
O sermão do padre costuma pregar assim: Deus-Pai é quem decide sobre o Bem e o Mal, e o “hómi” lá de cima determinou que o relacionamento erótico-afetivo de pessoas do mesmo sexo é um pecado capital, encarnação do mal, caminho certo pra condenação infernal. Same sex marriage?!? It will damn you to hell!
O queerlombismo recusa tal dogma e acusa que há uma doença deste nómos abraçado pelos teocratas e patriarcas. Há uma homofobia cruel correndo nas veias de sociedades que proclamam como intermediários entre os humanos e o divino estes xerifes terrenos que devem (des)mandar com seus falos eretos e suas concepções rígidas do que é bom e mau, lícito e proibido, louvável e linchável.

Em Rafiki, da cineasta Wanuri Kahui, o que está em jogo é mais do que uma love story queer no Quênia. Estamos diante do despertar de Kena & Ziki para uma luta por direitos civis. Um awakening para o fato de que será preciso profanar a regra patriarcal para algo arrancar dos chefes que relutam em conceder os referidos direitos reivindicados. A fórceps e com a força da política – inclusive a não-desdenhável “micro-política”, dita “identitária” -, elas vão abrindo caminhos pr’um outro mundo possível.
Mais do que a re-edição de uma história-de-amor Romeu-e-Julietesca – outra vez os Montecchios e Capuletos estão na maior treta, e duas minas ousam se unir eroticamente apesar dos interditos do sectarismo!… – temos no filmaço de Wanari Kahui (From a Whisper, Pumzi) um microcosmo da luta LGBTQ+++ num Kênia carcomido pelas homofobias consolidadas.
Na Casa Grande da homofobia em Nairóbi cabe muita gente – cabem os machos no boteco xingando de faggot ao gay que por ali circula; cabem as velhas fofoqueiras que encontrar deleite na maledicência; e cabem os pastores que clamam às suas ovelhas para que se façam resolutamente violentas e persecutórias contra todos os comportamentos à la Sodoma e Gomorra, que muito desagradam e deixam furibunda a mui-homofóbica divindade suprema.


O brilhantismo da cineasta, neste obra-marco de um queerlombismo afrofurista, está também na maneira sensível com que Wanuri Kahiu (fotografada acima no Festival de Sundance, em 2025) filma o enlance de Kena e Ziki, com um apelo sensorial e uma póetica visual que não deixa de evocar Kechiche e seu Blue Is The Warmest Color.
Mas aqui, no que é uma espécie de Black Is The Warmest Color, o aspecto “quilombista” se faz muito mais presente do que na obra do franco-tunisiano. É certamente pois o lesbianismo em Paris não é uma prática que pareça exigir um esforço similar como aquele que se manifesta no Quênia, país que, como veremos, condena os “crimes” de homofoatividade aos cárceres ou coisa pior. Na obra pulsante de Wanuri, sente-se a necessidade de aquilombar as práticas queer, de criar espaços de (re)união daqueles que desertaram da Casa Grande da norma homofóbico-patriarcal.
O fato do filme não ter sido indicado ao Oscar pelo país, preterido em prol de Supa Modo (2018, de Likarion Wainaina), talvez tenha menos a ver com questões de mérito estético, e muito mais a um desejo das autoridades quenianas de não dar trela nem muita visibilidade ao que alguns poderiam chamar de um panfleto fílmico pelos direitos civis queer. Um tal aquilombamento queer no cinema é muito des-confortante, melhor e mais seguro promover algo como… um garotinho com doença terminal que quer fazer cinema de super-heróis:
O que pode surpreender, no caso de Rafiki e de seu retrato da lesbofobia, é que na Casa Grande da homofobia cabem também mulheres – mães e irmãs, tias e primas, que foram capturadas por um discurso de condenação do erotismo lésbico. Kena chega a ser insultada e agredida por uma outra jovem mulher de sua idade, e depois a mãe de Ziki, testemunhando um beijo da filha nos lábios de Kena, decide tentar acabar com o vínculo denunciando-o à outra mãe. Assim, acaba convocando um complô de mães pra acabar com a relação delas, antes que se tornasse necessário, e possivelmente mais violento, um complô de pais…

Quando Ziki e Kena desertam do lar e saem correndo, se enfurnam na van, fazem planos pr’um futuro onde vão vazar pr’algum lugar onde pudessem ser “reais”, elas mesmas, sem máscaras de normalidade impostas de fora.
O denuncismo do “pecado” das lésbicas perpassa pessoas de todas as classes e cores – o que culmina com a cena mais dura, mais soco-de-estômago, do filme da Wahuri: aquele linchamento coletivo das queers do Quênia, que logo nos mostrará que na Casa Grande da homofobia também cabem dentro as milícias homofóbicas, as hordas enfurecidas por defender a norma, e é claro também as delegacias, as prisões, as famílias tradicionais… Como cabe coisa e trambolho na Casa Grande da norma heteropatriarcal compulsória!
A cineasta é brilhante também em construir, como cena dentre as mais comoventes, os beijos de Ziki nos lábios sangrentos e arregaçados de Kena. É como se Wahuri quisesse expressar que, longe de repulsivos, aqueles lábios agredidos pela homofobia tornaram-se ainda mais dignos de serem beijados. Ziki beija o sangue nos lábios de Kena e o amor queerlombista ganha um emblema imenso, assim como o Cinema do Queerlombo que emerge.
Sobre o desfecho, quero apenas fazer uma breve reflexão sobre o tema do happy end em filmes de temática queer, ou seja, o intento de terminar com certo “otimismo”, o que Wahuri também intenta aqui: as forças que atuaram em prol da separação de Kena e Ziki até conseguiram, por um tempo, fazer com que as duas se afastassem, já que Ziki é compelida por seus pais a morar em outra cidade. Porém, um salto temporal no fim do filme nos revela Kena já em seu trabalho no campo da saúde, manipulando um cartão-postal que lhe enviou expressando saudades (“I miss you”), e tudo termina numa espécie de “momento epifânico”, o retorno-a-Ítaca de Ziki que completa uma odisséia de volta a Nairóbi e aos braços de Kena.
O happy end, neste caso, não me incomoda, mas me parece válido emblema de uma potência subversiva do amar fora-das-normas que não aceita resignar-se às imposições repressivas. Aliás, o filme termina dando-nos apenas um vislumbre do re-encontro, abrindo nossa imaginação para fabular sobre o devir de Ziki e Kena – nada impede, aliás, um Rafiki 2, que eu adoraria que Wahuri filmasse. Não se trata, nesta obra a um só tempo denuncista e anunciadora dum processo de outromundar, de vender um final feliz fake, mas de apontar para a potência de um aqueerlombamento que volta a se manifestar mesmo depois deste queerlombo-a-dois ter sido alvo de um intento de desmantelamento com o uso das “ferramentas do mestre”.
Trata-se, ao invés de otimismo barato, da afirmação de uma resiliência, de uma sororidade, de um espírito à la Zami, onde a ousadia de viver um amor proibido é que reluz como aquele cálido sol que banha peles de melatonina acentuada e de beleza indizível. Quem não entende que a subversão pode ser bela, que a ruptura de regras pode ser sublime, não se sentirá convidado a dançar disruptivamente em nossos queerlombos a emergir…
Rafiki é um excelente filme para problematizar a homofobia quando se institucionaliza, quando se torna o nómos, a lei, o modus operandi das instituições. Como desmantelar este sistema de opressão, baseado na forma-de-cegueira que enxerga a heterossexualidade compulsória com Bem ordenado por Deus-Pai, é uma das funções maiores do queerlombismo – este que tem como algumas de suas intelectuais e artistas maiores a Audre Lorde – e, no Brasil, a Tatiana Nascimento (que grafa cuírlombismo).

Acho curioso e digno de realce que esta frase de Lorde – for the master’s tools will never dismantle the master’s house – tenha ganhado um acento queerlombista na tradução ao português, em que a Casa Grande veio substituir “the master’s house” e ficou pressuposto que as “ferramentas” do desmantelamento precisam ser construídas… no quilombo. No caso, no queerlombo,estes lócus de reunião de quem ousa se relacionar para além e em afronta das concepções de normal que nos são impostas pelos “Masters”.

Rafiki, o filme, baseia-se em um conto de Monica Arac de Nyeko, escritora de Uganda, chamado “Jambula Tree” (click e leia, em ingês). Ali se tematiza também a prática social da fofoca, da gossip, outro campo em que bocas maldosas podem tornar-se “machine gun mouths”, exercendo uma maledicência contra os desviantes, os transviados etc. No primeiro parágrafo, lemos:
“…people are still left wordless by just how much she can shoot at and wreck things with her machine-gun mouth. We nicknamed her Lecturer. The woman speaks with the certainty of a lecturer at her podium claiming an uncontested mastery of her subject. I bet you are wondering how she got to know of your return. I could attempt a few guesses. Either way, it would not matter. I would be breaking a promise. I hate that. We made that promise never to mind her or be moved by her. We said that after that night. The one night no one could make us forget. You left without saying goodbye after that. You had to, I reasoned. Perhaps it was good for both of us. Maybe things could die down that way. Things never did die down…” (De Nyeko)
Rafiki é sobre a recusa do amor queer de ser conduzido a fórceps ao processo de decair e morrer – to die down.
2. O AFROFUTURISMO E A RELEVÂNCIA DE “PUMZI”
Quem quer que se interesse pelos rumos da arte contemporânea precisa imergir nas estéticas e éticas e cosmopolíticas do afrofuturismo. O termo vem sendo aplicado até mesmo àqueles que vieram antes da forja do mesmo, como Sun Ra e George Clinton (Parliament/Funkadelic). No cinema existem muitas facetas afrofuturísticas a mais do que sonha nossa pop-mitologia Black Pantheresca via Marvel. Foi em minha busca por conhecer mais sobre o cinema afrofuturista que descobri os filmes de Wanuri Kahui, sobretudo o curta Pumzi, de 2009.
Fui a Rafiki com o olhar treinado para encontrar indícios de futuridade, de ficção especulativa. A princípio pode parecer que o porvir não é o tema deste filme realista, nada sci-fi, sem foguetes nem robôs. Mas no cerne do enredo existe uma eleição: as campanhas de dois candidatos. O que significa que os cidadãos do Quênia estão indo às urnas para definir o seu futuro no que tange à governança.
O drama de tensos antagonismos que se arma envolve o fato de que nossa protagonista Kena – jovem fissurada em skate, baralho e rolês na garupa da moto de seu amigo e pretendente Blacksta – também é filha de John Mwaura, um dos candidatos. Este separou-se da mãe de Kena e aguarda um bebê que cresce no útero de sua nova esposa. Temos aqui uma vida em gestação, uma criança que nascerá após a eleição, como mais um índice do futuro já se fazendo no lócus de um útero. Também é um motivo a mais para a Kena questionar a ordem imposta pelo pai e lançar-se ao desordenamento-mundi que é também parte das transgressões queer.
A amizade/romance que se instaura entre Kena e Ziki, a filha do outro candidato, indica a possibilidade do amor queer superar a tendência à animosidade e ao conflito que deveria se instalar devido às trincheiras partidárias. Há uma cena em que a trupe de Ziki é flagrada por Kena destruindo os cartazes eleitorais colados à parede e que convocam o voto no pápis de Kena. Furiosa, esta corre atrás das inimigas como se fosse lhes dar um esporro, uma surra. Mas Kena e Ziki, olho no olho, são tomadas por um armistício, uma suspensão da violência. Logo estarão numa quente date nairóbica onde selam um pacto: prometem “to be something real”, não apenas mulheres clichês, cuidadoras de bebês, lavadoras de roupas, empregadas domésticas. O futuro planejado deliberado a dois:

Kena: Gostaria de estudar para virar enfermeira.
Ziki: Ora, você poderia tornar-se médica, cirurgiã!
Ou seja: jovens africanas (ou deveríamos chamá-las afriketes?) sonham futuros implausíveis mas factíveis. Afroturizando seus destinos, com seus seus batons roxos e azuis sobre os lábios, com seus dreadlocks coloridos, com seus jogos de cintura que se exercem com os beats dançáveis de Muthoni Drummer Queen, no vestuário lúdico ousado, estas colorful friends afroturam os rumos da cultura através do vestuário, da música, da dança, dos modos emergentes de se relacionar.
Ziki: Quero viajar por uma pá de países cheios de gente que nunca viram uma africana como eu e aparecer: “eis-me aqui!”
Resta ainda um comentário pertinente sobre a ambígua figura da mãe de Kena: ela me pareceu uma espécie de griô sofrida, divorciada, meio amarga, que ensina a filha a não ter ingenuidade diante dos homens. É como se falasse: Kena, fica esperta, não dê uma de otária, certos boys por aí, como teu ‘migo Blacksta, não são mais do que pesos ou âncoras, “weights that keep you stuck here”. Estamos aqui no âmbito de um afrofeminismo que vê paradigmas, modelos desejáveis, ímãs que convocam a autotransformação, em Chimamandas e Lupitas, não em mulheres tradicionais, ser vizinhas e inexpressivas. Porém esta mesma mãe possui uma certa agência normalizadora e homofóbica, desincentivando o romance lésbico de Kena e suas atitudes/ posturas pouco feminis.
Na Wikipédia descobri que o filme Rafiki foi banido pela “clara intenção de promover o lesbianismo no Quênia”, violando a lei do país, onde o sexo homossexual é punível com prisão: 14 anos de detenção. A cineasta Wanari processou o governo de seu país exigindo que a obra pudesse ser exibida e concorrer a uma indicação ao Oscar. Em setembro de 2018, o Supremo Tribunal do Quênia o liberou… mas por apenas uma semana. Assim, alguns cinemas lotados de Nairóbi puderam se tornar zonas autônomas temporárias e efêmeros queerlombos filmicos.


Há, pois, afrofuturismo de outra estirpe em Rafiki, incidindo sobre a relacionalidade pós-nómos heteropatriarcal. Mas é em Pumzi que Wanuri foi afrofuturista de fato. Neste sci-fi, a protagonista Asha vive 35 anos após a III Guerra Mundial, a.k.a. A Guerra da Água.
Confinada nos subterrâneos, já que a superfície da Terra tornou-se desolada e inabitável (the outside is dead é um slogan do regime), ela é curadora de um museu virtual de história natural – o que nos obriga a refletir: que sentido e valor em cuidar do passado em um mundo que parece sem futuro? Asha está obrigada, como todos em sua sociedade, a tomar os supressores-de-sonho sempre que seu mundo onírico se manifesta. E tenta conquistar gotículas de água difíceis em um mundo de escassez hídrica extrema, onde até a urina e o suor são fonte de líquidos potáveis após passarem por processo tecnológicos de purificação. Mas Asha não se resignará.
Asha, enraizada e afrofuturista, não acredita que a Terra lá fora seja mesmo uma wasteland para sempre perdida. Ela pesquisa amostras de solo e mudas de plantas para tentar regenerar o planeta pela reflorestação. Pumzi constrói sua esperança tendo por emblema a semente. Até mesmo foi dele que me veio o insight para propor que existe na ficção especulativa um sub-gênero chamável de seed-fi. Uma mostra do Eyefilmmuseum de Amsterdam assim o descreveu:
“O primeiro filme de ficção científica queniano, ambientado na África Oriental 35 anos após o fim da Terceira Guerra Mundial. A terra está seca, o solo envenenado e não há água. As pessoas vivem em uma cidade subterrânea usando alta tecnologia; ninguém tem permissão para sair. A natureza existe apenas em um museu virtual, e os sonhos são suprimidos com medicamentos. Uma jovem ignora as proibições e planta uma muda de árvore no deserto; ela a alimenta com seus próprios fluidos corporais e lhe dá sombra — um sinal de esperança em um mundo cruel.”

O ato de desobediência de Asha, que tem negado seu visto de saída da “sociedade-bunker”, mas sai mesmo assim, é de novo um índice de aquilombamento. Ainda que aqui este seja um ato bem solitário e não aja sinal daquele queerlombamento que Kahui explorará em Rafiki. Asha sai do seu subsolo-bunker mesmo sem permissão e, biofílica, cientista audaz, heroína das wastelands, vai em busca de checar por conta própria se a terra ainda possui potência para a germinação da flora.
O afrofuturismo não se esquece jamais que não há futuro sem raiz. E que a concretude dum porvir em potência e em gestação concentra-se no emblema concreto da semente. Depois do foguete fálico que estupra a Lua em Mèlies, signo da exploração espacial megalômana-muskiana prefigurada um século antes da Space X, temos em Pumzi a mulher negra reflorestadora – inclusive de imaginários! – e que ousa desobedecer para regenerar o planeta A, já que sabe que “não há planeta B”.
Eduardo Carli de Moraes
11 de Agosto de 2026
LEIA TB:
RAFIKI na Wikipedia – https://en.wikipedia.org/wiki/Rafiki_(film)
O QUEERLOMBO DA PALAVRA de Tatiana Nascimento – https://blogueirasnegras.org/o-cuierlombo-da-palavra-y-da-palavra-queerlombo/
BAIXAR O FILME “RAFIKI” EM TORRENT: https://drive.google.com/file/d/1vMqo_EBVhgGhTObv0JkpnWF3FJmPFO4e/view?usp=sharing
REVIEWS – Flipscreen – Cineccentric.
Publicado em: 11/08/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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