
Álbum “Reviravolta”, de Mascate & Seus Cometas, produzido por A Casa de Vidro e gravado no Rocklab por Gustavo Vázquez, vem a público e tem seu show de lançamento no Confluências – Festival de Artes Integradas (5/9/26). Leia o ensaio sobre a obra, escrito por Eduardo Carli, sobre o novo álbum com as canções do artista que marcou época na música alternativa com Diego e o Sindicato, Pó de Ser e sua carreira-solo como Diego Mascate

METAMORFOSE É DESTINO
Reviravolta é um álbum conceitual de rara complexidade e beleza, produzido com recursos da Lei de Incentivo à Cultura da SECULT-Goiânia, a partir de um projeto elaborado e executado por A Casa de Vidro.
O Tempo-Rei, sobre quem nos canta Gilberto Gil, talvez possa ser descrito como uma criança peralta, irrequieta, que constrói castelos-de-areia na praia, à beira mar, para vê-los colapsar com a subida da maré. Recomeça, depois, não tanto com a sensação penosa de estar num labor de Sísifo, este mito dos que adulteceram até demais, mas sim no recomeço alegre da brincadeira quando esta acaba, do jogo quando ele reinicia.
Com esta imagem do Tempo, emprestada também de Heráclito, o filósofo do tudo flui, começamos uma empreitada de abordar a obra de um artista brasileiro contemporâneo que vem trilhando um caminho metamórfico. Aderiu à alcunha de Mascate, com M maiúsculo, como se quisesse se identificar com a figura daquele que atravessa, não daquele que fica; daquele que está de passagem, não de quem se fixa. Ele, que já foi o Diego de Moraes, xará de sobrenome de Vinícius, e em seu álbum de estréia aderiu apenas a seu primeiro nome e escudou-se n’O Sindicato, hoje re-aparece na companhia de seus Cometas. Os vendedores ambulantes de todo tipo de mercadoria que eram chamados mascates, aliás homenageados com estátua no centro do Recife-PE, também eram apelidados de cometas.
No nível das referências culturais, Cometas é uma piscadela de olho para uma banda de rock clássico, aquela que acompanhava o autor do mega hit “Rock Around The Clock”: Bill Haley and His Comets. Lá pelos idos de 1955, esta canção foi um dos cometas inaugurais de uma febre passageira, de fato meteórica, chamada rocknroll. O relógio pode ter girado milhões de translações desde então, mas no Brasil de 2025, portanto 70 anos depois, o desembarque entre nós do álbum Reviravolta reivindica certamente sua pertença à linhagem: eis um disco de rock, ainda que atípico, excêntrico, surpreendente. E que também é um cometa no sentido mais cosmológico: um corpo incandescente que atravessa o cosmos ao invés de ficar girando em órbita; uma aparição nunca durável diante dos olhos e telescópios humanos, mas que fascina e deslumbra.

Acompanhado por Tarso, Pepy & Beleza, os Cometas de Brasília, Diego Mascate aqui se lança à Odisséia do Homem-Ponte que, após uma experiência de quase-morte, renasce em um corpo transmutado, traumatizado mas cheio de vontade de coligação e expressividade, e que espraia por todo lado uma música de gratidão à vida. Uma gratidão que só é tão intensa pois o sujeito acabou de escapar de ser abocanhado pela morte – foi por um triz.
O filósofo italiano Coccia afirma que a metamorfose não é para os seres vivos opcional – é obrigatória; não se pode escolher não sê-lo, o ser vivo está destino a metamorfosear-se. À esta mudança voluntária de forma se entregam Mascate e Seus Cometas nas reviravoltas deste álbum sui generis, que emerge do Centro-Oeste brasileiro (em termos geográficos) e se enraíza no Cerrado (enquanto bioma) ao mesmo tempo que reivindica também sua pertença à América do Sul. Insurge-se contra os mapas eurocêntricos e convoca outros heróis para além dos europeus, seja o jamaicano Bob Marley, cujo reggae em tom de prece anima a faixa 1, “Obrigado Vida”, em nova versão em relação à single lançada na pandemia, e onde destaca-se a afirmação da vida como estrada-só-de-ida.
Beirando os 40 anos de idade, Diego aparece aqui mais amadurecido em relação àquele jovem irrequieto que realizou com seus camaradas o Parte de Nós, um dos álbuns brasileiros do século 21 que ainda merece ter reconhecido seu primor neotropicalista que não perde o brilho. “Eu tenho tido sorte, vim driblando a morte, desde que nasci”, canta na faixa 2, numa reflexão sobre a sorte em que parece brincar de Garrincha, usando como bola sua voz e tendo por adversário aquela que segura a foice e joga xadrez n’O Sétimo Selo de Bergman. Diego Mascate fez um álbum que deve interessar a todos e qualquer um que já tiveram a experiência de um xeque da Dona Morte e de terem conseguido, num drible, evitar que se fizesse xeque mate.
“Reviravolta acontece em mim / Quando menos se espera já chegou ao fim”, canta em “Boa Sorte”, começando uma série de menções ao termo que dá título ao álbum e que ganha, no universo semântico dieguista, uma polissemia que vale desbravar. Reviravolta é uma palavra que o músico gosta de quebrar em três – o re, o vira, o volta. O re no início é intencionalmente pensado como diálogo com uma série de álbuns realizados por Gilberto Gil nos anos 1970 – “Refazenda” (1975), “Refavela” (1977) e “Realce” (1979), conhecidos em conjunto como Trilogia Rê (também há um álbum ao vivo, gravado com Rita Lee, chamado Refestança, de 1977).
Na faixa 3, “O Homem Ponte” o músico explora influências de Nietzsche, sobretudo saídas de Assim Falava Zaratustra, celebrando o amor fati, entremescladas com influências cristãs – “ainda que eu fosse um poliglota transcendetal sem o amor agapé eu não seria nada!”, onde também pisca os olhos para o budismo e cita Herman Hesse (no verso “cantando a canção da transitoriedade”) e Leminski (“não discuto como destino, o que pintar eu assino”). Aqui afirma-se que “tudo vai passar”, mas longe de melancolia derrotista, a canção é animada, tem um astral que remete aos entusiasmos presentes no disco de estréia dos Rios Voadores, e celebra o gozo possível de um aqui-e-agora que começa a pôr o ouvinte no clima do carpe diem epicurista.
Na sequência, a faixa 4, “Aqui”, é a única parceria do álbum, composta por Diego e Kleuber Garcez, que estiveram juntos na banda Pó De Ser, que gravou o belo álbum A Dança Da Canção Incerta. “Embora eu vá um dia / Não quero despedida nem despedaçar / Fica tudo como está / Aqui”, diz a letra. O termo universal para referir-se ao local de onde o falante realiza sua elocução é explorada num sentido que transita do trivial (“aqui moro de aluguel”) ao místico (“aqui vai ficar / transformando o tempo inteiro”).
Olhando para o “Céu Azul” em uma canção que parece a continuação, mais de década depois, de “Dia Bonito”, presente em seu álbum solo D.C. (depois do coágulo), Diego Mascate realiza, na faixa 5, um pedido à sua menina de ajudá-lo numa tentativa de equilibrista: tenta encontrar, diante da perpétua transformação de tudo, um modo de equilibrar razão e intuição, ser e devir, sim e não, “criação vizinha da destruição”.
É a canção mais cosmológica, mais astronômica de Reviravolta, convidando-nos, ao anoitecer, para olharmos pro céu: “galáxias e planetas e asteróides / Lembre nada está parado.” “Planetas girando ao redor de estrelas / Estrelas em torno do centro da galáxia”. Por fim, o conselho existencialista, nietzschiano, convocando a atitude do sim-à-vida: “quem não ama a vida não a merece / quem não arrisca a sina não resplandece.” O céu azul aqui descrito é muito mais o firmamento como grande vazio, como espaço atravessável por foguetes e por satélites, do que o céu fantástico que a imaginação religiosa imagina como lócus de recompensa post mortem. Isto se torna claro e translúcido desde os primeiro versos: “olho para este céu azul / não vejo sentido / em negar a vida / esperando e prometendo o paraíso.” Com certo sabor de ateísmo, o poeta aqui fala de ver no céu o azul (e não deus) e perceber-se geolocalizado na América Latina.
De teor mais Proustiano, “Labirintos da Memória”, a faixa 6, revela o cancionista indo em busca do tempo perdido. Tematizando o envelhecer e o rememorar, a canção também é uma daquelas, em Reviravolta, que mais aborda de maneira autobiográfica os episódios vividos por Diego em seu período em São Paulo, quando sofreu um grave incidente que o levou à UTI com um coágulo no cérebro. O músico estava numa madruga na Rua Augusta curtindo o rolê cultural e possivelmente foi agredido por um assaltante noturno que o deixou inconsciente. Esteve desaparecido por uns dias, para consternação geral da família, amigos e da cena cultural que integra. Na letra, Diego conta: “desapareci / me acharam pelas ruas / mas eu não me encontrei / eu perambulei por vários ambientes / em nenhum me defini / quem sou eu? / alguém pode me explicar? / serei um Nowhere Man?”
A referência a esta canção dos Beatles ocorre em meio a uma celebração do aprendizado que o tormento propicia e conclui – “atravessei o vale da sombra da morte, mas tive sorte / sobrevivi, eu renasci e agradeci / estou mais forte.” A canção, dramática, quase épica em seus vários setores, em que a banda flerta com um som progressivo que lembra o Jethro Tull, inclui também uma homenagem do cantor a seu falecido pai, que costumava dizer, como se fizesse uma auto-biografia resumida em um neologismo: “neologismo”. O verso que Diego canta com obstinação ao fim da canção explora a imagem de trafegar numa estrada antes da curva, o que também evoca o álbum anterior de Diego Mascate e A Banda de Apoio, entitulado Na Estrada Antes da Curva.
Já o petardo quase-punk “Antro”, a faixa 7, é a canção mais radicalmente contemporânea do álbum e interage com o pensamento de Ailton Krenak: “que tal abrir um paraquedas colorido?” Com uma sonoridade que remete aos Titãs, aos Picassos Falsos, ao Pato Fu, a Arrigo Barnabé, a canção explora de maneira crítica e satírica “a nossa ignorância / destruindo o futuro das crianças (que somos nós)”. Neste pequeno e estrondoso manifesto, que faz poesia concreta cantada com termos como Antropoceno, antropofagia, a estupidez humana é comparada ao meteoro que extinguiu os dinossauros. “Eu que já era um artista / Desde a parede das cavernas / Reinventando toda vida / E aumentando nossas pernas / Homo sapiens!”
Deixo aos que gostam de teorizar psicologias a tarefa de ler, em Reviravolta, os traços e vestígios da near-death experience; aqui quero mais é proliferar conexões, num texto-teia, repleto de links, que permitam explorar esta rica tapeçaria que inclui também um diálogo fecundo, multiforme, com a noção de Renascença. Como historiador, Diego muito se interessa pelo período histórico em questão: já comprou na Livraria A Casa de Vidro, p. ex., o livro sobre o Renascimento Italiano escrito por Jacob Burckhardt. Mas aqui, na faixa 8, sua principal referência e obra-de-diálogo é outra: A Virada, de Greenblatt. Nunca houve na história do rock brasileiro uma tentativa tão audaz de lidar com a tradição ética e sapiencial do epicurismo. “A Virada” é uma das canções mais intelectualmente arrojadas já escritas no âmbito do rock brasileiro e permite conhecer a saga do livro Da Natureza Das Coisas de Lucrécio e sua re-descoberta, na Renascença, pelo caçador-de-livros Poggio.
Em “Redemoinho”, a faixa que encerra o disco, novamente explora o afeto do “foi por um triz”, “do quase escapou da mão o destino”. Cair no buraco, perder o compasso, dentre outras imagens, evocam uma situação existencial de perigo inclusive de vida. A existência humana aqui aparece como um percurso errático no imponderável da imensidão, repleta de elementos incontroláveis. Em um momento histórico em que o Maelstrom descrito num conto de Edgar Allan Poe ressoa na obra de pensadores importantes do Brasil e do mundo, como Maria Cristina Franco Ferraz e Bruno Latour, Diego Mascate também nos lança a uma imago mundi turbilhonante, enquanto os Cometas, com sua sonzeira, nos arrastam num redemoinho de sons psicodélicos e viajados que evocam o Tame Impala ou os Boogarins.
Reviravolta chega para propiciar uma imersão num rock psicodélico neotropicalista, maldito e benfazejo, lúdico e trágico, visceral e intelectual, na entremescla que leva cada um de nós a concluir, na companhia de Diego, poeta e palhaço, cantor e historiador, músico e sátiro, que a melhor definição de “eu” sendo sendo: eu sou parte de nós. Neste álbum extraordinário está plasmada uma imago mundi em que a Vida é metamorfose perpétua, carnaval das formas, dinâmica imparável de um fluxo em que a gente, se for artista, se arrisca – senão, não petisca.
A inquietude indomável da psicodelia musical brasileira
Conviver com Tarso por dois fins-de-semana, em meio às RECs do Reviravolta no Rocklab, foi o equivalente a uma aula magna de psicodelia sônica. No carro ele nos aplica as prés do álbum de estréia do Corujones, em gravação nestes meados de 2023 onde meus ouvidos sentem o impacto de “Sentado no Arco-Íris”.
Só o título já é quase alucinógeno, mas a música mostra que os horizontes psicodélicos da banda vão muito além da psicodelia soft da imagem que entitula a canção: é evidente que não há bunda capaz de sustentar-se sentada num arco-íris, mas a surrealidade, quando é bem-vinda, recicla nosso senso do real. Tarso explica que se trata de uma releitura de uma canção de Leno presente no álbum …Johnny McCartney, produzido pelo jovem Raul Seixas.
Nascido no Sergipe, Tarso participou intensamente de um cenário que, de Aracaju e arredores, irradiou para o cenário musical brazuca grupos como Baggios e Plástico Lunar, duas das melhores bandas psicodélicas brasileiras das últimas décadas, autoras de álbuns master-fodásticos como Brutown e Coleção de Viagens Espaciais, respectivamente.
Um dos artistas envolvidos com a Plástico também tem carreira solo de alta dose lisérgica: Luno, com seu Homo Pacificus <DOWNLOAD>, mostra-se capaz de densidade na imersão em ambiências sônicas que tiram a consciência de seu sóbrio rumo normal.
Já Pepy me aplica o Transquarto, banda instrumental brasiliense em que toca junto com Tarso, fazendo um merchand de lábia deste projeto que me deixou instigadíssimo para ouvi-lo – preferencialmente nos fones de ouvido e após ter fumado um Colômbia Gold.
A aula continua com Carlos Beleza aplicando-nos, no telão do ex-Ulisses Rock Bar, à carreira solo de Roky Erikson dos 13th Floor Elevators. “Estes caras são garimpadores de sons foda!”, penso com meus botões enquanto marco um coração a mais no Spotify, tentando alimentar meus algoritmos.
Logo caímos neste tema da I.A. e das doideras que isto causa em áreas tão variadas quanto os apps de namoro à la Tinder e os streams de música-sob-demanda à la Deezers e Spotifys. Divertidamente, Tarso Jones nos conta sua teoria não-%100-séria acerca de “sujar os algoritmos” tocando música ruim: ele nos garante que, se você dá o stop ou passa pra próxima, os robôs tão anotando e os algoritmos tão evoluindo.
Logo depois, pelos tropismos dos papos que surfam muito nas ondas do aleatório e das sinapses induzidas à efervescência pela cannabis, estamos falando sobre as “gatas” de Instagram que na real não existem, são fabricadas por I.A. e cada vez mais estão saindo com base num modelo-Barbie. Na esteira do blockbusterzão de Greta Gerwig, estamos achando um porre ressaquento difícil de curar este bafafá todo com Barbie – este modelo da beleza branca-pálida, loura-artificialesca, ainda bombando hegemônica.
Muito mais poderia ser dito neste ensaio já tão verborrágico sobre tudo o que ocorreu nestes anos de jornada que nos trouxeram a Reviravolta. Mas o que mais importa, agora, é entregar a cria ao mundo e convidar ao desfrute, à interação. No feriado de 7 de Setembro, em uma festança das artes integradas n’A Casa de Vidro, vamos celebrar a chegada ao mundo de Reviravolta e do documentário sobre sua feitura, que vocês já podem ir apreciando por aqui, preparando-se para comparecer ao CONFLU e à culminância inesquecível que é trazer ao público esta extraordinária Reviravolta, re-afirmativa de nosso destino como seres metamórficos.

TRACKLIST: 01- Obrigado Vida (00:01) 02- Boa Sorte (05:00) 03- Homem Ponte (08:52) 04- Aqui (13:02) 05 – Céu Azul (16:42) 06 – Labirintos da Memória (22:49) 07- Antro (28:31) 08- A Virada (32:02) 09- Redemoinho (36:01).
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Publicado em: 21/08/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia