Sátira cinematográfica repleta de sacrilégios e blasfêmias, “O Novíssimo Testamento” narra a Queda do Patriarcado em um sci-fi teológico

“O Novíssimo Testamento”
(Le Tout Nouveau Testament, Bélgica, 2015, 1h 54min),
Um filme de Jaco Van Dormael

Esta sátira cinematográfica é repleta de sacrilégios e blasfêmias entregues mais ao estilo O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain do que na vibe Monty Python em A Vida de Brian. Um roteiro cheio de malícia, fruto talvez de uma convivência fecunda com a obra de um Buñuel (em especial o extraordinário A Via Láctea, de 1969), de um Pasolini, de um Jodorowksky – três dos mais ousados blasfemadores da sétima arte.

Em Le Tout Nouveau Testament, ou O Testamento Novinho Em Folha, conhecemos uma família nuclear – Pai, Mãe e Filha – que são nada mais nada menos do que Deus-Pai, sua esposa e a irmãzinha de Jesus Cristo. Vivem num cafofo de classe-média-baixa em Bruxelas e o cotidiano deles não é nada celestial. Só treta e mutreta.

O Deus-Pai é um perfeito calhorda, agressivo, destemperado, espancador de crianças, personificação bem grosseirona do Patriarcado e da Dominação Masculina. Uma figura que parece incorporar todas as características sórdidas atribuídas a Jeová, Alá, Baal e outros deuses do panteão transcultural de deuses besta-fera. As feministas que estudam a fundo os temas da presença histórica da Supremacia do Macho talvez julguem este personagem muito caricatural para dar conta de representar a contento o real. Mas de todo modo “O Novíssimo Testamento” dá pano pra manga às discussões sobre opressão sexista e seus vínculos com a religião instituída.

A filha, Ea, rebelando-se contra o Pai e o tudo que ele pratica e simboliza, organiza um pequeno levante feminista que abalará toda a vida sobre o planeta Terra. A mocinha dá uma de hacker e invade o sistema computacional com o qual Deus-Pai realiza sua tosca gerência do mundo. Trata-se de um gerente que diverte-se vendo mocinhas tendo seus braços amputados. Um gerente que produz uma guerra para poder assistir a um bom filme de guerra. 

A menina tem muitas outras razões para estar em aberta rebelião contra o pater-theos: este é um daqueles canalhas sádicos que inventou terremotos e tempestades em seu divino tédio somente para divertir-se de seu enfado celestial. Aquele mesmo, enfurecido contra a diferença das expressões do amor humano, que lançou bolas de fogo  para exterminar as populações de Sodoma e Gomorra. Ou aquele que mandou Abraão cortar a garganta do seu próprio filho Isaac, na gag sádica perpetrada por uma autoriedade sedenta por obediência mais célebre do Testamento do Antigo Regime – aquele mesmo que este filme propõe-se a destronar a golpes de sarcasmo. Que pretensão impertinente! De uma arrogância que poderia ser dita Nietzschiana… com a verve pontiaguda de Diderot ou Voltaire, esclarecedores-bufões…

Boa parte da graça desta comédia sacrílega do cineasta belga Jaco Van Dormael (o mesmo de “Mr. Nobody / Sr. Ninguém”) está em imaginar Deus-Pai como o criador da Lei de Murphy, aquela que diz “nada é tão ruim que não possa piorar”. É tão sádico este Deus-Pai crudelíssimo que instituiu como lei: que nenhuma desgraça despenque sobre os seres humanos chegue sozinha. As desgraças vem sempre em manadas, por favor do escroto lá em cima.

Instituiu Ele também pequenas sacanagens cotidianas contra os humanos: decretou que as torradas sempre caiam com a geléia ou o requeijão de cara no chão; decretou que o telefone toque sempre que alguém acaba de entrar na banheira; decretou temporais que tornam o mundo intransitável e que chovem justo quando o sinal de libertação da escola tocou. É um Deus-Pai que mais parece com o Fradim do Henfil. É um Deus-Pai, para falar na linguagem atual dos interneteiros, que é um baita trollador. 


Diante disso, a mocinha se rebela, inflama-se em seu peito o ímpeto anarco-libertário que também estava em seu irmão Jesus segundo Leminski. Ela, a Ea do levante mirim anti-patriarcal, invade o bunker paterno e zoa todo o rolê: decide enviar as datas de morte de todas as pessoas sobre a face da Terra para que todos saibamos quantos anos, meses e vida cada um tem pela frente. É um transtorno geral.

Todo mundo, de repente, sente-se com os dias contados, tem a revelação incontornável da sua finitude. A notícia celestial, a revelação do prazo vital de cada um, cai do céu na forma de torpedos de celular. É o teatro do absurdo na era da cibercultura… Até as obras de ficção científica teológico-satírica no cinema atual parecem querer honrar às problematizações propostas por uma das melhores séries dos últimos anos: Black Mirror.

O espectador mais inquisitivo fica se perguntando como é que os bilhões de terráqueos humanos que não possuem um aparelho celular ficam sabendo da notícia que os céus – ou melhor, a hacker do céu – querem comunicar. Assim como no peito dos desafinados também bate um coração, e por isto os desafinados também têm direito à expressão musical, também no peito dos des-celulariados bate um coração com prazo de validade, e se todos agora ganharam acesso a uma informação que sempre nos foi tão misteriosa, também teriam pleno direito a ela por sua pertença à estirpe humana.

Os sem celulares, símiles sociais dos sans papiers, se não entram no círculo de receptores das mensagens celestiais, é pois são vítimas de um sistema de comunicação Deus-Homens que estabelece privilégios de classe absurdíssimos. Privilégios que tornam Deus-Pai, além de sexista e autoritário, também um baita dum capitalista selvagem, daqueles que só se comunica com “gente de classe”…

O filme, daí em diante, divide-se em 6 capítulos, quase como se fossem meia-dúzia de breves e poéticos contos, devotados aos 6 discípulos que Ea, em seu Êxodo, descendo à Terra como seu brother J.C. fizera um dia, busca aliciar.

Os 6 apóstolos novos terão suas histórias bizarras, quase sempre de teor e vibe bittersweet, contadas com muita graça – incluindo um impensável romance de Catherine Deneuve com um gorila.

Uma coisa esplendorosa em seu desprezo pelo bom gosto, em sua afronta ao kitsch, e que evoca também os experimentos estéticos de um dos melhores filmes brasileiros da década (2010-2019): Animal Político, do Tião lá do Recife.

No caso de ambos os filmes, apesar da forte presença do cômico às mancheias, tudo vem tingido por certa melancolia. Nisso também há uma atmosfera afetiva que lembra o delicioso Mary e Max (2009), animação australiana genial realizada por Adam Elliot. Estes filmes fazem uma mescla bem dosada de comédia inteligente e sondagem aflita dos mistérios existenciais desta coisa esquisitíssima que é a condição humana. Nisso, são algumas das comédias que melhor se conectam ao espírito e ao legado do grande gênio da comédia cinematográfica Woody Allen, por sua vez discípulo fértil de Buster Keaton.

No final de O Novíssimo Testamento – cuidado com os spoilers! – o que desenha-se no firmamento do filme é uma espécie de Queda Brutal do Patriarcado: Deus-Pai rebaixado ao status de um reles refugiado no Uzbequistão. Expulso do Éden como um dia fizera com Adão e Eva. A vitória do Matriarcado, porém, é descrita de modo altamente kitsch, beirando o mal gosto das demagogias de filmecos crowd-pleasing, o que quase que estraga a experiência estética que Van Dormael construiu. Um filme tão provocativo quase se afundou, em seu desfecho, no lodaçal de vender-se ao happy end comercialmente rentável. O final, aliás, prejudica muito o filme pois lança uma luz retrospectiva sobre a obra inteira como se sua meta fosse primordialmente ser um crowd pleaser muito mais que um crowd provoker.

Não tenho nada, absolutamente, contra a vitória do Matriarcado sobre o Patriarcado que o filme narra. Porém o filme parece comunicar de modo subliminar alguns preconceitos sexistas sobre a mulher, sobre o feminino, sobre o que seria um “mundo comandado pelas mulheres”, já que projeta nos céus de seu ideal supostamente feminista apenas o ímpeto decorativo, a vontade de adorno e boniteza, que vincula à figura da Mãe-Divina.

Poucos segundos antes da Revolução Teológico-Doméstica que a Teo Mama realiza nos céus, que ela torna livres do tirano Deus pintudo, ela passava o aspirador de pó no gabinete de trabalho do Pai-Marido-Patrão… A mãe, hackeando o Sistema, utiliza-o somente para usar o céu do mundo como parede em branco onde espalhar papéis-de-parede coloridos. Ainda está apegada à persona submissa e doméstica que o Patriarcado historicamente impôs. A autêntica revolução feminista que mandasse para o túmulo o sádico, horrendo e longevo Pesadelo do Patriarcado jamais poderia se limitar a atos tão estreitos e toscos quanto a personagem da Mãe faz no finzinho do filme.


Por isso senti que a real heroína do filme, aquela que mais entusiasma, aquela que é mais adorável (“endearing“, como diz uma bela palavra em inglês), é a criança, a menina rebelde, a insurgente Ea, a desobediente anarquistazinha Emma Goldmaniana, a rubra e ousada contestadora, a Mafalda belga, a Eva sem medo de pecar. Ela é a “filha de Deus” que, subvertendo o estereótipo Freudiano, ergue-se em levante contra a dominação masculina e o patriarcado teológico-político, ousando propor um Novíssimo Testamento.

A subversão da pirralha não só tem muita graça; tem chance de ser influência salutar nas lutas feministas atuais e na demolição de preconceitos machistas e sexistas que perpetuam o Pesadelo do Patriarcado. Isso que pra nada presta senão para aporrinhar o mundo todo, mulheres e homens em conjunto. O feminismo é algo cuja vitória deve ser desejada por todos nós pois envolve o aprimoramento do mundo e das relações para além da barbárie teológico-política da Dominação Masculina amparada em sagradas mentiras. Longe de causa apenas feminina, o feminismo é uma causa humana. Que nela nos engajemos todos pois nela todos temos a ganhar.

