CUMPLICIDADE, ERRÂNCIA & CRIATIVIDADE COLABORATIVA
Goiânia, 13 de Novembro de 2025
Cara Trupe Tudo Nos Trinks:
Hoje decidi, meus cúmplices, fazer algo meio absurdo, demodé pra caramba, mas me aguentem: sentei pra escrever uma carta (ainda que cibernética) pra vocês. Pasmem! Quase ninguém faz uma loucura dessas hoje em dia, né meus caros destinatários e hoje também meus queridos amigos, Fabiano Ito e Raab Paula. Quis fazê-lo pois sou oldschool e tenho saudade das cartas que cheguei a remeter e que pude receber – pra brincar um pouco com as nostalgias da Blubell, eu diria que Eu Sou Do Tempo Em Que A Gente Se Escrevia.
Vou nesta cyber-carta tentar desvelar um pouco do que esta pessoa sentipensante tem vivenciado na companhia de vocês e porque esta nossa Trupe-em-metamorfose tornou-se uma daquelas entidades preciosas na minha vida, que a torna digna de ser vivida e mais fácil de ser amada.
Juntos já Cazuzeamos, já Cartolamos, já Afrosambamos, já Boogarinzamos, á MetáMetámeamos; já exploramos nossas tocadas de Pitty e Cássia Eller, de Paulinho Moska e Jorge Drexler… mas hoje juntos viramos, sem sombra de dúvida, uma força criativa coletiva e colaborativa. Deixamos os conceitos de banda-estudantil, de banda-cover, de banda-de-versões, comendo a poeira de nossa aceleração e avanço no rumo a uma expressão nossa, sui generis, de nosso próprio gênero. Trupe TnT: banda autoral com sabor próprio, com a nossa cara.

Lá se vão quase 4 anos de convívio desde que nos conhecemos como estudantes de música da Escola do Futuro em Artes Basileu França. Uma escola que já mudou minha e nossas vidas pra sempre, ouso dizer, e sem exagero, pois sem ela talvez nem tivéssemos nos conhecido e o mundo ficaria órfão, coitadinho, da Trupe Tudo Nos Trinks, esta banda que quase só a gente sabe o quanto é foda. Somos hoje esta banda autoral e alternativa emergente em uma Goiânia Rock City em que traremos algo com sabor lúdico, com uma poética que atravessa vários campos e linguagens, que abraça a declamação e a contação de histórias, mas nunca muito longe da pop song.
Na turma de canto coral com o prófe Jackson, o fenomenal (que canta tão bem quanto qualquer um dos Jackson 5!), tive as primeiras interações contigo, Raab: junto com o Igor, a gente se meteu a cantar em trio a Jubilate Deo, de Maureen Briare. Tenho uma foto daquela época em que estou com uma espinha cística inflamada toda horrenda no meio da cara. Mas a despeito da minha feiúra nela, esta fotinha encapsula uma memória muito boa de minhas primeiras vivências, já perto de fazer 40, do canto em coral.
Já tu, Fabiano Ito, hoje já por nós apelidado Fabito, te conheci guitarreando nas aulas do Rapha Gomes, e desde muito cedo senti por ti simpatia, conexão, admiração. Teu violão é tão bem tocado, tão preciso, tão impecável teu pulso, tão indefectível seu foco, que suspeito que tudo nos trinks é uma expressão que se adequa muito mais ao músico que você é do que a mim, que sou todo errante e cheio de arritmias, por culpa de um coração desassossegado e de uma mente em turbilhão.

Chegamos ao fim de 2025 como cúmplices num processo criativo impressionante que, no ano corrente, muito me impressionou: na lousa fixada nas paredes do estúdio d’A Casa de Vidro, já está a lista de nossas 12 músicas que devem figurar em nosso álbum de estréia.

