DO LUTO À LUTA: “Eles podem cortar todas as flores, mas não vão deter a primavera?”

Podemos tentar nos consolar com os bálsamos da poesia. Podemos evocar Neruda e dizer que “eles podem cortar todas as flores, mas não vão deter a primavera”. Podemos invocar um batalhão de metáforas e, como os mexicanos chorando a chacina dos 43 estudantes, confortar nossas angústias diante dos caixões de Marielle e Anderson dizendo: “tentaram enterrar vocês, mas não sabiam que vocês eram sementes.”

Podemos “acender as velas”, afinal isso “já é profissão”, como diz o samba triste de Zé Keti, e no velório da companheira podemos nos instigar a acender as chamas da insurreição. Podemos pregar que o sentimento de luto deve ser elaborado, o mais rápido possível, para que seja mobilizado nas lutas que o tempo histórico que de nós exige, mas do luto à luta há um abismo – e saberemos criar esta ponte? Como se faz a travessia do luto como substantivo, e tão melancólico, ao luto como verbo, e tão aguerrido?

Podemos pegar em nossas mãos molhadas de lágrimas o destino estraçalhado de Marielle e tentar erguê-la ao pedestal dos símbolos, dos emblemas, dos mártires. Podemos até mesmo re-desenhar, pela via da arte, o Rio de Janeiro do cartão-postal, de modo a chutar o Cristo Redentor para escanteio e pôr em seu lugar uma mulher negra periférica que está crucificada em meio a uma Baía de Sangue. É o cartão-postal que o Rio merece nestes dias que se seguiram ao Dia Internacional da Mulher de 2018.

Podemos, e devemos, fazer com que esta voz que foi calada a balas possa reverberar – pois o nosso silêncio seria a vitória dos assassinos. Podemos tentar fazer esta cabeça cortada do tronco ser como a da mítica hidra. Que milhares de cabeças possam falar, em alto e bom som, o que Marielle falava com sua coragem ímpar; ecoando suas pautas, continuando suas lutas, dando sequência a seu legado, inspirando-nos em seu exemplo, faríamos com que sua morte não tivesse sido em vão.

Mas mesmo com tudo isso que podemos fazer, e não sei se faremos, o momento histórico é desconsolador. Se a democracia já respirava por aparelhos, as 4 balas que estraçalharam o crânio de Marielle Franco já levaram o que sobrava de vida na combalida democracia brasileira para o beleléu. O nosso faro fareja fascismo neste crime hediondo. Uma execução política que besunta de sangue a linha do tempo e estabelece um marco muito visível: a partir daqui começa de vez o que Rubens Casara vem chamando, desde o golpe de 2016, de “Estado Pós-Democrático”.

A monstruosidade humana escancarou de novo sua face horrenda – esta, que de tanto se manifestar, acaba por nos parecer banal e normal. Calaram com brutalidade a vida ainda em flor de Marielle Ramos e não existe cura para a ausência no mundo que este crime acarretou. Nas manifestações oceânicas que tomaram as ruas em 15 de Março de 2018, mostramos de fato alguma força de reação e resistência, salutar contra o perigo também horrendo da apatia e da desistência.

Houve até quem nutrisse esperanças de que vinha aí uma maré de mobilização similar às Jornadas de Junho de 2013. Eis nossa velha tendência a buscar compreender um presente inédito com categorias forjadas com a experiência pretérita, sem aceitar que os Junhos de outrora não voltarão, e que o que há por vir nunca dantes esteve aqui.

E pode ser que o porvir seja pesadelo. Pode ser que a lei de Murphy que postula “nada é tão ruim que não possa piorar” vá valer aqui. As mídias sociais, se tem o potencial de articulação e ferramenta de mobilização que Manuel Castells analisou em Redes de Indignação e Esperança, também podem ser uma descida ao Hades da monstruosidade humana. Contam-se aos milhares os internautas que se manifestaram celebrando o assassinato de Marielle, dizendo que ela “merecia mesmo ser degolada”, argumentando “quem mandou defender bandidos?”, prometendo que no futuro, sob a presidência do “Bolsomito”, “não vai sobrar nenhum socialista vivo”. Nem nenhum indígena. Nem nenhuma preta metida a besta que fica se metendo em política…

De onde esta gente tira esta capacidade para o ódio mais sectário, de onde tira a sem-vergonhice de tirar seu fascismo do armário e desfilá-lo em praça pública como se fosse fantasia carnavalesca, e não uma feiúra horrenda? Como pôde uma doutrina de tamanha intolerância e desprezo pela diversidade humana tomar conta, feito uma epidemia, de uma parcela tão grande da população brasileira, a ponto de Bolsonaro estar prestes a receber alguns milhões de votos nas urnas?

Não seria tão preocupante se houvessem uma meia dúzia de políticos fascistas por aí, o que é preocupante é o tamanho dos fã-clubes. E preocupante é a estupidez atordoante desses que defendem posturas racistas, supremacistas, militaristas, machistas, homofóbicas, fundamentalistas, e que não tem o mínimo senso de decência, a ponto de cagarem palavras desumanas nas redes sociais com seus aplausos aos algozes de Marielle. Diante dessa gente, de fato vira problema filosófico a questão colocada por Márcia Tiburi: “Como Conversar Com Um Fascista?” Diante da catarata de burrice que eles manifestam, ficamos tentamos à zueira que Millôr Fernandes fazia: tem muita gente em quem “a boca é o aparelho excretor do cérebro”.

É em momentos históricos assim que podemos compreender melhor o que Hannah Arendt quis dizer quando, em seu diagnóstico sobre a Solução Final, o Holocausto, os horrores do III Reich, elencou entre as causas da catástrofe a “irreflexão”. Estes milhões que se dizem eleitores de Bolsonaro, já pararam para refletir no que significa dar seu aval a um sujeito que faz o elogio público do torturador e carrasco Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”? Onde foi que tantos de nós perdeu sua humanidade a ponto de somar forças com um estúpido apologista da tortura e da crueldade?

Que tipo de retumbante fracasso da Educação no país explica que existam tantos defensores do militarismo, mesmo após os inúmeros horrores perpetrados pelo terrorismo de Estado durante a noite de 21 anos inaugurada pelo golpe de 1964? Onde fracassamos tão feio a ponto da cegueira ter atingindo dimensões de Praga Saramaguiana?

A ponto de um batalhão de agentes da banalidade do mal ficarem pregando de suas cyber-bolhas que “bandido bom é bandido morto” e que “direitos humanos são para humanos direitos”, justificando assim chacinas e genocídios contra uma parcela da humanidade que é considerada desprovida do “direito a ter direitos” de que fala Hannah Arendt. E estamos em pleno horror de ascensão do fascismo sempre que uma parcela da população é considerada “matável”, estigmatizada como Escória do Mundo (ver o excelente livro de Eleni Varikas), disponibilizada para os massacres administrativos…

Já Marielle era a renovação em ação, a participação política popular em estado concreto, uma exuberante força da natureza, toda resiliência e ousadia. Uma daquelas mulheres que entrará para a história ao lado de Carolina Maria de Jesus, de Dandara, de Angela Davis, de Audre Lorde, de Nina Simone etc. Flor-afro crescida na Maré, guerreira pelo conhecimento que se formou em Ciências Sociais na PUC-RJ, pesquisadora tenaz da segurança pública, da violência urbana, das UPPs e das intervenções militares, Marielle escolheu a via da política e agora sua travessia foi brutalmente encurtada. Nunca saberemos que futuro ela poderia ter forjado se tivesse sobrevivido.

Uma pessoa iluminada por suas vivências, pelos amigos e parentes que viu sofrerem lutos e perdas, educada na escola tétrica das chacinas, a Marielle pôs mãos à obra, não quis ser espectadora, entrou de cabeça na política institucional. E triunfou nela, sem nunca se encerrar no âmbito restrito das instituições e seus muros – pouco antes de morrer, estava num encontro de Mulheres Negras Que Movem Estruturas.

Eleita com mais de 50.000 votos para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro pelo PSOL, em 2016, em sua primeira fala naquela Casa declarou-se seguidora da Filosofia Ubuntu. Seu lema de campanha – e de vida – foi “eu sou porque nós somos”. Filiava-se a esta sabedoria africana, propagada entre ocidentais por Nelson Mandela e Desmond Tutu. Defendia uma sociedade que enterrasse o apartheid, a continuação da segregação racial e do genocídio continuada dos negros, pobres, periféricos. Lutava por construir uma sociedade do ubuntu – da partilha, da participação, da solidariedade, da generosidade, do compartilhamento, da confiança, da união fraterna, do façamos juntos. Ninguém é, todos somos.

“UBUNTU é também uma maneira de dizer: ‘minha humanidade é ligada inextricavelmente à sua’ ou ‘nós pertencemos ao mesmo ramo de vidas’. Nós temos um princípio: ‘um ser humano existe somente em função de outros seres humanos’. É muito diferente do ‘penso, logo existo’ de Descartes. Isto significa antes que: ‘eu sou humano porque faço parte, participo, partilho’.

Uma pessoa que tem o UBUNTU é aberta e disponível, valoriza os outros e não se sente ameaçada se os outros são competentes e eficazes, na medida em que ela possui uma confiança que se alimenta do sentimento de que ela pertence a um grupo e que ela se sente rebaixada quando os outros são rebaixados, humilhados, torturados, oprimidos ou tratados como menos que nada.” – DESMOND TUTU

Dirão que estou idealizando a falecida – que, aliás, não conheci pessoalmente, e cujo trabalho não acompanhava de perto antes de que esta execução a colocasse nos holofotes do Brasil e do mundo. Talvez seja verdade, mas este ideal também serve como bálsamo nestes tempos sombrios. E como disse John Lennon, “you may say I’m a dreamer, but I’m not the only one.” O oceano de gente que saiu às ruas após o assassinato de Marielle também compreendeu que era preciso que ela saísse da vida e entrasse na história – e que o faria como ideal. Ideal de mulher empoderada, de feminista negra, de defensora dos direitos humanos elementares, de ser humano engajado na vita activa e na esfera pública, jamais se calando diante das múltiplas opressões e injustiças de que o mundo está repleto.

Nestes tempos em que o Brasil parece um pesadelo do qual nos esforçamos em vão por acordar, Marielle se tornou para nós a mártir que nos inflama os afetos da indignação, da rebeldia, da ânsia transformadora, sem os quais jamais construiríamos a ponte que vai do luto à luta, nem jamais cultivaríamos os jardins que fariam florescer novas primaveras após termos tantas flores massacrados pelas fardas e pelos tanques.

Marielle Franco, presente! Hoje e sempre.

Eduardo Carli de Moraes | A Casa de Vidro | 17/03/2018

 

Leia também:

“A PRIMAVERA DO DRAGÃO – A Juventude de Glauber Rocha”, um livro de Nelson Motta (#LivrariaACasaDeVidro)

31724_

Glauber Rocha (1939 – 1981) com sua primeira filmadora, uma Arriflex, comprada no Rio de Janeiro

por Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro

Se tivesse vivido apenas 25 anos, Glauber Rocha já teria merecido um lugar de destaque na história do cinema mundial. Em A Primavera do Dragão (disponível na Livraria A Casa de Vidro), Nelson Motta revela os detalhes da trajetória fulgurante do cineasta, do berço baiano até a consagração em Cannes com Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963).

Nesta biografia da juventude de Glauber, que inclui fotografias da época, o leitor tem acesso ao “retrato vivo de um cineasta tão genial quanto precoce, liderando uma geração ousada, abusada e transgressora, arrombando as portas do Brasil moderno.”

Através de um livro que assemelha-se a um romance de formação, Motta “refaz o lastro de cumplicidades raras, como a que Glauber cultivou com sua turma de amigos: João Ubaldo Ribeiro, Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos, Luis Carlos Maciel e muitos outros, quando eram jovens e explodiam de ousadia. Criativos, libertários, politizados. Querendo mudar o cinema e o mundo.” (Ed. Objetiva, 2007, Compre já!)

img_home

capit_es_de_areiaNascido em 1939, em Vitória da Conquista, a 500km de Salvador, filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e de Lúcia Mendes de Andrade Rocha, o pequeno Glauber cresceu sob o impacto e a influência da literatura e do cinema que devorou desde a pré-adolescência. Em tenra idade,

“já havia lido Capitães da Areia e Terras do sem-fim, de Jorge Amado, que o empolgaram pelos personagens populares e a linguagem forte. Leu Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Rudyard Kipling. Adorou O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, mas o que mais o impressionou foi O Ateneu, de Raul Pompeia, memórias de um garoto em um internato, como ele. Também começou a se interessar por filosofia, nos livros populares de Will Durant, que contavam a história das principais escolas filosóficas em linguagem acessível. Logo falava com desenvoltura sobre Nietzsche, Schopenhauer e Voltaire, que os colegas nem imaginavam quem fossem.” (p. 41)

 Com 9 anos de idade, Glauber e a família mudam-se para Salvador, que em 1949 era uma metrópole de 400 mil habitantes, vários cinemas, sambas-de-roda, candomblés. O pequeno Glauber, muito interessado por teatro, monta no Colégio Dois de Julho sua primeira peça, El hilito de oro (O Fio de Ouro), escrita em espanhol, com ação que se passava em Cuba (p. 33). Aos 12 anos, vivencia a dor do luto pela morte de sua irmã Ana Marcelina, que aos 11 anos é derrotada pela leucemia, o que abala o pai Adamastor, previamente ferido gravemente na cabeça em um acidente (p. 39).

 Intensamente conectados ao cenário cultural de Salvador, Glauber e seus amigos mais próximos são impactados pela poesia de Gregório de Matos e de Castro Alves – este, símbolo de precocidade e genialidade, já que falecido aos 24 anos de idade. Poetas contemporâneos como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Murilo Mendes, Mário Faustino, dentre outros, também inspiram Glauber e outros jovens baianos, empolgados com criação artística e escrita criativa, que começaram a realizar os eventos poéticos das Jogralescas. O cinema de Rosselini, Buñuel, Visconti, Einsenstein, Fritz Lang, dentre outros, também influencia profundamente a sensibilidade do jovem Glauber, que começa a escrever e publicar críticas de cinema.

inherit-the-wind-one-sheetSua estréia como crítico foi com o artigoStanley Kramer, a salvação de Hollywood”, dedicado ao diretor de Inherit the Wind (1960) Julgamento em Nuremberg (1961), dentre outros, além de produtor do western Matar ou Morrer – High Noon (1952) e do clássico, estrelado Marlon Brando, O Selvagem – The Wild One (1953)

Nos anos 1950, Glauber também acompanha os debates e polêmicas envolvendo filmes como Rio 40 Graus (1955), primeiro longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos, e O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz. Sobre este último, Glauber realiza uma crítica-escracho da mise-en-scène, que acusa de ser “macumba para turista, uma folclorização da violência e da miséria.” (p. 59)

Já o filme de Nelson Pereira, censurado e proibido em todo o território nacional, é defendido por Glauber e seus comparsas, que escrevem manifestos em apoio à obra. Um dos generais que exercia a Chefia da Polícia havia justificado a censura a Rio 40 Graus dizendo que “exibia apenas aspectos negativos da vida brasileira” e “manifestava idéias comunizantes, como o incitamento à luta de classes e à degradação da família e dos valores cristãos.” (p. 73)

A despeito da perseguição e proibição oficiais, Rio 40 graus acabou sendo distribuído pela Columbia Pictures e a música-tema que inaugurava o filme, “A Voz do Morro”, de Zé Keti, virou um mega-hit nas rádios. Vencendo a luta pela liberdade de expressão, arrastando multidões ao cinema e expressando uma nova estética, o filme foi essencial à formação do jovem Glauber Rocha e muito significativo como inspiração para todo o Cinema Novo: “como propunha o neorrealismo italiano, o filme de Nelson colocava o povo nas telas. Pobres, negros, marginalizados, atores populares, sob a luz bruta e ofuscante dos trópicos, em favelas e trens suburbanos, histórias de luta e solidariedade, dramas e comédias do cotidiano carioca.” (p. 74)

400px_cp0592_11_25Na época, como relata Motta, a Universidade da Bahia  havia se transformado em um”moderno centro irradiador de arte e cultura, que os mais entusiasmados chamavam de Renascença Baiana”, devido ao reitor Edgar Santos e uma “verba milionária da Fundação Rockefeller” (p. 116).

Aprovado no vestibular para a Faculdade de Direito, Glauber Rocha ganha como recompensa uma viagem para o Rio de Janeiro, onde comprará sua primeira filmadora Arriflex, com a qual rodará seu primeiro filme, aos 19 anos de idade, o curta-metragem experimental Pátio (1959), “experiência narrativa radical”, “influenciado pela poesia concreta” (p.160), estrelado por sua musa e primeira esposa Helena Ignez.

A prioridade de Glauber, enquanto universitário, não foi o estudo de Direito – ele tomou altas bombas e zeros nas provas… – mas sim a prestigiada revista Ângulos  (da qual também participava seu amigo João Ubaldo Ribeiro). Glauber também participava da revista estudantil Mapa, exercitando a veia jornalística que já havia exercitado falando no rádio no programa Cinema em Close-Up. 

Em janeiro de 1958, Glauber e seu amigo Joca “partiram para uma viagem de estudos e reconhecimento da realidade nordestina. Passaram por Alagoas e Pernambuco, pelos cenários de José Lins do Rego e Graciliano Ramos, e chegaram a Caruaru, para conhecer a maior feira do Nordeste e a celebrada obra em cerâmica de Mestre Vitalino.” (p. 131)

No mesmo ano de 1958, em que a seleção brasileira de futebol faturava sua primeira Copa do Mundo, brilhando na Suécia com os lances de Garricha e Pelé, “dois artistas baianos sacudiram o país: Jorge Amado com Gabriela, cravo e canela, (…) e João Gilberto, com o lançamento de Chega de Saudade.” (p. 153) Glauber já enxergava o cinema como “arma” e queria “flagar o caos bakuniniano na Bahia” (p. 156).

capabarravento

1962 foi um ano glorioso para o cinema brasileiro: inspirado em peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas (1962)de Anselmo Duarte, foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes. No mesmo ano, Glauber Rocha lançava seu primeiro longa-metragem, Barraventofilmado na praia de Buraquinho, a 2 horas de jipe de Salvador. “Glauber não estava familiarizado com o mundo do candomblé e seus rituais, que tinham imensa importância no filme. Quem o orientou nos mistérios e segredos dos orixás foi o jovem pai de santo Hélio Oliveira, também um talentoso artista plástico.” (p. 128)

“Em Barravento, o candomblé seria mostrado por Glauber como o avesso da visão europeia da macumba para turista, com toda a sua força e autenticidade, na beleza selvagem de seus rituais, mas também criticado como um ópio do povo, que o alienava e imobilizava pelo misticismo e o impedia de se conscientizar de sua força e de seu papel revolucionário. (…) Glauber dizia que as suas cenas preferidas não eram as do candomblé, mas as dos pescadores na puxada da rede, na luta contra a fome e a opressão.

Glauber fez um longo artigo sobre o filme, publicado no Diário de Notícias, dizendo que Barravento era uma vigorosa denúncia social e uma afirmação do povo negro. ‘Sou apaixonado pelos costumes populares, mas não aceito que o povo negro sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística. Barravento é um filme contra os candomblés, contra os mitos tradicionais, contra o homem que procura na religião o apoio e a esperança.'” (p. 219, 269)

deus-e-o-diabo-na-terra-de-ninguem-html

COMPRE: NELSON MOTTA, A Primavera do Dragão – A Juventude de Glauber Rocha

Glauber, com Barravento, havia demonstrado toda a potência de um cinema que muito havia aprendido com o neorealismo italiano, com a estética soviética (Eisenstein, Vertov etc.), mas também com a literatura, o teatro, a poesia. Glauber aproximava-se também a um procedimento vizinho do documentário, do filme etnográfico, em estilo depois exercido à maestria por um Jean Rouch (Eu, um Negro) ou uma Maya Deren (The Four Horsemen – Living Gods Of Haiti). Anos depois, mais maduro como artista, realizaria mergulhos ainda mais profundos em uma estética da “imersão” cinematográfica na alteridade cultural, na diversidade humana em flor, em cenas memórias de O Leão de Sete Cabeças ou Idade da Terra. 

Glauber parece filmar na plena consciência de que a arte cinematográfica já havia sido revolucionado tanto pelos planos épicos de massas em levante, como em Outubro, A Greve e Encouraçado Potemkin, todos filmes de Eisenstein, e que o “povão” pobre e oprimido já tinha ganhado direito de cidadania na telona (com Ladrões de Bicicleta, de De Sica, servindo como filme-emblema). Diante de Barravento, François Truffaut, que assistiu-o no Rio de Janeiro, ficou comovido com o talento do iniciante, além de impressionado com outro filme que acabara de estrear e já causava um baita bafafá: Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Um crítico inglês, Richard Roud, diria de Barravento: “imaginem o inimaginável, uma combinação de La Terra Trema de Visconti e do Tabu de Murnau.” (p. 273)

No Brasil em que Glauber começou a sua carreira como cineasta, o cenário vivia borbulhante de novidades como o filme colaborativo Cinco Vezes Favela, co-produzido pelo Centro Popular de Cultura da UNE. “A visão política do CPC”, escreve Motta, era de “usar a arte para conscientizar o povo explorado e uni-lo para a revolução. Era esse o papel do intelectual no cinema. Nem diversão, nem entretenimento, nem romance ou fantasia, ou qualquer arte burguesa, o cinema era uma arte revolucionária para transformar a sociedade e mobilizar as massas oprimidas.” (p. 253)

Ideário Brechtiano, que Glauber soube aplicar à realidade nordestina, realizando com maestria algo que, no âmbito da literatura, só gênios como Guimarães Rosa ou Jorge Amada lograram fazer a contento: realizar uma obra-de-arte que, ainda que enraizada profundamente em um contexto local, tem vocação para a universalidade, tem algo a dizer a qualquer ser humano, como é certamente o caso de Deus e o Diabo na Terra do Sol, segundo filme do jovem Glauber e certamente uma das obras-primas na história do cinema global.

cover

Por muito tempo chamado de A Ira de Deus,  Deus e o Diabo na Terra do Sol é centrado na história do “vaqueiro Manuel, explorado e humilhado, que mata o Coronel e foge com a mulher, Rosa, primeiro para o fanatismo religioso, e depois para o cangaço. Glauber tinha duas opções para o final, a primeira mais política, com o vaqueiro Manual, depois de se tornar um místico e um cangaceiro – e se frustrar nos dois caminhos -, encontrando o seu destino e se engajando na luta das Ligas Camponeses; a outra era mais poética, em aberto, com Manuel e Rosa fugindo da sua miséria, da miséria do sertão, e correndo até alcançar o mar…” (p. 280)

A parceria de Glauber com Walter Lima Júnior trouxe transformações ao projeto Deus e o Diabo na Terra do Sul – a música, por exemplo, seria a princípio de Brahms e Beethoven, contrastando com os cenários do sertão nordestino, mas Walter Lima convenceu Glauber que Villa-Lobos era uma melhor opção. Complementada com as canções originais de Sergio Ricardo, a trilha sonora de Deus e o Diabo estava muito mais enraizada na brasilidade do que no início do projeto. Ele se mostraria um verdadeira expedição ao “coração místico do sertão baiano”, a região de Monte Santo, repletas de lendas e mistérios.

“Fundada no fim do século XVIII por um padre capuchinho, na mesma região da Canudos de Antônio Conselheiro, a vila de Santíssimo Coração de Jesus de Nossa Senhora da Conceição de Monte Santo tinha fama de cidade sagrada e logo se tornou um centro de romarias, atraindo multidões de peregrinos. (…) Entoando benditos e ladainhas, eles percorriam, muitos de joelhos e com pedras na cabeça, os 3 km de caminho de pedra até o santuário, 500 metros acima da cidadezinha. (…) Monte Santo tinha cerca de 1.000 habitantes e os mais velhos ainda se lembravas dos tempos de Lampião e Antônio Conselheiro.” (p. 295-300)

Othon Bastos em "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Othon Bastos em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”

Selecionados para o festival de Cannes, Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha e Vidas Secas de Nelson Pereira concorreriam pela Palma de Ouro em um momento histórico turbulento para o Brasil: era 1964, nos últimos tempos do governo de João Goulart (Jango), e quando Deus e o Diabo foi exibido numa sessão só para jornalistas, em uma première carioca,

“o país estava pegando fogo. No dia 13 de março, véspera do aniversário de Glauber, o Rio de Janeiro parou com o grande comício da Central do Brasil, convocado pelas lideranças sindicais e estudantis em apoio às Reformas de Base propostas pelo governo João Goulard, que transformariam radicalmente o Brasil. Eufóricos e animados pelo fervor cívico, Glauber, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Walter Lima Jr e outros jovens revolucionários chegaram empolgados à praça, tomada por mais 150 mil pessoas com faixas e bandeiras, gritando palavras de ordem e refrões. Ouviram emocionados os discursos inflamados dos governadores Leonel Brizola (RS) e Miguel Arraes (PE), do líder comunista L. C. Prestes e do presidente da UNE José Serra, apoiando as reformas que, imaginavam os rapazes do Cinema Novo, eram o início da transformação do Brasil em uma república socialista tropical como Cuba. (…) A multidão explodiu quando Jango anunciou o decreto da reforma agrária, que desapropriava todas as grandes propriedades à margem de ferrovias e rodovias federais. E depois a nacionalização das refinarias de petróleo…” (p. 322)

Em 25 de Março, Glauber pegou o avião para Paris, a caminho do festival de Cannes. O golpe de Estado de 1964 ocorreria com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos fora do Brasil – quando eles retornaram, o general Castelo Branco já será o novo presidente. No Rio, “um grupo de intelectuais comunistas avaliava a situação e fazia previsões sobre o tempo que os militares ficariam no poder: os mais otimistas falavam em um mês, os pessimistas em um ano.” (p. 329) Mesmo após ter realizado duas obras-primas cinematográficas, Barravento Deus e o Diabo na Terra do Sol, celebradas pela crítica internacional e que conquistaram status cult também no Brasil, Glauber não teria tempo de repousar sobre os louros e glórias. Aos 25 anos, via seu país afundando na barbárie da ditadura militar e começou o trabalho de parto do que viria a ser, anos depois, Terra em Transe (1967).

O livro de Nelson Motta, que realiza a crônica biográfica de Glauber somente até os 25 anos de idade e a consagração de Deus e o Diabo, fornece elementos para compreender toda a criação artística posterior dele, já no status de pária subversivo, condenado pelo regime e pela indústria cinematográfica careta, que realizará filmes na África (O Leão de Sete Cabeças), na Espanha (Cabeças Cortadas), dentre outros países. “Quatro meses antes do golpe, Glauber havia assinado um manifesto do Comando dos Trabalhadores Intelectuais apoiando o governo [Jango] e as reformas de base. A lista de quem assinou o manifesto foi publicada em jornais e estava sendo usada como uma relação de subversivos procurados pelos militares. Vários estavam presos…” (p. 328)

Nem Deus e o Diabo, nem Vidas Secas, venceram a Palma de Ouro em Cannes naquele fatídico 1964 – o prêmio ficou com Les Parapluies de Cherbourg, de Jacques Demy – e “depois de tantas alegrias e esperanças, foi duro voltar ao Brasil com os rumores e temores da ditadura militar”. Na Europa, o “cinema brasileiro se afirmava como uma nova escola”, “o Cinema Novo começava a conquistar o mundo” (p. 252); no Brasil, aqueles que em Cannes eram celebrados como gênios da civilização tropical, eram inimigos do Estado e baderneiros contra quem começava a caçada do Conselho de Segurança Nacional, a temida CSN “onde mandatos eram cassados, prisões decretadas e cabeças rolavam.” (p. 358)

Em A Primavera do Dragão, é possível vislumbrar, através da escrita de Nelson Motta, a ebulição e o vigor juvenil deste gênio precoce, similar a Castro Alves, que foi Glauber Rocha, alguém que o regime militar não podia considerar senão como um incompreensível e indomável inimigo, já que entendia o cinema como arma de denúncia da opressão e da injustiça, realizando filmes perigosos por seu conteúdo e sua forma revolucionárias. Com 25 anos de idade, Glauber Rocha revolucionou o cinema no Brasil e mostrou que era possível, com uma câmera na mãe e muitas idéias na cabeça, levar a arte-do-filme ao nível de sofisticação e rebeldia característicos da dramaturgia e poesia de um Bertolt Brecht ou de um Vladimir Maiakóvski.

Rompendo com o cinema colonizado, Glauber e seus comparsas de Cinema Novo projetaram, para todo o mundo se embasbacar, uma criatividade tropical revolucionária que ficaria para sempre na história da arte latinoamericana como os transes contagiantes e inolvidáveis de um bando genial de doidões com causa.

glauber_rocha_03

SAIBA MAIS: Leia  NELSON MOTTA, A Primavera do Dragão – A Juventude de Glauber Rocha
D
isponível na Livraria A Casa de Viro

DESLACRANDO A LIBERDADE: O Festival Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

DESLACRANDO A LIBERDADE

O Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

por Eduardo Carli de Moraes

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
CECÍLIA MEIRELLES (1901-1964)

PRELÚDIO ETIMOLÓGICO

DESLACRANDO = gerúndio do verbo deslacrar
DESLACRAR = abrir o que está lacrado

I. A BLITZKRIEG LIBERTÁRIA DE LINIKER E OS CARAMELOWS

Quiseram os rumos da História que o Festival Bananada 2016, em sua 18ª edição anual consecutiva, acontecesse logo nos primeiros dias do (des)governo interino de Michel Temer. Com o punho direito no alto – um gesto típico do Black Power e celebrizado nas Olimpíadas do México em 1968 pelos atletas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos, Liniker começou seu show no Bananada garantindo: “estamos aqui pela liberdade, sempre!” Quando a música começou a rolar, como uma maná de frescor e vida que caía em exuberância, era difícil resistir à blitzkrieg libertária, mezzo Dzi Croquettes e mezzo Itamar Assumpção e Isca de Polícia, que tomou conta do recinto.

Para o jovem multi-artista de Araraquara (SP), liberdade tem tudo a ver com a afirmação jubilante do empoderamento. Quando despontou com vídeos que viralizaram na Internet – “Zero” já tem mais de 2 milhões e 500 mil views – o Liniker apareceu para confrontar todos os códigos do politicamente correto: quando ele canta “deixa eu bagunçar você”, está pondo em prática um programa anarco-estético ousado, que tem na ruptura das ortodoxias um dos seus principais nortes. Deixe-se bagunçar! Pois o atual discurso de “salvação nacional” da “Ponte Para o Futuro”, baseada na recuperação do “ordem e progresso”, não merece nada mais que ser caotizado por nossas energias ingovernáveis e nossa desobediência civil.

Liniker3

A “atitude lacradora” que Liniker e sua banda de apoio, os açúcarados e cheios-do-groove Caramelows, propagaram em seus dois shows no Bananada (o primeiro, no teatro Sesi, e o segundo, no Centro Cultural Oscar Niemeyer) mostraram a perfeita conjunção entre música e atitude, relembrando que a revolução comportamental pode ter como uma de suas melhores aliadas a cultura, renovada, que têm nascido. Calcados na melhor tradição da black music nativa e gringa, mesclando a gafieira Black Rio com a funkeira à la Sly and the Family Stone, Liniker demonstrou ser um dos nomes mais magistrais da nova música brasileira.

Sua empatia com a multidão, sua capacidade de comandar a massa, sua performance exuberante e sem pudores beatos, fez dele o grande destaque do Bananada. Contra todo tipo de racismo, homofobia, machismo ou apartheid, Liniker e seus asseclas provaram que há sim plena possibilidade de congregação entre gente diferente e que não foi inventado nada melhor que a música como agente catalisador da fraternidade imediata entre desconhecidos (uma lição que os gregos, em seu dionisismo, já conheciam muito bem!).

Com um carisma fora de série, um senso de humor delicioso, uma expressão corporal livre e desinibida, Liniker demonstrou ser um band leader daqueles que surge muito raramente na música popular de qualquer país. A platéia foi ao transe diante da ousada confrontação de todas as carolices. Congregar-se é isso, justamente: agregar amorosamente as diferenças, permitir o convívio alegre do dissonante. Faltam palavras suficientes para descrever o sopro de vida e esperança desta celebração artística da liberdade em nosso tempo de tenebrosos fascismos, que saem do armário tacando suas pedras sobre negros, bichas, índios, ateus, petistas, comunistas, secundaristas e “vândalos”, num triunfo grotesco do discurso do ódio.

LinikerNum país onde Bolsonazi faz apologia da tortura, elogiando o carrasco de Dilma na ditadura em uma sessão da Câmara comandada por um delinquente contumaz (Cunha) e em que um sindicato de ladrões cagou em gangue sobre o sufrágio universal, foi uma injeção de vida na veia poder testemunhar a simbiose artistas-público no Bananada, com o ódio acéfalo e o golpismo segregador sendo confrontados lindamente pela amorosidade  contagiante dos Caramelows. Mostraram que ainda há a coragem de sobra, neste país, de afirmar toda a nossa diversidade e colorido – com o volume no talo e sem medo de porra nenhuma.

Num intervalo entre as músicas, a platéia, galvanizada, berrava a plenos pulmões e com insistência: “não vai ter golpe! não vai ter golpe!” Ao sabor da hora, Liniker retorquiu com palavras de fraternidade na resistência, clamando pra que a gente não deixe que arranquem nossa democracia e conclamando à união: “não vai ter golpe, o que vai ter é lacre!” Acompanhado pelas duas deslumbrantes backing vocals, Liniker deu um show de humanidade (este valor fora-de-moda em nossa época desumana). Foi isso que busquei sintetizar no vídeo abaixo que, em 20 minutos, tenta transmitir um pouco das razões (e das emoções) que me levam a considerar este o show mais emblemático daquele que talvez tenha sido, como disse a Noisey da Vice Brasil, o melhor Bananada destes 18 anos de vida do festival goiano.

Banana2 

* * * * *

II. #FUCK TEMER E OUTRAS SUBVERSÕES E RESISTÊNCIAS

ethos da resistência aos Podres Poderes marcou o palco do Bananada em vários momentos, numa ironia histórica notável: numa época em que a Republiqueta de Bananas se manifesta em todo o seu desprezo pela democracia, golpeando o sufrágio popular em prol de um complô plutocrático das elites, coube ao Bananada ser uma ruidosa voz resistente contra os desmandos da corja delinquente chefiada por Cunha, Temer, Serra, P.I.G., Fiesp e demais escrotos golpeadores.

Vários artistas se apresentaram numa vibe de indignação política, com várias manifestações sobre o tema: Siba brincou com a linguagem – “teve goipe e teve goipada!”, disse o genial músico e poeta pernambuco, clamando para que sigamos Avante com nossos ideais e não deixemos o país ir, de vez, para o fundo do poço. A folia na galera foi ao auge com canções inesquecíveis como “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar”. O talento como letrista de Siba é explícito e acachapou-nos quando, no encerramento do show, com veia de repentista somada a um certo sabor de Ariano Suassuna, ele inventou na hora, de improviso, uma série de estrofes rimadas que provaram mais uma vez a maestria deste nosso queridíssimo gênio do cancioneiro popular.

 O indie rock a um só tempo ruidoso e psicodelizante dos Supercordas também agradou. De cima do palco, Bonifrate e companhia bradaram em cartazes: “Não vai ter governo” e “Vai ter luta”.

Superchords

Super

Helio Sequence

The Helio Sequence (USA), foto de Ramon Ataide

O grupo de rock psicodélico Bike, que homenageia em seu disco de estréia, 1943, o químico Albert Hoffmann, sintetizador do LSD e primeiro ser humano a dar um rolê de bicicleta pela Holanda após consumir acido lisérgico, também clamou para que a gente “desça da montanha” pra lutar contra o governo usurpador, “se não a gente tá fudido”.

Mesmo as estrelas do stoner local, os Hellbenders, fizeram pela primeira vez um discurso político, criticando os retrocessos na cultura anunciados pelo presidente biônico. Até os gringos (estadunidenses) do The Helio Sequence juntaram-se ao coro e lacraram: “#FuckTemer!”.

As guitarradas comeram soltas, dando fuel pra indignação e pras rodas de pogo, com o Riviera Gaz – o excelente power-trio estrelado por Gustavo Riviera (vocalista e guitarrista, do Forgotten Boys) e o batera do Sonic Youth, Steve Shelley. O Killing Chainsaw tentou cortar cabeças com serra elétrica com seu indie-punk raivoso, ensurdecedor. E quando o Planet Hemp chegou, precedido de um DJ Set na vibe “Killing in the Name”, o poderio contestatório e revolucionário do rock estava flamejando em toda a sua fulminância, com Marcelo D2 e BNegão, neste revival em boa hora, mostrando porque esta é uma das bandas mais foda da história deste país.

É uma delícia ouvir, berrado, “adivinha, doutor, quem tá de volta na praça: Planet Hemp, esquadrilha da fumaça!”. Ainda mais considerando a atualidade da mensagem Hempiana, dada a continuidade grotesca do proibicionismo contra-producente, da política de encarceramento em massa, do racismo institucionalizado em nossas prisões e polícias, das Tropas de Choque e de Elite que defendem o tope repleto de bandidos de colarinho-branco. Diante desta situação, graças ao Planet Hemp temos artistas sem rabo preso, com consciência social, devotados ao protesto construtivo em prol de maior justiça social, que nos ajudam a questionar e com quem é preciso sempre re-perguntar, diante de todo o sangue que derrubam e de toda a injustiça que cometem os nossos “líderes” do controle e da repressão, se não é o caso de pararem de apontar o dedo acusador para maconheiros, como se fossem parte do problema, quando são, na real, parte da solução! Avante, rumo ao Planeta Maconha!

PH6
PH9

Foto por Ariel Martini.

Foto por Ariel Martini.

A CULPA É DE QUEM?
“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão
Militares torturaram e não foram pra prisão
Eu fumo minha erva, me chamam de ladrão
Os negros já fumavam a erva antes da África deixar
Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar
E os senhores de hoje em dia estão proibindo também
Se o pobre começa a pensar parece que incomoda alguém
Crianças crescem nas ruas, não confiam em ninguém
Escondem nossa cultura, referência ninguém tem
O país tá uma merda e a culpa é de quem?

A culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eles roubam no planalto e não pensam em ninguém
Manipulam as leis e vêm com papo furado
Tudo que incomoda eles, eles dizem estar errado
Então quem é o marginal?
Crianças morrem por sua culpa e eu que vivo ilegal
Tenho que me esconder por uma coisa natural
Enquanto eles metem a mão na maior cara de pau
Não vou ficar calado porque está tudo errado
Políticos cruzam os braços e o país está uma merda
Trabalho pra caralho e fumo a minha erva, aí eu te pergunto:

A culpa é de quem? A culpa é de quem?”

* * * * * *

III. O “PACOTE DE MALDADES” DO GOLPISMO vs A CULTURA EM MARCHA CONTRA A BARBÁRIE

O festival ocorreu em meio a um clima político de estarrecimento geral, e muitas vezes revolta incontida, diante do “pacote de maldades” que o PMDB batizou (seria irônico, caso não fosse trágico!) de “Ponte Para O Futuro”, e que é o novo nome para uma velharia: a proposta, útil só aos 1% no tope, da Privataria Generalizada somada às brutais “Austeridades Para O Povo”. Uma farsa elitista que já foi “gloriosamente” instalada entre nós, nos anos 1990, pelo sociólogo transmutado em parceiraço do capital transnacional oni-privatizante, o FHC [Fumando Henrique de Cardoso].

Como prova empírica do caráter elitista, misógino e plutocrático do regime golpista instalado às pressas nesta republiqueta-de-bananas, a “nova” Esplanada dos Ministérios não tem como ministro nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum representante dos povos indígenas. É um Ministério para agradar o P.I.G.: para que a Veja se satisfaça com a reiteração maldita do dogma machista-patriarcal que obriga a mulher a ficar restrita a subalterna e serviçal: “bela, recatada e do lar”. 

O golpe é engomadinho, tem visual de quem vai aparecer na TV: veste terno-e-gravata, faz discursos na Globo, dirige BMWs comprados por lavagem de dinheiro pela Suíça ou pelo Panamá. Os golpistas são olimpicamente desdenhosos da vida dura dos reles mortais que vivem em favelas, ou estão no desemprego, ou das mulheres que querem abortar, ou de todos os que não aceitam o molde familiar da heterossexualidade compulsória, ou dos mortos e feridos pela brutalidade banalizada de nosso complexo policial-carcerário e da conexa e absurda Guerra às Drogas.

O ministério do golpe é todo de velhos homens brancos, fedendo a mofo e à interesses egocêntricos, boa parte deles réus em processos de corrupção e enriquecimento ilícito, com nada menos que 7 deles na mira da Lava Jato. Todos eles representantes de elites que já estão demasiado bem-bancadas, no Parlamento, pelas Bancadas BBB (Boi, Bala e Bíblia). O que significa que a Cultura perdeu muitas batalhas para a Barbárie nos últimos tempos!

O último golpe, desferido dias antes do Bananada, foi o fim da existência independente do MinC: Temer decretou a fusão do ministério da Cultura e da Educação, entregou de mão beijada o Ministério a um partido da direita-grotesca (o DEM), com um desdém inimaginável pelo trabalho de Juca Ferreira, Ivana Bentes e de tantos outros guerreiros que têm lutado, ultimamente, em prol de nossa Cultura Viva. Uma ameaçadora espada de Dâmocles pendia sobre o pescoço do MinC durante o festival, enquanto dezenas de ocupações de prédios e escolas se multiplicavam pelo Brasil, exigindo do governo usurpador o respeito devido à cultura e à arte. Com as cabeças desabrigadas de teto, sob as estrelas do Goiás, nós nos movíamos (uns 5 mil humanos por noite!) entre a monumental arquitetura de Oscar Niemeyer na inquietude destes tempos caóticos.

Donde a importância, para além do entretenimento social e da venda lucrativa de espetáculos pela “Indústria Cultural” nacional – que, devido às minguadas verbas públicas para a cultura, hoje para bancar-se não está tendo como escapar dos conluios de patrocínio com as corporações de cerveja (a Skol é a patrocinadora oficial do festival) – o Bananada foi um sopro de vida muito bem-vindo. Ainda que o conteúdo político não estivesse no script oficial do evento, produzido com competência ímpar pela Construtora de Fabrício Nobre, este foi o Bananada de maior impacto político dentre os 6 ou 7 que já testemunhei.

Siba3

O Bananada reafirmou enfaticamente a potência da cultura nestes nossos tempos tão bárbaros, mostrando a quem lá esteve que este país, para além da crise política e econômica estraçalhante, tem vocação para driblar adversidades com muita capoeira, tem o dom da criatividade sem freios, tem a disponibilidade para as mestiçagens e hibridismos mais livres, tem propensão para a genialidade rítmica e melódica absolutamente ímpares. O Brasil autêntico que vive e resiste longe das cúpulas, não se preocupem, sempre foi ingovernável e de uma genialidade selvagem!

Siba

“Teve goipe sim, teve goipada!” – Siba

Se a política institucional é um lamaçal de podridão que nos envergonha diante do mundo, podemos muito bem nos orgulhar, isto é, dar um boost na auto-estima e um chega-pra-lá no “complexo de vira-latas”, por sermos os felizes e gratos conterrâneos de figuras de tão adorável musicalidade e poiésis: Jorge Ben Jor, Siba, Juçara Marçal, Liniker, Planet Hemp, Carne Doce, Pó de Ser etc. Junto deles é que estamos em boa companhia.

IV. CONTRAGOLPES DA LUZ EM TEMPOS DE TREVAS

A experiência me deixou matutando que não há época de trevas que não seja também repleta de contragolpes da luz. Sem A.I.5 não haveriam nascido as “É Proibido Proibir” e as “Cálices” que fizeram com que nossa MPB, mesmo sob as mordaças e os horrores da Ditadura, florescesse resistindo. E que luz brilha com mais esplendor, nas trevas impostas pelas elites, que a da liberdade cantada e da dançada de um povo que constrói na união e na fraternidade seu próprio empoderamento?

Liberdade de afirmarmos a nossa diversidade e celebrarmos o pluralismo de nossa criatividade. Liberdade também de demolir paradigmas de bom comportamento, destroçar imposições autoritárias de conduta, ir além da jaula estreita do politicamente correto, do imposto pelas caretices reinantes. Liberdade para ser absolutamente anárquico (no bom sentido!) na bagunça de gênero, número e cor que dá o tom no Liniker e os Caramelows, com toda a maravilhosidade sem culpa de um protagonista que é ao tempo negão, bicha e lacradora, demolindo a golpes de genialidade qualquer idiotice racistóide ou puritanismo teocrático.

Liberdade para defender, com impacto expressivo e estético de intenso vigor e verve, um “Planeta Maconha” de cannabis livre e Estado policial-carcerário aposentado de vez da história, como fez o Planet Hemp em show arrebatador (os caras são de um poderio ao vivo que os equipara a Rage Against The Machine ou MC5!).

Liberdade para quem é careca, é gordo, é feio, é veado, é de esquerda, é vesgo, tem pele com mais melanina, é ativista do socialismo, é anarquista libertário, é feminista e lésbica, é o que diabo for, de ser quem é, sem ter que tomar pedradas ou sofrer discriminações ofensivas. Os festivais de Goiânia – em especial o Bananada, o Vaca Amarela e o Grito Rock – parecem Zonas Autônomas Temporárias onde a lei do amor prevalece sobre a do ódio e ninguém fica “tacando pedra e bosta na Geni”. Locais onde damos razão à Hannah Arendt quando escreveu, em A Vida do Espírito, que “a pluralidade é a lei da terra.”

Nestes pavorosos tempos de fascismo em ascensão e de golpes de Estado financiados pelo capital transnacional, sempre com seus bem-pagos serviçais na elite nativa, é um sopro de esperança e vitalidade um festival assim, tão bom e tão vivo. Um sopro – ou melhor, para citar os Hellbenders, um hurricane! – de um outro mundo possível onde artistas empunhem, não só guitarras e baixos, tambores e baquetas, mas que também levantem bandeiras libertárias.

Helio2

O festival ficou marcado na carne pelas urgências da época histórica, e até mesmo as bandas estrangeiras envolveram-se com o “clima de golpe de Estado”, como fez o vocalista do The Helio Sequence quando disse: “here’s something I guess most of you will relate to!”, disse o antes de erguer um cartaz branco onde se lia, em letras garrafais negras ali grafadas com spray: FUCK TEMER”.

As duas palavrinhas impertinentes que mandavam um foda-se ao usurpador também decoraram um dos palcos, no último dia de festival (15/05), e marcaram o background para a passagem do furacão goiano Hellbenders. Para onde quer que se olhasse naquele palco, o stoner-grungy da banda tinha por acompanhamento fuck Temers e fuck Malafaias às mancheias.

Hell

 Lançando seu segundo álbum, Peiote, gravado na Califórnia no Rancho de La Luna, os Hellbenders pela primeira vez desvelaram uma faceta politizada, como no prelúdio a “Hurricane”, em que o vocalista Diogo Fleury convocou para uma mega roda de pogo após dizer que um governo que nos seus primeiros passos comete atentados contra a cultura e a arte já começa bem mal.

Para além de teorias e debates sobre ela, a tal da Liberdade manifestou-se na práxis em corpos bailantes, coros de vozes em uníssono, cabelos e penteados de todas as cores e tipos (confesso predileção e carinho pelos cabelos azuis, que propagam ecos do filme Azul É A Cor Mais Quente). A variedade, além de estética e temática, foi também vista no colorido do público e na diversidade dos espaços que podíamos explorar – do point do skate ao das tatoos, da praça gastronômica deliciosa às projeções nos prédios (que recuperaram a obra do Bicicleta Sem Freio no prédio do CCON que foi censurada no ano passado). Como bem explorou a matéria da Noisey:

“Em sua 18ª edição, o Festival Bananada vem há tempos buscando transcender a esfera musical e proporcionar uma experiência completa ao público. Não estamos falando apenas de algumas bancas com comida — apesar do Circuito Gastronômico promovido pelo evento ter sido uma das experiências mais agradáveis do rolê —, mas sim de estúdios de tattoo, cabeleireiro, lojinhas das mais variadas bugingangas, merch dos artistas, tabacaria, espaço para as crianças (pode ser cedo demais para levar o bacuri a um show do Planet Hemp), campeonato de skate e até mesmo uma rinha de bartenders valendo prêmio para o melhor drink.

O excesso de opções no espaço, claro, tornou necessário um certo planejamento envolvendo o que assistir e o que fazer durante o festival, mas nada que comprometesse seriamente a chapação envolvida em três dias principais o festival (que ao todo se desenrolou entre os dias 9 e 15 de maio) de encontros com os brothers e muita música foda no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o CCON, em Goiânia.

(…) Em 18 anos de existência, talvez o festival tenha nos proporcionado sua versão mais acertada. Com uma estrutura inédita e muito bem planejada, grande parte dos perrengues de se ir a um evento deste porte passou em branco. Apesar da variedade de gêneros musicais presente na programação, ficou uma leve sensação de que faltou uma ou outra banda mais bombada no evento e — como a própria plateia disse durante o show do Rodrigo Ogi — faltou rap no Bananada.

Para muitos que residem em Goiânia, Brasília e região o Bananada funciona como a única forma de reencontrar alguns amigos, o que torna todo o rolê mais essencial a cada ano que passa. A tônica política também foi forte: praticamente todos os artistas que se apresentaram nos três dias do festival no CCON se posicionaram contra o golpe — e alguns até discursaram para o público. Considerando a situação cívica caótica que estamos vivendo nos últimos tempos, o Festival Bananada foi um pontinho reconfortante de esperança e descontração no meio do Cerrado.” – NOISEY

Salma Jô por Ariel Martini

Salma Jô, vocalista do Carne Doce – Fotografia por Ariel Martini

V. TODA A FORÇA DA DOÇURA DA CARNE

Naquele tenebroso 17 de Abril do golpe parlamentar de Cunha e sua corja – confrontado pela maré vermelha de ativismo que registrei no documentário O Céu e o Condor – Jean Wyllys acusou o processo de impeachment contra Dilma de ser uma “farsa sexista”. O caráter patriarcal, retrógado e machista se confirmou com o ministério de Temer, sem nenhuma presença feminina, colocando mais lenha na fogueira das insurgências feministas, mais necessárias do que nunca diante do atentado à democracia que é também um ataque à figura da mulher em figura de proeminência e protagonismo na política. Neste contexto, não economizo palavras para adorar uma banda como o Carne Doce, que já faz por merecer a posição dentre as melhores bandas do Brasil.

Com apenas um EP (Dos Namorados) e um álbum (Carne Doce), o quinteto goianiense já consagrou-se pelo brilhantismo e pela lindeza de sua arte e de suas performances. Nasceu em Goiânia nos últimos anos, em especial com os Boogarins, o Pó de Ser e o Carne Doce, uma espécie de vertente do indie rock brasileiro que prima pela originalidade, pela experimentação, pela ousadia estética e comportamental, em contraste com o hype do cenário stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders, Overfuzz), que é um furacão de potência mas está ainda bem apegado a modelos estrangeiros, às letras em inglês e ao desejo de ser como o Queens of the Stone Age.

A emergência das bandas com letras em português e autenticidade estonteante – no caso do Boogarins, capaz de transcender as fronteiras nacionais e tornar-se fenômeno global – torna este um dos momentos mais geniais da história de Goiânia Rock City. E não há dúvida de que Salma Jô e seu comparsas de banda estão no centro deste protagonismo – e com todo o mérito, já que a qualidade do trabalho Carne Dociano é algo de deixar boquiaberto o crítico musical, que se transmuta logo em outra coisa: fã em estado de adoração. O modo como acabou o show do Carne Doce neste Bananada 2016 é a maior prova disso: na cena mais inesquecível do festival, numa imitação de Eddie Vedder (Pearl Jam) em seus dias de loucão grungy, o Dan Pimentel escalou a estrutura do palco, fugindo do guardinha da segurança, e enlouqueceu total dependurado no topo, num headbanging xamânico ao som de “Adoração”.

SalmaNão se trata de um caso isolado: o Carne Doce é capaz de despertar reações extremas no público, em especial pela capacidade descomunal de Salma Jô em interpretar as suas canções de modo visceral, com expressão corporal de uma autenticidade e uma liberdade que são muito raras e admiráveis, agindo sempre como se estivesse curtindo imensamente o som produzido por Macloys, Aderson, Ricardo e João Vitor. Apesar de soar prematura uma profecia diante de uma banda tão nova, eu diria que Salma tem o potencial para tornar-se uma das mais importantes cantoras do Brasil – no nível de uma Cássia Eller ou uma Elis Regina – e já pode ser elencada, dentre as vozes contemporâneas, na companhia de Juçara Marçal ou Ceumar como uma de nossas mais incríveis intérpretes.

No Bananada, houve aula magna de liberdade com a refulgência do Carne Doce, uma banda que tematiza sexualidade e sensualidade indo ao cerne do coração selvagem de que nos fala Clarice Lispector. Numa música nova, que eu desconhecia e que muito me impressionou, o eu-lírico da Salma adota a perspectiva em primeira pessoa de uma mulher que decide-se, ao descobrir-se grávida, que o filho “não vai nascer”. Salma Jô canta-nos e convence-nos com uma encarnação (a um só tempo teatral e autêntica!) dos dilemas femininos como são sentidos por dentro. É um antídoto empoderador contra os discursos obscurantistas e fanáticos daqueles que desejam subtrair da mulher seu poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Ava Rocha e Salma Jô

Ava Rocha e Salma Jô

A participação tempestuosa de Ava Rocha, pela primeira vez dividindo o palco com o Carne Doce, foi uma lição a mais de empoderamento e excentricidade. No “Auto das Bacantes”, cantada em dueto com Salma, o chamado é para “tomar os espaços”: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA / da mulher maravilha / e meta um grelo na geopolítica!Ava – responsável por um dos álbuns mais inadjetiváveis da nova música brasileira, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), trouxe ao transe carne-dociano um elemento transgressor a mais, subvertendo todos os paradigmas de beleza, como naquele estranho ritual bacântico em que Salma foi “coroada”, não como a crística coroa de espinhos, mas com uma coroa de facas. O público, extasiado, só agradecia às loucuras maravilhosas que via no palco e que provavam a maravilha das rebeldias estéticas e comportamentais. Nossa arte e nossa política só tem a ganhar com o talento e o carisma inestimáveis de mulheres como Salma e Ava.

Foram momentos momento de re-afirmação coletiva da capacidade de dizer não: no caso, não ao retrocesso, não à barbárie, não ao golpismo, não ao capitalismo destroçador de dignidade. Uma ocasião de dizer nãos produtivos e criativos, muito para além da negatividade, numa afirmação de que “eu grito sim / é pra você escutar / que eu quero ver / você fazer / eu me calar!”

Cito a letra de “Passivo”, do Carne Doce, tanto por considerá-la emblemática da qualidade estética estonteante da banda, mas também para destacar outras camadas de sentido que podem ser desveladas na canção. O “não se calar” desta canção, onde o foco narrativo é uma relação amorosa interpessoal, na performance vocal visceral de Salma transita para outro domínio, para outra vibe, e que me parece ter potencial de ser pura dinamite política: é uma voz de autonomia e rebeldia. É o som da lindeza inestimável da insubmissão. É o som que faz o empoderamento do desejo que afirma-se sem pudor nem culpa pois se sabe digno de auto-afirmação plena.

É esplendorosamente subversivo, em especial com a explosão de uma sexualidade indomável dos versos “vem me fuuuuder”“vem me fazer daaaaaaaar!” Ainda que possa soar a alguns ouvidos como pornografia letrística, aos meus ouvidos soa como uma das manifestações mais impressionantes, na nossa música contemporânea, dum brado libertário do Corpo que demanda o seu direito de gozar, que quer dignificar o gozo e desculpabilizar a carne, em insurgência (necessária e urgente) contra todos os estigmas caretas e condenações pias que aniquilam nosso deleite por sermos quem somos e por nos amarmos como nos amamos.

* * * * *

VI. O ESPLENDOR DA LUTA: JUÇARA MARÇAL EM CARNE VIVA

Ju2

Para terminar este relato, não posso deixar de me derreter em adoração pelo esplendor que foi a performance da Juçara Marçal, uma das mais lindas vozes deste nosso Brasil, no Festival Bananada 2016. Um dos momentos mais comoventes do show foi uma interpretação do samba “Opinião”, de Zé Keti, que caiu como uma luva no contexto da crise política brasileira: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião!”

Estes versos, com um prelúdio em que Juçara alertava que cantaria algo “sobre o Golpe”, ganharam uma nova gama de significados que insuflaram vida nova a esta imorredoura pérola do cancioneiro popular em que o protagonista é a “voz do povo” e a “sabedoria da quebrada”. A visceralidade e a graça que emanam do gogó da Ju Marçal despertaram em mim esperanças de que, mesmo com este grotesco atentado contra o MinC, mesmo com um crápula do DEM tendo recebido o ministério da Educação e Cultura, mesmo com o rolo compressor de esmagar cidadania com que o golpismo galopante já nos atropela, o nosso presente já é de florescimento exuberante de uma “arte-de-resistência”. A cultura autêntica não vai se calar.

Anos atrás, eu tinha visto um show do Metá Metá no CCUFG que havia deixado meus sentidos acachapados de admiração diante de uma bandas mais inovadoras e originais que surgiram no país nos últimos anos. Depois, o “Encarnado”, álbum solo da Juçara, tornou-se um dos meus álbuns prediletos da música brasileira contemporânea, com suas versões ousadas e criativas de Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba, dentre outros. Depois do Bananada 2016, não tenho mais dúvidas: Juçara é uma das artistas mais expressivas, inteligentes e sábias que temos entre os vivos. E é em fontes assim que preencho com um bocadinho de esperança um coração e uma mente que, às vezes, diante das escabrosas atrocidades de nossas elites e das castas políticas plutocráticas, ameaçam soçobrar no completo desespero.

Raia a esperança, emanada de João do Vale ou Zé Keti, de Wilson das Neves ou do Aláfia, de Jorge Ben em modo “Záfrica Brasil” ou Juçara Marçal dando vida à pluridiversidade de nossa cultura popular, de que, apesar dos pesares, Nelson Cavaquinho ainda terá a última palavra: “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de voltar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor… será eterno novamente.”

 A “ponte para o futuro” (na real um atalho para o abismo!) que está sendo imposta por aquilo que Noam Chomsky chamou de “golpe brando” (mas que entre nós já recebeu a denominação mais humorística de golpe à paraguaia) é fruto de uma obscurantista e retrógrada elite econômica e política que, sistematicamente derrotada nas urnas nas 4 últimas eleições presidenciais, não conteve seu mandonismo, seu coronelismo, e tomou de assalto o poder de modo fraudulento e ilegítimo.

Algumas das inteligências mais refulgentes e brilhantes da nossa vida política, como o ministro Juca Ferreira e a secretária Ivana Bentes, foram “despedidos” de seus cargos no MinC, como prova cabal de quão deturpado é o juízo dos Temerianos e o quanto eles querem sangrar o Cultura Viva até que se torne um zumbi. Emblemático disso foi que no Rio de Janeiro o monumento na Cinelândia em homenagem a Gilberto Gil, muso tropicalista que tão esplêndidas contribuições fez à nossa cultura popular e um dos mais revolucionários e visionários dos Ministros da Cultura que já tivemos, foi “deletado” do cenário urbano: a tinta cinza dos censores apagou o colorido de Gil horas antes de uma manifestação contra o golpe marcada para aquele local.

Com a nossa cara coletiva toda gotejante depois de tantas cusparadas (há cuspes e cuspes: o de Jean Wyllys é digno de aplausos, pois seria sórdido e grotesco permitir que a apologia da tortura e a prática cruel da homofobia, por parte do Bolsonazista, fosse aceita em silêncio, sem que protestássemos com escarro!), fomos ao Bananada 2016 pra ver se a música lavava a alma de toda esta sujeira. E lavou. O vigor, o poderio, o ruído ensurdecedor feito pelo Bananada 2016, em sua 18a edição, no coração do Cerradão onde repousa a cidade de Brasília, foi um contragolpe à altura das urgências históricas de que somos contemporâneos. A Cultura resiste. O pulso ainda pulsa. Não estamos derrotados. “E eu quero ver / Você fazer / Eu me calar!”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Maio de 2016

CONFIRA OS VÍDEOS FILMADOS NO BANANADA 2016:







Eles também estão disponíveis no YOUTUBE.

Fotos: ARIEL MARTINI | RAMON ATAIDE E EDUARDO CARLI | PEDRO MARGHERITO

* * * * *

EM BREVE: DOC COMPLETO: DESLACRANDO A LIBERDADE NO BANANADA 2016