Que o cinema siga ensinando-nos, quando ousa, o caminho da subversão, da contestação e da superação – e, se puder, que o faça com graça, verve e fina sátira! “Le Tout Nouveau Testament”, neste contexto, é uma jóia artística que, através da comédia, retira o peso esmagador de seriedade com que costumamos envolver o tema dos deuses. Os deuses, longe de reverência, merecem nosso escárnio; longe de abaixarmos nossas tristes cabeças em obediência, devemos nos libertar da subserviência a eles que nos enclausura na melancolia da heteronomia.

Através de suas caricaturas, o filme mostra um Deus-Pai odioso, digno apenas de nossa revolta; um deus que é como um espelho distorcido dos próprios vícios humanos, e mais especificamente os masculinos. Subliminarmente, o filme sugere vias de pesquisa para aqueles que gostariam de desvendar como se deu, na História, a comunicação dos malefícios comportamentais destes humanos-de-testículos aos produtos de suas imaginações que eles projetaram no céu divino ou no Olimpo celestial, para assim sentirem-se melhor justificados para exercer, na Terra, a dominação opressiva.

* * * * *

Crítica Livre por Eduardo Carli de Moraes.

#CinephiliaCompulsiva2017 @ A Casa de Vidro >>> Leia outros artigos: http://www.acasadevidro.com/cinephilia-compulsiva-resenhas-sobre-filmes/

Ficha do filme em IMDb: http://www.imdb.com/title/tt3792960/?ref_=nm_knf_i2

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Ao não questionar se a História é escrita pelos vencedores, o drama histórico “Dunkirk”, de Chris Nolan, naufraga na demagogia [Opinião do #CinephiliaCompulsiva]

Fui ao cinema com expectativas altas demais para que não saísse de Dunkirk como alguém que levou um tombo no asfalto rala-joelhos da decepção. Tinha a esperança de ver um excelente filme, que justificasse os 30 golpinhos reais largados na bilheteria e seus preços escorchantes. Tinha ganas de uma daqueles raras, mas salutares, sessão–de-filme-que-não-se-esquece-jamais. Expectativa excessiva, frustração na certa… Em contraste com a fantasia esperada, deparei com a obra mediana, quase insossa, que foi entregue por Chris Nolan. Avalio que o cineasta ficou muito aquém, nesta sua primeira incursão pelo cinema-de-guerra, das obras-primas do gênero, como Apocalypse Now, de Coppola; Nascido para Matar – Full Metal Jacket, de Kubrick; Vá e Veja, de Klimov; A Lista de Schindler, de Spielberg; Além da Linha Vermelha de Mallick; dentre outros.

Dunkirk não tem a densidade emocional (a capacidade de nos afetar) ou a contextura histórica (o trançado da totalidade social concreta refeito em linguagem) para alçar-se ao nível das grandes obras que abordaram a belicosidade humana, em seu pleno caos e fúria, mas sem esquecer de uma reflexão sobre suas causas e possíveis remédios. Dunkirk tem batalhas e tiros demais, História e filosofia de menos. Tem muita pirotecnia de filmagem pra pouca reflexão crítica. Falta sobretudo crítica mais incisiva sobre a figura de Winston Churchill, que o desfecho do filme tende a idealizar e que deixa Nolan muito próximo de chafurdar na demagogia de patriotário.

Dunkirk é mais um filme de ação do que de fato um drama histórico. Nele, Nolan mostra-se ainda não suficientemente maduro para pretender fazer justiça às atribuições excessivas que se faz, entre crítica e público, de seus abundantes dons: ele chega a ser chamado de “O Novo Stanley Kubrick”, um apelido que, à luz de Dunkirk, soa como uma super-estimação, um exagero não mais justificável.

A trajetória pregressa de Nolan nos fazia esperar algo muito melhor dele do que o previsível Dunkirk, que nada acrescenta à história do filme-de-guerra, nem traz nada de original à história do cinema: Nolan arriscou-se pouco, entregou um de seus roteiros mais fracos, o que nos leva a suspeitar que o verdadeiro gênio da escrita fílmica é seu irmão, Jonathan Nolan. Quando Jonathan aparece pondo mãos à obra nos roteiros que seu irmão Chris filma, sente-se um escritor talentoso por trás do tecido narrativo repleto de viravoltas, como em O Grande Truque (The Prestige). Jonathan, contista-roteirista de arroubos geniais, foi capaz de bolar a estética cinematográfica, beirando o revolucionária, que foi aquela inversão integral da temporalidade linear no filme-integralmente-de-trás-pra-frente que é Amnésia (Memento, aliás baseado no conto Memento Mori de Jonathan Nolan). Amnésia, aliás, que chega a resultados bem mais arrojados e interessantes do que outro filme que enveredou-se pelo mesmo caminho: Irreversível, de Gaspar Noe.

Desta vez, em Dunkirk, voando solo como roteirista, sem parceria com o irmão, Chris mostra que ainda lhe falta algo que talvez Jonathan é que tenha em abundância: a audácia, o arrojo, a criatividade selvagem, inebriada de si mesma, que torna Jonathan Nolan um dos melhores roteiristas desta geração, ao lado de um Charlie Kaufmann, de um Lars Von Trier… Chris Nolan, sozinho, não chega aos pés destes e mostra-se como alguém que, embora no pleno domínio da parte técnica de seu métier, falha na construção de um roteiro realmente envolvente e memorável. Em Dunkirk, faltou realizar algo de mais lembrável – ou o grau mais intenso deste, o inesquecível.

Sua filmografia revela sim um autor cinematográfico e não somente um funcionário da indústria, um artista-do-cinema dos mais relevantes hoje em atividade, que flerta com vários gêneros com alta maestria, sem ser escravo da indústria do entretenimento, apesar de atrelado firmemente a ela em certos projetos (como a trilogia Cavaleiro das Trevas, blockbuster da indústria cultural massificada). Nolan tem de fato uma filmografia respeitabilíssima com obras-primas ecléticas como Amnésia (2000), um thriller psicológico; Interestelar (2015), uma ficção científica; Cavaleiro das Trevas – Trilogia, um épico de super-heroísmo extraído das HQs do Batman.

Eu classificaria Dunkirk como um de seus piores filmes (ainda que tenha seu mérito), equiparável ao desfecho um tanto bufônico da trilogia The Dark Knight: rocambolesca, inverossímil, léguas aquém das tramas de um Alan Moore, anos-luz aquém dos dois primeiros filmes (Batman Begins e The Dark Knight). O que ocorreu com Nolan no terceiro filme da trilogia Batman é equiparável com o tombo tomado pela trilogia Matrix em sua terceira parte. Em Dunkirk, ele pode até ter feito uma filmagem ágil, esperta, complementada por uma montagem que flui bem, mas parece que lhe faltou mais embasamento na complexidade histórica, mais abertura para outras leituras possíveis.

Com Dunkirk, Nolan desperdiça a chance de realizar um épico histórico. Com um tão gigantesco elenco de coadjuvantes – que devem representar 400.000 soldados que estão espremidos entre o mar e o enfurecido exército nazi – Nolan poderia ter se alçado à épica de um Eisenstein, poderia ter almejado fazer o seu Outubro, seu Encouraçado Potemkin… Mas não rolou: fracassou ao nem sequer tentar se alçar como Ícaro às alturas de Eisenstein; acabou ficando mais parecido do que seria desejável com o James Cameron de Alien 2: é tiro, bomba e torpedo pra todo lado, pra disfarçar a falta de um roteiro de fato bem amarrado e repleto de twists’n’turns melhores e mais memoráveis. Nolan, que por seu percurso prévio já fez sim por merecer comparações com Stanley Kubrick, em Dunkirk fica muito longe de transmitir o que Nascido Para Matar comunica.

Pode até argumentar-se que, sem tentativas de pregação ideológica, Dunkirk permite ao espectador uma espécie de “imersão” em um momento histórico dos mais conturbados, durante a 2ª Guerra Mundial. Em nenhum momento o filme fica parecendo com uma aula de geografia – e eu nem sequer o recomendaria a professores que querem debater geopolítica… – e isto deixa a ação desprovida de uma densidade de senso histórico que a própria obra deveria ter construído em sua imanência, devia ter trazido em seu bojo para lhe dar uma contextura própria. O cinema de reconstrução histórica foi utilizado de modo muito restrito e modesto por Nolan. É só comparar com o tipo de reconstrução da Revolução Bolchevique evocada por filmes como Outubro de Eisenstein ou Reds de Warren Beatty, compará-la com a evocação de Dunkirk de Nolan, para que este empalideça na comparação (it pales in comparison…).

O filme de Nolan também não choca nem faz refletir sobre as atrocidades bélicas com a força chocante e impiedosa imprimida por Elem Klimov ao seu insuperável Vá e Veja (1985), talvez o filme de guerra mais impressionante que já assisti. Vá e Veja tem a coragem de pôr os pontos de interrogação bem fundo: questiona a crueldade humana, a capacidade mortífera de grupos alucinados pelo vírus belicista e pela bactéria do nacionalismo racista. Vá e Veja, em seus pogroms de judeus massacrados pelo nazi-fascismo europeu na Bielo-Rússia, revela algo que Dunkirk recusa-se a mostrar: a profundeza da bancarrota moral, cultural, civilizacional, em que chafurdou o dito Ocidente em meio às devastações das guerras inter-imperialistas. 

Vá e Veja faz sua criança-guerreira (em diálogo com o clássico A Infância de Ivan, De Andrei Tarkovsky) atravessar o fundo-do-poço-sem-fundo da degradação humana completa. Dunkirk disfarça a degradação sob o verniz das pirotecnias cinematográficas e constrói ainda uma fábula demagógica e nacionalista, talvez fishing for compliments em meio às elites britânicas atuais. Nolan fez um filme servil aos interesses hegemônicos reinantes.

