BLISSFUL IMPERMANENCE – A impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor: um tributo a Allan Alan Watts​

BLISSFUL IMPERMANENCE – A impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor: um tributo a Allan Alan Watts​

Mescla de poeta beatnik, dotado de linguagem vívida e irreverente, com sábio zen-budista, propagando sabedorias orientais entre os caras-pálidas do Ocidente, Alan Watts é uma daquelas figuras que salvam a figura do “guru” de ser sinônimo de charlatão, de mercador de ilusão. Falo por experiência própria que considero, com convicção, Alan Watts como uma figura que nos ensina um bocado sobre esta encrenca que nos foi dada pelo cosmos como tarefa: a arte de viver.

Ele diz que os mitos são imagens que criamos para tentar dar sentido a vida e ao mundo. Estas imagens – humanas, demasiado humanas – podem e devem ser criticadas através do critério de qualquer pensador lúcido: a adaptação do mito, da imagem-de-mundo, àquilo que podemos saber, conhecer, averiguar e concluir sobre a realidade objetiva. Por exemplo: um cristão de boa educação, aberto à busca pela sabedoria, fará muito bem a si mesmo questionando sua imagem mítica de Deus como “um pai cósmico, do sexo masculino, com uma barba branca, sentando em um trono de ouro por cima das estrelas.”

A crítica de Watts incide sobre a visão do mundo como artefato, em que Deus é descrito como artesão. Nas palavras de Watts, este mito propõe the world as artifact (o mundo como artefato) God as potter with obedient clay (Deus como artesão que manipula argila obediente). O mito de Adão e Eva propõe Deus como essa figura que fez os primeiros humanos como se manipulasse massinha. Deus como cosmocrata, como figura sobrenatural e transcendente, que nos faz como se estivesse construindo bonecos para uma animação stop-motion feitas com personagens de massinha… Que esta seja a imagem mítica que melhor descreva a emergência do ser humano em certo momento da existência cósmica é algo bastante discutível e contestável.

Watts quer ampliar o nosso cardápio de opções. Quer nos ensinar sobre o que pensaram outros povos, com religiões diferentes destas às quais estamos mais acostumados no continente americano. Quer nos levar para além do confinamento no âmbito da tradição judaico-cristã-islâmica, para além do nosso monoteísmo monotóno, esclerosado de ortodoxia. A tradição cristã, para Watts, é puro gambling, ou seja, uma espécie de jogo-da-sorte no campo da fé. Pascal havia visto isto muito bem ao argumentar em prol da fé como uma aposta. O crente cristão aposta que Deus existe pois, caso não exista, pelo menos ele viveu a vida consolado por uma reconfortante ilusão; e caso Deus exista de fato, então ele viveu uma vida na fé que agora será recompensada com inúmeros deleites no Paraíso dos prazeres imorredouros… É uma aposta auto-interesseira, é como um jogo de capitalismo selvagem mas sem moedas, onde o dinheiro que lança-se na mesa do cassino é a própria alma…

Acreditar em Céu e Inferno é visto, desde Epicuro, como uma das piores infelicidades que pode acometer uma mente humana. Uma espécie de vírus mental que só sabe fazer propagar a ilusão perniciosa, o tormento interior, a incapacidade para a ataraxia, a serenidade. Acreditar no Céu também pode ser uma crença atroz: São Tomás de Aquino dizia que os santos no Céu iriam se deleitar ao assistir os malfeitores sendo punidos no Inferno. O cristianismo é uma aposta num Deus vingativo, com requintes de crueldade, que tem no Inferno um campo de concentração cheio de danados que ficam sendo torturados. Ter a presunção de ser o eleito por um Deus assim é um perigoso sintoma de psicopatia!

Watts considera que a filosofia atual perdeu seu sendo de maravilhamento, de espanto. Os ingredientes que falta reinjetar no pensamento, na nossa compreensão de mundo, são o que ele chama de wonder, awe, astonishment. Neste sentido, técnicas como o ioga e a meditação aparecem-lhe não como dogmas ou mandamentos de um cosmocrata mandão, a bossy cosmocrat, mas sim como “técnicas experimentais para a mudança de consciência” cujo alvo é “ajudar seres humanos a se libertarem da alucinação de que cada um de nós é um ego contido dentro de nossa própria pele” (minha tradução apenas razoável para o trecho: “helping human beings to get rid of the hallucination that each one of us is a skin-encapsulated ego.” (p. 75)

A superação da alucinação egocêntrica talvez seja o grande intento da pedagogia de Watts. Lembro das semanas em que eu passava ouvindo, horas e horas por dia, às preleções de Alan Watts, realizadas em seu barco, para alguns seletos ouvintes, reunidas no audiobook Out of Your Mind. Foram palavras que ajudavam a atravessar o outono e o inverno de Toronto com o calor daquelas palavras de sabedoria que me garantiam: meu organismo não está separado do ambiente – pergunte ao frio nos teus ossos em meio a estas snowstorms canadenses! – mas sim é uma parte integrante do mesmo. Organismos e ambientes integram o mesmo processo, e neste há a unidade dos opostos: nunca um vendedor sem um comprador, nunca luz sem sombra, nunca vida sem morte, nem morte sem vida. Nunca yin sem yang. Nunca nirvana sem samsara. 

Para Watts, num jardim zen você torna-se novamente ciente de ser parte da natureza; e o mestre zen quer te ensinar o respeito à senciência, que se manifesta às vezes nas formas exteriores mais humildes, na aparição de uma espécie de mendigo esfarrapado que pode ter, por dentro, queimando a chama de uma sophia que olhos preconceituosos não enxergam. What seems a tramp or a wandering idiot can be in fact a sage, an awakened one… 

Do Taoísmo Watts acolhe a noção da vida como processo fluido, como fluxo em processo de escoamento eterno. “Man, and the mind of man, is not a separate entitu observing the process from outside, but it is involved with all of it.” É o Oriente unindo mãos, para uma ciranda, com o Ocidente em uma de suas manifestações culturais mais impressionantes: a Grécia dos pré-socráticos, em especial em Heráclito, inventor da dialética, propositor do panta rei, do tudo flui, do nunca se entra duas vezes no mesmo rio.

Estamos envolvidos em um processo de mutação cósmica para o qual não conhecemos nenhuma possibilidade de apertar, no controle remoto do Universo, a tecla pause. O cosmos não é algo que a gente possa estudar de longe, feito um quadro na parede que olhamos à distância, pois no rio cósmico estamos embarcados. Estamos por ele sendo arrastados e a um só tempo integramos este fluxo, como gotículas fazem, gerando com seus corpúsculos miúdos os maiores rios, mares e oceanos.

Alan Change

Lendo sobre essas coisas todas, eu buscava os meios para trazer um pouco de harmonia ao caos interior, pacificando aquilo que aprendi a chamar de mente-macaco, a monkey-mind, que fica pulando de ideia em ideia dentro do crânio como um macaco que vai de galho em galho em busca de bananas. Fumava a ganja maravilhosa comprada – sem carteira de usuário medicinal – nos mercados clandestinos de Kensington Market e deixava Alan Watts ser meu guia de viagem. A vivência me capacita minimamente para aconselhar: jamais se acanhem de misturar THC com Alan Watts. Dá jogo demais, dudes. E aí eu rabiscava nos meus cadernos versinhos em inglês um pouco bestas, que jamais se alçavam àquela sábia simplicidade dos koans haikais (aliás tão preciosos à formação de um dos maiores escritores brasileiros, Paulo Leminski). Jogava versos sobre o papel, ambicionando um dia poder musicá-los, querendo seguir o mestre até o limite, que era fazer da Sabedoria por ele comunicada algum tipo de música dançável (confesso que fracassei, mas eis uma estrofe de exemplo):

Pacify the monkey-mind!

Like a clear lake reflects sky!

No wobbling jazz inside!

Just hear the wings of butterflies

As they flow with you through time!

O misticismo, segundo Watts, é a experiência da abolição da separação (“experience of abolishment of separateness”). O misticismo é o que possibilita uma harmonia ou unidade com o ambiente, o que demanda que não estejamos em um frenesi de atividade, mas que possamos aquietar tudo para simplesmente ser (“with no frenzy of activity, simply to be” – p. 37). É a sabedoria dos Beatles: let it be. 

O misticismo é a superação da perspectiva estreita, limitante e falaciosa do ego. O ego é aquela crença alucinatória de uma consciência que sente seu próprio confinamento em um espaço exíguo. A ilusão egóica consiste em pensar que a nossa pele, os limites materiais de nosso corpo, esgotam o escopo de nossa existência. Que somos apenas uma pessoa minúscula sem conexão alguma com o cosmos lá fora. Um pedacinho de carne-e-osso que vai morrer e que existe em pleno estado de solidão e isolamento em relação a todo o resto. O ego é uma crença triste, uma amputação de nosso potencial.

Watts convida a pensar em nossa subjetividade como estando necessariamente conexa ao mundo objetivo, numa teia de interdependência. All insides have outsides and the outside of skin is the whole cosmos. É o tipo de coisa que a gente é capaz de compreender numa boa viagem de LSD, num setting adequado. E que raramente, durante a viagem, conseguimos pôr em palavras tão bem quanto Watts o faz com seu talento linguístico espantoso de poeta beat, frequentemente alçando-se às alturas de um Allen Ginsberg.

reconexão com o cosmos talvez seja o sentido originário do religare que dá na nossa palavra religião. E aí o prosélito do Budismo se manifesta em Watts, que considera o Budismo uma força inter-cultural, trans-cultural, que não é privilégio nacional nem da Índia, nem do Japão, nem da China, nem do Tibet, nem do Camboja, nem de ninguém: o Budismo pertence à humanidade e “todos os seres sencientes devem beneficiar-se dele.”

O Budismo não é uma religião policialesca, punitivista, que assusta os crentes brandindo a imagem de um Deus violento que ameaça-nos com o perigo de que sejamos assados eternamente nos espetos de um Inferno póstumo.

O Budismo está repleto de místicos, mas não de profetas. O Budismo não promete um futuro idealizado para o depois da morte, mas busca apontar o dedo para a Lua, não para que olhemos para o dedo, mas sim para que acordemos para a Lua e nossa conexão com ela.

O Budismo é um caminho de libertação, a way of liberation, e Sidarta Gautama é na história do mundo o “primeiro grande psicoterapeuta”, the world’s first great psychotherapist. O que interessa ao Budismo é propiciar uma radical transformação do estado de consciência.

O Budismo é o LSD antes da Ciência, antes da síntese farmacopéica dos agentes daquela “abertura das portas da percepção” de que nos falam William Blake, Aldous Huxley, Jim Morrison e os The Doors…

A desgraça humana está na nossa incapacidade de nos alçarmos à consciência das inter-relações que constituem a teia do mundo, a teia da vida (no eggs without chickens, no fingers without hands…). O Buda propõe que há uma doença, esta doença tem uma causa, e a cura chama-se nirvana, mas para atingi-la é preciso seguir um caminho. A doença está sediada na vontade, é a sede insaciável, é o craving, a incapacidade de controlar a possessividade e o desejo de permanência. Para Watts, o que nos condena ao samsara é a negação da impermanência, the denial of impermanence. 

Temos que acolher a impermanência de tudo que é, foi e será. Só acolhendo a impermanência poderemos acolher com amorosidade a nós mesmos e aos outros, afinal impermanentes somos todos. Esta também é uma das mais claras sabedorias veiculadas por Gilberto Gil nas suas conversas com Leonardo Boff e Fritjof Capra em Amoráveis Disposições. Trata-se de um caminho de libertação espiritual que passa por um ataque feroz contra as fronteiras, ou melhor, contra as segregações. O ego que se segrega do cosmo, o ego que se segrega do outro, a vida que não deseja a morte, o ser finito e temporal que recusa a finitude e a temporalidade, são os inimigos a derrotar, são os nossos carcereiros que nos mantêm na jaula do samsara. 

E o nirvana, ensina Watts, não é um Céu acessível para os que foram bonzinhos na vida e assim foram promovidos a uma realidade só de delícias. O nirvana é pra aqui e é pra agora, é um modo de consciência em que amplia-se nossa senciência, nosso senso de pertença, nossa certeza da interconexão. A separação se desvanece. Separateness vanishes (p. 10).

O Budismo, ensina Watts, não está nem no pólo do ascetismo auto-mortificante, tão escorraçado por Nietzsche, nem no pólo de um hedonismo da busca simplória por prazeres (o que não deve jamais ser confundido com a doutrina epicurista, muito mais aparentada à sabedoria budista do que se reconhece hoje em dia…). Epicuro e Buda são ambos excelente psicoterapeutas. A corrente budista Mahayana, segundo Watts, que forma-se entre 100 antes de Cristo e 400 depois de Cristo, é uma elaboração filosófica profunda dos ensinamentos originais do Buda e propõe nos acordar de um pesadelo, emancipando-nos de hábitos fixados de pensamento.

O Budismo quer isso: disseminar lucidez, e não alucinações. To awake from a bad dream. To emancipate yourself from fixed habits of thought. Watts cita um certo Lin Chi que teria dito a um discípulo: My duty is to beat ghosts out of you. O Budismo é um ghostbuster, é um mata-fantasmas. Quer que a gente esteja alerta e atento para o que é. E para o que somos no seio disso que é.

Quem nos ajuda nisso são os bodhisattvas, os seres sencientes que conseguiram jornadear pelo caminho de libertação o bastante para sentirem que tem algo a ensinar aos outros, companheiros de jornada. O bodhisattva é aquele que sabe compartilhar sabedoria ao invés de retê-la só para si, buscando um nirvana exclusivo, individual.

O bodhisattva é alguém que está no processo de chegar ao nirvana com os outros, não na vibe do cada-um-por-si. O bodhisattava nega o atman, o ego substancial, imutável. O budismo mahayana, tal como Watts o explana, não separa um ego-experenciador da massa da experiência, não propõe um ego que está separado da experiência. Jamais propõe que o sujeito que experencia o mundo é uma espécie de ego-alma imutável que não se mistura ao processo cósmico total. Watts diz que não há ego substancial e imune a mudança, “nenhum chofer imortal por trás do volante” (“there’s no substantial, unchanging ego, no immortal chauffeur behind the wheel”).

Watts assim é capaz de denunciar um tabu social milenar que reza que a sexualidade é um pecado, a sensualidade é suja e pecaminosa… Não faltaram padrecos, papas, aiatolás e outras autoridades eclesiásticas pregando, por exemplo, sobre os terríveis males que esperam os masturbadores no Inferno… Aos homossexuais promete-se o destino sangrento de Sodoma e Gomorra… Para Alan Watts, um pouco satírico neste dito, “most churches are sexual regulation societies”. Muitas das religiões instituídas pregam a fórmula ascética simplista: a espiritualidade cresce em proporção direta à decadência da sexualidade no sujeito. É espiritual quem nega sua própria libido. Que diferença há no Tantra, admira-se Watts!

Querer livrar-se da sexualidade é outra daquelas alucinações danosas que Watts diagnostica em certas imagens do mundo, em certos mitos. A sexualidade está aqui pra ficar. Ela é pra celebrar e amar, não pra recusar e tentar matar. Nascemos por esta via, repovoamos a terra com novas gerações sob seu eterno encanto, já celebrado lindamente por Lucrécio em seu hino à Vênus ao princípio do clássico epicurista Da Natureza Das Coisas (De Rerum Natura). Sexualidade, diz Watts, é aquilo you can’t get rid of. Life is sexual. Um beatnik-hippie cantando um anarco-blues Ginsbergiano sob os auspícios do Doutor Sigismundo Freud. Não tem como não curtir a viagem do Alan Watts…

Watts sabe que o mundo físico é marcado por uma transiência, uma impermanência, inegável e incontornável. Tanto que os corpos necessariamente decaem de vitalidade e viram esqueletos. Toda beleza é mortal e ambígua, tanto é assim que toda rosa acaba por murchar e não há nenhuma desprovida de espinhos.

Diante disso, diz Watts, é preciso aprender com o Oriente a arte de um certo desapego, detachment. Não se trata de ascetismo, mas de ser alerta, contemplativo, reflexivo. “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, como canta Gal em “Divino Maravilhoso” (Caetano/Gil).

Watts não pede que nos miremos no exemplo do asceta que machuca sua própria carne em busca de uma purificação espiritual. Watts quer que nos miremos no exemplo do espelho. “Be like a mirror, free from dust and stains, just reflecting what goes on.” (85) O que a mente do sujeito senciente, desperto do samsara de seu ego, acaba por perceber durante seu nirvana, ou seja, durante o colapso da ilusão de separabilidade e durante o fim da sede insaciável que nos impede a serenidade? Descobrimos que a transiência do mundo físico é parte necessária de seu esplendor. “The physical world’s transiency is part of its splendor.” (86)

A impermanência não é pra ser rechaçada, mas sim abraçada. Isso necessita uma pedagogia radical que liberte a mente humana das ortodoxias, das carapaças rígidas, que nos abra os sentidos, que nos deixe, por assim dizer, com a senciência boquiaberta. Os símbolos e os mitos podem tornar-se nossos inimigos, se os confundirmos com o real. Gosto dos ensinamentos de Watts sobre o que não devemos confundir: “Don’t confuse clocks with time. Don’t confuse the menu with food. Don’t confuse money with wealth. Don’t confuse map with territory.”

Principalmente não confunda Deus com um Patrão. O Ocidente, segundo Watts, está doente de sua concepção da divindade como uma espécie de cosmocrata, do sexo masculino, controlador, chefão de tudo. The world has no boss, garante Watts.

O mundo é atividade eterna em um cosmos onde a vida nasce não por ditames e ditados do sobrenatural, mas do próprio seio transbordante de vitalidade da Natureza. É só pensar na rosa que saiu de dentro da roseira: a rosa não é filha de Deus, vocês sabem muito bem, mas sim filha da semente. A semente, as entranhas da Terra, os processos físicos do Universo, é que explicam tanto a rosa e os seus espinhos, quanto nós, humanos – cheios também de nossos espinhos.

Watts dirá que do mesmo modo que uma macieira dá maçãs, o mundo dá gente. A vida emerge do próprio pulsante tumulto imorredouro do cosmos em processo de fluxo onde tudo constitui uma unidade em interdependência. Diante de uma visão de mundo dessas, que abraça e ama a impermanência, é preciso lembrar dos ensinamentos budistas sobre a ética da delicadeza, da flexibilidade, da capacidade de mudança, da adaptação a novos cenários, da renovação perene, da ética do possível aprimoramento constante dos seres impermanentes que imperfeitamente estamos sendo. “The willow tree survives the winter by flexible branches.”

Alan Watts cita então Lao-Tsé e seus ensinamentos: “suppleness and tenderness are the characteristicas of life, and rigidity and hardness… of death”. O nirvana é dos que tiverem a coragem da ternura, dos que forem capazes de amar a impermanência. O samsara é dos rígidos e durões, incansáveis cúmplices da morte em seus esforços vãos de negar a finitude. O nirvana é dos que se sabem conectados, conectíveis, cósmicos. O samsara é dos que se pensam como egos, separados do que chamam de “resto”. O nirvana é dos que sabem que a impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor.

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Eduardo Carli de Moraes
Texto inspirado nas “Anotações de Toronto” 
Canadá, 2014
Brasil, 2017

Todas as citações do livro Eastern Wisdom, Modern Life
e do audiobook Out of Your Mind

 

SIGA VIAGEM:

“Why is it that we don’t seem to be able to adjust ourselves to the physical environment without destroying it?

Why is it that in a way this culture represents in a unique fashion the law of diminishing returns? That our success is a failure.

That we are building up an enormous technological civilization which seems to promise the fulfillment of every wish almost at the touch of a button. And yet as in so many fairy tales when the wish is finally materialized, they are like fairy gold, they are not really material at all.

In other words, so many of our products, our cars, our homes, our clothing, our food, It looks as if it were really the instant creation of pure thought; that is to say it’s thoroughly insubstantial, lacking in what the connoisseur of wine calls body.

And in so many other ways, the riches that we produce are ephemeral. and as the result of that we are frustrated, we are terribly frustrated. We feel that the only thing is to go on and getting more and more.

And as a result of that the whole landscape begins to look like the nursery of a spoiled child who’s got too many toys and is bored with them and throws them away as fast as he gets them, plays them for a few minutes.

Also we are dedicated to a tremendous war on the basic material dimensions of time and space. We want to obliterate their limitations. We want to get everything done as fast as possible. We want to convert the rhythms and the skills of work into cash, which indeed you can buy something with but you can’t eat it.

And then rush home to get away from work and begin the real business of life, to enjoy ourselves. You know, for the vast majority of American families what seems to be the real point of life, what you rush home to get to is to watch

an electronic reproduction of life. You can’t touch it, it doesn’t smell, and it has no taste.

You might think that people getting home to the real point of life in a robust material culture would go home to a colossal banquet or an orgy of love-making or a riot of music and dancing; But nothing of the kind.

It turns out to be this purely passive contemplation of a twittering screen. You see mile after mile of darkened houses with that little electronic screen flickering in the room. Everybody isolated, watching this thing. And thus in no real communion with each other at all. And this isolation of people into a private world of their own is really the creation of a mindless crowd.

And so we don’t get with each other except for public expressions or getting rid of our hostility like football or prize-fighting.

And even in the spectacles one sees on this television it’s perfectly proper to exhibit people slugging and slaying each other but oh dear no, not people loving each other, except in a rather restrained way.

One can only draw the conclusion that the assumption underlying this is that expressions of physical love are far more dangerous than expressions of physical hatred.

And it seems to me that a culture that has that sort of assumption is basically crazy and devoted – unintentionally indeed but nevertheless in-fact devoted not to survival but to the actual destruction of life.”

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Psychedelics and Religious Experience
by Alan Watts

“The experiences resulting from the use of psychedelic drugs are often described in religious terms. They are therefore of interest to those like myself who, in the tradition of William James, are concerned with the psychology of religion. For more than thirty years I have been studying the causes, the consequences, and the conditions of those peculiar states of consciousness in which the individual discovers himself to be one continuous process with God, with the Universe, with the Ground of Being, or whatever name he may use by cultural conditioning or personal preference for the ultimate and eternal reality. We have no satisfactory and definitive name for experiences of this kind. The terms “religious experience,” “mystical experience,” and “cosmic consciousness” are all too vague and comprehensive to denote that specific mode of consciousness which, to those who have known it, is as real and overwhelming as falling in love. This article describes such states of consciousness induced by psychedelic drugs, although they are virtually indistinguishable from genuine mystical experience. The article then discusses objections to the use of psychedelic drugs that arise mainly from the opposition between mystical values and the traditional religious and secular values of Western society.”

FULL ARTICLE

NASCER É UMA ENCRENCA: Leitura em paralelo de “Enclausurado” de Ian McEwan e “O Trauma do Nascimento” de Otto Rank (por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro)

I. PRELÚDIO: CARTOGRAFIA DOS QUE ENCRENCARAM COM O FATO DE TERMOS NASCIDO

Em uma das frases mais impactantes já paridas na história da literatura brasileira, Machado de Assis põe na boca de Brás Cubas, que narra suas memórias direto do além-túmulo, uma súmula de sua estadia entre os vivos: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Este sarcástico petardo de pessimismo Schopenhaueriano, que serve de inesquecível epitáfio para as Memórias Póstumas, revela o imenso talento de Machado para inserir em uma única frase todo um tratado de filosofia.  Na tradução do livro para o inglês, o título da obra tornou-se Epitaph For A Small Winnerde modo que o pensamento de Cubas ganha ainda mais destaque como “o epitáfio de um pequeno vencedor”.

É uma frase tão magistral que o Emil Cioran (1911 – 1995), um dos melhores forjadores de frases assim, poderia tê-la invejado e ter sentido comichão por não tê-la escrito. Este filósofo romeno, aliás excelente escritor e talentoso estilista da prosa, explorou como ninguém, no pensamento do século 20, o fenômeno que chamou de “o inconveniente de ter nascido”. 

Estudioso voraz da história da filosofia, Cioran encontrou seus heróis bem longe de nomes consagrados como Platão e Kant, pensadores de quem foi antagonista e crítico feroz. Preferia mirar-se no exemplo de obscena lucidez do filósofo cínico Diógenes, “um santo da chacota”.  Também um profundo conhecedor e debatedor dos escritos de Nietzsche, Cioran decerto sabia muito bem que os pensamentos que problematizam a encrenca que é nascer circulam desde tempos imemoriais. Encontramos um excelente exemplo na mitologia grega: ela nos conta que Sileno, companheiro de Dionísio, teria sido questionado pelo rei Midas sobre qual era, dentre todas as coisas, a melhor para o ser humano.

Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche relembra o mito e conta que Sileno, após ser perseguido pelo Rei Midas pela floresta, foi capturado e questionado sobre o sumo bem para as pessoas, tendo dado uma resposta que atravessará os séculos como um emblema do niilismo:

“Forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:

– Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.”

“Sileno Ébrio sustentado por sátiros”, pintura atribuída a Antoon van Dyck. Aproximadamente 1620. Copyright (C) The National Gallery, London.

Fico me perguntando, diante de idéias assim, rotuladas como niilistas ou pessimistas, se isso tudo é pra ser levado a sério. Em mim, confesso, idéias assim fazem cócegas. Isso de “não ter filhos para não transmitir a ninguém o legado de nossa miséria”, isso de ser delicado e generoso o bastante com os não-nascidos para evitar que sofram “o inconveniente de nascer”, são propostas éticas e existenciais a serem seguidas a risca? Ou estas propostas são veículos também de um certo escárnio, de um libertador humor que nos emancipa até mesmo daquele fardo que é crer na seriedade da vida?

O que fascina em idéias deste teor é a ousadia com que confronta-se o senso comum, que tende a conceber a vida como: um dom de Deus, o maior dos bens, a maravilha das maravilhas, valor absoluto e independente de quaisquer circunstâncias. Questionar o valor do nascimento ou da transmissão da vida é pôr em dúvida o próprio dogma quase nunca questionado da vida como um valor absoluto.

Ouvi outro dia que “a vida é uma doença sexualmente transmissível e com um grau de letalidade de 100%”. E não só encontrei aí motivos para o riso, mas também achei neste pensamento tragicômico um bom grau de verdade. Na filosofia budista, aliás, a pior coisa que pode acontecer ao sujeito é ficar empacado na roda do Samsara, renascendo sem fim neste mundinho de tédios e sofrimentos, retornando sempre para a mesma sede insaciável, a insatiable craving que nos torna, segundo Schopenhauer, parecidos a torturados míticos como Íxion ou as Danaides. Nada parece mais desejável aos praticantes do budismo, que aspiram atingir o Nirvana, do que cessar de (re)nascer!

Tendo a achar graça quando leio pensamentos desta estirpe – que abundam também nas páginas de Samuel Beckett ou de Louis-Ferdinand Céline… – pois decerto há algo de cômico nas hipérboles pessimistas, algo que as aproxima do chamado “humor negro”. Descrever o nascimento como um péssimo negócio pode inclusive aliviar o insustentável pesadume de ser: há possibilidade de alívio afetivo na expressão de nossas inquietações existenciais, inclusive aquelas que nos levam a pôr em questão se a vida vale a pena ser vivida.

Em O Mito de Sísifo, Camus dizia que o suicídio é a maior das questões filosóficas. Acredito que Camus pensava que decidir-se quanto à questão do suicídio, abraçá-lo ou recusá-lo, significa escolher entre permanecer na vida, apesar de todo seu absurdo e de todos os aspectos revoltantes e intragáveis da realidade, ou aniquilá-la de vez, manifestando assim, em ato e de fato, o veredito do sujeito sobre a indesejabilidade de viver. Decidir se nascer foi uma boa ou má coisa é algo que implica-nos na filosofia mesmo que não o saibamos; somos filósofos, ainda que inconscientes disso, quando por atos e palavras buscamos dar sentido, forma e mérito a isto que nos aconteceu a todos: nascer.

O aspecto mais enigmático de nascer consiste, certamente, no fato de que ninguém solicitou vir à vida: dão-nos à luz, é verdade, mas é à nossa revelia. Sempre podemos dizer, cada um de nós, com justiça: “não pedi para nascer”. O mundo é um espaço ao qual fomos lançados por forças que parecem transcender totalmente a nossa escolha. O nascimento prescinde da vontade do sujeito que nasce; ele é produto da união de outras vontades, mas vêm à existência sem ter escolhido este rumo, este destino, este fatum. Pelo menos assim parece ser àquele que segue a filosofia materialista, de matriz epicurista, que concebe o tempo de existência como rodeado, no passado e no futuro, por dois grandes e misteriosos nadas:

O filósofo romano Lucrécio (1º século antes de Cristo)

“Olhe para trás: nada foi para nós
Todo o tempo infinito antes da gente nascer!
Isto é como um espelho vazio onde vêm se refletir
Aquilo que será o tempo que se seguirá à nossa morte.
O que perceberíamos nisto de horrível ou de triste?
Não é isto um repouso mais doce que o sono?”

(LUCRÉCIO: Da Natureza, III, 972-977)

Lucrécio, no clássico poema epicurista Da Natureza, explicitará seu estarrecimento diante do quão pouco os seres humanos se espantam diante do fato de que um tempão gigante decorreu antes deles terem nascido. O tempo que precedeu nosso nascimento é como se não existisse. Tendemos a ficar mais angustiados com a perspectiva do tempo, supostamente infinito, que decorrerá depois que morrermos. No entanto, ambos os tempos – o que precede nossa chegada ao mundo, o que sucede à nossa partida – são enigmáticos, pois transcendem a duração em que está comprimida a efêmera vela de vida dos mortais.

O enigma do mundo antes de nós parece ter premência menor sobre nossa curiosidade do que o enigma similar do mundo depois de nós. Alguns dos mais belos versos de Lucrécio são dedicados a isso, e uma de suas missões na vida, como a de seu mestre Epicuro, era curar o ser humano de seu medo da morte.

Estes exemplos, evocados en passant, são alguns indícios da dificuldade humana de suportar nossa condição. Também mostram uma miríade de diferentes expressões deste desconforto que parece inerente à condição humana, afinal somos (lá vem clichê…) o único animal que sabe que vai morrer. Talvez esta expressão da angústia de ter nascido mortal seja terapêutica, talvez seja até mesmo aquilo que salva alguns do auto-aniquilamento: falar mal da vida e de ter nascido pode às vezes salvar alguém do desejo de morrer, fazendo-o ter pelo menos a ânsia de quedar entre os vivos pelo prazer de expressar os desacertos e desencontros de que nossa condição está repleta.

Sabe-se do potencial de terapia da expressividade autêntica dos afetos há muito tempo, bem antes do advento histórico da psicanálise e de sua terapêutica, batizada por Anna O, desde os primórdios, como talking cure (cura pela fala) e chimney sweeping (limpeza de chaminés). Eu ousaria dizer que toda a poesia – Octavio Paz que me perdoe… – bebe eternamente na fonte da angústia. E diria ainda que falar mal da vida é um dos prazeres mais puros destes viventes que somos diante da encrenca que é termos nascido mortais, passageiros, adoecíveis, frágeis, incompletos, além de condenados sempre a amar o que está fadado a terminar. 

Eis algo também encapsulado com perfeição por Woody Allen em uma frase hilária: “a vida é repleta de miséria, solidão e sofrimento – e o pior de tudo é que acaba rápido demais.”

Ora, se “a vida é cheia de miséria, solidão e dor”, não teríamos porquê lamentar seu rápido fim, muito pelo contrário: morrer rápido seria a segunda melhor de todas as coisas, como sugere Sileno ao Rei Midas (a primeira melhor coisa seria, é claro, nunca ter nascido). O brilhantismo da frase de Woody Allen está em explicitar o paradoxo que está em lamentarmos que esta vida-encrenca acabe tão rápido, quando a julgamos tão lotada de aporrinhações. É tão lamentável que esta vida que nos espanca, nos humilha, nos maltrata, que por fim nos destina à condição de comida na cadeia alimentar, tenha ainda o atrevimento e a insolência de ser tão efêmera!

Na sequência, gostaria de explorar duas obras que mergulharam fundo em toda a maravilha e todo o horror de nascer: o inspirado romance Enclausurado (Nutshell), de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2016), e o heterodoxo clássico psicanalítico O Trauma do Nascimento, de Otto Rank (Cienbook, 2016). Ambos são contribuições muito originais aos seus respectivos campos e fornecem incontáveis pretextos para a reflexão de todos aqueles que um dia nasceram – vulgo “nós” ou “todo mundo”. São livros repletos de food for thought para todos aqueles que um dia serão food for worms. 


II. ENCLAUSURADO: DILEMAS HAMLETIANOS DENTRO DE UM ÚTERO

“Ser ou não ser: eis a questão” – o dilema hamletiano é subvertido por McEwan em Enclausurado e torna-se um “nascer ou não nascer, eis a questão.” O romance é inteiro narrado por um feto dentro do útero e inspira-se diretamente no plot da peça Shakespeareana Hamlet.

Relembremos. Há algo de podre no reino da Dinamarca, vocês sabem bem: o Rei Hamlet foi morto por seu próprio irmão Claudius, que assume o trono e casa-se com a rainha recém-enviuvada Gertrude. O fantasma do rei morto aparece ao príncipe Hamlet, exigindo vingança e reparação; corroído pela insegurança, pela confusão, pela sedução do suicídio, pelo dever da vendeta, o atormentado príncipe descrito por Shakespeare é célebre por monólogos onde reflete interminavelmente sobre o que deve fazer.

Pegando carona neste célebre plot, McEwan encena um genial Hamlet Intrauterino. Já em seu terceiro trimestre de gestação, nosso minúsculo narrador testemunha de dentro de sua clausura maternal um tenebroso conluio entre sua mãe Trudy e seu tio Claude para assassinar seu pai, John Cairncross. O romance extra-conjugal de Trudy e Claude, que logo transforma-se em plano de homicídio com intentos de lucro prodigioso, têm por testemunha fetal nosso pobre protagonista e narrador em primeira-pessoa.

Tanto o pequeno herói de McEwan, confinado na barriga de sua mãe, quanto o príncipe de Shakespeare, têm em comum uma angustiada sensação de impotência, somada à necessidade premente de agir, diante de situações pra lá de encrencadas.

Quando esteve no Brasil, participando das comemorações dos 30 anos da Companhia de Letras, Ian McEwan comentou que um dos principais temas de Enclausurado é a “agência” [agency], ou seja, aquilo que compele o personagem a agir mesmo em um cenário onde tudo conspira para reduzi-lo à total impotência. Pois não parece haver alguém mais utterly powerless, mais totalmente desempoderado, do que um embrião em gestação.


McEwan, cuja trajetória artística têm consistido em ousadias narrativas cada vez mais arrojadas, é um dos gênios da literatura global contemporânea, autor dos magistrais Reparação (Atonement), Enduring Love, Amsterdam, Sábado, Solar, dentre outros. Este escritor britânico já faz por merecer um Nobel de Literatura ou o reconhecimento como autor destinado ao cânone futuro da escrita em língua inglesa. Qualquer crítica supostamente demolidora sobre a “inverossimilhança” de seu enredo cai por terra quando lemos Enclausurado, livro que demonstra que a literatura é um campo para a liberdade imaginativa e não para os realismos confinantes.

 De fato, é inacreditável que nosso narrador, com seus 8 meses de existência intra-uterina, tenha tal domínio linguístico e narrativo quanto está manifesto em cada frase, repleta de wit, de Enclausurado. Qualquer realismo foi chutado para escanteio, mas assim é também em grandes clássicos da literatura, e não somente do gênero ficção científica, que também não se deixaram engaiolar pela descrição realista. Caso a literatura tivesse se mantido agrilhoada ao realismo estrito, não teriam nascido obras-primas como o Frankenstein de Mary Shelley,  a Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne, as Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, nem as obras de Vonnegut, William Gibson ou  Philip K. Dick, nem… os exemplos são infindáveis.

Em Enclausurado, a leitura é tão deliciosa, a narrativa é tão arrojada, que não nos incomoda nem um pouco a absurdidade patente de que estamos diante de um bebê com uma inteligência e uma sensibilidade tão prodigiosas e precoces. Na real ele mais parece um bebê que tivesse o cérebro… de Ian McEwan.

“Então estou aqui, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes de meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada…” (Cap. 1, p. 9)

O livro já começa encapsulando em poucas linhas muitas das melhores qualidades da prosa de McEwan: seu humor cáustico, que remete a Sterne ou Swift, explorado com magistrais efeitos também em seu romance Solar, tão genial e ainda subestimadoseu interesse pela vivência carnal, biofísica, de personagens que são enxergados sob o viés de um olhar “científico”, informado pela neurociência, pelo evolucionismo e pela pertença à complexas circunstâncias geopolíticas; sua capacidade de criar um suspense, uma thrilling vibe, através de situações extraordinárias que parecem desafiar a possibilidade da palavra escrita de descrevê-las.

O bebê que está enclausurado no ventre de Trudy, observando a mãe transformar-se em cúmplice do assassinato do pai, terá para si o dilema de Hamlet: vingar ou não vingar o ato horrendo de envenenamento de John Cairncross, não só pai da criança, mas talentoso editor de livros de poesia e “caça-talentos” no mercado editorial inglês. O bebê que antes curtia o resort aquático de seu oceano particular, curtindo a beatitude de um útero espaçoso, nutrido sem esforço algum (inclusive com doses embriagantes de bom vinho!), aproxima-se do momento de nascer quando a situação lá fora está pegando fogo.

Ele vê-se na necessidade de agir antes de nascer, de intervir no enredo de algum modo. Em cenas impagáveis e hilárias, descreve sua relação de ódio e rechaço diante da pica ereta de seu tio traíra; na hora do boquete, fica temendo que sua mãe engula a porra do tio e que aquilo acabe chegando para nutri-lo através do cordão umbilical; a certo ponto, desesperado, tenta suicidar-se, enforcando-se no próprio cordão umbilical. É um fracasso  (Cap. 13). A vida deste ainda-não-nascido não é mole…

Antes mesmo de ser plenamente, ele parece pender para a escolha do não-ser: “A gloriosa sociedade à qual em breve me reunirei, a nobre congregação de seres humanos, seus costumes, deuses e anjos, suas ideias ardentes e brilhante fermentação intelectual, já não me excitam… No meu estado de espírito, me inclino pela esterilidade do natimorto, depois as cinzas.” (Cap. 10, p. 97)

Em outros momentos, este mood suicida é vencido por um temperamento mais jovial, por uma ânsia de vida, em que o bebê mostra-se corajoso, cheio de audácia para enfrentar a aventura perigosa do viver: “Quero minha chance, a vida que me espera… Posso aguentar. Acredito na vida após o nascimento, embora saiba como é difícil separar a esperança dos fatos. Qualquer coisa mais curta que a eternidade vai servir. Setenta anos? Embrulhe, vou levar.” (p. 164)

Estas oscilações e mood swings são parentes próximas dos monólogos hamletianos. Mas McEwan sabe evocar temas que não poderiam estar nas reflexões de Hamlet enquanto procura determinar se deve ou não vingar a morte do pai. Hamlet não poderia, por exemplo, debater as idéias do filósofo político Thomas Hobbes, o que o bebê prodigioso de McEwan faz. Evocando o Leviatã do Estado, o bebê a certo ponto procura dissuadir-se da vingança:

 “Fazer a lei com as próprias mãos – isso é coisa do passado, típica de velhos albaneses com rixas de família e subdivisões do Islã tribal. A vingança está morta. Hobbes tinha razão, meu jovem. O Estado precisa deter o monopólio da violência, um poder centralizado que inspire em todos nós um temor reverencial.” (p. 61)

E é justamente o avanço dos agentes do Leviatã que servem de prelúdio ao nascimento do enclausurado: os policiais, a detetive de homicídios, despontam no horizonte existencial do embrião, enquanto ele assiste, de camarote, ao plano tétrico de sua mãe e seu tio chafurdar na lama de uma comédia de erros, daquelas que poderia ser filmada pelos irmãos Coen.

O bebê de McEwan vai percebendo, filósofo político mirim alimentado pelo noticiário, que a vingança sangrenta – o caminho Hamletiano, que arrastou em seu turbilhão de sangue os cadáveres de Ofélia, de Polônio, de Claudius, de Gertrude e do próprio príncipe, naquele banho-de-sangue palaciano que Shakespeare pinta em tão fortes cores – não será o seu.

“Hamlet e a Caveira de Yorick” – Pintura de Delacroix

“Vingança: o impulso é instintivo, poderoso – e desculpável. Insultado, enganado, ferido, ninguém pode resistir à atração de um pensamento vingativo. E aqui, nessa extremidade onde me encontro, um ente querido assassinado, as fantasias são incandescentes. (…) A vingança pode ser executada 100 vezes ao longo de uma noite insone. O impulso, a intenção sonhadora são humanos, normais, e devíamos nos perdoar. Mas a mão erguida, a execução violenta, essa é amaldiçoada. A matemática diz isso. Não há volta ao statu quo ante, nenhum refrigério, nenhum doce alívio – ou algum que dure. Só um segundo crime. Antes de embarcar numa viagem de vingança, cave duas sepulturas, disse Confúcio. A vingança desfaz as costuras de uma civilização. É um retrocesso rumo ao medo visceral e constante… A eliminação de Claude não trará meu pai de volta.” (p. 139)

Vocês vêem que o bebê, sábio apesar da tenra idade, consegue controlar seus impulsos de derramar o sangue do tio assassino e boçal; apesar das fantasias sangrentas que nutre, chega à decisão ética de que não vale a pena nascer para matar Claude, por vingança. O que vemos, na verdade, é o bebê transformar-se sorrateiramente em parceiro do Leviatã.

Legalista, o bebê enfim decide pela ação que dá desfecho à trama: diante do plano de fuga da mãe Trudy e do tio Claude, casal com as mãos sujas de sangue (ou melhor, de veneno…), ele toma a decisão de colaborar com a polícia. De dentro do útero, escolhe o momento mais inoportuno possível para romper a bolsa, forçando a barra para sair logo de sua bolsa de líquido amniótico. Sua vingança, ao invés de pagar na mesma moeda, consiste em sabotar o plano de fuga dos criminosos, contribuindo assim para a prisão dos homicidas.

“Depois de todas as minhas considerações e revisões, lapsos de percepção, tentativas de autoaniquilamento e tristeza pela passividade, tomei uma decisão. Chega. Hora de entrar em ação. Hora de começar… Duas semanas antes do tempo e unhas muito compridas…” (p. 193)

O rompimento da bolsa pelas unhas compridas da crianças, duas semanas antes do previsto, é também uma espécie de irrupção da liberdade na existência do bebê que narra Enclausurado. Ele tomou uma decisão, entrou em ação, sepultou a passividade, parou de pensar e passou a fazer. Nasce experimentando toda a glória e todo o horror da condição destas criaturas que, segundo Sartre, estão “condenadas à liberdade.”

Jovem grávida (2010) – de Dimitri Kozma

“Atravesso uma região que, eu sei, um pedaço do meu tio frequentou com demasiada frequência indo na direção oposta. Não me preocupo. O que nos dias dele era uma vagina agora tem o orgulho de ser um canal de nascimento, meu Panamá, e sou maior do que ele, um imponente navio de genes, enobrecido pelo avanço sem pressa, transportando minha carga de informações antigas. Nenhum caralho ocasional pode competir com isso. Durante algum tempo, fico surdo, cego e mudo, tudo me dói. Mas a dor é maior para minha mãe, que, aos gritos, faz o sacrifício de todas as mães por suas crias de cabeça grande e pulmões vigorosos…” (p. 198)

É como se McEwan fizesse o seu pequeno Hamlet decidir-se quanto aos dilemas do ser ou não ser, do vingar ou não vingar, de maneira mais “madura” e “civilizada” do que o príncipe da tragédia Shakespeareana. Apesar de todos os pesares, o herói em sua Nutshell – literalmente, “casca-de-noz” – vivencia altos dramas em seus 9 meses de vida, em que flerta com o pessimismo suicida mas termina como cúmplice do Leviatã. Nasce, como todos nós, berrando um primal scream saído dos pulmões de alguém que sabe que, ao nascer, a sua encrenca só começou. A última frase, genial, é simplesmente: “the rest is chaos” (“o resto é caos”).

Um aspecto pouco explorado do talento de McEwan está naquilo que eu chamaria de suas digressões geopolíticas, em que a literatura mostra-se profundamente antenada com os problemas coletivos globais, como o escritor já havia realizado, por exemplo, em Sábado, que se passa naquele memorável dia de mobilização global contra a Guerra do Iraque – 15 de Fevereiro de 2003 – e que levou às ruas de 600 cidades, em 60 países, mais de 5 milhões de cidadãos (Folha De São Paulo: “Maior Protesto da História Pede Paz”).

O protagonista de McEwan em Enclausurado têm sérias dúvidas sobre se nascer será um bom negócio, e isto não se deve somente à sua situação familiar e privada, mas também por sua percepção de que o mundo anda muito complicado e conflitivo. De dentro do útero, ele informa-se sobre a realidade do planeta através de podcasts e palestras ouvidas por sua mãe, de modo que transforma-se logo em alguém que debate internamente com pensamentos pessimistas e desesperados diante do estado das coisas:

“Uma especialista em relações internacionais me informou que o mundo não vai bem… A palestrante mostrou uma visão sombria de nossa espécie, em que os psicopatas constituem uma fração permanente, uma constante humana. A luta armada, justa ou não, os atrai. Eles ajudam a transformar desavenças locais em conflitos mais amplos. Segundo ela, a Europa, em meio a uma crise existencial, está irascível e fragilizada porque muitas variedades de nacionalismo autoindulgente estão provando dessa mesma poção saborosa… Unindo e nivelando toda a humanidade, os velhos e tediosos fatos da mudança climática, do desaparecimento das florestas, das criaturas e das calotas polares. A agricultura rentável e perniciosa destruindo a beleza biológica. Os oceanos se transformando em bacias de ácido diluído… Robôs roubando empregos…” (p. 32 -34)

Há páginas em que McEwan parece um sociólogo à la Bauman, fazendo leituras de conjuntura, mas isto está sempre inserido, como digressão, em sua teia narrativa. O bebê de Enclausurado, longe de ser totalmente narcisista e auto-centrado, focado apenas em sua intriga familiar, é alguém com interesse pela história, pela política, pelas relações internacionais, pela ecologia etc. Apesar da situação desgraçada em que ele vai nascer, num contexto tanto individual quanto coletivo dos mais encrencados, ele dá mostras de uma intensa ânsia de viver, mesclada com curiosidade, desejo de vivência, conatus em estado puro, invencível por quaisquer reflexões teóricas ou racionais.

“Quero ler até o final a Minha História do Século XXI. Quero estar lá, na última página, com oitenta e poucos anos, debilitado mas cheio de vigor, dançando uma música ligeira na noite de 31 de Dezembro de 2099. Pode ser que tudo acabe antes dessa data, sendo assim uma espécie de história de suspense, violenta, espetacular, altamente comercial. Um compêndio de sonhos, com elementos de horror. Mas está fadada a ser também uma história de amor e uma narrativa heróica de invenções brilhantes. Para sentir o gostinho, veja o volume anterior, de 100 anos antes. Uma leitura lúgubre, pelo menos até a metade, mas irresistível. Alguns capítulos que a redimem, digamos, sobre Einstein e Stravinsky.

No novo livro, uma das muitas tramas não resolvidas é a seguinte: será que os 9 bilhões de personagens vão conseguir escapar de um conflito nuclear? (…) E quanto nossos protagonistas estão decididos a superaquecer seus lares? Um ameno 1,6 grau, projeção ou esperança de alguns poucos céticos, criará montanhas de trigo na tundra, tavernas na beira das praias do Báltico, borboletas coloridas em territórios ao norte do Canadá. Na ponta mais sombria e pessimista, um aumento de 4 graus, caracterizado por fortes ventanias, provoca calamidades de inundação e seca, com o consequente agravamento do clima político…” (p. 133-134)

Eis um exemplo do quanto Ian McEwan é um autor plenamente embarcado no século 21, com suas sombrias perspectivas de disrupções climáticas, conflagrações nucleares e os fantasmas sempre redivivos do totalitarismo, do fascismo e do obscurantismo religioso militante. Pulsa nele também um forte espírito de valorização da empreitada tecno-científica, que não parece ser deslumbre acrítico diante de geringonças hi-tech e de prodígios como a Internet e os satélites, mas sim reconhecimento dos imensos avanços ocorridos, por exemplo, na área da neurociência, da genética e da medicina, sensível na ampliação inegável de nossa expectativa de vida (ao menos nos locais da terra onde há acesso à médicos e medicamentos…).

Enclausurado é um livro poderoso, que dá novo sentido à expressão “literatura visceral”, dialogando de modo fecundo e criativo com este clássico universal que é Hamlet. Revela também potência para ser debatido no âmbito da psicologia – tema do próximo capítulo, centrado na obra de Otto Rank, O Trauma do Nascimento. O protagonista de Enclausurado é alguém para quem nascer é um trauma, e mesmo aquilo que precede o nascimento está longe de ser um picnic de beatitude e despreocupação. Seus últimos momentos de vida intra-uterina e sua irrupção no mundo revelam um inesquecível personagem que sabe e sente, em carne viva, que nascer é uma grande encrenca.


III. OTTO RANK: O TRAUMA DO NASCIMENTO

O Trauma do Nascimento (Cienbook, 2016, 192 pgs) foi originalmente publicado em 1924 e levou seu autor, Otto Rank (1884 – 1939) a romper com o movimento psicanalítico fundado pelo “professor Freud”, com quem havia colaborado e debatido por duas décadas. Otto nasceu em Leopoldstadt, uma periferia de Viena, em 1884, em família de raízes judias, os Rosenfeld. Otto Rosenfeld, em certo momento, decide-se a mudar de sobrenome, adotando “Rank” por inspiração na peça de Ibsen, Casa de Bonecas. 

Ainda com 20 e poucos anos, escreve um livro sobre um dos temas que mais o ocupará em sua vida: a criação artística à luz da psicanálise. O trabalho impressiona o próprio Freud, que ajuda a publicá-lo; o “pai da psicanálise”, “impressionado com as qualidades intelectuais e o entusiasmo do jovem Rank, não apenas lhe concede um posto de secretário da Sociedade Psicanalítica de Viena (entre 1910 e 1915, quando teve oportunidade de protocolar todas as discussões do período), como também financia seus estudos universitários até o doutorado em filosofia, em 1912, com a tese O tema do incesto na literatura e no mito. (…) Em 1920, começa a atuar como psicanalista, com uma clínica no coração de Viena. Ele gozava do respeito e do afeto de Freud mas não um diploma em medicina…” (Érica Gonçalves de Castro, p. 11-12)

Da esquerda para a direita, sentados: Sigmund Freud, Sándor Ferenczi, Hanns Sachs. De pé; Otto Rank, Karl Abraham, Max Eitingon, Ernest Jones. 1922.

A obra de Otto Rank, de fato, manifesta um desejo de libertar a Psicanálise do confinamento no âmbito da medicina e da cura dos transtornos mentais e emocionais; sua ambição é que a psicologia, para além de seu benefício prático/terapêutico, possa fornecer chaves de compreensão para os mais longevos e insistentes mistérios, enigmas e esfinges da existência humana. Na década de 1920, Rank exporá sua polêmica teoria, fadada a tornar-se razão para muitas desavenças com seus colegas, em que concentra-se no sentimento de desamparo que sentimos após o nascimento e que seria determinante, vida afora, como um anseio de retorno ao útero materno.

O nascimento como trauma universal geraria um fenômeno subjetivo muito disseminado, um desejo onipresente apesar de recalcado, encontrável numa inumerável amplidão de produtos culturais e fantasias individuais: a nostalgia do útero, a fantasia de retorno a um estado concebido como paradisíaco (e que foi perdido). Este ímpeto libidinal de retorno ao contexto intrauterino, do qual fomos expulsos pelo parto, marcaria não só o mundo onírico de nossas noites (tanto as amenas quanto as de pesadelo), mas estaria presente, ainda que de modo disfarçado, nos mitos, nas religiões, nos produtos culturais, nos artefatos, nas criações artísticas, nos sistemas filosóficos etc.

Trauma do Nascimento cai como uma bomba no seio da ortodoxia Freudiana: pela primeira vez, alguém ousava questionar os dogmas do Complexo de Édipo e sugerir que a ansiada chave de explicação para os fenômenos psíquicos podia estar em um momento anterior à própria emergência do curinga Freudiano. Antes do Édipo, o trauma do nascimento – nisto seria resumível a contribuição de Otto Rank a este ponto de sua reflexão.

Ele ousou sustentar que havia uma espécie de fato psíquico universal, que atinge os sujeitos em todas as épocas e espaços geográficos, vinculado à experiência que todos compartilhamos de termos vivenciado o contraste entre o ambiente intrauterino (pré-natal) e o extra-uterino (pós-natal). Nascer, para Rank, ainda que nenhum sujeito possua memórias claras e nítidas de sua vivência nas horas do parto, deixa profundas marcas não só no âmbito da psique individual, mas na determinação dos destinos coletivos.

Quando Otto Rank busca aclarar as obscuras maquinações da sexualidade humana, quando visa explicar as complexas criações culturais da libido sublimada e do amor socialmente codificado, chega a conclusões que, reconhecendo o poder do platonismo e suas concepções sobre o Eros, parece atingir Platão em sua raiz, ou seja, em seu idealismo, já que o corpo animado pela libido ganha a primazia, e não mais o mundo inteligível das idéias-paradigmas eternas, que  lá da transcendência exerceriam uma misteriosa atração sobre nós:

“O amor sexual, que atinge seu ápice na união sexual, surge como a tentativa mais admirável de um restabelecimento da situação original entre mãe e filho, que só se completa com a fertilização de um óvulo. E quando Platão, seguindo as tradições orientais, define a essência do amor a partir da atração de duas partes separadas que outrora estiveram unidas, esta é a descrição poética mais bela da maior tentativa biológica de superação do trauma do nascimento através do amor genuinamente ‘platônico’ – o da criança pela mãe.” (OTTO RANK, p. 56)

O Eros platônico – que, durante o Banquete, Aristófanes vincula à busca pela metade perdida – é re-inserido no âmbito da biologia por Otto Rank, que formula uma explicação que dispensa quaisquer elementos sobrenaturais ou transcendentais para a explicação do chamamo “amor platônico”. Este têm por paradigma original, não qualquer ideal eterno, mas a vivência carnal e concreta da gestação e posterior nascimento. Não foi o raio de Zeus enfurecido que cortou em dois as criaturas duais e conexas que éramos no passado mítico; foi simplesmente o trauma do nascimento que instaurou uma situação existencial originária de separação, em que o sujeito fica com seu desejo de certo modo atado ao desejo impossível de retorno ao útero. A proibição cultural do incesto, o poderio repressor do pai, a rivalidade entre irmãos, a competitividade social, tudo isto virá depois deste fato básico incontornável de que nascer foi uma ruptura orgânica que separou em dois organismos o que por 9 meses foi uma conectadíssima simbiose.

O componente de heresia e de heterodoxia que torna-se explícito quando lemos O Trauma do Nascimento está essencialmente na ousadia através da qual Otto Rank explica uma ampla miríade de fenômenos remetendo à experiência visceral da primeiríssima infância. Deuses e demônios, Édens e Infernos, não escaparão de serem explicados como projeções fantásticas realizadas por sujeitos que possuem complicadas relações com sua libido, que não se resignou à perda de seu paraíso primevo, o intrauterino. Estou simplificando muito, mas em última análise Rank afirma que o útero é a fonte de todos os paraísos e todos os infernos. A experiência visceral do parto é aquilo que explica todos os mitos da Queda e do – esqueçam Milton! – Paraíso Perdido.  “O problema do nascimento humano de fato está no centro do interesse mítico e do infantil, influenciando de forma decisiva no conteúdo dos produtos da imaginação.” (p. 78)

Quando rompe-se a bolsa de líquico amniótico, quando o cordão umbilical é cortado, quando o corpo migra de sua caverna maternal para todo o som e toda a fúria do mundo exterior, não parece haver bebê capaz de conter o grito. O que dará aos pessimistas de todos os tempos o pretexto de brincarem que, se choramos todos ao nascer, é por uma espécie de premonição de que estamos entrando numa baita encrenca. Otto Rank criará uma teoria da neurose que a vinculará a um ímpeto de regressão, a um desejo libidinal de re-entrar no ventre materno, o que é uma impossibilidade objetiva. Desejar o impossível adoece o sujeito que fixa-se nesta vontade retrógada, recusando a difícil empreitada do amadurecimento, o qual consiste necessariamente numa tentativa de lidar de maneira criativa e construtiva com as cicatrizes e saudades vinculadas ao trauma do nascimento.

“…por causa do longo período de gestação e com ajuda das faculdades intelectuais superiores que posteriormente foram desenvolvidas, o homem procura restabelecer, de todas as formas possíveis, enquanto por assim dizer criador, o estado primitivo. E isso ele consegue, até um nível elevado de prazer, por meio dos produtos socialmente adaptados de sua imaginação, como a arte, a religião, a mitologia; na neurose, porém, esses esforços adaptativos sofrem um fracasso lastimável.” (OTTO RANK: p. 45)

Otto Rank não pensa estar praticando nenhuma ruptura radical com Freud, ele concebe seu trabalho como uma espécie de continuação criativa das descobertas freudianas; não é, porém, um daqueles discípulos puxa-sacos, papagaios, que só sabem repetir o que já foi dito pelo mestre. “Não sabemos o que é mais admirável em Freud: sua coragem de descobridor ou seu caráter combativo e tenaz, com o qual ele sempre soube defender suas descobertas contra as resistências vindas de toda parte” (p. 162). Figuras como Breuer, precursor da psicanálise, que buscou tratar histerias, desde a década de 1880, com uma espécie de terapia dialogada que prenuncia o método psicanalítico, ou posteriormente Carl G. Jung, muito próximo de Freud por um tempo mas que tornou-se seu antagonista, são criticados por não admitirem a centralidade da sexualidade como fator essencial para o aclaramento da verdade sobre os sujeitos.

Uma psicologia que se esquive da libido será sempre suspeita de estar recalcando aquilo que melhor explica as dinâmicas afetivas do ser humano, e a teoria do trauma do nascimento é em essência uma espécie de epopéia que narra “os destinos da libido”. Perto do fim de seu livro, Otto Rank pontua:

“Por várias vezes, no curso de nossa exposição, nos esquivamos da questão de saber como é possível que o anseio – agora reconhecido como sendo a tendência primordial da libido – de reconstituir a situação primitiva e prazerosa no útero materno, e que temos de considerar como a expressão máxima da possibilidade de prazer, esteja ligado de maneira tão indissolúvel ao sentimento primitivo de angústia, como o revelam o pesadelo, o sintoma neurótico, mas também tudo aquilo que deriva desses fenômenos ou que se assemelhem a eles. Para que compreendamos este fato, precisamos ter em mente que o estado primitivo prazeroso é interrompido de maneira indesejada pelo ato do nascimento… e que toda vida posterior consistirá em substituir esse paraíso perdido, e que não pode mais ser encontrado, pelos já descritos, e extremamente complicados, atalhos dos destinos da libido.” (p. 164)

Trocando em miúdos: não existem paraísos senão os paraísos perdidos. Todo paraíso sonhado, fantasiado, ansiado, todo paraíso representado em pinturas ou filmes, em sonhos ou delírios, é uma espécie de fantasma compensatório. As religiões oferecem prêmios de consolação para estas criaturas que somos e que às vezes convivem mal com a necessidade de amadurecer e reconhecer que a vida é uma via de mão única, que não se entra duas vezes nem no mesmo rio, como diz Heráclito, nem no mesmo útero, como diz Rank.

Parece-me que a neurose, segundo Rank, usualmente está vincula com uma espécie de vontade regressiva, de desejo de retorno a uma situação primitiva perdida, de fixação (ainda que inconsciente, recalcada, não-reconhecida pelo sujeito) de reconquistar um paraíso que é sentido como perdido. A situação anterior ao trauma do nascimento seria a “tendência primordial da libido”, ou seja, nosso hedonismo infantil vincula-se àquela época (“minha juventude despreocupada”, como diz o bebê de McEwan em Enclausurado) quando éramos nutridos sem esforço algum de nossa parte, flutuávamos sem preocupações num lago amniótico, quentes e protegidos, e não precisávamos derramar o suor de nosso rosto no trabalho por um salário que nos permita comprar nosso pão, nossa vestimenta, nossa moradia; enfim, estávamos no paraíso dos preguiçosos. Estávamos fundidos, como no mito grego narrado por Aristófanes no banquete, antes do raio punitivo do Olimpo rachar-nos em pessoas inconclusas, incompletas, que vagam pela vida em busca de re-unificação.

Não é difícil de entender porque Rank insiste em descrever o ato do nascimento como um acontecimento extremamente traumático para a vida do bebê – tão traumático que deixará sequelas em nossa vida psicológica por toda a vida. Imaginem vocês que o bebêzinho estava lá, “numa relax, numa tranquila, numa boa” (para lembrar Tim Maia), só curtindo umas férias preguiçosas num resort aquático cinco estrelas, sendo alimentado sem precisar mexer um dedo, livrando-se de seus cocôs e xixis sem nem precisar ir ao banheiro, não tendo nem que trabalhar, nem que estudar, nem que acordar cedo todo dia… Ê maravilha! Uma vida de príncipe num trono de delícias!

E aí, de supetão, ele toma um pé-na-bunda súbito e é expulso de sua casa como quem não pagou aluguel e agora é despejado. Sem aviso prévio e sem o menor respeito por seu desejo, ele é evacuado – e com que grosseria! Ele vai sendo empurrado para fora do corpo que o acolhera, tendo que passar por um portal apertado, que lhe dá talvez a sensação terrível de asfixia e esmagamento… E eis que ele se vê num lugar estranho e bizarro, separado pela primeira vez do corpo de sua mãe, longe do calor protegido do seu antigo ninho, tendo o cordão que os ligava tão intimamente cruelmente rasgado, de pulmões entregues aos ventos do mundo poluído ao qual o trouxeram, sem nem antes consultá-lo…

E ei-lo ali, entregue ao frio, entregue a mãos estranhas, entregue, pela primeira vez, à solidão que tanto o fará chorar pela vida afora… É por isso que todos nós choramos quando nascemos. É por isso que todos os bebês humanos nascidos de mães de carne-e-osso, e não de tubos de ensaio ou de robôs, não importa o quanto a tecnologia se desenvolva, vão continuar para sempre a nascer berrando e chorando… Porque nascer não é exatamente divino, mas uma visceral vivência da qual a carne não se esquece. E Rank dirá algo assim: nascer equivale, em termos metafóricos, a ser expulso do paraíso.

Essa experiência primordial, segundo Rank, vai deixar no nosso psiquismo uma tatuagem perpétua e indelével. Nossa vida inteira ficará marcada por essa temporada no céu e por esse trauma da expulsão. O cristianismo, com o mito do Éden, não fez nada além de inventar uma historinha que serve como metáfora para a perda real do útero-ninho, sofrida por todos nós – e que é o fardo que carrega todo ser humano. Como bom ateu, discípulo de Freud em matéria de religião, Rank também dirá que as religiões, no fundo, inventam e imaginam um céu onde colocam somente projeções de desejos regressivos. Projetamos no além-túmulo a vida in utero!

E assim Rank vai explicando tudo como uma espécie de efeito do trauma do nascimento: a transformação da natureza pela técnica e pela ciência teria como objetivo principal transformar o mundo tendo como molde a vida intra-uterina e o nosso desejo de voltar a habitar num “ambiente” semelhante ao corpo maternal. A quem retrucar dizendo que tudo o que queremos através da transformação da natureza e dos avanços tecnológicos é nada mais do que “conforto” e “prazeres fáceis”, Rank responderia, provavelmente, que queremos essas coisas justamente em virtude da saudade que temos do conforto e dos prazeres fáceis que experimentamos na vida intra-uterina…

A arte, por sua vez, também teria relações umbilicais com uma tentativa de expressar a angústia, perpétua dentro de nós, associada com a expulsão do útero e com a impossibilidade de retornar a ele, de modo que a criação artística serviria para fabricar “satisfações substitutivas” que nos consolem de nossa sina de exilados… Ainda não tive acesso aos livros de Rank sobre o tema, como Art and Artist, mas parece-me que ele segue nos trilhos da teoria Freudiana que vê a arte como decorrente da “sublimação”, mas dá primazia a uma sublimação libidinal tanto do anseio de regresso quanto da angústia de ruptura com as quais convivemos desde que nos ocorreu esse evento espantoso e repleto de consequências – nascer. 

Se entendi bem, a sabedoria, para Rank, é conexa à conquista de uma maturidade, de uma vitória sobre o infantilismo, em que enfim percebemos que a vida é pra ser olhada com os olhos voltados para frente e não para trás; com os pés saudavelmente implantados num aqui-agora durável (penso na duração Bergsoniana) e não na nostalgia pelo impossível. Precisamos superar em nós a fantasia do regresso, o delírio de que um dia reencontraremos um amor de perfeita unificação e fusão, destruir a enorme atração da nostalgia que informa e deforma nosso imaginário… E acho que isso representa, no fundo, aquela velha necessidade, que Freud tanto destacava, de fazer triunfar o princípio de realidade sobre o princípio de prazer. Não para sejamos ascéticos e puritanos, mas, pelo contrário, para que nossas interações sexuais-afetivas possam ser sublimes, satisfatórias, sábias, crescidas, na plena aceitação de nossos limites e na gloriosa consumação de paraísos efêmeros e parciais possível àqueles que descrêem por completo dos paraísos eternos e totais.

Pode-se criticar, é claro, Otto Rank por ter uma espécie de idéia fixa: pelo menos neste livro, o trauma do nascimento parece ser como um Sol na galáxia teórica de Otto Rank; todo o resto parece orbitar ao redor desse conceito. Porém, uma leitura de outras obras, como o Mito do Nascimento do Herói, permite-nos vislumbrar um pensador profundo, eclético, que soube ir muito além deste seu conceito central e que inspirou também o trabalho posterior de figuras revolucionárias no âmbito da psicologia e da antropologia, caso de Ernest Becker, autor de A Negação da Morte, livro de 1984, vencedor do Prêmio Pulitzer, profundamente inspirado por Rank.

Depois de ler Otto Rank, é como se começássemos a enxergar o trauma do nascimento em locais e obras que antes pareciam-nos somente estranhas, absurdas, obscenas, malucas. Ele fornece-nos uma chave explicatória que parece fornecer frutíferos caminhos para a decifração, por exemplo, de mitos ancestrais e de sonhos aparentemente nonsense; mesmo coisas de que ele não trata em seu livro ganham um grau mais alto de inteligibilidade a partir de sua teoria – como é o caso, por exemplo, de quadros de Salvador Dali ou da arte de Kurt Cobain.

Um dos exemplos mais impressionantes na arte contemporânea de uma referência explícita à problemática analisada por Rank é decerto In Utero, o último álbum de estúdio lançado pelo Nirvana, uma obra que desde sua capa, em cada uma de suas distorções e dissonâncias, na sua lírica e na pregnância afetiva de uma angústia onipresente, está toda impregnada por uma imagética e uma ansiedade que estão explicitamente marcadas por uma psiqueê que têm a ânsia, confessada em “Heart Shaped Box”, de esconder-se dos percalços do mundo no refúgio do womb: Throw down your umbilical noose / So I can climb right back.”   Outras pistas impressionantes para a compreensão do universo psíquico Cobainiano estão nas análises de Simon Reynolds em Beijar o Céu (Ed. Conrad) ou no documentário-ensaio Montage of Heck (de Brett Morgen).

Continua em breve…

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Março de 2017
Contato: educarlidemoraes@gmail.com

O BUDA E A SERPENTE – por Heinrich Zimmer

O BUDA E A SERPENTE
por Heinrich Zimmer

“Gautama Siddharta, o Buddha histórico que pregou nos séculos VI e V a.C., era um reformador monástico que, aceitando o contexto da civilização indiana, permaneceu nele inserido. Jamais negou o panteão hindu nem rompeu com o ideal tradicional indiano de libertação através da iluminação (moksa, nirvana). Sua obra específica não consistiu numa refutação, mas numa reformulação; baseou-se em sua profunda vivência pessoal dos atemporais preceitos indianos que instruem sobre a libertação dos laços de maya.

(…) Como todos os santos importantes da Índia, Gautama foi venerado, mesmo enquanto viveu, como veículo humano da Verdade Absoluta. Depois de morto, sua memória foi vestida com as roupagens exemplares do mito. Quando a seita budista expandiu-se… o grande fundador tornou-se cada vez mais um símbolo digno de veneração – representativo do poder redentor da iluminação latente em todo o ser enredado pela ilusão.

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Jardim

Quando o Bem-Aventurado, na última vigília da Noite do Conhecimento, compreendeu o mistério da originação dependente, os dez mil mundos ribombaram ao alcançar ele a onisciência. Por sete dias permaneceu em postura de meditação sob a árvore Bo (ou Bodhi, a “Árvore da Iluminação”), às margens do rio Nairanjana, absorvido na iluminada bem-aventurança.

Refletiu, com a compreensão que viera de adquirir, sobre a servidão de toda a existência individualizada; sobre o poder fatal da ignorância inata que subjuga com seu sortilégio todos os seres vivos; sobre a irracional sede de vida que se segue e que impregna tudo; sobre o círculo infinito de nascimento, sofrimento, declínio, morte e renascimento.

Transcorridos sete dias, ele se ergueu, caminhou um pouco e deteve-se junto a uma grande figueira, sob a qual retomou sua postura de meditante; assim esteve por mais sete dias, mergulhado na bem-aventurança da iluminação. Depois ergueu-se de novo e alcançou outra árvore – a terceira.

Sentando-se outra vez, reverenciou por novos sete dias o estado de excelsa calma. Essa terceira árvore recebeu o nome de “Árvore de Mucalinda, o Rei-Serpente”. Mucalinda, uma serpente prodigiosa, vivia numa cavidade do chão, entre as raízes. Percebeu, assim que Buddha mergulhou em sua bem-aventurança, que uma grande nuvem de tempestade começava a adensar-se, embora não estivessem na estação chuvosa. Saiu no mesmo instante de sua morada escura e envolveu sete vezes, nas espirais de seu corpo, o corpo santo do Iluminado; sob o diâmetro do gigantesco capelo dilatado abrigou, como sob um guarda-chuva, a cabeça sagrada.

Por sete dias choveu e soprou vento frio, mas Buddha permaneceu em meditação. No sétimo, dispersou-se a tempestade extemporânea. Mucalinda despiu-se de suas espirais, transformando-se num jovem de nobre aparência e, levando à testa as mãos unidas, inclinou-se para adorar o salvador do mundo.

A lenda e as imagens de Mucalinda-Buddha representam uma perfeita reconciliação de princípios antagônicos. A serpente, simbolizando a força vital que dá origem a nascimento e renascimento, e o salvador, aquele que vence a cega ânsia de vida, que rompe os laços do nascimento e aponta o caminho da imperecível transcendência, desvendam aqui, em harmoniosa união, uma visão para além de todas as dualidades do pensamento.

Onde quer que encontremos uma sucessão de monumentos budistas que denote uma continuidade razoável, e que se refira aos séculos imediatamente anteriores à nossa era – aqueles que sobreviveram aos rigores do clima indiano e às vicissitudes históricas -, verificamos que as representações dos espíritos ofídicos estão associadas a inúmeros outros protetores divinos da fertilidade, prosperidade e vitalidade terrestre.”

Mucalinda2
ZIMMER, Heinrich. Mitos e Símbolos Na Arte e Civilização da Índia.
Ed. Palas Athena, São Paulo, 1989. Pg. 60 a 62.

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Maconha, Cérebro e Saúde (por Renato Malcher-Lopes & Sidarta Ribeiro)

MACONHA, CÉREBRO E SAÚDE (*)

por Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro

Nunca foi tão oportuna quanto agora a discussão sobre os efeitos cerebrais e fisiológicos da Cannabis, popularmente conhecida como maconha. Se por um lado uma parcela da sociedade começa a questionar a pertinência das políticas públicas que criminalizam seu uso, por outro a ciência avança a passos largos para decifrar a enorme variedade de efeitos fisiológicos e psicológicos induzidos por seus princípios ativos. […] A maconha é uma das drogas recreativas mais usadas no mundo e está entre as mais antigas plantas domesticadas pelo homem. Esteve presente nos primórdios da agricultura, tecnologia, religiões e medicina. Testemunhos eloqüentes de seu impacto na civilização estão presentes nas escrituras sagradas e nos mais antigos documentos médicos das mais diversas culturas.

O número de artigos científicos publicados sobre o sistema canabinóide cresce linearmente a cada ano, de forma que a maconha protagoniza uma verdadeira revolução, representando uma das mais promissoras fronteiras no desenvolvimento da neurobiologia e da medicina. A descoberta dos endocanabinóides, ou seja, moléculas análogas aos princípios ativos da maconha, mas produzidas pelo próprio cérebro, é a grande novidade por trás dessa guinada científica. Neste início de século XXI, acredita-se que os canabinóides possam estar envolvidos na remodelação de circuitos neuronais, na extinção de memórias traumáticas, na formação de novas memórias e na proteção de neurônios. […] A desregulação do sistema canabinóide pode estar envolvida nas causas da depressão, dependência psicológica, epilepsia, esquizofrenia e doença de Parkinson.


I. A HISTÓRIA NATURAL DA MACONHA

Acredita-se que a Cannabis seja originária da região central da Ásia, onde ainda é encontrada em sua forma silvestre. Hoje em dia, uma extensa faixa de estepes entremeada por desertos recobre esta região seca e gelada. Entretando, há evidências de que a planta já existia por ali numa época em que o clima era mais úmido e quente, o que confirma sua extraordinária capacidade adaptativa. Desta região a planta teria se espalhado pelo mundo graças aos movimentos migratórios de nômades e à atividade de comerciantes. A milenar relação do homem com esta planta acabou por gerar inúmeras variedades das três subespécies da Cannabis (indica, sativa, ruderalis), selecionadas segundo o interesse de quem as cultivava, tais como a qualidade da fibra e a quantidade da resina que produziam.

Vêm da China as mais antigas evidências da relação do homem com a Cannabis. Em 1953, numa vila chamada Pan-p’o, às margens do Rio Amarelo, trabalhadores escavavam as fundações de uma fábrica moderna sem imaginar que retiravam do chão a terra que os separava da pré-história de seu povo. Ali, sob sedimentos acumulados por mais de 6 mil anos, eles encontrariam indícios de que a Cannabis já fazia parte daquele cotidiano da idade da pedra: peças de cerâmica caprichosamente decoradas com marcas de tramas feitas de fibras de Cannabis.

O achado arqueológico sugere que a Cannabis era usada na tecelagem rudimentar e na confecção de cordas e redes de pesca pelos ancestrais dos chineses. Outros sítios arqueológicos espalhados pela China e na Ilha de Taiwan revelaram que ao longo dos séculos a versatilidade dos usos da Cannabis tornou seu cultivo imprescindível para a vida nas vilas do leste asiático. Seus pequenos frutos se tornaram um dos mais importantes grãos usados na alimentação, e uma fonte primordial de óleo comestível e combustível. […] A qualidade das fibras da Cannabis também possibilitou aos chineses a invenção do papel.

Segundo o botânico e geógrafo russo Nicolay Vavilov (1887-1943), o homem primitivo experimentava todas as partes das plantas que pudesse mastigar, de forma que os brotos e inflorescências de variedades de Cannabis ricas em resinas aromáticas e pequenos frutos oleosos deveriam lhe parecer especialmente atraentes. Evidentemente, para aqueles que vieram a comer da planta, foi inevitável ingerir também os princípios psicotrópicos abundantes na sua resina, transformando a despretensiosa refeição numa experiência certamente inesquecível, com enormes consequências para a humanidade. Naquele contexto, os efeitos mentais da maconha teriam representado para esses coletores incautos nada menos do que um mergulho profundo em uma realidade completamente fora deste mundo, produzindo intensas sensações místicas.

….o homem antigo gradualmente aprendeu a reconhecer as propriedades farmacológicas das plantas por tentativa e erro, experimentando-as. Esse tipo de conhecimento empírico foi sendo adquirido e preservado pelos antigos xamãs asiáticos.

[…] Em 2006, foi encontrada na divisa entre China, Mongólia e Rússia a tumba de um xamã que viveu a cerca de 2.500 anos. Com ele foi enterrada, além de um instrumento musical, uma cesta de ouro contendo um farto suprimento de brotos e inflorescências de maconha que, devido ao frio, ainda presevavam um alto teor de canabinóides. Para xamãs como este, as propriedades psicotrópicas e medicinais dos mais diversos princípios da natureza, inclusive a maconha, eram sagradas e constituíam valiosas ferramentas farmacológicas necessárias ao ofício diário de diminuir as dores do corpo e dialogar com as diferentes dimensões da consciência.

A mais antiga farmacopéia (enciclopédia de medicamentos) do mundo, o Pen-ts’ao ching, foi escrita no primeiro século depois de Cristo a partir da compilação desse conhecimento tradicional, passado de geração em geração. […] A maconha era ali indicada para o tratamento de dor reumática, constipação, problemas femininos associados à menstruação, beribéri, gota, malária e falta de concentração…

O grego Heródoto (484-425 a.C.) nos legou em sua História o mais vívido e explícito relato que existe sobre os efeitos psicoativos da maconha na antiguidade. Segundo este relato, como parte de um ritual de purificação após enterrarem seus mortos, os citas entravam em uma tenda no centro da qual colocavam um caldeirão de bronze contendo pedras aquecidas. ‘Os citas então jogam as sementes de maconha nas pedras em brasas: as sementes queimam como incenso e produzem um vapor tão denso que nenhuma sauna grega poderia superar. Ao se deliciarem com esses vapores, os citas uivam como lobos’.

[…] A Cítia eventualmente desapareceu como nação, mas seus descendentes se espalharam pela Europa oriental, legando costumes presentes até hoje no folclore dessa região, sobretudo no norte dos Bálcãs, onde, por ex., se toma sopa com sementes de Cannabis no dia de ano-novo.O filósofo grego Demócrito, contemporâneo de Heródoto, relatou que ‘a maconha era bebida ocasionalmente, misturada com mirra e vinho, para produzir um estado visionário’. […] “…o uso médico e religioso da maconha sob a forma de uma bebida chamada bhanga já fazia parte da cultura dos persas na época de Heródoto… a bhanga teria a capacidade de revelar aos mortais os mais altos mistérios.

É bem possível que os hebreus já soubessem da existência da maconha antes mesmo de sua fuga do Egito, tendo em conta que os historiadores acreditam que o êxodo descrito no velho testamento possa ter ocorrido durante ou pouco antes do reinado do faraó Ramsés II (1195-1164 a.C.), o qual provavelmente conhecia muito bem os efeitos da maconha, conforme se pôde constar pela grande presença de canabinóides nos cabelos de sua múmia.

 

Em nenhuma outra civilização a maconha teve um prestígio religioso e medicinal tão expressivo quanto na Índia. De acordo com o Vedas, conjunto de textos que compõem as bases filosóficas do Hinduísmo, os deuses teriam mandado a maconha ao homem para que este pudesse alcançar mais coragem, libido e prazer.

Uma fábula conta que, em um dia ensolarado, Shiva, o deus mais importante do Hinduísmo, estava aborrecido por causa de um desentendimento com sua família e saiu sozinho para caminhar nos campos, até que resolveu buscar proteção do sol sob a sombra de um majestoso arbusto de maconha. Curioso a respeito da planta que lhe dera abrigo, Shiva comeu de suas folhas e se sentiu tão revigorado que adotou a planta como sua favorita. […] Um livro sagrado escrito entre 2000 e 1400 a.C. reconhece a propriedade que a maconha tem de aliviar a ansiedade. O Vedas também se refere à maconha, uma das cinco ervas sagradas do Hinduísmo, como sendo uma fonte de alegria, regozijo e liberdade.

Diz uma lenda da corrente mahayana do Budismo tibetano que Siddharta Gautama, a primeira encarnação de Buda, se alimentou exclusivamente de sementes de maconha, uma por dia, durante os seis anos de preparação que precederam sua chegada ao Nirvana. Já na tradição do Budismo Tântrico… a maconha é utilizada para facilitar a meditação e potencializar as percepções sensoriais envolvidas em cada aspecto das cerimônias tântricas. Nos ritos sexuais, uma boa quantidade de bhang é ingerida com antecedência, de forma que os efeitos potencializadores dos sentidos coincidam com o auge da prolongada cerimônia sexual cujo objetivo final é o de alcançar a comunhão espiritual com a deusa Kali.

Foi somente por consequência da ocupação britânica da Índia, já no século XIX, que a Europa veio a tomar contato com as propriedades medicinais da maconha…. seu uso se espalhou pela Europa e EUA de tal forma que, já nas primeiras décadas do século XX, dezenas de remédios à base de maconha estavam sendo produzidas pelos mais importantes laboratórios farmacêuticos, sendo recomendadas pelos médicos para os mais variados problemas, incluindo: enxaquecas, dor-de-dente, cólicas menstruais, hemorragia menstural e pós-parto, risco de aborto, úlcera gástrica, indigestão, inflamação crônica, reumatismo, eczema, estímulo do apetite e tratamento de anorexia.

Paralelamente, contudo, desenvolviam-se vacinas e antibióticos contra doenças infecciosas, além de novos remédios com indicações mais específicas, que passaram a ser de maior interesse para a indústria farmacêutica do que aqueles com efeitos múltiplos, como os que continham extrato de maconha… Finalmente, em 1941, a maconha saía oficialmente das páginas da farmacopéia norte-americana para figurar nas páginas policiais daquele país.

(…) O uso da maconha foi consagrado como símbolo do pacifismo hippie e da defesa das liberdades individuais, estabelecendo-se a partir de então como um ícone da cultura pop norte-americana. Em 1980, nada menos do que 68% dos norte-americanos já haviam experimentado a maconha ao menos uma vez.

No Brasil, escravos e campesinos usavam-na socialmente no final do dia de trabalho, quando se reuniam de forma quase ritualística para relaxar em rodas de fumo… a planta era fumada para facilitar o transe místico… Mas o efeito relaxante da maconha não era visto com bons olhos por patrões e senhores de escravos. […] O uso da maconha passou a ser combatido como vício pela elite econômica […] e sofreu perseguição de cunho fortemente racista, e sua proibição eventualmente passou a servir de pretexto para a opressão de indivíduos de origem africana que, sobretudo após a abolição da escravatura, eram vistos pelos brancos como uma parcela perigosa da população.

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Um aspecto que distingue a maconha de muitas outras plantas medicinais é o conjunto de efeitos mentais que seu uso provoca. As relações milenares do homem com a Cannabis certamente decorrem de estados psicológicos prazerosos associados a seu consumo, e da possibilidade de obter tais efeitos de forma rápida e transitória. A maconha em doses não excessivas geralmente provoca uma experiência de alteração mental livre de náusea, vômito, diarréia, dor de cabeça, pânico, fortes alucinações ou perda de consciência. O ‘barato’ causado pela maconha, embora não seja normalmente estudado por ser valor terapêutico, está associado à melhora do humor, à redução da ansiedade e à sedação moderada, qualidades desejáveis no tratamento de diversas doenças.

Contudo, se é certo que muitos dos efeitos psicológicos da maconha estão direta ou indiretamente relacionados aos seus usos terapêuticos, também é certo que o interesse do homem por eles vai muito além da esfera medicinal. Assim, em diferentes tempos e culturas, as propriedades psicoativas da maconha têm sido utilizadas para finalidades religiosas, artísticas e recreativas.

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Um dos efeitos imediatos mais mencionados é o alívio do estresse mental e físico. […] De forma geral, a maconha funciona como um ansiolítico, causando um relaxamento que é frequentemente acompanhado da sensação de bem-estar e euforia, muitas vezes evidenciada por longos acessos de gargalhadas. Aumentam também a sensação de paz interior e empatia, facilitando as interações interpessoais. É comum ainda a alteração na percepção do tempo, que parece passar mais lentamente.

As emoções e percepções se intensificam, aprofundando a apreciação estética, lúdica e sensual dos sentidos. A percepção visual se enriquece, sendo marcada por cores mais vibrantes, com diferentes nuances, contornos que se destacam  com mais clareza do fundo e variações mais nítidas de luz e sombra, realçando a percepção da tridimensionalidade. Assim, elementos visuais sutis ganham vivacidade sob efeito da maconha, permitindo ao usuário enxergar com clareza texturas, padrões, formas e estruturas complexas que não lhe seriam perceptíveis sem o uso da droga.

Com relação à audição, os relatos frequentes dos usuários indicam que a maconha aumenta a acuidade auditiva, facilitando, por exemplo, a percepção de mudanças sutis de ritmos, timbres e notas musicais. É facilitada também a identificação das palavras cantadas e de cada instrumento tocado e a separação espacial dos instrumentos se torna mais clara.

[…] Sob efeito da maconha o raciocínio muitas vezes adquire mais velocidade e fluidez, resultando em associações mais flexíveis de conceitos, idéias e emoções. Além disso, imagens mentais ganham maior vividez. Se por um lado esses efeitos favorecem a criatividade e a elaboração de metáforas, por outro lado, sobretudo em usuários pouco experientes, dificultam o raciocínio lógico e objetivo.  […] Tais alterações na forma de pensar, associadas aos efeitos relaxantes e ao aumento da capacidade imaginativa, certamente contribuem para um aprofundamento da introspecção reflexiva.

Se por um lado a maconha diminui a ocorrência de sono REM e por extensão diminui efetivamente a oportunidade de sonhar, seus efeitos sobre a vigília são de certa forma oníricos, promovendo um afrouxamento perceptual e lógico que é descrito por muitos usuários como similar ao sonho. Vista por esse lado, a ação da maconha seria a redução do sonho noturno (night-dream) e o aumento da divagação da vigília (day-dream). Seu uso facilita o processo criativo e a geração de insights. Além de ser um poderoso estimulador do apetite, a maconha é também utilizada como relaxante ou mesmo como afrodisíaco.

O aprofundamento geral da experiência sensorial enriquece a apreciação e produção das artes, fazendo da maconha uma droga especialmente utilizada  pelos que vivem da sensibilidade artística. Não é por acaso que o cantor e compositor de reggae Peter Tosh, líder (assim como Bob Marley) do movimento Rastafari globalizado nos anos 1970, afirma em seu hino pela legalização da maconha (Legalize It) que a maconha é usada por muitos na sociedade, como juízes e médicos, mas começa sua lista pelos cantores e instrumentistas.

Além de favorecer a veiculação de emoções através das artes e estimular a comunicação verbal, a maconha também favorece estados de baixa ansiedade, como a contemplação lúdica, a introspecção, a empatia e o transe místico.

Trechos extraídos do livro:

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Alguns documentários cannábicos de alta relevância:

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The illegality of cannabis is outrageous, an impediment to full utilization of a drug which helps produce the serenity and insight, sensitivity and fellowship so desperately needed in this increasingly mad and dangerous world. 
Carl Sagan
 

 If the words “life, liberty and the pursuit of happiness” don’t include the right to experiment with your own consciousness, then the Declaration of Independence isn’t worth the hemp it was written on. 
Terence McKenna
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REFLEXÕES SOBRE A FORÇA E A VIOLÊNCIA NA FILOSOFIA DE MICHEL SERRES E SIMONE WEIL

PRELÚDIO

“Por que não deixaríamos
o banquete da vida
como convivas saciados?” 

Lucrécio (Séc. I A.C.)

Que sejam bem-vindos todos os mortais, convidados à convivência fraternal aqui neste cyberjardim, onde planta-se a semente da Philia no chão comum, na vontade de que germine e frutifique!

 Entrego aqui à Teia Mundial da WWW um hipertexto, verbal e audiovisual, aberto à devoração antropofágica e ao comentário livre de todos e quaisquer dos humanos mortais que saibam decifrar sua linguagem talvez um pouco tortuosa (mas é que são tortuosos os caminhos da força e da violência, que se trata aqui de sondar com curiosidade e sem medo!).

Os textos aqui entregues foram tecidos talvez como uma vereda de caminhos difíceis, mas caminháveis, nos quais compartilho alguns frutos de estudos, algumas explorações de temas que andam me interessando e me inquietando – e não sei filosofar senão na inquietude!

É uma tentativa de pesquisar em aberto. Aqui no blog vão sendo disponibilizados estes escritos, que são como que os cadernos de um professor-aprendiz, rebentos de uma outra fase, de alguém que vê-se na condição repleta de novidade do sujeito ensinante. Textos nascidos de dentro do processo de estar vivenciando muitas ótimas experiências como próf de filô no IFG (Instituto Federal de Goiás), mas que continuam sendo textos de alguém que prossegue no pique do aluno, nos corres da descoberta

Creio que professor tem que seguir investigando, caso contrário torna-se uma múmia paralítica, a promulgar verdades fixas do alto de sua cátedra. E professor não é padre, pastor, demagogo, idéologo, porra nenhuma: é a antítese do pregador de verdades absolutas e divinas. Aquele que pretende-se dono da verdade e quer pregá-la para forçar os outros a segui-la é alguém de atitude que não me atrai nem um pouco e que, nos professores que tive, dava-me uma certa repulsa. Pra lembrar Gonzaguinha, creio que há virtude em alguém sentir-se “eterno aprendiz”.

Hoje, sem me sentir velho, tampouco sinto-me “verde” e imaturo: este que atingiu suas 3 décadas de vida humana chegou não a um lugar de paragem, de fixidez, mas pelo menos ao resultado atual de um amadurecimento, e agora vê-se nesta fascinante posição, tão cheia de responsabilidade e promessa, do sujeito ensinante. Um professor-aluno na era da Internet, tentando ir em frente e avante, mas rodeado pela barbárie e acossado pelas marés montantes dos fascismos horrendos.

Nunca foi fácil ser vivo. Sempre foi perigoso ser mortal. Ainda assim, prosseguimos e convivemos.

Sinto visceralmente que professor que chegou a um estado onde parou de aprender e agora só ensina é um bicho bastante preocupante. Professor tem que continuar sendo aluno, pois professor que não aprende tem tudo para tornar-se um chato pedante, um arrogante papagaio de saberes supostamente acabados. Não sinto-me acabado, mas um mortal que vive e vai se fazendo, num improviso existencial um tanto  jazzístico. Ensinar é um aprendizado e sempre se vive um pouco de improviso. Professor que não aprende com aluno é bicho tapado.

Aqui, em aberto, neste blog, neste texto (e nos outros), pretendo praticar um questionamento e uma reflexão no aberto e no fluxo – como num Jardim de Epicuro, ao qual todos vocês estão convidados a frequentar… Deitem à vontade nas relvas, puxem um papo sempre que quiserem, colham frutos e embriaguem-se com suaves ervas, aqui reina a philia! 

Quero pôr-me a praticar aqui uma filosofia sem mapas prévios, sem ideologias a servir de joelhos. Uma filosofia para andarilhos sem respostas. Uma filosofia para questionadores, para fascinados, para aqueles que enxergam a vida, individual e coletiva, um pouco como mistério (em parte decifrável), um pouco como quebra-cabeça (e sempre faltam tantas peças para compreendermos o quadro todo, “the big picture” [como canta Bright Eyes!]).

A Internet possibilita que, ao invés de manter preso na gaveta aquilo que tenho pesquisado e descoberto, que isto seja posto em comum, para que também possa ser influenciado por esta própria abertura, pelos comentários e repercussões que o autor muito contente ficaria de receber: o eco dos feedbacks é uma das maravilhas que faz com que a vida não seja deserto solitário, mas espaço de convivência. Os mortais são convivas debaixo das mesmas estrelas. Embarcados no mesmo rio cósmico, somos corpos-barcos seguindo o declive desta enxurrada que é a vida. Irmãos em potencial somos: ainda que não tenhamos nascido das mesmas mães, somos todos filhos da Natura Creatrix, da Pachamama, da PanPresente Gaia.

Se falo como um hippie, é culpa desta mescla de Hendrix com Michel Serres, de Lennon com Suzuki, de Leminski com Raul Seixas, que constitui este meu cérebro aberto às influências dos meus semelhantes. Busco neles ardor e verdades, furor e loucuras, sem pudor de misturar poetas e pintores, filósofos e músicos. Conhecer é múltiplo. E às vezes desnorteia. Não troco por nada este desnorteio excitante pela apatia da ignorância.

Infelizmente, somos também capazes de fratricídio e barbárie. Com potencial para a fraternidade e para a chacina, oscilamos nessa gangorra. Cabelos ao vento, de pés agarrados ao chão deste planeta que já viu extinguirem-se Neandertais e Dinos, seguimos nosso caminho tão repleto de insânia, tão raramente iluminado por sábios preciosos como os Epicuros e Budas e Spinozas. Vivemos com os joelhos atolados no pântano deste rio de sangue que derramamos, o sangue de nossos semelhantes, o sangue dos mortais e dos animais, e ainda assim temos algo que nos impele para esta bela tarefa da construção de convívio, convivência, comunidade.

Que o convívio humano possa ser fraternal e belo é algo que meu coração um tanto anarquista encontra felizmente realizado em certos pontos do real. Fortaleço-me em minha humanidade ao pensar nos camaradas de Sierra Maestra, outrora, e nas montanhas de Chiapas, nos últimos tempos, apesar de admirá-los à distância, inspirado pelo exemplos de figuras como Che e  Marcos. O cortejo triunfal da violência e da barbárie, é o que me fortalece, não passa nunca sem que se confronte com uma resistência, com a indignação dos rebeldes, com a virtude corajosa dos que se recusam a deixar a opressão e a tirania reinar inconteste.

Sei também dos conjuntos humanos aprazíveis e benéficos; e não sei exemplificá-los melhor do que dizendo: ó que lindeza é uma orquestra filarmônica! Que harmonia coletiva emana de um coro de vozes e uma sinfonia de instrumentos! Que boniteza indizível é esta polifonia harmônica trazida à tona pela interação conjunta dos músicos quando estes vivificam, através da performance comum, a beleza pungente e deliciosa de um Mozart, um Schubert, um Beethoven, um Dvorak…

Por outro lado, a que extremos de discórdia e de chacina não podem chegar os humanos! Diante de tal mistura de angelical e demoníaco, de herói e de vilão, quis explorar o mistério de ser humano, sua glória e sua miséria, sem pressupostos, navegando com meus guias filosóficos prediletos. Saio aqui em viagem de pensamento, jornada de reflexão, e pretendo escrevê-la em aberto, tecendo minha teia verbal na rede, pois ¿não age assim também a  aranha ao ir tecendo a sua teia?

Esta aranha humana que aqui vos interpela, mortais, pretende apenas capturar em sua teia algumas realidades, ainda que de gosto amargo, ainda que pareçam indigeríveis. Este andarilho pelas pradarias do saber, este aventureiro das ciências e das artes, este aprendiz que quer aprendizados colhidos entre sábios e entre loucos, este buscador que aceita lição de gays e de prostitutas tanto quanto de presidentes e papas, este awestruck wanderer que guia-se mais pelo espanto e pela dúvida do que pelas certezas ortodoxas, ataca aqui o problema tão difícil, tão fascinante, que na vida de cada um de nós impõe-se tão radicalmente, da violência, da barbárie, enfim, o antiquíssimo tema do mal. Mal tão arcaico e tão sempiterno, tão antigo e tão contemporâneo. Mal lá fora, mal aqui dentro.

É também uma busca por esta força justa que contrapõe-se ao maléfico, ao danoso, ao mortífero, ao que adoece nosso corpo e avilta nossa dignidade; esta força ativa e criativa, aquilo que os filósofos chamam de virtude, de sabedoria, de aretê, de sophia. Força alegre de criação e invenção daquilo que nos supera e nos amelhora. Pois o que importa é jamais repetir as carnificinas de outrora: que não haja mais Ifigênias imoladas. Que o futuro seja desprovido de Hitlers. Que os fascismos e o totalitarismos sejam mortos e enterrados, restritos aos museus e livros de história. A tarefa é fazer com que Philia reine, que Vênus prevaleça sobre Marte, que o Jardim Fraterno tenha primazia sobre a carnificina das batalhas. Lucrécio, subindo nos ombros de Epicuro, aponta o rumo. Assim como Michel Serres e Simone Weil. E também os mestres zen. Eis a jornada pela frente, brevemente delineada.

I. DO ABISMO ENTRE DIREITO & JUSTIÇA

“Nunca se esqueça que tudo que Hitler fez na Alemanha era legalizado.” (Martin Luther King)

Só em um mundo ideal, harmônico, perfeito, utópico (do grego a-topos, sem lugar, pois não se encontra em lugar nenhum do real, habitando neste “espaço” meramente especulativo do Ideal…), só aí, na Utopilândia, na Cucolândia das Nuvens de que nos fala Aristófanes, a Justiça e o Direito estão perpetuamente em um amplexo amorável, em cópula gostosa, unidos e indissociáveis, constituindo o Reino Róseo da Fraternidade Humana Oni-Harmoniosa.

No real, a utopia é algo que sonha-se, mas que escapa ao nosso abraço, como diz Eduardo Galeano: caminhamos dez passos em sua direção, e a utopia dá dez passos atrás, furtando-se ao encontro. No entanto, caminhamos. Não necessariamente para o melhor.  Pois neste grande pesadelo desperto da História (“History is a nightmare from which I’m trying to awake”, para lembrar James Joyce), neste Theatrum Mundi onde desenrola-se de fato a vida dos mortais, não é preciso ser Shakespeare para perceber que o Direito às vezes é injusto, as leis com frequência infames e bárbaras, os árbitros e juízes com frequência tenebrosos, corruptíveis, vingativos, cruéis, kafkianos.

Por exemplo, como dizia Martin Luther King (que morreu assassinado pela barbárie), havia na matança organizada pelo regime Hitlerista todo um esforço de justificação, de legalização, de tornar lícito no Direito aquilo que hoje tão claramente sentimos como o fascismo bárbaro e terrorista da Shoah, da horrenda “Solução Final”, este ápice das atrocidades naquilo que o historiador Eric Hobsbawm chamou “A Era dos Extremos”.

A partir de 1933, quando chega ao poder o chanceler messiânico, autor do Mein Kampf, líder supremo deste totalitarismo genocida que tanta barbárie causou entre 1933 e 1945, instaurou no Direito, como legítimo, o extermínio em massa dos judeus. E tudo o que os nazis fizeram, todos os atos da Gestapo e dos SS, eram legais, ou melhor, foram tornados legais a partir do domínio sobre o aparato Jurídico, Policial, Militar, Carcerário, Burocrático, enfim: Estatal, conquistado por esta facção política que eram os nazis, infelizmente demasiado apoiados por vastas massas populares. Uma das mais tristes lições da História é esta: o Fascismo às vezes é Pop. Daí seguem-se devastações imensas. 

Eichmann, no tribunal de Jerusalém, como Hannah Arendt tão bem relatou, poderá manter sua pose de “cidadão de bem”, defensor da família, da religião, da propriedade, da tradição, justificando sua participação cotidiana no massacre da Shoah com uma velha desculpa: “eu apenas seguia ordens.” O fascismo funciona como maquinaria autoritária de controle e extermínio, exercida por uma fração da sociedade sobre o que esta facção decreta como “resto”. Judeus, ciganos, negros, índios, homossexuais etc., quando são declarados como sub-humanos sacrificáveis, eis o fascismo em uma pílula.

Mas o fascismo só ganha eficácia se puder pôr a seu serviço toda uma legião de funcionários. O führer era um só, é verdade, mas havia milhares de funcionários descerebrados dispostos a liberar o venenoso pesticida Zyklon B sobre seus irmãos, afinal “eram ordens de cima”.  Tampouco faltaram aqueles yankees obedientes que, dos seus aviões, borrifavam o Vietnã com o Agente Laranja (made by Monsanto) – o chefe tinha mandado, as ovelhinhas desumanas obedeciam. Todo regime fascista precisa de “gente normal” a manipular como títeres – e é chocante a quantia de gente que se presta a isso e que deixa-se aliciar por psicopatas demagogos, obedecendo àquilo que a dignidade humana e a fraternidade possível manda-nos recusar.

 O Holocausto evidentemente não era justo, mas tornou-se legalizado – abismo entre Direito e Justiça. O III Reich fez de seu Direito uma encarnação da barbárie. Por que o fascismo torna-se pop? A melhor resposta, creio eu, está em Erich Fromm e Wilhelm Reich, elucidada por Medo à Liberdade Psicologia de Massas do Fascismo. A liberdade pode ser sentida como um fardo, que nos implica com nossa escolha, que pesa sobre a consciência como responsabilidade, de modo que é mais fácil seguir o fluxo, obedecer às ordens, atribuir todo poder decisório a alguém que ordena, de cima para baixo, o caminho a seguir.

O fascismo torna epidêmico os descerebrados obedecimentos dos autômatos, a ausência perigosa de autonomia e capacidade crítica. O fascismo é simplista, reducionista, sectário, apelando para os piores ímpetos tribais arcaicos das massas que mobiliza: o líder fascista apela para que as pessoas identifiquem-se com a facção, que gozem com seu pertencimento a uma partição social, e que vejam todo o mal e toda a vilania em um certo outro, alteridade condenada e diabolizada, bode expiatório a ser imolado pela gangue de fascistas em grupo, psicopatas em facção, KKK ou SS. Diante de cenários assim, Howard Zinn, historiador norteamericano, dirá sob a influência das doutrinas de Desobediência Civil, celebremente defendidas por Thoreau e Gandhi:

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“A desobediência civil não é o nosso problema. Nosso problema é a obediência civil. Nosso problema é que muitas pessoas ao redor do mundo obedeceram às ordens dos líderes de seus governos e foram a guerra, e milhões foram mortos por causa dessa obediência… nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo diante da pobreza, da fome, da estupidez, da guerra e da crueldade. Nosso problema é que as pessoas são obedientes diante de cadeias que estão cheias de batedores de carteira, enquanto grandes bandidos governam a nação. Eis aí o nosso problema.” – Howard Zinn, historiador e cientista político. ACESSE: HOWARD ZINN EM PORTUGUÊS [BLOG]

Michel Serres falará de uma tendência histórica que há, contrapondo-se à barbárie, que procura fazer a História avançar, progredir, melhorar:

“A História avança, se podemos dizê-lo, quando uma disposição legal, aparentemente mais justa, substitui e anula a precedente, subitamente experimentada  como sobrecarregada de iniquidade. Sem esse movimento, jamais teríamos mudado de governo, nem nossas instituições e costumes evoluiriam. As leis saltam de injustiças duras para outras, mais brandas, com a justiça servindo de horizonte inacessível? Sejamos realistas; pois, como temos experimentado, nossa história constitui-se também de recuos; retrocessos misturam-se a progressos. Pior: nem sempre conseguimos avaliar o verdadeiro sentido, positivo ou negativo, desses dois movimentos.” (SERRES, A Guerra Mundial, pg. 88)

Nada nos permite crer na lenda otimista de uma História que só vai em direção ao melhor. O Progresso necessário é um mito, ou seja, quiçá uma mentira. Muitas guerras já foram deflagradas com a justificação de que trariam o progresso. Aqueles que envolvem-se em guerras quase sempre procuram justificativas para a carnificina, oferecem-nos uma explicação dos porquês da violência, chegando às vezes à curiosa e perigosa noção de guerra justa. Mas será que uma guerra pode mesmo ser justa, ou ela é justamente uma ofensa escabrosa à justiça? “Desconfio até inexistir, jamais ter havido guerra justa, o horror dos combates terminados em cadáveres amontoados sobrepujando, em atrocidade, a ideia de ser possível dizimar para estabelecer alguma equidade…” (SERRES, p. 88)

Zentralbild II. Weltkrieg 1939 - 45 Nach der Besetzung Frankreichs durch die faschistische deutsche Wehrmacht im Juni 1940 besucht Adolf Hitler Paris. UBz: Adolf Hitler mit seiner Begleitung nach der Besichtigung des Eifelturms. vlnr: SS-Gruppenführer Wolff, [Architekt Hermann Giesler], dahinter Generalfeldmarschall Wilhelm Keitel, SA-Gruppenführer Wilhelm Brückner, Reichsminister Albert Speer, Adolf Hitler, dahinter Reichsminister Martin Bormann, [Bildhauer Arno Breker], Reichspressechef Staatssekretär Otto Dietrich. 5527-40

Michel Serres fala, em A Guerra Mundial, de sua experiência própria, vivenciada em carne-e-osso: “durante a Liberação”, quando os franceses batalhavam para libertar-se da ocupação Nazi (que se estendeu de maio de 1940 a dezembro de 1944) , “uma guerra civil feroz estourou na França, e os mortos abundavam nos campos e nas ruas; (…) nós soubemos da Shoah (Holocausto), de Hiroshima e Nagasaki, de Dresden… Salváramos fugitivos, judeus, ciganos, mas, em relação ao número diluviano de cadáveres, eram migalhas.” (SERRES, p. 12)

Ora, Serres é um pacifista convicto, na práxis, alguém que escolheu a via da recusa ao belicismo. Mas ele compreende a guerra como algo que já pertence à história do Direito, ou seja, das táticas de regulação e domesticação da violência. “Na juventude, eu me demiti da Escola Naval, movido pelo que se chamava na época objeção de consciência. Enganei-me, confesso, ao confundir o exercício da violência com a existência do exército. Esse, não inventa nem consuma a violência, limita-a. Ele só faz combaterem adultos jovens, homens, antigamente mercenários, voluntários outrora, alistados na época… excluindo dos combates eventuais os anciãos, mulheres e crianças.” (SERRES, pg. 47)

O Direito não é santo. A guerra é um de seus meios, os exércitos às vezes suas ferramentas. Serres vai mais longe: só há guerra após o advento dos Estados. Para que seja possível que os beligerantes consintam com armistícios, tratados de paz, cessar-fogos, é preciso que já exista pelo menos um rudimento de Estados, constituídos, com algum Direito. “São necessários Estados para fazer a guerra, isto é, instituições já legais. A expressão “O Estado faz a guerra, e a guerra faz o Estado” parece-me conter também esse sentido jurídico(…) A guerra pressupõe um Contrato social. Ela se segue a ele; não conseguiria precedê-lo; acho mesmo que são contemporâneos.” (SERRES, pg. 90)

DENTRE OS TALENTOS HUMANOS, A MATANÇA ORGANIZADA E  A INCAPACIDADE DE ABOLIR A VIOLÊNCIA

“A guerra pode ser definida como organização da matança“, escreve Michel Serres em A Guerra Mundial (Editora Bertrand, Rio de Janeiro, 2008, pg. 25). Desde tempos imemoriais acontecia (e acontece até hoje em dia) que “depois de mil massacres na fornalha das batalhas, alguns medrosos grisalhos e frios, sãos e salvos, condecoravam os sobreviventes, feridos, com medalhas e os tratavam de heróis.” (pg. 26)

Serres também lembra, com René Girard, dos bodes expiatórios de que a História – pesadelo que passa? – está repleta: “ritos arcaicos e sacrificais, inteiramente inventados para desviar a violência coletiva para a imolação de uma vítima, o bode expiatório, que todos os que o matavam acreditavam culpado.” (p. 119) Ifigênia, lamentada por Lucrécio no Canto I de Da Natureza, é o símbolo imorredouro: virgem, pura, inocente, degolada no altar, a mando de seu próprio pai Agamemnon, o que arranca do poeta romano o seguinte lamento, cheio de blues: “A tão grandes males a superstição humana pode conduzir!”

A violência não é nova, na real é antiquíssima. A heroicização do homem viril, briguento, derramador de sangue, Hercúleo, bombado, que fala grosso, com fúrias de Aquiles, sangue-no-zóio como Agamemnon (que não tem misericórdia nem mesmo de sua filha Ifigênia!), tudo isso é bem arcaico e bem atual. Ainda hoje, temos serial killers com “sangue-azul”, gananciosos por tronos feito os Shakespeareanos Macbeths e Ricardos Terceiros. O belicismo viril, o falocentrismo briguento, a rivalidade descerebrada, a agressão gratuita, são dessas desgraças persistentes, destes estrupícios duráveis, que fazem da vida este treco um tanto difícil de ser digerido. A matança organizada prossegue entre nós como um legado obsceno do Patriarcado (Dominação Patriarcal que é ao mesmo tempo atual e arcaica). Hoje sobrevive uma barbárie cuja data de nascença é muito antiga e que continua sendo nossa tarefa contemporânea enfrentar, desconstruir e vencer. Smash it!

Estamos, é claro, muito longe de abolir a violência: não passa no mundo um minuto onde não registrem-se inúmeros casos de violência, e não somente os humanos, pois o lobo refestela-se com o banquete fornecido pelo assassinato que comete contra a lebre. Todo bicho que come um dia acaba por ser comido, lei natural necessária e sem escapatória. Resta a pergunta: é possível alguma sociedade, algum arranjo comunitário, onde a violência seja reduzida ao mínimo?

A utopia de uma sociedade que tivesse abolido a violência: quem é capaz de crer na possibilidade de realização disto? É claro que temos lindos exemplos de comportamento pacifista, belamente expressado, nas figuras de um Mahatma Gandhi ou de um John Lennon. Boto fé que há muito neles a ser aplaudido e celebrado (e por que não teríamos nossos heróis muito mais entre os pacíficos do que entre os guerreiros?). Mas ambos morreram assassinados. Tornar-se porta-voz do pacifismo, do brotherly love, da filantropia epicurista, do amai-vos uns aos outros, nada disso impede que um psicopata enfurecido ou um fascista bronco retire do coldre seu trabuco fálico e nos exploda o crânio com tiros. Filosofia trágica, real cheio de ágon.

Os fascistas não respeitam o paz-e-amor preconizado pelos hippies. Tem muito pacifista, na história, que tem seu discurso calado à bala. Como, diante desse quadro, agir? Em um mundo onde há a chance sempre presente de que sejamos vítimas da violência, como viver e conviver? Questão, creio eu, das mais contemporâneas que há, mas enraizada em uma vasta história. Questão que, me parece, era também visceralmente uma das experiências existenciais essenciais de Simone Weil  (1909-1943), esta pensadora preciosa e frágil, tão corajosa e tão fraca… Na companhia de Weil e Serres, coloco-me como missão, neste texto que aqui teço, sondar o enigma: a humanidade está impossibilitada de abolir a violência?

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III. POEMA DA FORÇA: SIMONE WEIL LÊ A ILÍADA

Ela, que viveu na pele a opressão que vivencia o operário e a desumanização que toma conta de todos em época de guerra, tinha em sua vida subjetiva esta mescla complexa e fascinante de gravidade e graça, de pacifismo e combatividade, que faz da leitura de Simone Weil algo que afeta o leitor em um nível muito mais fundo do que a razão. Simone emociona até o tutano dos ossos, comove como nenhum melodrama consegue. E que surpresa que tudo isto esteja escondido por trás de um livro com um título promissor de áridos marxismos – como A Condição Operária. 

Leitora da Ilíada, Simone Weil enxerga ali o problema filosófico da força, que interessa-lhe intensamente. O problema da violência, de sua abolição possível, está conectado ao problema da força, e não apenas da força humana. Homero é um poeta tão poderoso pois a Ilíada e a Odisséia são palcos iluminados para as manifestações da força, os embates entre diferentes forças, o conflito que há na existência e que os gregos chamavam de ágon. 

“Como definir força? É aquilo que transforma aquele submetido a ela em uma coisa”, escreve S. Weil em Ilíada – Poema da Força. “Exercida até o limite, a força realmente transforma o ser humano que é submetido a ela em uma coisa ao fazê-lo virar um cadáver. Fulano estava lá, vivo, e um instante depois não há nada ali além de um morto: eis um espetáculo que a Ilíada não cansa de apresentar-nos.” (SIMONE WEIL, Iliad: Poem of Force, pgs. 3-4-10.)

Pessimismo? Ou realismo? De todo modo, Weil e Serres sabem muito bem que a vida e a violência enredam-se de tal maneira uma com a outra que parecem indissociáveis. Era também a experiência de Heráclito e Nietzsche, de Foucault e Karl Polanyi. A ideia de que o ágon é parte integrante da condição humana, que a violência e o conflito fazem parte do próprio tecido da natureza, também marca presença em alguns dos pensadores mais importantes dos últimos séculos: Darwin e seu struggle for existence, a luta pela sobrevivência; Marx & Engels afirmando a luta de classes como motor da história; Sigmund Freud especulando sobre o Instinto de Morte, em conflito com Eros, e meditando em sua psicologia – tanto a individual quanto a de massas – sobre ímpetos agressivos, marciais, tanatocêntricos; todos esses caldeiões de ideias são evidências desta presença, através de todo o tecido do real, da força, do combate, da violência.

Capitalisme - Child Labor

A história do Capitalismo e do Patriarcado, o império da dominação burguesa e viril, imbricam-se para erigir um sistema social que cotidianiza a violência e a opressão, como vemos nas crianças operárias da foto acima, pequenos “motores” de carne-e-osso da Revolução Industrial e suas fábricas que eram como “moinhos satânicos” (Cf. A GRANDE TRANSFORMAÇÃO, de Karl Polanyi)

* * * * *

Na sequência, compartilho um texto que escrevi em Toronto, durante o ano que passamos no Canadá (2014), para o blog paralelo Awestruck Wanderer, em que falo sobre o livro de Simone Weil, Ilíada – Poema da Força, e tento conectá-lo com o zen budismo. Infelizmente, não tenho tempo no momento para traduzi-lo do inglês ao português:

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“The true hero, the true subject, the center of the Iliad is force. Force employed by man, force that enslaves man, force before which man’s flesh shrinks away.

To define force – it is that X that turns anybody who is subjected to it into a thing. Exercised to the limit, it turns man into a thing in the most literal sense: it makes a corpse out of him. Somebody was there, and the next minute there is nobody here at all; this is a spectacle the Iliad never wearies of showing us.

 Nearly all the Iliad takes place far from hot baths. Nearly all of human life, then and now, takes place far from hot baths…

Such is the empire of force, as extensive as the empire of nature.”

SIMONE WEIL  (1909-1943),
Iliad: Poem of Force, pgs. 3-4-10.

 

6Simone Weil reads the Iliad as if she’s witnessing, before her compassionate eyes, those occurrences evoked by the poet’s verses: she doesn’t turn her face away, refusing to see, when the horrors of war are graphically depicted in Homer’s blood-soaked pages. The war between Trojans and Greeks offers infinite occasions for us to reflect upon Force, especially in its deathly effects. What always results from battles is men laying lifeless on the ground, “dearer to the vultures than to their wives”, as Simone Weil stresses, and even the greatest heroes – Hector or Achilles – are frequently reduced to things by the enemy’s force. “The bitterness of such a spectacle is offered us absolutely undiluted. No comforting fiction intervenes; no consoling prospect of immortality; and on the hero’s head no washed-out halo of patriotism descends.” (WEIL: p. 4)

If there’s a lot of tragedy in the Iliad – and it surely has, even tough it was written centuries before the Greek tragedians (Aeschylus, Sophocles, Euripides etc) were born – it’s because force is often employed with tragic effects. It’s clear to me that Simone Weil uses the concept of “force” to denote something she morally condemns, and in such a manner that one might fell she has affinities with several branches of Eastern wisdom, especially Buddhist ethics.

For example, D. T. Suzuki’s Zen Buddhist philosopy, in which he opposes Power and Love and describes them as hostile to one another. Force/power is imposed upon a subject in order to reduce him to a thing, either by killing him (and thus forcingly throwing him back into the inanimate world), either by violating, humiliating, opressing or harming him in such a way that the person is still alive and breathing, but is no longer an autonomous subject. “A man stands disarmed and naked with a weapon pointing at him; this person becomes a corpse before anybody or anything touches him… still breathing, he is simply matter.” (WEIL: pg. 5)

A difference or imbalance between the forces of two individuals are excellent evidence of the onthological presence of Simone Weil’s force or Suzuki’s power among all that’s human. Trivial examples abound. Someone with a bazooka overpowers someone with a knife. A knifed man forces an unarmed woman into carnal processes she wouldn’t unforcibly agree to – I’m describing a rape. There are hundreds of movie scenes, especially in westerns and action-packed blockbusters, that tell stories about this battle of forces and powers. But for millenia before cinema was invented, human history contained in its bosom duels, rivalry, competion. One of the most ancient of literary monuments of the world, Homer, has the blood of battles soaked all over his pages. To speak like a Greek, human history is filled with ágon and húbris.

Weil writes about the Iliad being a French woman in the industrial-commercial age. Surely her experience in Renault’s factory, where she worked in order to experience in the flesh the fate of the proletariat, informs her readings of History as a whole. The factorys of the 20nd century are forces that dehumanize men, turns humans into things. The oppresion she dennounced on her writings, such as La Condition Ouvrière, well, she can sense similars processes of oppression and murderous folly, all mirrored in the Iliad.

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“There are unfortunate creatures who have become things for the rest of their lives. Their days hold no pastimes, no free spaces, no room in them for any impulse of their own. It is not that their life is harder than other men’s nor that they occupy a lower place in the social hierarchy; no, they are another human species, a compromise between a man and a corpse. The idea of a person’s being a thing is a logical contradiction. Yet what is impossible in logic becomes true in life, and the contradiction lodged in the soul tears it to shreds. This thing is constantly aspiring to be a man or a woman, and never achieving it – here, surely, is death but death strung out over a whole lifetime; here, surely is life, but life that death congeals before abolishing.” (WEIL: p. 8)

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In the epoch that the Iliad narrates, that is: The Greeks against Trojans Mega-War, it was the destiny of a conquered enemy to become a slave, that is, to be turned into a thing, deprived of autonomy. Homer describes in some occasions how people are forced into ships, taken away “to a land where they will work wretched tasks, laboring for a pitiless master” (HOMER. Iliad. Apud WEIL: p. 9).

A person enslaved is being treated like a beast, like a horse on reins. 12 Years A Slave, Scott McQueen’s film, is a fresh reminder of these horrors. Simone Weil denounces the in-humanity in human affairs wherever she sees it: be it on a Greek epic-poem, be it in the factories of the capitalism’s car-making industries. In this we can see how Simone Weil joins hands once again with Buddhist ethics: she denounces the ways in which misused force, or tyranny, disrespects sentient beings by treating them as if they were inert matter.

What Weil and Suzuki denounce in the workings of Force and Power is that lack of compassion which Buddhist ethics, by dissolving the ego, aims to cure ourselves of. Enlightnement or Nirvana, in Buddhism, can’t be achieved without compassion. And it may also be argued that French philosophy in the 20nd century has few voices more compassionate than Simone Weil’s.

“Force is as pitiless to the man who possesses it, or thinks he does, as it is to its victims; the second it crushes, the first it intoxicates. The truth is, nobody really possesses it. In the Iliad there is not a single man who does not at one time or another have to bow his neck to force.” (WEIL: p. 11)

There’s no simplistic, dualistic division between the forceful and the forceless in Weil’s philosophy – of course one can be a slave for a whole lifetime, and one can be a master and tyrant from birth to grave, but force isn’t something a human being can only exert upon others. Nature itself overpowers tremendously each and every one of the sentient and living creatures in its bosom, in such a way that even the most powerful among humans is still a frail thing – and always mortal, transient.

Let’s remember that the Iliad begins when a heated controversy is tearing apart two very powerful Greeks, Agamemnon and Achilles. This fight for supremacy is all around Homer’s poem, everyone wants to increase his own power, and this can’t be done by any other way than at the expense of others. The result of this mad rivalry is huge bloodshed. “He that takes the sword, will perish by the sword. The Iliad formulated the principle long before the Gospels did, and in almost the same terms: Ares is just, and kills those who kill.” (p. 14)

Mars, god of war, always ends up killing the killers.

1Certainly inspired and influenced by the philosophy of one of her dearest teachers, Alain  (Émile-Auguste Chartier, 1858-1961, author of Mars ou La Guerre Jugée), Simone Weil is a passionate apologist for philosophy’s powers against inhumanity. Because “where there is no room for reflection, there is none either for justice or prudence.” (p. 14) And she argues also: the horrors and tragedies that Homer depicts can be understood as results of lack-of-reflection, of hastiness to act, of an incapacity to refrain from agression etc.

 “Hence we see men in arms behaving harshly and madly. We see their sword bury itself in the breast of a disarmed enemy who is in the very act of pleading at their knees. We see them triumph over a dying man by describing to him the outrages his corpse will endure. We see Achilles cut the throats of twelve Trojan boys on the funeral pyre of Patroclus as naturally as we cut flowers for a grave. These men, wielding power, have no suspicion of the fact that the consequences of their deeds will at lenght come home to them – they too will bow the neck in their turn.” (WEIL: p. 14)

What’s astonishing about these last words is how closely Weil gets close to the Buddhist idea of karma. And what’s also touching is how compassionate Simone Weil truly is when she describes those numerous occasions when we fail to treat ourselves as “brothers in humanity” (WEIL: p. 15). But Weil is no Buddhist, and in the text we are following here she’s interested mainly in the Greeks, and how they also had a concept similar to karma, some sort of “retribution which operates automatically to penalize the abuse of force”. She claims this is the “the main subject of Greek thought”:

Nemesis

Greek goddess Nemesis

“It is the soul of the epic. Under the name of Nemesis, it functions as the mainspring of Aeschylus’s tragedies. (…) Wherever Hellenism has penetrated, we find the idea of it familiar. In Oriental countries which are steeped in Buddhism, it is perhaps this Greek idea that has lived on under the name of Karma. The Occident, however, has lost it, and no longer even has a word to express it in any of its languages: conceptions of limit, measure, equilibrium, which ought to determine the conduct of life are, in the West, restricted to a servile function in the vocabulary of technics.” (WEIL: p. 16)

In André Comte-Sponville’s philosophy, especially in his Short Treatise Of Great Virtues, Simone Weil’s ethical legacy lives on. It’s enough to read his wise chapters on “temperance”, “prudence” or “love” to get convinced that France’s philosophers are beautifully keeping alive the flame of these virtues, or at least hoping to spread them by inviting more humans to practise them. “A moderate use of force, which alone would enable man to escape being enmeshed in its machinery, would require superhuman virtue, which is as rare as dignity in weakness.” (WEIL: p. 20)

In Simone Weil’s ethics, moderation of force, care for the feelings of others, awareness of alterity, are virtues to be practised by those who see themselves as brothers and sisters in humanity. But when we look back at History we have few reasons to be optimistic. And besides, as Simone Weil points out with irony, we still live in times where “there is always a god handy to advise someone to be unreasonable.” (p. 21)

Simone Weil’s writings frequently denounce inhumanities commited by humans. She spreads awareness of our common humanity by showing how frequently we treated ourselves in a subhuman ways. And it’s not true that only the slaves are turned into subhumans when they are forced into slavery: the master also loses his humanity when he enslaves. And war and slavery are dehumanizing forces because they work towards destruction and death, “yet the idea of man’s having death for a future is abhorrent to nature. Once the experience of war makes visible the possibility of death that lies locked up in each moment, our thoughts cannot travel from one day to the next without meeting death’s face.” (WEIL: p. 22)

Is Weil, then, simply a pacifist, a Gandhian? Or did she approve armed uprisings against the Nazi’s occupation of Paris, for example? Her condemnation of war – bot only on “moral” grounds, but in a much broader sense, in an existential level – would necessarily lead her to a practice of non-resistance? The answer is hard to give, considering that Simone Weil, during the Spanish Civil War (1936-1939), enlisted to fight against the fascists. She can be seen in a famous photograph with a shotgun in her hands, quite willing to add a little bit of force to the Anti-Franco militias. But Simone Weil was no brute – on the contrary, she was gentleness incarnate, and her personal favorite in the Iliad is “Patroclus, who knew how to be sweet to everybody, and who throughout the Iliad commits no cruel or brutal act.” (WEIL: p. 26)

The possession of a fire arm does not imply the right to brutality or cruelty. Being armed isn’t a license to act with mad húbris. When I think of Simone Weil armed with a shotgun in Spain, willing to fight against Fascism when she saw it dangerously spreading through Europe, I can’t be simplistic about pacifism, as if it was some kind of ethical absolute. I don’t believe it is – and neither did Simone Weil back in the 1930s or did the Zapatistas under the guidance of Marcos in Chiapas, Mexico, nowadays.

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War turns us into subhumans beasts killing themselves in mad rivalry, but how on Earth are we to build a planetary community in which war has been banned, and ample dialogue and mutual enlightnement between cultures reign? For thousands of years, war seems to follow humanity, always on its trail. That ideal sung by John Lennon in “Imagine”, the Brotherhood of Man, remains to be futurely made flesh. It ain’t here now, it hasn’t been around lately, I guess, I suppose…

In Homer’s Iliad Simone Weil sees nothing to be optismistic about, just “a picture of uniform horror, of which force is the sole hero.” (p. 27) But what’s sublime about Homer’s art: the lasting artistic value of ancient epic poetry lies in the poet’s capacity to portray suffering befalling all – both Greeks and Trojans. Thus it points out to the fact that we’re all brothers in sorrow, and that’s an excellent reason for peace and compassion, as a Buddhist could put it.

“However, such a heaping-up of violent deeds would have a frigid effect, were it not for the note of incurable bitterness that continually makes itself heard. It is in this that the Iliad is absolutely unique, in this bitterness that proceeds from tenderness and that spreads over the whole human race, impartial as sunlight. Never does the tone lose its coloring of bitterness; yet never does the bitterness drop into lamentation. Justice and love, which have hardly any place in this study of extremes and of unjust acts of violence, nevertheless bathe the work in their light without ever becoming noticeable themselves, except as a kind of accent. Everyone’s unhappiness is laid bare without dissimulation or disdain; no man is set above or below the condition common to all men; whatever is destroyed is regretted. (…) Whatever is not war, whatever war destroys or threatens, the Iliad wraps in poetry; the realities of war, never. (…) The cold brutality of the deeds of war is left undisguised; neither victors nor vanquished are admired, scorned, or hated. An extraordinary sense of equity breathes through the Iliad. One is barely aware that the poet is a Greek and not a Trojan.” (WEIL: p. 30 – 32)

For Simone Weil, the poet who wrote the Iliad acted with marvelous impartiality, and sang about the misfortunes and losses, about the victories and triumphs, of both sides of the conflict, in such a way that Greeks and Trojans are shown as co-participants of a common process.

“Attic tragedy, or at any rate the tragedy of Aeschylus and Sophocles, is the true continuation of the epic. The conception of justice enlightens it, without ever directly intervening in it; here force appears in its coldness and hardness; (…) here more than one spirit bruised and degraded by misfortune is offered for our admiration.” (p. 34) The enduring existential value of such art lies in this: to be aware of human misery is “a precondition of justice and love”, claims Weil. (p. 35)

When Simone Weil affirms also that “misery is the common human lot” (p. 35), she’s once again approaching a landscape familiar to Buddhists: one of the Four Noble Truths enounced by the enlightened Sidharta Gautama is:  “all is suffering”. From this awareness  springs compassion. Love, justice, compassion, can’t arise without the clear perception of our brotherhood in suffering. However, it’s clear as water that, even tough she was born in a Jewish family, Simone Weil is deeply suspicious of the doctrines and dogmas of Judaism:

“With the Hebrews, misfortune was a sure indication of sin and hence a legitimate object of contempt; to them a vanquished enemy was abhorrent to God himself and condemned to expiate all sorts of crimes – this is a view that makes cruelty permissible and indeed indispensable. And no text of the Old Testament strikes a note comparable to the note heard in the Greek epic, unless it be certain parts of the book of Job. Throughout 20 centuries of Christianity, the Romans and the Hebrews have been admired, read, imitated, both in deed and word; their masterpieces have yielded an appropriate quotation every time anybody had a crime he wanted to justify.” (p. 36)

Belief in gods is seen as highly problematic in Simone Weil’s philosophy, even tough it would be an exageration to call her an atheist, considering the intense mystical impulses that she manifests so vividly in her ouevre. What Weil can’t stand is the arrogance of those who use religion to falsely believe they are superior to the rest, that they are immune from evils that will only befall others. When religion leads to the denial of our common humanity, Weil rejects it: “the only people who can give the impression of having risen to a higher plane, who seem superior to ordinary human misery, are the people who resort to the aids of illusion, exaltation, fanaticism, to conceal the harshness of destiny from their own eyes.” (p. 36)

We still have a lot to learn from the Greeks, including its great epic poet, and Simone Weil admires Homer’s Iliad so much that she claims that

“in spite of the brief intoxication induced at the time of the Renaissance by the discovery of Greek literature, there has been, during the course of 20 centuries, no revival of the Greek genius. Something of it was seen in Villon, in Shakespeare, Cervantes, Molière, and – just once – in Racine. To this list of writers a few other names might be added. But nothing the peoples of Europe have produced is worth the first known poem that appeared among them. Perhaps they will yet rediscover the epic genius, when they learn that there is no refuge from fate, learn not to admire force, not to hate the enemy, nor to scorn the unfortunate. How soon this will happen is another question.” (WEIL: p. 37).

These words also sound, to my ears, in tune with Buddhist ethics, especially for the praise of compassion for the suffering of others. And of course that within the realm of The Other we should include Life-As-A-Whole, and not only human life. The Buddhist notion of “sentient beings” is such a great idea, methinks, because it describes something much vaster than Mankind, something that, without being a god, certainly transcends the individual self. Dogs and cats, lions and owls, sunflowers and worms, they all belong to the great family of the living, they are all sentient beings, even tough the degree of self-cousciousness greatly varies.

If both Simone Weil’s philosophy and Buddhist ethics are worthy of our attention, study and discussions, methinks it’s mainly because of the imminent ecological catastrophes that will quake our future and will shatter the current “Western Way of dealing with Nature”. Or, to put it in another words, it won’t be possible for the West to continue in its industrial-commercial path, on its productivist húbris, in its crazy consumerism meddled with egotisticall individualism, simply because the Earth’s biosphere won’t stand for it. And if we keep on going in the same direction, we can only expect mass-scale tragic consequences arising from so much atmospherical pollution, fossil-fuel burnings, deforestations, oil spills… A wiser relationship with Nature urgently needs to emerge from the cultural slumber of destructive capitalism – or else we’re damned.

Suzuki 2

“Westerners talk about conquering Nature and never about befriending her. They climb a high mountain and they declare the mountain is conquered. They suceed in shooting a certain type of projectile heavenwards and then claim that they have conquered the air. (…) Those who are power-intoxicated fail to see that power is blinding and keeps them within an ever-narrowing horizon. Love, however, transcends power because, in its penetration into the core of reality, far beyond the finiteness of the intellect, it is infinity itself. Without love one cannot see the infinetly expanding network of relationships which is reality. Or, we may reverse this and say that without the infinite network of reality we can never experience love in its true light.

To conclude: Let us first realize the fact that we thrive only when we are co-operative by being alive to the truth of interrelationship of all things in existence. Let us then die to the notion of power and conquest and be resurrected to the eternal creativity of love which is all-embracing and all-forgiving. As love flows out of rightly seeing reality as it is, it is also love that makes us feel that we – each of us individually and all of us collectively – are responsible for whatever things, good or evil, go on in our human community, and we must therefore strive to ameliorate or remove whatever conditions are inimical to the universal advancement of human welfare and wisdom.”

(D. T. Suzuki, The Awakening of Zen, “Love and Power”, pg. 70)

Article by Eduardo Carli de Moraes,
at Awestruck Wanderer.

Toronto, Canada. March 2014.

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BILIOGRAFIA BÁSICA

A GUERRA MUNDIAL, de Michel Serres

ILÍADA: POEMA DA FORÇA, de Simone Weil. In: WEIL, Simone; BESPALOFF, Rachel. War and Iliad. Preface by Christopher Benfley. New York Review Books Classics, 2005.

THE AWAKENING OF ZEN, de Daisetz Teitaro Suzuki. The Awakening of Zen. Edited by Christmas Humphreys. Boston: Shambhala, 1980.

A JORNADA DO DESESPERO À BEATITUDE NA ÉTICA DE ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

A JORNADA DO DESESPERO À BEATITUDE
NA ÉTICA DE ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

“Pensa que cada dia é teu último dia, e aceitarás com gratidão aquele que não mais esperavas.”
HORÁCIO

“Por que não sair do banquete da vida como um conviva saciado?”
LUCRÉCIO

[ NO FUNDO DA CAIXA DE PANDORA ]

“Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este.” É o que escreve o grande pensador franco-argelino Albert Camus (em seu livro Núpcias, pg. 35), um autor que soube cantar a beleza de uma vida lúcida e desesperada.

“Se deveras existe um pecado contra a vida”, complementa Camus, “talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta.” Estas palavras também poderiam ser consideradas também como uma bela expressão sintética da filosofia de vida de André Comte-Sponville. Pois neste trecho o mestre existencialista Camus é fidelíssimo ao “espírito do sponvillianismo”, que também considera a esperança um mal a ser superado e um obstáculo à nossa felicidade.

O materialismo filosófico de Comte-Sponville gera necessariamente, depois da queda das ilusões religiosas, uma inversão radical do estatuto da esperança, que cessa de ser vista como um valor (como é no cristianismo, em que aparece como uma das três “virtudes teologais”, junto com a fé e a caridade), passando pelo crivo de uma crítica que a desmascara como fonte de temor e infelicidade. Repleto de Philia (amizade) por filósofos como Epicuro, Lucrécio, Montaigne e Spinoza, André Comte-Sponville revitaliza no pensamento contemporâneo uma tradição de pensamento que vê como sua missão a desmistificação e procura nos ajudar a realizar uma jornada ética curiosa, excêntrica, na qual aparecem vinculados o desespero e a beatitude. Felizes são os que não tem esperança!

A esperança, para Sponville, é apenas uma das modalidades do desejo, uma das maneiras de ser da vontade humana: a esperança exemplifica o desejo como falta, o desejo por um objeto cuja ausência no presente temporal é sentida como sofrimento. A noção de que o desejo é um sofrimento, já que queremos o que não temos, aparece, com variações, em pensadores tão diferentes quanto Platão, Buda e Schopenhauer. Segundo Comte-Sponville: “O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós” (F.D., 58). Donde a definição clássica e sintética: “esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder”.

“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade (“Como eu seria feliz se…”), não podemos escapar da decepção… É o que Woody Allen resume numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!” (F.D., p. 37).


Sabe-se que Dante pôs na entrada do seu Inferno, na Divina Comédia, a seguinte inscrição: “Abandonai toda a esperança, vós que entrais!” Sponville, ao contrário, considera que quem está no inferno é quem mais  inebria-se de esperanças. “Colocar essa frase na porta do inferno é inútil. Como querer que os danados não tenham esperança?”, provoca (F.D., 71). Pois a esperança é um desejo que surge de um solo de impotência, de ignorância, de insatisfação, e conduz em quase todos os casos ao desencanto, ao tédio, à “alienação” em relação ao real/concreto (ou seja, ao que existe). Sem falar que toda esperança é mãe de um medo, e o medo, para Spinoza e Sponville, é uma tristeza, algo que diminui nossa potência de existir. Como haveria paz interna – ou seja: sábia ataraxia – se não cessamos de cair no tumulto labiríntico das esperanças e dos temores? E uma não existe sem a outra: “não há esperança sem temor”, como define Spinoza (Ética III, def. 13 das afeições).

Lembrem-se do que diz a canção de Geraldo Vandré, “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores”: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Pois quem sabe e pode, age; quem ignora e não pode… espera e reza. E quem espera não goza: teme e sofre. Também aí, neste clássico da MPB, vêm implícita a idéia de que em tempos de opressão política, como foi no pós-1964 no Brasil,o povo nada ganha ficando sentado em casa, com vagas esperanças utópicas de melhoras, mas deve sair às ruas, desfraldar bandeiras, pôr bocas em trombones, já que a ação e a intervenção, o protesto e a batalha, o fazer acontecer e o gerar-o-novo, são o que conta e faz a diferença, não a esperança (palavra que, não à toa, traz a “espera” em seu bojo…). Viver não é esperar.

O sábio, pois, não espera nada: vive no presente, impulsionado pela força alegre de seu desejo, preferindo sempre a ação à espera, a intervenção ativa à reza, o amor à carência, sem temores nem desencantos.

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“Como esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar, o sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito – já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade. É também o que se chama amor.” (COMTE-SPONVILLE, A Felicidade Desesperadamente, p. 76)

[ SÍSIFO FELIZ ]

Em sua obra, Sponville tenta uma reelaboração do mito de Sísifo que, depois de ter passado pelo prisma existencialista de Camus, torna-se, em seu Tratado do Desespero e da Beatitude, um “símbolo da esperança”. Para Sponville, não há cena mítica que melhor indique os padecimentos causados pela esperança: arrastamos rochedos pesadíssimos para cima de topos de montanhas de onde eles, sempre, fatalmente despencam – e sempre recomeçamos o mesmo vão trabalho…

“O rochedo é a própria esperança” (TDB, 28), arrisca Sponville; são elas os pedregulhos que arrastamos colina acima, e que sempre acabam no despencamento do desencanto, da saciedade insatisfeita, do tédio… “Isso é que é o absurdo, e triste, e trágico: o peso sempre de nossos desejos insatisfeitos e temores vãos.”

Aqui, a palavra “absurdo” é pra ser tomada a sério: o “absurdo”, que Camus dizia ser a essência da condição humana, provinha, segundo este, dum “desacordo” ou “desarmonia” entre nossa psique e o “mundo”. Nós, famintos por sentido; ele, mundo, silencioso, indiferente e a-linguístico. Como não se abriria um abismo?

Mas Camus, que neste ponto é mais pessimista que Sponville, achava que havia uma fratura irrecuperável, um abismo intransponível, separando a “fome de sentido” humana e a indiferença absoluta do mundo. Isto é o Absurdo – essa relação desarmônica entre o desejo humano e o “cosmos”. “Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer”, afirmava o mestre existencialista. “Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois.” (O MITO DE SÍSIFO, p. 35).

Estamos perdidos: pedimos e suplicamos do “mundo” o que ele não tem para nos dar – sentido, calor, diálogo, amor… A razão humana, epifenômeno raro nascido em uma espécie dentre milhões de espécies vivas, emerge no seio de um planeta indiferente, inconsciente, amoral. Em uma palavra: a razão humana está diante de um Irracional de uma imensidão absolutamente incontornável. “O homem se encontra diante do irracional. Sente em si o desejo de felicidade e de razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” (M.d.S., p. 41) Por isso, pesa sobre tantos homens a condenação a angustiar-se, se podem enxergar bem a verdade sobre nossa condição: “a angústia é o ambiente perpétuo do homem lúcido…” (M.d.S., p. 37). Este Absurdo, para ele, só pode “resolver-se” na Revolta: é para ela que devemos tender.

Já Sponville não fala em revolta, mas, se falasse, diria provavelmente: se for pra se revoltar contra algo, que seja contra as esperanças, e não exatamente contra o absurdo! Pois matar as esperanças é o mesmo que matar o absurdo. O absurdo só vive uma existência derivada e secundária, dependente das esperanças. É somente porque esperamos que o mundo e a vida tenham sentido que somos tomados pela sensação de absurdidade quando os fatos crus negam nossos desejos. Quando não mais espera-se que o mundo tenha sentido, o fato dele não ter nenhum deixa de parecer absurdo – passa a ser unicamente verdadeiro.

Aceitar que o mundo e a vida não tenham nenhum sentido que transcenda o homem, que há um “vácuo objetivo de sentido” no cerne do ser, que o próprio ser talvez seja completamente sem-sentido e cheio somente de sua própria existência, traz uma inesperada plenitude. Vivemos então “na plenitude que a justa percepção de sua vacuidade nos proporciona…”, como escreve lindamente Sponville (TDB, 31). É também o espírito do budismo, como Lévi-Strauss o descreve: “Não há além para o budismo; nele, tudo se reduz a uma crítica radical (…) ao cabo da qual o sábio desemboca numa recusa do sentido das coisas e dos seres…” (LÉVI-STRAUSS, Tristes Trópicos, p. 475).

A fome de sentido é o que nos dana. É dela que precisamos nos libertar. Precisamos aprender a viver em paz, ainda que a vida não tenha sentido, ainda que o céu não exista. No silêncio da verdade. Na serenidade. Sim: trata-se de renunciar. Pode parecer estranho que apareça por aqui esta necessidade de renúncia, tão associada às religiões e aos conselhos-de-vida que estas costumam dar a seus devotos… Mas as religiões renunciam ao mundo… Já aqui, trata-se de renunciar justamente à religião e agarrar-se com amor desesperado ao mundo! Sim: não haverá felicidade sem renúncia. Mas esta renúncia é uma renúncia das esperanças ilusórias que nos impedem o caminho para a felicidade real, sendo a religião só mais uma dentre tantas forças ideológicas que nos entulham a mente com ilusões e nos aprisionam ao Samsara.

Camus, de seu modo, chegou a conclusões semelhantes. O homem, percebendo a absurdidade de sua condição, não deve “saltar” para ao abraço das ilusórias consolações oferecidas pela cultura; nem deve entulhar sua cabeça com contos-de-fada agradáveis. O essencial do “método” camusiano é recusar a salvação, aferrar-se à sua lucidez, manter os olhos abertos até o fim – o que ele chama, lindamente, de “viver sem apelação”:

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“Insistamos de novo no método: trata-se de obstinação. Em certo ponto do seu caminho, o homem absurdo é solicitado. Na história não faltam religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pedem-lhe para saltar. Tudo o que ele pode responder é que não entende bem, que isso não é coisa evidente. Só quer fazer, justamente, aquilo que entende bem. Afirmam que aquilo é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção de pecado; talvez o inferno esteja ao final, mas ele não tem imaginação suficiente para vislumbrar esse estranho futuro; talvez perca a vida imortal, mas isso lhe parece fútil. Querem que reconheça sua culpa. Ele se sente inocente. Na verdade, só sente isto, sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si mesmo é viver somente com o que sabe, arranjar-se com o que é e não admitir nada que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isto, pelo menos, é uma certeza. É com ela que tem que lidar: quer saber se é possível viver sem apelação.” (O HOMEM REVOLTADO, p. 65)

Sísifo só seria feliz se não tivesse esperança alguma. É o que Sponville resume numa fórmula quase cruel: melhor não arrastar rocha alguma, como escravo dos deuses, e ficar ao pé da montanha fumando o cigarro do condenado. Que é a própria vida. Resignação e apatia? Pelo contrário! Desfrute intenso de um bem temporário, no presente, o único tempo que existe, em seu dinamismo sempiterno, que nos arrasta em sua correnteza, mas no qual podemos nadar, dizendo sim e evoé, prazenteiramente colhendo os doces frutos de uma vida bem vivida.

De certo modo, trata-se sim de uma vitória da sobriedade sobre a embriaguez, e da razão lúcida sobre a paixão descontrolada, mas de modo diverso do tradicional logocentrismo falocêntrico hegemônico na filosofia ocidental, de Platão a Descartes, de Bacon a Hegel… Trata-se, sim, de “moderação dos desejos”, do “princípio de realidade” vencendo o “princípio de prazer” (Freud), de um trabalho sobre a vontade que tenta “ensiná-la” a não desejar erroneamente – e ter esperanças é, pura e simplesmente, o “jeito” errado de desejar. É este o ponto: esperanças são desejos humanos que conduzem ao temor e ao sofrimento; somente por isso estão sendo criticadas, e não porque o filósofo deseja pisotear nas flores vivas e fazer com que o homem viva na lama do desconsolo e da agonia, sem auxílio algum das consolações… É como diz Marx: “A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva…”

Marx 1867

“A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão de uma angústia real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como é o espírito de uma situação não espiritual. É o ópio do povo. A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões sobre sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale das dores, cuja auréola é a religião. A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desaponta o homem com o fito de fazê-lo pensar, agir, criar sua realidade como um homem desapontado que recobrou a razão, a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A opressão deve ainda tornar-se mais opressiva pelo fato de se despertar a consciência da opressão e a ignomínia tem ainda de tornar-se mais ignominiosa pelo fato de ser trazida à luz pública. (…) É preciso fazer com que dancem as relações sociais petrificadas fazendo-as ouvir sua própria melodia! O povo deve ter horror de si mesmo, a fim de que ganhe coragem. (…) É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que a força material tem de ser derrubada pela força material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra nas massas. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã, e deste modo a sua energia prática, é o fato de começar pela decisiva superação positiva da religião. A crítica da religião culmina na doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem. Culmina, por conseguinte, no imperativo categórico de derrubar todas as condições em que o homem aparece como um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezível.”
 [KARL MARX. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel. Introdução, p. 145-146, 148, 151; como citado por LÚKACS em O Jovem Marx e Outros Escritos de Filosofia, p. 173-174, ed. UFRJ.]

* * * * *

Lennon

[O SAMSARA DA ESPERANÇA FAZ-SE O NIRVANA DO DESESPERO]

Quando a esperança bate em seu nível zero, uma espécie de “momento místico” acontece; e, ao contrário do que possam pensar os crentes, é um momento exuberante, cheio de vida e energia, em que nos sentimos mais vivos do que jamais antes. Curioso instante em que um umbral é transposto, um portal é atravessado, um extremo torna-se seu oposto… “O desespero se inverte em ataraxia”, resume Sponville. (T.D.B., 28) A felicidade é para ser pescada no fundo-do-poço. Haverá felicidade quando toda esperança morrer. Pois a vida é bem mais forte do que a esperança; e são nossas esperanças as principais vilãs que nos separam e nos alienam da vida. Desesperar é viver.

Queres pouco: terás muito.
Queres nada: serás livre.

(FERNANDO PESSOA)

O desespero é o meio desta libertação. É quase budismo: aniquilação completa do Samsara da esperança. Pois os homens “giram a esmo na prisão de seus desejos” (TDB, 30), e isso é o Samsara. Como Buda dizia: “O homem apega-se apaixonadamente a sombras: inebria-se de sonhos, planta no meio um falso Eu e estabelece à roda um mundo imaginário”. (PERCHERON, MAURICE. Buda e o Budismo, p. 41).

A esperança nos encerra no Samsara: não existe esperança no Nirvana. E não seria exato dizer que quando “entramos” no Nirvana a esperança some. Não: a esperança precisa sumir para que possamos entrar no Nirvana. É uma necessidade sine qua non para a iluminação: que o esperançar tenha se silenciado; não no silêncio da depressão ou da apatia, mas no silêncio da plenitude, da escuta e da contemplação.

Heresia das grandes: “a única salvação está em renunciar à salvação” (T.D.B, 29). Frase suficiente para que Sponville tivesse ido parar na fogueira da Inquisição, se tivesse vivido séculos atrás. Pois o que se afirma é: os crentes jamais salvarão suas almas através da esperança. Não há alma a salvar, nem céu a se conquistar. Toda a idéia de “salvação” não passou de um embuste… Só se chega à felicidade quando se percebe que o céu não existe e que é inútil esperá-lo; e, que se for pra ser em algum lugar, só poderá ser aqui – se o pudermos construir.

“O nirvana não é outro mundo, que viria justificar este, dar-lhe um sentido, santificar ou superar suas ilusões. Nem paraíso, nem justificação, nem santificação. O mundo é o mundo, nada mais, e o céu é vazio. Não há deuses, ou nada a esperar deles. Então?… Então a salvação é esse vazio mesmo, a compreensão da ilusão, a aceitação do contra-senso – o desespero. O nirvana não é, portanto, o contrário do samsara: “Enquanto o nirvana for encarado como algo diferente do samsara, ainda será necessário superar o erro mais elementar relativo à existência (Nagarjuna)…”. (TDB, 30-31)

Nada mais ilusório, pois, do que pensar em Nirvana e Samsara separados espacialmente, como se fossem duas cidades separadas por uma fronteira, ou duas margens de um rio atravessáveis por uma ponte. Na verdade, é a “atitude interna” o que muda, um novo olhar/perspectiva se estabelece. Não se vai ao Nirvana a pé. Nem de carro ou avião. Ao Nirvana “vai-se” sem mexer um músculo. Pois trata-se de uma modificação de consciência. Uma “purificação” de consciência. Uma pacificação, serenização, ataraxia desta consciência, antes presa do carrossel das esperanças e dos temores. Ver o mundo através do vidro impuro da esperança é enxergá-lo mal, como se olhássemos por um material semi-opaco, delirante, de pouca transparência…

O que temíamos que nos esmagaria como a pior das mais terríveis notícias – o mundo não tem sentido! O céu está vazio! Não há o que esperar dos deuses! – acaba (surpresa!) sendo nosso maior tesouro. O desespero, que temíamos, nos liberta de todo temor. Descobrimos que, se éramos medrosos, era porque esperávamos. Espero a carta chegar, e enquanto ela não vem sofro, importuno o carteiro, tenho tremendas insônias… A carta chega e com ela cessa a espera, eu des-espero: alegria, alívio, estou livre de um rochedo!

Há “novidade”, pois, nesta “lição de desespero” sponvilliana? Decerto que não! E ele não pretende ser original: de certo modo, segue nos passos de Buda, Epicuro, Spinoza, Marx e Freud… Que a esperança seja uma praga existencial é uma descoberta ancestral. “Não esperai nada dos deuses implacáveis. Esperai tudo de vós mesmos” (PERCHERON, p.34-35): palavras de Buda, mais de 2 mil anos atrás… “As noites serenas são as noites sem esperança”, escreve Sêneca, também milênios lá longe…

A sabedoria, pois, exige uma renúncia suprema: de toda esperança. “A sabedoria é a inversão do desespero, e seu apogeu” (TDB, 33). Quando o desespero chega ao seu ápice, ou seja, quando não há mais esperança alguma, é aí que a sabedoria, o nirvana, a ataraxia nascem.

A felicidade é uma hóspede que, chegando em nosso hotel, exige um quarto vago. E ela é bem específica em suas demandas: diz que só fica se for no quarto hoje ocupado pelas esperanças, aquelas pragas. Diz a felicidade, a quem sabe ouvi-la: “expulse todas as danadas do quarto, estas ervas daninhas, que juro que me instalo, mesmo que seja só por meia-diária, uns minutos, um pisco…”. É preciso abrir no peito um ninho vazio onde o pássaro da felicidade seja convidado a se pousar. O desespero é quem trabalha nesta obra: abre “o espaço livre” que a beatitude precisa para nascer.

Por isso Sponville não diria que nosso tempo histórico, o “clima espiritual de nossa época”, é dominado pelo “desespero”. O nosso tempo é do desencanto, da decepção. O desespero seria a superação deste mesmo desencanto; pois todo desencanto é a queda de uma esperança. Notem na própria palavra: é preciso que se esteja encantado para que o desencanto sobrevenha… Não se desenfeitiça quem não foi enfeitiçado; mas quase todos perdemos nossas vidas enfeitiçados pela esperança e pelo desencanto. São nossas vidas: quereres e frustrações, desejos sem fim e infindáveis tédios… Samsara. Como escapar a este labirinto? Não há medicina alguma além desta: doses colossais de desespero. É preciso descer até o fundo do poço. Estranha terapêutica, que de certo modo recomenda aos deprimidos e melancólicos que continuem descendo… Haverá uma estrela brilhante no fundo do poço escuro…

Budfha

[ A QUEDA DE VOSSA MAJESTADE, O EU ]

Em Sponville vacila também o “cogito” cartesiano, suposta base solidíssima para toda a filosofia de Descartes. Este “eu” que se pôs no alicerce de tudo, como certeza primeira, existirá de fato? Ou só existe esta “multiplicidade vaga e como que fantasmática de suas aparições”? (TDB, 44). O eu, em Sponville, pára de ser visto como uma unidade estável, e passa a ser enxergado como um processo metamórfico. Crer na estabilidade do eu, pois, é nutrir uma crença profundamente ilusória. O eu é um rio que corre, sempre, e que não se pode congelar. Tal concepção vêm de muito longe na história: do atomismo de Epicuro/Lucrécio/Demócrito, de Heráclito, das filosofias “místicas” orientais (hinduísmo, budismo etc.), chegando até Nietzsche e grande parte da filosofia do século 20. Não resta nada do sujeito senão sua “ilusão de si”. Desespero: não há mais Deus nem sujeito.

Para o budismo, por exemplo, não há “eu” – ou seja, bem antes de Nietzsche e toda a filosofia contemporânea, Buda já tinha decretado a “morte do sujeito”. “Só há agregados, isto é, combinações fugidias cuja aparente continuidade é apenas ilusória”, explica Sponville. (TDB, 47). Processo, metamorfose, agregado, dança de átomos… não há mais “eu”. Contra a presunçosa tese metafísica dos monoteísmos, que garantem que há algo em nós, o “espírito”, que é imortal, imutável, indestrutível, fixo, Buda diria: “o que chamais de espírito se produz e se dispersa numa mudança perpétua… se forma e se dissolve sem cessar…” (PERCHERON, Maurice. Buda e o Budismo, Seuil, p. 58). O cosmo é uma imensa praia de areia movediça. “…não há nada permanente, eterno e sem mudança na totalidade da existência universal…” (WALPOLA RAHULA, p. 93). “O homem não passa de um composto impermanente num oceano de impermanência” (TDB, 49), resume Sponville.

Isso que chamamos de “identidade”, pois, entendendo por isso uma estabilidade da personalidade, algo que “continuamos a ser” através das idades da vida, desde o primeiro choro até o último suspiro, por todas as curvas e ladeiras e morros do tempo, não passa de uma ilusão. Se formos sábios, descobriremos que o amor não é uma questão de esperar que os outros admirem nosso “eu”, que não passa de fumaça e correnteza, vaidade das vaidades, mas sim de agir em nome da alegria e da potência de existir, batalhar pela felicidade alheia, dando o “eu” em hecatombe, como combustível para este incêndio maior (tão maior!)… O amor é uma ação, uma potência, uma força – e não um desejo de ganho. Pobre de Narciso, “que só ama reflexos e miragens, que só ama inapreensíveis jogos na água, e frágeis, e cambiantes, da luz…” (TDB, p. 55).

A única coisa eterna é a mudança. A fugacidade é só o que há de perene. A eternidade não é uma estátua: é uma eterna correnteza, que corre e corre sem se cansar… E por isso o tal do “eu” não passa de uma quimera, que o budismo tão bem soube desmascarar:

“…aquilo que nós chamamos de Eu não passa de uma abstração da memória e não representa senão lembranças registradas – o que contribui para dar uma impressão falaciosa de continuidade. O único Ego genuíno é o do momento dado, pois se concentra na experiência imediata. A dualidade dolorosa aparece quando o indivíduo tenta a cada instante pôr em ação um Eu, de fato, inexistente. Pouco importa para o budista encarar a libertação de seu sofrimento como um objetivo futuro, pois a única coisa que conta realmente é a identidade do seu Eu e o pensamento presente. Seria um erro crer que esse aprisionamento do Eu e o caráter efêmero que ele reveste afastem toda possibilidade de modificar, de maneira geral, um ponto de vista do espírito, fortemente polarizado pelo momento atual: muito pelo contrário, a renúncia a um falso Eu é libertadora, uma vez que o pensamento do instante presente não se entregue a interpretações errôneas.” (PERCHERON, M. BUda e o Budismo, p. 63)

[ CONHECE-TE A TI MESMO: DISSOLVE TEU EU… ]

O “eu” é somente uma ilusão a superar, pois, e o modo para esta superação não é outro senão o velho imperativo do oráculo-de-Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. O auto-conhecimento, ao contrário do que pensam os ingênuos e os otimistas, não nos dá, quando consumado e bem-sucedido, a felicidade de “sermos donos de nosso próprio eu”. Não: o auto-conhecimento dilui este mesmo “eu” que ele, pensando conhecer, só consegue “dissolver”…

E o auto-conhecimento não passa, também, de processo. E processo vitalício. Não é possível “estacionar” num conhecimento “seguro” e “imutável” sobre o tal do “eu”. E é porque ele não existe “parado”: o que chamamos de eu é algo que corre… Como na célebre parábola de Heráclito: não se banha duas vezes no mesmo rio, tanto porque as águas não são mais as mesmas, tanto porque o “eu” que se refresca já é outro… O eu corre, está sempre correndo. O eu não sabe ficar sentado; é criança traquinas que não sossega o facho… Como “conhecer”, pois, um moleque endiabrado que fica correndo pela casa?

O auto-conhecimento, se conduz ao contentamento e à serenidade, se é a jornada essencial para “atingir” a sabedoria, é muito mais pelo efeito dissolvente que ele possui. Ele destrói mais do que fabrica: destrói ilusões, quimeras, esperanças, temores, fantasias, paranóias, neuras… O próprio Freud certamente assinaria embaixo desta tese, tão simples e tão comprovadamente verdadeira: o auto-conhecimento é terapêutico. Mas se é terapêutico, é pelos males que ele dissolve mais do que pelo “conhecimento positivo” que ele possibilita – aí está. E não é terapêutico porque nos dá a “posse” de nosso próprio “eu” – não há eu a possuir, só ilusões a dissolver. E querer possuir um eu – imutável, idêntico no nascimento e na morte, que não flui nem se modifica – é a ilusão essencial. Quem embarca nesta viagem de auto-descobrimento com tais ímpetos colonizadores (“apossar-se do eu”…) periga naufragar no meio do Atlântico, como um Cabral que não descobre a América…

O oráculo de Delfos nos deu uma missão que talvez seja, no fundo, irrealizável (mas que não é, por isso, menos crucial e de suma importância). Não porque não haja níveis de “auto-conhecimento”: com certeza existem pessoas extremamente iludidas sobre si mesmas, que se tomam por uma imagem distorcida que fabricaram de sua “identidade”, e outras que parecem possuir uma extrema lucidez, uma capacidade límpida para perceberem-se e aceitarem-se como são. O que é impossível é que o auto-conhecimento “pare”, estacione, se conclua. Esta não é uma jornada com uma recompensa que se possa possuir, como é no caso de um mergulhador que desce ao navio naufragado e emerge com um baú de tesouros. Não há eu: não há no fundo de nós, escondido lá nos breus das funduras, nenhum “eu” que seja o nosso pote-de-ouro no fim-do-arco-íris. Conhecer-se, de verdade, é perceber-se como um mutante, e abdicar de qualquer esperança de estabilidade…

“Loucura de Narciso: querer possuir um eu que não existe”, escreve Sponville (TDB, 92). “A sabedoria é renunciar à posse.” Não estamos falando somente de posses materiais, claro, mas sim deste desejo de “ser dono de si mesmo” – desejo ilusório, esperança miserável, que não passa de uma fantasia utópica. Como naquela música dos Los Hermanos, que encerra o Ventura, onde o Marcelo Camelo canta (com infinita melancolia) sua fantasia de que, no “final” (um “final” que ele, claro, projeta num futuro distante, num mitológico tempo cósmico onde se tornará carne o happy end)…

…vou ser coroado rei de mim.

Mas ninguém se torna “rei do seu próprio eu”, na verdade, pois esse “eu” (substancial) não existe. Somos um corpo, decerto, mas não um corpo que “tem um eu”. Se dissermos que cada um de nós é um corpo que tem “vários eus”, já estaremos um pouco mais próximos da verdade. “O eu é um outro”, dizia Rimbaud, talvez querendo dizer que a estranheza consigo mesmo era tamanha que seu “eu” soava como um estranho, um desconhecido bizarro… Mas para sermos fiéis ao espírito do sponvillianismo, teríamos que dizer algo esquisito como: “o eu é todo um monte de gente!”. Parece coisa de criança… mas quem disse que as crianças não tem lá sua sabedoria? E, se o “eu” é “um monte de gente”, ora bolas, por que o chamamos de “eu” e não de “nós”? Por que acreditamos numa “identidade”?

A gente é um monte de gente…

“…só terei alegria, em minha relação comigo mesmo (ou com o que vivo como tal), se souber amar aquilo em mim que não é eu, aquilo em mim que não é um indivíduo, não é um sujeito, não é uma coisa: aquilo… esse jogo de forças e desejos, essa potência em mim de gozar e de pensar, essa força de existir, isto é, de viver e de agir, que Spinoza chamava conatus ou desejo. Ou seja: a natureza em mim viva (Vênus Volupta), de que não sou, e nunca serei, mais que uma parte. Bem tolo é o egoísta, que toma essa parte por um todo. E bem infeliz: pois ela morre. E sua vida é amarga como um sonho natimorto. É o sonho de Narciso, e o amargor de suas esperanças vãs… Ao invés disso, é necessário amar, não o eu, mas a natureza em mim (minha própria potência enquanto parte da potência da natureza), não o eu, mas a vida. Isso não se possui: a onda não se possui, nem o mar. Mas ser sábio, repitamos, é renunciar à posse.” (TDB, pg. 92)

A vida não se pode possuir. A vida não é algo que se tenha. Ninguém tem, da vida, nada senão uma “posse” precária, transitória, passageira, mortal. Uma posse que passa e se perde, não sabemos quando, e para todos, sem exceção. Da vida, um dia, seremos todos despossuídos. Pois então: possuímos de verdade aquilo que vai morrer? Ou tudo o que vai morrer nos está somente emprestado? Pois somos, para nós mesmos, aquilo que vai morrer: transitória carcaça de carne e nervos que arrastamos pelos dias, parcos e poucos, em que vivemos e lutamos, persistindo como podemos…

A “satisfação interior”, o “auto-contentamento”, a “ataraxia”, a “beatitude”, “a sabedoria”, só virá quando este complexo de ilusões que chamamos eu, na ilusória crença de sua unicidade e substancialidade, ruir e se desfazer. Sim: é como no budismo – o Nirvana é alcançado com a “extinção do eu”. Ou seja: da ilusão de que o eu existe. Estar iluminado é saber que o eu não existe.

* * * * *

“O Nascimento de Vênus”, de Botticelli

[ VIVER É DESEJAR, DESEJAR É VIVER ]

O eu não existe; mas a vida sim. O eu não existe; mas nossos corpos, sim. E nossos corpos, que carregam seus desejos e necessidades, que sentem prazer ou dor com certos e cert’outros contatos, têm uma força íntima, propulsora de tudo, que vive enquanto vivermos – exatamente o que chamamos conatus, desejo, libido. Viver é desejar. E só os mortos não desejam.

Não há eu imutável, não há identidade fixa, não há nada em nós que não flua na correnteza do tempo, junto com tudo o mais… Mas há os desejos.

O que não há é o “eu” que deseja, e que seria supostamente sempre o mesmo, apesar do carrossel de seus quereres. Só há o carrossel, sem piloto, sem botão de stop, e que só pára com a morte. Só no túmulo paramos de desejar. Por isso “a experiência do eu é a experiência do desejo. Anterior à consciência do eu no recém-nascido, mais ampla que esta no adulto, o desejo é a essência de nossa vida”, afirma Sponville. “Todos os nossos dias lhe são submetidos, e até nossas noites, como Freud mostrou, lhe obedecem.” (TDB, p. 63)

Somos, essencialmente, vontade de gozo. E isso, como diz o poeta, “nos faz ir onde quer que o prazer (voluptas) arraste cada um de nós” (LUCRÉCIO, II, 257.) Vênus é sempre um magnético sol em nosso horizonte: vamos em sua direção. E não há fim para a “constante marcha adiante do desejo”, nesta vida – a marcha só cessa quando cessa a vida. “O desejo, como o mar, é sempre recomeçado. Do mesmo modo que meu corpo não passa de composição, no espaço, de átomos perpetuamente móveis, assim também minha vida não passa da sucessão, no tempo, de desejos indefinidamente variados.” (TDB, p. 66)

Não se enganem, pois: dizer que não se deve querer a posse do “eu” não é o mesmo que apostar, como no niilismo de Schopenhauer, que é preciso negar toda a “vontade de viver”. Pelo contrário! Isto que chamamos de “vontade de viver” é pra ser afirmada, decerto! É o próprio conatus, e o conatus é todinho feito de desejo. “Não se trata de renunciar ao desejo”, frisa Sponville, neste ponto sendo fiel a Nieztsche. Nem é possível, no fundo, esta renúncia completa: somente no suicídio. Enquanto há vida, há conatus – mesmo no moribundo, há ali um resíduo desta força vital que persevera no ser, a despeito de tudo, de quaisquer argumentos e razões….

“Spinoza é o anti-Pascal: em vez de nos rebaixar pela denúncia, carregada de ódio, de nossa ‘miséria’, ele nos eleva pela consideração, cheia de alegria, de nossa potência.” (Sponville, T.D.B., 93) Pascal – que dizia que nada há de mais odioso que o eu – não conseguiu libertar-se dele (e é óbvio porquê: pois ficou prisioneiro do cristianismo). Já Spinoza, que alçou vôo bem longe dos dogmatismos dos monoteísmos ocidentais, percebeu o que a filosofia oriental já descobriu há milênios (como mostra muito bem o “Filosofias da Índia”, o magistral livro do Heinrich Zimmer, que considero um dos melhores da filosofia no século 20): o eu é só uma quimera, que deve ser desfeita para que possamos viver “a verdadeira vida”.

“Nem Pascal, nem Narciso: nem o eu da religião, nem a religião do eu” (T.D.B., pg. 96). O “eu” não é um culpado, um criminoso, que é preciso torturar, arrastar no chão, humilhar com violência, mandar pro castigo, como queria Pascal, como quer o cristianismo (doutrina que nos convence que somos todos pecadores, precisados de redenção…). O “eu” também não é algo pelo que apaixonar-se, como fez Narciso, que delirou uma imagem de si-mesmo e tacou-se de cabeça nela – afogando-se, lembrem-se bem. Ser cristão, ser narcisista, não nos servirá para atingir nem felicidade nem sabedoria.

“Quem não se possui se partilha sem perda”, escreve lindamente o Sponville (TDB, 95). Como nos partilharíamos, se acreditássemos ter um “eu” que é preciso guardar e resguardar? A “possessividade” em relação ao eu é a fonte de todos os vícios, infelicidades e burrices do desejo.

Desiludidos das miragens das posses, não nos descobrimos pobres: estamos mais ricos do que jamais estivemos. Lembrem do que cantava a Janis: “freedom is just a another word for nothing left to lose”. Quando não mais há eu a perder, quando não há mais esperanças a nos iludir, estamos livres. É o espírito de Woodstock, e não à toa chamavam aquela geração de mística, esotérica, orientalizada… Pois é verdade: o balanço da cultura-jovem daqueles Verões-do-Amor pendeu mais para o Oriente, o sábio Oriente, do que o Ocidente bélico, industrialista, individualista, consumista, competitivo e tecno-junkie desejava. Que perigo, essa juventude achando que a contemplação, o amor e a música são valores mais dignos de serem perseguidos do que o consumo e o trabalho mecanizado!…

A vida, pois, é pra ser desfrutada, não possuída. A vida foi feita para o desfrute passageiro, e não para a posse eterna. Na vida somos apenas visitantes, nunca moradores. E devemos amá-la pelo que é, sem apelação e sem ilusão, sem falsas esperanças que nos furtem da implacável grandeza de uma existência lúcida. “Desfrutar-se sem se possuir: o filho pródigo contra o avarento, o jogo contra a propriedade, a serenidade contra a angústia” (T.D.B., pg. 96). Pois quem disse que “perder o eu” e “abandonar toda esperança” é coisa ruim? Pelo contrário! É a libertação.

Para transpor as águas turbulentas do Samsara e aportar na ataraxia do Nirvana, urge abandonar os fardos do temor e da esperança, vencendo o império da ausência em prol do amor à presença.

watsss– Eduardo Carli de Moraes