EM DEFESA DA DIGNIDADE DO ATEÍSMO, por Slavoj Žižek: “O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar”

O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar

Por séculos, nos foi dito que sem religião não somos mais do que animais egoístas lutando pelo nosso quinhão, nossa única moralidade a de uma matilha de lobos; apenas a religião, dizem, pode nos elevar a um nível espiritual mais alto. Hoje, quando a religião emerge como a fonte de violência homicida ao redor do mundo, garantias de que fundamentalistas cristãos ou muçulmanos ou hinduístas estão apenas abusando e pervertendo as nobres mensagens espirituais de seus credos soam cada vez mais vazias. Que tal restaurar a dignidade do ateísmo, um dos maiores legados da Europa e talvez nossa única chance de paz?Mais de um século atrás, em Os Irmãos Karamazov e outras obras, Dostoiévski alertava sobre os perigos de um niilismo moral sem deus, defendendo essencialmente que, se Deus não existe, então tudo é permitido. O filósofo francês André Glucksmann até mesmo aplicou a crítica de Dostoiévski do niilismo sem deus ao 11 de setembro, como sugere o título de seu livro, Dostoiévski em Manhattan.

O argumento não poderia estar mais errado: A lição do terrorismo atual é que, se Deus existe, então tudo, incluindo explodir milhares de espectadores inocentes, é permitido – pelo menos àqueles que alegam agir diretamente em nome de Deus, já que, claramente, uma ligação direta com Deus justifica a violação de quaisquer refreamentos e considerações meramente humanos. Resumindo, os fundamentalistas não se tornaram diferentes dos comunistas Stalinistas “sem deus”, para os quais tudo foi permitido, já que viam a si mesmos como instrumentos diretos de sua divindade, a Necessidade Histórica do Progresso em Direção ao Comunismo.

Fundamentalistas fazem o que veem como boas ações de forma a satisfazer o desejo de Deus e ganhar a salvação; ateus o fazem simplesmente porque é a coisa certa a fazer. Não seria essa também nossa experiência mais elementar de moralidade? Quando faço uma boa ação, não a faço visando ganhar um favor de Deus; faço porque, se não fizesse, não poderia me olhar no espelho. Uma atitude moral é por definição sua própria recompensa. David Hume argumentou isso pungentemente quando escreveu que a única maneira de demonstrar verdadeiro respeito a Deus é agir moralmente ignorando sua existência.

Dez anos atrás, Europeus debatiam se o preâmbulo da Constituição Europeia deveria mencionar o cristianismo. Como de costume, um meio termo foi arranjado, uma referência em termos gerais à “herança religiosa” da Europa. Mas onde estava o legado mais precioso da Europa, o do ateísmo? O que faz da Europa moderna única é que ela é a primeira e única civilização em que o ateísmo é uma opção plenamente legítima, e não um obstáculo a qualquer posição pública.

O ateísmo é um legado europeu pelo qual vale a pena lutar, não menos por criar um espaço público seguro para os que creem. Considere o debate que inflamou-se em Ljubljana, a capital da Eslovênia, meu país natal, conforme a controvérsia constitucional fervia: muçulmanos (em sua maioria trabalhadores imigrantes das antigas repúblicas Iugoslavas) devem ter permissão para construir uma mesquita? Enquanto os conservadores opunham-se à mesquita por razões culturais, políticas e até arquitetônicas, a revista semanal liberal Mladina foi consistentemente explícita em seu apoio à mesquita, em continuar com suas preocupações pelos direitos daqueles que vinham de outras antigas repúblicas Iugoslavas.

Não surpreendentemente, dadas as atitudes liberais, Mladina também foi uma das poucas publicações eslovenas a republicar as caricaturas de Maomé. E, reciprocamente, aqueles que demonstraram maior “compreensão” pelos violentos protestos muçulmanos causados por aqueles cartuns foram também aqueles que regularmente expressavam sua preocupação com o futuro do cristianismo na Europa.

Estas alianças estranhas confrontam os muçulmanos da Europa com uma escolha difícil: A única força política que não os reduz a cidadãos de segunda classe e os concede o espaço para expressar sua identidade religiosa são liberais ateus “sem deus”, enquanto aqueles mais próximos a suas práticas religiosas sociais, seu reflexo cristão, são seus maiores inimigos políticos.

O paradoxo é que os únicos verdadeiros aliados dos muçulmanos não são aqueles que primeiramente publicaram as caricaturas para chocar, mas aqueles que, em defesa do ideal da liberdade de expressão, republicaram-nas.

Enquanto um verdadeiro ateu não tem necessidade de apoiar sua própria posição provocando crentes com blasfêmia, ele também se recusa a reduzir o problema das caricaturas de Maomé ao respeito às crenças de outras pessoas. O respeito às crenças dos outros como o valor maior só pode significar uma de duas coisas: Ou tratamos o outro de forma condescendente, evitando magoá-lo para não arruinar suas ilusões, ou adotamos a posição relativista de vários “regimes da verdade”, desqualificando como imposição violenta qualquer posição clara em relação à verdade.

Mas que tal submeter o Islã – junto com todas as outras religiões – a uma respeitosa, mas por isso mesmo não menos implacável, análise crítica? Essa, e apenas essa, é a maneira de mostrar verdadeiro respeito aos muçulmanos: tratá-los como adultos responsáveis por suas crenças.

* Publicado originalmente em inglês no The New York Times em 13 de março de 2006. Reblogado do Blog da Boitempo. O trecho citado também integra um dos capítulos do livro Violência. Acompanhe A Casa de Vidro – www.acasadevidro.com.

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Saiba mais sobre o legado histórico do ateísmo na obra de Epicuro e Lucrécio

Lágrimas pela democracia que despenca no abismo: Petra Costa e a crônica sensível e reflexiva do Golpe de Estado no Brasil

“Eu sou o próprio Josef K“, ironiza Dilma Rousseff, comparando-se ao personagem de Franz Kafka em O Processo. “Mas com a diferença de que pelo menos tenho um bom advogado”, complementa a ex-presidenta, em elogio a José Eduardo Cardozo. São cenas poderosas como esta que tecem os fios de Ariadne deste impactante documentário Democracia em Vertigemde Petra Costa (disponível no Netflix), essencial para que possamos decifrar a atualidade e traçar altos planos pra contra-atacar o atual predomínio do MinoTaurus.

O filme pode ser considerado como a terceira crônica cinematográfica que se debruça sobre o Golpe de Estado parlamentar-jurídico-midiático que culminou com destituição de Dilma Rousseff em 2016 e preparou o terreno para a fraude jurídica montada para o encarceramento de Lula em 2018.

Antes dele, já haviam sido lançados (e já foram resenhados aqui n’A Casa de Vidro) as produções O Processo de Maria Augusta Ramos (de uma imersão exaustiva nas entranhas da

Besta-Fera que é nosso Congresso e seus sinistros kafkianismos) e O Muro de Lula Buarque de Holanda (interessado sobretudo numa reflexão sobre a segregação ou apartheid que se explicita na polarização política que nos últimos anos vimos exacerbar-se). Os três filmes são importantíssimos para que possamos decifrar melhor as verdades, muitas delas tristes e intragáveis, sobre esta nação com fratura exposta.

Após realizar dois filmes repletos de poesia visual e delicadeza investigativa (Elena e O Olmo e a Gaivota), a talentosa jovem cineasta Petra quis se debruçar sobre nosso infortúnio coletivo, sobre a distopia real desta terra brasilis “com um longo passado pela frente”, pra relembrar a boutade do Millôr Fernandes. O modo como ela termina seu filme,  deixando no ar as questões relevantes e sem resposta, é um bom indicativo do tom da obra, também impregnada pelo violão afrosambante de Baden Powell e Vinícius de Moraes:

Cineasta Petra Costa

“Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?”

A máscara da civilidade caiu totalmente com a eleição de Bolsonaro e sua necropolítica que parece ter um mandamento único: “matai-vos uns aos outros!”. O mito do “homem cordial”, mais do que nunca, revelou-se uma farsa edulcorada, um conto-de-fadas enganador. O Brasil é território de ultraviolência e ultrainjustiça, situação piorada agora que estamos sob o (des)governo de um ultradireitista obcecado com armas de fogo e seriamente adoecido por uma psicose falocêntrica altamente perversa. Como lidar com essa vertigem de ver as ratazanas dos porões da Ditadura re-vomitados no nosso presente e ocupando posições de altíssima responsabilidade?

O tema da vertigem, para além das evocações que pode ocasionar com clássicos do cinema que já o exploraram (notavelmente Vertigo – Um Corpo Que Caia obra-prima de Alfred Hitchcock), é também a maneira que Petra encontra para fugir dos dogmatismos e adentrar o campo em que é mestra: o do “filme-ensaio” repleto de insights subjetivos, percepções que iluminam com uma luz toda pessoal o âmbito da coletividade que compartilhamos. Petra mostra-se assim uma poetisa da imagem e um espírito livre e nada dogmático, sem temor de expor suas teses.

Teses, por exemplo, sobre Brasília, a “Cidade do Futuro”, o sonho de Juscelino, a fantasia da Modernidade, com toda a majestade arquitetônica de Niemeyer, que de utopia converteu-se em distopia: não poderia ter sido de outro modo, já que construíram a capital no Planalto Central, num vaziozão no meio de Goiás, bem longe do fuzuê e do escarcéu das massas populares que acossavam de muito perto o poder em Salvador ou no Rio de Janeiro, nossas duas primeiras capitais. No filme de Petra, a própria localização geográfica de Brasília, este colosso artificial erguido no “nada” goiano, impede a democracia plena e direta pois o poder se distancia dos representados.

Por estar “isolada” da população brasileira, dificilmente alcançável pela maioria dos habitantes da pátria, Brasília constitui-se como metrópole dos privilegiados, QG da Elite do Atraso. Assim caímos mais profundamente no pântano de uma corrupção endêmica e sistêmica em que a casta de políticos eleitos, encastelados na Brasília feita para os carros e não para as gentes, tece tenebrosas transações com os capitalistas, os banqueiros, os empresários. A Ditadura Militar, por exemplo, foi época de intensa corrupção, revelada por ex. pelo livro Estranhas Catedrais – As Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar, de Pedro Henrique Pedreira Campos:

“A análise crítica identifica na ditadura civil-militar brasileira do período 1964-1988 a origem da inserção, contaminação e subordinação do tecido orgânico do Estado aos interesses do segmento dos empreiteiros. O livro foi vencedor do Prêmio Jabuti 2015, na categoria “Economia, Administração, Negócios, Turismo, Hotelaria e Lazer”. Em foco, o crescimento e consolidação das principais empresas do setor de construção pesada no Brasil, numa articulação que, segundo o autor, propiciou o desenvolvimento expressivo, a modernização capitalista e a internacionalização das “gigantes do setor”. Ao demonstrar as injunções políticas, estratégias e práticas que permeiam as relações da iniciativa privada e poder público e sua legitimação por “intelectuais orgânicos”, a publicação constata e fornece elementos de compreensão acerca de “Estado, Poder e Classes Sociais no Brasil”, conforme  o prefácio, assinado pela historiadora Virgínia Fontes.

Tenho quase a mesma idade que Petra: nasci em 1984, vigésimo ano da Ditadura Militar, que estava então em seus estertores. O bebê que fui não pôde estar atento e alerta para as imensas massas que tomavam as ruas naquele ano, demandando em alto e bom som por “Diretas Já!”, só para sofrerem a derrota de ter sua reivindicação recusada pelo Congresso Nacional. Esta sensação de “ter a mesma idade que a Democracia” brasileira anima o projeto de Petra, dá a ele um teor de manifesto geracional que pretende expressar uma percepção compartilhada por muita gente que está hoje na faixa dos 35 anos de idade.

Ao recuperar imagens históricas de Lula quando um jovem sindicalista, de 33 anos de idade, pernambucano aguerrido imigrado para São Paulo, onde lideraria as históricas greves da indústria automobilística no ABC do fim dos anos 1970, Petra Costa acerta na mosca: seu filme ganha com interlocuções e ressonâncias com obras pregressas que marcaram o cinema brasileiro, em especial o magistral ABC da Greve de Leon Hirzsman e várias obras de Renato Tapajós. Além disso, dá à nossa percepção de Lula o devido grau de densidade histórica que ele merece, já que não se trata de pessoa anônima ou esquecível, mas alguém sobre quem escreverão os historiadores do futuro quando quiserem abordar as grandes personalidades globais da época que ora atravessamos.

O fato desde filme ser a produção de uma cineasta nascida nos anos 1980 só torna mais interessante outra de suas teses: a de a Democracia brasileira tem mais ou menos 3 décadas de vida, e talvez fosse uma ilusão que cada vez mais vai caindo em descrédito, para nós que temos 30 e poucos anos, acreditar que a tal democracia era robusta, madura, indestrutível. O filme de Petra faz chorar pois a democracia que ela retrata não é um colosso, uma fortaleza, um Hulk, mas sim a fragilidade encarnada – e nós os que temos a responsabilidade de fortalecê-la. Juntos. Destacando isso, a revista Marie Claire, que entrevistou a cineasta, fez um bom prefácio ao filme:

“A cineasta Petra Costa tem quase a mesma idade da democracia brasileira. A primeira nasceu em 1983 e a segunda voltou a respirar em 1984, com o fim da Ditadura Militar. Por isso, Petra explica, faz parte de uma geração que cresceu confiante nas instituições do país e com a certeza de que a democracia amadurecia e se fortalecia em um movimento paralelo ao de sua vida. (…) Ao longo de três anos, Petra entrevistou dezenas de políticos de todo o espectro ideológico. Constam no filme tanto um entusiasmado Jair Bolsonaro mostrando seu gabinete de deputado e os quadros que possuía dos generais do governo militar; como uma resiliente Dilma Rousseff pós-impeachment. Com acesso privilegiado aos bastidores do poder, Petra contou também com cenas registrada por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial da presidência nos anos de governo Lula e que o acompanhou até sua prisão, inclusive quando deixou o Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo rumo ao aeroporto de Congonhas para entregar-se à Polícia Federal.

Em entrevista à Marie Claire, Petra conta como foi o processo de criação e captação das imagens do filme e analisa o cenário político brasileiro atual.

Marie Claire – Quando nos falamos em 2016, sua intenção era filmar os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff. Como tomou a decisão de ampliar o filme e terminar com a eleição de Jair Bolsonaro?

Petra Costa – Minha sensação é de um dia ter ido filmar uma manifestação e no meio dela tropecei e caí no buraco de um coelho que me levou numa jornada de 1001 noites. O filme pra mim não nasceu do desejo de filmar o impeachment, mas da sensação vertiginosa que o chão da democracia brasileira estava se abrindo embaixo dos meus pés. O chão que, desde que eu nasci, era uma das poucas coisas que eu tomava como certeza. Que a democracia brasileira e eu tínhamos a mesma idade e que estávamos amadurecendo e nos fortalecendo juntas. Em 2016, ao ver pessoas pedindo pela volta da ditadura militar, outros pela volta monarquia, percebi que essa tal democracia era muito mais frágil do que eu imaginava. O filme surgiu do desejo de documentar esse processo de permanente crise política. E o processo claramente não se encerra no impeachment. Acredito que seu primeiro ciclo comece em 2013 e termine com a última eleição. Claramente no entanto a vertigem não CTG acabou e entra agora na sua segunda temporada.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA: https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2019/06/em-democracia-em-vertigem-petra-costa-questiona-os-limites-da-democracia-brasileira.html

Petra fez um filme comovedor, em que entretece sua biografia pessoal com a história nacional. Ao mesmo tempo que rememora a vida de seus pais, ativistas de esquerda que combateram a Ditadura, revela também alguns de seus laços familiares com Aécio Neves e com os fundadores da construtora Andrade Gutierrez. Partindo do passado distante, lembra-nos que essa terra foi batizada pelos colonizadores portugueses com o nome de uma planta cuja tintura vermelha foi a primeira commodity explorada pelos invasores – uma exploração que levou o pau-brasil às beiras da extinção.

O filme é magistral no retrato dos nexos e vínculos entre o golpeachment contra Dilma e a farsa jurídica montada por Sérgio Moro, em conluio com a mídia corporativa e os procuradores da Lava Jato (Dallagnol e companhia), para aprisionar Lula e evitar assim que o PT vencesse as eleições presidenciais pela 5ª vez consecutiva. O filme lança ao mundo as evidências concretas de que o processo contra Lula é parte do Golpe de Estado e ychega em momento extremamente oportuno, coincidindo com a Operação #VazaJato e com o alto impacto dos leaks recentemente disponibilizados a The Intercept por whistleblowers. 

Petra expõe, no filme, aquele ridículo Power Point de Dallagnol que, à semelhança de um processo medieval, tenta fazer de Lula uma espécie de Satanás, centro e líder do maior esquema de corrupção da história do mundo. O que contrasta com a inexistência de provas e com a argumentação pífia, beirando o ridículo, de um dos acusadores-inquisidores: não podendo provar a posse do imóvel no Guarujá, os procuradores inventaram a noção absurda de que a falta de escritura provaria o intento de ocultação de propriedade por parte de Lula.

Incapaz de comprovar qualquer vantagem ilícita que Lula pudesse ter auferido, como a atribuída reforma no triplex, condenaram o ex-presidente por “atos de ofício indeterminados”, uma bizarrice jurídica que envergonha todo o Judiciário nacional. É lawfare, e foi mal ocultada – tanto que já afloraram 1.700 páginas de evidência de que este julgamento fraudulento merece cair na nulidade – e Lula deve ser libertado e ter direito a novo julgamento, desta vez com um juiz mais justo do que o canalha Moro.

Lúcido quanto a este processo, o ex-presidente Lula revela, no filme, estar plenamente consciente de que o Golpe não estaria consumado apenas com a deposição de Dilma. Eles não queriam somente tirar a primeira mulher eleita presidenta, com o pretexto das manobras contábeis conhecidas como “pedaladas fiscais”: depois disso, a corja que desrespeitou o voto de 54 milhões de eleitores em 2014 não iria simplesmente permitir que Lula, líder disparado nas intenções de voto para 2018, voltasse ao poder.

“Não adianta tentar parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar eu sonharei pela cabeça de vocês!” – esta é uma das comoventes frases de Luiz Inácio Lula da Silva, discursando no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, alguns instantes antes de se tornar um preso político no conflagrado Brasil de 2018 (recentemente biografado por Mário Magalhães em seu Entre Lutas e Lágrimas). A crônica daqueles tensos instantes que precederam a prisão de Lula é certamente um dos pontos altos do filme e o primeiro registro histórico que chega ao cinema daquele evento em que vimos uma prisão impossível. 

Como escreve Maringoni, “a sensação de estupefação e entorpecimento de espectador no final da fita pouco a pouco se desvanece quando atentamos para o som ao redor e percebemos que o admirável mundo novo dos milicianos de toga, farda e terno começa a apresentar rombos no casco.”

Por concentrar-se na crônica, muito bem concatenada, do processo golpista que tirou o PT do poder, desrespeitando violentamente a vontade soberana do povo que se expressou nas urnas em 2014 e que voltaria a se expressar em 2018, caso tivesse havido um processo eleitoral legítimo (que não houve!), o filme não se dedica muito a investigar o que eu chamaria de psicose-de-massas que conduziu Bolsonaro ao poder.

Para explicar esta outra bizarrice histórica do Bolsonarismo – o fato de um deputado há quase 30 anos no poder, claramente parte de uma classe política parasitária, de pífia ou nula contribuição para o bem público, que enriqueceu sua própria família ao inserir 3 de seus filhos no jogo de alta lucratividade do Estado (visto como balcão de negócios da Burguesia), pudesse conquistar, na exclusão de Lula, 57 milhões de votos que o elegeram… -, Democracia em Vertigem não vai fundo. O filme não menciona nem a fraude das fake news pagas com caixa 2, nem as tenebrosas transações com os magnatas evangélicos. Ainda sobrou muito tema para outros documentários que explorem a Marcha de nossa democracia para o abismo, e as razões que explicam que seu algoz seja esta execrável figura que, no feriado de Corpus Christi de 2019, foi flagrado fazendo arminha na Marcha Para Jesus.

 

Avalio que os mercadores da fé, vendedores de ilusões alienantes, como Malafaia e Edir Macedo, dentre tantos outros pastores canalhas, foram diretamente responsáveis pela construção do “mito” Bolsonaro. Não se entende a “canonização” deste político medíocre, irresponsável e violento sem todo um processo de manipulação teocrática das consciências populares capturadas na teia do neopentecostalismo evangélico e sua Teologia da Prosperidade.

É verdade que a história do cristianismo está repleta de episódios lamentáveis, de cruzadas e inquisições, de bruxas e hereges reduzidos a cinzas, de cientistas silenciados e perseguidos, de violência assassina contra os transviados e dissidentes que discordaram dos dogmas, de censura e perseguição a ateus e agnósticos, de preconceito e discriminação contra minorias sexuais, de intolerâncias contra outras crenças, de papas acobertando escândalos de pedofilia e dando apoio para regimes cristofascistas – horrores de tal monta que não cabem num meme (mas estão lá nos livros de Saramago, Diderot, Nietzsche, Voltaire, Onfray etc.). Apesar desta história pregressa nada louvável, a instrumentalização da fé por parte da extrema-direita Rambonazista, em especial o conluio entre igrejas evangélicas neopentecostais e o sujeito que adora Tortura, Grupos de Extermínio, Milícias e Armas, é um dos episódios que mais me enche de nojo em todo o trôpego caminhar desta religião sobre a face da Terra.

Acredito que Jesus estaria hoje vomitando de repugnância diante daquilo que fazem em seu nome – o nazareno pode até ter sido um cara com ensinamentos éticos interessantes, mas o seu fã-clube está fazendo um péssimo serviço com sua reputação póstuma. Como pode ter gente que se diz cristã e idolatra este malévolo Capetão, este mito-fake explicitamente racista, este Machão Tóxico homofóbico e misógino, este estrupício ético e cognitivo, como se fosse um enviado de Deus? Deus, se existisse e fosse bom e justo como O pintam os seus crentes, jamais se utilizaria de tal instrumento ignóbil pra seus fins.

Tristes tempos de “cristofascismo” em que pseudo cristãos idolatram um Mi(c)to covardão, incapaz de encarar os debates nas eleições, com a idade mental de um bully de 12 anos que quer construir seu próprio senso de superioridade através da humilhação dos outros. O atoleiro em que caiu nossa democracia tem muito a ver com um tema que o filme de Petra deixa sem mencionar: o obscurantismo conexo à hegemonia desses teocratas evangélicos (a exemplo da Ministra Damares Alves e de escrotões como Marco Feliciano, Magno Malta etc.).

Um capetão na Marcha pra Jesus

Os eleitores do Coiso constituem, em amplas manadas, o rebanho desses teocratas corruptos, oportunistas e milionários, da laia de Malafaia ou de Edir Macedo. Jesus Cristo foi torturado e morto por aqueles que, na época, faziam apologia da tortura como vem fazendo entre nós o Capetão fã do Ustra. Jesus jamais compareceria a esta marcha feita em seu nome senão para cuspir na cara dos interesseiros organizadores desta mega manipulação demagógica e que fede a fanatismo religioso.

Foi Paulo Freire, grande mestre hoje demonizado pela extrema-direita Bozorâmbica e pelos pastores delirantes em seus templos-shopping, quem ensinou que a democracia necessita visceralmente de uma educação libertadora, que faça com que os oprimidos possam superar a consciência ingênua e mistificada, rumo à consciência crítica, condição necessária para sua plena atividade cívica. Sem educação pública, gratuita, laica, de qualidade, que forme para o senso crítico e para que sejamos sujeitos históricos, sempre voltaremos a sentir vertigem diante das beiras-de-abismos em que voltamos a estar prestes a despencar.

Pode-se explicar bem que um grupo político sabidamente canalha, como o clã Bolsonaro, faça uso em sua campanha eleitoral de táticas calhordas de difamação do adversário, de caixa 2, de burla à lei eleitoral, de sensacionalismo midiático – ou seja, que esses caras joguem sujo é esperado. Ingenuidade seria esperar fair play democrático de quem sempre odiou a democracia e que, uma vez no poder, tem feito tudo para miná-la e destrui-la ainda mais, rumo à autocracia dos idiotas.

Porém, a canalhice de um grupo político como o PSL (Partido Suco de Laranja) é mais compreensível do que a adesão massiva a este projeto de país elitista, machista, racista, homofóbico, ecocida e desumano. Só se compreende os mais de 57 milhões de votos no Capetão com uma análise da psicologia de massas que tente compreender como se deu a produção massificada de consciências em que se somam a ingenuidade, a credulidade, a alienação, o analfabetismo histórico-político e, last but not least, uma espécie de perversão sádica – o gozo com o sofrimento alheio. Bolsonaro explora os piores demônios de nossa Natureza e encontrou eco e guarida em grupos sociais como  os evangélicos, acostumados ao espírito de manada e à credulidade cega a líderes inquestionáveis apesar de seus comportamentos altamente obscenos, além é claro do pessoal do agronegócio, do agrotóxico e da hecatombe organizada contra indígenas e quilombolas.

Por melhor que seja o filme de Petra, que de fato é inteligente e sensível, comovedor e relevante para a atualidade e para a História, ele passa ao largo do tema da educação – e da falta dela. Se a pedagogia de Paulo Freire fosse de fato aplicada em larga escala neste país, teria gerado uma população muito mais capaz de crítica e autonomia, que jamais se deixaria engambelar por um macho tóxico escroto e incompetente como o palhaço fascista Rambozo. Sua eleição é por si só um sintoma do quão defasados estamos em matéria de uma educação para o senso crítico que fosse de fato massiva e democrática.

Todo o processo de Golpe de Estado que se desenrolou entre 2016 e 2019, e que prossegue enquanto escrevo estas linhas, está intimamente conectado com nosso fracasso em disseminar as práticas e ideais da Pedagogia do Oprimido no país: acabamos com imensas hordas de analfabetos políticos e de idiotas privatistas, presas fáceis para a demagogia pastoral e politiqueira dos que querem ser os velhos donos do poder. Se quisermos uma Democracia forte, ela precisará ser construída com muito trabalho e suor, e para isto é indispensável que ensinemos cidadania ativa e participação social efetiva àqueles oprimidos que estão acostumados demais a serem objetos de história, rebanhos de pastores, fantoches de políticos, espectadores de espetáculos e manipuláveis títeres dos podres poderes que hoje botaram nossa democracia num cadafalso. Retirá-la de lá é nossa responsabilidade histórica, e o trabalho será infindável.

Democracia em Vertigem é prova de que o cinema pode estar aliado àqueles que tem a coragem da verdade de que nos fala Foucault – e prova também de que o documentário, quando vem em hora oportuna e explora bem o célebre kairós dos gregos, pode tornar-se uma força histórica, speaking truth to Power e denunciando golpes e opressões que intentam nos lançar no abismo de uma nova Ditadura. É abraçados com filmes pungentes e comoventes como o de Petra que podemos haurir força e ânimo para seguir dizendo que ninguém solta a mão de ninguém e que “fascistas, machistas, racistas, não passarão!”

Eduardo Carli de Moraes
22 de julho de 2019

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Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância – Por Dráuzio Varella

Criacionismo outra vez

Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância

por Dráuzio Varella em Folha de São Paulo (9.dez.2018)

Voltamos a falar no ensino do criacionismo nas escolas. A mania de andar para trás teima em nos perseguir.

Até 1859, quando Charles Darwin publicou o livro sobre a origem das espécies, todos acreditavam que Deus as havia criado num único dia.

Essa crença começou a ser questionada no século 19, época em que os museus ingleses passaram a exibir plantas e esqueletos de animais já extintos. Como justificar o desaparecimento de tantas espécies tão semelhantes às que ainda povoavam a Terra?

A explicação corrente era a de que a ira divina exterminava periodicamente algumas espécies para criar outras, parecidas com as anteriores.

Darwin entendeu que a ciência devia estudar a grande variabilidade existente entre os indivíduos da mesma espécie, característica que não era levada em consideração pelos naturalistas da época.

Suas observações sobre os pássaros das ilhas que visitou a bordo do Beagle, bem como a leitura dos trabalhos de Malthus a respeito da finitude dos recursos naturais, levaram Darwin a concluir que a vida é uma eterna competição pelo acesso a eles, na qual os indivíduos que não se adaptaram às exigências do ambiente foram eliminados por seleção natural.

Como consequência, todos os seres vivos deviam ter ancestrais comuns. O homem, por exemplo, seria descendente do mesmo ancestral que deu origem aos demais primatas.

Imaginem o furor que essa ideia provocou na Inglaterra vitoriana e no mundo religioso. Negar que fôramos criados à imagem e semelhança de Deus era uma blasfêmia inaceitável (ainda hoje considerada como tal por muitos religiosos).

Desde então, a teoria que Darwin enunciou naquele tempo foi exaustivamente testada e confirmada. O conceito de mutação gênica, a descrição da molécula de DNA e as descobertas da genética e da biologia molecular nos séculos 20 e 21 demonstraram que a seleção natural está presente até nos mecanismos moleculares das funções fisiológicas das células.
Theodosius Dobzhanski, um dos maiores geneticistas do século passado, afirmou: “Nada em biologia faz sentido senão à luz da evolução”.

A seleção natural é um mecanismo universal que explica a evolução da vida na Terra e em qualquer planeta em que venha a ser encontrada.

Ao contrário do pensamento científico, o religioso está alicerçado na fé. Como não preciso de experimentos para provar que Deus existe, que Jesus Cristo foi seu filho e que a vida eterna é o nosso destino, posso crer que a Terra tem 10 mil anos e que Eva foi criada a partir de uma costela de Adão.

Nada contra os crentes, a ciência não é a única forma de entender o mundo, as religiões procuram fazê-lo por outros caminhos. No entanto, assim como os cientistas têm obrigação de respeitar crenças alheias, os religiosos não devem se opor ao conhecimento científico.

O problema não está no ensino do criacionismo como pensamento religioso que ainda influencia muitas pessoas, mas em apresentá-lo como alternativa em pé de igualdade à evolução das espécies por seleção natural.

Questionar a veracidade da teoria da origem das espécies enunciada por Darwin e Wallace há mais de 150 anos, desculpem, é ignorância. É o mesmo do que duvidar da gravitação universal de Newton, colocar outra vez a Terra no centro do universo sem levar em conta Copérnico e Galileu, negar a relatividade enunciada por Einstein ou a teoria quântica de Max Planck.

A Terra não tem 10 mil anos, mas 4,5 bilhões. A vida surgiu a partir das moléculas primordiais de RNA que se formaram há uns 4 bilhões, assim que o planeta esfriou. Chimpanzés e bonobos compartilham conosco mais de 95% dos genes que herdamos de nosso ancestral comum. Não fosse um meteorito cair na península de Yucatán, no México, há 65 milhões de anos, os dinossauros ainda dominariam a Terra e, nós, dificilmente estaríamos por aqui.

Há os que preferem crer que a mão de Deus deu origem ao homem e a todos os seres vivos. Alguns não negam as evidências da evolução, mas propõem que Ele está por trás de todas as mutações gênicas adaptativas que selecionaram as espécies. Para eles, admitir que surgimos como resultado dos acasos envolvidos na seleção natural não faz sentido.

Para mim, imaginar que um ser superior criou tudo num passe de mágica reduz a complexidade da biologia que através de mecanismos seletivos chegou ao único animal que se atreveu a desvendar os mistérios da criação da vida.

Drauzio Varella
Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

COLLISION: o Cristianismo é bom para o mundo? – Documentário completo em que debatem Chris Hitchens e o pastor Douglas Wilson

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“COLLISION carves a new path in documentary film-making as it pits leading atheist, political journalist and bestselling author Christopher Hitchens against fellow author, satirist and evangelical theologian Douglas Wilson, as they go on the road to exchange blows over the question: “Is Christianity Good for the World?”. The two contrarians laugh, confide and argue, in public and in private, as they journey through three cities. And the film captures it all. The result is a magnetic conflict, a character-driven narrative that sparkles cinematically with a perfect match of arresting personalities and intellectual rivalry. COLLISION is directed by prolific independent filmmaker Darren Doane (Van Morrison: Astral Weeks Live at the Hollywood Bowl, The Battle For L.A., Godmoney).” – Official Web Site

Download: http://bit.ly/1f7iCUG (torrent).

CollisionHeader
OVERVIEW

In May 2007, leading atheist Christopher Hitchens and Christian apologist Douglas Wilson began to argue the topic “Is Christianity Good for the World?” in a series of written exchanges published in Christianity Today. The rowdy literary bout piqued the interest of filmmaker Darren Doane, who sought out Hitchens and Wilson to pitch the idea of making a film around the debate.

In Fall 2008, Doane and crew accompanied Hitchens and Wilson on an east coast tour to promote the book compiled from their written debate titled creatively enough, Is Christianity Good for the World?. “I loved the idea of putting one of the beltway’s most respected public intellectuals together with an ultra-conservative pastor from Idaho that looks like a lumberjack”, says Doane. “You couldn’t write two characters more contrary. What’s more real than a fight between two guys who are on complete opposite sides of the fence on the most divisive issue in the world? We were ready to make a movie about two intellectual warriors at the top of their game going one-on-one. I knew it would make an amazing film.”

In Christopher Hitchens, Doane found a celebrated prophet of atheism. Loud. Funny. Angry. Smart. Quick. An intimidating intellectual Goliath. Well-known for bullying and mocking believers into doubt and doubters into outright unbelief. In Douglas Wilson, Doane found the man who could provide a perfect intellectual, philosophical, and cinematic counterpoint to Hitchens’ position and style. A trained philosopher and and deft debater. Big, bearded, and jolly. A pastor, a contrarian, a humorist–an unintimidated outsider, impossible to bully, capable of calling Hitchens a puritan (over a beer).

It was a collision of lives.

What Doane didn’t expect was how much Hitchens and Wilson would have in common and the respectful bond the new friend/foes would build through the course of the book tour. “These guys ended up at the bar laughing, joking, drinking. There were so many things that they had in common”, according to Doane. “Opinions on history and politics. Literature and poetry. They agreed on so many things. Except on the existence of God.”

BIOS

CHRISTOPHER HITCHENS
Christopher Hitchens (b. April 13, 1949) is a popular political journalist and the author of several books, including “God Is Not Great: How Religion Poisons Everything”. Hitchens is regarded as one of the most fundamental figures of modern atheism. A regular contributor to Vanity Fair, The Atlantic Monthly and Slate, Hitchens also appears regularly on The Daily Show, Charlie Rose, Washington Journal, and Real Time with Bill Maher. He was named one of the US’s “25 Most Influential Liberals” by Forbes and one of the world’s “Top 100 Public Intellectuals” by Foreign Policy. Hitchens died in December, 2011.

DOUGLAS WILSON
Douglas Wilson (b. June 18, 1953) is a pastor of Christ Church, editor of Credenda/Agenda magazine, and a Senior Fellow at New Saint Andrews College. A prolific writer, he is the author of many books, including The Case for Classical Christian Education, Letter from a Christian Citizen, Reforming Marriage and Heaven Misplaced: Christ’s Kingdom on Earth. Wilson lives in Moscow, Idaho.

DARREN DOANE
Darren Doane is a Los Angeles-based independent filmmaker. Doane made his name as a music video director. His work for Blink-182, AFI, Jimmy Eat World and Pennywise is credited for helping bring punk rock into the mainstream in the 1990s. His previous documentary film, The Battle For LA, explored the underground battle rap scene in Los Angeles. Doane is currently in production on the documentary film To Be Born Again about legendary musician Van Morrison and has also written and directed several feature films, including Godmoney, 42K and Black Friday.

“IF YOU WANT TO BE AWE-INSPIRED…”

Das Trágicas Conseqüências do Auto-Engano – por Eduardo Giannetti

inquisição

auto engao

“O auto-engano na vida prática pode ser trágico. O fervor religioso, por exemplo, com frequência mobiliza aquilo que um homem tem de melhor e de mais elevado para colocá-lo a serviço do que há de pior e mais abominável. Da mesma fonte sincera de onde brota o sacrifício e a abnegação genuína pelo próximo parece nascer, também, a espantosa e atroz cegueira que santifica, aos olhos do crente, a brutal perseguição e extermínio do semelhante. Combinação análoga de grandeza e perversidade parece acompanhar, mutatis mutandis, os casos mais aberrantes de entusiasmo ideológico e fanatismo político. O grau de cegueira, nesses caos, é função direta da força do acreditar.

Um padrão de conduta recorrente nos tempos da Lisboa inquisitorial revela até que ponto pode chega o auto-engano do fanatismo religioso. As sentenças dos autos-de-fé continham uma cláusula pela qual os hereges que fizessem uma retratação convincente recebiam o “privilégio” de serem enforcados antes de serem lançados às chamas. Para o público devoto, contudo, tamanha indulgência era descabida. Tomados de uma fúria divina e de um sentido irreparável de justiça, os fiéis frequentemente atropelavam a decisão das autoridades, sequestravam o herege e garantiam a todos o espetáculo público e incomparável da queima do penitente em carne viva.

Haverá exemplo mais patético que este de como o prazer diabólico e inconfessável com o sofrimento alheio pode se fazer passar, na subjetividade do crente, pela mais piedosa e imaculada boa-fé? Não deixa de ser sombriamente irônico e perturbador que Himmler, o dirigente nazista responsável pela execução de ações criminosas em larga escala, como o programa de extermínio na Polônia, fosse conhecido por seus pares na alta cúpula nazista como “nosso Inácio de Loyola”.

O que dizer diante da monstruosidade insana de tais atrocidades? O melhor, talvez, seja lembrar sempre que a distância que nos separa da repetição de situações extremas de perseguição, opressão e crueldade pode ser menor do que gostaríamos de imaginar. Há um fio secreto ligando o auto-engano trágico de coletividades tomadas por imagens delirantes de justiça, regeneração e superioridade, de um lado, e o auto-engano pedestre e prosaico do cotidiano individual, de outro. Ambos parecem ter muito a ver com as inumeráveis parcialidades que afetam, em maior ou menor grau, as percepções que temos de nós mesmos e os juízos que fazemos sobre nossas motivações. O auto-engano coletivo em grande escala é a resultante trágica e grotesca de uma multidão de auto-enganos sincronizados entre si no plano individual.”  (Pg. 109-110)

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giannetti

“O que de fato surpreende na convivência humana é a frequência das situações em que o mal não só não é o fim diretamente perseguido, como também não aparece para o indivíduo que o perpetra como o mal que é. É o que constatamos, para ficar no terreno da história, nas espantosas atrocidades cometidas em nome da fé política, ideológica ou religiosa. “Filipe II e Isabel, a Católica”, já se disse com razão, “infligiram mais sofrimento obedecendo às suas consciências do que Nero e Domiciano obedecendo às suas taras.” (*) A boa consciência sincera de alguns dos maiores opressores e terroristas na história humana é  o mais enigmático e espantoso capítulo nos anais do auto-engano. Se o mal não viesse tantas vezes íntima e estranhamente ligado à visão do bem, parece razoável supor, a trama de nossas vidas em sociedade seria menos ambígua e perigosa, mas perderia também naquilo que a faz rica em mistério…” (p. 176)

(*) Isabel de Castela e seu marido, Fernando de Aragão, foram os principais arquitetos do estabelecimento da Inquisição espanhola no final do século XV e da política de perseguição racial – “limpieza de sangre” – que levou à expulsão de cerca de 165 mil judeus e 275 mil mouriscos da península Ibérica. O rei Filipe II, monarca absoluto do vasto e poderoso império espanhol na segunda metade do século XVI, notabilizou-se pela frieza e determinação implacáveis com que perseguiu seus objetivos, descartou aliados e eliminou inimigos – inclusive por meio de falsas acusações de heresia e cruel perseguição de não-católicos -, sempre justificando seus crimes e o irrestrito apoio à máquina burocrática da Inquisição com elaborados pretextos teológicos e razões de Estado do Reino de Deus. Marcado por um zelo irretocável e um temperamento ascético, Felipe II costumava passar horas a fio ajoelhado diante de santos e relíquias católicas.

EDUARDO GIANNETTI (1957- )
Auto-Engano
(Ed. Cia das Letras, 1997.)
Compre o livro: http://bit.ly/16qfPAK (R$ 24)

A Mulher À Sombra da Cruz – Reflexões sobre “A Feiticeira”, de Jules Michelet (1798-1874)

burn

“É certo que não havia bruxas, mas as terríveis consequências da fé nas bruxas foram as mesmas que se verificariam se tivesse havido bruxas…” 

FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)
Humano, Demasiado Humano
– Um Livro Para Espíritos Livres,
 Vol. II


I. “A CARNE É IMPURA!” – RETRATO DA NEUROSE PURITANA E SEUS MALEFÍCIOS

Quanto mais nos informamos sobre como as mulheres foram tratadas através da História pelas grandes religiões institucionalizadas, mais se torna impossível falar sobre o assunto “sem que a pena gema de indignação”, escreve Jules Michelet (pg. 92).

O grande historiador francês tenta realizar em A Feiticeira, uma de suas obras-primas, a análise da condição feminina na Cristandade medieval, em especial a situação daquelas que eram estigmatizadas como bruxas ou feiticeiras, para em seguida serem encerradas em conventos, enterradas vivas em claustros ou queimadas vivas nas fogueiras.

Jules Michelet (1798-1874), historiador francês

Jules Michelet (1798-1874), historiador francês

“Por uma perversão de idéias monstruosa, a Idade Média via a carne como impura”, escreve Michelet em sua análise dos séculos ditos “das trevas” (pg. 109). Que o cristianismo tenha lançado o anátema sobre o corpo ajuda a explicar porque entraram para a História aqueles séculos medievais com fama de sombrios, tenebrosos e des-iluminados. A Humanidade, por um milênio afundada no breu dos dogmas, sob o jugo pesado de monarquias teocráticas e papados tirânicos, só voltaria a ensaiar auroras no Renascimento e no Iluminismo.

Nietzsche, dentre muitos outros, mostrou muito bem os males do fanatismo religioso quando este parte ao ataque contra o corpo: não se ataca o corpo sem atacar a vida na raiz, eis o ponto! Pois o corpo, único possível hospedeiro da vida, é a condição sine qua non da vitalidade. Não há vida senão corpórea. E a carne vivente, que carrega em seu seio o fogo vital do desejo, apta a todas as deleitosas sensações provindas das conexões e dos acarinhamentos entre os corpos, foi rotulada por fanáticos espiritualistas como pecaminosa, impura, condenável.

A moralidade puritana e o ideal ascético, na análise de Nietzsche, baseiam-se na ilusão de que um espírito imortal nos habitaria. Motivados por este delírio, alguns fanáticos perpetram atentados contra os corpos vivos; tornam as pulsões naturais e os instintos eróticos inatos algo que merece a vergonha, a pudicícia e a repressão; dão veneno a Eros e Afrodite e só recomendam o amor a Deus e aos espíritos…

Os teólogos criaram raciocínios enfadonhos de tão mirabolantes para nos provar que devíamos massacrar nossa própria carne, reduzi-la ao silêncio, deixá-la passar fome em suas vontades: “Mas a grande revolução que as feiticeiras fizeram, o maior passo às avessas contra o espírito da Idade Média”, escreve Michelet, “é o que podemos chamar de a reabilitação do ventre e das funções digestivas” (p. 108). Ou seja, foram justamente estas mulheres que quiseram reabilitar o corpo, retirá-lo do opróbrio em que a Cristandade o tinha lançado.

As feiticeiras representam, para Michelet, mulheres que superaram o pavor pelo mundo físico que era disseminado pelos pregadores cristãos e “professavam, com ousadia: ‘Nada é impuro e nada é imundo’. O estudo da matéria tornou-se a partir de então ilimitado, franqueado. A medicina tornou-se possível. (…) Tudo que é físico é puro; nada pode ser afastado do olhar e do estudo, proibido por um vão espiritualismo, menos ainda por um nojo tolo.” (pg. 109)

Que diferença marcante há entre a atitude materialista e fisicalista destas mulheres, por um lado, e o que dava o tom na Cristandade da Idade Média! Pois o cristianismo era uma doutrina radicalmente anti-corporal ou anti-física, no sentido de que “segundo ele, não só o espírito é nobre e o corpo não-nobre, como há partes do corpo que são nobres e outras, ao que parece, plebeias.” (p. 109) Este privilégio que se oferece a um suposto espírito incorpóreo não se efetiva senão sob a condição de oprimir a carne.

A tirania do incorpóreo sobre o corpo é uma das marcas destes séculos durante os quais, nos países cristãos, as mulheres eram obrigadas a se adequar a um modelo de feminilidade baseado na Virgem Maria. Deviam considerar tudo aquilo relacionado com a carne, todos os anseios sexuais, todos os deleites sensoriais, o domínio inteiro da sensualidade, como impuro, imundo e pecaminoso, tornando-se “humildes mártires do pudor” (p. 109).

Além do mais, eram convidadas a acreditar na ideia absurda de que uma mulher podia ser “escolhida” por Papai-do-Céu para nutrir em seu ventre um messias que nasceria sem necessidade daquilo que é a condição sine qua non de toda geração de vida humana: a relação sexual. Felizmente, este pesado jugo que a Cristandade impõe às mulheres não se realiza sem rebeldia e resistência de uma fração de suas vítimas: justamente muitas destas mulheres que foram condenadas a serem queimadas vivas nas fogueiras da Inquisição, por exemplo, e que “faziam tudo às avessas, ao contrário do mundo sagrado” (pg. 110).

Ora, se a moralidade judaico-cristã, devido a este anátema lançado contra o corpo e as realidades terrenas, representa um ataque ao próprio prosperar fisiológico da humanidade, não é de se questionar até que ponto o cristianismo é “necessário” e até que ponto é danoso? E não é a filosofia de Nietzsche um esforço no sentido de averiguar as consequências de termos sido cristãos por dois milênios? Será o cristianismo tão imprescindível quanto querem nos fazer crer seus padres, teólogos e pastores? Ou será que a efetivação de potencialidades humanas ainda inexploradas depende da superação do cristianismo? Não será preciso deixa-lo para trás como algo que caducou na História e lançar nossos navios para outros mares, em que a opressão e o genocídio das minorias discordantes não seja tamanha, e em que a carne seja menos oprimida, proibida, reprimida e escorraçada?

Ao menos a História registra amplos movimentos contrários à imposição de uma moralidade puritana e condenatória do corpo, sendo Nietzsche um de seus representantes mais eloquentes na filosofia. Como nos lembra Michelet sobre a história da Idade Média, o fato do cristianismo ser “dominante” nas instituições políticas, reinando sobre as populações em seu poderio teocrático-monárquico, não impediu que irrompessem do próprio seio das massas “imensas festas populares”, os sabás, que tornam-se historicamente significativos a partir do século XIV (um estudo  pormenorizado do Sabá pode ser encontrado no livro do historiador Carlo Ginzburg, História Noturna).

Nestas ocasiões “sabáticas”, para descansarem da fatiga torturante que é estar sob a sombra do Crucificado, as pessoas deixavam Dioniso à solta, invocavam Baco e outros deuses da embriaguez, cometiam as mais impudicas das buscas orgiásticas por êxtases da carne… E haviam mulheres numerosas na Idade Média que se mostravam desejosas de participar deste processo, ajudar em sua realização, não só participando das festas, das danças e das orgias, mas inclusive preparando os ancestrais do chá de ayahuasca e do LSD. Pois desde tempos remotos da história humana ansiava-se por substâncias inebriantes, que despertam aquela aptidão humana para o “Sim!” cheio de júbilo, estupefacientes possibilitadores de comunhões com os outros e com o mundo físico que nos circunda e nos contêm.

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II. POÇÕES MÁGICAS E OUTROS ABENÇOADOS E PERIGOSOS PHÁRMAKOS

feliz dia so sexo

A mulher rotulada pelas autoridades da Cristandade como feiticeira é, na perspectiva de muita gente do povo, vista como dotada de imenso poder. É venerada por suas capacidades de criar remédios abençoados, de soníferos a estupefacientes, de filtros-do-amor (afrodisíacos) a cogumelos mágicos… A mulher rotulada “feiticeira”, suspeita de ter relações ilícitas com os poderes satânicos e as forças das trevas, é sabida em “poções mágicas”.

Não só os doentes, os necessitados, mas aqueles que se sentem com vocações xamânicas procuram a elas, feiticeiras, a fim de degustarem de seus sedutores e perigosos fármacos. Um jovenzinho apaixonado desta época, caso tivesse sido flechado por Cupido ou tentado por Eros, “pagaria qualquer preço pela beberagem ardente capaz de perturbar o coração de uma grande dama, fazê-la esquecer as distâncias e lançar os olhos sobre ele.” (pg. 114).

Muitos sabiam que a Igreja, interditando os amores físicos, lançando sobre o sexo o anátema, só permitindo-o para fins de procriação de outros cristãos, acabava por cometer um atentado contra o amor em geral, o amor ele-mesmo. Alguns sentiam que não havia amor que não fosse físico, e que mesmo o amor à mente ou ao caráter do outro era sempre o amor a algo que está indissoluvelmente conectado ao corpo do outro. E que portanto só há amor de corpos amando corpos. O mais platônico dos amores ancora-se também no corpo; e é sempre um corpo que fantasia sobre o “espírito” do outro…

O casamento, segundo a dogmática católica, deveria ser um laço sagrado que une “até que a morte nos separe”, quase uma condenação a uma co-presença vitalícia, algo que, como lembra Michelet, não agradava a muitos homens e mulheres. Na Idade Média, as “feiticeiras” também são as mulheres incapazes de se conformarem ao ideal de feminilidade que lhes era imposto. Mandavam-nas ser “castas”, “puras”, “humildes”, “pacientes”, que agissem como vassalas respeitosas e obedientes de seus maridos, honrando o senhor da casa cá embaixo e o Senhor dos céus lá em cima.  E quem destoasse deste coro dos contentes era apedrejada como a Geni do Chico, ou torpedeada com torpes designações como “bruxa” ou “vadia”, ou posta pra arder por ordem dos “bons e dos justos”.

Através de toda a Cristandade, descrita com tintas sinistras por Michelet, a mulher aparece reduzida a um animal doméstico que o homem possui até a morte. Seja como for, circulou pela Idade Média a tese de que “não há amor possível entre esposos” – de modo que os sabás, onde dava pra pular a cerca rumo a orgias e festas bastante pagãs, foram amplamente frequentados.

Nesta sociedade monárquica e calcada na teologia, os reis e o clero, sentados em seus tronos ornados a ouro, dentro de seus castelos-fortaleza, tendo sob seu comando exércitos com alto potencial mortífero, são o topo da pirâmide social.  De lá faziam descer, pirâmide abaixo, a doutrina que exigia dos súditos a “obediência ao Senhor” – aquele que supostamente habita nos céus – mas igualmente a seus auto-proclamados representantes na Terra. Já os pobres camponeses, desprovidos de terra própria, obrigados a acatar a tirania dos latifundiários, “raspavam os pratos que os personagens de cima, sentados junto ao fogo, lhes enviavam muitas vezes vazios.” (p. 115)

Há, portanto, o equivalente a uma “luta de classes” neste quadro pintado por Michelet sobre a história medieval: de um lado, uma elite cujo poder se baseia numa teocracia latifundiária e que diz ser a servidora de Deus na Terra; de outro, uma massa de camponeses reduzidos à servidão e à miséria, mas com ânsias de melhorarem de vida e em revolta contra “a injustiça da sorte”. Em uma estrutura social radicalmente tão hierarquizada e nada igualitária, há uma fração das mulheres que se engaja num estilo de vida em que fazem tudo “às avessas do sagrado”.

Se a Igreja diz que sagrado é ser casto e mortificar todos os tesões, a feiticeira irá preparar beberagens afrodisíacas que tornam irresistíveis os chamados eróticos. Se a Igreja rotula como sagrado apenas o amor espiritual, a prática taciturna dos deveres e a contemplação dos ideais, a feiticeira será profundamente conhecedora do corpo, exploradora dos potenciais da carne, tornando-se íntima do mundo físico que a Igreja desdenha como profano. Enquanto a Igreja só permitia a embriaguez se fosse na contemplação da ideia de Deus, as feiticeiras faziam experiências amplas com a phýsis e criavam uma farmacopeia de excitantes, estimulantes e inebriantes. Num tempo sem drogarias, eram elas as farmácias ambulantes, sabedoras de receitas, capazes de aconselhar sobre ingredientes. Enfim: médicas xamânicas, proto-cientistas e dealers psicodélicas.

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Pintura de Francisco Goya,

Pintura de Francisco Goya, “O Sabá das Bruxas”

III. TUDO ÀS AVESSAS DO SAGRADO

No século de Dante, pois, explodem como fenômeno histórico os sabás e as missas negras, estes carnavais dos servos onde com frequência nascia uma revolta. Nestes sabás as pessoas davam livre curso aos ritos proibidos na Cristandade e veneravam, por exemplo, a Lua, tida como influência determinante nos destinos humanos. Velhas danças pagãs eram exercitadas até o frenesi. Servos unidos em rebeldia solidária, num sabá francês, compunham canções precursoras da Marselhesa, como esta registrada por Michelet:

Nous sommes hommes comme ils sont!
 Tout aussi grand coeur nous avons!
Tout autant souffrir nous pouvons!”

(“Somos tão homens quanto eles!
Temos o mesmo grande coração!
Tanto quanto eles podemos sofrer!”).

Se os sabás e missas negras eram tão mau-vistos e tão perseguidos pelo clero e pelos reis, era pois ali germinavam as sementes da discórdia e os planos de revolução: “o povo, educado pelo próprio clero na crença e na fé do milagre, bem longe de imaginar a fixidez das leis de Deus, durante séculos havia esperado um milagre, e ele nunca viera. Em vão clamava por ele no dia desesperado de sua necessidade suprema. A partir de então, o céu lhe pareceu como que o aliado de seus carrascos ferozes, ele mesmo um feroz carrasco. Por isso a Missa Negra e a Jacquerie” (pg. 123).

A Jacquerie, ou revolta dos Jacques, foi uma insurreição camponesa que teve lugar no Norte de França, entre 28 de maio e 9 de julho de 1358, durante a Guerra dos Cem Anos. Wikipedia.

Aqueles que, nesta sociedade, estão reduzidos à servidão e portanto à miséria, estes pobres camponeses cujas existências parecem “um inferno em vida” (pg. 14), são também aqueles que lotam os sabás, que chegavam a reunir de 5 mil a 12 mil pessoas, dependendo do povoado. Nestas “imensas assembleias” se tornava explícito a fraqueza dos dogmas propagados pela Igreja: “Grande e terrível revelação da pouca influência moral que tinha a Igreja, que acreditava que com seu latim, sua metafísica bizantina, que ela mesma mal entendia, estava cristianizando o povo; no único momento em que ele se libertava, em que podia mostrar o que era, mostrava-se mais que pagão.” (p. 17)

Os sabás e as missas negras seriam, pois, como algo que emerge espontaneamente no seio do povo, que sentia necessidade de escapar da tirania teocrática e cultuar dionisiacamente, “pagãmente”, deuses malquistos pelos monoteístas. Cultos proscritos e condenados – xamanismos, dionisismos, cultos à natureza, celebrações orgíacas e extáticas da existência… – recebiam então direito de cidadania. O carnavalesco sabá é uma festa de libertação provisória em relação à asfixiante dogmática ascética, condenatória dos prazeres e da sensibilidade, que então imperava na Cristandade.

Um exemplo indignante destes tempos, fétido costume e imundo direito, é exposto em detalhes por Michelet: na Cristandade europeia da Idade Média, por volta do século XII, numa sociedade cindida entre uma massa de servos empobrecidos e uma nobreza tirânica e teocêntrica que se isolava em seus castelos, considerava-se as mulheres camponesas (que constituíam, afinal de contas, a massa!) como “servas de corpo” . Ou seja, as moças, quando se casavam, não tinham o direito de uma noite de núpcias com o novo esposo, mas eram obrigadas a fazer o dom de sua virgindade ao senhor. Os senhores da terra impunham, com seu poder terreno, o privilégio de desvirginamento das camponesas sob seu jugo.

Lembremos que, nesta época, o teológico e o político estão intimamente conectados e imbricados: o senhor é, com frequência, ao mesmo tempo um eclesiástico e um leigo; nele se reúne a autoridade religiosa e a política. Estes homens, que se auto-proclamam os representantes de Deus na Terra, na realidade não conseguem viver em devoto retiro espiritual: acabam criando e conservando instituições e costumes falocráticos de opressão. Por exemplo: Michelet conta a história de um certo pároco de Bourges que, “sendo o senhor, exigia expressamente as primícias da esposa, mas de fato o que queria era vender ao marido, por dinheiro, a virgindade de sua mulher.” (pg. 70)

Revoltante dízimo exigido por um padre que, desejoso de riqueza, suborna um pobre camponês miserável! No geral, porém, o “preço” que estes párocos-senhores cobravam para não fazer uso de seu privilégio de desvirginamento eram tão exorbitantes que o pagamento beirava o impossível, de modo que a pobre mulher camponesa da Cristandade medieval era coagida, no dia de seu casamento, a deixar-se estuprar por aqueles que estavam mais alto na hierarquia social. “Todos os costumes feudais impõem à mulher subir ao castelo, levar até lá o ‘prato de casamento’…” (pg. 70)

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las nietas

IV. A NOÇÃO FALOCÊNTRICA DE DEUS

A expressão “Deus-Pai” já diz muito: a divindade da tradição judaico-cristã é claramente masculina e não é incomum que seja representada como um velhinho de barbas brancas sentado sobre as nuvens, que criou Eva a partir de uma reles costela, e que tem tendências fortemente homofóbicas, às vezes se enfurecendo com a sodomia e a homossexualidade (que pune com bolas-de-fogo genocidas).

 Ora, não é de se suspeitar que um deus caralhudo, viril e cheio de hombridade como o velho Jeová tenha sido inventado por gente caralhada, viril e cheia de hombridade? Deixo no ar a provocação, para que os teólogos (se ainda existirem…) se virem com ela, ou me condenem às fogueiras (que, ainda bem, estão em extinção!). O que me parece evidente neste personagem literário que encontramos nos escritos ditos “sagrados” do judaísmo e do cristianismo é que se trata de um deus macho-man – e que grande parte da desgraça e da opressão que despencou sobre as mulheres na história vem da idolatria de uma tal deidade pintuda, misógina, machistóide.

O que pensar de um deus que age usando como meios de punição os dilúvios e as bolas de fogo? De um deus que criou um imenso campo-de-torturas chamado Inferno para desgraçar eternamente seus desafetos? De um deus que tem seus acessos de fúria e vingança de uma agressividade tamanha que nos leva a pensar num tirano com direitos absolutos? Um deus com muitos colhões, esse que ordena que um anjo destrua Sodoma e Gomorra!  Se a explicação tradicional para este massacre genocida, ordenado por um deus que dizem bom e generoso, é que as cidades mereceram tal hecatombe, por estarem repletas de pecadores, resta-nos frisar que há uma explicação bem mais plausível: homens profundamente homofóbicos e cheios de pudicícia neurótica inventaram uma mitologia que se adequava a eles como uma luva… Ou seja, fabricaram a noção de uma divindade que pune os “sodomitas”, os “libertinos”, as “feiticeiras”…

A desgraça é que estes homens, criadores destas sórdidas mitologias, não deixaram ao deus que idolatravam que cuidasse Ele de realizar o serviço: como “servidores de Deus na Terra”, decidiram dar aos que taxaram de pecadores um antegosto das punições que prometiam a eles para o inferno. Quantos milhares e milhares de pessoas não foram concretamente punidos, vítimas de danos materiais, nesta Terra e nesta vida, quantos não foram assados vivos ou afogados, por homens-de-fé megalomaníacos e cruéis, puritanos com fobia da diferença, cruéis de batina movidos por uma vontade de extermínio de toda e qualquer alteridade que desvie dos dogmas!

Este procedimento teológico falocêntrico se torna ainda mais explícito quando atentamos para os outros dois integrantes do “triângulo sagrado” da Cristandade, o tal do Filho e o tal do Espírito Santo. Que religião diferente não teria surgido com uma tríade mais feminil e primaveril, com uma Deusa-Mãe, uma Filha e uma Espírita Santa! Que cultura e que civilização imensamente outras não nascem quando o culto dominante é de Ísis, Deméter ou Gaia!

Infelizmente, como se sabe, a História registra uma predominância opressiva dos homens nas hierarquias das instituições religiosas e os próprios dogmas, em sua maioria inventados e escritos por sujeitos machistas e misóginos, revelam a opressão de gênero: na mitologia bíblica, Deus-Pai cria Adão à sua imagem e semelhança; já Eva, não passa de um mero subproduto, nascida de uma reles costela, e acaba depois, por sua incapacidade feminil de resistir à tentação do fruto proibido, desgraçando-nos e lançando-nos fora do Éden. A Bíblia, em suma, faz de Eva um subproduto secundário e pecador, um ser indigno de confiança e merecedor de punição…

Decerto que os cristãos idolatram também a Virgem Maria, mas também aí, neste ideal feminino, manifesta-se um preconceito milenar: a mulher valorosa é casta, pudica, dócil, assexuada. Isso não impedia, como nos lembra Michelet, em suas preleções sobre a Cristandade na Idade Média, que os conventos femininos frequentemente estivessem repletos de grávidas (p. 68) – obra dos monges e outros homens-de-fé, que idolatravam em teoria e no imaginário a virgindade de Maria, enquanto na realidade não resistiam ao estupro das freiras.

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Cena de

Cena de “A Paixão de Joana D’Arc”, de Carl Theodor Dreyer

V. O ÚNICO MÉDICO DO POVO, POR MIL ANOS, FOI A FEITICEIRA

“Ao ler as belíssimas obras escritas em nossos dias sobre a história das ciências, uma coisa me espanta: parecem acreditar que tudo foi descoberto pelos doutores, aqueles semi-escolásticos, que a cada instante ficavam enredados em suas togas e dogmas, nos deploráveis hábitos de espírito que a Escola lhes incutia. E aquelas que andavam livres dessas cadeias, as feiticeiras, não teriam descoberto nada? Seria inverossímil. No pouco que se conhece das receitas das feiticeiras, há um bom senso singular…” – JULES MICHELET, A Feiticeira, pg. 15

Muitas mulheres, através da História, foram vítimas de uma morte pavorosa após terem sido condenadas como “feiticeiras”. Normalmente, aqueles que as condenaram eram homens unidos em gangues – ainda que eles prefiram colocar isso em outros termos: são sacerdotes trajando batinas e fazendo o trabalho que Deus mandou… São todas masculinas as faces dos juízes que condenam Joana D’Arc, como se vê na clássica adaptação cinematográfica de Carl Theodor Dreyer. Dentre os muitos méritos da obra de Michelet dedicada à esta “classe infortunada” das mulheres ditas feiticeiras, está uma reconsideração do valor histórico destas, por exemplo quanto ao papel que desempenharam na evolução das ciências. Não seria crível pensar que estas mulheres, que experimentavam novas receitas, que buscavam criar novos filtros, em seu intenso intercâmbio com os vegetais e com a Natureza circundante, tenham contribuído – e muito! – no desenvolvimento da medicina e da farmacologia?

Na Idade Média assolada pelas epidemias – por volta de 1350, a peste negra devasta o globo conhecido e “mata um terço do mundo” (p. 14) – estas mulheres, que viveram em tempos onde não existiam hospitais nem farmácias, ousaram praticar medicinas – ou ao menos tentativas de cura – que muitas vezes levaram à sua condenação. Os homens que as condenaram, porém, nem sempre eram sábios ou peritos em ciência, muito menos médicos confiáveis. Conta Agrippa em De Occulta Philosophia sobre algumas “tolas receitas dos grandes doutores do século XIV”, convencidos dos “efeitos maravilhosos da urina de mula” (!).

Ora, as terríveis epidemias daqueles tempos ceifavam dezenas de milhares de vida: do século XIII ao XV, os flagelos horrorosos se sucedem – a lepra, a epilepsia, a sífilis. O que a Cristandade tinha a oferecer como antídoto? “Salvo o médico árabe ou judeu, pago a peso de ouro pelos reis, a medicina se exercia apenas na porta das igrejas, junto à pia de água benta.” (pg. 102) Pior que isso: as autoridades teológico-políticas da época não incentivavam de modo algum a pesquisa científica, a busca racional e empírica por remédios eficazes para combater estes tão grandes males.

Um terrível dogma cristão ordenava que se considerasse todo doente como um pecador: se ele tinha adoecido, devia receber sua doença como um “castigo de Deus”. As próprias epidemias eram vistas como uma resposta da fúria divina que caía sobre os homens por sua pouca obediência ou sua escassa fé. A Igreja só sabia recomendar a reza, o remorso e a resignação. A Igreja, ao invés de se engajar na busca por remédios, convidava os doentes a aceitarem sua sina, arrependerem-se de seus pecados e assim ingressarem na Vida Eterna com a alma purgada. Por séculos, tais dogmas foram uma imensa trava que impediu o progresso da ciência e da medicina e manteve um nível estratosférico de mortandade.

Mas ainda bem que nem todos são tão obedientes a sim aos “mandamentos de Deus”! A medicina era praticada por alguns judeus e árabes – e o próprio Avicena, árabe do século XIII, relata o uso intenso de “especiarias picantes trazidas do Oriente” e “bebidas fermentadas” que eram utilizadas – muitos séculos antes do Viagra! – como “estimulantes com que então se buscava despertar e reanimar as incapacidades do amor.” (pg. 104) Mas a autêntica medicina popular era praticada de fato pelas mulheres, pelas “sibilas”, aquelas que as autoridades se deleitavam em rotular “feiticeiras”. Numa época de calamidade, de grave crise de saúde pública, quando eclesiásticos imbecis pregavam o dogma pernicioso da doença como “castigo de Deus” , “transgrediram-se as proibições; desertou-se a velha medicina sagrada e a inútil pia de água benta. Buscou-se a feiticeira.” (p. 104)

Estas mulheres, maravilhosamente transgressoras, iam buscar no seio da Natureza os elementos para seus remédios: “empregavam muito, para os mais diversos usos – para acalmar, para estimular -, uma grande família de plantas equívocas, muito perigosas, que prestaram grandes serviços. Chamam-nas, com razão de as consoladoras.” (p.106) Além de excelentes parteiras, estas mulheres tinham a audácia de misturar ingredientes no fabrico de poções. Através de um insistente processo de tentativa-e-erro, e por transmissão oral dos conhecimentos adquiridos, puderam chegar a precisar as doses: certas poções são venenos se tomadas em excesso, mas bálsamos se ingeridos na dose ótima. Estas médicas e enfermeiras, vivendo em um mundo entrevado nas densas trevas da Cristandade medieval, eram muito mau-vistas por muitos que temiam seus poderes: “Uma multidão cega, cruel na medida de seu medo, podia, uma manhã, ataca-la a pedradas ou submetê-la à prova da água, o afogamento. Ou enfim, coisa mais terrível, podia arrastá-la, uma corda amarrada no pescoço, até o pátio da igreja, que disso teria feito uma festa piedosa, lançando-a à fogueira para a edificação do povo.” (pg. 107)

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Não terão sido estas mulheres essenciais, com seus experimentos químicos, com os encantamentos que visavam produzir nas cozinhas farmacológicas ancestrais, no sentido de descobrir substâncias benéficas para os humanos? E, no entanto, quanta perseguição sobre elas por parte de homens doutos, carregados de togas e dogmas! No brilhante filme de Alejandro Amenábar, Ágora (lançado no Brasil com o título Alexandria), acompanhamos a recriação de um episódio histórico bem simbólico disto: a astróloga e cientista Hypathia, que chegou a uma cosmovisão heliocêntrica mais de um milênio antes de Galileu e Copérnico, vê suas descobertas e obras destroçarem sob o impacto do fanatismo religioso que levou aqueles homens – de novo, do sexo masculino, em sua maioria – a reduzirem a cinzas a majestosa Biblioteca de Alexandria.

Michelet é pródigo em exemplos para ilustrar o quanto a mulher foi oprimida durante a Idade Média cristã: “Na Idade Média, a mulher é esmagada de três lados. A Igreja a mantém no nível mais baixo (ela é Eva e o próprio pecado); em casa, é surrada; no sabá, imolada. (…) Mas é perigoso tornar tão desgraçada uma criatura. Sob essa saraivada de dores, o que não é dor, o que é doçura e ternura, pode transformar-se em frenesi. Eis o horror da Idade Média.” (pg. 18)  Os homens-de-fé, doutos com o nariz afundado nos livros, deleitavam-se em inventar argumentos machistas, denigridores das mulheres, e tentam justificar que se devem queimar as Joanas D’Arc deste mundo e que isto não só agrada ao Senhor como foi ordenado por Ele! Sprenger exemplifica uma das ideologias de que sacerdotes e monges apreciavam ser os partidários: “Fe-mina vem de fé minus; a mulher tem menos fé que o homem.” Diante de ideias semelhantes, Michelet não pode conter seu asco: “Que fecundidade de burrices!” (pg. 19)

Para reabilitar estas mulheres ousadas, tão cruciais no desenvolvimento da medicina, Michelet escreve: “O único médico do povo, durante mil anos, foi a feiticeira. (…) A sua planta favorita, a beladona, foi um antídoto dos grandes flagelos da Idade Média. (…) O grande médico do Renascimento, Paracelso, em 1527 queimou toda as obras de medicina (Galeno, Avicena e Rhazès) e declarou saber apenas o que aprendera das feiticeiras.” (p. 31)

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VI. FUROR MISÓGINO E VIOLÊNCIA SAGRADA

A acusação de feitiçaria recai quase sempre sobre as mulheres culpáveis de idolatrar falsos deuses, ou seja, entrarem em relações com demônios. A mulher mais devota, se acreditasse em duendes e fadas, estava madura para a perdição. “Que mulher seria inocente? Ao se deitar, antes de sua oração à Virgem, deixava leite para seu duende. A moça, a boa mulher, acendia de noite um foguinho para consolo das fadas e oferecia de dia um buquê para a santa.” (p. 22)

Por estes “crimes”, estas mulheres são condenadas pelos homens de batinas negras a serem queimadas vivas nas fogueiras dos inquisidores; ou então emparedadas e lacradas em minúsculas celas onde deitam-se sobre os próprios excrementos; ou são enfiadas em ossuários e se deitam sobre os ossos dos mortos; ou têm a testa marcada com uma cruz escarlate e tornam-se objeto de zombaria geral, tendo que dirigir-se todos os domingos à missa para se deixarem açoitar por um homem-de-Deus… Na Idade Média cristã, a mulher rotulada de feiticeira (e eram tantas!) “é caçada como um animal selvagem, perseguida nas encruzilhadas, aviltada, empurrada, apedrejada, forçada a sentar-se sobre carvões em brasa!… O clero não tem fogueiras, o povo não tem injúrias, a criança não tem pedras que bastem contra a desgraçada… À palavra feiticeira, vemos as velhas hediondas de Macbeth. Mas os processos revelam o contrário. Muitas morreram precisamente por serem jovens e belas.” (p. 30)

Este furor anti-feminino se explica, segundo Michelet, pois estas mulheres tem “por ajudante e irmã a natureza” e “nela começa a suprema perícia que cura e refaz o homem” (p. 30). Ao invés de confiar no poder da reza, muitas mulheres preferiam confiar nas flores do campo; diante da impotência do terço ou do rogo diante de doenças e epidemias, achavam mais sensato procurar na mata, na imensa diversidade das plantas, das folhas, dos frutos, dos cogumelos, aquilo que pudesse servir para curar.

O conflito com a Igreja, instituição exclusiva para homens e impregnada de misoginia, deve-se também aos dogmas nutridos por estes monges cretinos e inquisidores brutais: “a Igreja rejeitou a natureza, como impura e suspeita… A Igreja, que vê na vida apenas uma provação, evita prolonga-la. Sua medicina é a resignação, a espera e a esperança da morte.” (pg. 36) A realidade terrena, que a Igreja recobre com suas injúrias, acaba se tornando, sob a perspectiva dos beatos, no palco de Satã, que não à toa é cognominado de “Príncipe do Mundo”.

Todo gozo, todo riso e toda razão livre recebem o anátema dos asseclas do Deus-dos-Céus – “era dar de mão beijada a Satã um papel esplêndido, o monopólio do riso, e proclamá-lo divertido. Digamos mais: necessário. Pois o riso é uma função essencial de nossa natureza. Como suportar a vida se não podemos pelo menos rir, em meio às nossas dores?” (pg. 36) Tema nietzschiano! Pois também Zaratustra faz a apologia do riso – e da dança! – e recusa, em seu dionisismo, as lamúrias infindáveis daqueles que, na trilha do Crucificado, querem acreditar que o mundo não passa de um Vale de Lágrimas que merece ser negado por inteiro.

Proscritas e condenadas por praticarem os rudimentos do que se tornaria a ciência médica e farmacológica, estas mulheres ousadas descobriram um novo mundo ao transgredirem os dogmas da Igreja. Quando criavam remédios novos a partir de misturas impudicas de elementos naturais, ou quando levavam um corpo do cemitério para analisá-lo por dentro, foram salutares mãos atrevidas que se tornaram predecessoras da cirurgia e da anatomia – que tantos milhões de vidas ajudariam a salvar! Porém, o status quo eclesiástico as enxerga com péssimos olhos e “declara, no século XIV, que se a mulher ousar tratar, sem ter estudado, é feiticeira e morrerá.” (p. 38) Ora, todos os acessos às escolas estavam vedados às mulheres médicas, proscritas dos espaços onde os doutos-com-falos se faziam de eruditos. A medicina feminina, por mais eficaz que se mostrasse, era associada a transações suspeitas com Satã – e “a feiticeira urrando e assando, que alegria para a gentil juventude dos fradinhos e capuchinhos!” (p. 38)

Para recuperar a frase de Nietzsche citada na epígrafe, lembremos: nunca existiram de fato as bruxas, mas as consequências da fé nas bruxas foram absolutamente terríveis, como foram também as consequências da fé no Capeta e no Inferno. Deixar de crer nestas fantasias criadas pelos fanáticos – Bruxas, Satanás, Inferno… – já é dar passos largos na superação da Superstição, esta força das trevas que tantos oceanos de sangue, através da História, fez derramar.

A Cristandade, ao crer no Diabo, realizou atos de um diabolismo e de uma brutalidade que deveriam chocar a Deus, se Ele existisse. Mas o que seria do cristianismo sem a fé em Satã, sem o formidável auxílio que ele traz no sentido de explicar o Mal que se encontra espalhado por toda a Criação? Que Satã exista é algo salutar para um cristão desejoso de livrar seu Deus de toda culpa! Donde esta provocação de Michelet, com a qual terminamos este passeio tenebroso pela medievalidade:

“Não seria Satã um ator necessário, uma peça indispensável da grande máquina religiosa, hoje um tanto avariada? (…) O Diabo é nada menos que um dogma, que se liga a todos os outros. Tocar no eterno vencido não será tocar no vencedor? Duvidar dos atos do primeiro leva a duvidar dos atos do segundo, dos milagres que fez precisamente para combater o Diabo. As colunas do Céu têm os pés no abismo. O desatinado que abala essa base infernal pode provocar rachaduras no Paraíso…” (p. 38)


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Eduardo Carli de Moraes
Contato: educmoraes@hotmail.com