Salve galera, esse é mais um vídeo da série KinoKritik, resenhas faladas aqui na Casa de Vidro. Acabei de assistir a primeira temporada do Pluribus, que é uma série novidade, lançada agora em 2025, 2026, e criada pelo Vince Gilligan, que é, para quem acompanha o mundo da teledramaturgia, um dos grandes caras sem atividade nas últimas décadas, roteirista de excelentes episódios do Arquivo X e que também foi o criador de Breaking Bad e da sua série spin-off Better Call Saul.


E agora o Vince Gilligan volta propondo uma espécie de sci-fi distópico satírico que eu queria comentar alguns aspectos aqui, de maneira totalmente espontânea, não preparei um texto, não li os críticos, são apenas primeiras impressões após esses oito episódios inaugurais dessa série instigante.

Ela parte de uma premissa, salvo engano, de um vírus alienígena que infecta a humanidade quase inteira; só ficam livres, só ficam imunes a essa contaminação, cerca de 12 ou 13 pessoas e uma dessas pessoas é a nossa protagonista Carol Sturka, escritora de best-sellers. A característica principal desse vírus que infecta os 8 bilhões de seres humanos é que ele produz uma espécie de uniformidade, ele torna a humanidade homogênea, ele digamos transforma os seres vivos da espécie homo sapiens numa espécie de coro harmônico cantando em uníssono a grande canção da Happycracia. Um livro, aliás, muito interessante que voltou à minha mente muitas vezes enquanto eu assistia essa obra que parece colocar ali numa espécie de ringue essa figura da Carol Sturka e essa mega entidade que é a humanidade homogeneizada e ele vai trabalhar não apenas um antagonismo entre esses dois lados, mas também como a Carol Sturka vai sendo de algum modo seduzida a entrar a se unir abandonar sua individualidade e, enfim, se juntar, to join in, com essa mega entidade constituída pelos seres humanos que, enfim, venceram a discórdia, que, enfim, venceram a violência intraspecífica e se tornaram mega organismo coordenado que tem como uma das suas missões principais conquistar proteínas para sua sobrevivência através do consumo de proteína humana.
Vince Gilligan trabalhando um pouco a questão do canibalismo, da antropofagia e ao mesmo tempo tirando um sarro com um certo ímpeto utópico que se manifesta: é como se esse vírus alienígena chegasse para nos melhorar. Chega um código genético que se dissemina por nossos corpos e supostamente essa civilização mais avançada, há milhões de anos-luz daqui, nos concede de mão beijada os meios para que sejamos, enfim, criaturas do paz e amor, falando a mesma língua, num uníssono que a Carol Sturka vem para criticar, para ser a voz dissonante, para ser a revolta encarnada, ainda que, como a gente vê no decorrer da série, quando bate a solidão, o isolamento, quando ela fica sozinha na cidade de Albuquerque, no Novo México, onde a história se passa, sobretudo, ela começa a manifestar aquele ímpeto de gregarismo que me lembra também das teses nietzchianas e de muitos outros pensadores do ser humano como animal gregário.
Então me parece que está sendo construído um personagem que oscila um pouco entre essa defesa intransigente da individualidade contra esse vírus do conformismo e da uniformidade. Mas, ao mesmo tempo, Carol Sturka, ali mais para o fim da série, ela vai, de algum modo, se apaixonando por aquela figura da Zózia, que é a sua interlocutora principal, que é uma espécie de porta-voz dos humanos, que está ali sendo a sua interação suprema, o seu outro significativo mais direto, e aí me parece então que de fato há uma força de atração dessa grande humanidade gregária e homogênea que vai sugando a Carol Sturka para sua órbita e ela resiste, mas ao mesmo tempo a uma força gravitacional que parece trazê-la.

E na segunda temporada veremos o que ocorre quando o personagem paraguaio que está indo em direção a ela, como que essa interação entre esses dois humanos não infectados e inconformistas, até certo ponto, vai se dar. Então eu acho que o grande tema que Vince Gilligan e sua equipe de colaboradores estão tratando é um pouco o conformismo, é uma espécie de vírus que gera o conformismo, e essa mega entidade ela também tem certas características estranhas que a Carol Sturker vai descobrindo. Ela descobre, por exemplo, que essa entidade está programada para servi-la, fazer todas as vontades de Carol Sturka. Inclusive tem um momento muito curioso na série onde ela pede uma granada de mão e recebe, e aí fica meio assim cética, né? Pô, vocês me deram uma granada, será que é de brinquedo? Como assim? E aí ela vê realmente que era uma granada de verdade e aí ela questiona um dos porta-vozes da humanidade unitária que se formou a partir do vírus, e pergunta, bom, e se eu te pedisse uma bazuca? E se eu te pedisse uma bomba atômica? E se eu te pedisse, enfim, você me daria?
E essa entidade falando pela boca daquele cara diz, sim, temos que te conceder todos os desejos. então parece o Vince Gilligan brincando um pouco com essas narrativas tipo Aladim e o Gênio da Lâmpada, só que nesse caso o Gênio da Lâmpada não concede só três desejos, esse Gênio da Lâmpada concede desejos inumeráveis e vem um pouco daí a graça cáustica que essa série tem e que me remete também a uma obra parecida, que é The Last Man on Earth, quando você também tem ali uma grande hecatombe com poucos sobreviventes e aí você tem aquele personagem principal que se vê subitamente com a possibilidade de adentrar os shopping centers, os supermercados e pegar o que dá na telha tomando medidas narcísicas e hedonistas muito toscas e muito engraçadas como encher uma piscina com Martini e ficar ali se banhando em álcool de alta qualidade e alto preço.
Então a Carol Sturka também nesse momento de liberação em relação ao julgo das regras sociais, não tendo o olhar do outro sobre ela, também vai lá e fica, sei lá, jogando golfe ou algo parecido com as vidraças dos grandes prédios corporativo, estourando esses vidros à toa. Ela arma também, em certo momento, aquele círculo de fogo de artifício e fica lá observando essas explosões. E tem uma cena que eu acho bastante significativa, quando ela chega num supermercado, ela nota que está tudo vazio, e aí ela, digamos, passa a mão na sua lâmpada para chamar o seu gênio, e fala, porra, quero o meu supermercado de volta, façam isso acontecer. E aí ela sente esse seu poderio mobilizatório, e centenas de pessoas, e de caminhões… e de vans, chegam com todos aqueles produtos e enchem o supermercado para que ela possa usufruir do que ela quiser ali. Então a série brinca um pouco com a psique desse sujeito individualista narcísico do capitalismo tardio que tem como um dos grandes sonhos esse poderio do consumo desenfreado, do que quer que seja.
E a ambiguidade da Carol Sturka, que é bastante interessante, é a seguinte. O que eu estou chamando de ambiguidade dessa personagem é visível ou é sensível um pouco na atitude que ela tem enquanto profissional da literatura, enquanto uma best-seller desse campo, porque parece que ela… através das mercadorias literárias, dos romances que ela faz, ela explora um certo gosto popular por um certo tipo de narrativa que está aí nos seus livros da mitologia Wycaro, mas ao mesmo tempo ela despreza o gosto das massas, ela tem um certo desdém pelos seus próprios fãs e ela de algum modo está lucrando com uma mentalidade e um gosto popular que não é exatamente o dela. Então ela também me parece uma personagem um pouco oportunista que está tentando fazer uma grana com livros que talvez ela própria nem gostaria de ler.
E ao mesmo tempo existe essa ambiguidade que eu já mencionei anteriormente que é por um lado ela se coloca como inconformista, ela prega o seu direito à individualidade, e de algum modo ela está fazendo uma apologia da diversidade humana, mesmo quando essa diversidade chega perto de constituir uma cacofonia, uma confusão ou uma hobbesiana guerra de todos contra todos. Ela parece não estar interessada nessa paz mundial, que se pode conquistar através da uniformização da mentalidade e da conduta que esse vírus traz. Por outro lado, ela parece estar sendo seduzida a se entregar a essa mega entidade.
De maneira que a série está debatendo alguns temas da psicologia de massas ou da psicologia social, que é um pouco esse desejo, talvez subconsciente, do indivíduo de aniquilar o seu próprio ego e as suas próprias idiossincrasias ao se fundir nessa entidade que ele passa a compor. Então, pensemos, por exemplo, nesses fenômenos da torcida de futebol ou de um público num show de música, onde todas as vozes cantam juntas. E o sentimento de pertença grupal que isso gera tem uma sedução. Existe um gozo, um desfrute de você não ser uma voz individual com a sua característica distinguível, com a sua impressão digital vocal, mas você está ali subsumido nessa grande massa.
Então acho que é um pouco isso que Vince Gilligan e companhia estão tentando abordar. A princípio eu pensei que Pluribus, o nome da série, era um neologismo… interessante que ele havia criado juntando o bus de ônibus, de busão, com alguma palavra parecida com plurality, pluralidade em inglês. E a princípio me pareceu que ele estava fabricando um neologismo para falar desse busão onde a pluralidade foi unificada, e esse busão está tentando pegar todo mundo para entrar nesse bonde, e irmos todos juntos numa grande monocultura, num grande uníssono, numa grande monomente da Happycracia induzida por aliens.
Mas fiz algumas pesquisas aí e descobri que pluribus na verdade é um termo que vem do latim e que os Estados Unidos da América, esse país, lamentável em tantos aspectos, sobretudo nas atitudes das suas elites imperiais, eles utilizam esse termo pluribus para falar de uma pluralidade que existe, mas que se torna una a partir da nação.
Então me parece que tem uma ideologia nacionalista por trás desse “o plural se torna uno”, que está sendo um pouco trabalhada ironicamente, de forma satírica, nos roteiros dessa série bastante instigante… também tem um outro elemento aí interessante que é porque algumas pessoas não foram infectadas. porque tão poucas pessoas no planeta ficaram imunes a esse vírus. Será algo na psique delas? Ou será algo biológico, genético? Eu acho que isso ainda fica por explicar, fica para as próximas temporadas. Mas pouquíssimas pessoas planeta fora são descritas como tendo essa imunidade, esse vírus pervasivo que pegou geral. E aí nisso me parece sugerir que os inconformistas são raros, mas ao mesmo tempo não me parece que o roteiro esteja expressando bem.
Por exemplo, por que aquele personagem que é o polígamo que faz de Las Vegas o seu harem e voa no Air Force One. seria um inconformista? Quando ele parece assim uma pessoa que está simplesmente integrada ao sistema e querendo se beneficiar o máximo possível desse novo poderio que ele adquiriu com a sua imunidade. Então não sei se isso é um furo de roteiro, ou se isso vai ser melhor explicado lá pra frente, mas muitos personagens que são ali apresentados, a personagem indiana, aquela personagem peruana ou andina, parece que esses personagens não são muito bem desenvolvidos nas características psicológicas ou de caráter que explicariam porque esse vírus não grudou, não proliferou, não tomou conta do corpo e da mente delas. Então, isso ao mesmo tempo que gera um certo senso de mistério, ao mesmo tempo nos deixa perguntando, pô, talvez esse roteiro esteja meio mal ajambrado.
E por último, eu diria também, dentre as minhas impressões iniciais, que a série parece ter algum tipo de interlocução com a questão da inteligência artificial porque muitos dos diálogos que a Carol Sturka vai ter com os seus interlocutores ficam parecendo conversas de um ser humano falível, cheio de defeitos cheio de tensões, psíquicas e traumas, que conversa com uma máquina impecavelmente programada para ser feliz, servil, útil, agradável, uma gracinha, um IA programado para ser um eterno emoticon feliz. Então me parece que de algum modo isso está sendo tematizado e a Carol Sturka, em algum momento, ela menciona isso, né? Pô, eu converso com essas ex-pessoas, essas pessoas que foram raptadas por essa mega entidade, e parece que eu estou batendo papo com um bot do Google.
Então eu acho que a série na segunda temporada, na terceira temporada, se ela prosperar e não for cancelada, poderia de maneira muito interessante revelar de que modo essa civilização alienígena, supostamente mais avançada, programou esse código genético enviado pelo espaço sideral, também possuindo ela aparatos de inteligência artificial. Então acho que esse seria um desenvolvimento muito interessante para essa série, cuja primeira temporada é realmente impactante, nos deixa curiosos para o que está por vir, mas que também tem certos elementos que parecem deixar um pouco a desejar sobretudo aqueles que reverenciam a figura do Vince Gilligan como um dos grandes roteiristas vivos dos seriados.
Então é isso, esse foi o nosso Kinocritic de hoje, 9 de janeiro de 2026. Eu sou Eduardo Carli e vocês podem assistir todos os episódios anteriores e podem ler também todas as críticas de cinema que eu já escrevi e publiquei lá no nosso site:
www.acasadevidro.com/cinema ou /kinokritik
E aproveitem também se tiverem interesse para conhecer o trabalho do Ponto Cultura Casa de Vidro enquanto cineclube que promove a exibição e o debate de filmes. Então, a gente acabou de encerrar a temporada 2025 do nosso Cine Debate, que teve recursos da lei federal Aldir Blanc. Então vocês também no mesmo site podem conferir lá todos os vídeos, todos os materiais criados, digitando casadevidro.com.br/cinedebate2025. É isso, até a próxima, nos vemos no futuro. Obrigado.
APRECIE TAMBÉM:

TB DISPONÍVEL EM SUBSTACK:
https://open.substack.com/pub/eduardocarlidemoraes/p/pluribus-uma-serie-criada-por-vince
Publicado em: 29/01/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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