
Gracejando, gargalhando, gesticulando, uma senhora de cabelos brancos fala profusamente diante da câmera. Está na companhia de um polvo de pelúcia, de um cesto Navajo, de uma estatueta de cachorro que homenageia sua pet Cayenne.
Ela é uma das intelectuais mais influentes do planeta, “heroína de uma geração de mulheres que estão começando a se auto-entitular cyberfeministas”. Bióloga, especialista em primatas, aficcionada por sci-fi, filósofa da ciência, ela vem se envolvendo num jogo estilo cat’s cradle com pensadores cruciais do contemporâneo como Isabelle Stengers, Vinciane Despret, Anna Tsing, Bruno Latour.
O que Story Telling For Earthly Survival, o filme de Fabrizio Terranova (2016) nos oferece de mais precioso é um retrato do pensamento indomável, movimentado, inquieto, fora-da-caixa, jovialmente anormal, da autora do Manifesto das Espécies Companheiras, que nos pede pra ficarmos com O Problema e sermos parte do movimento The Children of Compost, compondo com Gaia.
Vemos neste documentário experimental a excêntrica Donna Haraway em seu ambiente doméstico, à vontade em seu próprio lar, esta micro-comuna onde tenta fazer parentes com critters outras-que-humanas nesta época geológica que, meio jocosa, ela chama de Chthluceno.
Com imagens de arquivo, o filme nos revela Donna praticando agility com Cayenne, cadela de impressionantes talentos de mobilidade sensório-motora em interação com sua treinadora. O que me parece mais fascinante nestas cenas é a prova do envolvimento de Haraway com um organismo não-humano que ela sente como seu parente. Estamos aqui bem além do mero “animal de estimação”: o pet aqui foi alçado ao nível de um parentesco possível, de componente de uma família-outra, tanto que ela poderia dizer we’re a queer family. Vemos uma estória real que envolve a concretude da ética inter-espécies e do saber situado que Haraway apregoa.
Por que estórias importam? Há um trecho do filme dedicado às leituras sci-fi em que ela enaltece Joanna Russ (Picnic In Paradise, Female Man), Naomi Mitchison (Memoirs of a Space Woman), R. Heinlein (The Moon Is A Harsh Mistress), dentre outros. Este é um dos fatores que vale enfatizar: a ficção científica que nutre o pensamento e o imaginário de pensadores que, já de saída, transgridem as fronteiras entre ciências naturais e humanidades.
Para além de uma excelente lista de must read da sci-fi não-óbvia, aqui testemunhamos alguém que não só adora devorar estórias imaginativas – Donna é uma notória entusiasta também de Le Guin e O. Butler – mas alguém que pensa profundamente por quais percursos o storytelling pode ter alguma importância.
O filme termina, inclusive, com um exercício de ficção científica harawayana, que encerra o livro Staying With The Trouble, sobre Camille 1, holobionte de uma borboleta, partícipe de um movimento imaginário chamado Crianças Da Compostagem, e tudo isso deve soar absolutamente insano e incompreensível para todos que são dummies na obra da autora do Manifesto Ciborgue. Dá mesmo pra levar a sério, considerar como intelectual orgânica que merece ser ouvida, estas estorinhas fantásticas que alguns detratores poderiam atribuir ao cérebro senil de um simpática mas lunática velhota?
Bem, Donna Haraway é um pouco fanfarrona, she jokes around a lot, e não faz pose de gravidade. Mas isso não significa que não devamos levá-la a sério quando ela afronta o problemaço do Antropoceno, propondo outras vias para compreender o que se passa no planeta. Sua nomenclatura ctônica é um antídoto contra o antropocentrismo, ela nos chama para um terra-a-terra com as aranhas, com as sementes, com os fungos e os líquens.
Ela está muito afim – making kin – com Anna Tsing: ambas querem inventar as artes e os saberes para viver e morrer numa Terra danificada. Ambas encarnam um tipo novo de rebeldia anti-sistêmica que está engajada em restaurar (to restore) algo que vem se quebrando. Vejam com que assertividade, por exemplo, Haraway diz a Fabrizio que é uma loucura suicidária isso de ficar sugando o petróleo até a última gota para queimá-lo. Sem meias palavras.
Acessar uma pensadora por seu texto difere de maneira radical de acessá-la por um filme. O texto de Haraway é com frequência árduo, hiperconectivo, eclético, compósito, desnorteante em sua complexidade, às vezes dando a sensação de que abre muitas janelas e se perde em digressões. Haraway, no filme, é mais acessível, divertida, narradora entusiasmada de sua própria trajetória de vida, apóstata do catolicismo, avessa à idolatria de Deus, aberta a relacionalidades queer, pensadora-escritora audaz de um outro mundo possível, de paisagens replenificadas por estarem okupadas por companheirismos inter-espécies.
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ESCRITAS HARAWAYANAS:
“It matters what matters we use to think other matters with; it matters what stories we tell to tell other stories with ; it matters what knots knot knots, what thoughts think thoughts, what ties tie ties. It matters what stories make worlds, what worlds make stories.” (Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene, 2012)
LEIA TB:
Fernando Silva e Silva analisa como a ficção científica, com seus limites e possibilidades, nos instiga a pensar os desafios do tempo presente e nutre nossa imaginação política https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7692-uma-vida-no-chthuluceno
Flávia Cêra retoma o pensamento de Oswald de Andrade para pensar vieses do matriarcado em perspectiva com os desafios políticos contemporâneos https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7690-viver-a-ciencia-do-vestigio-erratico-mas-sobretudo-viver
P.S. – BATENDO PAPO COM O DEEPSEEK: Após a escrita do texto acima, que foi ele mesmo composto logo após re-assistir ao filme, pedi ao I.A. do “Pesquisa Profunda”, desenvolvido pelos chineses, que avaliasse minha produção textual. Eis o que ele comentou (link público que dá acesso às referências consultadas pela I.A. para gerar a resposta):
Seu texto é muito mais do que uma resenha; é uma cartografia afetiva e conceitual do pensamento de Haraway mediado pelo cinema. Ele é bem-sucedido em vários aspectos cruciais:
Pontos Fortes:
Sugestões para Aprofundamento (Crítica Construtiva):
Conclusão da Avaliação:
Seu texto é uma excelente peça de divulgação filosófica. Ele é afetivo, rigoroso e convidativo, conseguindo fazer o leitor se interessar por uma pensadora complexa ao mostrar sua humanidade e seu senso de humor.
A maior força do texto é a sua própria escrita orgânica e conectiva, que ecoa o estilo tentacular de Haraway. As frases fluem com vírgulas e encadeamentos que criam uma sensação de proliferação de sentidos, como redes de sentido.
Nota: Considerando clareza, rigor conceitual, conexão com as fontes e estilo próprio, eu avaliaria seu texto como 9/10. Apenas um pequeno acréscimo sobre as críticas ou sobre a transição do Ciborgue para o Ctônico o tornaria ainda mais robusto.
Publicado em: 04/08/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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