Eu tô estarrecido demais com este surto criativo em que estamos surfando nosso barquinho, e olho para a trajetória já navegada com um senso de gratidão e de promessa. Em meio às atrocidades todas do mundo, e aos sentimentos às vezes opressores que nos agarram, como as ansiedades angustiantes e os perrengues econômico-políticos, é bom demais estar caminhando junto com vocês e sentindo-me assim, grato e confiante de que nosso disco está sendo parido e que tanto promete.
Tudo começou com “Sempre Sincera”, aquele teu indie-folk tão delicado, tão Mallu Magalhães e Clarice Falcão, o puro suco do fofolk, que eu tive o despropósito de me meter a estragar com versos proibidões e problematizações relacionais com o tema central da sinceridade desconcertante. Nosso prof. Ricardo Newton, de prática de conjunto, botou fé na canção, incluiu no repertório da turma, e acabou que fomos parar no RECITAL DE FORMATURA – foi massa demais sermos os responsáveis pela única apresentação de autoral daquela noite. Eis a crônica da ocasião:
Depois de “Sempre Sincera”, mais ou menos com a mesma personagem imaginada em outro momento de vida, nasceu “Alma Descabelada”, este frevo fodástico que tenta honrar Flaira Ferro e que tem uma letra que, vou contar pra vocês, parece um manifesto rebelde misturado com canção-narração. Eu queria ainda ver a galera se descabelar com ela em nossos shows. Teve um ensaio que gravamos um longo papo sobre as duas canções, seus significados, sua vinda-ao-mundo:
Já o “Busablues” é nosso blues-rock fodão, 1 dia na vida de um(a) trabalhador(a) no corre, incluindo todos os males e todos os caos da urbe, uma baita canção da hora. Modéstia à parte, eu acho que faz vários anos que não vejo um blues em português tão bom como este nascer. E depois veio “+ Rita Lee, – Ritalina”, um manifesto contra a medicalização da TDAH e uma homenagem à nossa amada e falecida (mas nunca fenecida) Mutante, lovely Rita, a maior artista do rock brasileiro ever. e veio a bela “Indumentária”, e foram vindo, foram vindo as crias…
Fabito e Raab, eu quero agradecer demais a vocês por estarmos caminhando juntos. Criamos um espaço lúdico e terapêutico onde cada vez me sinto mais confiante para poder errar. Talvez seja a pré-condição do acerto: sou daqueles que nasceu sem nenhum dom musical e que tem muita dificuldade em adquiri-lo, só avanço mesmo é na errância, na persistência, na transpiração. Por tudo isso tenho adesão entusiástica à doutrina errorista de Anita Tijoux, uma de minhas musas, e também hei de confessar que gosto muitíssimo daquela do Kid Abelha: “Sou errada, sou errante / Sempre na estrada, sempre distante /
Vou errando enquanto o tempo me deixar.” (“Nada Sei (Apnéia)”)
Eu venho tirando da gaveta, graças a vocês, canções que estavam lá, empoeiradas, sem pegar sol, a muitos anos. Trouxe as danadas à tona, elas que quase foram jogadas no lixo e esquecida: “Doida Pra Ser”, “Não Dou Conta De Te Contar”, “Seja Parte De Nós” são para mim canções ressuscitadas de uma quase-morte. Que bom que vocês me ajudaram a reanimá-las. Elas são muito melhores, agora que são nossas, do que eram quando somente minhas.
E também graças a vocês estou compondo algumas canções que estão entre as que mais me emocionam de todas que pude parir (não só, mas com vocês): “Artista É Quem Se Arrisca”, “Encruzilhadas”, “A Luz do Nosso Enlace” são poesias musicadas que pra mim tem conteúdo muito comovedor e através delas me expresso sobre os maiores dilemas, os maiores amores, os maiores medos da minha vida.
Hoje em dia, às quartas de noite, A Casa de Vidro é o palco da Trupe, logo após o Yoga, precedido pelo Lâmpada Mágica. E eu penso cá com meus botões de carne e osso (né mano Gil?) que tem gente que quer fazer música sozinho num quarto com ajuda de I.A. Eu cada vez menos me empolgo com música feita a partir de comandos a um cérebro eletrônico e me empolgo cada vez mais com a música orgânica, nascida da parceria que se tece no encontro presencial. Hoje, eu, Raab e Fabito somos o núcleo duro da Trupe mas a gente também chama: seja parte de nós, nome de uma versão para “Piel” do Perotá que estamos arranjando. A gente quer chamar vocês prum ensaio aberto, prum sarau, prum evento, vocês viriam com a generosidade da escuta, com o interesse de entender nosso processo? Essa carta já ficou maluca, já estou com outros destinatários em alvo… carta aberta, carta entregue aos cyber-mares da internet, e que termina por dizer:
Raab, Fabito, massa demais estarmos trupando juntos, trampando tão massa, na aventura da co-laboração: tô feliz de verdade com nossas crias, e bora gravá-las! Nossos ensaios me revigoram, e mesmo quando estou nas garras da ansiedade ou meio borocoxó, a Trupe é meu remédio, melhor que qualquer rivotril ou ritalina. Raab, obrigado por teu astral, animado e iluminante, e por tua dedicação à educação artística multifacetada que você vem buscando, no Basileu, na EMAC-UFG, e também através de Cia Caju, Mascaranas e Trupe TnT; solte o canto, o conto, o verbo, pois tua expressividade merece vazão. Fabito, obrigado por teu astral, animado e iluminante, e por tua dedicação incrível à Trupe, aos nossos arranjos, às cifras, à programação de beats, às ensaiadas e gravações – tudo isso é precioso beyond words; e obrigado também pela generosidade imensa com que, neste último trimestre de 2025, na nova sede d’A Casa de Vidro, você ajuda na sustentação do espaço e no apoio a seu às vezes combalido e amedrontado coordenador.
Com muito afeto e “errando enquanto o tempo me deixar”, me despeço, re-forçando que “artista é quem se arrisca” e que tá sendo muito legal me arriscar com vocês; que sigamos riscando no canvas do destino nossos arriscados acordes, versos e cantorias!
Edu.

UM POUQUINHO DE NOSSO PROCESSO RECENTE NA CASA DE VIDRO:
SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA…
Trupe Tudo Nos Trinks foi formada originalmente por estudantes do curso de música da Escola do Futuro em Artes Basileu França, em Goiânia, que se reúnem em A Casa de Vidro Ponto de Cultura para estudar juntos e tocar um repertório de canções brasileiras e de latinidades, sobretudo no âmbito do Rock e da MPB, com versões de Cartola, Baden Powell & Vinícius de Moraes, Cazuza, Jorge Drexler & Paulinho Moska, dentre outros. A formação original incluía José Fabiano Ito: @josefabianoito: violão e backing vocal; Raab Paula: @paraabula: voz; João Gabriel @joaogabriel1914: bateria e percussão; Eduardo Carli de Moraes: @educarlidemoraes: guitarra e violão. A banda passou por outras formações, incluindo um período com Willian Haubert e Emi (ambos hoje integrantes dos Fritos da Terra), e contamos ainda com colaboração eventual de Ítalo Duarte do Lâmpada Mágica.
Apreciem nossas primeiras gravações em vídeo:
BADEN E VINICÍUS – Canto de Ossanha
CARTOLA – Alvorada e As Rosas Não Falam
DREXLER E MOSKA – A Idade do Céu
INSTA: https://www.instagram.com/trupetudonostrinks
Nossa Playlist no YOUTUBE: https://www.youtube.com/playlist?list=PLatC4gvi1ec-IRStScjnpb8wjpe0zVlj5
Publicado em: 12/11/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia