
por Eduardo Carli, A Casa de Vidro, Setembro de 2026
Em sua primeira visita à sede novomundista d’A Casa de Vidro, o filósofo Daniel Barbosa, também conhecido por seu codinome DJ Deklame, veio acompanhado pelos filhos Benjamin e Maria Flor e esteve no Ponto de Cultura pra tecer uma parceria para um projeto promissor: a filmagem de um documentário sobre a Batalha da Norocity (https://www.instagram.com/norocity/), que começou sua história em 1987 e é uma entidade do Hip Hop Goiás.
Daniel é meu colega na área de filosofia no IFG (câmpus Anápolis) e já atuou como Pró-reitor de Extensão na PROEX, a mesma pró-reitoria onde fui Coordenador de Eventos e pesquisador da Rede Nacional de Pontos de Cultura e de sua proposta de Participação Social, o que irrigou o livro de que sou co-autor, com Rafael do Carmo, o “Encontros no Encontro” (ebook colorido e ilustrado disponível para download gratuito em https://editora.ifg.edu.br/editoraifg/catalog/book/19).
Agora, Daniel realiza seu doutorado na área de Direitos Humanos na UFG e estuda o tema “Pedagogia do Hip Hop”. Estamos firmando uma parceria para que A Casa de Vidro participe, nos próximos 2 anos, da produção deste artefato sobre os rappers, DJs, grafiteiros e griôs do conhecimento hip hopper lá na Norocity.
Aproveito para recomendar a leitura do livro de Cristiane Dias, destacado a seguir, uma referência sobre o tema de pesquisa do Daniel, e a escuta do EP “Isto Não É Um Artigo!”, no Spotify e SoundCloud, linkado acima, com letras de Daniel e produzido com auxílio de I.A.s.
Retomarei o debate em tempo oportuno, mas quero deixar aqui uma impressão preliminar sobre a questão espinhosa da “música feita com ferramentas de inteligência artificial”: o EP do Daniel é, na minha avaliação, uma das melhores produções a que já tive acesso nesta seara da “criatividade assistida por IA” e me fez repensar certas posturas que eu antes nutria de condenação impiedosa do uso destas tecnologias na produção musical.
Daniel fez letras-manifesto de alta densidade reflexiva e referências pertinentes, construiu autênticos manifestos sócio-político com muito flow e groove, e criou 3 artefatos-canção high-tech que me agradaram muito e que ouvi repetidas vezes. O trampo envolve muita pesquisa no campo das ciências humanas e das culturas periférias insurgentes. Quem já pôde curtir uma discotecagem do DJ Deklame sabe também da qualidade de seu set e da diversidade de seu garimpo cultural.
Em breve, no site d’A Casa de Vidro, pretendo publicar um artigo comentando também sobre dois outros fenômenos da “contaminação por IA” da produção musical contemporânea: o hype em cima do Velvet Sundown, que foi muito comentado e noticiado, é um caso digno de análise no cenário global. Mas aqui em terra brasilis o caso que mais me chamou a atenção foi o Melodia Secreta.
Eu descobri este bagulho em perfis de psicologia e psicoterapia no Insta que estão utilizando “O Cansaço Que Ninguém Vê” como se fosse um tratado sobre burn-out, depressão e neuroses dopamínicas, mas talvez sem suspeitar que aquilo lá não é uma mulher em carne-e-osso cantando sua subjetividade, mas… música feita por IAs tipo Suno.
Melodia Secreta explora a senda do folk-pop suave, de auto-ajuda, supostamente psicoterapêutico, meio Mallu Magalhães e Tiê, e lançou neste 2026 aquele EP “Meu Eu” (https://open.spotify.com/intl-pt/album/6nKHr6qwUyDpSRqpg1pj98?si=eUHW4nxtToOE3dff94pPoA) cujas 5 músicas já ultrapassaram, todas elas, 50.000 escutas no Spotify. O canal no Youtube já tem mais de 60.000 inscritos e quase 150 vídeos publicados, todos eles com produção audiovisual-videoclíptica artificial.
Vasculhei a rede e não encontrei nenhuma apresentação ao vivo, nenhuma entrevista carnal do Melodia Secreta, tampouco nenhuma atribuição de crédito à cantora e ao violonista – ou seja, acabei concluindo, referendado pelo Gemini e pelo DeepSeek, que é isto mesmo: Melodia Secreta faz segredo disso mas é um bagulho todo feito por sabe-se-lá-quem, pilotando IAs, e a pessoa (ou pessoas) ocultas responsáveis pelas mais de 100 músicas já publicadas estão possivelmente fazendo uma grana com monetização destes conteúdos aparentemente meigos e bem-intencionados…
Mas… conversei bastante com @Manoel Siqueira, durante um ensaio da Azul em Transe, sobre a resistível ascensão destas músicas-feitas-pelo-inumano (ainda que pilotadas por prompts humanos, demasiado humanos). E estamos um pouco assustados com o que vai ocorrer com a música orgânica, feita por gente de carne-e-osso, tocada e cantada com as imperfeições todas que fazem parte de nossa condição de seres falíveis e inconclusos, diante da emergência destas “impecáveis” produções, com tudo perfeitamente afinado e bem maquiado… Pergunto-me diante dos Perfeitinhos Artificiais que estão agora fazendo música monetizável e instagramável, que será de mim, que toco uma guitarra tão errônea, que arranho um violão com tantos equívocos harmônicos e arritmias, e que canto como quem quer fornecer matéria para um tratado de desafinologia?…
O que vocês pensam sobre? O fórum de debates na cyber-ágora desta Comuna A Casa de Vidro está aberto pra quem quiser mandar seus pitacos… E eu posso transmiti-lo ao Daniel, que tá meio triste pq, apesar da excelência de seu EP, ele não soube fazer este trampo ser viralizado pelo algoritmo. Pra onde tamos indo hein galera? Q mundo insano está se forjando!?! No porvir, em que oceanos de artificialidade estaremos mergulhando (e quiçá nos afogando)?

A pedagogia hip-hop: consciência, resistência e saberes em luta – Cristiane Dias (Appris, 2019)
O livro A pedagogia Hip-Hop: consciência, resistência e saberes em luta, permite-nos reescrever a história sobre a população negra de forma criativa. Caracteriza-se pelo conjunto de experiências relacionadas às histórias e às práticas culturais que nos foram negadas com base nas atividades realizadas a partir dos elementos que formaram a cultura Hip-Hop – Breaking, Graffiti, DJ, MC, funcionando como disparadores de conhecimentos para que os jovens (re)elaborem suas identidades ao mesmo tempo em que nos possibilita a construção de uma reflexão sobre a cultura do racismo e das violências que recaem sobre o corpo negro. Isso nos coloca diante das dinâmicas existentes nas periferias e da diversidade de movimentos de transformação que fazem revelar o jovem da favela. Assim, recorrerei ao Hip-Hop para pensar em que medida o movimento pode auxiliar na reposição de uma experiência perdida, preservando no sujeito o seu poder de criticidade em relação à situação limite, entre a vida e a morte, destinada ao povo negro, que nos revela histórias de resistência no Atlântico, na escravidão, no fogo cruzado, nas balas perdidas, nos assassinatos causados por gangues de polícia, nos barracos, nas favelas, nos becos, nas vielas, no Hip-Hop. Uma situação que exige a recriação de novas relações entre a história, a consciência, a educação e a cultura, a fim de fazer pulsar em nosso povo o espírito de uma mente vitoriosa, coletiva e decolonizada. Isso proporcionou a busca por novos olhares para os letramentos escolares e evidenciou a pedagogia Hip-Hop como uma forma de reeducação das nossas relações étnico-raciais e como um novo devir na construção de uma educação justa e emancipatória para a juventude negra e periférica. Desse modo, o povo preto “reexiste”. E “é nois” reescrevendo a história por meio dos riscos, do ritmo, dos pensamentos afrocentrados e da luta pela libertação, proporcionando, segundo Asante (1988, 2003, p. 85), “[…] a libertação da mente, a precursora adequada para a libertação do corpo” negro.
Publicado em: 16/09/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia