[Encontro de Culturas TXt 13] UM CANTO EM CADA CANTO DO BRASIL: Conheça o Projeto “Dandô – Circuito de Música Dércio Marques”

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Projeto Dandô apresenta-se no XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

UM CANTO EM CADA CANTO DO BRASIL: PROJETO DANDÔ MARCA PRESENÇA NO XVI ENCONTRO DE CULTURAS

Conheça mais sobre Caravana musical idealizada pela cantora, compositora e pesquisadora de raízes musicais Kátya Teixeira

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI E.C.T.C.V

O palco do XVI Encontro de Culturas recebeu na quinta-feira, 29 de julho, a performance deslumbrante do projeto “Dandô – Circuito de Música Décio Marques”, uma caravana musical idealizada pela cantora, compositora e pesquisadora de raízes musicais Kátya Teixeira. Além de Kátya, apresentaram-se os músicos Giancarlo Borba, Cabocla Inez e Sol Bueno. Partindo da constatação da pluralidade da cultura brasileira, o coletivo Dandô nasceu graças à preocupação de músicos e pesquisadores com a interiorização e a difusão da música do Brasil, bem como a descentralização e acesso à produção musical no país.

O projeto tem, em seu nome, uma homenagem a Dércio Marques (1947 – 2012), que foi um dos cantadores que mais fez pela arte nos “Brasis” que estão fora do eixo da mídia de massa, unindo artistas de toda parte, de várias gerações, estilos, culturas. A razão do nome “Dandô” se refere a um trecho da canção “Canto dos Ipês”. A palavra é uma corruptela do verbo andar, no linguajar dos pretos velhos: “Ô dandei / Olha o vento que brinca de dandar/ Ele vem pra levar as andorinhas/ E quem sabe a canção pra uma janela/ Saciar o ipê que se formou/ E roubar suas flores amarelas”.

De acordo com Kátya Teixeira, esse é o sentido do projeto: fazer os artistas “dandar” e se apresentar em diferentes regiões, circulando como o vento pelo país. Desde 2013, o circuito promove diversos shows pelo país de forma contínua, sempre no formato anfitrião local e convidado (artista em circulação), corroborando para a interlocução entre os músicos e a formação de novas platéias. O audacioso projeto Dandô busca a realização de uma verdadeira interação musical por todo o país, por meio do intercâmbio entre artistas de vários rincões, objetivando mostrar as diversas sonoridades regionais. Ele funciona como um grande “mutirão de cantoria”, como define Kátya.

II Encontro Nacional do Dandô - Circuito de Música Dércio Marques / 2016

II Encontro Nacional do Dandô – Circuito de Música Dércio Marques / 2016

Ganhador do Prêmio Brasil Criativo MINC/SEBRAE, o Dandô está debruçado sobre os critérios da diversidade e representatividade das regiões e assim pretende criar uma cartografia musical. Em 2015 lançou o primeiro CD, a coletânea Dandô – Um Canto Em Cada Canto Do Brasil, em parceria com a Distribuidora Tratore. O projeto, que começou em 7 cidades de 5 estados brasileiros, hoje já chega a 40 cidades de 8 estados. Em breve estará em Portugal e 4 países da América do Sul: Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia.

O projeto envolve artistas que têm seu trabalho reconhecido junto ao público, mas que, por meio do projeto, podem obter uma melhor projeção no panorama nacional. Cada artista terá a oportunidade de se apresentar em todos os pontos do circuito, que abrange cidades de vários Estados brasileiros. Com o lema “Um canto em cada canto do Brasil”, o projeto “Dandô” vai no mesmo caminho trilhado pelo apresentador Rolando Boldrim, que é “tirar o Brasil da gaveta”, para mostrá-lo a si mesmo.

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Saiba mais:
http://www.circuitodando.com/ e https://www.facebook.com/circuito.dando.

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“O canto forte de um trovador”, por Angelo Iacocca, Junho de 1980. Revista Música, Editora Imprima. Via Blog Velhidade.

CONHEÇA: DÉRCIO ROCHA MARQUES (1947 – 2012)

Violeiro, cantador, menestrel, pesquisador de raízes musicais brasileiras e iberoamericanas (filho de mãe brasileira e pai uruguaio), Dércio Marques ajudou a mapear a cultura brasileira ao lado de Marcus Pereira na década de 70. Foi um dos artistas que ao lado de sua irmã Doroty Marques mais fizeram pela arte nos “Brasis” que estão fora do eixo da mídia de massa. Com seu jeito peculiar de alinhavar costumes, conversas, “arreuní gentes”, ele uniu cantadores de toda parte, de várias gerações, estilos, em uma confraternização cultural sem igual.

OUÇA ALGUNS DISCOS DE DÉRCIO MARQUES:

Fontes de informações para esta reportagem:
Release Oficial e Osvaldo Higa.

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 03] O DOM DA CURA: Milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações

Foto: Santi Asef na X Aldeia Multiétnica

Pajé Raimundo Dessana, na X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

O DOM DA CURA

Milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (19 / 07 /2016)

As plantas que curam são parte integrante das culturas de povos indígenas através dos milênios. Os (con)viventes que estão na Aldeia Multiétnica têm tido várias oportunidades para conhecer mais sobre a medicina ancestral, vigente desde tempos imemoriais, que inclui chás energizantes, feitos com raízes e folhas, além de curiosos procedimentos xamânicos de intervenção curativa, hoje amplamente pesquisados pela ciência.

 Fenômenos como a disseminação transnacional da utilização terapêutica de substâncias naturais psicoativas, como o chá de ayahuasca ou o kampô (secreção cutânea da perereca Phylomedusa Bicolores), só vem corroborar a amplidão dos bio-saberes dos povos indígenas do planeta.

 Proveniente de São Paulo, a jovem Marília, uma das (con)viventes da Aldeia, compartilhou em uma roda-de-prosa um pouco de seu percurso de vida e de descoberta: “já fiquei muito doente e foram só os indígenas que foram capazes de me curar.” Esta vivência pregressa de uma cura através da maestria indígena fez com que ela buscasse saber mais e mais, numa jornada de conhecimento sem fim, sobre os saberes e fazeres destes povos que, segundo ela, “quanto mais a gente estuda, mais a gente descobre o quanto a gente ignorava.”

 A experiência de ter sido beneficiada por curandeiros indígenas foi também experienciada por uma colega de vivência, a jovem Dávila, que veio de Brasília e está pela primeira vez participando da Aldeia Multiétnica: “Passei por uma experiência surreal na madrugada de ontem”, relembra ela, durante os momentos-de-partilha com o grupo, lágrimas nos olhos e voz embargada. “Tenho bronquite, mas esqueci em casa os remédios e a ‘bombinha’. Comecei a passar muito mal, tossia demais e não conseguia respirar direito.”

 Dávila e sua amiga Samanta, que na ocasião estavam acampadas junto aos Kayapó, relatam que no meio da crise de bronquite que acometeu a adolescente ela estava desesperada para ir logo ao hospital. Velhos hábitos não morrem fácil. As duas amigas foram atrás da organização para tentar agilizar um transporte até um posto de saúde na cidade. Mas aí recomendaram à Dávila que se abrisse a um horizonte novo: talvez entre os indígenas ali congregados pudesse haver auxílio mais imediato e certeiro para seus males.

 Dávila foi assim conduzida aos cuidados do pajé Raimundo Dessana. Diante desta situação insólita, ela se confessa que se encontrava, a princípio, “meio descrente”: “Eu não tava acreditando que ia funcionar.” Para surpresa da própria paciente, através de bençãos, sopros e pedras energizadas, o pajé Dessana conseguiu controlar a crise de bronquite que afligia Dávila. Com seu saber-vivido, ele acompanhou-a até que ela melhorasse e pudesse pegar no sono. Dávila conta que acordou no dia seguinte já refeita e afirmando: “O pajé me curou.”

 Dávila atribuiu a piora em seu estado de bronquite tanto ao frio da madrugada – já que as temperaturas caem bastante nas noites da Chapada – quanto aos banhos que tomou nas águas frescas do rio São Miguel. Quando perguntadas sobre os porquês da terapia ter sido efetiva, Dávila e Samanta refletem sobre várias possibilidades, desde as mais místicas até as mais pés-no-chão.

 No primeiro caso, como relembra Dávila, o pajé não passou de um médium para a intervenção de uma influência invisível ou mágica que veio do alto: “ele disse pra mim que não era pra eu confiar nele, pessoalmente, mas sim apontou o céu e pediu que eu confiasse nele.”

 Não inteiramente convictas nesta explicação celeste, Dávila e Samanta também consideram a possibilidade que o pajé seria capaz de mobilizar, para fins terapêuticos, o que elas chamam de “energias positivas” que ele transfere para o fluxo da água receitava para a paciente por seu curandeiro. Também não descartam a possibilidade de uma ação benéfica sobre a psique da paciente gerada por um certo “pensamento positivo” que emanaria do ancião, que garantiu a Dávila, a todo momento: “Não precisa ir pro hospital não, eu vou curar você.”

 De todo modo, a certeza que ficou para Dávila é de nunca ter vivido nada parecido antes, o que ela apelidou de “uma experiência surreal”. Esta vivência serviu também como estopim para nada mais nada menos do que reflexões sobre a história humana como um todo. As duas amigas passaram a matutar sobre o bocado de tempo que transcorreu antes do advento histórico dos profissionais da medicina, dos centros hospitalares, dos impérios farmacêuticos corporativos, das tecnologias avançadas como pet-scans e neurocirurgias.

 Como argumentou Samanta, a medicina possui uma longa história construída sobre os inumeráveis testes empíricos realizados pelos povos ancestrais em interação com o mundo natural circundante. “Por muito tempo as pessoas tiveram que experimentar com as plantas até adquirir estes saberes”, é a hipótese que Samanta levante, “e nestes testes uns morriam, outros não. Nossa, o tanto de gente que morreu pra salvar a gente, vamos parar pra pensar!”

 O cinegrafista carioca Pedro Rodrigues, que trabalha na equipe de filmagem da série Índio Presente(estréia prevista para 2017 na TV Brasil), relata vivência semelhante. Após o que ele mesmo confessa ter sido uma “comilança”, ele passou mal, com diarréia e muita febre. Foi visitar o pajé dos Guarani Mbya, que tem 107 anos de idade, e o ancião logo se mostrou prestativo e foi buscar na natureza algumas folhas de poder curativo.

 “O pajé foi ali na mata buscar a medicina”, relembra Pedro, “e o que eu achei mais curioso é que esta aqui nem é a região dele. O conhecimento dele é absurdo, já que ele não está no Estado dele, está aqui na região do cerrado. Aí meu fiquei pensando: esse senhor é um compêndio botânico, conhecedor dos fitoterápicos naturais. Provavelmente o que ele me deu foi um antibactericida e um analgésico.”

 O paciente Pedro também relembra que o pajé retornou da mata com dois raminhos de folhas e consultou sua esposa, que aparenta ter quase 100 anos de idade e certamente é também detentora de profundos saberes botânicos e terapêuticos. A mulher deu o seu aval para uma das folhas pré-selecionadas, com a qual se fez um chá, “de sabor delicioso”, que Pedro passou a consumir em busca de melhoras. Quando falamos, antes do almoço, ele já dizia estar sentindo-se “50% melhor” em relação à crise da véspera.

 Diante da experiência, ele pondera: “Eu sou um cara muito científico. Como fotógrafo e cinegrafista de cinema, levo a parte técnica muito a sério. Fiquei muito assombrado com a técnica do pajé, ele não fez uma coisa qualquer: ele diagnosticou meu problema, conversando comigo e me apalpando; foi lá pra buscar a planta e fez uma comparação; tirou uma conclusão técnica; e veio com um remédio. Não foi que ele simplesmente sacudiu um negocinho, soprou uma fumacinha, houve todo um processo técnico que deu ao processo toda uma credibilidade.”

 Já Marília Cyrne, uma das viventes da Aldeia Multiétnica 2016, conta que tem se relacionado com os Guarani da região do Jaraguá (SP) há cerca de 1 ano e meio. Procurou-os pela primeira vez por interesse em aprender o idioma guarani e começou a visitar a aldeia, “criando laços com a comunidade”.

 “Enquanto isso caminhava, num determinado momento da minha vida eu comecei a ficar muito mal com transtorno de ansiedade, emagreci 8 quilos em 2 meses e comecei a ficar muito doente. Aí um dia o Tupã, um de meus melhores amigos lá da aldeia e que começou a me ensinar guarani lá na aldeia, me levou para uma aldeia um pouco mais afastada, há uma duas horas de distância, onde eles trabalham com permacultura e plantação de orquídeas. Passei a madrugada lá e ele fez um processo assim: rezava em Guarani, soprava e puxava o ar do meu corpo, enquanto ia aquecendo as mãos na fogueira. Depois disso, que durou um bom tempo, eu chorei muito e dormi muito. E daí em diante as coisas foram se resolvendo e melhorando.”

 Ela comenta que seu amigo Tupã não é o pajé da tribo, mas sim uma “liderança jovem”, enfatizando que a juventude guarani “também aprende algumas técnicas de pajelança”. A experiência mudou rumos em sua vida: “agora toda semana eu vou pra lá. É um lugar onde me sinto bem e entre amigos. Quando calhou d’eu estar mal, eles ofereceram o que eles podiam para me ajudar – e funcionou.” Marília matuta ainda, sobre a atualidade desta terapêuticas ancestrais, que os benefícios destes saberes e técnicas medicinais não se aplicam somente aos males do organismo, mas que os povos indígenas também possuem um rico e complexo arsenal de táticas para lidar com o que chamamos de problemas psiquiátricos ou psicosomáticos.

 Nada impede que os chás-de-pajé, as artes-das-curandeiras e as plantas-que-curam, que possuem tão denso passado histórico, tenham também um excelente futuro.

SAIBA MAIS: http://www.encontrodeculturas.com.br/2016/

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 02] – MOSAICOS DOS VIVENTES: Um breve painel dos participantes da vivência na X Aldeia Multiétnica

Fotografia por Santi Asef

Fotografia por Santi Asef

MOSAICO DOS VIVENTES

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (17 / 07 /2016)

Como é tradição, o domingo raiou na Aldeia Multiétnica com um banho de rio ao nascer do sol. A etnia Kayapó, responsável pela festa do dia, iniciou desde cedo os preparativos para as festividades. Pela manhã, ocorreu também uma oficina de confecção de arco e flecha, com materiais tradicionais, com guerreiros indígenas Kayapó.

A roda de lideranças indígenas, ocorrida logo pela manhã, é um espaço para a discussão em conjunto da programação, da diária coleta de materiais, das atividades que ocorrerão dia afora, e principalmente das demandas de cada comunidade: se estão precisando de alimentos, se estão confortáveis. É um espaço de escuta, construção e sugestões onde definem o que é melhor pra todos e quem pode cooperar em qual tarefa.

Posteriormente a isso, abrigados do sol inclemente do cerrado sob a proteção da teia geodésica, uma roda­ de­ prosa possibilitou que os viventes, voluntários e representantes indígenas se conhecessem melhor. A dinâmica foi orientada por Fernando Schiavini, que trabalhou por 40 anos na Funai e possui três livros publicados (o mais recente dele é Os Desafios do Indigenismo), que destacou a relevância de “quebrar barreiras e estereótipos não só entre indígenas e viventes, mas também entre as próprias etnias”.

As pessoas que estão acampadas na Aldeia – conhecidas como “viventes” ­- puderam revelar umas às outras suas proveniências, histórias de vida, motivações para estar ali. Muitos participantes expressam gratidão pela oportunidade de vivenciar as experiências propiciadas pela Aldeia: “com certeza vamos voltar para casa diferentes do que chegamos”; “isto aqui é como um portal de conhecimento que se abre”; “aqui podemos ir em busca de nossas próprias origens”; “vim em busca de expandir meu conhecimento acadêmico através de relações concretas” -­ eis algumas das frases agradecidas que se ouviram.

Houve quem declarasse que está presente também para “pedir desculpas” pelo que foi perpetrado contra os povos indígenas durante os 516 anos de colonização. Não faltaram aqueles que se dizem numa jornada de busca, seja ela artística, espiritual ou pedagógica, com a meta de refazer conexões com a terra, o território, a raiz. A percussionista Kika Deeke, por exemplo, que participa do coletivo audiovisual Brasileirando, veio em busca de conexão com “a fascinante musicalidade dos povos indígenas”, seus instrumentos musicais peculiares e ritmos particulares.

Vários universitários que estudam arquitetura também estavam presentes e tiveram apoio da própria faculdade onde estudam para que pudessem viver algo de educativo em ambientes extra­classe. Também estavam presentes, realizando filmagens, os membros da equipe de Índio Presente, série que será apresentada a partir de 2017 em TVs públicas, como a TV Brasil. Após a roda ­de ­prosa, grupos de viventes se dirigiram ao almoço com as etnias, que dá acesso também aos costumes culinários e hábitos de convivência que são específicos de cada etnia.

X Aldeia Multiétnica. Fotografia: Bruna Brandão.

X Aldeia Multiétnica. Fotografia: Bruna Brandão.

ACESSE O ÁLBUM COMPLETO
SAIBA MAIS: www.encontrodeculturas.com.br/2016

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 01] – A POLIFONIA DAS PROSAS: Aldeia Multiétnica chega à sua 10ª edição propiciando multiplicidade de encontros e vivências

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Pajé Raimundo Dessana fala numa roda-de-prosa durante a X Aldeia Multiétnica 2016. Foto: Pedro Henriques.

A POLIFONIA DAS PROSAS

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (16 / 07 /2016)

Catalisadora de interações interculturais e intersubjetivas intensas, a Aldeia Multiétnica 2016 chegou à sua 10ª edição e veio repleta de rodas-de-prosa. Estas propiciam ricas vivências aos presentes – indígenas, viventes, voluntários e visitantes – numa multiplicidade de encontros, debates, interconexões e partilhas.

A polifonia das prosas que emerge das rodas abarca vários temas, como extrativismo sustentável, segurança alimentar dos povos indígenas, artesanato indígena e economia criativa, convenções da Organização Internacional do Trabalho, dentre muitos outros (confira a programação completa).

Vivenciar uma roda-de-prosa revela-nos passado, presente e futuro dançando uma ciranda. Debatem-se assuntos urgentes da vida política presente, compartilham-se costumes e saberes ancestrais e abrem-se janelas para a construção de um futuro comum. Proseando é que se vão tecendo teias de solidariedade e resistência, circuitos de circulação de sabedorias. Cada um daqueles que toma a palavra busca sintetizar experiências vividas no esforço de tornar comum uma riqueza partilhável. E há magia infinda em perceber que a realidade fica enriquecida, e não diminuída, pela partilha.

A multiplicidade de oradores que se manifestam, buscando harmonizar suas diferenças, revelam várias abordagens sobre o poder do verbo e o trato correto com a palavra. Há quem não goste de palmas ao final de discurso: “eu não quero que meu espírito vá avoar e não vá voltar mais não”, reclama dos aplausos uma das lideranças indígenas.

Um exemplo da urgência do tempo presente que se impôs nas prosas deste sábado, 16 de julho, foram os rumos da FUNAI, já que neste momento histórico a ameaça de retrocesso pesa como uma nuvem ameaçadora no horizonte, como ficou claro após a possível nomeação do general Peternelli para a presidência da Fundação Nacional do Índio.

Movimento Ocupa Funai manifesta-se em Brasília, em  13 de Julho de 2016

Movimento Ocupa Funai manifesta-se em Brasília, em 13 de Julho de 2016. Acesse o blog da Mobilização Nacional Indígena.

A Aldeia Multiétnica raiou sob o impacto de eventos recentes, como a onda de ocupações e protestos do #OcupaFunai, que atingiu seu auge poucos dias antes do início do 16º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiro, em 13 de julho, quando, como informa o Instituto Sócio-Ambiental,

“indígenas e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) promoveram ocupações em pelo menos 32 locais em todas as regiões do país, incluindo escritórios regionais da Funai e rodovias (veja abaixo mapa interativo). Eles protestam contra a revisão e paralisação das demarcações de Terras Indígenas (TIs), os cortes de verbas e servidores da Funai, o loteamento político da presidência do órgão, a municipalização da saúde indígena e as violências cometidas contra os povos indígenas. O movimento “Ocupa Funai” foi encabeçado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e servidores do órgão indigenista (leia a carta da APIB).”

As urgências do presente, debatidas com ardor, não impedem que os portadoras de sabedoria ancestral também se utilizem das rodas-de-prosa para comunicarem saberes e partilharem angústias, como fez o pajé Raimundo Dessana, proveniente do Amazonas. Ele refletiu em público sobre temas dos mais diversos, inclusive sobre o “fim do mundo” e a crise ecológica-civilizacional que nos assombra (saiba mais sobre Raimundo Dessana neste perfil).

Esta sinfonia polifônica de debates e partilhas constitui um mosaico onde passado, presente e futuro marcam presença conjuntamente. As rodas-de-prosa servem à transmissão dos saberes e fazeres consagrados que mantêm viva a chama da memória coletiva, mas também para discutir problemas candentes do presente que demandam a urgente ação coletiva. Assim deliberam-se rumos para a construção do futuro, no qual nada impede que floresçam iniciativas inovadoras e cheias de potencial, como a própria Aldeia Multiétnica e sua Tenda Multimídia Indígena. Ali ocorre no domingo (17/07), às 14h, a roda-de-prosa “Etnomídia e afirmação da identidade indígena”, com Denilson Baniwa, da Rádio Yandê, lideranças indígenas e convidados ligados ao tema. Vivencie!

CONFIRA ALGUMAS FOTOS DA X ALDEIA MULTIÉTNICA

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Bruna Brandão

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Foto: Bruna Brandão

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