Além disso, seus aviões em batalha são filmados com perícia técnica, mas os dramas dos aviadores não conquistam a empatia dos espectadores pois esses personagens são desprovidos de histórias pessoais. Não há flashback algum das vidas pregressas daqueles que a câmera de Nolan elege como protagonistas. Com Dunkirk, Nolan dá outro tombo, não exatamente constrangedor – não pode ser dito uma mancha em seu currículo, não chega a tanto… – mas que leva a sugerir que está faltando mais enraizamento literário ao roteirista Chris Nolan. Faltou, em Dunkirk, a densidade de vivência humana individualizada e descrita em toda a concretude de sua miséria e aflição físicas e psíquicas por obras como The Red Bage of Courage de Stephen Crane, um dos melhores exemplos de como a arte pode abordar os fenômenos da guerra de modo criativo, de uma perspectiva cheia de frescor e novidade (é um livro realmente impressionante…).

O fato é que Nolan dá um tom de patriotada britânica ao seu filme, não complexifica as relações geopolíticas, não fornece coordenadas do tempo histórico mais amplo, em nenhum momento deixa o recinto estreito das batalhas localizadas. A guerra como fenômeno global lhe escapa totalmente, assim qualquer reflexão sobre o que, seja na natureza humana, seja ou nas sociedades historicamente constituídas, conduz o ser humano à belicosidade e à mútua chacina.

É verdade que Nolan propicia uma imersão num ambiente de guerra onde existem demonstrações de solidariedade, resiliência, coragem… Mas nada aqui parece digno de muita reflexão do ponto de vista ético. Tudo é tão masculinista, tão preso ao modelo heróico apolíneo, tão subserviente aos paradigmas de protagonismo conexos à dominação masculina, que a figura da mulher está praticamente ausente de Dunkirk e os heróis-sobreviventes por ele fabricados são Ulisses, mas anonimizados. Um bando de Ulisses sem nome, esquecíveis pois não conhecemos suas epopéias. Personagens vazios. Cascas ao léu no oceano da violência.

 Extrapolando muito do que está na tela, poder-se-ia propor que o filme pinta o retrato da guerra como patologia vinculada em especial à metade masculina da humanidade, o bélico como doidura coletiva patrocinada pelos testículos do mundo. Obviamente, o filme passa em silêncio sobre qualquer debate de gênero, mas tudo nele conspira para dar a impressão de um filme “machão” demais – o que não deixa de estar afinado com o zeitgeist dos “Academy Awards” e com boa parte da platéia que paga os ingressos que engrossam a fortuna de Indústia Cinematográfica Anglo-Saxã. Esta, aliás, que tantas honras duvidosas derramo sobre Alejandro González Iñarritu, vencedor de seu segundo Oscar de melhor diretor na sequência por O Regresso (The Revenant), não parece muito a fim de questionar a dominação masculina, inclusive no âmbito da estética, e que se manifesta também no masculinista e durão DunkirkÉ muito yang pro pouco yin 

Por fim, minha crítica principal é a ausência de qualquer tentativa de abarcar a totalidade em Dunkirk: Nolan simplesmente foca em algo minúsculo demais no cenário global da conflagração bélica “Mundial”, não fornecendo vias de acesso à compreensão ou à reflexão sobre as causas e os processos reais que puseram em funcionamento esta mega-máquina de carnificina em que milhões de humanos foram para o moedor de carne da guerra insana. É um filme que não nos esclarece, que vende soluções espúrias como heróicas valentias: os heróicos marujos civis que entram na guerra para ajudar no resgate dos soldados acossados em Dunkirk são tratados como “salvadores da pátria”, quando não haveria tanta razão para palmas ou aplausos assim. Sintoma de degradação e barbárie, trata-se de uma manada de civis encaminhando-se para o status de militares-de-improviso, uma perspectiva que aterroriza no seio de uma sociedade como a nossa, neoliberalizada até o paroxismo do atual anarco-capitalismo, onde a solução fascista de salvamento-emergencial do Capitalismo em Colapso ganha terreno.

Dunkirk não está à altura de sua atualidade histórica – a era de Trump na Casa Branca, a era de Marine Le Pen quase vencendo eleições na França, a era de Bolsonaro como candidato à presidência da república no Brasil… – pois também fracassa em tematizar o fascismo. Apaga totalmente os nazistas do quadro, como seres humanos, para transformá-los em anônimas máquinas de agressão. Um preconceito não só equivocado, mas nefasto.

Corremos mesmo o risco de ouvirmos críticos por aí dizerem que é mérito de Dunkirk retratar de modo “neutro e objetivo” o que se passou na História. Suspeito, ao contrário, que Dunkirk possa ser lido como objeto ideológico, como produto de demagogia, como filme engajado em uma certo lócus da sociedade atual, justamente o da conservação do status quo catastrófico inventado pelo capitalismo imperialista europeu, com suas potências em choque arrastando-nos às duas Grandes Guerras Mundiais. Imperialismo e fascismo desaparecem do quadro – como se Nolan nunca tivesse aprendido nenhuma lição com Rosa Luxemburgo, com Marx, com Orwell… – e tudo vira celebração do Império Britânico sob Churchill, tudo vira louvor da resiliência e poder de superação do soldado inglês em meio a adversidades extremas…

O tema da veracidade ou falsidade do relato histórico também não vem à tona no Dunkirk de Nolan. Este seria um filme muito melhor caso Chris Nolan tivesse ruminado mais sobre a obra de George Orwell, sobre a noção – explícita na distopia totalitária de 1984 – de que a classe dominante, em um regime autoritário como aquele do Big Brother e seu partido, domina não só o presente mas também o passado. A História é escrita pelos vencedores. Em um artigo chamado “História e mentiras” (publicado em fevereiro de 1944 no Tribune), presente no livro O Que É Fascismo? E Outros Ensaios, Orwell faz um tipo de reflexão que, por sua completa ausência, faz Dunkirk ser uma obra que fica aquém dos desafios históricos aos quais o artista deve responder:

“Durante parte de 1941-1942, quando a Luftwaffe estava ocupada com a Rússia, a rádio alemã brindou sua audiência com histórias de devastadores ataques aéreos a Londres. Hoje, estamos cientes de que esses ataques nunca aconteceram. Mas que uso teria esse nosso conhecimento se os alemães houvessem conquistado a Grã-Bretanha? Para os fins de um futuro historiador, esses bombardeios aconteceram ou não? A resposta é: se Hitler sobreviver, eles aconteceram; se ele cair, eles não aconteceram.

O mesmo ocorre com inúmeros outros eventos dos 10 ou 20 anos passados. Serão os Protocolos dos Sábios de Sião um documento autêntico? Será que Trótski tramou com os nazistas? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa dará as boas vindas à nova ordem? Em nenhum desses casos você obterá uma resposta que seja aceita universalmente por ser verdadeira: em cada caso você terá um número de respostas totalmente incompatíveis, uma das quias é por fim adotada como resultado de algum embate físico. A história é escrita pelos vencedores.

Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (ORWELL, 2017, p. 77)

por Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro
Assistido no cinema Lumière, Goiânia, 05/8/17

 



Críticas gringas: The GuardianThe New Yorker Slant San Francisco GateSeattle Times

CINEPHILIA COMPULSIVA – Trajetórias cinematográficas: Listas de filmes assistidos em 2017 / Parte 2 (Julho a Dezembro)

CINEPHILIA COMPULSIVA
Trajetórias cinematográficas
Itinerários 2017 / Parte 2 (Junho a Dezembro)

“Animal Político”, de Tião
(Pernambuco / BR, 75 min, 2017)



CANÇÃO DA VOLTA (2016, 1h 38min)
Direção: Gustavo Rosa de Moura
Elenco: Marina Person, João Miguel, Marat Descartes.



CORRA! (Get Out), de Jordan Peele (EUA, 2017)
Reviews: Salon



MUNDO CÃO (2016), um filme de Marcos Jorge. Com Lázaro Ramos, Adriana Esteves, Babu Santana
Disponível no Netflix Br





A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA,
um filme de Vinicius Coimbra, inspirado em conto de Guimarães Rosa



À Queima Roupa, Documentário de Theresa Jessouroun (Brasil, 2014).



Trash (2015), um filme de Stephen Daldry e Christian Duurvoort,
baseado no romance de Andy Mulligan, com Wagner Moura e Selton Mello.

Resenhas em Rotten Tomatoeshttps://www.rottentomatoes.com/m/trash_2015



 


COMO FUNCIONAM QUASE TODAS AS COISAS
Um filme de Fernando Salem (Argentina, 2016)
Assistido em Goiânia durante o Sappi no Lumière Bougainville




BORN IN FLAMES ou NASCIDAS EM CHAMAS
de Lizzie Borden



SIGA VIAGEM:

CINEPHILIA COMPULSIVA

Uma história de amor, rock e liberdade – Sobre “Lua em Sagitário”, um filme de Márcia Paraiso

LUA EM SAGITÁRIO

por Eduardo Carli de Moraes || Cinephilia Compulsiva @ A Casa de Vidro

Tudo conspirava para que este cinéfilo, por puro preconceito, passasse bem longe de Lua em Sagitário. De cara, tive uma enganosa primeira impressão do filme como uma comédia romântica possivelmente bem clichêzenta, com pitadas de astrologia barata para mistificar as massas, voltada ao público infanto-juvenil e adolescente, destinada apenas ao sucesso em insossas Sessões da Tarde na Rede Goebbels

Havia algo no aspecto exterior do projeto que instigava uma repulsa instintiva por suspeita de que se tratasse de um caça-níqueis, de mais um exemplar daquela lamentável legião de filmes comerciais vendidos aos parâmetros estéticos e ideológicos de uma besta-fera chamada Mercado. E estou cada vez menos afim de mergulhar de cabeça nas águas rasas de um cinema mesquinhamente mercadológico, mercador de mentiras confortáveis e babaquices açúcaradas.

Com um pouco de pé atrás, avancei até a sinopse, refletindo que valia a pena perder 1 minuto lendo o resumo da ópera para que eu enfim confirmasse que não valia a pena perder 2 horas de vida assistindo o treco. Mas a sinopse me fisgou,  abaixei a guarda das aversões apressadas e dei uma chance a um filme que pretendia tematizar, de modo neo-realista e cheio de empatia, um dos maiores e mais importantes movimentos sociais do continente americano, o MST.

Afinal de contas, talvez houvesse uma boa dose de entretenimento passável e algumas interessantes abordagens de temáticas sócio-políticas nesta obra que pretendia ser uma espécie de Romeu e Julieta em Santa Catarina, misturando o enredo mil-vezes requentado da tragédia Shakespeareana com um plot de road movie sobre 2 rodas. Dei o play e logo pintou a psicodelia dos Boogarins em “Lucifernandis”, dando o tom para o início de uma jornada cinematográfica destinada a “abrir a cabeça” e que superou, e muito, minhas parcas expectativas iniciais.

Os dois protagonistas são os pombinhos apaixonados Ana (Manuela Campagna) e Murilo (Fagundes Emanuel), que moram em pequenas cidades catarinenses próximas à fronteira com a Argentina. São cidades mortas repletas de vidas chatas, onde o sinal de celular e a conexão à Internet são difíceis de conquistar, onde todos parecem morar em sua paróquia e não em cosmópolis. 

No filme, o rock, a web e a motocicleta aparecem como as rotas de fuga em direção a um mundão mais amplo e aberto do que a sufocante estreiteza reinante. A vibe do Easy Rider de Dennis Hopper marca presença, relembrando-nos o incotornável clássico do cinema-hippie.

O elemento de antagonismo, evocando a rixa sangrenta entre Capuletos e Montechios na Verona de Romeu e Julieta, está no fato de que a família de Ana é visceralmente contrária aos sem-terra. Como escreveu Eleonora de Lucena, em crítica para a Ilustrada da Folha de São Paulo,

os pais dela detestam o pessoal do assentamento; defendem a pequena propriedade familiar, a meritocracia. Ele vem de um grupo de luta por conquista de terra, que prega o coletivismo. O embate desses mundos e suas contradições está em Lua em Sagitário”, de Marcia Paraiso. (…) Como em “Terra Cabocla” (2015), Paraiso vai buscar histórias do Brasil profundo. Naquele filme, a diretora tratou da guerra do Contestado (1912-16), conflito sangrento que há cem anos opôs caboclos e uma madeireira multinacional.

Agora, em “Lua em Sagitário”, a mesma tensão está nas entrelinhas. Nessa ficção com atmosfera juvenil e muito rock, os confrontos são levados de forma mais suave e romântica. De certa forma, os personagens da ficção são descendentes do confronto camponês relatado no documentário. Quase na mesma geografia, os caboclos, filhos de escravos, índios, peões, ressurgem no assentamento dos sem-terra –agora pequenos proprietários rurais mobilizados pela política– e no acampamento do MST, com barracas de lona, cantorias e escolas improvisadas. O enfrentamento é com os pequenos senhores de classe média que se sentem superiores e que carregam o processo de “europeização” da região, cevando o ódio aos pobres.

(LUCENA, Folha de S. Paulo)

O cinema de Marcia Paraiso evoca a estética e a ética dos melhores filmes de Jorge Furtado: O Homem Que Copiava, Meu Tio Matou Um Cara, Saneamento Básico etc. Como Furtado é mestre em fazer, Paraiso também sabe unir a leveza e o humor, por um lado, com uma abordagem crítica dos conflitos sociais. Já o caráter road movie de Lua em Sagitário evoca também toda uma série de obras onde foras-da-lei buscam fugir de suas vidinhas chatas em busca de intensos thrills (Thelma e Louise, Bonnie e Clyde, Badlands são alguns dos clássicos…), sendo sensível talvez uma influência do Walter Salles de Diários de Motocicleta (baseado nos diários de viagem de Che Guevara) e On The Road (do romance beatnik de Jack Kerouac).

No caso, Ana embarca com Murilo numa espécie de viagem iniciática em que transcenderá os limites estreitos de sua vida cotidiana de filha única, superprotegida, obrigada a ouvir ladainhas paternas raivosas de ataque aos “vagabundos do MST”. Um discurso de ódio, patriarcal e elitista, que ela, com seus fones-de-ouvido, submerge debaixo das cataratas de distorção e peso dos Black Drawing Chalks e outras bandas indie brasileiras. Ana descobrirá junto de Murilo a falsidade das opiniões atucanadas de seu pai, encontrando nos assentamentos do MST um modo-de-vida onde solidariedade, fraternidade e comunitarismo não são pálidos ideais mas vívidas realidades do convívio diário.

Os dois encontrarão, pela estrada, alguns personagens secundários que encarnam aquela estupidez relinchante de certas elites rurais do Brasil que, ao falarem sobre o MST, usam nossos pobres ouvidos como privadas. A certo momento, Ana revolta-se contra a prepotência de uma mulher que gaba-se de ser filha do prefeito e que, posuda advogada, vomita impropérios contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Ana demonstra neste momento que seu convívio amoroso com Murilo serviu também como pedagogia política, como modo de acercar-se dos oprimidos, e ela mostra-se indignada “com gente que fala tanta bosta” e não tem a mínima capacidade sensível ou intelectual de dizer algo decente sobre o tema da reforma agrária. Sobre isto, a diretora Marcia Paraiso revelou, de modo bem didático:

“Reforma Agrária é redistribuir de forma justa a terra, reparando um processo antigo onde prevalecem os grandes latifúndios e uma legião de trabalhadores rurais sem terra para produzir. O instrumento jurídico para a reforma agrária é a desapropriação das grandes terras improdutivas, feita pelo Estado. Mesmo com os governos de Lula e Dilma Rousseff caminhamos muito pouco. A bancada ruralista se mantém forte nas decisões políticas, garantindo a manutenção do modelo colonial, substituindo o trabalho escravo pelo uso de máquinas e agrotóxicos – mesmo assim, até os dias de hoje, ainda há o uso de trabalhadores escravizados nos latifúndios. Com o momento político que vivemos, a reforma agrária é um sonho. Um sonho que permanece vivo nos movimentos sociais organizados no campo e que se concretiza nos assentamentos com novos modelos produtivos, exemplos de sucesso da agroecologia e na formação de uma nova geração rural.” – Marcia Paraiso. Leia a matéria completa da qual foi extraída a seleção acima.

 


No poster do filme, o slogan propala que Lua em Sagitário é um filme sobre “amor, rock e liberdade”. Não é propaganda enganosa. O casal Ana e Murilo conhece-se e inicia o romance sob os auspícios do argentino LP, uma espécie de velho hippie, que adora Sui Generis e Charly Garcia e empresta livros bacanas para os frequentadores de sua lan-house, A Caverna. Ele atua no filme como uma espécie de guru da contracultura, que abre os horizontes dos jovens tanto para clássicos da cultura latino-americana (de suas mãos Ana recebe Histórias de Cronópios e Famas, de Cortázar), tanto para comportamentos mais libertários vinculados ao amor livre e à vida nômade-boêmia.

Neste contexto é que o Festival Psicodália ganha os contornos de uma espécie de Eldorado, idealizado por Ana e Murilo, que partem em busca deste Graal de modo similar àqueles jovens dos anos 1960 que encaravam centenas de milhas de viagem para chegar a Monterey ou Woodstock. Todo o filme é embalado por uma trilha sonora primorosa onde o rock serve não apenas como trilha-sonora decorativa na vida dos protagonistas, mas como algo mais potente e fecundo: como força viva de contestação e rebeldia, inspiração que convida a quebrar com os velhos dogmas de comportamento e a arriscar saudáveis desobediências às correntes infames da subserviência.

Lua em Sagitário acaba, por isso, soando como uma versão brasileira do adorável filme de Ang Lee, Aconteceu em Woodstock. Até pintam participações especiais bem bizarras de ícones da esquisitice como Elke Maravilha e Serguei (este, vestindo uma camiseta onde se lê “Eu Comi A Janis Joplin”), o que aproxima ainda mais o filme do universo que os detratores chamariam de riponguice. A verdade é que poucos filmes do cinema brasileiro contemporâneos são ripongas com tanto estilo e inspiração quanto este.

Comecei este texto evocando meus preconceitos infundados diante do filme e comentando que as expectativas baixas acabaram por gerar uma experiência fílmica surpreendentemente positiva. Agora devo dizer – alertando antes que aí vem spoiler – que tudo em Lua de Sagitário conspirava para uma espécie de gran finale: eu já estava aguardando ansiosamente que, após muitas adversidades e percalços no caminho, o casal em sua motoca surrada enfim curtiria a glória do amor, do rock e da liberdade em meio à efervescência das artes integradas em confluência lá no Psicodália. Porém o que Marcia Paraiso preparou para nós foi um tremendo dum anti-clímax.

Depois de muito refletir sobre isso, cheguei à conclusão de que o desfecho anti-clímax – avesso e antônimo do deux ex machina – só melhora o filme como obra-de-arte. Deste modo, ele fica mais fiel à vida, ainda que frustre as expectativas do espectador. Quando esperávamos uma conclusão epifânica, uma apoteose de beijos em meio à multidão em ritual hippie-celebrativo no Psicodália, o filme dá um súbito rewind que conduz os viajantes de volta ao ponto de origem. Eles nunca chegam ao Eldorado, envolvidos pela teia da vigilância familiar e da tentativa de captura policial, reconduzidos à paróquia após os sonhos de abraçar cosmópolis.

Se atingir o Psicodélia era o télos desta jornada, dela só poderíamos dizer que fracassou. Mas não. A jornada foi em si mesma a recompensa: pelos encontros e aprendizados que estavam polvilhados pela poeira dos caminhos, pelos beijos e transas que abriram a Ana e Murilo a fonte jorrante dos orgasmos, pelas imersões em realidades menos paroquiais e opressivas, Lua em Sagitário evoca a busca por libertação como sistemático esforço de aniquilação do medo.


Veja o Trailer:

Da mesma cineasta:

P.S. – Estou convicto de que este filme pode ser utilizado com excelentes frutos em sala-de-aula, em especial com turmas do ensino-médio, para uma discussão mais digna e profunda do MST do que aquela que é costumeira em nossa mídia. Sabemos que o MST sofre há décadas com as calúnias e difamações movidas pela imprensa corporativa; este adora papaguear uma enxurrada de termos depreciativos como “invasões” e “vândalos”, utilizados ao invés dos muitos mais apropriados “acampamentos/assentamentos” e “trabalhadores-ativistas”.

Em seu texto “Jornalismo de Verdade”, um prefácio a um dos livros mais importantes já publicados sobre o tema – o livro-reportagem de Sue Branford e Jan Rocha (Ed. Casa Amarela), Rompendo a Cerca, vencedor do Prêmio Vladimir Herzog 2004 [http://bit.ly/2pfbfpt] – José Arbex Jr. diz:

“O MST é total e abertamente demonizado pelos maiores veículos da imprensa escrita, televisionada e radiofônica. Basta que o leitor compare o capítulo do livro Rompendo a Cerca dedicado a descrever o esforço feito pelo MST para educar suas crianças e idosos, que nunca tiveram oportunidade de frequentar uma escola, com as descrições do movimento feitas pela mídia em geral. O brilhante, exaustivo e minucioso trabalho de reportagem feito por Jan Rocha e Sue Branford, para além daquilo que representa em termos de contribuição para que a verdadeira história do MST não passe ao esquecimento, é também um daqueles momentos brilhantes que resgatam o sentido mais profundo da atividade jornalística. Se interessa sempre ao poder passar uma borracha na memória, a obrigação do jornalismo, ao contrário, é fazer aflorar as vozes que foram intimidadas e sufocadas, pois é aí – e não na versão oficial – que se encontra a notícia.

A vocação ética do jornalista, nesse sentido, deve se espelhar no anjo descrito por Walter Benjamin, em sua tese 9 sobre a história: sua ambição maior é deter o tempo, para permitir que fale a legião dos que foram atropelados pelos rumos implacáveis daquilo que se convenciona chamar “progresso”. Jan e Sue fazem isso, com notável conhecimento de causa. Demonstram, sobretudo, uma grande capacidade de entender, ouvir e estabelecer uma relação de empatia com um povo que não fala sua língua natal, não se alimenta e não se veste como os de sua terra, nem adora os mesmos deuses. Eis aí outro componente fundamental do fazer jornalístico tão bem resgatado pelas autoras: a capacidade de traduzir o estrangeiro, de ser, por assim dizer, um correspondente, no sentido mais radical e profundo do termo.

Em uma época histórica tão fortemente marcada pela promiscuidade entre o poder de Estado e os órgãos da mídia, e em que se multiplicam ao infinito os casos de jornalistas que aceitam o papel de escribas oficiais da corte em troca de um punhado de reais ou dólares, é reconfortante saber que existem profissionais como Jan Rocha e Sue Branford.” – (ARBEX – LEIA MAIS)

Se o livro Rompendo a Cerca é um dos mais meritórios trabalhos de jornalismo-de-verdade já realizados sobre o MST, arrisco-me a dizer que Lua em Sagitário, guardadas as devidas proporções, também merece ser considerado como um dos filmes brasileiros que fornece uma compreensão mais empática-simpática dos ativismos, em terra brasilis, em prol de justiça social e reforma agrária, confrontando a velha estrutura patriarcal e latifundiária que faz do Brasil um dos países com pior distribuição de renda e de terra em todo o globo.

Fotografia: Sebastião Salgado

* * * * *

P.S. II – Ciente da dificuldade que muitos terão para assistir este filme na TV ou nos cinemas, estou disponibilizando por aqui o torrent para baixá-lo que circula no fórum Making Off; de maneira alguma desejamos com isso violar direitos autorais ou prejudicar a produção, apenas visamos democratizar o acesso à obra pra que seja degustada; quem gostar do filme, aproveite para dar apoio, fazendo propaganda boca-a-boca ou pelas redes, comprando o DVD ou solicitando sessões em cineclubes locais.

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS – Sobre o filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS
por Eduardo Carli de Moraes​

“Nós somos todos refugiados”, dispara Carmem Silva, uma ativista da Frente de Luta por Moradia (FLM) de São Paulo. “Somos refugiados da falta dos nossos direitos.”

Carmem, esta mulher da vida real que interpretou a si mesma em “Era o Hotel Cambridge”, fusão de ficção e documentário, talvez seja a responsável pela frase mais emblemática deste memorável, contundente e relevantíssimo filme dirigido por Eliane Caffé.

O filme é espetacular por sua capacidade de transcender o cinema e tornar-se um evento cívico, um acontecimento político, uma “experiência de cinema colaborativo em São Paulo que aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática.” (Rede Brasil Atual)

Eliane Brum​, em artigo magistral para EL PAÍS Brasil​, disse que o desembarque entre nós deste OVNI cinematográfico equivale a “um acontecimento político-cultural capaz de expressar as tensões e a potência do Brasil atual”:

“O Hotel Cambridge, personagem central do filme, foi na vida real de São Paulo um hotel de luxo construído no final anos 50 com evocações hollywoodianas. Com o crescimento da cidade e o abandono da região central pelos mais ricos, ele testemunhou sua própria decadência. Em 2004, cerrou suas portas e tornou-se mais um esqueleto do centro, um morto insepulto, abandonado ao vazio. Em 2012, foi ocupado pelo movimento dos sem-teto, uma das forças de maior potência da maior cidade do Brasil.

O hotel foi ocupado por cerca de 140 famílias, mais de 240 crianças. A quantidade de meninos e meninas fica explícita em cuidados como um surpreendente e bem organizado estacionamento de carrinhos de bebê. Na dinâmica da especulação imobiliária, que se impõe como uma lógica questionada por poucos, o fato de o Cambridge ter ficado abandonado por oito anos, juntando lixo e empoçando água, tornando-se um criadouro de mosquitos numa época de dengue, zika e chikungunya, não parece ser um problema para a população.

Já quando o velho hotel foi ocupado para a moradia de quem não tem, os ocupantes são tachados de “invasores” – e a urgência de sua denúncia é apagada pelo processo perverso da criminalização.”

(ELIANE BRUM – Leia na íntegra em http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/20/opinion/1490015804_432739.html)

Em “Era o Hotel Cambridge”, baseado em livro de Carla Caffé, o cinema brasileiro alça-se às alturas artísticas que dele se espera por sua gloriosa história pregressa (de Glauber e Sganzerla, a Meirelles e Coutinho, com incontáveis outros gênios que poderiam ser lembrados). É uma obra coloca-nos algumas questões cruciais para o século 21, época em que vivenciamos a pior crise de refugiados no pós-2ª Guerra Mundial (1939-1945) (sobre o tema, leia: Vladimir Safatle) e em que as utopias urbanas têm insistido em sonhar e construir outros mundos possíveis baseados em ideários como “se a cidade fosse nossa….”.

“Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.” – CAROLINA CAFFÉ em REDE BRASIL ATUAL – Click e leia o artigo na íntegra

Refugiados e imigrantes provenientes do Congo, da Palestina e da Colômbia estão entre os personagens principais desta obra polifônica, rica em diversidade humana, em que Eliane Caffé inscreveu de vez seu nome nos anais da 7ª arte em nosso país. Desde já, a obra merece ser estudada nas aulas de sociologia, já que torna explícita a práxis deste conceito, às vezes compreendido de modo demasiado teórico ou abstrato do  Direito à Cidade, tão essencial na obra da cientistas sociais como Henri Lefebvre e David Harvey (autor de Cidades Rebeldes), e que possui no Brasil um de seus principais pensadores e praticantes na figura do Guilherme Boulos, filósofo e líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

Eliane Caffé já havia realizado um filmaço com “Narradores de Javé” (2003), onde um banquete linguístico de deixar contente qualquer fã de Guimarães Rosa, José Cabral de Melo Neto ou Ariano Suassuna somava-se à descrição de um drama social que retorna ao foco, ainda em que transformado e em outras condições, em “Era o Hotel Cambridge”.

Ambos filmes falam sobre aqueles que são refugiados no Brasil, apesar de serem brasileiros; são gente que poderia figurar no tratado “Os Excluídos da História”, da historiadora francesa Michelle Perrot (Ed. Paz & Terra); são aqueles que foram expulsos de seu direito constitucional à moradia, ao território tradicional/originário, ao usufruto da terra que nos é comum.

São gente como a gente, da qual subtraem-se direitos a fórceps. São gente que sofre na carne as incontáveis desumanidades institucionalizadas que em toda parte vem maculando esta Terra que hoje encontra-se toda conspurcada pelas cercas, arames farpados e muros altos edificados pelas elites dos privilégios.

Em “Narradores de Javé”, os refugiados são os moradores do vilarejo de Javé, que está sob ameaça de desaparecer debaixo d’água devido à construção de uma gigantesca hidrelétrica. É surpreendente notar que um filme realizado no ano de 2003 pode hoje soar profético, emblemático de uma era do nosso Brasil que prossegue vigente 15 anos depois. É como se Eliane Caffé tivesse previsto com uma quase miraculosa clarividência, desde o começo do século, que vivenciaríamos os conflitos e antagonismos que hoje nos atravessam com os projetos à la Belo Monte e os fluxos migratórios desordenados e caóticos que hoje ocorrem pelo globo afora, piorados após as desastrosas campanhas da chamada Guerra Contra o Terror no Oriente Médio.

A resistência rural à redução do cidadão ao estado de refugiado interno tinge “Narradores de Javé” de um teor contestatório latente, transformando o filme, que poderia ser visto apenas como excelente entretenimento, a um só tempo humorístico e pedagógico, ao patamar mais alto das obras-de-arte que são também documentos históricos e sócio-culturais. É uma obra que permite-nos, por exemplo, avançar uma compreensão mais cheia de empatia e de entendimento dos dramas atuais como a luta do povo Munduruku contra as hidrelétricas no Rio Tapajós.

Em “Era O Hotel Cambridge”, os refugiados são os moradores da megalópolis paulista que têm negados pelos gestores palacianos da sociedade a chance, constitucionalmente garantida, à casa própria e digna. São aqueles que, obrigados por circunstâncias adversas a ocuparem imóveis abandonados, dão suor e sangue a prédios abandonados com a nova vida que lhe infundem através da ocupação.

A ocupa, força vivificante, resistente, que contesta o império atualmente vigente da especulação imobiliária e da gentrificação, serve como laboratório de outros mundos possíveis. Um mundo onde a propriedade de privilégios que privam concidadãos do mais básico para a existência digna seja reconhecida pelo que é: privilégio é só propriedade abusiva, ilegítima, reconhecível apenas como “roubo”, como dizia Proudhon. O privilégio é um roubo.

Em uma resenha escrita por Isabel Wittmann, ela pontuou muito bem o potencial do filme em pôr em questão o abismo existente entre a Constituição de 1988, em sua dimensão igualitária e em suas pretensões de instaurar justiça social, com nossa realidade atual, tão marcada por direitos que nos são violentamente subtraídos, em especial com a avalanche de retrocessos patrocinada pelas forças sociais e políticas responsáveis pelo Golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016-2017.

“O artigo sexto de nossa Constituição Federal estipula que “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. O Estado tem a obrigação de garantir que sua população tenha moradia, mas o que fazer quando os governos não só se recusam a fazê-lo, como reagem no sentido de silenciar movimentos que tentar garantir seus direitos? Essa é uma das muitas questões levantadas em Era o Hotel Cambridge, da diretora Eliane Caffé.

Trabalhando nos limites entre o ficcional e o documental, Caffé registra o cotidiano dos moradores do Hotel Cambridge, edifício abandonado no centro da cidade de São Paulo, destacando as vivências caleidoscópicas de alguns personagens que dão corpo à experiência coletiva. A rotina, as reuniões as tarefas e momentos de engajamentos são retratados com fluidez. Dentre as personagens, o destaque é Carmem, líder real da Frente de Luta por Moradia (FLM), que aqui tem sua força coordenadora descortinada para o público. Mas a narrativa é polifônica: não só se pauta em muitas vozes, como é perceptível a colaboração dos participantes com suas experiências reais nas falas de seus personagens. Em certo momento, Apolo (José Dumont), que organiza um espécie de vlog da ocupação, pergunta “Cadê o foco narrativo?“. Não há um foco pois o protagonista é a luta, sendo cada um apenas uma faceta dela.” (WITTMANN, Isabel)

(http://estantedasala.com/era-o-hotel-cambridge/)

Se o filme oferece-nos motivos para indignação, em especial quando desponta toda a truculência das Tropas de Choque, sob comando do Tucanistão, trata-se de um filme bem mais esperançoso do que, digamos, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. A São Paulo focalizada por ambos os filmes é semelhante: é a cidade suja, abandonada, fervilhante de contradições, vista de cima pra baixo, sob a perspectiva dos mais humilhados e ofendidos pelo Sistema; em suma, não é Sampa vista de uma heliponto na Avenida Paulista ou de uma cobertura de 5 milhões no Morumbi, é a Sampa tal como ela é vivenciada nas Crackolândias, favelas e cortiços da maior cidade da América Latina.

“Riocorrente” parece evocar uma Sampa distópica, mais dark que Blade Runner 2049​, onde um dia o Tietê virará nada menos que um rio de fogo – e os protagonistas não vão economizar nas fagulhas e faíscas que tem a fornecer pra que tudo pegue fogo.

“Era o Hotel Cambridge” acredita mais na empatia humana e na força telúrica do amor sob sua encarnação social, expandida para além da cela individual e familiar – aquilo que chama-se comumente de “solidariedade” ou “fraternidade”. O bicho pode estar pegando – a Tucanalha fardada está prestes a chegar, com toda a grosseria brucutu de herdeiros da Ditadura Militar, para cumprir mandato judicial de reintegração de posse com a delicadeza e o respeito humano que viu-se no Pinheirinho (São José dos Campos) – mas o povo, unido, pode até ser vencido, mas luta com união, fortalece-se no esforço de superação das opressões vigentes, reergue-se como Fênix de cada derrota.

Se o Brasil não é um pesadelo totalmente desesperador, é pois existem fortes focos de resistência contra a mercantilização e canalhização completa de nossas vidas. No campo e nas cidades, MSTs e MTSTs, Levantes Populares de Todas as Juventudes, resistências enraizadas dos povos indígenas e quilombolas, artistas com consciência crítica, intelectuais orgânicos atentos aos horrores galopantes, midiativistas e artivistas, dentre outras forças, fazem desta pátria pluritétnica algo muito mais interessante e amável do que a pálida e pútrida propaganda pra patriotário que é a “Ordem e Progresso” do regime Michel Temer​.

Após o golpe de Estado de 2016, “Era o Hotel Cambridge” levanta-se como uma das mais preciosas respostas da Arte Brasileira ao cenário de devastação que está sendo gestado pelos arquitetos da Ponte Para o Futuro (“imaginem quantos milhões de pobres vão morar debaixo dela”, como provoca a tirinha de André Dahmer – malvados​). Este filme pode inclusive ensinar-nos um bocado sobre solidariedade internacionalista, este pilar básico do movimento socialista, que jamais acreditou em emancipação paroquial, mas sim na união de várias emancipações coordenadas, pois onde quer que haja opressão, há resistência e ímpeto de revolução, algo a tecer em união numa grande Internacional Comunista. Com o perdão deste arroubo Trotskysta, voltemos aos refugiados…

Zygmunt Bauman, o finado sociólogo polônes que tanto nos ensina sobre o mundo atual e o drama global dos refugiados, talvez diria, assistindo ao filme de Eliane Caffé, que ele exemplifica perfeitamente o conceito de “sub-classe”, ou de “sub-gente”, que com tanta frequência é mobilizado por nossas elites que tratam vastos contingentes populacionais como simplesmente “matáveis”.

Em “Danos Colaterais – Desigualdades Sociais Numa Era Global” (Ed. Zahar), ele escreveu:

“A condição de subclasse é a de emigrados internos, ou imigrantes ilegais, ‘estranhos de dentro’ – destituídos dos direitos de que gozam os membros reconhecidos e aprovados da sociedade; em suma, um corpo estranho que não se conta entre as partes ‘naturais’ e indispensáveis do corpo social. Algo não diferente de um tumor cancerígeno, cujo tratamento mais sensato é a extirpação…” (BAUMAN, 2011, p. 10)

Esta é a ideologia do nosso inimigo: o fascismo das elites que elegem certos povos, etnias ou territórios como “zonas de sacrifício” (Naomi Klein​), lidando com gente como se fosse sub-gente, meros bichos a serem mandados para matadouros, danos colaterais a aparecerem nos gráficos dos senhores da guerra reunidos em um bunker do FMI…

Como Eliane Brum bem percebeu, “Era o Hotel Cambridge”, sem nenhum panfletarismo explícito – quero dizer, sem nunca ficar parecendo com um discurso de Guilherme Boulos – trabalhou com uma noção crucial para nós no mundo contemporâneo: a fraternidade dos refugiados.

“Esta ideia está explícita na síntese produzida por Carmen Silva, ao abrigar estrangeiros de diversas origens com brasileiros de diversas origens sob o teto da mesma palavra-casa: refugiados”. Ela sinaliza que a identidade só pode existir como atravessamento de múltiplos.

Este é o amálgama que une todos aqueles homens e mulheres, adultos e crianças que se dedicam ao absurdo da vida nos corredores do Hotel Cambridge. O amálgama que coloca os brasileiros como um “fora” mesmo dentro do seu próprio país, os estrangeiros como um “fora” de suas pátrias de origem. Mas todos eles sem refúgio de fato, exceto o do provisório, do efêmero, que constroem num antigo hotel de luxo abandonado. O único refúgio permanente é o desta identidade atravessada que permite que se movam e que confrontem o sistema por “dentro”, eles que são aqueles que foram colocados “fora”. O refúgio permanente é justamente o improvável de sua existência coletiva.

E assim, “Era o Hotel Cambridge” (…) converte-se em uma das obras culturais mais criativas e criadoras dos últimos muitos anos. E uma obra que incorpora a política, na sua expressão mais profunda, como a própria carne do seu fazer. Vida e obra se entrelaçam de tal maneira que o filme está nos cinemas e nas ruas ao mesmo tempo. Para Carmen Silva e moradores do Cambridge, a obra se tornou um instrumento de luta na medida em que se converteu em um meio para se fazer conhecer.” (BRUM)

No ano em que “Eu, Daniel Blake” (de Ken Loach) faturou a Palma de Ouro em Cannes, colocando no epicentro do debate cinematográfico global o tema das desumanidades cometidas pelo neoliberalismo reinante, e em que iniciou de modo tenso a Era Trump na Casa Branca, com ameaças palpáveis de um recrudescimento das guerras imperialistas e de uma piora tanto da crise dos refugiados quanto da insana caminhada para catastróficas mudanças climáticas, o Brasil ergue-se à altura do tempo histórico com um filme que têm algo a dizer a todo o Globo.

EXTRAS


Reportagem TVT


No estúdio TVT, entrevista com Carmem Silva, uma das líderes do Frente de Luta por Moradia (FLM)



Trailer oficial



Metrópolis – TV Cultura


Depoimento de Camila Pitanga
https://www.facebook.com/eraohotelcambridge/videos/1282159991875503/?hc_location=ufi

FLORA TRISTÁN (1803 – 1844)

FLORA (2011, 27 min)
Um filme de Lorena Stricker

Preciosidade do cinema latino-americano, o curta-metragem “Flora” de Lorena Stricker é uma linda homenagem à vida e ao pensamento de Flora Tristán (1803-1844). “Com sua voz acesa e seu pensamento desobediente e vivo”, esta mulher socialista fala-nos com senso crítico e um ideário feminista-igualitário de impressionante atualidade.

ASSISTA AO FILME COMPLETO:

Flora Tristán é autora de livros importantes da teoria social no século XIX como “Peregrinações De Uma Pária” (1838) e “A União Operária” (1843), analisados e comentados em recente obra de Eleni Varikas, o magistral “A Escória do Mundo” (Ed. Unesp).

“O padre, o legislador, o filósofo tratam a mulher como verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi posta fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade. O padre lhe diz: ‘Mulher, você é a tentação, o pecado, o mal; você representa a carne – quer dizer, corrupção, podridão. Chore sua condição, cubra a cabeça com cinzas, feche-se numa clausura e, ali, macere seu coração que é feito para o amor, e suas entranhas de mulher que são feitas para a maternidade. E quando tiver mutilado seu coração e seu corpo, ofereça-os sangrentos e ressecados a seu Deus para a remissão do pecado original, cometido pela sua mãe Eva. (…) Depois, disse-lhe o legislador: ‘Mulher, por si mesma, você não é nada como membro ativo do corpo humanitário, não pode esperar um lugar no banquete social. É preciso, se quiser viver, que sirva de anexo a seu senhor e mestre, o homem.’ Em seguida, o filósofo sábio lhe disse: ‘Mulher, foi constatado pela ciência que, por sua organização, você é inferior ao homem… você é um ser fraco de corpo e espírito, pusilânime, supersticioso.’ (…) Deve ser tema profundo de dor para os sábios dos sábios pensar que descendem da raça mulher… Que vergonha para eles serem concebidos no ventre de semelhante criatura, ter sugado seu leite e permanecido sob sua tutela uma grande parte da vida. Oh! É bem provável que, se esses sábios tivessem podido colocar as mulheres fora da natureza, como as puseram fora da Igreja, fora da lei, fora da sociedade, teriam se poupado a vergonha de descender de uma mulher…” (FLORA TRISTÁN, A União Operária. Citada por VARIKAS, 2014, Unesp, p. 52 – 56)

Avó do pintor Paul Gauguin (1843 – 1908), Flora Tristán teve seu relacionamento com o neto explorado pelo romance “O Paraíso Na Outra Esquina”do Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa (compre em Estante Virtual).

Além disso, muitos historiadores do pensamento têm destacado o papel de precursora e influenciadora direta de Flora Tristán sobre os fundadores do materialismo histórico-dialético, Marx & Engels. É deste teor o comentário que dedica-lhe Michel Onfray no 5º volume da Contra-História Da Filosofia, chamado Eudemonismo Social (Ed. Martins Fontes). Resumindo a vida de Flora, Onfray evoca Flora como uma mulher

Portrait de Flora Tristan en 1839 ©Costa/Leemage

“malcasada com um marido que a brutaliza sexualmente e que ela abandona para viver sozinha com os filhos, militante a favor do divórcio, abolicionista em matéria de pena de morte, denunciadora do colonialismo americano, fica conhecendo Owen e Fourier em Paris. Na rua, seu ex-marido lhe dá um tiro: o processo público movimentado revela uma ardente feminista que reivindica o direito a uma igualdade integral com os homens. Ela deseja a união dos trabalhadores explorados e sua constituição em classe operária, invoca o fim da miséria dos povos. Durante uma longa viagem de militância pelas cidades da França, esgotada, doente, Flora Tristán falece em Bordeaux. Tinha 41 anos. Em sua descendência, por meio da filha Aline, conta-se certo Paul Gauguin…

Muitas vezes se omite que Engels leu o livro de Flora Tristán Promenades dans Londres e de que grande número de suas informações se encontram sem remissão em A Situação Da Classe Trabalhadora Na Inglaterra, publicado em 1845, um ano depois da morte de Flora… Para escrever Promenades dans Londres, Flora Tristán não se fecha numa biblioteca, como Marx quando trabalha no capitalismo sentado à sua escrivaninha ou na sala de leitura do British Museum. Ela sai em campo, ao encontro físico da miséria…Dia após dia, vai a uma fundição para assistir ao trabalho dos operários, fala com moradores de pardieiros, encontra-se com prostitutas em prostíbulos, dialoga com prisioneiros em suas celas, convive com doentes mentais num asilo de alienados…

Quer o fim da miséria e a ‘felicidade comum’, portanto liberdade, alforria e igualdade… Nas prisões constata a correlação entre encarceramento e pobreza, delinquência e miséria social. A prisão não restitui ao convívio social, é uma escola do crime. É preciso agir sobre as causas do crime, e não punir o crime em si mesmo. Insurge-se contra a disparidade das penas, a injustiça da justiça, clemência para os poderosos e severidade para com os miseráveis… milita pela abolição da pena de morte. O que propõe é outro sistema social, que não seja o capitalismo selvagem, uma alternativa política capaz de eliminar a miséria produzida pelo mercado livre. Quer a união operária, o mutualismo, a força da coletividade,  o programa socialista radical… Em L’Union Ouvrière, de 1843, 5 anos antes do Manifesto Comunista de Marx e Engels, ela escreve “proletários, uni-vos” pois “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”…” (ONFRAY: p. 29)


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SUSAN GROGAN – Flora Tristan – Life Stories
(Routledge) – DOWNLOAD EBOOK

Duas doses de Denis Villeneuve: crítica dos filmes “Arrival – A Chegada” e “Sicário – Terra de Ninguém”, duas obras mais recentes do diretor canadense

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#CinephiliaCompulsiva2017

Em “Arrival – A Chegada”, de Denis Villeneuve, alienígenas invadem a terra (de novo!) e o enredo até tenta dar ares de originalidade a tema tão batido. O filme evita a fórmula da conflagração clichê de uma “Guerra dos Mundos”, aliás já re-filmada não faz muito tempo por Steven Spielberg. Mas aquilo que prometia tornar-se algo tão impactante quanto excelentes sci-fis recentes como “Children of Men – Filhos da Esperança” (de Alfonso Cuarón), “Distrito 9”, de Neil Blomkamp ou “Ex Machina” de Alex Garland, chafurdou na lama de seu desfecho. O que não impede que a expectativa seja enorme em relação ao mega-projeto de ficção científica que Villeneuve terá a responsa de realizar em 2017: Blade Runner 2049, sequência do memorável filme de 1982 dirigido por Ridley Scott, baseado na obra de Philip K. Dick.

Com ares de filme cult, “Arrival” não quer apenas gastar milhões de dólares da produção em estonteantes carnificinas e explosões em que soldados terráqueos digladiam-se com ETs dotados de armas laser. A vibe de “Arrival” lembra mais a de “Contato”, de Robert Zemeckis, baseado em romance de Carl Sagan e estrelado por Jodie Foster – e não somente pela protagonista ser uma mulher nos dois casos. Ambos tendem para o drama psicológico ao pôr em relevo o problema da linguagem de comunicação utilizável em encontros de criaturas de diferentes proveniências galácticas: em que idioma possível conversaríamos com visitantes do espaço sideral? Como desenvolveríamos uma língua comum que nos permitisse algum tipo de mínima compreensão mútua? Como transpor o abismo do incomunicável?

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No filme, baseado no conto “Story of Your Life”, de Ted Chieng, que integra o livro História da Sua Vida e Outros Contos (Intrínseca, 369 pgs, R$40 na Amazon), a personagem de Amy Adams é convocada para integrar a Equipe-EUA que lidará com o misterioso pouso dos OVNIs. A protagonista tem um pedigree acadêmico-científico vinculado àsua prodigiosa capacidade com línguas estrangeiras – ela fala chinês e farsi sem dificuldades, acha fácil dominar línguas já mortas e não tardará em bater um papo com os ETs (mais parecidos com gigantes polvos do que com aquele adorável feioso cor de cocô inventado por Steven Spielberg em E.T.).

Tudo ia indo muito bem no filme, com sua narrativa interessante e seus “contatos” que vão num crescendo de proximidade e de experimentação. Porém… o fim! Que decepção. “Arrival” até arrisca pôr em questão o tema das relações internacionais em nosso globo, instaurando um desafio diplomático sem precedentes entre as 12 nações que têm as espaçonaves alien pousadas em seus territórios. Afinal, o tema da linguagem comum que possibilite algum tipo de troca ou convívio, com algum grau de inteligibilidade, é algo que não diz respeito somente às relações humanos-ETs, mas às relações humanos-humanos.

Pareceu-me que os ETs foram demasiado otimistas ao acharem que iriam fornecer-nos um quebra-cabeças de 12 peças, entregando estas peças a 12 países diferentes, com línguas oficiais diferentes, na expectativa de um concerto sinfônico harmônico das nações… Eu acreditaria muito mais na verossimilhança de alienígenas misantropos. O filme vai num crescendo que dá a entender que tudo acabará em catástrofe, para o bem das bilheterias – um “blockbuster” sem espetaculares desgraças não é digno deste nome. Vamos nos aproximando do fim do filme e parece que aquela entidade ancestral e sempre nossa contemporânea, a Estupidez Humana, irá lidar novamente com a chegada do estranho, do irrotulável, do incatalogável, do queer, do diferentão, em suma, da alteridade radical, apelando para seu antiquíssimo comportamento psicótico: a solução militar, o destravamento da agressão bélica, a violência nuclear contra aqueles rapidamente rotulados pelo preconceito paranóico como maus e inimigos.

Mas não: com o perdão do spoiler, digo que a improvável vitória da paz, no contexto que o filme narra, foi um tiro no pé na verossimilhança (que também é um valor digno de respeito em um sci-fi). O meu problema com o desfecho da obra não é tanto uma frustração pueril de cinéfilo colonizado que ficou com apetite insaciado de mega-catástrofes, não é uma irritação com o discurso pacifista ou de conciliação diplomática neles mesmos. O meu problema é com a solução totalmente deus ex machina, altamente inverossímil. “Arrival” vinha como um interessante filme sobre os desnorteios da ciência e linguagem comuns diante de um fenômeno novo e sem precedentes, mas por fim transforma-se em uma espécie de manifesto new-age, afirmador de poderes parapsíquicos miraculosos, mobilizador de protagonista canonizada como salvadora-do-mundo – um happy ending que, pro meu gosto, soa altamente supersticioso. E por isso suspeito de ter agido com propósito de mistificação.

Dirão os sarcásticos que a superstição vende muito bem, e às vezes rende mais críticas elogiosas do que as destruições blockbostistas empreendidas por Michael Bays em “Independence Days”. Sim, é vero, se há tanta superstição impregnando tantas obras da indústria do entretenimento também é por razões mercadológicas: superstição é sucesso, superstição é crowd pleaser. O problema é que Denis Villeneuve, que até merece seu status como um dos principais cineastas “cult” hoje em atividade, dada a qualidade de sua filmografia (Enemy, adaptação de O Homem Duplicado de Saramago, e Incêndios estão entre seus filmes prévios mais interessantes), parece que quis impor um happy end a “Arrival” que acaba por transformá-lo em algo muito menos memorável do que poderia ter sido.

Pensávamos que nossa protagonista era uma esforçada pesquisadora e intelecual, uma linguista que fica suando os miolos até atingir a maestria; descobrimos, por fim, que tratava-se de nada menos que uma profetisa, uma semi-divindade, uma magic woman, alguém que tornou-se dotada de um super-poder fantástico de que os outros mortais estão desprovidos. A heroína de fantasia super-heróica vence sobre cientista de carne-e-osso. A reflexão sobre linguagem e comunicação, com os mil percalços que temos que encarar pelos caminhos cheios de sangue de nossa realidade geopolítica globalizada atolada em antagonismos, perde de lavada para a afirmação de “dons sobrenaturais” que nossa privilegiada protagonista adquire após seu intercâmbio salvífico com aliens pedagógicos, uns ETs que são tudo gente fina… Dá pra engolir?

Fantasia consolatriz demais, seu Villeneuve, chega a dar asco. Para o meu gosto, um filmaço mesmo, em contraste, é o “Ex Machina” de Alex Garland, que também debate ciência e linguagem com profundidade, mas também tem a coragem de ser mais distópico, ousando avançar nas reflexões sobre inteligência artificial rumo a domínios nunca dantes explorados e mostrando que há ainda muito a dizer, muito além de Matrix e suas desastradas sequências.

Por fim, a questão crucial dos filmes deste gênero – a chegada alienígena é hostil ou benigna? eles vêm em paz ou querem guerra? – acaba respondida por “Arrival” com extremo otimismo. O final feliz, saído com um ás da manga de um mágico, é muito semelhante a muitos outros desfechos do mau cinema comercial para que o filme termine satisfazendo os apetites que ele mesmo despertou. Ao invés de falsas soluções salvíficas e milagrosas, que desenham auras de miraculosidade sobre a protagonista, Villeneuve poderia ter encerrado a obra mais “em aberto”, deixando algo à imaginação e a encucação do espectador. Do jeito que terminou, “Arrival” estragou o gosto do belo banquete que havia preparado pois não teve a coragem de mandar o espectador embora do cinema com muito mais problemas e enigmas do que aqueles que tinha ao entrar.

Amy Adams (right) as Louise Banks in ARRIVAL by Paramount Pictures

Amy Adams como Louise Banks em “ARRIVAL” (Paramount Pictures)


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TERRA DE NINGUÉM?

A fronteira entre os EUA e o México tem mais de 3.100 km de extensão e é uma zona de intensas atividades migratórias, com cerca de 10 milhão de pessoas atravessando-a legalmente todos os anos (os dados são da Wikipedia: http://bit.ly/2kM9wqe), com números também estratosféricas de migrações clandestinas.

Neste ano de 2017, que nasce sob a sombria tirania de Donald J. Trump nos EUA, re-assistir um filme como “Sicário – Terra de Ninguém” [http://www.imdb.com/title/tt3397884/], de Denis Villeneuve, pode ser uma experiência interessante pelas reflexões que pode suscitar sobre uma área do globo terrestre que promete, no futuro próximo, passar por ainda mais graves turbulências do que as já violentas conflagrações vigentes.

Como tem sido amplamente noticiado, Trump tinha como uma de suas promessas de campanha o fortalecimento dos muros do apartheid que já separam os dois países. Não demorou muito para que ele, assumindo o poder, desse continuidade à sua insânia de psicopata, sugerindo que o México pagasse pela construção do Muro (saiba mais na BBC: http://bbc.in/2jz4CLk). Em seu primeiro mês na Casa Branca, as atitudes supremacistas, xenófabas e racistas do novo mandatário – que também está tentando banir o ingresso de imigrantes proveniente de países de maioria islâmica – já foram o suficiente para destravar uma crise diplomática severa entre México e EUA.

Além disso, Trump rapidamente já conseguiu despertar a fera semi-adormecida dos mega-protestos cívicos e contestatórios (como a Women’s March on Washington e o Occupy Wall St.), tacando combustíveis fósseis nas chamas da desobediência civil por parte daqueles setores da população estadunidense que não acatarão calados os desmandos do bilhardário. A ascensão de Trump também será resistida, em casa, por uma galera que tem adotado, como sintoma significativo da crise de representatividade que assola as democracias liberais, o slogan/hashtag#NotMyPresident.

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Dirigido por um cultuado cineasta do Québec, “Sicário” traz Villeneuve em modo thriller, apostando na estética sangue-nos-olhos, com cenas dignas de Tarantino ou de Peckinpah, sem escassez de tiroteios e SWAT teams. Mas o filme, que pretende ser um retrato realista dos conflitos fronteiriços, peca em inúmeros aspectos, em especial por sua completa incapacidade de realizar uma crítica da Guerra às Drogas e seus efeitos sócio-culturais.

O cineasta canadense poderia muito bem ter realizado uma obra onde a perspectiva mexicana e latina tivesse mais espaço e preponderância; pelo contrário, finca sua câmera somente no meio social ultra-militarizado e hiper-brucutu das forças de repressão aos cartéis do narcotráfico. Filma de modo estiloso as caçadas policiais aos narcotraficantes, em cenas que lembram “Tropa de Elite” e a atitude do BOPE pelos morros do Rio. Mas acaba por não oferecer mais que um filme de guerra pouco original, que passa ao largo das grandes questões geopolíticas atuais, cometendo ademais a imperdoável canalhice de reafirmar velhos preconceitos sobre um México sem lei e sem ordem, que os xerifões das “Terras Desenvolvidas” buscam pôr no lugar e nos eixos, ainda que seja utilizando métodos dignos do Coringa de “Cavaleiro das Trevas”, o agente do caos.

Tudo bem que “Sicário” pode servir como um retrato sombrio e sinistro de práticas policiais cotidianas em áreas consideradas como “de ninguém” e onde os soldadinhos tem licença para apertar o gatilho à vontade – são as “zonas de sacrifício” de que fala Naomi Klein, onde a vida humana é considerada indigna de respeito e onde os direitos humanos viram uma baboseira humanitária a tacar na lata de lixo da história. De fato, há algo de inerentemente revoltante nas atitudes dos “hômi” cabra-macho que “Sicário” retrata, mas isto não basta para que o filme seja satisfatório enquanto crítica social. O cinema mexicano, aliás, parece-me ter feito muito melhor neste quesito através de dois filmes de Luis Strada, “A Ditadura Perfeita” e “O Inferno”.

O mesmo incômodo que sinto diante do retrato do México na série “Breaking Bad” dá as caras em todo o canto de “Sicário”: os personagens mexicanos não são considerados dignos de muita atenção, muito menos compreensão, sendo não mais que caricaturas que operam no contexto dramatúrgico como bonecos de carne e osso, retratados como selvagens e sanguinários, e por isso livremente matáveis e extermináveis pelas forças da Lei e da Ordem.

Em “Breaking Bad”, Walter White é um senhor de densidade psicológica, complexidade existencial, mutabilidade comportamental, que vai de um pacato professor de química a um mega-comerciante internacional de metaanfetamina; já seus símiles do lado Mexicano merecem apenas o retrato rápido devotado as feras raivosas de incurável ferocidade. As caricaturas confessam as ideologias que animam, talvez semi-conscientemente, os criadores dos personagens.

“Sicário” também foca em um trio de personagens principais que são todos policiais do lado Yankee – e somente um arremedo de diversidade é fornecido pelo fato de que há algumas notas destoantes na atitude de uma mulher, agente do FBI (Emily Blunt), que têm lá seus atritos com os machões que chefiam a operação (Benicio Del Toro e Josh Brolin). Ela pode até desaprovar os métodos que testemunhou em ação, mas é obrigada a calar-se; o que o filme desperdiça, ou seja, deixa de aproveitar, é tudo o que também foi obrigado a calar-se aí: o fato de que o caos no “lado mexicano da Fronteira” não é autóctone, não é autogerado, não é “culpa do próprio México”, mas está intimamente imbricado com as políticas impostas por Tio Sam. Em especial as insanas políticas proibicionistas, militaristas e xenofóbicas que atingem agora um novo cume sob Trump.

De resto, o filme passa todo o tempo retratando a carnificina e o morticínio que são diretamente conectados às políticas proibicionistas do DEA, além do obsceno armamentismo que tantos lucros traz a magnatas do comércio de trabucos e munições, sem ousar uma crítica mais aprofundada da situação – sem nem mesmo fornecer ao espectador a perspectiva daqueles que morrem nesta guerra, como moscas, sem nunca terem estado envolvidos com tráfico de narcóticos ou com cruzadas supostamente heróicas de xerifões hi-tech da Yankeelândia trigger-happy. Os “danos colaterais” de que falam Bauman ou Chomsky parecem não existir no mundinho fechado do filme. Afinal de contas, parece que Denis Villeneuve quis embarcar na onda de hype gerado pelos filmes de Kathryn Bigelow e buscou sacramentar-se como figurão do cinema através de um alinhamento aos temas e aos enfoques tipicamente Yankees.

De todo modo, “Sicário” é um filme-lodaçal, uma espécie de pântano de sangue que não doura a pílula, mostrando o tamanho do desastre humanitário que se passa nesta fronteira. Teria feito melhor, porém, se tivesse tido a coragem de questionar, Quebrando o Tabu, as responsabilidades por esta mega-tragédia, que estão em larga medida na falida e genocida Guerra às Drogas. Ela mesma que, na Era Trump, promete prosseguir entre nós, continuando a erigir um monumento à estupidez humana e ao sangue derramado em vão.

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