
Dados do TSE apontam que a “abstenção no 1º turno das eleições 2026 bateu recorde com 33,4 milhões de pessoas que não compareceram às urnas, representando 21,08% do total de eleitores. Ou seja, a cada 10 brasileiros aptos a votar, dois não compareceram às urnas.” Agência Brasil [1]
Trata-se também de um fenômeno que cresce a cada eleição, como destacou reportagem do G1 [2]: “o resultado dá continuidade à série histórica de recordes das últimas votações gerais:
2010: 24.610.296 eleitores (18,12%) não compareceram
2014: 27.697.667 eleitores (19,39%) não compareceram
2018: 29.940.386 eleitores (20,33%) não compareceram
2022: 32.739.676 eleitores (20,93%) não compareceram
2026: 33.469.244 eleitores (21,08%) não compareceram
Quando se juntam abstenções, brancos e nulos, o total de eleitores que não registraram um voto válido para presidente chegou a 39,4 milhões (24,8% do total). É óbvio mas vale ser afirmado: 40 milhões de cidadãos brasileiros não formam um bloco homogêneo. Nem todo voto branco/nulo é um protesto, e nem toda abstenção é um boicote.
Esse índice altíssimo de eleitores que se abstiveram ou invalidaram o voto abriu uma pequena e frágil janela de esperança no campo lulista, como se o segredo da vitória, da Virada, pudesse vir daí. Uma intensa campanha cívica está em curso – através, por ex., da plataforma ONDE DA PRA CONVERSAR – para persuadir estes eleitores a irem votar em 25 de outubro, mas quais as estratégias não apenas para convencê-los de comparecer mas também para que votem em Lula?
Em suma, vale refletir mais a fundo: quais seriam os motivos para estes quase 40 milhões de votos não computados ou inválidos, e qual a real chance de que eles possam agir como os mais importantes agentes da (improvável mas não impossível) Virada?
Uma parcela dessas pessoas pode ter agido de maneira individualista e conformista, com argumentos do tipo: “Ah, que preguiça de sair de casa no domingão! A multa é tão baratinha. Vou ficar com a bunda no sofá assistindo Netflix.”
Mas é preciso investigar mais fundo o fenômeno que o jornal A Nova Democracia nomeia de “boicote da farsa eleitoral” [2]. Ou seja, o fenômeno em foco seria sintoma de uma descrença no sistema político como um todo e também daquilo que eu chamaria de “niilismo axiológico”, a tese do “ninguém presta”, a nulificação da distinção entre as candidaturas através de um gesto niilista de negar qualquer valor ou mérito a ambos os campos. Uma boa crítica desta postura foi feita pela Martina Giovanetti neste vídeo [3]:
Talvez haja um significado político mais profundo no abstencionismo: ele expressaria o repúdio de uma imensa parcela da população por um cenário de polarização em que nenhum dos pólos opostos representa os anseios do eleitor “boicotante”, e este pode muitas vezes identificar-se com a esquerda radical revolucionária ou com o campo anarquista. O cidadão se recusaria a ir às urnas pois não se sente representado por ninguém e não quer se imiscuir num jogo da política institucional eleitoral do qual sente apenas repulsa. Trata-se de “não vote, lute pela revolução!” Sei que esta é uma fração muito pequena do eleitorado, e quase inaudível socialmente, e que na verdade os brasileiros que não foram as urnas talvez sofram, em sua maioria, muito mais de uma des-politização, de uma idiotia no sentido grego da palavra.
Há outros elementos em jogo a serem considerados no fenômeno: muitos eleitores podem ter experimentado obstáculos práticos para chegar até a urna. A distância física até a seção eleitoral e a falta de transporte público eficiente afetam diretamente as classes mais pobres.
Pode-se considerar também o trabalho no Domingo: muitas pessoas que compõem o mercado informal ou prestam serviços essenciais trabalham nas datas do pleito e encontram dificuldades para justificar ou se ausentar de seus trampos mesmo no dia supostamente destinado ao lazer.
Além disso, do ponto de vista da teoria da escolha racional, analistas avaliam que, se o valor da multa faz com que financeiramente compense mais faltar do que gastar com transporte e perder horas de folga na fila, o sujeito pode preferir ficar em casa (especulações baseadas em alguns escritos no Blog de Túlio Lemos, [3]). Além disso, vários tipos de problemas com o título eleitoral, ou seja, pessoas que se mudaram de estado ou de país e não transferiram o título; pessoas que perderam o título eleitoral físico e não souberam (ou não tiveram paciência) para tê-lo digital pelo app etc.
Mesmo sob o risco de ser considerado derrotista, devo expressar que me parece frágil esta esperança equilibrista numa Virada pela “conversão” dos que se abstiveram em votantes. Pois se aqueles que se ausentaram são mesmo politicamente apáticos, des-politizados, individualistas idióticos, dificilmente serão mobilizados; se são boicotantes, possivelmente estão firmes na rejeição tanto a Lula tanto quanto a seu adversário; se faltaram às urnas por barreiras, a mobilização pode reduzir a abstenção mas não garante voto em Lula.
REFERÊNCIAS
[3] https://anovademocracia.com.br/boicote-farsa-milhoes-luiz-inacio-flavio/
[4] https://youtu.be/vZYj9ymvafY?si=gDhXaBESdD0LI4mY
VEJA TB
https://www.instagram.com/reels/DeN-DlTqX1t
Publicado em: 09/10/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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