EPICURISMO PROFANO – Assista ao vídeo:
Pintura na abertura deste post: The Philosopher’s Garden, Athens, by Antal Strohmayer (1834)

A filosofia é um modo de viver que coloca como valores supremos a busca pela sabedoria e o cultivo da amizade. Uma das melhores frases já propagadas sobre isso talvez seja esta, de Epicuro: “De todas as coisas que a sabedoria procura adquirir para que a vida seja feliz por completo, a maior, a mais importante de longe, é a amizade.”
Estou aqui, Eduardo Carli, pensando em voz alta, em praça pública, e acompanhado deste belo livro: “A Amizade Segundo Epicuro”, de Maitê Larrauri, uma pensadora espanhola contemporânea que escreve a série “Filosofia pra Profanos”. Resolvi fazer uma série de vídeos após ter lido e relido esse belíssimo livro introdutório ao epicurismo, para tentar desfazer alguns equívocos que se acumularam história afora a respeito de Epicuro e seus seguidores.
Quem leu a “Divina Comédia” de Dante sabe, por exemplo, que no inferno são descritos os condenados às chamas martirizantes, que precisam encarar o fogo para se purgar de seus pecados, e ali estão também os epicuristas. E qual é o principal motivo para essa longa, extensa e cruel condenação que a tradição platônica e cristã faz pesar sobre a tradição epicurista? A Maitê Larrauri diz, com muito acerto, que há uma ideia principal que faz com que os epicuristas sejam tão mal vistos, malquistos e reprovados do ponto de vista da dogmática fundamentalista dos cristãos e dos platônicos: a ideia de que a alma perece com o corpo. A morte do corpo também é a morte da alma, ou seja, não há separação possível entre esses dois elementos.
O epicurismo, de fato, marca na história talvez a primeira emergência de uma doutrina psicossomática, que vê como indissolúvel o corpo e a alma. O corpo material e a alma que esse corpo abriga não são separáveis. A morte, ao contrário do que tenta pregar Sócrates, lá quando ele está na prisão de Atenas prestes a tomar a cicuta, no diálogo “Fédon”, não seria esse momento de separação entre o corpo perecível, submetido ao devir, e uma alma imortal capaz de existir sem ele. Existe aqui, portanto, uma doutrina materialista da psicossomática que vai colocar essa busca da sabedoria – que marca o filósofo, afinal o filósofo não é exatamente o sábio, mas é aquele que busca a sophia, que a coloca no seu horizonte e vai em busca dela justamente por não tê-la, por reconhecer que está em déficit em relação a isso – em estreita vinculação com uma prática profana, transpessoal e intersubjetiva de primeiríssima importância, que é justamente a amizade.
Nesse livrinho, condena-se a condenação que o cristianismo impôs, condena-se a deturpação que pesa sobre uma das grandes tradições sapienciais da humanidade, e se tenta fazer justiça, ainda que tardia, àquilo que os epicuristas propuseram, desfazendo um pouco essa visão deturpada, caricatural, do hedonismo epicurista, como algo que implicaria uma doutrina que favorece todos os exageros, toda a glutonaria, todos os excessos na bebida, na mesa, na cama. Ou seja, existe um epicurismo caricatural criado por seus detratores. Nietzsche, inclusive, que era um grande admirador de Epicuro, fornece boas explicações para isso, pois ele vai falar do império do ideal ascético que o platonismo e o cristianismo vão promover, e que vão perseguir, digamos, os prazeres terrenos como se fossem fatores que desencaminham, que causam o pecado e que atraem para nós a fúria vingativa de um Deus furibundo, que está principalmente nos olhando para nos reprovar e condenar. Essa psicose da fé, que alucina com verdades absolutas e impõe ao mundo códigos de conduta rigoristas e de ascetismo exacerbado, produz uma neurose coletiva de alta gravidade. Tanto que Freud, quando for escrever “O Futuro de uma Ilusão”, vai tratar a religiosidade hegemônica, anti-epicúria, judaico-cristã e ascética como uma espécie de neurose normalizada, uma neurose compartilhada por muitos.
Na verdade, o epicurismo está muito longe de propugnar, propor e persuadir as pessoas a serem beberrões, gulosos, glutões, libertinos e exagerados na busca desenfreada pelos prazeres imediatos e pelas gratificações sem amanhã. Quanto mais estudamos o epicurismo, mais vemos que existe ali uma doutrina inclusive muito apolínea, que fala sobre frugalidade, moderação, uma dieta dos prazeres, o esmero, o apuro em distinguir entre os desejos que têm por algo natural e necessário e os desejos que se voltam àquilo que não é nem natural nem necessário, que é supérfluo e acarreta consequências terríveis em termos de ressacas e indigestões.
Vejam o que diz a autora sobre o próprio Epicuro: “Conhecemos a frugalidade de Epicuro… Sofrendo do estômago, ele nunca podia cometer excessos em sua alimentação; tinha que beber com cuidado se não quisesse padecer com grandes dores. Ora, que banquete se pode organizar ao redor de um pouco de queijo, um bocado de figos e alguns amigos? Só mesmo uma grosseria pra concluir que uma refeição assim não vale a pena.”
A comunidade epicurista, fundada nas periferias de Atenas, atravessa mais ou menos sete séculos, setecentos anos de história. Quando falamos do Jardim de Epicuro, devemos ter uma compreensão mais apurada do que isso significava. Não devemos ter a imagem de um bando de hippies que faz um piquenique eventual numa área rural, come, bebe, conversa e acabou. Estamos falando, na verdade, de uma sociedade alternativa, uma sociedade contra-hegemônica em relação inclusive à Academia Platônica em Atenas. Percebo essa oposição platonismo vs. epicurismo nesse momento da cidade de Atenas como um antagonismo entre visões de mundo e um antagonismo a respeito também do que a filosofia deve propor àqueles que se dedicam a ela. Estamos de fato no cerne de uma polêmica sobre a boa vida, que estará também na obra platônica. Se você ler “A República”, verá que Sócrates e Glauco estão debatendo sobre o que seria o estado ideal, que é o grande tema desse diálogo, a Politeia. Ali vai ser afirmado de maneira polêmica por Glauco que haveria um certo modo de viver dos humanos que os assemelharia aos porcos, aos suínos. Mais uma questão que vale a pena mencionar: a da animalidade. Muitas vezes os epicuristas foram defenestrados, criticados, pintados com tintas muito negativas porque eles supostamente fariam a adesão a um estilo de vida animalesco. Diógenes, o cínico, vai levar isso a um outro extremo, assumindo essa postura de maneira mais radical, afirmando que a vida dos cães, por exemplo, está muito mais próxima da physis, das forças que impulsionam a natureza, do que a vida falsa, hipócrita e sem espontaneidade de muitos seres humanos civilizados, que perdem sua autenticidade e se desconectam de sua genuína animalidade.
É curioso que Horácio, em Roma, alguns séculos depois da fundação do Jardim de Epicuro em Atenas, vai, de maneira divertida e polêmica, afirmar-se como um porco na manada de Epicuro. A Maitê Larrauri vai dizer o seguinte: “O Epicuro renasce em todos aqueles que pensam que a alma morre com o corpo, que a vida se move ao longo do vetor do prazer, que a felicidade é deste mundo e que se chega a ela aprendendo a saborear os prazeres de uma boa vida em companhia dos amigos.” Isso vai ser muito desenvolvido por grandes poetas-pensadores, como Horácio, que é um dos grandes formuladores do carpe diem, esse termo que literalmente significaria algo como “cultive o dia”, aproveite cada dia como se fosse o último, faça desse dia o melhor possível. E também, é claro, por Lucrécio, autor do “Da Natureza das Coisas”, um dos grandes poemas sobre a ética e a física epicurista. Ali no poema lucreciano, recuperado no período do Renascimento, vemos Lucrécio, um dos maiores discípulos de Epicuro, começando seu livro fazendo a invocação de Vênus, essa deusa da natureza. Graças a ela, diz a Maitê, o mar e a terra estão povoados de seres vivos e as estações do ano sucedem-se umas às outras; opondo-se a Vênus, a figura de Marte, o deus da guerra, da destruição e da belicosidade.
Em síntese, o que torna o epicurismo essa heresia pagã que tanto incomoda a tradição judaico-cristã e a tradição platônica? Trata-se, para Epicuro, de pensar corpo e alma como uma coisa só, como uma unidade. Isso significa que a alma morre com o corpo, mas também que as mudanças no corpo acarretam mudanças na alma. Ou seja, Epicuro e a escola epicurista anulam a possibilidade de você pensar, como os platônicos, que a alma seria uma espécie de piloto ou de guia do corpo. Essa noção de uma imaterialidade da alma, de uma alma que é um fantasma na máquina do corpo, colapsa. Nós seremos vistos, nós animais humanos, nós organismos da espécie Homo sapiens, como seres vivos sensíveis, que somos afetados pelo contato ou pela ausência de contato com os demais corpos materiais.
É nesse contexto que vai surgir um certo sensorialismo epicurista, uma certa valorização da nossa percepção sensível, que é á-logos, ou seja, a negação do logos, a não razão, ou aquilo que é anterior à palavra. O epicurismo vai pensar o caminho para a felicidade como também dependente de uma organização social comunitária, coletiva, de um espaço para o desfrute sensorial. Por isso esse jardim, esse horto, essa chácara, esse sítio, com seu verde, suas hortas, que remete, no mundo contemporâneo, a comunidades agroecológicas, a ecovilas ou coisas assim. Isso não implica a desvalorização do que se chama de alma, de intelecto; muito pelo contrário. Isso que chamamos de alma, mente, psiquê, também precisa se alimentar: ler boas coisas, ouvir boas músicas, estar envolvido em bons diálogos, saber de cor sentenças sábias e verdadeiras, assimilar conteúdos que possam compor processos mentais que conduzam a esse desfrute da existência e a essa sabedoria risonha e jovial. Tudo isso implica também uma grande valorização do estômago, da digestão, da assimilação material dos átomos que nos chegam através dos alimentos ou através da respiração do ar.
É muito curioso pensar na desvalorização que a tradição idealista impôs ao corpo e aos seus processos de assimilação e excreção – isso é considerado menos nobre. No entanto, para o epicurismo, o corpo vem primeiro, o corpo tem primazia. É no corpo que se dão as sensações; é no corpo inclusive que se formam os juízos morais de bem e mal, e eles são derivados destas sensações internas básicas que são o prazer e a dor. Temos aqui uma espécie de genealogia da moral pré-nietzschiana, que antecede Nietzsche em mais de dois milênios, onde o bem e o mal cessam de ser entidades transcendentes metafísicas ou dependentes da imposição de um cosmocrata, de um Deus sobrenatural. Bem e mal, no fundo, são como plantas que brotam de baixo; estão enraizados nos organismos vivos que sentem dor e prazer. Nossa tendência mais espontânea, nosso impulso mais natural, é chamar de mal aquilo que nos causa dor e chamar de bem aquilo que nos causa prazer, e não há nada de errôneo nisso, a princípio. Agora, o que é de fato um erro perigoso é o descontrole da mente, é quando essa mente se torna incapaz de controlar os seus próprios processos e se torna vítima de ansiedades, temores e inquietudes que impedem e se tornam obstáculos para que ela possa de fato desfrutar de uma felicidade terrena possível. Os epicuristas vinculavam isso ao tema da ataraxia, a paz de espírito, a serenidade, a tranquilidade da alma. Essa ataraxia, para ser conquistada, vai exigir um tipo de trabalho sobre si que envolve purgar-se de superstições e falsas crenças.
E aí os religiosos também ficam muito preocupados e se sentem ameaçados pelo epicurismo, sobretudo porque Epicuro é uma espécie de guru de uma terapêutica psicossomática que vai ousar dizer que as crenças religiosas dominantes, longe de serem positivas, benéficas, causadoras de grandes bens para os sujeitos, na verdade produzem grandes males. Quando você tem, no tetrafármaco, um remédio quádruplo para a cura das grandes ansiedades, dos grandes temores, dos grandes tormentos da alma, você vai ter ali a afirmação de que as pessoas sofrem porque têm crenças falsas a respeito dos deuses e da morte. E é aí que o epicurismo se torna ainda mais interessante, mais excitante e mais herético, porque ele vai propor uma cura que tem muito a ver com o processo que hoje vinculamos com o ateísmo, ou seja, uma nova concepção de terapia filosófica onde você vai cessar de crer naquilo que antes nutria como crença a respeito, por exemplo, de deuses que se preocupam conosco, que fazem constantes intervenções no mundo, que realizam punições e concedem recompensas de acordo com o mérito dos indivíduos caso eles sejam capazes de seguir à risca uma lista de dogmas e mandamentos. Tudo isso cai por terra, porque, apesar de não ser propriamente um ateu, Epicuro vai propor que os deuses não se importam conosco; eles já são bem-aventurados, já estão em uma comunidade desses seres superiores que não se ocupam conosco de maneira alguma. Não há sentido algum em rezar para eles, não há sentido algum em fazer sacrifícios esperando que dos céus chovam benefícios para aquele que os realizou.
Outro fator é uma reconsideração da própria questão da morte, que se torna o fim da sensibilidade. Com o fim da sensibilidade, não há mais prazer nem dor, e não há nem bem nem mal. Se partirmos da definição de bem e mal que dei agora há pouco, em que das sensações corporais você deriva o mal do sofrimento e o bem do prazer, a morte é vista como um momento onde a vida sensível acaba; você não tem mais sensações, não tem mais input sensorial. Ninguém fica vivo para sofrer a condição de estar morto. Você não tem mais o conceito de alma imortal, não tem mais nenhum tipo de transcendência no além-túmulo, onde o sujeito vai passar por juízo final, paraíso ou inferno. Isso tudo é uma grande construção supersticiosa. Na verdade, a morte é um momento onde o seu corpo, com sua composição atômica, vai se dissolver, se decompor, para que os átomos que nos compõem possam entrar de novo na dança da realidade, no jogo da natureza, para compor outros agregados, outras árvores, outros animais, outras pedras, outros lagos, outras rochas. Morrer, no fundo, é disponibilizar esses átomos para que a natureza continue com seu jogo.
Segundo os epicuristas, isso será um modo de transcender os temores vinculados às superstições. Ou seja, a fé produz terror em todos os sentidos, porque produz um terror interno – temer o inferno, por exemplo, temer uma divindade furibunda que pode te punir, condenar a uma punição eterna – o que gera uma hipervigilância do comportamento, um excesso de moralismo, uma adesão exagerada a uma dogmática, a uma lista de mandamentos. Tudo isso gera um sujeito rígido, fundamentalista, fóbico da diferença, incapaz de pensamento livre. E quando isso colapsa, o que entra no lugar não é um desespero deprimido, mas uma abertura ao aqui e ao agora, onde corpo e alma, unidos, desfrutam de cada momento justamente porque sabem que isso é efêmero, e que para o bom desfrute disso precisamos dos outros, precisamos da dimensão da amizade e da sabedoria.
Em resumo, existe uma sabedoria do corpo enquanto estamos vivos, que independe inclusive do controle da razão. Pensar esse logos como um piloto que tem que estar sempre no comando é o caminho mais terrível para que você se torne insone, logocêntrico e hipervigilante. A sabedoria do corpo transcende a razão e nos conduz a pensar esse corpo conectível, poroso, em conexão com outros corpos que também buscam esse desfrute. Portanto, na história da filosofia, essa é uma das doutrinas que melhor expressa o significado da palavra que surge desses dois termos unidos: philia (amizade) e sophia (sabedoria), unidas, fundidas. Assim como o psicossomático expressa uma fusão de corpo e alma, a filosofia expressa essa fusão de sophia e philia. O caminho para a vida justa e feliz consiste em descrer nos deuses da maioria, desvestir-se desses dogmas religiosos terríveis, aterrorizantes; parar de crer na morte como um mal ou como um sofrimento, porque ninguém irá sofrer o estado de estar morto, porque ninguém terá consciência de estar nesse estado; nos ver como organismos atômicos que, quando se desfizerem, estarão ainda em suas partes componentes, indestrutíveis, compondo a dança da natureza. E o caminho para essa vida sábia e feliz será necessariamente perpassado pelo cultivo da amizade profana, terrena, mundana e sem ilusão.

Publicado em: 11/08/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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