
A noção de “Popstar do Bem” desperta meu ceticismo tanto quanto a de “Bilionário Filantropo”. Mas como apertar o botão de reconfig nas minhas noções de pop-estrela benévola, expressão que tende a despertar meu sarcasmo, depois da proeza de Miss Olivia Rodrigo (fortuna pessoal estimada em U$45 milhões)?
Ela encabeçou uma empreitada que arrastou 45.000 pessoas pro seu mega-festival Daisy Chain Fields, e consagrou-se em 2026 como algo parecido com A Santa Padroeira da Filantropia Feminista. Sinal irrefutável de que o poderio desta artista atingiu um cume, mas também prenúncio de um violento backlash que pode se armar (quem entende Nina Simone em “Backlash Blues”, entenderá o que este escrevivente pena por expressar…).

Quero tentar esclarecer um pouco da rabugice que sai pelas fuças de meu primeiro parágrafo. É que penso o seguinte: se você é um famigerado bilionário, isto significa que você é um perverso acumulador de capital em um mundo onde centenas de milhões passam fome. Um usufruidor de privilégios descabidos e um sórdido devorador de bens-de-consumo supérfluos. Alguém que com certeza tem mais do que precisa ter. E este empilhamento de injustiças egoístas não é redimido pelo fato de você doar uns milhõezinhos pra caridade, como faz um cara como Bill Gates ou uma senhora como Melinda Gates – ela, que “sozinha” doou 10 dos 20 milhões arrecadados na Festa Flower Power rodrigueana.
Incômodo adicional com a Sra. Filantropa, esposa do chefão da Microsoft, é o fato de que ela assim causa uma onda de hype pra si mesma, sai em reportagens na NME, torna-se o Rosto e o Nome de uma filantropia que um bando de anônimos, indignos de terem seus nomes mencionados, também ajudaram a realizar… comprando ingressos. Melinda dá 10 milhões, a renca entra com o resto. Melinda, ó benfeitora, entra com 50% da bondade, já os concertgoers com a outra metade, exército de abelhinhas operárias que se tornam assim pequenos e sem renome, diante da Abelha Rainha, abrindo Gates para a Pivotal Ventures bombar no mercado de capitais limpinhos, maquiados, “aceleradores do Progresso”…

Após esta diatribe contra os bilionários pretensamente benévolos, que concentram um bocado e compartilham migalhas, explico minha rabugice com as estrelas do showbiz. Se você é um popstar, você provavelmente é também um(a) bilionário(a) – ou encaminhando-se para lá, subindo a ladeira da multiplicação dos zeros à direita em sua conta bancária. Valendo pra você o breve e não-exaustivo rol de escrotices que se aplica a esta figura do mi ou bi ou trilionário – que, numa perspectiva anticapitalista (que me parece válida e necessária, não deveria nem existir caso quisessemos viver num planeta com justiça social. Bilionários deveriam ser um entulho aposentado, parte da história vergonhosa, mas não integrantes de nosso presente. E Musk vai lá e vira trilionário – um escárnio! – num planeta onde 2 bilhões não tem acesso a água potável.

Para tornar-se “estrela terrena” do showbizz, você precisou jogar as regras de um jogo apelativo e em larga medida perverso. Fez de si mercadoria e deixou-se multiplicar, pela reprodutibilidade técnica, como um sabonete fabricado em massa numa linha de montagem fordista. Teve que apelar para a captura de massas através da isca do pop, com seus clicês, suas iscas dopamínicas, seu narcisismo ególatra. Teve que conquistar o culto acéfalo e idólatra das massas memetizadas, enfeitiçadas por sua performática persona capitalizadora, como fez uma das maiores pop-stars do século 21, Taylor Swift. Que, eu não duvido, é um dos “modelos de negócio” em que Olivia se inspira, já que Taylor S. se tornou talvez a maior popstar musical do planeta hoje, a Madonna dos zoomers, ao arrebanhar milhões de pessoas e de dólares para esta nova religião seguida pelos swifties. O bizz-Swift e seu séquito de seguidores histriônicos foi excelentemente dichavada por Mugiatti num belo artigo pra Revista Piauí, A Big Sister do Pop – Culto a Taylor Swift é uma versão distópica das venerações musicais ao longo da história.
Mas… não quero seguir vomitando estas rabugices Adornianas de intelectual de esquerda, suspeito de despeito diante das stars por ser impopular. Estou aqui traçando estas linhas, eu confesso, cheio de admiração pela proeza de produção cultural e mobilização cívica que foi capaz de consumar Olivia Rodrigo. Também considero altamente plausível que 2026 se encerre com seu álbum na maioria da lista de melhores do ano. Olivia vem velozmente fazendo História, como já havia feito ao tornar-se a pessoa mais jovem a estrear uma single no primeiro lugar do Top 100 da Billboard (“Driver’s License”, lançada em janeiro de 2021, saiu quando a artista tinha 17 anos).
Ao produzir e ser headliner do festival de atrações 100% femininas Daisy Chain Fields, ela levantou 20 milhões de dólares a serem doados para “entidades feministas” (ONGs e que tais) e assim fez história. O line-up foi muito impressionante: o D.C.F. congregou Bikini Kill, Chappell Roan, Devon Again, Die Spitz, Doechii, Eli, Garbage, Mitski, Not for Radio, Quiet Light, Rachel Chinouriri, Santigold, The Breeders, Sarah McLachlan, Stevie Nicks e Alanis Morissette.
A proeza Oliviana consiste também em fazer uma dúzia de bandas e artistas gigantes na cena musical anglosaxã aceitarem tocar sem cachê, para que pudessem beneficiar 10 ONGs non-profit que lutam pelos direitos das mulheres e estiveram bem destacadas no Dandelion, o palco principal. As bandas e artistas abriram mão do lucro, ou mesmo da remuneração justa por seu trabalho artístico-performático, para permitir que 10 milhões de dólares fluíssem do público para as ONGs. Melinda Gates veio e “dobrou” os 10 milhões, botando mais 10, e de algum modo roubou assim o holofote que deveria recair sobre a coletividade de “consumidores de cultura” que escolheram ir ao benefit concert.

Nascida em Fevereiro de 2003, hoje com 23 anos de idade, Olivia Rodrigo deixa cravado no ano de 2026 o fato de que consumou um mega-feito com seu pop-estrelato: após ter lançado um dos álbuns mais hype de 2026, you seem pretty sad for a girl so much in love, o terceiro de sua carreira, a cantora-compositora californiana encabeçou a produção deste festival de música em Irvine, Califórnia, em prol das “boas causas” que incidem sobre a condição feminina. Serviu para provocar também um pertinente debate sobre a cultura woke e a hegemonia do feminismo liberal branco.
Olivia inspirou-se no evento Lilith Fair, organizado pela canadense Sarah McLachlan (de 1997 a 1999). Esta interessante reportagem de Bruno Lisboa nos informou sobre um documentário que revela detalhes e testemunhos sobre o festival-semente que inspirou o empreendimento Rodrigueano: “o projeto Lilith Fair colocou no mesmo palco o supra sumo da música feita por mulheres. No filme de Ally Pankiw, Sarah McLachlan, Paula Cole, Sheryl Crow, Brandi Carlile, Erykah Badu, Bonnie Raitt, Jewel, Indigo Girls, Mya, Natalie Merchant e Emmylou Harris estão entre as entrevistadas. Ao demonstrar que havia público e mercado para uma música liderada por mulheres, o festival ajudou a questionar uma indústria historicamente dominada por homens.” (Lisboa, 2026, no Facebook)
Assisti ao filme sobre o Lilith Fair fascinado com a riqueza de detalhes e de testemunhos tocantes que a produção de Pankiw reuniu, e saí dele pensando em backlash, na fúria reacionária que se alça quando pessoas sob opressão ousam unir-se para mexer nas tradicionais estruturas opressivas. O Lilith foi um levante de mulheres, a começar pela aliança Sarah McLachlan e Paula Cole, para contestar a indústria da música, tão machocêntrica, onde acreditava-se, entre os figurões das majors, que seria um fracasso qualquer evento com line-up feminino, e que não era de bom tom e espantava a audiência tocar muitas músicas com vocal feminino na sequência. “A primeira esposa de Adão” ajuda a batizar a empreitada que, no fim dos anos 1990, com o magnetismo visceral e a expressividade brilhante de Sinead O’Connor, Sheryl Crow e Tracy Chapman, honrou todos os sentidos do termo polissêmico “fair” – belo, justo, feira.

Olivia Rodrigo é um fenômeno cultural altamente derivativo. Ela pode até fazer belas e comoventes power balladas que são perfeitamente entendidas pelos zoomers que a idolatram, mas tudo parece derivar de algo no passado que está sendo meio que xerocado a cores e com muito ProTools. Daisy Chain Fields é um festival que deriva do Lilith Fair, assim como as mais densas letras que ela – em parceria com Dan Nigro – escreve parecem ser derivações de temáticas e metáforas Fiona Apple-anas. Seu som também, com frequência, deriva do pós-punk à la The Cure, quando não emula um pop-punk chiclete, como se Olivia estivesse movida pelo desejo “quero ser a nova Avril Lavigne, quero para mim a coroa que um dia vestiu Hayley e o Paramore…”.
É fato, no entanto, que quem quer que se dedique ao jornalismo cultural não pode se dar ao luxo de ignorar um festival desta magnitude e que vem merecendo análises dos mais importantes órgãos de mídia anglo-saxã: na New Yorker, descreve-se todo o frisson da Geração Z, que tem em Rodrigo e Billie Eilish alguns de seus mais fortes ícones, perante esta iniciativa: leia sobre THE ZOOMER LILITH FAIR: https://www.newyorker.com/culture/the-lede/taking-in-the-scene-at-daisy-chain-fields-the-zoomer-lilith-fair
Já na Pitchfork, outro artigo, de Lydia Wei, com tom gonzo, descreve as circunstâncias do festival, que teve calor da moléstia, várias estações de hidratação, revolta contra o ICE Trumpista escarrado pelas artistas mais punk, dentre outros elementos de um evento que teve por essência “a celebração da mulheridade em todas as suas formas” (a celebration of womanhood in all its forms) https://pitchfork.com/story/daisy-chain-fields-peace-love-unity-rodrigo/


Mainstream e underground, ninguém ficou indiferente à Corrente do Bem neo-hippie dos zoomers rodriguetes. E isso pois Olivia Rodrigo é uma pop star com sabor cult – o mundo indie também entra em polvorosa com seu sucesso, já que subsiste forte sabor indie nas sonoridades e vocalizações de Olivia Rodrigo, emuladora de maestria de Aimee Mann, de Fiona, de MacLachlan.
Em entrevistas, ela soa como uma fã de música indie: adora The Cure e vem dividindo o palco com Robert Smith; fã de White Stripes, talvez a maior e melhor banda de rock que testemunharam aqueles que eram adolescentes na aurora do século 21, esteve junto com Feist tocando quando o duo de Jack e Meg foi consagrado no Rock and Roll Hall of Fame; e se lhe perguntam o que ela gosta de ouvir na música contemporânea, ela adora citar Waxahatchee. Posando pra fotos, esbanjando sensualidade e com umbiguinho à mostra, ela gosta de ostentar sua paixão por Kathleen Hannah e suas bandas Bikini Kill e Le Tigre. Há em Olivia uma riot grrrlzinha domada, mas que quem sabe ainda desabrocha.


Olivia Rodrigo de fato fez um discaço. Comecei por ouvi-lo com a soberba do crítico musical que quer conhecer o que causa tanto hype, mas está predisposto a disparar flechas ferinas. Mas acabei razoavelmente conquistado pela beleza, pela vivacidade e pelos vários tons afetivos do disco. As canções constroem uma tragicômica odisseia do amor, da finesse à fossa, dos inícios ingênuos às catastróficas rupturas.
Esta jornada da ingenuidade à percepção de que “o amor do outro nunca será a cura”, a força das imagens de apaixonamento que flertam com Tânatos e com uma flechada de Eros capaz de nos fazer drop dead, são fios de Ariadne no labirinto de you look pretty sad for a girl so much in love. Em comparação com Sour e Guts, este é um álbum mais maduro e ambicioso, com produções audiovisuais sensacionais (e um pouco sensacionalistas, ao explorar a “ninfetice” desta Lolitinha do indie-pop), e assistir na sequência aos clipes de “Drop Dead” e de “The Cure” é experiência que recomendo. É uma súmula dos porquês do mega estrelado e poderio de Olivia Rodrigo.
Aí está evidente o cerne de tudo aquilo que atrai centenas de milhões para girar ao redor da órbita de Olivia Rodrigo: a tensão entre uma jovem mulher que encarna ma ninfeta branca como a neve, com seu estilo de menininha-dos-olhos da Disney, cantando emocionada e saltitante suas canções, nascidas de seu consumo voraz e reconfiguração derivativa de toda a história do pop e do indie, do mainstream e do underground, digladiando dentro do mesmo corpo com outra Olivia. Este outra Olivia é uma femme fatale, wise beyond her years, que parece querer emergir, madura e ferida, e que parece querer se alçar, na história da música, ao um status de uma Fiona Apple, de uma Regina Spektor, de uma Ani DiFranco (artistas imensas e com percurso fonográfico já consolidado).
Mas há muito que desperta meu ceticismo, ou mesmo meu cinismo, nesta estória toda da Corrente-do-Bem das Florzinhas Unidas. E mesmo que eu vá tomar muitas pedradas das rodriguetes, vou aqui explorar alguns outros porquês de minha rabugice. Esta é fácil de ser atribuída equivocadamente ao viés negativo de um homem branco com mais de 40 (um verdadeiro gerontocrata! Um velhote ressentido diante da jovem ninfeta e menina superpoderosa!). Mas juro que a crítica cultural é que fala mais alto e que me dirijo aos admiradores da artista com respeito, já que também a admiro (com ressalvas).
Sim, Olivia está em todas as manchetes como alguém que vai doar 20 milhões pra caridade, palmas para ela!, mas… o que eu penso é que o valor de mercado da marca Olivia Rodrigo deve ter subido bem mais que 20 milhões de dólares após o D.C.F. Ela fez um baita investimento em si mesma e as graúdas da cena toparam. Shirley Manson do Garbage, que já tem mais de 60 anos de idade, topou. Alanis Morissette, aquela que fez em Jagged Little Pill um dos álbum mais bem-sucedidos já gravados por uma mulher, topou – e cantou “Ironic” em dueto com Olivia. A mina do Fleetwood Mac, Nicks, também topou. Enfim, parece que todo mundo que hip, que é cool, tá topando ajudar a marca Olivia Rodrigo tornar-se imensamente rentável.
Eu queria ler jornalismo econômico sobre o showbizz que me contasse quanto a Srta. Rodrigo lucrou ao ver sua estatura pop-estelar alçar-se ainda mais alto no céu dos Ídolos, adquirindo ainda a aura, a auréola, a invisível coroa de santidade, por ser uma Grande Filantropa! Com um patrimônio de 50 milhões de dólares. E aumentando…

Outra coisa: é tabu, mas tem que ser dito – a moça tem consideráveis dons musicais, não nego, e sua voz é bonita e afinada (é só assisti-la ao vivo, no Tiny Desk ou nos palcos, pra ver que não se trata de maquiagem de produção, de mero ProTools ou Suno photoshopando sua voz, a bicha caaaanta paca mesmo). Mas temos que admitir que Olivia Rodrigo é este boooom gigante também por sua aparência, because of her good looks, por ser muito gatinha, ninfa sedutora, despertando paixões e tesões – Lolita do pop, pós-adolescente ainda apegada à ostentação da sensualidade teen, ela ainda exala uma persona cheia de charminho imodesto e imaturo. Não há sinal daquela densidade psíquica, daquela imensa paleta emocional explorada com singularíssima voz, daquela inaudita capacidade de escrever letras de catarse das tormentas relacionais, que tornam Fiona Apple a verdadeira gênia de sua geração – aquela que, enquanto artista, lança uma sombra de gigante sobre Rodrigo.

Olivia ainda é uma compositora, aos 23, bem mais imatura do que Fiona era aos 17, quando fez Tidal, talvez a maior obra-prima da música pop já feita por uma mulher ainda proibida de tirar sua carteira de motorista. Nem Sour, nem Guts, nem o novo álbum, chegam aos pés de qualquer das obras-primas em sequência que constituem a discografia de Apple. Sou réu confesso na admiração incontida por Fiona Apple, e aqui esta obsessão se manifesta de novo – e eu cometo a injustiça de achar Olivia Rodrigo uma artista “menor”, ainda que tenha feito este puta discaço em 2026, pois Fiona Apple, aos 22, lançou When The Pawn…, um disco em que qualquer uma das 10 canções é melhor do que qualquer popsong que Olivia já tenha escrito.
O que sinto é que Olivia Rodrigo tem retêm um sabor suspeito e enjoativo de Disneylândia, de Princesinha de conto-de-fadas, ainda que na capa de todos os seus álbuns esteja lá o selo que alerta os pais para “conteúdo explícito”. Não se trata de um parental advisory – explicit content por motivos políticos, pois ela não tem quase nada de subversiva – é que ela às vezes mete um fucking num verso banalmente clichê como “I still love you”.
O interesse de sua obra está sobretudo no tema da maturação de uma jovem mulher que decide expor seus sentimentos a um público de centenas de milhões, sem esconder sua própria imaturidade e seus aprendizados com os tombos e quedas. O charme irrestível de “Drivers License”, que fez deste um dos maiores hits do século (mais de 600 milhões de acessos tem seu clipe na YouTubeLândia), está justamente neste eu-lírico que transita da adolescência para a vida adulta, tendo por limiar a retirada da carteira de motorista. A melancolia na canção provêm do fato de que ninfetinha ingênua, crédula nas promessas do moço, vai se estabacar no chão da desilusão: acreditava que ia de caranga nova encontrar o namorado, mas este a trocou por outra, uma loirinha mais velha: “you said forever and now I drive alone past your street.”

É difícil encontrar nas letras de Olivia quaisquer indícios de que ela entende da sociologia do abuso masculino, da masculinidade tóxica, da cultura do estupro, da teoria queer. Não posso evitar a sensação de que Olivia Rodrigo está trancadinha no confinamento compulsório do Feminismo Liberal e Woke. É claro que Doechii e Santigold, Bikini Kill e Garbage, trazem algo mais subversivo, punkish, enegrecido ao festival, mas Olivia mesmo parece não ter passado nem perto da escola de Angela Davis ou Audre Lorde. Eis aí a súmula do meu desagrado: parece que, dilacerada entre um feminismo riot grrlll e um feminismo chique e cheiroso, ela não está nem cá nem lá – sorri ao lado de Melinda Gates e quer ser amiga da Kathlenn Hanna. Mas Olivia não parece questionar os privilégios da branquitude, de que mulheres brancas são usufrutuárias, nem os honorários milionários que chovem sobre sua bela e sexy pessoa por motivos que transcendem a música e dizem respeito ao produto que ela é. Inclusive e sobretudo por auto-investimento.

Em um próximo capítulo, quero aprofundar os temas do woke e do neo-hippie que neste texto foram apenas aludidos, e que carecem de um debate mais aprofundado. Em síntese, eu quero reconhecer a estatura imensa que Olivia Rodrigo adquiriu no mainstream, reconhecer seu poderio e sua capacidade de captura tanto de audiência quanto de alianças na cena artística. Mas quero espalhar um pouco de ceticismo crítico e salutar sarcasmo diante de um pop-star multi-milionária tentando ser a Santa da Filantropia Feminista, com o auxílio de bilionários da Big Tech posando de santos.
Suspeito que Sibilia suspeitaria que existem poucos espetáculos no mundo hoje que são tão “Show do Eu” quanto Olivia Rodrigo. Não existe nenhuma capa de álbum de Olivia Rodrigo que não contenha uma foto de Olivia Rodrigo; nem existe uma canção de Olivia Rodrigo que não fale dos sentimentos e vivências de Olivia Rodrigo; nem talvez haja nenhum eu lírico nestas poesias declamadas que não expressem a auto-obsessão de Olivia Rodrigo por si mesma e sua tão fascinante vida de pessoa branca, rica, famosa e benévola.
Mas não seria a arte uma aventura muito mais fecunda quando o artista sai de si para vir a expressar seu interesse pelos outros, sobretufdo os mais diversos? Seu fascínio pelo mundo para além do ego, por tudo o que o sujeito não é, pelas contradições alheias e pelas teias relacionais daqueles que lhe são diferentes e estranhos?
Olivia Rodrigo – amiga, você é uma baita artista, mas tu não te moves de ti… – e nesta roda-gigante narcísica você um dia pode vir a se estilhaçar na queda. Pois o Daisy Chain Fields, você deve ter aprendido com o Lilith Fair, não ficará sem backlash. Os teus antagonistas vão sair atrás dos pêlos não depilados em seu sovaco para que possam te zoar, como fizeram com a Paula Cole, artista da qual você também tanto deriva (This Fire, décadas atrás, já trazia a figura da mulher no balanço que você trouxe para a sua capa, mas lá… ela era assada no balanço feito uma bruxa merecedora de chamas redentoras).
Pode soar como profecia catastrofista, mas Olivia Rodrigo pode acabar mal, como Amy ou como Kurt, quando perceber que o sistema é totalmente capaz de te vomitar depois de ter te usado (e te enriquecido como parte do processo de enriquecer outrem). O descarte é teu horizonte temível no futuro não muito distante – seja pois você envelheceu, como Demi Moore (A Substância alerta sobre o etarismo impiedoso do showbizz que hoje te celebra em tua meninice), seja pois cortou os cabelos e começou a cantar careca, como Sinead. Olivia Rodrigo, jamais serei ouvido, mas eu te diria: te cuida, pois o pop-estrelato que tanto te deslumbra arrastou Marilyn Monroe para um túmulo precoce e pode te levar ao Clube dos 27, crucificada, moída, jogada no abismo pelas mesmas forças que hoje tanto te enriquecem e te incensam.



Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro, Goiânia, 14/09/2026
LEIA TAMBÉM: Hollywood Reporter –Variety – Rolling Stone – NME.
Pitchfork dichavando as várias facetas da nova pop-star Olivia Rodrigo – “If you want to be a pop star, there’s the right way, the wrong way, and the way Olivia does it. The singer-songwriter is following her heart and squeezing every last drop of it into her songs. Amid a hurricane of an album rollout, we sit down with the 23-year-old to talk about the evolution of her career, her new music festival, Daisy Chain Fields, and, of course, writing about love.” https://pitchfork.com/features/cover-story/olivia-rodrigo-interview/
Publicado em: 09/09/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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