EL NIÑO NO ICL – NA BBC – NO G1 – NO ECOOAR.

Eduardo Carli provoca – O Godzilla climático ruge. Mas os sintomas mórbidos não significam um novo mundo a surgir, só o velho a colapsar. Vem aí um tsunâmico escarcéu de eventos climáticos extremos. Enquanto aceleramos rumo ao “tarde demais” do kairos da luta contra a Catástrofe Climática no Capitaloceno… muita apatia e adiamento nutriram um El Niño que não será nenhum bambino benevolente. Sentiremos toda a fúria de Gaia, a Erínea, diante dos descalabros tóxicos dos humanos (alguns, não todos): Guajajara alerta com o prognóstico sinistro e plausível do colapso hídrico na maior metrópole da América do Sul. São Paulo já está com as reservas do Cantareira baixas antes mesmo do Super Godzilla do Oceano “Pacífico” (melhor renomeá-lo…) começar a realmente rugir… Oceano Furioso, o clima em chamas… e “the wrong Amazon is burning” no planeta A (e não tem planeta B).


Julio Cezar Oliveira responde – Mano Carli, compartilho da sua reflexão e acredito que ela dialoga profundamente com as contribuições da Geografia Crítica. Ao ler suas palavras, penso que os eventos climáticos extremos que vivenciamos não podem ser compreendidos apenas como fenômenos da natureza, ou como eventos isolados. Eles são resultado da forma de organização da sociedade moderna que se apropria da natureza e se vê fora dela. Esse modelo é marcado pela lógica da acumulação e pela transformação de tudo em mercadoria.
Nessa direção, recorro às reflexões de Milton Santos, que nos ajudam a compreender como a técnica, a ciência e a informação foram apropriadas pelos interesses do mercado, produzindo um uso corporativo do sistema de objetos (os componentes físicos naturais) que compõem o espaço geográfico, criando a chamada por ele de 2° natureza, ou um ambiente artificializado, criado pelo sistemas de ações humanas (a própria produção do espaço).
Assim, a crise hídrica, os incêndios florestais, as ondas de calor e outros eventos extremos não são apenas consequências das dinâmicas climáticas, mas também expressões das escolhas políticas e econômicas que orientam a produção do espaço geográfico.
Também encontro eco nas análises de Carlos Walter Porto-Gonçalves, quando critica a visão moderna que separa ser humano e natureza. Para ele, essa separação sustenta a ideia de que a natureza existe apenas como “recurso natural” a ser explorado, olhamos para os componentes físicos naturais do espaço não mais como algo a ser contemplado, ou como um organismo plural em vida.
Assim desconsideramos os limites e a diversidade de formas de existência construídas por diferentes povos e comunidades. Quando você menciona a Amazônia em chamas e a possibilidade de colapso hídrico em grandes centros urbanos, vejo justamente a materialização dessas contradições.
Por isso, entendo que a crise climática não revela apenas um desequilíbrio ambiental, mas uma crise do próprio modelo de “desenvolvimento” que se consolidou nas últimas décadas. E, como nos ensina Milton Santos, os impactos desse processo não se distribuem igualmente pelos territórios: alguns grupos acumulam os benefícios da exploração, enquanto outros convivem mais intensamente com suas consequências.
Sua reflexão nos provoca a pensar que não estamos diante de um problema futuro, mas de um processo já em curso, cujos sinais se manifestam cada vez mais intensamente no território. A questão que se coloca é se teremos capacidade política e coletiva para construir outras formas de relação com a natureza antes que o “tarde demais” mencionado por você deixe de ser uma advertência e se torne uma realidade irreversível.

Eduardo Carli retruca – Buenas, mano Júlio! Valeu demais pelas tuas reflexões impecáveis, na companhia dos mestres Milton Santos e Porto Gonçalves. Muito bom poder debater e extravasar indignações sobre a ebulição climática e o El Niño Godzilla com um geógrafo e educador tão bem informado e sábio. Sempre aprendo muito com nossos papos e interações. Penso que a “2° natureza, ou ambiente artificializado”, é uma ideia das mais importantes para criticar os desrumos do desenvolvimento (in)sustentável que aí está – nada mais é “natural”, tá tudo já transformado e transtornado pela agência humana. Leio com estranheza na imprensa frases como “o El Niño é um fenômeno natural”, quando tudo indica que ele só será o mais furioso em 150 anos justamente pelos excessos do capitalismo industrial extrativista e poluidor nos últimos séculos, com aceleração a partir das décadas de 1940-1950. O que me angustia é perceber que como sociedade aceleramos rumo ao “tarde demais” para agir – quem está ciente da gravidade da crise sócio-ambiental planetária é rotulado de alarmista, catastrofista etc., e tende a ser banido pelo mesmo algoritmo que “bomba” influencerzinho fascista… mas quanto mais adiamos o combate às causas da catástrofe climática, mais contribuímos, inclusive por omissão e conivência com o negacionismo, para que ele “se torne uma realidade irreversível”. Será que a enxurrada de fenômenos climáticos extremos que já começou – a França ontem teve o dia mais quente da história do país – vai ser um choque de realidade que nos leve à mobilização cidadã ampla e eficaz?…
Aproveito pra relembrar a galera aqui q tá disponível o PAPO FRITO, em áudio/podcast, que partiu da noção de “uma possível aula de climatologia para que a gente possa explicar sobre o tempo atmosférico usando música”: https://eduardocarlidemoraes.substack.com/p/catastrofes-climaticas-e-musica-propostas
Resumo dos Principais Pontos do Papo Frito
Grande Aceleração vs. Cacofonia: O diálogo estabelece uma analogia entre a aceleração de múltiplos processos socioambientais (população, consumo, poluição) e a cacofonia musical – quando elementos aceleram juntos sem harmonia.
Música como Registro Histórico: Diferentes gêneros musicais (punk, grunge) são lidos como respostas artísticas a crises sociais e ambientais de suas épocas.
Potencial Didático da Música: A proposta pedagógica utiliza contrastes musicais (orquestra vs. hardcore) para ensinar conceitos de harmonia, desarmonia e impactos da aceleração.
Apatia Juvenil vs. Movimentos Sociais: O diálogo aponta uma desconexão entre a juventude brasileira e as pautas climáticas, contrastando com movimentos europeus como Extinction Rebellion.
Referências Artísticas e Teóricas: São citados artistas como Lenine, Carlos Rennó, El Efecto, Fritos da Terra, e referências como Greta Thunberg e o livro “Nossa Casa Está em Chamas”.
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Publicado em: 26/06/26
De autoria: casadevidro247
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