
Aprendi com Vernant & Detienne que Odisseu é a encarnação da MÉTIS, a esperteza, a malandragem, uma manifestação da inteligência humana que se distingue do LÓGOS. Eles ensinam, naquele belíssimo livro dedicado às “Astúcias da Inteligência”, que quem tem métis é sagaz no uso de ações e discursos eficazes para atingir seus fins (nem sempre moralmente nobres). Equiparado à raposa e ao polvo, animais fabulosamente dotados de astúcia, o sujeito com Métis tem o jogo-de-cintura pra driblar a adversidade, é repleto de artimanhas e se livra de enrascadas também pela poiésis.
A epopéia homérica constrói Odisseu como o herói “polymétis”, dotado de esperteza múltipla, inclusive linguística: trickster, malandrão, engambelador, o rei de Ítaca, em sua longa jornada de volta aos braços de Penélope, deveria ser isto, a manifestação suprema da Métis. Diante do Ciclope, por exemplo, decide apresentar-se como Ninguém, assim como, no retorno à ilha infestada pelos pretendentes, vem no disfarce de um mendigo – ao invés da ostentação de si, Odisseu é um baile de máscaras e uma encarnação clássica do que o Renascimento chamará de polímata e que se encarnará, por exemplo, em Leonardo Da Vinci.
Mas esta MÉTIS tomou um chá de sumiço nas 3 horas do blockbuster de Nolan: é claro que o subterfúgio do Cavalo que penetrou na fortaleza inabalável de Tróia está lá, como símbolo máximo desta capacidade-de-enganar, rendendo loas a Odisseu por ter feito os helenos vencerem após passarem 10 anos de raiva atolados naquela praia, trancados de fora dos muros e do resgate de Helena.
Mas todo o episódio do Cavalo de Tróia pareceu-me desprovido de “wit”, reduzido a um âmbito de virilidade bélica. Nolan decidiu construir um herói atormentado por seu feito, moralmente pesaroso por ter propiciado a invasão do território troiano por um exército sanguinário.
Também tomou outro chá de sumiço o Odisseu narrador de suas próprias façanhas, o sujeito que conta suas proezas a ouvidos interessados, amplificando-as com a lente de aumento do “storyteller”. Eu acabo de ler o belíssimo livro da filósofa italiana Adriana Cavarero, “Olha-me e Narra-me – Filosofia da Narração”, e assistir ao filme com ele fresco na mente me fez enxergar o quanto Nolan desapareceu com o Odisseu contador-de-histórias, loroteiro, narrador de sua travessia. Mas outros chás de sumiço ainda mais graves marcam as omissões graves que o filme carrega.
Primeiro, sumiram com o nome de Ifigênia, com o peso de seu sacrifício, com o impacto emocional de sua morte atroz que tão fortemente ressoa na tragédia (“Ifigênia em Áulis”, de Eurípides) e que tantos lamentos belíssimos arrancou de Lucrécio, estarrecido diante dos horrores de que se tornam capazes os humanos quando presas da superstição e da credulidade. O filme trata Ifigênia como assunto menor, decide nem mesmo nomeá-la, e assim constrói Agamenon como um pobre coitado que volta pra casa e é chacinado pela esposa Clitemnestra e seu amante. Bem, o assassinato por sacrifício de Ifigênia não é assunto menor, é o pontapé inicial da Ilíada, uma atrocidade que deixa seus legados, e achei lamentável que um dispositivo potencialmente poderoso para debater temáticas étnico-raciais tenha sido tão desperdiçado: Helena e Clitemnestra, no filme, são interpretadas por mulheres negras. Mas não ficam em cena senão por alguns segundos.
A produção de Nolan conseguiu aniquilar, de maneira mesquinha, todo o poder destas personagens femininas ao relegá-las ao segundo plano e fazê-las surgir só en passant. O chefe dos exércitos gregos, Agamenon, em seu “homecoming”, paga o preço por ter assassinado sua filha com Clitemnestra, mas no filme tudo parece reduzido a uma cena caricata em que uma mulher negra alucinada, em conluio com o cara com quem chifrou o marido ausente, assassina-o numa cena gore. Deu pra ver que o diretor de “Inception”e “Interestelar” não manja muito de tragédia.
Também fui ao cinema, depois de ler sobre o bafafá que a direita conservadora armou pra cima de Lupita como Helena, esperando algo muito mais “woke” – mas não há nem sinal aqui de um debate sobre uma deusa de ébano, uma beldade africana, que tivesse se alçado ao posto de mais bela mulher do mundo conhecido sem ter os atributos de uma ariana. Helena é uma personagem apagadíssima, reduzida à servilidade diante de Menelau, num papel tão secundarizado, tão minúsculo, que nem menos dá ensejo pra Lupita tentar uma performance digna de um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela é menos que coadjuvante e o bafafá dos direitosos é muita tempestade em copo d’água. Helena, em sua complexidade, em sua psiquê labiríntica, no mistério de sua ida a Tróia com Páris (rapto ou pacto?), é chutada pruma nota de rodapé num filme que, ao menos, e era o mínimo, dá muito mais palco pra Penélope de Anne Hathaway.
Também não gosto do tom dark, das cores frias, da tentativa de trazer verossimilhança aos episódios com o Ciclope, com Circe, com Calipso – vê-se que Nolan quis dosar pra baixo a Fantasia, até quase fazê-la desaparecer, e assim despovoou o filme da agência dos olímpicos. Zeus e Poseidon só aparecem nas falas, mas não são figurados; no entanto, Atena aparece em “carne-e-osso”, digamos, interpretada por um pouco convicente Zendaya (a persona dela é a Rue de Euphoria; aqui, Zendaya parece com um Atena esquálida, apesar de seu esforço pela altivez). Os marujos até comentam que, após ferir o olho do Ciclope, Odisseu enfureceu o deus dos mares, e por isso a jornada tem tantas intempéries, mas toda a “magia” do politeísmo clássico se dissolve num certo realismo-em-IMAX que não honra a mitologia e sua intrincada trama entre deuses, heróis, ninfas, semideuses e o escambau.
Também acho que Matt Damon é um ator de “cinema-físico”, tem boa presença de tela, mas o polymétis Odisseu tem muito mais a ver com a vibe de Kirk Douglas no Ulysses de 1954. É que Nolan deu um chá-de-sumiço completo no humor, fazendo um filme extremamente grave e sério, quando a epopéia tem sim seus momentos de graça, seus arroubos lúdicos, sua poesia de bufonaria – eu acho até que Shakespeare forjava seus brilhantes personagens cômicos como Falstaff e Yorick também mergulhando em Homero. O herói encarnado por Matt Damon não tem a lábia sagaz, a astúcia multiforme, está reduzido a um quase unidimensional herói bélico-viril.
Ao menos nisto o filme presta: mostra que Odisseu não é nenhum santo, na verdade é o praticante de uma chacina no palácio de Ítaca, quando mata geral aos pretendentes à mão de Penélope; e é também o grande propiciador da queda de Tróia, com tudo que isto implicou de saques, incêndios, estupros, degolas, pessoas trucidadas pelos helenos pretensamente civilizados e que dali levaram, como butim de guerra, escravas sexuais que depois lançaram lenha na fogueira da treta entre Aquiles e seu general Agamenon, vide o início da Ilíada.
Nolan constrói um Odisseu envelhecido, vivido por um Matt Damon ele mesmo grisalho e alquebrado, que sente um pesadume da consciência por ter feito advir tantos males; ele sabe que, por sua causa, milhares morreram, muitas mães ficaram viúvas, muitas filhas órfãs, e muitas divindades foram ofendidas ao terem suas estátuas decapitadas etc. Mas não sei se isso é homérico ou se é cristão-tardio, uma espécie de reflexão melancólica sobre os horrores da guerra, mas num filme inteirinho imerso na virilidade bélica.
Por fim, um comentário sobre a cena do Canto das Sereias, esta obra-prima na história dos mitos, que o filme reduz a um episódio sem grande densidade: todos já conhecíamos o enredo – Odisseu pede aos marujos que enfiem cera nos ouvidos, mas pede que ele seja atado ao mastro. Nolan perde a oportunidade de tematizar o apelo erótico destas sereias cantarolantes, apenas pudicamente sugerido por uma câmera muito distanciada, beata em seu pavor da nudez, e assim a personagem de Odisseu fica empobrecida. Uma cena que tem tão esplêndido legado nas artes plásticas, como em John W. Waterhouse, tem todo seu colorido esmaecido; mais uma vez, foi dado um chá de sumiço no feminino, para que todo o foco recaia sobre o herói viril; temos aqui o cara que deseja ir aos confins da tentação, mas conhece seus limites, é verdade; mas a potência de sedução das sereias é pálida, sem verve, com uma música atmosférica sem graça, impedindo a obra de se alçar àquilo que na cultura helênica clássica era o âmbito de Orfeu, de Pan, de Dioniso…
Não, a lira de Orfeu não consegue se plasmar nas cenas de Nolan, nem há sinal algum da veia “bacântica” que irrigava a cultura dos helenos. Nesta Odisséia viril, a poesia, a narração, a arte como sedução para uma arte-de-viver que tem a beleza como única redenção e justificação, para falar um pouco na linguagem zaratustriana de Nietzsche, perdeu-se numa epopéia dark que lamenta-se pelos horrores infindos da guerra mas nos deixa atolados no vil virilismo que não cessa de produzi-los.
– Eduardo Carli, 19/07/2026

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Por que ler a Odisséia?
DONALDO SCHÜLER
A Odisséia nunca deixou de ser lida. Esteve nas mãos de Virgílio, de Camões, de Joyce, de Ezra Pound, de Guimarães Rosa, de García Márquez. Em momentos decisivos, a Odisséia abalou a literatura ocidental. Por que deixaríamos de lê-la agora? Como a Ilíada, a autoria da Odisséia é atribuída a Homero, um autor legendário do século IX antes de Cristo, nascido, ao que supunham, numa das cidades gregas da Ásia Menor. Vale uma rápida comparação da Ilíada, primorosamente traduzida por Haroldo de Campos, com a Odisséia.
A Odisséia percorre, de certa forma, caminho contrário ao da Ilíada. A epopéia que narra as aventuras de Odisseu dilata tempo, espaço e ação. Permanece o princípio de que a narrativa não ultrapasse, em tamanho, a capacidade de memorização. Embora Odisseu esteja envolvido em aventuras marítimas por dez anos, o narrador o apanha em Ogígia, uma ilha misteriosa nas proximidades de Ítaca. Em algumas semanas, o herói, livrando-se do cativeiro de uma ninfa, chega à sua terra, depois de breve estada em Esquéria, a ilha dos feáceos. Homero rompe, entretanto, a unidade do reduzido tempo desta última etapa, convertendo o herói em narrador de de suas próprias aventuras, expediente estranho à Ilíada. Recebido pela corte de Alcínoo, Odisseu rememora para um auditório fascinado o que lhe aconteceu desde a saída de Tróia até à prisão de sete anos em Ogígia. Entre as doze aventuras lembradas em ordem cronológica, Odisseu se demora naquelas que lhe ilustram a inteligência e a ousadia, voando sobre insucessos.
Em vez de concentrar a ação, a Odisséia mostra-nos, no primeiro plano, Odisseu atuar em três lugares distintos: Ogígia, Esquéria, Ítaca. O espaço amplia-se ainda mais se a ele acrescentarmos os episódios narrados pelo protagonista. A diversificação espacial já estava prevista na introdução. Ouvimos que Odisseu conheceu muitas cidades e a índole de muitos homens. Alguns homeristas observam a divergência entre esta afirmação e as fantásticas viagens de Odisseu em que aparece uma única cidade, a capital do reino de Alcínoo. Há que lembrar, entretanto, a obstinada decisão de considerar o mundo grego como o único civilizado. O navegador que se distancia dele enfrenta o desproporcional, o desmedido, o desumano, o caótico. Curiosamente, nas ocasiões em que Odisseu mente sobre as suas viagens, a normalidade se restaura, pontilhada de cidades, mas, quando relata fatos pretensamente reais, surpreende-nos com ninfas e gigantes. Se devemos procurar a verdade na mentira, chegamos à conclusão de que Homero conhecia histórias de navegações plausíveis, transfiguradas nos cantos, em meio a lendas de vária origem, encanto do poema, verossímeis em caóticas periferias.
Apropriando-se do espaço fantástico, o autor da Odisséia ganha para a literatura novos territórios. Comparada com a Odisséia, a Ilíada é pouco imaginativa, já que nos amarra ao que confirmam os sentidos. A Odisséia nos libera o rico mundo dos sonhos, assustadores e reais, embora contrários à experiência cotidiana. Também por este caminho a Odisséia nos ensina a desbravar o mundo interior. Nascidos e criados num continente em que bebemos o fantástico com o leite materno, haja vista os romancistas do realismo mágico, podemos sentir melhor a verdade das narrações de Odisseu do que a culta Europa de que somos periferia. Os escritores latino-americanos da segunda metade do século passado repetiram a homérica incorporação do fantástico, libertando-nos do confinamento ao sensorialmente constatado.
Ao contrário da Ilíada, a Odisséia desdobra-se em três conjuntos distintos: os quatro cantos iniciais em que é protagonista Telêmaco, as aventuras de Odisseu e a reconquista do palácio. Atentos a esta divisão, críticos sugeriram a existência de três poemas originariamente separados, amalgamados, por fim, em um único. A hipótese, embora plausível, é inverificável. Farta tradição oral anterior à Odisséia está assegurada. Basta comparar a Odisséia com os contos recolhidos por Grimm e Andersen para constatar a dívida da epopéia grega à literatura popular cultivada em outras regiões. Fontes orais não negam, entretanto, a existência de um poeta de qualidades privilegiadas. Devemos a ele a reorganização e a recriação do legado.
As convenções de tempo, espaço e ação inventadas na Ilíada, ao serem inteligentemente preservadas e modificadas na Odisséia, evidenciam a existência de uma tradição culta que não pode ser confundida com a espontaneidade das invenções populares. Acrescente-se a elaboração de personagens sem paralelo na Ilíada e no folclore.
O poema é dominado do princípio ao fim pela figura singular de Odisseu. O autor da Odisséia assume o compromisso de cantar o herói versátil, não uma de suas qualidades. Se a fúria do Aquiles ausente destaca vários heróis, a presença polimorfa de Odisseu obscurece a atuação dos demais. Entre os caracteres criados, destaca-se a galeria das mulheres, aplaudida em todos os séculos. Circunstâncias diversificadas iluminam o herói como orador, cavalheiro, trapaceiro, guerreiro, pai, esposo, amante, estrangeiro, rei, líder. Enquanto que o campo de batalha requer, na Ilíada, número limitado de qualidades, situações imprevistas solicitam aqui respostas para as quais não houve preparo. O Odisseu narrador surge na corte de Alcínoo. É também aí que se vê a urbanidade do guerreiro no trato com a rainha, com o rei, com a princesa, com os príncipes e os nobres.
Como não há exércitos inimigos que afastem o herói do objetivo, Homero cria obstáculos de outra ordem. A natureza, cuja força encheu de espanto o homem desde sempre, é uma delas. Ela ataca com tempestades, estreitos rochosos, mares desconhecidos, escassez de alimentos. Para vencê-la, requer-se inteligência, além de destreza, coragem e força. Sem o amparo de ninguém, Odisseu inventa soluções para todas as dificuldades. Os deuses, que decretaram o seu regresso à pátria, ofereceram imprecisos recursos para realizá-lo. Odisseu é vitorioso por ser quem é.
Embora a epopéia valorize o momento que passa, não omite preocupações pelo que há de vir. Odisseu deixou impressão mais profunda nos leitores do que Aquiles. A personagem foi persistentemente retrabalhada, deixando versões da mais alta importância. Muitos fatores terão contribuído para o sucesso de Odisseu. Dificilmente se mexe no temperamento irado de Aquiles. As múltiplas faces de Odisseu oferecem ao leitor a oportunidade de selecionar as que lhe convêm. Joyce explora a busca e a viagem, dando ao navegador o mar de dúvidas, indagações, andanças inócuas do angustiado homem do século XX.
Pretendemos, nesta tradução, afrouxar a carga sintática e vocabular que abafa vozes juvenis. Mantemos diálogo entre nosso tempo e outros tempos. Tivemos em mira fazer personagens reviverem em nosso dizer coloquial. Se xingam, que xinguem em português. Quisemos criar ritmos livres, não subordinados a modelos, movimentos próximos à mobilidade do hexâmetro homérico. As repetições, lembrança da literatura oral, aparecerem modificadas, moduladas, contornadas em consonância com procedimentos da literatura escrita. Não estranhe Odisseu em lugar de Ulisses. A preservação de Odisseu nos permite reinventar truques homéricos: a invenção e o uso estratégico do nome. Percebida a sonoridade grega, insistimos em sonoridades na tradução. A sonoridade de Finnegans Wake bate nas paredes da epopéia de Homero.
Revisitadas discussões entre analíticos (corrente que defende a autoria múltipla) e unitários (corrente que defende a idéia de um só autor), optamos por uma divisão em três seções da nossa Odisséia: Telemaquia (1 – 4), Regresso (5 – 12), Ítaca (13 – 24). Adotamos, para a Odisséia, o mesmo critério que nos orientou no exame da construção da Ilíada. Não negamos a rica tradição oral, trabalho de muitos cantores e responsável por níveis lingüíticos, estratos culturais e contradições. Não podemos negar, entretanto, a presença de um poeta central, a quem atribuímos a cuidadosa elaboração dos episódios, a invenção de caracteres, a variedade estilística. A literatura e o pensamento ocidentais foram construídos sobre Homero. A biografia de Homero são as epopéias homéricas. Precisamos de outra? Os argumentos levantados contra a teoria da autoria única das duas epopéias não são convincentes. Admitamos que a Ilíada e a Odisséia procedam de um só autor em dois momentos privilegiados de sua farta criação literária.
Em literatura, a erudição filológica está subordinada à realização poética.
In: “ODISSEIA
Telemaquia – Regresso – Ítaca
Tradução do grego, introdução e análise de Donaldo Schüler
Porto Alegre: L&PM, 2007

Numa tradução e num filme, Ulisses e a ‘Odisseia’ entram nas guerras culturais
MARIO SERGIO CONTI
A “Odisseia” começa com a palavra homem, em grego, “andra”. Não o homem genérico, símbolo da humanidade. Nem o homem qualquer, pois é qualificado de “polýtropon”, palavra que, dizem os entendidos, soma “muito”, “modos” e “voltas” para obter Odisseu — Ulisses, em latim.
Nas traduções para idiomas contemporâneos, esse homem costuma ser adjetivado de versátil, astuto, sutil, esperto, ladino, cheio de truques. Em 2017, a erudita britânica Emily Wilson verteu o verso inicial da “Odisseia” para: “Fale-me desse homem complicado, musa”.
Ela prossegue: “Conte-me como ele errou e se perdeu/ depois de destruir a sagrada cidade de Tróia,/ e por onde passou, e quem encontrou,/ e a dor que padeceu nas tempestades no mar,/ e como penou para salvar a própria vida/ e trazer seus homens de volta para casa.”
O diretor Cristopher Nolan disse que a tradução da ensaísta e poeta formada em Cambridge serviu-lhe de inspiração ao filmar “A Odisseia”. Referiu-se especificamente ao verso “Fale-me desse homem complicado”.
Complicado é o mundo em que o herói habita. Emily Wilson diz que nele vive uma gama magnífica de gentes e incidentes: “gigantes e mendigos, jovens arrogantes e velhos escravos vulneráveis, uma princesa que lava roupa e um guerreiro morto que sente saudade do sol, deuses, deusas e fantasmas, atos de coragem, casos amorosos, feitiços, sonhos, canções e contos”.
Quanto ao complicado Odisseu, ele “contém multidões: é um migrante, um pirata, um carpinteiro, um rei, um atleta, um mendigo, um marido, um amante, um pai, um filho, um guerreiro, um mentiroso, um líder e um ladrão.” O mundo de Ulisses e da “Odisseia” não é o nosso.
Emily Wilson fundiu o mundo de antes e o de hoje. Ela dispensou o verso homérico, o hexâmetro dáctilo, um ritmo de seis batidas conveniente para a memorização no grego antigo, mas estranhíssimo noutras línguas.
Usou o pentâmetro iâmbico, de dez sílabas agrupadas em duplas. São versos brancos, sem rimas, o ritmo de Shakespeare, Milton, Byron, Eliot, Auden, de um monte de poetas contemporâneos. Em vez de fazer uma tradução que, como tantas outras, fosse prosa empolada, investiu na poesia.
Pode parecer uma mera mudança formal. Não é. Prodigiosa, a tradução fez com que os 12.110 versos da “Odisseia” adquirissem uma sonoridade encantatória, um timbre fluido que recria a oralidade de Homero. Por isso, o audiolivro da tradução de Emily Wilson, com mais de 13 horas de duração, parece mais curto que as três horas do filme de Nolan.
O filme é uma coisa e o poema, outra. Este teria começado a ser criado há uns 3.000 anos, e só teria sido fixado por escrito na passagem do sétimo para o sexto século a.C. Entrementes, milhares de declamadores teriam recitado, dito e redito hinos, cantos e contos, para plateias reunidas em praças e festivais.
Em alguma hora, alguém, talvez um Homero, que não se sabe se existiu, juntou os tijolos numa narrativa épica. Daí um estudioso chamado Friedrich August Wolf ter considerado, em 1795, que “Odisseia” foi feita por “todo o povo grego”, ao longo de séculos sem fim.
Emily Wilson argumenta que filmes e séries de televisão também são obras coletivas, frutos do trabalho de inúmeras pessoas, e, sendo assim, “pode ser útil pensar nesses termos a autoria da ‘Odisseia’”.
Mas há a questão das ênfases. No poema, os deuses intervêm a cada passo, orientam os humanos e definem seu destino. O filme sumiu com os deuses. A exceção é Atena, cujos atos não têm nada de divino.
Emily Wilson, a primeira mulher a traduzir “Odisseia” para o inglês, extirpou ofensas machistas do tipo “vadia” e “puta”, inexistentes no poema, mas usadas em traduções anteriores, o que lhe valeu vaias nas redes sociais. Nelas, Nolan também foi apedrejado por ter escalado a atriz negra Lupita Nyong’o para fazer Helena, a mulher mais linda do mundo.
Para além das guerras culturais, o mundo atual está na tela e na tradução em dois aspectos decisivos. Emily Wilson sublinha que todos os servos na “Odisseia” são escravos, algo naturalizado no mundo homérico, mas não hoje. E Christopher faz com que Ulisses, o saqueador de cidades, constate que é rei e enriqueceu por meio da violência e da guerra.
Se as sociedades humanas se tornarem socialistas, a exploração do homem pelo homem e as guerras serão vistas como hoje vemos a escravidão: com horror. E “Odisseia” será a cicatriz de um mundo que acabou — como o dos deuses olímpicos, nos quais ninguém mais acredita.
Mario Sergio Conti
Jornalista, é autor de “Notícias do Planalto”
FSP 16.07.2026

Helena de Troia está provocando guerras novamente. Mas, desta vez, a lendária e belíssima rainha semideusa do mito — cuja fuga adúltera com o príncipe troiano Páris desencadeou a Guerra de Troia, que durou dez anos — lançou mil tuítes.
Nos preparativos para o lançamento da nova versão da “Odisseia” de Homero, dirigida por Christopher Nolan — uma produção de 250 milhões de dólares filmada inteiramente em IMAX —, o diretor revelou ter escolhido a atriz vencedora do Oscar Lupita Nyong’o para interpretar Helena. Seguiu-se uma onda de polêmica, alimentada em grande parte por autoproclamados guardiões das epopeias homéricas, que consideram a escalação de uma mulher negra como Helena uma violação grotesca — um gesto “woke” destinado a “destruir a civilização ocidental e tudo o que ajudou a criá-la”, como afirmou uma voz na rede social X.
O proprietário do X, Elon Musk, usou a plataforma para acusar Nolan de “urinar no túmulo de Homero”, referindo-se ao diretor como um “racista anti-branco” e sugerindo que ele escolheu Nyong’o em uma tentativa cínica de conquistar os votantes do Oscar. (“Ele quer os prêmios”.) Donald Trump Jr. também reclamou da escalação do elenco do filme de Nolan, dizendo esperar que Hollywood “pare de nos empurrar essa porcaria”.
“Não há uma única pessoa no planeta que realmente ache que Lupita Nyong’o é ‘a mulher mais bonita do mundo'”, declarou o comentarista conservador Matt Walsh.
Alguns dos defensores igualmente fervorosos de Nolan argumentaram que é tolice reclamar de “autenticidade” ao falar de figuras mitológicas; afinal, Helena nasceu de um ovo de cisne, então até que ponto podemos realmente ser literais? Alguns especialistas em estudos clássicos argumentam que a abordagem de Nolan, que ignora a cor da pele na escalação do elenco, é, na verdade, autêntica, uma vez que os gregos não tinham um conceito de raça da maneira como nós temos. (Se tivessem, certamente se oporiam à escolha de escalar o ator de traços abertos e tipicamente americanos Matt Damon para o papel do astuto mediterrâneo Odisseu.)
Ainda assim, parece seguro presumir que a escolha de Nyong’o por Nolan foi intencional e provocativa. A última grande representação de Helena no cinema foi no filme Troia, de 2004 (Donald Jr. era fã), no qual ela foi interpretada pela atriz alemã Diane Kruger, de aparência extremamente ariana.
Então, o que Nolan está tramando? Acontece que o cineasta está usando Helena exatamente como os autores gregos faziam: para provocar, desafiar e perturbar a forma como pensamos sobre beleza e identidade, sobre quem somos e como nos relacionamos com o nosso mundo.
Vale ressaltar que, na verdade, não temos ideia de qual era a aparência de Helena. Homero limita suas descrições a banalidades genéricas — “ela se parecia muito com os deuses imortais” —, enquanto os dois adjetivos visuais que ele lhe atribui, “de belos cabelos” e “de braços alvos”, são convencionais e usados também para outras personagens femininas. (Ela também é descrita como alguém que “causa arrepios”; tente escalar uma atriz para isso.) Autores posteriores, como o dramaturgo Eurípides, introduzem novos adjetivos, como, por exemplo, “loura-avermelhada”. Mas, no geral, os gregos não se importavam muito com a aparência dela.
O que realmente importava para eles era a maneira como ela falava. Já na narrativa de Homero, Helena é uma oradora eficaz e, de fato, sedutora. Na “Ilíada”, ela lamenta com eloquência sua paixão avassaladora por Páris, desfere algumas alfinetadas certeiras em uma discussão com uma oponente de peso — nada menos que a deusa Afrodite — e, efetivamente, tem a última palavra no épico, proferindo um poderoso elogio fúnebre final ao herói troiano caído, Heitor. Na “Odisseia”, ela encanta um grupo de convidados com relatos de seus esforços para ajudar a causa grega por detrás das linhas inimigas, em Troia. Mas seu marido traído, Menelau — com quem ela já havia se reencontrado há muito tempo —, contrapõe essa versão com uma história bem diferente, na qual fica claro que ela trabalhava para trair os gregos.
Desde os primórdios da literatura grega, portanto, Helena tem estado no centro de um debate profundamente consciente de si mesmo que, assim como a própria beleza, trata da tensão entre o interior e o exterior: como sabemos quando alguém está dizendo a verdade?
A maneira como Helena era retratada tornou-a um tema irresistível para vários escritores posteriores. O poeta lírico Estesícoro (c. 630-555 a.C.) escreveu um poema no qual criticava o comportamento desviante dela. Diz a lenda que, em represália, ela o deixou cego. Pouco depois, ele escreveu uma retratação, ou “Palinódia”, na qual defendia a honra de Helena, explicando que fora apenas um fantasma de Helena que fugira com Páris, enquanto a verdadeira Helena, fiel e inocente, fora levada secretamente para o Egito. Devidamente apaziguada — segundo a história —, ela lhe devolveu a visão.
A facilidade com que diferentes perspectivas sobre o caso de Helena podiam ser defendidas atraiu os chamados sofistas do período clássico, que se orgulhavam de sua habilidade em “fazer o argumento mais fraco parecer o mais forte”. O filósofo e retórico siciliano Górgias, nascido em 483 a.C., compôs um discurso de demonstração no qual apresentou não apenas um, mas quatro argumentos distintos em favor de Helena; cada um deles era capaz de absolvê-la efetivamente de qualquer culpa por suas ações.
Eurípides, contemporâneo de Górgias, utilizou a história de Estesícoro sobre o fantasma de Helena em uma peça tragicômica que leva o nome dela, explorando, mais uma vez, a relação entre verdade e ficção, retórica e realidade. O dilema de Helena guarda uma semelhança impressionante com o de muitas pessoas envolvidas em discussões acaloradas nas redes sociais: como defender a verdade quando o mundo inteiro acreditou em uma mentira?
No entanto, na peça “As Troianas”, do mesmo autor, Helena não aparece como uma vítima indefesa de uma retórica enganosa, mas sim como alguém que a manipula com astúcia. Diante das esposas e mães troianas, devastadas pela dor e escravizadas ao final da guerra que ela mesma iniciara, essa Helena exime-se de culpa com frieza, valendo-se de uma série de argumentos irritantemente hipócritas. (Ela afirma que a culpa deveria recair sobre a mãe de Páris, Hécuba, visto que foi ela quem o deu à luz.) No desfecho sombrio da peça, seus sofismas garantem que ela saia impune.
Os historiadores também encontraram em Helena uma figura útil. Em seu vasto relato das guerras entre gregos e persas, travadas no início do século V a.C., Heródoto estabelece sua credibilidade como historiador ao descartar as histórias fantásticas dos poetas sobre Helena e Páris, envolvendo raptos e seduções. No Livro 2 de suas “Histórias”, ele apresenta rapidamente uma série de razões práticas pelas quais os relatos de Homero não poderiam ser verdadeiros, concluindo que “é impossível imaginar que os troianos teriam lutado em meio a tamanhas calamidades apenas por causa de Helena”. Helena não poderia estar em Troia, conclui ele com serenidade, uma vez que seu rei, Príamo — como qualquer governante digno desse nome —, certamente a teria devolvido assim que as baixas começassem a se acumular.
Assim, a mulher que associamos a uma grande beleza era, pelo menos para os gregos, uma figura definida sobretudo pela palavra. Tanto uma oradora habilidosa quanto objeto de oratória hábil, a Helena de Troia “real” — pode-se argumentar — era uma figura associada, acima de tudo, a debates profundos sobre a natureza da realidade e o poder das palavras, o poder de sedução da falsidade e a fragilidade da verdade. Nesse sentido, pelo menos, a polêmica em torno do novo filme sobre a “Odisseia” — tal como tantas discussões atuais — nos conecta à Helena dos gregos de uma maneira muito mais autêntica do que a escolha desta ou daquela atriz jamais poderia fazer.
Parece justo deixar a palavra final deste debate para uma mulher. Um poema lírico de Safo (c. 630–570 a.C.), considerada pelos gregos a “Décima Musa”, narra com espanto como Helena de Troia — “tida, de longe, como a mais bela de todos os seres humanos” — abandonou seu excelente marido e partiu para Troia sem sequer pensar em sua filha ou em seus amados pais. Por que ela faria tal coisa? Porque não há lógica nem razão quando se trata daquilo que desejamos, nem um padrão absoluto de beleza. “A coisa mais bela nesta terra negra”, escreve Safo, “é aquilo que você deseja.” Independentemente do que mais o debate sobre a escolha do elenco de Christopher Nolan tenha demonstrado, ele certamente revela que, ao forçar as pessoas a confrontar — ou a revelar — suas próprias noções, muitas vezes irracionais, do que é belo e feio, verdadeiro e falso, Helena de Troia ainda tem algo a nos dizer.
Daniel Mendesohn, autor de “Uma odisseia: um pai, um filho e um épico”, pelo New York Times
Foto: Lupita ganha o Oscar de Atriz Coadjuvante em 2014 por “12 Anos de Escravidão”
Trazido a vocês pela curadoria informacional d’A Casa de Vidro – www.acasadevidro.com. Via AFYL
Publicado em: 19/07/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia