
O chão sob nossos pés, que deveria ser um lugar de florescimento da vida e de danças em sua celebração, tornou-se um instrumento da morte. Onde poderia crescer um roseiral ou ser cultivado um jardim, há hoje estradas por onde trafegam os tanques de guerra e os veículos com motores de combustão que vomitam poluição e causam ebulições climáticas.
A morte multiforme ameaça nossos passos com minas terrestres, com “soldados armados e tropas de choque”, com abismos em que podem despencar os carros, com as secas e as tempestades de poeira… É possível dançar em busca do êxtase coletivo, como propõe a cultura rave, num contexto sócio-político desgraçado, criando um enclave de beats e ecstasy fora do mundo transtornado?
Em Sirat, dirigido pelo galego Oliver Laxe, a resposta é “não!” – trata-se de um filme que parece afirmar que os passos dos dançarinos merecem uma terra menos hostil, um território mais hospitaleiro. Filmada no Marrocos, esta produção, vencedora do Prêmio do Júri em Cannes e indicada ao Oscar de Filme Estrangeiro (disputou com Agente Secreto, e ambos perderam para Valor Sentimental de Joachim Trier), enfrentou severas condições climáticas, inclusive tempestades de areia que danificaram câmeras e lentes – mas este filme não faria sentido se filmado numa cidade cenográfica, ele precisava mesmo estar na moldura inóspita e pouco hospitaleira de um território desertificado e com imensas, imponentes montanhas, ambos indiferentes aos anseios humanos por prazer e exaltação.


No filme, um pai, Luis, está em busca de sua filha, desaparecida há cinco meses – ela possivelmente foi em busca do êxtase e perdeu-se pelo caminho. Luis se mete no meio de raves no Marrocos à sua procura. Com uma audácia que parece nascida de sua saudade e preocupação, o pai sai na travessia incerta de localizar uma filha que (alerta: spoiler) se mostrará inencontrável. Se você gosta de finais felizes e enredos reconfortantes, passe longe desse filme, que é daqueles soco-no-estômago, que te manda de volta pra casa com um desconforto a mais no peito.
Luis vai acompanhado de seu filho criança, Esteban, e um cão de estimação, Pipa, e seguem em sua busca através de paisagens convulsionadas do norte da África. Mas uma guerra eclode e as fiestas começam a ser impedidas por soldados armados. Os cidadãos da União Européia ali presentes são requisitados a embarcarem em veículos. Estado de exceção – e não de dançação. Na travessia, os êxtases estarão impedidos e permitidos apenas os “kabooms” das minas terrestres.

Conforme este road movie insólito escorre na telona do cinema diante de nossos olhos, vai se adensando a sensação de que esta obra não fala sobre o desfrute da dança, mas sobre seu impedimento. De um protagonista-pai que não está ali para dançar pois está demasiado aflito com o sumiço da primogênita. Ela, que os ravers, nas fotos de celular, aprendem a aparência que tem, mas lamentam informar “não a vimos”, e comentam: ela tem “uma mirada triste”. É um mundo em que o fim-do-mundo tá durando faz tempo.

Suspeita-se que eclodiu a Terceira Guerra Mundial. Em movimento rumo a uma outra rave, eles não tem notícias muito precisas: a OTAN diz não sei o que, a ONU não sei quê lá… chegam fragmentos de informação. As condições para o desfrute da dança, da comunhão rítmica, da unio mystica, parecem ausentes, ou no processo de ausentarem-se cada vez mais.
O LSD na merda de um raver faz o cão Pipa delirar, e não parece ser uma good trip – o cãozinho, no entanto, sobrevive à bad trip. Na caravana, que é um pouco um freak show, vão os mutilados, os que perderam braços e pernas, os tatuados, os amoicanados, os que adoram piercings, os excêntricos e outsiders da sociedade. Em uma das melhores cenas do filme, onde ocorre talvez seu principal alívio cômico, um deles faz uma apresentação musical com o cotoco de sua mão que foi decepada e canta uma canção de protesto em nome de todos que afirmam-se como desertores do Aparato Belicista que quer aliciá-los, convocá-los a guerrear.

A dança, neste filme, é como uma pequena selva rude, desesperada, nascendo onde menos se espera. Logo reprimida pelas autoridades militares. Enxotados daqui, os ravers partem para acolá, mas sentindo-se escorraçados.
A tragédia familiar se faz ainda mais presente (alerta: novo spoiler!) quando o carro de Luis, após muitos perrengues, despenca no abismo, só com a criança (Esteban) dentro. O pai, que veio junto com o filho buscar a filha perdida, agora periga ficar sem nenhum dos dois.
Mas este filme ainda nos reserva outros súbitos “boom!”s. Desesperados, no meio do deserto, eles chapam e decidem dançar. Desconhecem o fato de que estão num campo minado. Dois dançarinos explodem nesta rave sinistra. Torna-se claro que se trata se mais uma obra de teor distópico, soturno, que evoca Zabriskie Road, Fury Road, The Road, tantas estradas que levam não ao Éden, mas à descoberta de que estamos numa espécie de inferno terreno talvez irredimível.
Poema visual provocativo, Sirat trata de uma grave anomalia que está sendo o câncer da Terra: a Guerra dominando o chão, plantando minas explosivas que nos impedem de andar com os pés seguros numa terra cultivável, celebrável, dançável. Não há condições para o florescer da vida – mediatizado também pelo dançar – em meio à proliferação dos objetos que matam. As landmines explodem dançarinos pois a relação humana com a terra foi carcomida pela belicosidade e pela paixão de predomínio que hoje denomino psicose supremacista.
O filme é um emblema de quão feio se torna um mundo que nos proíbe de dançar, que cala violentamente o desfrute, que reprime a joie de vivre, querendo reduzir tudo a relações de força para usurpação de capitais pelos mais fortes.
Há um brilhantismo muito sagaz na relação entre epígrafe e desfecho: a Ponte de que se fala na epígrafe só adquire mesmo seu sentido pleno no fim do filme, quando os 4 personagens humanos que restaram vivos, nesta caravana, tem de fato uma experiência de “atravessamento” de uma fina camada de passagem, no rumo de uma vida não-explodida.
Profundamente distópico, com sua estética à la Mad Max, o filme no seu final descamba pra “estética kaboom!” e insiste em explodir mais um dos freak dancers, desta vez o maninho maneta Bigui. A ponte a ser atravessada de olhos fechados pelo trio – dois humanos e um cachorro – na direção de um Luis que foi bem sucedido em sua crossing, é tênue, estreita, representação da Ponte Sirat, onde qualquer desvio dá em kaboom.
O filme constrói seu simbolismo a partir da Ponte de Sirat na tradição islâmica, aquela que as pessoas devem obrigatoriamente atravessar no Dia do Juízo Final: estendida por cima do inferno, leva aos portões do Paraíso, sendo portanto aterrorizante e potencialmente fatal. Mas penso que também outra mitologia, a greco-latina, também poderia ser evocada para falar na sempiterna batalha de Vênus contra Marte, ou de Afrodite vs Ares. Podemos consultar a obra-prima de Lucrécio, Da Natureza das Coisas, que desde seu princípio já evoca esta oposição.
A distopia de Sirat não é, contudo, uma exclusividade da tela do cinema. Ao assistir à explosão desses dançarinos no deserto marroquino, é impossível não sermos arremessados de volta ao dia 7 de outubro de 2023. Para o desfecho deste texto, quero arriscar aqui um comentário geopolítico sobre o genocídio em Gaza, que não me parece um tema totalmente alheio ao que é levantado por este filme gravado no Marrocos – cujo Estado nacional monárquico também pratica sua atrocidades contra o povo do Saara Ocidental – cf. livro recente de Sayid Tenório.
É que, ao assistir Sirat e depois de terminá-lo, eu não pude evitar a lembrança do ataque do Hamas e outros grupos da resistência armada jihadista à rave Supernova, que acontecia em um kibutz que dista cerca de 20km da fronteira com Gaza. Na ocasião, 364 pessoas morreram e muitas foram sequestradas, ainda que não saibamos quantas foram abatidas por guerrilheiros do Hamas e quantos pelo exército israelense impelido pela Doutrina Hannibal, que ordena o assassinato de cidadãos israelenses pela própria IDF quando estão sendo sequestrados.
Não irei discordar completamente das pessoas que consideram uma brutal atrocidade do Hamas realizar uma chacina com mais de 3 centenas de cadáveres no que era uma festa de música eletrônica, porém é preciso problematizar a atitude destes ravers que pensavam poder se divertir estando ao lado de um campo-de-concentração a céu aberto que Israel controla com punho de ferro para manter sob a mais brutal opressão, impondo a fome, a sede, a falta de serviços básicos de saúde e educação etc.
O que vocês diriam de uma galera “ariana” que fizesse uma festança ao lado do campo de Auschwitz em 1942? Que estivesse dançando em meio à fumaça dos fornos crematórios? Seria de mau gosto? O Zona de Interesse de Glazer também questiona isto ao abordar aquela mansão dos diretores do lager, com piscina luxuosa e muitos deleites de uma vida confortável, enquanto do outro lado do muro o III Reich assassinava industrialmente.
Os israelenses e outros turistas que dançavam naquela rave do 7 de Outubro estavam um pouco nesta posição insustentável de querer celebrar o prazer de existir e de se movimentar estando bem ao lado de um território onde 2 milhões de pessoas estão brutalmente impedidas de usufruir de um mínimo de dignidade humana, e por causa da psicose supremacista que mencionei acima. Para evocar novamente Lucrécio: os ravers em Israel (tentando celebrar as forças simbolizadas miticamente por Vênus/Afrodite) estavam do lado de fora de um campo de concentração (dominado por Marte/Ares).
Não se pode esperar um gozo aprazível, pacífico, idílico, quando você faz sua rave ao lado de uma imensa jaula onde o Estado psicótico-supremacista de Israel, por fanatismo religioso e racismo desenfreado, trancou na desgraça sem fim as vidas palestinas. Ainda precisamos inventar um outro-mundo que seja convidativo para um oni-inclusivo dançar – mas é de se suspeitar que morreremos sem vê-lo eclodir. Enquanto se adensa o senso de urgência, com a piora da catástrofe climática planetária e a ameaça de guerra nuclear, fica parecendo que uma ponte com a espessura de uma lâmina de faca precisa ser atravessada pelos audazes dançarinos que querem rumar para um cada vez mais implausível outro-mundo-possível onde pudéssemos dizer, ecoando o cartaz do Katira que temos na porta do estúdio d’A Casa de Vidro: “se não dançam todos, não dança ninguém”.
Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro, Goiânia, 27/7/26
Publicado no site d’A Casa de Vidro
https://acasadevidro.com/sirat-dancando-em-campo-minado/
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Publicado em: 27/07/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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