Amsterdam está sob ameaça de afundar como a mítica Atlântida descrita por Platão. Se a metrópole holandesa for mesmo pra baixo d’água, assim como boa parte dos Países Baixos, de Bangladesh e de várias ilhas e cidades costeiras (incluindo Miami e o Recife), não haverá volta. O irreversível e o irreparável existem. Se continuarmos com o business as usual e nossa normal apatia diante da catástrofe climática, Amsterdam is waving us bye bye: uma das civilizações mais sensacionais que a humanidade já forjou – talvez todo o magnífico quadrilátero do Randstad, composto por Amsterdam, Rotterdam, Utrecht e Den Haag, será um monte de ruínas exploráveis por submarinos.
É bem verdade que os holandeses há séculos tem experiência técnica de alta maestria com diques, e que a própria cidade majestosa que se ergueu em convívio íntimo com o rio Amstel tem DAM no nome pois sem elas, as barragens, não haveria possibilidade de florescimento de tal esplêndida cidade, abaixo do nível do mar. Lá, onde se concentram alguns dos maiores tesouros da história da arte e da arquitetura já forjados por nossa espécie, o derretimento das calotas polares coloca tudo em risco. Em virtude desta tensa conjuntura, eu especulo, os Amsterdammers estão entre as massas cívicas mais ativas no campo da justiça climática e berram pelas ruas, a milhares de vozes, em inglês (pra ver se o mundo, quite deaf to dutch, escuta): “the oceans are rising and so are we!”

Durante sua estadia na Holanda, onde foi pesquisador afiliado da ASCA-UVA (Amsterdam School for Cultural Analysis, na Universiteit van Amsterdam), fazendo um doutorado sanduíche enraizado na Filosofia da Arte na UFG, Eduardo Carli de Moraes documentou alguns destes rebuliços cívicos que agora começam a vir a público em uma série de pulsantes documentários independentes: WALKING WITH THE REBELS é um filme que retrata suas experiências junto com o Extinction Rebellion (XR) Nederlands, movimento social de desobediência civil e ação direta.
Em Fevereiro de 2024, quando já estava chegando a hora de voltar ao Brasil, o filósofo e jornalista, coordenador da @acasadevidro_pontodecultura , participou de duas ações de BLOCKADE (bloqueio de avenida) organizadas pelo XR na A10 de Amsterdam e na A12 de Den Haag. O dia 24 de Fevereiro de 2024 está documentado neste vídeo, incluindo entrevistas com ativistas, suas performances de música e dança no asfalto proibido, a profusão de faixas e cartazes conduzidos pelas ruas durante o cortejo e alardeados para os policiais e para as câmeras por ocasião da okupa.
O que ocorre sempre durante tais protestos é a prisão em massa dos manifestantes: a Politie dá três avisos, como se fosse no teatro antes do início da peça, informando que aquela aglomeração é ilegal; como a galera não vaza, os fardados começam a prender os manifestantes, algumas vezes arrastando-os pelo asfalto ou erguendo-os no colo; são enchidos vários busões da polícia com os insurgentes, que são fichados e forçosamente enviados para dezenas de quilômetros do ponto da manifestação.
O filme tem lágrimas e fúria, verve e lamento, é só abrir os sentidos para encontrá-los: nos olhos marejados de uma mãe que diz que tá no protesto porque se preocupa com sua filha de 3 anos, no riso desabrido de Bibi quando relata a proeza de ter sido presa duas vezes no mesmo dia, na audácia destes músicos da brass band que sopram seus saxes e trompetes ali onde os carros e caminhões costumam correr. Ao redor, gigantes prédios impassíveis, como da Uber, tudo observam com total insensibilidade – e talvez seus chefões comemorem, com certo gozo sádico, observando do alto, quando a tropa de choque esvazia a avenida dos arruaceiros.

Nesta ocasião, como profusamente registrado no documentário, um dos alvos era o banco ING. Um dos denunciados pela ONG FOSSIL BANKS, NO THANKS! (https://www.fossilbanks.org/), por investir dezenas de bilhões de euros em combustíveis fósseis, o ING é um dos maiores e mais poderosos bancos da Holanda. Atacá-lo é paradigmático de uma atitude que XR acredita que deva ser viralizada, proliferada, multiplicada: vocês sabiam que “desde o Acordo de Paris (2015), a indústria fóssil investiu US$ 8 trilhões em petróleo e gás”? A informação da ClimaInfo (https://climainfo.org.br/2025/11/11/desde-o-acordo-de-paris-a-industria-fossil-investiu-us-8-trilhoes-em-petroleo-e-gas/) mereceria ser recebido com revolta e ímpeto de mobilização; mas a maioria de nós boceja e segue com a vida como se nada fosse…
Este é um filme feito sem recursos a não ser aqueles da bolsa CAPES que permitiu que seu realizador morasse 6 meses em um dos epicentros globais da tragédia climática em curso. O filme certamente será prejudicado pelos algoritmos da Big Tech, cúmplices de todas as forças sociais que colocam nosso planeta em chamas. O potencial de que nutra um debate sobre táticas contemporâneas de combate à catástrofe climática existe, mas possivelmente será um filme sem repercussão na terra dos avestruzes e no globo dos negacionistas. Ainda assim, trazemos à público a obra, por amor a esta Amsterdam, tão esplêndida e tão ameaçada, e pelos louváveis rebeldes que tentam salvá-la no seio de Gaia em tormenta. Em breve, outro filme sobre ato similar em Haia e acerca da Marcha do Clima de Amsterdam, a maior já ocorrida na história do continente europeu.
Acompanhem www.acasadevidro.com
Carli, Janeiro de 2026
Foto de abertura: TOPSHOT – An activist is removed by police as during a demonstration by Extinction Rebellion outside the Overtoom in Amsterdam-West, as police move some of the 80 activits on, in Amsterdam on February 26, 2021. (Photo by Koen van Weel / ANP / AFP) / Netherlands OUT (Photo by KOEN VAN WEEL/ANP/AFP via Getty Images) https://www.gettyimages.com.br/detail/foto-jornal%C3%ADstica/an-activist-is-removed-by-police-as-during-a-foto-jornal%C3%ADstica/1231392962?adppopup=true
Aprecie tb:
SAIBA MAIS SOBRE A PREFEITA DE AMSTERDAM, Femke Halsema:
https://www.youtube.com/watch?v=1ohrh2mywUk
Publicado em: 20/01/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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