“You don’t count the dead
When God’s on your side.”
Bob Dylan
A crença em um deus único com certa frequência vem acoplada à crença de que este deus tem predileção por um certo povo. Deus é um mas não gosta de todos igualmente. Deus prefere tal povo, pretere outro, c’est la vie – ou melhor, c’est la théologie. Diante de Gaza, em 2023-2024, não há como desviar de uma consideração crítica desta teologia que aqui vou adjetivar como dominadora (mas que também poderia ser dita dominante) – não à toa, pesquisadores a chamam de teologia do domínio, e temos um dos mais expressivos exemplos contemporâneas de seu poder de captura das massas no Brasil pós-democrático (2016-2023) em que dezenas de milhões de pessoas que se auto-descrevem como evangélicas neopentecostais abraçaram a bestialidade do bolsonarismo (Cf. CÉZAR ROCHA, Bolsonarismo: Da guerra cultural ao terrorismo doméstico: Retórica do ódio e dissonância cognitiva coletiva, 2023).
Diante de Gaza, também torna-se óbvio que Israel e seus parceiros ocidentais só se julgam autorizados a fazer o que fazem pois deliram que há um Deus único e que este os privilegia: a nação de Israel é onde mora o povo eleito – aquele que Deus (e a ONU…) guiaram para um território às margens do Mediterrâneo onde nenhum outro, muito menos a Outridade árabe-islâmica, deve ter direito a existir. A noção de que o território pertence ao povo eleito de Israel por decreto divino, e em virtude daquilo que está escrito na Torá, é bastante bizarra aos ouvidos de qualquer um que tenha estudado um pouco acerca da diferença entre mitologia e história. O Pentateuco, a Torá, é considerada “história” – no sentido de um relato sobre o que de fato ocorreu – quando na verdade é um texto tecido com mitos, algo muito mais próximo da ficção ou mesmo da fantasia do que da historiografia propriamente dita.
José Saramago, em sua reação ao 11 de Setembro, escreveu em 2001: “os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o fator Deus…”. Concordo com o autor português em sua avaliação dupla acerca da verdade do ateísmo – os deuses não existem fora dos cérebros humanos – e da verdade de que o fator Deus é de fato uma força histórica (através da agência dos crentes humanos, é claro). Os deuses não agem pois não são, já os que têm fé… ah como agem, e muitas vezes afundados nas trevas do obscurantismo.
Neste texto, em que pretendo esclarecer algo acerca da teologia do domínio e o que esta tem a ver com genocídios em nome de Deus, devo dizer do desafio que é buscar o esclarecimento acerca de um tema tão obscuro. Li recentemente na Revista Opera o artigo Guerra e Religião (VASCONCELOS; BAMONTE: 2024) com a sensação de desnorteio de alguém que se perde no labirinto dos obscurantismos. Em meu viés, o ateísmo esclarece, a fé obscurece, mas este não é um argumento fácil de compreender, sobretudo pelas mentes nubladas pela crença dogmática em verdades absolutas e sagradas. Os três monoteísmos principais que capturam corações e mentes mundo afora – cristianismo, judaísmo, islamismo – parecem-me gerar um mundo insanizado pela desarmonia entre nenhum Deus de fato (uma tese de natureza ontológica) e um politeísmo cultural (apesar de não existir nenhum deus único, a cultura global é clivada entre diferentes seitas ou tribos que acreditam em uma vasta miríade de diferentes deuses). Monoteísmo tribal, politeísmo de fato, mas sem que deuses existam. Teísmo é algo que depende do humano – só o animal humano sustena o téos. Com nossos cérebros – e corações – fazemos como se deuses existissem, e a História fica sim marcada pelas fés. Infelizmente, fés conduzem com frequência ao “somos o povo eleito”, o único Chefe do cosmos nos prefere acima de todas as outras tribos – donde o EXTERMINATE ALL BRUTES.
EXTERMINAR OS BRUTOS
Publicado em: 21/08/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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