CERRADO VIVO OU BARBÁRIE – O cinema como arma de conscientização em massa. Sobre “Ser Tão Velho Cerrado”, de André D’Élia.

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ARMA DE CONSCIENTIZAÇÃO EM MASSA
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Não é catastrofismo delirante, é puro senso de realidade e atenção aos fatos empíricos: o Cerrado e toda sua estonteante diversidade está indo pro ralo, e nós com ele.

No país que é líder global no uso de agrotóxicos, onde cada cidadão consome 5 litros de veneno ao ano, estamos trucidando biodiversidade para substituí-la por monoculturas focadas no mercado estrangeiro. Estamos deixando áreas de preservação ambiental serem invadidas pelos interesses de mineradoras, empreiteiras e hidrelétricas. Estamos testemunhando incêndios criminosos que alastram um fogo destruidor como represália pela expansão de Parques devotados ao ecoturismo e à ampliação da consciência ambiental.

Estamos diante de uma alternativa similar à proposta por Rosa Luxemburgo (e Castoriadis) entre socialismo ou barbárieou mantemos o Cerrado vivo, ou tempos muito bárbaros virão, com água escassa, solos desérticos, migrações em massa, climate wars…

Um exemplo é a estrada que liga Brasília à Chapada dos Veadeiros: ela está tomada pelos mega-empreendimentos do agronegócio, e esses fazendeiros endinheirados são especialistas em ecocídio.

O extermínio da vida original do território é muitas vezes um crime sem volta, uma dilapidação de um bem que deveria, caso não fôssemos tão irresponsáveis, ser legado aos que ainda não nasceram (são preceitos básicos daquele livro de filosofia ainda tão pouco estudado, compreendido e praticado por nós: O Princípio Responsabilidade de Hans Jonas).

A riqueza inestimável da fauna e flora do Cerrado brasileiro é sacrificada para que possamos vender soja transgênica que alimentará porcos e vacas na China. Bichos escravos da indústria da carne (assistam Meat the Truth, Cowspiracy Earthlings), ainda necessitados daquela Libertação Animal de que fala o filósofo Peter Singer, animais cujas existências repletas de horror, sofrimento e agonia são tratados como commodities, produtos a serem consumida pelas centenas de milhões de carnívoros do planeta (enquanto isso, o vegetarianismo segue menos disseminado do que precisaríamos para salvar o planeta das hecatombes que já não podemos evitar).

Os lordes do agrobiz, especialistas em desmatamento, mestres da cegueira imediatista, fascinados com lucros a curto prazo mas desatentos em relação às necessidades de futuras gerações, estão fabricando a encarnação da distopia: um mundo onde este Ser tão velho, o Cerrado com seus mais de 40 milhões de anos nas costas, é irreversivelmente tratorado pelo avanço inclemente do “Progresso Modernizador”.

Ou seja, uma avalanche de latifúndios monocultores, que empregam pouquíssima gente, proliferam pesticidas cancerígenos, estimulam sementes transgênicas que só funcionam em conjunção com os produtos fertilizantes e mata-pragas fabricados por mega-corporações transnacionais, tomam o cenário de assalto.

E isto justo na época histórica onde formam-se monstros corporativos como a fusão entre Bayer e Monsanto. Num tempo onde a conjuntura política é desesperadora, com a ascensão ao poder de figuras como Donald Trump, inimigo número 1 de quaisquer práticas sustentáveis e quaisquer discursos ecologistas – e que saltou fora do Acordo de Paris sobre o aquecimento global, praticamente inviabilizando uma solução para o aumento vertiginoso das temperaturas planetárias, pois o maior poluidor atmosférico sobre a face da Terra diz, desde a Casa Branca, que está cagando e andando pra isso. O que interessa é a bufunfa, o clima que se exploda. Diante disso, ensina Naomi Klein, não basta dizer não!

Neste contexto, Goiás caminha no sentido de coloca um revólver tamanho família em sua própria cabeça e dar um tiro suicida em seu cérebro: o Caiado (DEM) é líder em todas as pesquisas de intenção de voto e deve tornar-se o novo governador do Estado após décadas de hegemonia do PSDB de Marconi Perillo. É uma conjuntura que nos leva a pensar na Lei de Murphy que enuncia: nada é tão ruim que não possa piorar. Pior que tá, fica sim.

É nossa tarefa trampar por um mundo melhor, decerto, mas às vezes também estamos obrigados a unir forças para evitar que a situação degringole para algo ainda mais catastrófico do que aquilo que já vivemos. De modo que os discursos e práticas favoráveis à conservação natural não necessariamente vinculam-se ao campo conservador do espectro político: podemos ser como ecosocialistas que defendem um modelo de intercâmbio entre Humanidade e Natureza que não seja predatório nem loucamente extrativista, apostando num modelo que privilegie a agrofloresta, a agricultura familiar e orgânica, a permacultura, a celebração da sociobiodiversidade em nossa cultura.

Neste contexto é que o cinema – como não cesso de descobrir em jornadas de intensa cinefilia! – tem poderes impressionantes de mobilização e conscientização. A chegada entre nós de Ser Tão Velho Cerrado é crucial para mostrar que esses poderes do cinema não servem somente para entreter e alienar, para gerar lucros estratosféricos com ingressos, para movimentar uma pujante indústria cultural massificada. Os poderes do cinema – em expansão espantosa deste a época dos primórdios, com os Irmãos Lumière e o mago Mèslies – podem ser mobilizados para iluminar e expandir horizontes, como ferramentas para a educação cívica, como armas de conscientização em massa.

O cinema pode ser uma via de sabedoria, uma escola itinerante cujos ensinamentos viajam na mídia leve da imagem-e-som digitalizados. Um meio de comunicação disseminável através das fronteiras, que vai onde um professor de carne-e-osso não pode ir, devido à proliferação das cópias e a divulgação na Internet, que rompe com o isolamento físico do educador que só pode estar em um único ponto do espaço-tempo de cada vez. Um filme pode ser, sintetizado em 90 minutos, todo um tratado de física, de filosofia, de biologia, de ambientalismo, de espiritualidade, de geografia, de história, de astronomia. Pode ser um chamado à união, ou mesmo à insurreição. Pode disparar os alarmes para que os adormecidos despertem para catástrofes iminentes – mas evitáveis.

Esta ambição de ensinar, somada ao ímpeto de denunciar os maus rumos que na atualidade estamos tomando, anima este filme co-movedor de André D’Élia. Sinto que nós todos, que de alguma maneira estamos visceralmente envolvidos com o métier do documentarismo e do audiovisual, sentimos bem, durante a sessão do documentário de produção e pesquisa primorosas, o quanto Ser Tão Velho Cerrado chega em boa hora e é uma obra-prima do gênero. É um documentário extremamente relevante e que precisa ser disseminado.

A aula que o filme proporciona é rica em ensinamentos cruciais: nos fala sobre o maior território quilombola da América Latina, o sítio histórico do povo Kalunga, e retrata a resistência deste povo contra o avanço trucidador dos poderes do ecocídio lucrativo; nos fala sobre a crise hídrica que nos ameaça e sobre a importância do Cerrado, como berço das águas, para todos os biomas que o circunda no território deste país de dimensões continentais; nos fala da desgraça política que é a falta de representação, nas instituições pseudo-democráticas, daqueles que defendem os interesses das populações tradicionais, dos agricultores familiares, dos produtores que não usam transgênicos; nos fala também das benesses de um ecoturismo em expansão e que, apesar de seus perigos (a gourmetização e a gentrificação), parece ser mesmo a solução imediata mais sábia para uma ocupação cívica construtiva da Chapada dos Veadeiros.

É um filme que sonda com coragem os problemas mais urgentes e cruciais de nossa época: fala das mudanças climáticas, da interconexão entre os biomas, da importância inestimável da preocupação com sustentabilidade, mas sem vender róseas soluções prontas. Ao contrário, Ser Tão Velho Cerrados pinta um retrato bastante distópico de nossa realidade atual, em que os retrocessos sócio-ambientais são chocantes e imensos. Vide a catástrofe gigantesca que matou o Rio Doce na “Tragédia de Mariana” (e que ameaça se repetir com as novas ofensivas das mineradoras sobre áreas outrora protegidas).

Este é também o primeiro filme brasileiro que faz a crônica e o registro histórico das proporções assustadoras do incêndio que devorou uma imensa fatia da fauna e flora da Chapada dos Veadeiros em 2017, chamas que muito provavelmente foram criminosamente provocadas em represália à expansão da área do Parque Nacional. Fiapos de esperança são os mutirões e as brigadas de combate ao fogo que puderam conter a tragédia através de uma solidariedade nascida das urgências do instante.

O fogo consumiu vorazmente cerca de 66 mil hectares – o equivalente a 28% da unidade de conservação – da rica flora e fauna do Cerrado em um dos piores desastres sócio-ambientais ocorridos no Brasil depois da hecatombe do Rio Doce. A Chapada dos Veadeiros viu-se lançada a um estado de emergência que exigiu solidariedade construída às pressas: ativistas e cidadãos conscientes se mobilizaram em brigadas para apagar o fogo e triunfaram após 20 dias de intensos e fatigantes trabalhos (leia mais minúcias nesta reportagem da Mídia Ninja): 

“Segundo Christian Berlinck, coordenador de combate ao fogo do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, o Governo Federal gastou aproximadamente um milhão de reais na operação. Da sociedade civil, foram quase 200 voluntários envolvidos nas funções da operação e quase 600 mil reais arrecadados em um exitoso financiamento coletivo, que continuará a ser feito, na criação de brigadas voluntárias permanentes, que atuariam anualmente.” – Ninja

Esse Ser tão antigo do nosso planeta, o Cerrado de ancestralidade que deveríamos reverenciar, hoje está envolvido no cerne de uma contextura desesperadora, onde comparecem elementos como a escassez hídrica, a extinção acelerada da biodiversidade, a iminência de uma catástrofe ambiental global com o descontrole do clima terrestre etc. Tudo isso somado aos mega-projetos da mineração, do agrobiz, da hidreletricidade, fortemente amparados no poder político plutocrático. Contra tudo isso, precisamos sim, e muito, de educação – desde que ela seja mobilizadora, ativista, colocando o aluno na posição daquele que precisa ser posto em movimento e retirado de sua passividade de esponja, rumo à atividade de co-laborador no partejar de um outro mundo possível.

Este documentário é capaz de acordar no espectador uma consciência ampliada do tempo. É um fenômeno cinematográfico que merece ser estudado pelos filósofos, em especial os que se interessam pelo tema da temporalidade, já que veicula uma visão do tempo que rompe completamente com o imediatismo, com a cegueira mental daqueles que põe lucros imediatos na frente da preservação das riquezas concretas e reais do planeta, aquelas que temos a responsabilidade inalienável de legar intacta para as gerações que virão.

40 milhões de anos cabem em 90 minutos? A pergunta pode parecer absurda, mas a resposta é sim – e Ser Tão Velho Cerrado, o filme de André D’Élia, realiza este aparente milagre. É um documentário altamente didático, uma ferramenta de conscientização em massa que chega para marcar época naquilo que eu chamaria de pedagogia audiovisual. Somando denúncia e anúncio, como aconselhava Paulo Freire, a obra chega em boa hora para nos alertar sobre a preciosidade do Cerrado, sua reverenciável ancestralidade, e o perigo imenso que hoje corre.

Seu título em inglês é Old Lord Savanna, um nome que me parece problemático: invoca o Lord dos monoteísmos patriarcais, ao invés de entrar em sintonia com a espiritualidade muito mais matriarcal que o filme sugere e propaga. Precisamos mais do que nunca de um Matriarcado de Pindorama, de uma cultura mais Pachamâmica, de uma espiritualidade com mais pendores para Oxum e Iemanjá do que para o enfurecido deus pintudo de Sodoma e Gomorra. Abaixo Jeová e seus clone, queremos que todos sejam co-partícipes do panteísmo que enxerga-nos como grudados à Matriz do Planeta Mãe. Estamos todos na mesma barca Gaia. 

Foi tocante descobrir que o filme integra a seu material de conscientização em massa a obra de artistas como a da talentosa fotógrafa Mel Melissa Maurer, do projeto O Caminho do Cerrado. A arte como instrumento de sensibilização é algo que se explicita nas fotos da Mel – que já expusemos em Goiânia durante uma das edições do Confluências: Festival de Artes Integradas, evento que contou com a presença da modelo Moara, que nos concedeu uma entrevista enquanto passeava pela exposição (veja abaixo).

As fotografias põe em cena a beleza exuberante e a fragilidade constitucional do corpo humano nu, vestido apenas com botas, máscara anti-gás e fitas pretas nos mamilos, em meio à devastação ambiental acarretada pelo avanço das monoculturas de soja, pelos pesticidas e transgênicos, pelos mega-projetos de barragens, pelas mega-mineradoras e seus braços na indústria da construção civil.

O filme Ser Tão Velho Cerrado também dá voz e vez a outras figuras da cultura, como a Mãe da Lua, o Caio (da Turma Que Faz) etc. Assim obrando, o documentário congrega artistas e intelectuais para somarem numa mensagem direcionada não somente aos cérebros, mas às sensibilidades.

O lucro de mineradoras, latifundiários, empreiteiras e políticos a elas vinculados representa a devastação de nosso patrimônio ancestral somada à aniquilação de nossa possibilidade de termos um futuro vivível. O mínimo que se espera é que possamos legar aos que ainda nascerão um futuro com ar limpo para respirar, água potável em fartura, espaço comum para conviver e celebrar. Tudo sob ameaça. Os defensores da terra, ameaçados com a mordaça e as balas. O sangue de milhares de Chicos Mendes é derrubado aos borbotões, enquanto os rios são barrados. E os risos são abafados pelo vampirismo de Temers e Caiados, de Sarneys e de Marconis, de Maggis e Kátias Abreus. Velhos sanguessugas escrotos, contaminados por ganância, contaminadores de tudo com sua poluição e estupidez.

Sei que o cinema não pode tudo, mas tampouco é negligenciável seu poder de transformação. No escuro daquela sala em que estamos todos sozinhos-acompanhados, alone together, podemos ser impactados de modo transformador por aquele veloz e caleidoscópio desfile de imagens e sons. Portal de luz que conduz a que possamos mergulhar em locais onde não estivemos, permite que ouçamos pessoas que não conhecíamos, aprendendo lições com aqueles que nos comunicam o que sabem de melhor.

São filmes como Ser Tão Velho Cerrado que reativam a consciência da importância do documentário para a civilização. Pois o cinema-do-real é um espetáculo à parte. À margem da Sociedade do Espetáculo, com seus blockbusters e seus rentáveis ficções a serem consumidas com muita pipoca e refrigerante, quase sempre dentro de shopping centers, o cinema documental representa uma vertente essencial desta arte: seu poderio cívico, sua capacidade de informar, formar e mobilizar um público que não é visto apenas como espectador, mas como co-partícipe e co-laborador.

Co-laboremos, pois, para que o Cerrado viva e sobreviva – pois é também nossa sobrevivência que está em jogo, nosso futuro o que está na balança. São nossos amanhãs que estão com o pescoço na guilhotina. Impeçamos a descida brutal da espada de Dâmocles que nós mesmos deixamos que ali se colocasse. Levantemos para salvar nossas goelas, nossos pulmões, nossas vidas-em-teia. Para ajudar-nos, o filme dá voz e amplifica a potência de pesquisadores e intelectuais (como Altair Sales – blog), de ONGs e instituições da sociedade civil (como a Fundação Mais Cerrado), de órgãos públicos (como o ICMBio) e comunidades tradicionais (como os Kalunga, do sítio histórico quilombola localizado em Cavalcante). Mas exige que a gente entre nessa ciranda, junte a voz a este coro.

UM PUNHADO DE CRÍTICA CONSTRUTIVA

“Nem tudo que é torto é errado, veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado.” – Nicholas Behr

Pelo que ficou dito acima, fica evidente que adorei o documentário, reconheço seu imenso mérito e farei o possível para disseminá-lo. Quero utilizá-lo em sala de aula no IFG e tentarei persuadir colegas professores a espalharem por aí os cine-debates que ponham em circulação os ensinamentos de Ser Tão Velho Cerrado. Mas gostaria de, antes de encerrar, tentar um pouco de crítica construtiva, aquele tipo de procedimento que não tem a mínima intenção de tacar pedras ou de diminuir o valor da obra em questão, mas visa somar com o processo de discussão ao apontar uma espécie de déficit.

Um aspecto que poderia ter deixado o filme ainda mais interessante, mas que teria o agravante de deixá-lo mais longo em sua duração e mais amplo em seu espectro de problemas considerados, seria uma abordagem mais minuciosa do tema da Cultura. É muito neste sentido que venho tentando colaborar, recentemente, com a produção audiovisual – propondo, em O Futuro nos Frutos mas também em Afinando o Coro dos Descontentesque há uma imensa diversidade de manifestações artísticas de teor transformador, questionador, sincrético, celebrador da diversidade, rolando em Goiás. É uma produção cultural em que as manifestações artísticas de modo algum estão alheias às problemáticas ecológicas, políticas, socioambientais, éticas etc.

Sertão Velho Cerrado nem menciona que algumas das mais expressivas bandas do cenário goiano, como Carne Doce, Boogarins, Pó de Ser, Ave Eva, Umbando, Passarinhos do Cerrado, Turma Que Faz, dentre outras, vem focando suas atenções sobre a Chapada dos Veadeiros há tempos. Este tema está lá no slogan viralizável “o progresso é mato”, que Salma Jô canta na canção-manifesto “Sertão Urbano”, uma das canções mais politizadas e mais relevantes do Carne Doce, e um dos mais belos clipes já realizados em território goiano. Este tema está lá na sapiência comunicada nas belas vozes de Flávia Carolina Almeida e Paula de Paula, que com o Ave Eva estão invocando Oyá para criticar “os humanos seres da terra” que “pagam a ela com ingratidão”.

Está lá também no rap-folk de Doroty Marques, entoada pelo coro polifônico da Turma Que Faz, que fala assim: “deixe o meu Cerrado que ele não está errado!”. Está lá em “Benzin” dos Boogarins, cujo videoclipe celebra, em belas imagens, a imensidão do Cerrado através da qual Salma Jô trafega como uma transeunte do infinito. Está lá na proposta estética de vertente mais “makulelê”, em coletivos como Coró de Pau e Ninho Cultural, na música das finadas (e maravilhosas) bandas Umbando e Cega Machado, além de rebrilhar em muitos pontos da obra magistral de Juraildes da Cruz. Está lá, também, nos mais de 20 anos de trabalhos da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, que realiza o Encontro de Culturas e a Aldeia Multiétnica.

É uma gente que merecia ao menos menção no esforço documental de André D’Élia. A cultura – ainda que representada pelo lindo trabalho da Mel, pelas falas do Caio, pela Mãe da Lua – ficou um tanto menosprezada. De todo modo, assistir a Ser Tão Velho Cerrado me inspirou a continuar o trabalho que venho realizando como documentarista e agente cultural, com foco neste tema das manifestações artísticas de viés político. O filme de D’Élia, com todos os seus inúmeros méritos, extremamente elogiáveis, deixou escapar essa chance de tematizar, por exemplo, o quanto o cenário musical independente, em Goiás, está em estado de razoável sintonia (que merece ser expandida) com o eixo central que estrutura este meu discuro: a alternativa Cerrado Vivo ou Barbárie.

Esse menosprezo da Cultura impede o espectador de pôr questões importantes: o que precisamos para sair do buraco não é de uma autêntica revolução cultural? Ela não teria que estar conexa a uma transformação midiática que nos empodere diante dos velhos barões da mídia)?Não precisamos acelerar rumo ao Ponto de Mutação de que nos falava Fritjof Capra? E não é uma metamorfose cultural, em direção a uma sociedade com hegemonia de uma cultura mais consciente das interconexões e interdependências que constituem a Teia da Vida neste planeta, aquilo que poderá salvar tudo da ganância e da hýbris do homo sapiens, em toda sua estúpida e ultra-disseminada falta de sabedoria? E esta cultura transformada, com suas cegueiras curadas, com sua estupidez transcendida, também não será necessariamente uma obra dos artistas, esses disseminadores de uma nova sensibilidade, de uma consciência renovada?

Em “Gota Miúda”, o “sol se escondeu atrás de um edifício” e o eu-lírico, lindamente vocalizado pela Paula de Paula, lamenta-se: “amor, como é difícil perdê-lo na construção!”. É uma imagem impressionante do quanto a natureza acaba eclipsada pelos edifícios da urbe, que arranham os céus mas servem de obstáculo à nossa visão do horizonte. Uma imagem lírica similar e análoga anima “Avalanche”, dos Boogarins, onde o eco dos amplificadores e o ataque conjugado de guitarras, baixo e batuques (todos devidamente psicodelizados), é a ferramenta imaginada como capaz de transformação de um cenário urbano que pratica um apagão da natureza e nos prende num “labirinto de tédio”. “A maior demonstração de propagação do ser é o eco. Com ele meu grito tem força para derrubar todos os prédios que não nos deixam ver o sol.”

Para que o berço das águas não se torne o túmulo da vida ao ficar seco, desértico e distópico, para que a imensa biodiversidade que é riqueza viva e inestimável não seja imolada no altar retardado do capitalismo predatório, precisaremos sim de muita arte. De uma arte que ensine e ilumine, que expanda horizontes, que chova sobre nós estas gotas miúdas que re-ativam constantemente “o milagre do pão”.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 14/08/2018

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SIGA VIAGEM:

Repórter Eco da TV Cultura

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O diretor André D’elia apresenta seu projeto “Ser Tão Velho Cerrado”, um filme que mostra a importância do bioma cerrado para a sociedade brasileira e é um exemplo do Cinema Pedrada:

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NA IMPRENSA:

FOLHA DE SÃO PAULO >>> Documentário corajoso de André D’Elia denuncia devastação do cerrado

“Este documentário do diretor e roteirista André D’Elia —afeito às causas ambientais, como demonstram os longas “A Lei da Água” (2015) e “Belo Monte – Anúncio de uma Guerra” (2012)— procura sensibilizar o grande público sobre a situação da savana brasileira, que está em avançado processo de extinção.”

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LEIA TAMBÉM EM A CASA DE VIDRO:

  • A DANÇA DA CHUVA – RIOS VOADORES E MANANCIAIS SUBTERRÂNEOS: A escassez de água que alarma o país tem relação íntima com as florestas (Reportagem e Vídeos por Revista da FAPESP): https://wp.me/pNVMz-1qW

Jamais Poderão Aprisionar Nossos Sonhos: Eleição Sem Lula É (Continuação) Do Golpe! || Editorial A Casa de Vidro

“Eu não pararei porque eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês. Quanto mais dias me deixarem lá, mais Lulas vão nascer neste país. Não adianta tentar parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar eu sonharei pela cabeça de vocês.”Luiz Inácio Lula da Silva, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, instantes antes de se tornar um preso político no Brasil de 2018.

Há quem julgue um absurdo exagero comparar Lula com Mandela, Gandhi ou Luther King. Os detratores de Lula – aqueles que o xingam de “Luladrão” e “petralha corrupto”, confundindo xingamentos com argumentos, ofensas com provas – esquecem lições fundamentais que o conhecimento dos fatos históricos nos dá: o cárcere injusto é algo que sentiram na pele grandes líderes históricos das massas oprimidas, e isto pois com frequência as instituições de Direito, ao invés de honrar seu compromisso com a Justiça, violaram esse vínculo e se fizeram instrumentos de uma guerra de classe.

O que o campo lulista lança ao cenário político explosivo e vulcânico de 2018 é a tese de que Lula é sim uma figura de estatura histórica que está encerrado nas garras de um cárcere não devido a seus crimes, mas sim pelo desejo de nossas elites sócio-econômicas de impedirem os brasileiros de exercerem nas urnas seu direito constitucional de sufrágio universal.

O golpe quer sequestrar, de novo, nosso voto, após a derrubada fraudulenta da presidenta re-eleita em 2014 através do farsesco-grotesco putsch parlamentar de 2016.

Força imponderável, imprevisível, alvo das especulações futuristas dos profetas da política, será a reação das massas diante da aproximação de Eleições Ilegítimas – caso, como é de alta probabilidade que aconteça, Lula não esteja lá nas urnas para disputar a vontade popular com os outros candidatos – Boulos, Bolsonaro, Alckmin, Ciro, Marina etc.

O VERDADEIRO TRIPLEX (Não aquele da Fraude Judicial…)

A noção de que “Eleição Sem Lula É Golpe” quer frisar a continuidade do processo destravado irresponsavelmente em 2016 pela Aliança Golpista – mancomunando as Bancadas da Bala, do Boi, da Bíblia (e da Bola) com os barões da mídia burguesa e o empresariado FIESPista, cultuador de imensos patos amarelos (símbolo da truculência da classe dos Patrões).

O Patronato brasileiro, com o recente golpe de Estado, explicitou suas tendências fascistas. E, como tem ensinado o jurista Pedro Serrano, a prisão de Lula é mais um sintoma do colapso do Estado de Direito e do avanço do Estado (totalitário) de Exceção.

O Brasil de hoje é a encarnação da frase de Brecht (e Lula, um dos imprescindíveis de que o dramaturgo-poeta também nos falou em “Os Que Lutam”): “Não tem nada mais parecido com um fascista do que um burguês assustado.” A burguesia brasileira está assustada com a onda de inclusão social e redução das desigualdades que avançou, ainda que timidamente, na era lulista.

A nossa Elite do Atraso, de mentalidade ainda escravocrata, deseja um Patronato Empoderado que tenha a maravilhosa “liberdade econômica” de pisotear milhões de rostos de trabalhadores humilhados, super-explorados, precarizados (para não falar das imensas multidões de desempregados, a quem se promete somente a truculência dos controles policiais e carcerários de um Estado Policial extremado). George Orwell, que nunca escreveu um manual-de-instruções para tiranos e ditadores, havia suspeitado que a imagem que descreveria o futuro humano seria: “uma bota pisando um rosto”.

Lula deve ser mantido no cárcere para que, no xadrez da guerra de classes intensificada com o Golpe de 2016, os ricos sigam vencendo. Triunfando sobre nossa carne triturada. Contando ouro sobre as cinzas do futuro. Futuro este que eles estão queimando como piromaníacos através do Austericídio Neoliberal que ameaça matar de inanição, nos próximos 20 anos, a educação pública, a saúde pública, a cultura pública, o próprio espaço público e o próprio valor do que nos é comum, do que é de-todos e portanto e inapropriável por qualquer proprietário privado.

Neste contexto, Lula é sim como Gandhi, como Mandela, como Luther King: aquele que é decretado como Inimigo Público pelas classes dominantes, assustada com a possibilidade de perda (ou diminuição) de seus privilégios injustos (pois baseados em racismo, patriarcalismo, opressão de classe etc).

A ira dos bem-nascidos contra os sem-berço manifesta-se pelo assassinato ou pelo aprisionamento que os tais bem-nascidos (que muitas vezes se alcunham como “homens-de-bem”) impõe a líderes populares que pretenderam governar para todos, e não apenas concedendo de bandeja as benesses para os que gozam no estreito topo da pirâmide.

Assassinaram Che Guevara, Amílcar Cabral, Malcolm X; aprisionaram Mandela, Mujica, Lula; amordaçaram e calaram as vozes dissidentes com tal frequência e tão inúmeros requintes de crueldade, que não passa a soar mais tão absurda a frase que estampa o meme que Maria Do Rosário fez circular: “De Tempos em Tempos, Prendem um Lula!”

Prenderam o Lula e querem mantê-lo preso para que ele não ganhe as eleições. Pentacampeonato do PT para a Presidência é a humilhação que as elites não suportam engolir. Elas preferem a via do golpe de Estado continuado, da preservação dos frutos podres e nefastos da ruptura do tecido constitucional instaurado pelo impeachment de Dilma.

O cárcere de Lula até mesmo chega a lembrar, se fôssemos procurar um análogo histórico, aquele do jovem Fidel Castro, encarcerado pela Ditadura de Fulgêncio Batista após o episódio do Assalto Ao Quartel Moncada (26 de Julho de 1953).

Fidel Castro (centro), Raul Castro (primeiro à esquerda) e outros rebeldes do assalto ao Quartel de Moncada postos em liberdade, em maio de 1955.

Após mais de 75 dias na prisão, Fidel – que além de revolucionário era também advogado – defendeu sua própria causa diante do tribunal através dos discursos imortalizados em “A História Me Absolvirá” (Ed. Expressão Popular). Note-se a semelhança com o “A Verdade Vencerá”, o livro-manifesto de Lula lançado pela Editora Boitempo.

Ali, Fidel Castro revela algo crucial para a compreensão do triunfo posterior dos guerrilheiros da Sierra Maestra, que conquistariam o poder após alguns anos daquele cárcere amargado por Fidel. Ensina a seus algozes Fidel que não se pode prender um ideal. Ensina Fidel que, no palco da história, jamais a tirania injustiça conseguiu abafar os brados e as práticas libertárias. Quando se encarcera alguém cuja vida se construiu pela solidariedade com os oprimidos, este alguém jamais está só detrás das grades. Lula, mesmo numa solitária, jamais estaria só.

E Lula não é mais só um punhado de carne-e-osso, de fezes e lágrimas, de olhos e bunda, deixado a mofar em uma jaula da Polícia Federal de Curitiba. Lula já transcendeu a restrição de seu corpo físico para tornar-se uma espécie de emblema de uma utopia social. Lula virou sinônimo de um sonho de sociedade inclusiva, que enfrente suas hediondas desigualdades, que invista no acesso amplo aos bens públicos fundamentais (saúde, educação, moradia, alimentação, cultura, participação cívica). Fidel, encarcerado em 1953, e Lula detrás das grades em 2016, comungam de uma convicção (bem diferente daquela dos “Dallagnóis” por aí, que confessam não estar condenando com base em nenhuma prova, apenas convicções…).

A convicção, de Fidel e Lula, mas também de Mandela e de Mujica, de Gandhi ou Luther King, de Rosa Parks ou Angela Davis: “quando os homens têm um mesmo ideal, ninguém pode isolá-los, nem as paredes de um cárcere nem a terra dos cemitérios. A mesma lembrança, a mesma alma, a mesma ideia, a mesma consciência e o mesmo sentimento de dignidade alentam a todos.” (CASTRO, F. A História Me Absolverá. Pg. 12. Expressão Popular, 2010.)

É evidente que há limites para a analogia: Fidel participou de um levante armado que visava, ao tomar o quartel de Moncada, dar poder material para que o povo cubano pudesse triunfar sobre o tirano Batista, que alçou-se ao poder com um golpe militar em março de 1952; já Lula em nenhum momento sinalizou para a resistência armada contra o regime de Michel Temer e permaneceu um democrata exemplar, defendendo a normalidade das instituições do Estado Democrático de Direito mesmo em uma fase de brutais retrocessos que vieram nos lançando a um Estado de Exceção cada vez mais exacerbado (de que os destinos de Marielle Franco e Lula, em 2018, são emblemas).

O que une o período no cárcere amargado por Fidel e este que agora trancafia Lula é o fato de que ambos são declarados como inimigos públicos por governos ilegítimos, inconstitucionais. A Cuba sob a batuta de Batista e o Brasil sob o desgoverno de Temer – e de um Congresso Nacional infestado de deputados e senadores dispostos a rasgar a Constituição e impedir uma presidenta mesmo sem sombra de crime de responsabilidade – são ambos regimes políticos que não tem base ou fundamento na vontade soberana do povo.

E a coisa pública (res publica) só pode legitimamente ser gerida pela vontade geral expressa em sufrágio universal. Sempre que as urnas são sequestradas por plutocratas, e impede-se de competir algum candidato que contraria os interesses das elites econômicas e culturais, estamos numa democracia de fachada, pseudo poder popular que esconde o reinado concreto de uma tirania de mesquinhos interesses privados (e privatistas) impondo-se ao todo social com uma truculência inaceitável – e que não tarda a suscitar resistência, revolta, insurreição.

As palavras de Fidel na prisão, animadas pela inspiração de seu mestre Martí, evocam aquele afeto intensamente transformador, o “amor à liberdade”, que não poupa esforços para denunciar “maquinações obscurantistas e ilegais”; diante de seus algozes, que querem condená-lo a 26 anos de prisão, o altivo Fidel ergue-se como um gigante pois subiu nos ombros dos ensinamentos dos mestres (sobretudo o próprio Martí): “um princípio justo do fundo de uma cova é mais poderoso que um exército.” (p. 14)

Os princípios justos não estão presos quando se encarcera um de seus defensores; a bandeira da liberdade não cessa de tremular a céu aberto, em barricadas e nas montanhas, em passeatas e ocupações, em greves e em combates, pois se assassinou um punhado de ativistas libertários; e nenhuma jaula na PF de Curitiba é capaz de calar a voz de um Lula que já multiplicou-se em milhões de Lulas por aí.

O tamanho do eleitorado que votaria em Lula, segundo algumas pesquisas, indica que ele seria eleito no primeiro turno. Estas dezenas de milhões de brasileiros que expressam assim sua aliança ao ex-presidente que deixou seu cargo, após 8 anos de serviço público, com aprovação popular na casa dos 87%, sabem que o poder de Lula não será nadificado pelas arbitrariedades e injustiças de um aparato jurídico sequestrado pela classe dominante e utilizado como instrumento de guerra eleitoral.

A Elite do Atraso, que prepara para 2018 este novo golpe – a exclusão de Lula das urnas – está brincando com fogo. Enquanto cresce o espraiamento do fascismo social, muito mais perigoso do que a candidatura Bolsonaro, as elites estão sinalizando para uma postura que pode nos levar à guerra civil. Uma guerra civil capaz de fazer os mais de 60.000 homicídios anuais que ocorrem no Brasil parecerem uma bagatela. Caso a Direita vença as eleições através do golpe sujo do impeachment preventivo, seja com Bolsonaro ou Alckmin, enganam-se redondamente se acreditarem que os “milhões de Lulas” ficarão quietos e aceitarão o resultado da partida, indo para o vestiário para chorarem quietos suas mágoas, ainda que saibam que só perderam o campeonato pois o juiz roubou um bocado para o adversário.

Aqueles que impedem a manifestação democrática da vontade popular majoritária e visam impor, mesmo que sob uma fachada enganadora de processo democrático, um governo que prossiga triturando direitos sociais, privatizando bens públicos, lançando à miséria os milhões, congelando o viço de hospitais e escolas, asfixiando o fomento à cultura, disseminando agrotóxicos e extermínios, irá se defrontar com a fúria daquela parcela do povo que já está se cansando de tanta opressão, desigualdade e catarro escarrado pelos ricos do alto de seus jatinhos e helicópteros blindados.

Querem mesmo ganhar de Lula no tapetão, impedindo-o à força de disputar as eleições? Lidem depois com MST, MTST, UNE, Levante; lidem com as ocupações, as greves, os trancamentos de rodovia, as barricadas de pneus em chamas, os molotovs contra agências bancárias. Seria ingênuo esperar que um futuro Bolsonazista ou Alckmista não estivesse polvilhado por irrupções de violência nas manifestações cívicas como aquelas que marcaram certos períodos das Jornadas de Junho de 2013. O Lula, que sempre foi um grande pacificador, que ao invés de aguerrido soldado de uma guerra de classes esforçou-se como presidente para ser conciliatório e propiciar um ganha-ganha, está encarcerado por uma elite que está se preparando para a guerra.

Ou, melhor dizendo, a guerra da elite contra nós já está rolando – e o encarceramento de Lula é o episódio recente mais sintomático desta “guerra dos ricos contra os 99%”. Quem ajuda o 1% a conseguir a proeza são, é claro, os seus braços armados, o complexo militar-industrial, o sistema das polícias militarizadas conexas a um sistema carcerário onde perpetuam-se o racismo estrutural e a opressão de classe. A polícia que mais mata e mais morre no mundo é a brasileira. Em um futuro Bolsonazista ou Alckmista, é de se esperar que a matança, a mortandade, os morticínios, a enxurrada de chacinas só piore. Não é fantasia de pessimista,  é tendência histórica.

Já o welfare state lulista, uma política típica de uma democracia liberal que enxerga a paz social como conexa à diminuição das desigualdades e o investimento em infraestrutura pública para fornecimento de serviços públicos essenciais, é a única via viável, no curto prazo, para uma mudança de rumos positiva para o país, desde que venha purgada de tendências à coligação com os setores mais reacionários e corruptos da velha guarda (MDB, DEM, PP, Tucanos… toda a corja de homens-brancos-ricos-elitistas que infesta nossas instituições da pólis). O PT está tendo que redescobrir suas raízes socialistas, suas conexões com mestres como Florestan Fernandes, sua disposição para a defesa de uma mundialização de outra via, não a de submissão ao Império dos EUA sob tirania ultracapitalista e neo-fascista de Trump, mas pelas vias já delineadas do Mercosul e do BRICS.

A verdade é que Lula está preso mais pelos benefícios que sua gestão trouxe do que pelos denunciados malefícios que a “corrupção petista” trouxe ao país. Está evidente para uma imensa fatia do eleitorado – majoritária a ponto de Lula vencer as eleições em todos os cenários, nas pesquisas de todos os órgãos estatísticos – que o triplex no Guarujá é pretexto; que faltam provas e sobram convicções; que uma delação premiada de um empresário da OAS está tendo mais peso na balança da justiça do que a expressão da vontade de uns 50 milhões de cidadãos brasileiros… E está claro que as elites querem Lula calado. Querem que apodreça na prisão em silêncio. O que não ocorrerá.

Preso, Fidel manteve-se ativo e altivo, batalhando contra a incomunicabilidade que sentia que lhe era imposta: “Sei que me obrigarão ao silêncio durante muitos anos; sei que tratarão de ocultar a verdade por todos os meios possíveis; sei que contra mim erguer-se-á a conjura do esquecimento. Mas minha voz não se afogará por isso; ela adquire forças em meu peito quanto mais isolado me sentir. E quero dar a meu coração todo o calor que lhe negam as almas covardes.” (p. 21)

Estas palavras de A História Me Absolvirá são muito semelhante em pathos e em ethos, em afeto e em postura, daquelas que Lula proferiu em A Verdade Vencerá e também em seu último discurso público no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Lula, como Fidel, sabe muito bem que uma injustiça nunca é praticada de modo impune quando é sentida como acinte e ofensa por uma imensa multidão de pessoas que se sentem unidas e solidárias através do cimento invisível de uma causa comum, de um sonho que une. É por isso que, mesmo que sua foto não esteja nas urnas, Lula seguirá sendo uma força concreta na sociedade brasileira nos anos porvir.

Ainda que o assassinem, ainda que ele morra na prisão, já somos milhões de Lulas, e sonharemos o sonho dele com nossas cabeças, pensaremos as ideias dele com nossos cérebros, arregaçaremos as mangas e com nossas mãos obraremos o que ele projetou para ser feito, e sempre que tentarem calá-lo, trancafiá-lo em jaula, conjurar que dele nunca se fale para que se afogue no esquecimento, seremos uma legião de bocas, bradando por amor à liberdade e à justiça que cessem as opressões que seguem maculando este às vezes triste hospício esférico que se chama mundo.

Por um outro mundo possível, pelos “inéditos viáveis” de que falou Paulo Freire, pelo avanço de utopias delineadas por Darcy Ribeiro ou Florestan Fernandes, por uma economia libertada de subserviência aos Yankees, por uma união fraterna do Brasil com os povos latino-americanos e africanos, por educação pública de qualidade podendo expandir-se e ganhar viço, é preciso libertar Lula. Ou estaremos todos presos na fornalha manicomial de um país reduzido a cinzas, guiado para o esfacelamento pela conjunção da Ponte Para o Futuro com as novas Privatarias e Barbáries que viriam às mancheias no caso de vitória (ilegítima, caso exclua Lula) dos bolsonazistas ou tucanos (que não diferem tanto assim uns dos outros, olhados em minúcia).

A mobilização cívica por Lula Livre, em defesa de sua candidatura, irá nos dividir e polarizar: de um lado, estaremos defendendo a re-constituição de um regime democrático recentemente violado pelo golpe de 2016 e seu processo que até a atualidade se estende; de outro lado, aqueles que apostam num fascismo com máscara de democracia burguesa “normal” para aprofundar o Estado de Exceção e o regime de cruel exploração do trabalho e de destravada violência policial-carcerária contra os oprimidos que aumentam de número aos milhões. “De Que Lado Você Está?”, pergunta Gui Boulos no título de seu livro. Os lados, dirão, são sempre muito mais que dois; mas peço cautela aos que quiserem a terceira via do ficar-em-cima-do-muro: o que garante que vocês não serão, depois, derrubados deste muro sobre o qual pretenderam ficar em estado de neutralidade?

Escolher não denunciar a exclusão de Lula destas eleições, achar que isso é legítimo apesar dos inúmeros indícios de lawfare e de partidarização do Judiciário, não é aliás sintoma de neutralidade. Os pretensos neutros, neste caso, têm lado… O lado dos que querem passar um verniz no Golpe para deixá-lo brilhando, bonitinho, pra passar no Fantástico, todo maquiado para esconder as cicatrizes que ele impôs à carne de milhões de brasileiros, chutados de volta para o Mapa da Fome, privados de direitos trabalhistas, obrigados a “não pensar em crise e trabalhar” em meio a um desemprego massivo que bate recordes, tesourados em suas bolsas de estudo etc.

Por isso, ser um democrata, considerar minimamente como valor o tal do Estado Democrático de Direito, é hoje apoiar o direito de Lula a candidatar-se; quem aplaude seu cárcere só pode ser cúmplice de um processo mentiroso, injusto e liberticida. Eleição sem Lula é fraude. Que nossa elite e seus esbirros, e toda a massa de manobra que segue a manada e se filia aos projetos eleitoreiros de Alckmins e Bolsonaros, tenha pelo menos a dignidade de vencer jogando limpo, nas urnas, com a maioria dos votos. Caso contrário, o que nascerá deste pleito será o conflito e o tumulto que sempre são consequências das desmesuras e dos excessos daqueles que, triturando o comum, agarram-se a seus privativos privilégios.

Luiz Inácio Lula da Silva

A Casa de Vidro
http://www.acasadevidro.com
Agosto de 2018
Por Eduardo Carli de Moraes

ROMPENDO A CERCA DO APARTHEID – A função social da terra VS O sagrado direito à propriedade (Reflexões sobre a Guerra de Classes)

Há esses períodos turbulentos da História em que falar em “luta de classes” parece demasiado suave para a virulência das discórdias. E somos então tentados a falar que há, em incandescência, uma autêntica Guerra de Classes.

Com seus mais de 60.000 homicídios anuais (como indica o Atlas da Violência de 2018), o Brasil não consegue mais sustentar a auto-imagem falsária de “país cordial” – esta fantasia não cola mais.

Somos, ao contrário, o território dos massacres, das chacinas, da violência estrutural institucionalizada. Terrinha do terrorismo de Estado: da aniquilação violenta da oposição armada ao regime militar (vide o caso da Guerrilha do Araguaia entre 1972 e 1974) aos mais recentes horrores em Eldorado dos Carajás (Pará, 1996) ou no Presídio do Carandiru (SP, 1992).

LEITURA SUGERIDA:  ONU afirma que anulação dos julgamentos que condenaram 74 policiais militares pelo Massacre do Carandiru ‘manda uma mensagem preocupante de impunidade’ (Setembro de 2016, Governo Michel Temer)

A impunidade reina também para os poderosos proprietários de latifúndios que são mandantes de massacres que milícias mercenárias executam.

É só lembrar que em 17 de Abril de 2000, em Belém do Pará, uma significativa marcha dos ativistas do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra) denunciava, 4 anos após a PM assassinar 19 pessoas do movimento, a completa impunidade dos funcionários e dos ordenadores da Carnificina de Eldorado dos Carajás:

Fotografia por Sebastião Salgado

CPT (Comissão Pastoral da Terra) – “Eldorado dos Carajás, 17/04/1996 – Maior e mais conhecido massacre registrado na luta pela terra, o caso de Eldorado dos Carajás se refere ao assassinato de dezenove sem-terras mortos pela Polícia Militar do Estado do Pará, no dia 17 de abril de 1996. O massacre ocorreu quando 1500 sem-terra acampados na região realizavam uma marcha obstruindo a BR-155 em protesto contra a demora da reforma agrária no local.

Sob o aval do secretário de segurança pública estadual (Paulo Sette Câmara), o coronel responsável pela operação (Mário Colares Pantoja) empreendeu atos de repressão e violência que culminaram nas mortes a queima roupa e por cortes. Apesar da grande repercussão nacional, a apuração não prendeu ou identificou os policiais que atiraram. Propina teria sido paga por fazendeiros da região, especialmente o dono da fazenda Macaxeira, para que os policiais matassem as lideranças sem-terra.”

No Brasil, na ativa desde 1984, o MST é um movimento social conhecido mundialmente por estar permanentemente em luta para transformar o atual estado de coisas, este nosso status quo do apartheid e da nova escravidão militarizada.

As ocupações de terras improdutivas realizadas por militantes do MST – tão demonizadas por certas empresas da mídia burguesa como “invasões” realizadas por “vagabundos” e “baderneiros” – são, na real, uma mobilização legítima e constitucional. São mais: pressionam-nos para irmos coletivamente no rumo de um processo civilizador que nos arranque das garras desta imensa barbárie patrocinada e imposta pela Casa Grande escravocrata.

Que o MST seja legítimo e constitucional se prova não só pelos seus frutos (o movimento já é o maior produtor de arroz orgânico no mundo, mundialmente reconhecido também pelas inovações em suas escolas e no impulso à agroecologia), mas também pelo fato de que a Constituição Federal de 1988 institui que a terra deve ter uma “função social”, o que faz do MST um imprescindível defensor da Constituição.

Um latifúndio improdutivo, que descumpre a Constituição, deve ser desapropriado e distribuído para a população privada de terra, espoliada de seu direito legítimo em virtude da manutenção de privilégios injustos, decorrentes de desarmonias históricas legadas pela velha sociedade escravocrata, ainda tão mal enterrada.

O MST atua como movimento social que demanda do poder público o cumprimento das leis do país, mas choca-se nisso com a oposição tenaz de um dogma, com seus truculentos escudeiros: o direito “sagrado” à propriedade privada.

CONHEÇA MAIS SOBRE A CONSTITUIÇÃO DE 1988:

“Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo a sua função social mediante prévia e justa indenização…” (Constituição Federal, Tìtulo VII, Capítulo III, artigo 184)

Tanto o discurso dos generais do governo militar (1964 a 1985), quanto a ideologia dos atuais lordes do agrobiz baseia-se neste direito, absolutizado, à propriedade privada. Não se põe em questão, na lábia hipócrita dos ricos e dos terratenientes, que pode haver injustiça social condenável na propriedade excessiva de capitais e terras.

A nossa Elite do Atraso, como a apelidou Jessé Souza, defende ferrenhamente, com toda a fúria e violência, usando inclusive como subterfúgios os golpes de Estado e outras medidas de estado de exceção, este baluarte sacralizado: o direito à propriedade pessoal, do tamanho que essa propriedade for, e ainda que essa propriedade-de-um acabe por privar do digno e do necessário uma multidão de milhares de seus miseráveis irmãos. O advogado Avanilson Alves Araújo explica qual é o tom típico dos proprietários de terra:

“São retrógrados, tanto em termos econômicos quando políticos… Acreditam no direito absoluto à propriedade, exatamente como os latifundiários da França, antes da Revolução. Não aceitam a Constituição de 1988, que estabelece que a terra deve cumprir uma função social. E rejeitam a idéia de que trabalhadores – e camponeses sem-terra – tenham direitos básicos como seres humanos.” (In: Rompendo a Cerca, p. 209)

A Guerra de Classes brasileira, que se expressa nos conflitos violentos entre latifundiários e movimentos populares campesinos, teve uma contundente crônica cinematográfica realizada no documentário O Voo da Primavera, de Dagmar Talga.

O filme realiza uma homenagem à vida e às lutas de Dom Tomás Balduíno, figura chave na fundação da CPT e do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), movimentos que prenunciam e preparam o terreno para a emergência do MST. O cinedebate rolou durante o V JURA (Jornadas Universitárias Pela Reforma Agrária) no IFG Anápolis.

A frase de Balduíno – “direitos humanos não se pedem de joelhos, exigem-se de pé!” – parece-me em total sintonia com o lema do MST: “Terra não se ganha, terra se conquista!”

São noções que demonstram lucidez e realismo na percepção de que, no conflito de classes, a justiça não cairá dos céus nem dos palácios, que os injustiçados tem que conquistar esta justiça em virtude do movimento de massas, cuja coesão solidária é a condição necessária de sua eficácia.

Pois não basta demandar direitos, é preciso ganhá-los. É preciso ter a força de vencer e depois de barrar todos os retrocessos, ou seja, todos os avanços da barbárie de elites e seitas que jogam no lixo tanto a Constituição do País quanto aquilo que chamam de “Direitos dos Manos”…

Neste contexto, O Voo da Primavera é um filme importante também por propor ao debate público uma reconsideração da Teologia da Libertação, movimento iniciado por Gustavo Gutiérrez no Peru e que tem no Brasil, entre seus mais célebres defensores, figuras como Leonardo Boff, Frei Betto, Hélder Câmara, além do próprio Tomás Balduíno. Entre os estudiosos do tema, destacam-se os grandes sociólogos e educadores José de Souza Martins, Carlos Rodrigues Brandão e Michael Löwy.

O próprio Paulo Freire, que se dizia um marxista cristão e que tanto inspirou os ideais sócio-políticos e pedagógicos do MST, também tem uma vida e obra profundamente imbuída na Teologia da Libertação.

No cinema, obras importantes já haviam sido realizadas debatendo o tema, tanto entre os documentários – caso de Igreja dos Oprimidos, de Jorge Bodansky – quanto entre os longas-metragem de ficção – caso de Batismo de Sangue, filme inspirado na obra de Frei Betto.

É a este cânone que O Voo da Primavera vem se somar, propondo à nossa consideração os rumos e horizontes propostos por aqueles da “esquerda clerical”, também imensamente determinantes na gênese do PT (Partido dos Trabalhadores), partido que emergiu também com o concurso de forças das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).

Em um tempo histórico em que o próprio Vaticano deu uma guinada rumo a uma teologia mais libertária, com o Papa Francisco (o argentino Jorge Bergoglio), o debate público volta a se inflamar com temáticas exploradas pela Teologia da Libertação enquanto o cárcere de Lula se prolonga – injustiça que a muitos olhos será lida como símile de martírio.

O tema mítico da Terra Prometida, mobilizado por tantas religiões proféticas, costuma dar de comer aos famintos apenas um símbolo, uma descarnada esperança. A Terra Prometida, toda repleta de leite e mel, o Éden do amor e da concórdia, a Terra Sem Males, onde não há doença, velhice ou morte, é com frequência projetada num além-túmulo, numa dimensão transcendente. É uma utopia religiosa, um não-lugar no qual alguns botam fé, mas que todos sabemos que aqui embaixo não há.

Já a Teologia da Libertação, fiel nisto ao espírito do marxismo, passa a demandar a Terra Prometida para já, ou seja, justiça, igualdade, fraternidade, para este mundo, aqui e agora! Não se trata mais de cair de joelhos e rezar por uma intervenção divina, trata-se de arregaçar as mangas para fazermos juntos uma intervenção humana.

Este espírito “mundano”, mas animado pela chama de uma mística, pulsou firme no coração das células que constituíram, através de suas histórias, esses organismos coletivos como a CPT, o MST, o PT, dentre outros. Agora, estes são convocados a novamente agirem de modo intenso e transformador nos processos históricos atuais, que são tão brutais contra os humilhados e ofendidos.

Sendo o Brasil o que é – lembremos da Guerra de Canudos, de todo o sangue vertido sobre Os Sertões (cujas crônicas Euclides da Cunha e Vargas Lllosa, dentre tantos outros, nos legaram) -, é quase certeza que a religiosidade vai se meter com política de modo aterrador nos próximos capítulos de nossa tragicomédia nacional. Precisamos escolher bem nossa mística. Os messianismos em choque expressam-se nas próprias urnas, em 2018, com a disputa pelos nossos votos para a presidência sendo convocados nas direções mais antagônicas: Lula, Bolsonaro, Marina, Ciro, Boulos, Meirelles…

No contexto de um colapso parcial da crença na democracia representativa burguesa, crescem também os que recusam qualquer messianismo, ascendem os ateus e agnósticos em política, ou mesmo crescem os niilistas práticos que buscam isolar-se no apoliticismo. Ou seja, os votos brancos e nulos são a escolha de dezenas de milhões – que nem iriam às urnas se o voto não fosse obrigatório.

Essa negação da política parece-me perigosa, e nefastos podem ser os que se pretendem neutros: diante da persistência de inúmeras injustiças e com o rolo compressor de direitos que hoje nos esmaga, se escolhermos a negação da participação social, a noção de que a política é só engodo e lodaçal, não estaremos fazendo o jogo dos opressores, que querem que permaneçamos na idiotia de nossos cuidados com a vida privada, deixando a eles todo o domínio público a ser abocanhado?

Em um momento de exacerbamento da Guerra de Classes, temos que escolher nosso lado na trincheira – e a oposição básica segue sendo entre os que lucram com a opressão e os que resistem e rugem suas discórdias em prol da construção de uma sociedade com menos opressão.

O antagonismo não será jamais transcendido de todo – desde os pré-socráticos, ou mesmo antes deles, já havíamos sido alertados, por exemplo pelo Heráclito de Éfeso, que o conflito é o pai de todas as coisas e que a vida é basicamente luta. Viver é lutar contra a morte, a doença, a aniquilação de si mesma, é perdurar no esforço de existir, é conatus e libido em estado de temporária incandescência. Mas não se vive sozinho, por isso cada vida tem que assumir lutas coletivas:

“A luta pela terra e pelo território representam um capítulo longo e violento da história brasileira. Essa história, que passa pelo avanço do capitalismo no campo, esteve permeada pela expropriação material e simbólica dos povos indígenas, das populações tradicionais e comunidades camponesas, além de ter resultado em milhares de assassinatos durante os conflitos no campo. Em contrapartida, o povo organizado em movimentos sociais, com apoio de diferentes organizações, tem construído dialeticamente uma base sólida de luta e resistência.” – Flyer do doc “O Voo Da Primavera”

Sebastião Salgado, um de nossos mais brilhantes artistas, deu preciosas lições ao Brasil sobre este tema. É comovedora em excesso, dentre tantas fotos magistrais, aquela em que ele retrata uma multidão de gente atravessando a porteira de um latifúndio para ocupá-lo. Transcorria o ano de 1986, no Paraná, quando o MST decidiu pela ocupação da fazenda Giacometti. Salgado decidiu participar de tudo como testemunha ocular e aliado-partícipe – suas fotos, publicadas no livro Terra, fizeram repercutir o evento por toda a globosfera.

“Era impressionante a coluna dos sem-terra, formada por mais de 12 mil pessoas, ou seja, 3 mil famílias, em marcha na noite fria daquele início de inverno no Paraná. O exército de camponeses avançava em silêncio quase completo. Escutava-se apenas o arfar regular de peitos acostumados a grandes esforços e o ruído surdo dos pés que tocavam o asfalto. Corretamente utilizados, os 83 mil hectares da Fazenda Giacometi poderiam proporcionar uma vida digna aos 12 mil seres que marchavam naquele momento em sua direção.

O rio de camponeses que correu pelo asfalto noite adentro, ao desembocar defronte da porteira da fazenda, pára e se espalha como as águas de uma barragem. As crianças e as mulheres são logo afastadas para o fundo da represa humana, enquanto os homens tomam posição bem na frente da linha imaginária para o eventual confronto com os jagunços da fazenda.

Ante a inexistência de reação por parte do pequeno exército do latifúndio, os homens da vanguarda arrebentam o cadeado e a porteira se escancara; entram; atrás, o rio de camponeses se põe novamente em movimento; foices, enxadas e bandeiras se erguem na avalanche incontida das esperanças nesse reencontro com a vida – e o grito reprimido do povo sem-terra ecoa uníssono na claridade do novo dia: REFORMA AGRÁRIA, UMA LUTA DE TODOS!”

SEBASTIÃO SALGADO – Paraná, 1996
In: BRANDORD/ROCHA, Rompendo a Cerca, p. 207

Por Eduardo Carli de Moraes – IFG/Anápolis – Junho de 2018

A práxis educativa revolucionária de Paulo Freire foi alvo da truculência da Ditadura Militar – Saiba o porquê da prisão e exílio do criador da Pedagogia do Oprimido

Paulo Freire propôs e praticou “um revolucionário programa de educação que prometia erradicar o analfabetismo no Brasil, mas foi abruptamente interrompido pelo governo militar após o golpe de 1964.

Dois anos antes do golpe, Paulo Freire havia lançado um movimento no Nordeste, onde 20 milhões de adultos, num total de 35 milhões, eram analfabetos e, por isso, impedidos de votar. Havia resistência feroz por parte dos proprietários de terra e dos senhores de engenho, que lucravam com a ignorância dos trabalhadores. Mesmo assim, o método de Freire – que ensinava uma pessoa a ler e escrever em 45 dias – permitiu que centenas de milhares de pessoas tirassem o título de eleitor.

O governo reformista do presidente João Goulart ficou tão impressionado com o sucesso do método de Freire que resolveu estendê-lo a todo o país. Em 1963, foram treinados coordenadores para administrar 20000 (vinte mil) círculos de alfabetização, com o objetivo de ensinar 2 milhões de pessoas a ler e escrever.

Era um tempo de grande mobilização social nas áreas rurais. Cerca de 1300 novos sindicatos rurais foram organizados. Em Pernambuco, quase 250000 (duzentos e cinquenta mil) cortadores de cana entraram em greve, pela primeira vez. A população rural aprendia a ler, escrever, votar, organizar-se, manifestar-se e fazer greve.

Esse rumo de eventos alarmou as elites conservadoras do país, e o resultado foi o golpe militar de Primeiro de Abril de 1964, ou 31 de Março, como preferiam comemorar os militares, porque a data exata do golpe era o dia mentira.

Paulo Freire foi preso e exilado, outros países beneficiaram-se de seus métodos, enquanto a educação brasileira estagnava. Quando o regime militar chegou ao fim, em 1985, contava com grandes índices de analfabetismo. Em 1988, em uma das mais importantes conquistas da nova Constituição, os analfabetos finalmente adquiriram o direito de votar.”

Sue Branford e Jan Rocha em Rompendo a Cerca. Ed Casa Amarela. Pg. 157.


BIOGRAFIAS DA RESISTÊNCIA

MEMÓRIAS DA DITADURA – Paulo Reglus Neves Freire, educador brasileiro reconhecido internacionalmente por sua práxis educativa. Ficou conhecido por ter desenvolvido um método inovador de alfabetização, que o tornou uma inspiração para gerações de professores, principalmente na América Latina e na África. Seu método conquistou muitos adeptos entre pedagogos, cientistas sociais, teólogos e militantes políticos.

A coragem de colocar em prática um trabalho de educação libertadora, que identifica a alfabetização com um processo de conscientização, fez de Freire um dos primeiros brasileiros a serem exilados pela ditadura militar. Acusado de subversão e preso em 1964, durante 72 dias, partiu para o exílio no Chile, onde trabalhou por cinco anos no Instituto de Capacitação e Investigação em Reforma Agrária (Icira) e escreveu seu principal livro: “Pedagogia do oprimido” (1968). Freire ainda passou por Estados Unidos e Suíça. Nesse período, prestou consultoria educacional a governos de países pobres, a maioria no continente africano.

Em 1980, Paulo Freire retornou ao Brasil e filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1989, assumiu a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na gestão de Luíza Erundina. Nos anos seguintes, escreveu dois livros considerados fundamentais em sua obra: “Pedagogia da esperança” (1992) e “À sombra desta mangueira” (1995).

Freire lecionou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e recebeu o título de doutor Honoris Causa por 27 universidades, além de homenagens e prêmios internacionais. Em 2012, foi criada a lei que declarou Paulo Freire patrono da educação brasileira.

Casou-se duas vezes: com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira, mãe de seus cinco filhos e falecida em 1986; e Ana Maria Araújo Freire, uma ex-aluna. Freire morreu no dia 2 de maio de 1997 em São Paulo, vítima de um infarto agudo do miocárdio.

EXPLORE MAIS EM A CASA DE VIDRO:

POEMAS DA PRÁXIS @ A CASA DE VIDRO – Agostinho Neto, Patativa de Assaré & Carlos Rodrigues Brandão

Do Povo Buscamos a Força

Agostinho Neto (1922 – 1979)

Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

Dos que vieram
e conosco se aliaram
muitos traziam sobras no olhar
intenções estranhas.

Para alguns deles a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança.

Para alguns outros era uma bolsa
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.

Outros viemos.
Lutar pra nós é ver aquilo
que o Povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É sermos livres pra trabalhar.
É ter pra nós o que criamos
Lutar pra nós é um destino –
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.

Na mesma barca nos encontramos.
Todos concordam – vamos lutar.

Lutar pra quê?
Pra dar vazão ao ódio antigo?
ou pra ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos
Quem há-de ser o timoneiro?
Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O Povo tomou a direção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

In: Poemas de Angola

Cante Lá Que Eu Canto Cá

Patativa do Assaré

Poeta, cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem.Pra gente cantá o sertão,
Precisa nele morá,
Tê armoço de fejão
E a janta de mucunzá,
Vivê pobre, sem dinhêro,
Socado dentro do mato,
De apragata currelepe,
Pisando inriba do estrepe,
Brocando a unha-de-gato.

Você é muito ditoso,
Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu gozo,
Que eu canto meu padecê.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.

Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e de ôro,
Para a gente sertaneja
É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito,
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito,
Com tudo quanto ele tem,
Quem sempre correu estreito,
Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão
Suportando a privação
Com paciença de Jó,
Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada,
Moiadinho de suó…

SIGA OUVINDO O POEMA DECLAMADO e ACESSE O TEXTO NA ÍNTEGRA:


As gentes de qualquer favela, vila ou lugar de camponeses
têm os seus sábios, seus cientistas, sacerdotes, artesãos,
artistas, juízes, professores e estrategistas.
Eles são como nós, nossos iguais do povo em artes e ofícios.
Mas às vezes o educador popular olha em volta e não os vê
e assim trabalha sem eles, ou contra eles;
passa ao largo da sua sabedoria subalterna,
nada aprende com eles sobre as práticas populares
e nem ajuda a fazê-los aprenderem
a reinventar os seus símbolos e os usos sociais deles.

(…) os agentes da Cultura Popular são uma gente para nós
sem face, anônima ou coletiva, a quem chamamos de
“povo”, “o povão”, “a massa”.
Ou eles são então os sujeitos com apenas meio nome, apelidos
sem os nossos títulos de doutor, dom, mestre ou professor:
Lula, Percival, Joaquim de Goiás, Patativa do Assaré, Dona Maria,
Chico Poteiro, Severino Pelado, Santo, Zé Moreira…
Eles são os “intelectuais tradicionais” da roça e da cidade:
rezadores, benzedeiras, artistas de cordel, inventores de mitos,
violeiros repentistas, capitães de ternos de congos, mães-de-santo.

São também, convertidos de uma face à outra da prática e da cultura,
os sujeitos que ajudam a conduzir a consciência de classe
pelo território difícil das muitas frentes de combate:
o líder operário, o presidente do sindicato sem pelego,
o artista militante, os agentes das comunidades de base,
as mães do clube de bairro, as mulheres do movimento “das mulheres”,
os dirigentes anônimos dos comitês de greve, os organizadores
populares dos partidos do povo.

Juntos eles constroem os dois lados da cultura popular:
o que reflete a vida no passado e o que pensa a do futuro.
Eles são os verdadeiros professores de uma Educação de Classe
e, quando se educam a si próprios com a prática de que são parte,
fazem avançar a prática, a consciência e a cultura
de que são os verdadeiros guias.