril 1911). Pintura de Henri Matisse, “La Joie de Vivre”, 1906.

Eduardo Carli de Moraes
Toronto, Julho de 2014.