
A noção de “Popstar do Bem” desperta meu ceticismo tanto quanto a de “Bilionário Filantropo”. Como apertar o botão de reconfig nas minhas noções de pop-estrela benévola depois que Olivia Rodrigo (fortuna pessoal estimada em U$45 milhões) arrastou 45.000 pessoaspro seu mega-festival e consagrou-se como santa padroeira da filantropia feminista?

Quero tentar esclarecer um pouco da rabugice que sai pelas fuças de meu primeiro parágrafo. É que penso o seguinte: se você é um maldito bilionário, isto significa que você é um perverso acumulador de capital em um mundo onde centenas de milhões passam fome. Um usufruidor de privilégios descabidos e um sórdido devorador de bens-de-consumo supérfluos. Alguém que com certeza tem mais do que precisa ter. E este empilhamento de injustiças egoístas não é redimido pelo fato de você doar uns milhõezinhos pra caridade, como faz um cara como Bill Gates ou uma senhora como Melinda Gates – ela, que “sozinha” doou 10 dos 20 milhões arrecadados na Festa Flower Power rodrigueana.
Já se você é um popstar, você provavelmente é também um(a) bilionário(a) – ou encaminhando-se para lá. Valendo pra você o breve e não-exaustivo rol de escrotices que se aplica a esta figura que, numa perspectiva anticapitalista que me parece válida e necessária, não deveria nem existir caso quisessemos viver num planeta com justiça social. Bilionários deveriam ser um entulho aposentado, parte da história vergonhosa mas não de nosso presente. E Musk vai lá e vira trilionário – um escárnio.

Para tornar-se “estrela terrena” do showbizz, você precisou jogar as regras de um jogo apelativo e em larga medida perverso. Teve que apelar para a captura de massas através da isca do pop. Teve que conquistar o culto acéfalo e idólatra das massas memetizadas, enfeitiçadas por sua performática persona capitalizadora, como fez Taylor Swift. Que, eu não duvido, é o “modelo de negócios” em que Olivia se inspira, já que se tornou talvez a maior popstar musical do planeta, a Madonna dos zoomers, ao arrebanhar milhões de pessoas e de dólares para esta nova religião seguida pelos swifties. O bizz Swift e seu séquito de seguidores histriônicos foi excelentemente dichavada por Mugiatti num belo artigo pra Revista Piauí, A Big Sister do Pop – Culto a Taylor Swift é uma versão distópica das venerações musicais ao longo da história.
Mas… não quero seguir vomitando estas rabugices Adornianas de intelectual de esquerda, suspeito de despeito por ser impopular. Estou aqui traçando estas linhas, eu confesso, cheio de admiração pela proeza de produção cultural e mobilização cívica que foi capaz de consumar Olivia Rodrigo, a pessoa mais jovem na história a estrear uma single no primeiro lugar do Top 100 da Billboard (“Driver’s License”, lançada em janeiro de 2021, saiu quando a artista tinha 17 anos).
A proeza consiste também em fazer uma dúzia de bandas e artistas gigantes na cena musical anglosaxã aceitarem tocar sem cachê para que pudessem beneficiar 10 ONGs non-profit que lutam pelos direitos das mulheres e estiveram bem destacadas no Dandelion, o palco principal.

Nascida em Fevereiro de 2003, hoje com 23 anos de idade, Olivia Rodrigo deixa cravado no ano de 2026 o fato de que consumou um mega-feito com seu pop-estrelato. Após ter lançado um dos álbuns mais hype de 2026, you seem pretty sad for a girl so much in love, o terceiro de sua carreira, a cantora-compositora californianaencabeçou a produção deste festival de música em Irvine, Califórnia, em prol das “boas causas” que incidem sobre a condição feminina. Serviu para provocar também um pertinente debate sobre a cultura woke e a hegemonia do feminismo liberal branco.
Ao produzir e ser headliner do festival de atrações 100% femininas Daisy Chain Fields, ela levantou 20 milhões de dólares a serem doados para “entidades feministas” (ONGs e que tais) e assim fez história. O line-up foi muito impressionante: o D.C.F. congregou Bikini Kill, Chappell Roan, Devon Again, Die Spitz, Doechii, Eli, Garbage, Mitski, Not for Radio, Quiet Light, Rachel Chinouriri, Santigold, The Breeders, Sarah McLachlan, Stevie Nicks e Alanis Morissette.
Olivia inspirou-se no evento Lilith Fair, organizadopela canadense Sarah McLachlan (de 1997 a 1999). Esta interessante reportagem de Bruno Lisboa nos informou sobre um documentário que revela detalhes e testemunhos sobre o festival-semente que inspirou o empreendimento Rodrigueano:
“o projeto Lilith Fair colocou no mesmo palco o supra sumo da música feita por mulheres. No filme de Ally Pankiw, Sarah McLachlan, Paula Cole, Sheryl Crow, Brandi Carlile, Erykah Badu, Bonnie Raitt, Jewel, Indigo Girls, Mya, Natalie Merchant e Emmylou Harris estão entre as entrevistadas. Ao demonstrar que havia público e mercado para uma música liderada por mulheres, o festival ajudou a questionar uma indústria historicamente dominada por homens.” (Lisboa, 2026, no Facebook)

Quem quer que se dedique ao jornalismo cultural não pode se dar ao luxo de ignorar um festival desta magnitude e que vem merecendo análises dos mais importantes órgãos de mídia anglo-saxã: na New Yorker, descreve-se todo o frisson da Geração Z, que tem em Rodrigo e Billie Eilish alguns de seus mais fortes ícones, perante esta iniciativa: https://www.newyorker.com/culture/the-lede/taking-in-the-scene-at-daisy-chain-fields-the-zoomer-lilith-fair
Já na Pitchfork, outro artigo, de Lydia Wei, com tom gonzo descreve o calor da moléstia, as estações de hidratação, a revolta contra o ICE Trumpista, dentre outros elementos de um evento que teve por essência “a celebração da mulheridade em todas as suas formas” (a celebration of womanhood in all its forms) https://pitchfork.com/story/daisy-chain-fields-peace-love-unity-rodrigo/


Olivia Rodrigo é uma pop star com sabor cult. Em entrevistas, ela soa como uma fã de música indie: fã de The Cure, vem dividindo o palco com Robert Smith; fã de White Stripes, a maior e melhor banda de rock que testemunharam aqueles que eram adolescentes na aurora do século 21, esteve junto com Feist tocando quando o duo de Jack e Meg foi consagrado no Rock and Roll Hall of Fame; se lhe perguntam o que ela gosta de ouvir na música contemporânea, ela adora citar Waxahatchee; e posando pra fotos, esbanjando sensualidade e com umbiguinho à mostra, ela gosta de ostentar sua paixão por Kathleen Hannah e suas bandas Bikini Kill e Le Tigre.


Olivia Rodrigo de fato fez um discaço. Comecei por ouvi-lo com a soberba do crítico musical que quer conhecer o que causa tanto hype mas está predisposto a disparar flechas ferinas. Mas acabei razoavelmente conquistado pela beleza, pela vivacidade e pelos vários tons afetivos que constroem esta odisseia do amor, da finesse à fossa, dos inícios ingênuos às catastróficas rupturas, que constitui o fio de Ariadne de you look pretty sad for a girl so much in love, e assistir na sequência aos clipes de “Drop Dead” e de “The Cure” é experiência que recomendo.
Aí está evidente o cerne de tudo aquilo que atrai centenas de milhões para girar ao redor da órbita de Olivia Rodrigo, a encarnação de uma ninfeta branca como a neve, estilo menininha-dos-olhos da Disney, cantando emocionada e saltitante suas canções nascidas de seu consumo voraz de toda a história do pop e do indie, do mainstream e do underground, digladiando dentro do mesmo corpo com uma femme fatale que parece querer emergir, que parece querer se alçar, na história, a um status de uma Fiona Apple, de uma Regina Spektor, de uma Ani DiFranco (artistas imensas e com percurso fonográfico já consolidado).
Mas há muito que desperta meu ceticismo, ou mesmo meu cinismo, nesta estória toda da Corrente-do-Bem das Florzinhas Unidas. E mesmo que eu vá tomar muitas pedradas das rodriguetes, vou aqui explorar os porquês de minha rabugice. Esta é fácil de ser atribuída equivocadamente ao viés negativo de um homem branco com mais de 40 (um verdadeiro gerontocrata! Um velhote ressentido diante da jovem ninfeta e menina superpoderosa!).
Sim, Olivia está em todas as manchetes como alguém que vai doar 20 milhões pra caridade, palmas para ela!, mas… o que eu penso é que o valor de mercado da marca Olivia Rodrigo deve ter subido bem mais que 20 milhões de dólares após o D.C.F. Ela fez um baita investimento em si mesma e as graúdas da cena toparam. Shirley Mason topou. Alanis topou. A mina do Fleetwood Mac topou. Enfim, tá todo mundo topando ajudar a marca Olivia Rodrigo tornar-se imensamente rentável.
Eu queria ler jornalismo econômico sobre o showbizz que me contasse quanto a Srta. Rodrigo lucrou ao ver sua estatura pop-estelar alçar-se ainda mais alto no céu dos Ídolos, adquirindo ainda a aura, a auréola, a invisível coroa de santidade: ela é uma Grande Filantropa! Com um patrimônio de 50 milhões de dólares.

Outra coisa: é tabu, mas tem que ser dito – a moça tem consideráveis dons musicais, não nego, e sua voz é bonita e afinada (é só assisti-la ao vivo, ou no Tiny Desk, pra ver que não se trata de maquiagem de produção, de ProTools ou Suno photoshopando sua voz, a bicha caaaanta paca mesmo). Mas temos que admitir que Olivia Rodrigo é este boooom gigante também por sua aparência, because of her good looks, porque ela é muito gatinha e desperta tesões – Lolita do pop, pós-adolescente ainda apegada à ostentação da sensualidade teen, ela ainda tem uma persona cheia de charminho imodesto e imaturo. Não há sinal daquela densidade psíquica, daquela imensa paleta emocional, daquela inaudita capacidade de escrever letras de catarse das tormentas relacionais, que tornam Fiona Apple a verdadeira gênia de sua geração e aquela que, enquanto artista, lança uma sombra de gigante sobre Rodrigo.

Olivia ainda é uma compositora, aos 23, bem mais imatura do que Fiona era aos 17, quando fez Tidal, talvez a maior obra-prima da música pop já feita por uma mulher ainda proibida de tirar sua carteira de motorista. Nem Sour, nem Guts, nem o novo álbum, chegam aos pés de qualquer das obras-primas em sequência que constituem a discografia de Apple. Sou réu confesso na admiração incontida por Fiona Apple, e aqui esta obsessão se manifesta de novo – eu cometo a injustiça de achar Olivia Rodrigo uma artista “menor”, ainda que tenha feito este puta discaço em 2026, pois… Fiona Apple, aos 22, lançou When The Pawn…, um disco em que qualquer uma das 10 canções é melhor do que qualquer popsong que Olivia já tenha escrito.
O que sinto é que Olivia Rodrigo tem um sabor suspeito e enjoativo de Disneylândia, de Princesinha de conto-de-fadas, ainda que na capa de todos os seus álbuns esteja lá o selo que alerta os pais para “conteúdo explícito”. Não se trata de um parental advisory – explicit content por motivos políticos, ela não tem quase nada de subversiva, é que ela às vezes mete um fucking num verso banalmente clichê como “I still love you”.
O interesse de sua obra está sobretudo no tema da maturação de uma jovem mulher que decide expor seus sentimentos a um público de centenas de milhões sem esconder sua própria imaturidade e seus aprendizados com os tombos e quedas.
O charme irrestível de “Drivers License”, que fez deste um dos maiores hits do século (mais de 600 milhões de acessos tem seu clipe na YouTubeLândia), está justamente neste eu-lírico que transita da adolescência para a vida adulta, tendo por limiar a retirada da carteira de motorista; a melancolia na canção provêm do fato de a ninfetinha ingênua, crédula nas promessas do moço, vai se estabacar no chão da desilusão: acredito que ia de caranga encontrar o namorado, mas este a trocou por outra, uma loirinha mais velha, “you said forever and now I drive alone past your street.”

É difícil encontrar nas letras de Olivia quaisquer indícios de que ela entende da sociologia do abuso masculino, da masculina tóxica, da cultura do estupro, do mansplaining. Não posso evitar a sensação de que Olivia Rodrigo está trancadinha no confinamento compulsório do Feminismo Liberal e Woke. É claro que Doechii e Santigold, Bikini Kill e Garbage, trazem algo mais subversivo, punkish, enegrecido ao festival, mas Olivia mesmo parece não ter passado pela escola de Angela Davis ou Audre Lorde, não questiona os privilégios da branquitude, nem os honorários milionários que chovem sobre sua bela e sexy pessoa por motivos que transcendem a música e dizem respeito ao produto que ela é. Inclusive e sobretudo por auto-investimento.

Em um próximo capítulo, quero aprofundar os temas do woke e do neo-hippie que neste texto foram apenas aludidos, e que carecem de um debate mais aprofundado. Em síntese, eu quero reconhecer a estatura imensa que Olivia Rodrigo adquiriu no mainstream, reconhecer seu poderio e sua capacidade de captura tanto de audiência quanto de alianças na cena artística, mas quero espalhar um pouco de ceticismo crítico e salutar ceticismo diante de um pop-star multi-milionária tentando ser a Santa da Filantropia Feminista.
Suspeito que Sibilia suspeitaria que existem poucos espetáculos no mundo hoje que são tão Show do Eu quanto Olivia Rodrigo. Não existe nenhuma capa de álbum de Olivia Rodrigo que não contenha uma foto de Olivia Rodrigo, nem existe uma canção de Olivia Rodrigo que não fale dos sentimentos e vivência de Olivia Rodrigo, nem talvez haja nenhum eu lírico nestas poesias declamadas que não expressa a auto-obsessão de Olivia Rodrigo por si mesmas e sua tão fascinante vida de pessoa branca, rica e famosa.
Mas não seria a arte uma aventura muito mais fecunda quando o artista sai de si para vir a expressar seu interesse pelos outros, pelo mundo, por tudo o que ele não é, pelas contradições alheias e pelas teias relacionais daqueles que lhe são diferentes e estranhos?
Olivia Rodrigo, você é o máximo, mas tu não te moves de ti, e nesta roda-gigante narcísica você um dia pode vir a se estilhaçar na queda, como Amy ou como Kurt, quando perceber que o sistema te vomita – pois você envelheceu, como Demi Moore, ou pois cortou os cabelos e começou a cantar careca como Sinead. Olivia Rodrigo, te cuida, pois o pop-estrelato que tanto te deslumbra arrastou Marilyn Monroe para um túmulo precoce e pode te levar, te cuida querida, ao Clube dos 27, crucificada pelas mesmas forças que hoje tanto te incensam.



Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro, Goiânia, 09/09/2026
LEIA TAMBÉM: Hollywood Reporter –Variety – Rolling Stone.
Pitchfork dichavando as várias facetas da nova pop-star Olivia Rodrigo – “If you want to be a pop star, there’s the right way, the wrong way, and the way Olivia does it. The singer-songwriter is following her heart and squeezing every last drop of it into her songs. Amid a hurricane of an album rollout, we sit down with the 23-year-old to talk about the evolution of her career, her new music festival, Daisy Chain Fields, and, of course, writing about love.” https://pitchfork.com/features/cover-story/olivia-rodrigo-interview/
Publicado em: 10/09/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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