Gigante no palco geopolítico de nosso planetinha ensandecido, o presidente Lula, na Assembléia Geral da ONU, teve a ousadia rara de questionar criticamente a própria entidade em que ele discursou: “Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez.” (Citado a partir da transcrição do G1: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/22/leia-a-integra-do-discurso-de-lula-na-assembleia-geral-da-onu.ghtml)
Em New York City, a Organização das Nações Unidas reuniu-se para mais um bocado de falação das mais altas autoridades e dos mais importantes chefes-de-Estado, num contexto histórico em que nada fez de efetivo para obstar o genocídio em Gaza (que vai completar 3 anos e segue em curso, apesar do pseudo cessar-fogo), nem para obstar a invasão da Venezuela e o sequestro de Maduro, nem para produzir punições e sanções pelo atroz bombardeio da escola iraniana de Minab (com mais de 100 crianças mortas) e o assassinato do aiatolá do Irã, dentre outras atrocidades cometidas pela aliança Yankee-Sionista.
O “direito de veto” mencionado por Lula, “pecado original” da ONU que também nasceu sacramentando o nascimento do Estado Judeu na Palestina e passando um panão gigante na Nakba, hoje significa que Trump e Netanyahu, dois líderes da extrema-direita supremacista e neofascista, permaneçam impunes, não importa o que façam. Netanyahu tem em suas mãos o sangue de 20.000 crianças que mandou massacrar e ainda é recebido naquela tribuna. Donald Trump pode ali subir para ameaçar com a obliteração nuclear a civilização ancestral do Golfo Pérsico sem que o mundo pare em indignação incontenível perante a inaceitável bravata do calhorda que anunciou a transformação de Gaza em um “Club Med” cheio de resorts de luxo após a Solução Final ser aplicada para o “Problema Hamas”…
Lula disse: “A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais. (…) A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade. Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade. Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de estado. É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome.”
Ainda que o discurso de Lula faça uma adesão politicamente correta à condenação peremptória e sem contexto dos “atos terroristas do Hamas”, que poderia ser melhor compreendido como a entidade que os cidadãos palestinos de Gaza elegeram nas urnas para que fossem por ela governados e por ela liderados em sua busca legítima por uma soberania e uma auto-determinação sempre negados pela potência imperial ocupante, a leitura geopolítica de Lula (e seus assessores na composição do discurso) é uma pérola da análise de conjuntura e soa também como um documentário distópico sobre o contemporâneo:
“(…) Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas. Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes. A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade. Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança. Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio. O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais. Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da COVID-19. Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos erradicadas. Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna a todos mais vulneráveis. Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional. Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, foros que reúnem os maiores emissores de carbono. É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo. A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só. As geleiras do Himalaia estão derretendo. Um Super El Niño pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes partes do globo. Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis…”
LEIA TB:
“Washington sabe que seu plano neocolonial na América Latina só estará completo com a submissão do Brasil. Eleger Flávio é o caminho mais fácil. Já com uma vitória de Lula, há risco real de intervenção militar. Mas Brasil parece acordar para a urgência de reforçar Defesa nacional.”
por Paulo Nogueira Batista Jr.
No seu discurso na ONU, o presidente Lula soltou a frase: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém!” e foi interrompido por aplausos. Fiquei honrado com o fato de ele ter recorrido ao título de um livro meu, de 2019. A frase parece estar se tornando um slogan da campanha eleitoral. Quase desmaiei, cravejado de brilhantes, como diria Nelson Rodrigues.
Mas a frase é muito mais do que um slogan. Ela alude, primeiramente, às dimensões do nosso país, que é um dos gigantes do mundo. Temos o quinto maior território do planeta, a sétima maior população e o oitava economia do mundo. O Brasil faz parte de um grupo de apenas cinco países, juntamente com China, Índia, Rússia e Estados Unidos, que integram a lista das dez maiores nações em termos territoriais, demográficos e econômicos. Temos, também, imensas reservas de terras raras e minerais críticos, urânio, petróleo, minério de ferro, entre outros minerais. Temos a maior biodiversidade do mundo. Temos, além disso, uma belíssima tradição cultural nacional, que suscita a admiração de outros países. E, como se não bastasse, temos os brasileiros, um povo admirável em muitos sentidos, entre os quais humanidade, simpatia, cordialidade, criatividade e capacidade de trabalho.
E, no entanto, o leitor ou leitora há de ter reparado que eu coloquei um ponto de interrogação no título deste artigo. Por quê? É que a soberania e a integridade nacionais estão ameaçadas como nunca. Por dois motivos interligados. Primeiro, porque concorre à Presidência um Flávio Bolsonaro, que cabe no quintal de qualquer um. E disputa com chance de vencer, a julgar pelas pesquisas. Trata-se de um político que, entre muitos defeitos graves, se apresenta, sem nenhuma vergonha, como candidato a vassalo dos EUA de Trump! Basta lembrar que ele ofereceu generosamente criar, em caso de vitória eleitoral, “uma equipe de transição à disposição do governo americano”! Por incrível que possa parecer, essas foram as palavras textuais de uma carta de agradecimento de Marco Rubio, ministro das relações exteriores de Trump.
Há um agravante – e este é o segundo motivo do ponto de interrogação – a fase em que se encontram os EUA, que seguem um imperialismo agressivo e intervencionista, que tem sido referido por alguns analistas, entre eles Vijay Prashad, como hiperimperialismo. Basta lembrar o que aconteceu na Venezuela, transformada em protetorado dos EUA. O governo Trump não esconde, antes proclama, as suas intenções. Afirmou em documentos oficiais e diversos pronunciamentos do presidente e seus ministros que o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagonia, é sua área de influência exclusiva. Essa hegemonia sobre o hemisfério não estará completa sem a submissão do Brasil, o maior país da América Latina.
A forma mais fácil de alcançar esse objetivo é eleger um Flávio Bolsonaro. O Brasil será conquistado sem a necessidade de disparar um tiro sequer!
Caso Lula se eleja, o problema não estará resolvido. A verdade é que não estamos bem preparados para enfrentamentos militares. O problema é antigo. Escrevi a respeito em um dos capítulos de O Brasil não cabe no quintal de ninguém, sob o título “Um país desarmado”. Suponho que Lula e sua equipe estejam totalmente conscientes da urgência de reforçar a defesa nacional. Imagino que o esforço já tenha começado, ao menos em 2026, depois do que vimos na Venezuela, em Cuba e no Irã. Com base em nossos próprios recursos, reforçados por cooperação militar e tecnológica com países como França, Turquia, Irã, Rússia e China, e com um esforço concentrado do governo e do país, teremos condições de superar essa vulnerabilidade estratégica.
E retirar o ponto de interrogação da frase.
Publicado em: 29/09/26
De autoria: casadevidro247
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia