SEM DEUSES NEM MESTRES – A HISTÓRIA DO ANARQUISMO [Assista à série documental completa, em 3 episódios, com legendas em português]

SEM DEUSES NEM MESTRES – A HISTÓRIA DO ANARQUISMO
Série documental completa / 3 episódios, legendas em português
Direção: Tancrède Ramonet (click e leia entrevista [em francês])

EPISÓDIO 1 – 1840-1906 – A paixão por destruição

EPISÓDIO 2 – 1907-1921 – Terra e Liberdade

EPISÓDIO 3 – 1922-1945 – Em memória do derrotado

Também disponível no Tamanduá e no Canal Curta. 
Faça o download em torrent.

“As revoluções sempre começam em ruas sem saída.” – Bertolt Brecht / “As revoluções não são feitas por decretos.” – Piotr Kropotkin

“As revoluções sempre começam em ruas sem saída.” – Bertolt Brecht

“Há épocas na vida da humanidade em que se impõe a necessidade de um abalo formidável, de um cataclismo, que venha agitar a sociedade até as suas entranhas, sob todos os aspectos ao mesmo tempo. Nestas épocas, todo homem sincero começa a se dizer que as coisas não podem mais continuar assim; que é preciso que grandes acontecimentos venham romper, de forma brusca, o curso da história, arremessar a humanidade fora da rotina em que se atolou, e lançá-la em novos caminhos, rumo ao desconhecido, à procura do ideal.

Sente-se a necessidade de uma revolução, imensa, implacável, que venha não só subverter o regime econômico, fundado na fria exploração, na especulação e na fraude, não só inverter a escala política, fundada na dominação de alguns pelo ardil, pela intriga e pela mentira, mas também para agitar a sociedade em sua vida intelectual e moral, sacudir o torpor, refazer os costumes, trazer ao meio das paixões vis e mesquinhas atuais o sopro vivificante das paixões nobres, dos grandes arrebatamentos, das generosas dedicações.

Nestas épocas, em que a mediocridade orgulhosa sufoca toda inteligência, que não se prosterna diante dos pontífices, em que a moralidade mesquinha do meio termo faz a lei, e a baixeza reina vitoriosa – nestas épocas, a revolução torna-se uma necessidade.

Os homens honestos de todas as classes da sociedade chamam a tempestade, para que ela venha queimar com seu sopro inflamado a peste que nos invade, arrancar o mofo que nos corrói, remover em seu movimento furioso todos estes escombros do passado que nos dominam, nos sufocam, nos privam de ar e luz, para que dê, enfim, ao mundo inteiro, um novo sopro de vida, de juventude, de honestidade.

(…) Já não é mais apenas a questão do alimento que se coloca nesta épocas; é uma questão de progresso contra imobilismo, de desenvolvimento humano contra o embrutecimento, de vida contra a estagnação fétida do pântano.”

“Se de fato vosso coração bate em uníssono com o da humanidade, se, como verdadeiro poeta, possuís um ouvido para escutar a vida, então, em presença deste mar de sofrimentos, cuja onda vos encobre, em presença destes povos que morrem de fome, destes cadáveres amontoados nas minas, destes corpos mutilados jazendo em montículos aos pés das barricadas, destes comboios de exilados que vão se enterrar nas neves da Sibéria e nas praias das ilhas tropicais, em presença da luta suprema que se trava, gritos de dor dos vencidos e de orgias dos vencedores, o heroísmo às voltas com a covardia, o entusiasmo em luta com a baixeza – não podereis mais continuar neutro; vireis juntar-vos aos oprimidos, porque sabeis que o belo, o sublime, a vida, enfim, estão do lado daqueles que lutam pela luz, pela humanidade, pela justiça!”

“As revoluções não são feitas por decretos. Para que a apropriação da riqueza social pelo povo torne-se um fato consumado, é preciso que o povo sinta a liberdade de agir, que ele aniquile a servidão à qual está muito habituado, que aja por si mesmo, que avance sem esperar as ordens de ninguém.”

KROPOTKIN, Piotr (1842 – 1921). “Palavras de um Revoltado”, Ed. Ícone, 2005, p. 22, 62 e 196.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Piotr_Kropotkin

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A TRILHA SONORA DA INSURREIÇÃO: A Renovação da Revolta na Música Brasileira Atual – A Saga do Cavaco Profano do Machete Bomb

“Aqui ninguém nasceu pra ser domesticado (aqui não!)”
MACHETE BOMB, “Fatcap”

Há quem se recuse a ser o colonizado submisso, o conformado domesticado, o oprimido calado. Ainda pulsam, aqui e ali, nos subterrâneos da cultura, aquelas expressões subversivas que, apesar de não circularem no mainstream, são máquinas sônicas enraivecidas contra o Sistema. São artistas flamejantes e indiespensáveis (com a licença do neologismo estrangeirista).

É o Emicida pondo o dedo na ferida e convocando a neo-guerrilha de Panteras Negras. É o Baiana System falando de uma Sociedade do Lucro que é “máquina de louco”. É a esplêndida Larissa Luz, musa-afro, cheia-do-axé, que manifesta todo o poderio de uma mulher empoderada e descolonizada. Os exemplos poderiam ser multiplicados.

Neste cenário, contrariando a tendência do rock brasileiro de tornar-se um tiozão bundão de Direita (como viraram o Lobão e o Roger do Ultraje A Rigor), chegou ao cenário, vinda do Paraná, a Machete Bomb. E declararam aberta a “Temporada de Caça”.

violência expressiva que se manifesta na sonoridade do Machete é reflexo da sociedade ultra-violenta que somos, com seus mais de 60.000 homicídios anuais e o maior índice global de mortes por arma de fogo.

Só faça o favor de não confundir a violência lírica e musical, estratégia dos oprimidos em seu processo de partejar um mundo menos opressivo, com a violência concreta e brutal perpetrada pelos opressores.

O Machete Bomb encena uma espécie de teatro insurrecional (falo aqui inspirado por Augusto Boal e sem sombra de intenção pejorativa ao evocar o “teatro”). Esses caras estão fazendo um som que parece convidar as massas ao levante de indignação, estão dizendo que aquilo que o Brasil precisa é de uma injeção, na veia, de altos decibéis de rebeldia. É uma sonzeira que fala daquele momento em que a “paciência do violentado” se esgota, a taça transborda, o vulcão entra em erupção, e a lava é feita de fúria.

O que domina é uma vibe de vendeta-dos-violentados, o som daqueles que se cansaram de serem esculhambados. Resolvem virar a mesa e tornarem-se os agentes da transformação social radical, utilizando-se das armas a seu dispor no vasto arsenal anarco-lírico.

É um tipo de música que parece embebida nas atitudes guerrilheiras de figuras como Malcolm X, Marighella, Che Guevara. É Guerrilla Radio. E os alvos da vendeta são muitos: “o colarinho branco com o poder da caneta”, “o empreiteiro bilionário que compra a licitação”, “o tribunal de faz-de-conta que aprova a corrupção”, “o bispo com os dedos pretos de contar notas de cem”, “o vendedor de milagre que faz o povo de refém” (acesse a letra completa).

A poética de “Temporada de Caça” deleita-se em espalhar imagens de figuras que merecem ser “caçadas”, instaurando uma explicitação de cenário convulsionado e bélico. Rompendo com o mito dourado do Homem Cordial, o Machete Bomb revela o Brasil como um caos e como um caso grave de guerra civil não-declarada. E eles vão elencando aqueles que são considerados como adversários políticos – políticos escrotos, pastores ricos, juízes injustos etc. -, que passam a estar na mira do mic, feito patinhos numa estande de tiro.

É uma atitude que faz pensar na Revolução dos Escravos no Haiti. Que lembra uma trilha sonora criada para acompanhar a leitura de Franz Fanon ou de Eduardo Galeano. É verdade que a banda aborda temas já “batidos”, em especial para quem acompanha o Movimento Hip Hop: a violência policial em “Giroflex”, a resistência aguerrida dos que “ocupam e resistem” em “Tiro e Queda”, mas quem disse que isso não é bem-vindo quando, na realidade concreta, estes continuam temas urgentes e atuais?

“Uma mente consciente engatilhada é um perigo!”, cantam eles nesta última, em estado de auto-celebração por serem uma frente anarcolírica anti-sistêmica. É o tipo de atitude que, lá fora, os críticos musicais podem descrever como guys who are proud to be rebels. 

MACHETE BOMB é: Vitor Salmazo (vocal), Rodrigo Spinardi (percussão), Rodrigo Suspiro (baixo), Daniel Perim (bateria) e Madu (cavaco).

São bandas assim que me fazem pensar que daria para escrever um livro inteiro sobre A Revolta na Música Brasileira. Uma trajetória do Homem Revoltado em sua encarnação tropical, ausente das explorações de Albert Camus no seu L’Homme Revolté. Poderíamos viajar nas ondas sonoras insurrecionais destas terras, indo do samba ao rap, do frevo ao punk, do baião ao manguebeat. Daria para explorar as múltiplas vertentes da canção de protesto: tão arrojada e cosmopolita na Tropicália, tão bruta e chuta-bundas nas mãos do Movimento Punk, tão malandra e periférica nos cronistas da marginalidade (de Bezerra da Silva a Planet Hemp…).

Daria para explorar diferentes períodos históricos, em seus contrastes e similaridades: na Ditadura Vargas do Estado Novo (1937-1945), os rebeldes eram aqueles que celebravam a boêmia, a vida “improdutiva” do artista-malandro, que não é otário de ficar amassado no Bonde de São Januário… prefere viver cantando e tocando, embriagado.

Mas na Ditadura Civil-Militar de 1964 a 1985, a rebeldia é outra, e aliás multiforme: a lírica buarquista, que combina a denúncia de tenebrosas transações, mas que insufla utopia e esperança (“amanhã vai ser outro dia”), difere bastante do clima de folk nacionalista de Vandré (que seguimos cantando enquanto caminhamos: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer), que também difere radicalmente daquela irrupção do Maio do 1968 parisiense no caldo tropicaliente de Caetano e Os Mutantes em uma das obras-primas da Tropicália (“É Proibido Proibir”!).

Mas o que nos interessa sondar aqui, no entanto, não é nosso passado, mas o presente e o futuro das canções revoltadas entre nós. E nesse contexto, precisamos sim falar do Machete Bomb e A Saga do Cavaco Profano.

Conheci a sonzeira destes caras no Goiânia Noise 2018, lá dentro daquela Panela de Pressão em formato de teatro que é o Pyguá do Martim Cererê. O Machete Bomb derrubou todo o suor que tinha – honrando o lema do Macaco Bong: artista = pedreiro – e fez um show que deixou uma excelente impressão.

O mais óbvio a dizer é que enfim o Brasil possui uma banda com potência comparável ao Rage Against the Machine. Mas com uma originalidade notável que é aquele cavaco endiabrado, plugado numa pedaleira de efeitos, cheia das pirotecnias. Quando tocaram no Estúdio Showlivre, o  Madu foi descrito como “O Tom Morello do cavaco”. E, naquela ocasião, o vocalista Vitor Salmazo também se definiu como anarco-indígena (porra, meu!) e falou de uma sintonia não só musical, mas também ideológica, com o R.A.T.M.

SHOW COMPLETO – ESTÚDIO SHOWLIVRE

É verdade que já existiu muita inovação nesta mescla de cavaco endemoniado com rock abrasileirado, e só lembrar do Mundo Livre S.A., uma das mais geniais bandas do manguebeat, que tem na comissão de frente o cavaco de Fred Zero Quatro.

Mas o Madu está explorando uma outra senda, uma trip mais extrema, é um músico extraordinário que está explorando a via inovadora do cavaco heavy. O cavaco com os sinais transtornados por uma pedaleira cheia das pirotecnias e dos scratches típícos de DJ, mas com uma potência que, quando o som está rolando ao vivo, ficamos de fato com a impressão de que Tom Morello está no recinto. Mas ao invés de uma guitarra elétrica preferiu algo de uma brasilidade mais explícita. A voz à la Zack de La Rocha de Salmazo só torna mais forte a impressão de combatividade da banda.

Também há algo de uma celebração das afrobrasilidades, com certas evocações da capoeira, dos tambores africanos. Um dos grandes momentos do show do Machete, segundo meu paladar, é quando eles decretam (com o som no talo, como de praxe): “o agogô chegou!”, com tambores de batuques afro mesclando-se linhas de baixo que não ficariam incoerentes dentro de um groove dos Chili Peppers. É aí que fica claro que o Machete Bomb veio para se pôr no campo-de-jogo cultural como uma daqueles expressões artísticas que Marcelo Ridenti chama de “brasilidade revolucionária”. E, como o Baiana System também promete, a Babilônia vai cair… se depender desses músicos.

Os vocais na confluência entre o rap e o hardcore não só evocam o Rage Against the Machine e o System of a Down, mas recuperam no cenário cultural brasileira pós-2013 um certo sabor de Planet Hemp. As letras de confrontação violenta do status quo (com o mais sincero “foda-se a vocês” que defendem o estabelecido) sugerem que no Brasil ainda sobrevive uma estética da resistência em que a música é vista não como entretenimento, mas como ferramenta para a motivação prática de nossas mobilizações coletivas.

E é bom saber que nosso povo não é achincalhado e fica calado. Nas voltas intermináveis que o mundo dá, a música múltipla e multiforme que não cessa de nascer sobre o planeta segue sendo uma roda viva rumo a novas paragens. Mais do que espelhar a época, a música às vezes dá voz e alto-e-bom-som às fúrias e rebeldias dos que não aceitam nem acatam que a época prossiga como está sendo. A música faz como Brecht dizia que a arte tinha que fazer: não ser espelho que reflete o mundo, mas um martelo com o qual escupi-lo.

A música às vezes atinge graus de intensidade impressionantes, capazes de desvelar as contradições sociais e explicitar as vontades e afetos complexos daqueles que levam a sério o direito humano fundamental: resistir à opressão. É um alento saber que ainda há produção cultural desta potência vinda daqueles que estão engajados em transformar esta época do mundo com as armas da linguagem. As munições sendo rimas, os tiros sendo de riffs! Tempos históricos catastróficos como os nossos exigem expressões artísticas de radicalidade.

E me parece que, por onde quer que passem – como fizeram no festival Psicodália (SC) – o Machete Bomb transforma o recinto numa Zona Autônoma Temporária (Hakim Bey). Numa área provisoriamente liberada. Num espaço de potencial insurrecional. E nele as lições de um dos mais geniais dos músicos revoltados que já viveu – Joe Strummer, do The Clash – seguem ecoando:

“Let fury have the hour
Anger can be power
Don’t you know that you can use it?”
THE CLASH – Clampdown


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Escrito por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro.com || Setembro de 2018

THOREAU: A Desobediência Civil e a Apologia da Existência Selvagem

“Na história das ideias, Henry David Thoreau (1817 – 1862) é conhecido por dois momentos de sua biografia que se tornaram emblemáticos de seu pensamento: a vida no bosque e a estada na prisão. Walden, ou o elogio da vida selvagem; a prisão, ou a desobediência civil”, escreve Michel Onfray no sexto volume de sua Contra-História da Filosofia, entitulado “As Radicalidades Existenciais” (Editora WMF Martins Fontes, 2017, p. 62).

Este célebre prisioneiro só passou uma noite em cana, em 1846, ou seja, antes da Guerra Civil e da Abolição da Escravatura. Seu crime: recusar-se a pagar impostos ao governo dos EUA, que além de escravocrata e racista, estava então engajado numa ofensiva bélica e imperialista contra o México, país vizinho do qual roubou pelo sangue e pelo fogo uma significativa parte de seu atual território.

O breve texto escrito sob o impacto de sua prisão – “A Desobediência Civil”, publicado em 1849 – “entra pela porta da frente na história da filosofia política, da mesma maneira que o ‘Discurso Sobre a Servidão Voluntária’, de La Boétie, o qual ele lembra sob muitos aspectos.” (ONFRAY, p. 63)

O texto, que inspiraria gerações de contestadores cívicos, em vários países, tornou-se um emblema da atitude ético-política que consiste em afirmar: é justo desobedecer a leis injustas e recusar obediência a autoridades iníquas.

Do movimento sufragista inglês, que conquistou a duras penas o voto feminino já na aurora do século XX, à mobilização independentista da Índia contra o império britânico, encabeçada por Gandhi, passando pelas lutas afroamericanas por direitos civis igualitários que têm em Martin Luther King, Jr. e Rosa Parks alguns destinos emblemáticos, todos beberam na fonte de Thoreau, ainda que questionassem seu anarco-individualismo e propusessem ações coletivas de massa ao invés de atitudes de indivíduos rebeldes isolados.

Menos conhecida é a atuação de Thoreau ao “ajudar regularmente escravos a irem para o Canadá” e ao realizar uma apaixonada defesa de John Brown (1800 – 1859), “um branco que lutou de armas em punho para abolir a escravidão, acompanhado de uma dúzia de combatentes determinados” (ONFRAY, p. 70). Quando John Brown foi capturado e enforcado pelos poderes constituídos que defendiam a lei e a ordem (a lei segregacionista, a ordem escravocrata…), Thoreau publicará vários panfletos e manifestos em sua defesa: “se engajará ao lado dos escravos e falará de um ‘crime contra a humanidade’ para caracterizar o comportamento dos brancos em relação às pessoas de cor mantidas sob seu jugo.” (p. 91)

Usualmente classificado entre os anarquistas, na companhia de Bakunin ou Proudhon, Thoreau talvez mereça a alcunha de anarco-individualista, na companhia de Max Stirner, ainda que seu pensamento possa ser visto também como uma radicalização do ideário do liberalismo clássico e que pode inclusive ser apropriado por formas contemporâneas de anarco-capitalismo neoliberal. Seu pensamento político assim pode ser sintetizado:

“O melhor governo é aquele que governa o menos possível e deixa os cidadãos viverem como quiserem. Os governos exercem seu poder não porque são legítimos, mas porque dispõem do monopólio da coerção legal: a polícia, o exército, a prisão, a caserna. O respeito à lei vem depois daquilo que nossa consciência nos dita: antes de tudo, somos homens; em seguida, cidadãos. Tornamo-nos cúmplices da injustiça sempre que não a denunciamos ou não lutamos por sua abolição; não impedi-la significa ser tão responsável e culpado quanto aquele que a comete. O Estado considera inimigo quem pensa, reflete e julga antes de obedecer. Não existe nenhuma boa razão para pactuar com um governo que defende a escravidão. As petições são uma boa coisa, mas a insubmissão cívica é melhor: não pagar os impostos é uma excelente maneira de exprimir sua discordância, pois a cobrança desse dinheiro é o único modo sob o qual o Estado nos aparece. Devem-se transgredir as leis injustas; a ação de um indivíduo é o melhor dos contrapoderes em face de um governo iníquo; não se espera que ninguém faça tudo sozinho, mas deve-se ao menos fazer alguma coisa. A minoria é incontornável quando pratica a obstrução; como o Estado não pode encarcerar todos os cidadãos refratários, necessariamente cederá…” (ONFRAY, p. 162)

Se aí se manifestam noções próximas de Voltaire – “todo ser humano é culpado pelo bem que não faz” -, que apontam para a culpabilidade dos omissos, cúmplices das injustiças vigentes, também se manifesta um individualismo excessivo, de molde liberal, que parece acreditar no poder de contágio da ação individual emblemática, que é diferente da participação ativa em movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos laborais, conselhos ou sovietes… A filosofia de Hannah Arendt, também intensamente interessada no tema da Desobediência Civil, como prova o importante artigo presente no livro “Crises da República”, tentará superar as limitações da visão de Thoreau ao construir um conceito ampliado de ação, que exige a união de poderes entre agentes que coordenam seus esforços para a transformação do mundo comum.

Outro episódio biográfico emblemático, conexo a outra obra-prima da literatura estadunidense, foi a “fase Walden” de Thoreau: por 2 anos e 2 meses, entre 1845 e 1847, ele viveria em sua cabana às margens do Lago Walden, devotado aos labores simples da vida, à contemplação profunda da natureza, ao aprendizado com a selvageria e rusticidade de uma vida pouco domada pela civilização. A filosofia de vida de Thoreau, expressa com belas palavras e metáforas no livro Walden, inspirador de muitos aventureiros solitários (a exemplo de Christopher Johnson McCandless, protagonista do filme Into The Wild. de Sean Penn Movies), é assim resumida por Onfray:

“Num mundo onde tudo passa, flui, transforma-se, nada se perde, tudo se modifica; num universo onde a mesma energia atravessa o sílex e a coruja, o corpo de um filósofo e o campo de trigo, a água de um lago e a carne de um peixe, existe apenas um ponto fixo: o Movimento. O trabalho do pensador? Habitar plenamente cada instante constitutivo desse movimento. Mergulhar todos os dias na água do rio heraclitiano – ou do lago de Walden… – sabendo-o Mesmo e Outro. O dever do sábio consiste em usar até o limite o epicentro de cada momento. A vida filosófica propõe-se criar e colecionar momentos sublimes. Fundir e fundir-se para enfim ser. Thoreau quer vaporizar-se na natureza para atingir o gozo de uma consciência que sabe que o filósofo e o mundo, assim como o lago e a luz, são uma única e mesma substância vibrante de Vida.” (ONFRAY, p. 46)


Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro – www.acasadevidro.com

PARA ALÉM DO MEDO COMO AFETO SOCIAL DOMINANTE: Crítica do filme “A Vila” (2004) de Shyamalan, com Bauman, Safatle e Spinoza


Sobre o medo, pode-se sempre questionar: ele é justo e legítimo, ou seja, corresponde a um perigo real? Ou é inculcado de fora por aqueles que tem interesse em ver-nos trêmulos e acovardados?

O medo pode ser aquele afeto visceral que nos toma diante de um encontro inesperado com um tigre na selva, e que nos dá o ímpeto imprescindível da fuga que pode salvar nossa vida. Mas o medo também pode ser um afeto socialmente implantado, algo a que somos condicionados pelas ideologias de nosso entorno, em especial por aqueles que querem nos vender imóveis em condomínios fechados, seguros de vida ou revólveres para defesa pessoal.

Grandes pensadores e críticos de nosso contexto contemporâneo, como Zygmunt Bauman e Vladimir Safatle, tem destacado o quanto vivemos sob regimes sócio-políticos de cassino-capitalismo em que os mercados e Estados apostam as suas fichas no medo como afeto dominante. A insegurança pública ligada à violência urbana pode servir para um boom da indústria de segurança privada: altos lucros para empresas que vendem câmeras de segurança, carros blindados, apartamentos que são como fortalezas militares inexpugnáveis.

Paralelamente, governos podem justificar medidas autoritárias – da xenofobia islamofóbica de Trump à intervenção militar de Temer no Rio de Janeiro – com a noção de que é tudo feito para aumentar a segurança do cidadão-de-bem contra as forças do mal, hoje cada vez mais encarnadas pelos gestores do capitalismo nas figuras demonizadas de narcotraficantes, migrantes e refugiados – Os Estranhos À Nossa Porta, para lembrar de um livro atualíssimo de Bauman.

O filme de M. Night Shyamalan, A Vila (The Village, 2004), propõe uma trama que serve de emblema para uma sociedade que retira sua coesão do medo: isolados do mundo, sem contato com outras cidades, os cidadãos são desde o berço ensinados a temer Aqueles De Quem Não Falamos, criaturas temíveis que habitam na floresta ao redor.

Espalhando a farsa, os anciãos que governam a Vila pretendem permanecer isolados do mundo, sem contatos com uma alteridade considerada perigosa. O filme nos conta que os fundadores desta comuna isolacionista foram todos marcados por traumas vinculados à violência nas grandes cidades, perderam entes queridos em latrocínios ou sequestros. A solução que encontraram foi uma espécie de fuga para o meio do mato, onde pudessem viver sossegados.

Mas as aparências enganam: o que parecia ser um pacífico vilarejo vai se mostrando como uma sociedade do apartheid racial, onde vivem somente brancos (notem: não há nenhum ator negro no filme!), onde ninguém que se pareça minimamente com um estrangeiro – árabe, latino ou oriental – tem direito de cidadania. Também descobrimos, conforme a trama progride, que eles não estão exatamente em um local rodeado por natureza selvagem, mas sim entre os muros de uma mega-reserva ambiental chamada Walker, cujas fronteiras são defendidas por guardas armados.

Desde que assisti ao filme de Shyamalan pela primeira vez, fiquei pensando que ele instiga reflexões importantes sobre o tema da ideologia, em especial das ideologias que disseminam o terror como instrumento de controle social. Tanto é assim que A Vila poderia ter entrado na galeria de filmes comentados de modo tão penetrante, provocativo e cheio de bufonaria por Slavoj Zizek nos filmes O Guia Pervertido do CinemaO Guia Pervertido da Ideologia, dirigidos por Sophie Fiennes.

Os fundadores da vila isolacionista usam os monstros como espantalhos: querem povoar o entorno com terrores para que ninguém se arrisca a fugir da comunidade. Pensam que assim vão deixar bem longe os horrores do mundo e habitar numa pequeno enclave utópico de paz perpétua. Estão redondamente enganados.

Aquilo que Platão recomendava aos gestores da República, o uso de uma “fraude pia” (pia fraus), é também mobilizada pelos governantes da Vila inventada por Shyamalan. Porém a violência traumatizante irrompe na cena – e não vem de fora da comunidade, mas de dentro. As facadas infligidas pelo idiota-da-aldeia (interpretado por Adrien Brody) contra Lucius (Joaquin Phoenix) irão acarretar um terremoto nas regras e costumes locais.

O crime vai lançar a heroína Ivy Walker (interpretada por Bryce Dallas Howard, a mesma atriz que fez Grace em Manderlay) em uma jornada arquetípica: apesar de sua cegueira, ela irá enfrentar o seu medo dos monstros da floresta na busca desesperada pelos medicamentos de que precisa seu amado Lucius, agonizante numa cama.

Ela será, antes da aventura, informada por seu pai e mentor (William Hurt) de toda a farsa ideológica que envolve Aqueles De Quem Não Falamos, que de fato não passam de scarecrows utilizados pela casta dominante. É como se o pai-mentor iniciasse a filha nos mistérios da política, ou mesmo da teocracia, revelando: não há razão para medo legítimo pois o perigo é imaginário.

A heroína, encarando às cegas o território tão temido por todos aqueles que são crédulos cúmplices da ideologia dominante, irá rumo às cidades, atravessando os woods que sempre foram território proibido. É brilhante a cena em que o idiota-da-aldeia, esfaqueador de Lucius, depois de ter escapado de seu cárcere, ataca Ivy na mata. Ela dribla o monstro com malandragem de Garrincha. E o filme aproveita para sugerir que não existem monstros a não ser os seres humanos nas monstruosidades que fazem uns com os outros.

Por isso eu até ousaria dizer que esta obra de Shyamalan tem efeito desmistificador. Não há monstros sobrenaturais ou fantasmas incorpóreos, há só manipulação ideológica de espantalhos e os velhos afetos humanos que nos lançam às discórdias sangrentos. Nós somos os monstros de nós mesmos, o que parece reativar o velho mote, tão mobilizado na argumentação Hobbesiana do Leviatã: o homem é o lobo do homem. Aliviando esta estirpe de pessimismo misantrópico, o filme sugere também o inverso: que é a força do amor, corajoso e perseverante, tateando nas trevas que nos rodeiam, que faz do humano o bálsamo do humano.

A sociedade que se queria isolada, segregada, branquíssima, xenófoba, confinada em seu bunker, vivendo sempre os muros deste condomínio de alta segurança, enfim parece acordar para a verdade: a violência, nas relações humanas, não é integralmente extirpável. Um dos anciãos irá concluir: “Heartache is a part of life.” A jornada heróica de Ivy furou a tela protetora da ideologia do medo e lançou os raios de luz de uma utopia inversa: a do amor que ousa confrontar os interditos dos velhos gestores do terror.

A cega é aquela que vê melhor: sabe que os monstros foram inventados para que os cidadãos ficassem paralisados em suas covardias, isolados em seus pequenos bunkers, na idiotia hoje epidêmica dos que se encerram no âmbito do privado e recusam a esfera pública (a própria origem da palavra idiota, que vem do grego idiotes, está diretamente conectada à noção de indivíduo que recusa participação em uma sociedade mais ampla, encerrando-se na idiotia de seu círculo estreito de relações domésticas, como bem explorado pela Maria Cristina Franco Ferraz em Homo Deletabilis).

O filme A Vila, de Shyamalan, pode ser debatido em parceria com Bauman, Safatle, Zizek: é uma obra cinematográfica que fala sobre violência, traumas e utopias baseadas na lógica do condomínio (não muito diferente de um bunker para privilegiados) e na mixofobia (o horror à mistura e à miscigenação que Bauman teorizou tão bem). Mas também pode nos lembrar da filosofia política de Spinoza, que sempre recomendou a superação dos afetos tristes – entre eles o medo e a esperança – por afetos mais potentes: a amizade e a segurança.

O fim último do Estado, diz Spinoza, deve ser “libertar o indivíduo do medo a fim de que ele viva, tanto quanto possível, em segurança, isto é, a fim de que mantenha da melhor maneira, sem prejuízo para si ou pra outros, o seu direito natural a existir e a agir.” (Tratado Teológico-Político). Como explica Safatle, esta visão spinozista contrasta com aquela de Hobbes:

“Em Hobbes, o Estado se coloca como gestor da insegurança social, seu poder será sempre dependente da capacidade de fazer circular o medo como afeto social imanente às relações entre indivíduos. Já na obra de Spinoza, a segurança é o resultado de duas operações centrais: a moderação das paixões em relação aos bens incertos da fortuna, ou seja, o controle dos que ‘desejam sem medida’, e a conservação e ampliação das circunstâncias que estão sob nosso poder, o que fornece ‘os instrumentos de estabilização da temporalidade, ou seja, instituições políticas que estão e permanecem em poder dos cidadãos e da coletividade.'” (Safatle, O Circuito dos Afetos, p. 101)

Para além do Leviatã que nos aterroriza, não muito distante do Estado platônico e sua pia fraus, Spinoza nos convida a pensar numa comuna livre do medo, baseada na confiança, na amizade, no auxílio mútuo, cujo protótipo, na história da filosofia, foi oferecido pelo Jardim de Epicuro e cuja utopia foi avançada nos últimos séculos por pensadores anarquistas como Elisée Réclus e Piotr Kropotkin.

“Quanto mais nos esforçamos por viver sob a condução da razão, tanto mais nos esforçamos por depender menos da esperança e por nos livrar do medo, por dominar, o quanto pudermos, o acaso, e por dirigir nossas ações de acordo com o conselho seguro da razão”, explica Marilena Chauí (Desejo, ação e paixão em Spinoza, Cia das Letras, p. 321).

Viver sob a condução da razão implica uma política onde lutemos contra o reinado da superstição e seu cortejo de horrores. Ou seja, é preciso derrubar do governo o Medo e da Esperança, trazer abaixo as ideologias teocráticas que nos inculcam noções de Céu e Inferno post mortem, cessar de fazer do temor e da insegurança os afetos sociais dominantes, na construção difícil mas possível de uma comuna da philia, como queriam os epicuristas, ou do auxílio mútuo, como querem os anarquistas.

Prossegue a sempre atual oposição entre a biophilia e a tanatopolítica de que falam, cada um a seu modo, Paulo Freire, Erich Fromm e Björk. O medo nos segrega, o amor nos une; a injustiça social nos conduz aos bunkeres do segregacionismo, e só a justiça social tornaria plausível a comuna biophílica onde poderíamos largar lanças e escudos em prol dos abraços desarmados entre amigos.

Por Eduardo Carli de Moraes
Para A Casa de Vidro
11 de Março de 2018
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VÍDEOS SUGERIDOS:

NÃO ULTRAPASSE, de Elem Klimov (URSS, 1964) #CinephiliaCompulsiva

NÃO ULTRAPASSE, dirigido por Elem Klimov​ e lançado em 1964, é um dos mais adoráveis filmes soviéticos que conheço. É uma espécie de comédia anárquica que, além de lembrar a graça de humoristas clássicos da sétima arte como Charlie Chaplin (Official)​ e Buster Keaton​, evoca também lembranças do clássico do cinema francês, “Zero de Conduta” de Jean Vigo​. Nos dois casos, a luta entre a autoridade adulta e a anarquia infantil acaba com uma estrondosa vitória dos ingovernáveis.

A história se passa em um acampamento de verão onde estão reunidos, em todo o fervor da meninice, muitos jovens soviéticos que estão sendo instigados à disciplina para a realização de grandes façanhas. Os adultos, em seu altos ideais impostos de cima de tablados, querem que os rapazes e raparigas se tornem grandes esportistas e célebres cosmonautas, encantadores músicos e sublimes dançarinas – os futuros Tolstóis e Gagárins, Tsvetaiévnas e Tchaikovskys.

Mas para isso as autoridades pedagógicas necessitam driblar um desafio. Qual seja: a selvageria infantil, o ímpeto de vida indisciplinável, o gosto e o gozo da baderna.

O protagonista infantil, Kostya Inochkin, é aquele tipo de criança demasiado impertinente – como a Mafalda​ de Quino – e que desrespeita muitos limites impostos de fora. Entra assim em choque contra o diretor do campo, o Tavarish Dynin, camarada que busca por todos meios impor uma sociedade disciplinar em meio ao turbilhão de malandragem mirim.

O duelo entre o menino Kostya e o camarada Dynin rende muitas gargalhadas, mas o filme de Klimov – responsável também pelo clássico e contundente “Vá e Veja” – vai muito além da comédia pastelão.

Atinge a genialidade ao penetrar na subjetividade da criança, ao pintar seu mundo interior, ao filmar seus delírios internos. Como naquela cena em que, após ser expulso da comunidade pelo diretor devido a seu mau-comportamento, Kostya, na estação de trem, imagina as consequências de voltar para casa e dar a notícia de sua punição para a avó.

Evocando o cinema onírico, surrealista, que tem em Luis Buñuel e David Lynch alguns de seus gênios, o que Elem Klimov faz nestas cenas inesquecíveis é do mais estarrecedor brilhantismo: o pequeno Kostya imagina-se causando uma decepção letal à sua pobre avó, que morre de desgosto, desmaiando direto no caixão ao deparar com o neto, expulso pela autoridade disciplinar. É uma cena capaz de fazer o cinéfilo lembrar-se de algumas das melhores cenas de Ingmar Bergman​, mas que possui também um humor tão cáustico quanto o de Mary and Max​,

No funeral (delirado) que o menino está assistindo em seu cinema interior, ele vê dedos acusadores que o apontam, culpabilizando o criminoso involuntário, fazendo-o sentir-se pesadamente culpado pela morte (imaginária) da avó. E aí a procissão fúnebre desenha no território, filmado com maestria por uma câmera em vôo, um gigantesco ponto de interrogação formado por uma centopéia humana, completada pela frase: “Por que você matou sua vovó?”.

O menino, em sua fantasia, faz uma previsão sobre um futuro possível – causar a morte da avó através de sua aparição como figura punida por indisciplina – e resolve re-entrar na cena de onde havia sido expulso. Viverá uma vida clandestina após invadir o recinto que, bem ironicamente, contêm em seus portões os ditos contraditórios: “Seja Bem-Vindo!” e “Não Ultrapasse!”.

O filme pode ser lido com auxílio de Foucault e Wilhelm Reich, de Elisée Reclus e de Herbert Marcuse, como uma espécie de alegoria da sociedade de controle, alertando-nos sobre as consequências do excesso de repressão. O filme mostra a censura de um filme em suas cenas de amor mais quentes, e em outro momento mostra o diretor mandando amordaçar Vladimir Maiakovski​, cujos versos as crianças cantavam alegremente, dizendo que devemos lançar à lata de lixo da história todo esse papo de Adão e Eva…

Apesar de não ser nada fiel a quaisquer princípios do realismo socialista, o filme fornece vislumbres do que deve ter sido a pedagogia soviética, inspirada pelos ideais comunistas tais como eles se manifestavam na URSS dos anos 1960. O filme acaba por sugerir, de maneira impertinente-libertária – muito mais próximo do anarquismo do que do stalinismo! – que há algo na natureza humana que se revolta contra as mordaças e as camisas-de-força impostas pelo poder, por mais bem intencionado que este seja.

Este ímpeto vital, na meninice bastante ingovernável, é o que o processo pedagógico busca domesticar, impondo a ele limites, forjando para ele a jaula das regras e regulamentos, porém ele escapa sempre pelas frestas.

O protagonista, Kostya, é um emblema da pulsão vital, do élan pulsante de uma vida incontenível. Tanto que se rebela contra o pequeno cercadinho que é permitido aos pioneiros utilizarem, na beira da praia, para natação. A muvuca extrema naquele cercadinho de água é aquilo que instiga a rebeldia do pequeno pioneiro. Ele queria nadar como se estivesse livre em pleno oceano. Ele queria explorar as ilhas ao redor. Ele queria ir brincar com outras crianças da comunidade dos arredores, ao invés de ficar preso num círculo de convivência bem limitado, descrito aliás pelas autoridades com o nome militaresco de “tropa”.

Contra a disciplina imposta às crianças como partes de tropas a serem domesticadas, o pequeno rebento libertário que é Kostya utiliza toda a força da solidariedade entre os oprimidos para realizar uma espécie de Levante dos Zero de Comportamento.

Quando o filme se encerra, num desfecho memorável e delirante, surrealisticamente utópico, é como se Elem Klimov estivesse querendo botar pilha na fogueira de nossos ímpetos de ingovernáveis, chamando-nos para tentar até mesmo o que parece impossível: com Kostya, somos convocados ao redespertar da anarco-criança interior que é capaz de saltar por barreiras ditas incontornáveis, pulando por cima de fronteiras excessivas pela repressão edificadas.

Kropotkin, creio eu, aplaudiria.

Por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro

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TÍTULO EM INGLÊS: Welcome, Or No Trespassing.

TÍTULO EM RUSSO: Dobro pozhalovat, ili Postoronnim vkhod vospreshchen

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