X ALDEIA MULTIÉTNICA: Diálogo entre o fotógrafo Danilo Christidis e a psicóloga Giuliana Mattiazzo Pessoa [Encontro de Culturas 2016, Txt 17]

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bruna-brandao-7730Fotos: Bruna Brandão

X ALDEIA MULTIÉTNICA

EM DIÁLOGO: DANILO CHRISTIDIS E GIULIANA MATTIAZZO PESSOA

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” – assim dizia o poeta Vinícius de Moraes no “Samba da Bênção”. No “Encontrão”, apelido carinhoso do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, que realizou sua 16ª edição neste 2016, esta arte do encontro é praticada em uma miríade de diálogos, rodas-de-prosa e oficinas que transformam o evento numa multiplicidade de intercâmbios e numa conferência intercultural de saberes.

Catalisador de convívios, o Encontrão oferece chances de nos encontrarmos com as múltiplas faces da alteridade e atua como um autêntico “esticador de horizontes”, para relembrar a expressão tão feliz de Manoel de Barros.

É com imensa satisfação que A Casa de Vidro apresenta um bocadinho do que rolou no Encontrão através deste vídeo, filmado na X Aldeia Multiétnica, que registra um instigante e instrutivo diálogo entre o fotógrafo e educador visual Danilo Christidis e a psicóloga Giuliana Mattiazzo Pessoa.

ASSISTA NO VIMEO OU NO YOUTUBE:


Danilo Christidis é co-autor do livro de fotografias Os Guarani Mbyá, publicado em Porto Alegre, pela Ed. Wences, em 2015. Trata-se da primeira obra, no âmbito da fotografia brasileira, a ter sido composta em co-autoria com um fotógrafo indígena, o Vherá Poty (“Relâmpago Florido”), um jovem cacique Guarani-Mbyá da aldeia Itapuã, no Rio Grande do Sul.

Danilo relembra – como revelamos na matéria Os Deuses Que Dançam: Vislumbres da Cultura Guarani-Mbyá –  que a princípio agiu como professor de fotografia, ensinando técnicas e truques para Vherá Poty. “Mas o interessante é que os papéis se inverteram muito rapidamente: eu deixei de ser o professor e me tornei muito mais o aluno dele”, rememora Danilo. “Eu queria aprender como desconstruir o meu olhar, que é de um não-indígena (o que eles chamam de um juruá, um “boca-cabeluda”). Assim, pouco a pouco busquei entender de que forma poderia aparecer, na fotografia, um modo-de-vida e uma cosmovisão. Foram sete anos convivendo para que fosse possível realizarmos este livro.”

Conversando com Danilo durante um almoço na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, perguntei-lhe por que, nas páginas do livro, não há créditos informando qual dos dois fotógrafos tirou cada uma das fotos. Sua resposta, sintética e profunda, ficou marcada na memória: “A autoria é da relação.” Nenhuma das imagens seria possível sem o vínculo estabelecido entre os dois, sem a convivência mutuamente enriquecedora estabelecida entre eles. Confira abaixo algumas  das imagens que integram o livro:

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SAIBA MAIS, VEJA OUTRAS FOTOS E ADQUIRA O LIVRO

Giuliana Mattiazzo Pessoa, recém-formada no curso de Psicologia da PUC-SP, realizou um trabalho de conclusão do curso (TCC) em que buscou elucidar as raízes e razões de um drama trágico que desenrola-se no Brasil: a epidemia de suicídios de Guaranis-Kayowá no Mato Grosso do Sul – entre 2003 e 2014, foram mais de 707 suicídios da etnia somente no MS. Uma recente reportagem de Daiara Tukano, publicada no site da Rádio Yandê, revela as dimensões do “suicídio indígena, mais uma face do genocídio”. 

O trabalho da Giuliana Mattiazzo “Suicídios Guarani Kaiowá: o Território Tradicional e a Identidade Étnica (tekoha)” (2016, 106 pgs) está disponível para leitura on-line  e também pode ser encontrado na biblioteca da PUC-SP. A Giuliana inspirou-se, para realizar seu trabalho, na perspectiva teórica da psicologia social de Antônio Ciampa, além de ter pesquisado ativistas da causa indígena como Valdelice Veron, antropólogos como Eduardo Viveiros de Castro e sociólogos do suicídio como Émile Durkheim.

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Valdelice Veron, liderança Guarani Kayowá

Mobilizando uma reflexão focada no conceito de identidade, tal como teorizado por Ciampa, ela buscou “correlacionar este conceito com a ocorrência de suicídios generalizados entre jovens da etnia Guarani-Kaiowá, da região do Mato Grosso do Sul (MS)”, refletindo sobre a “relação do índio com o seu território tradicional e a importância do mesmo para a produção de uma identidade autêntica e saudável.”

Giuliana relembra que entrou em contato com “o conhecimento xamânico e seus rituais de cura” e compreendeu “que muitas tradições indígenas possuem uma vasta sabedoria no que tange à saúde e ao cuidado”. “Foi aí que percebi o quanto a Psicologia – tanto da graduação da PUC-SP, quanto de maneira geral – não só se ausentou do contato com essas sabedorias milenares como as desconsiderou. Frente a isso, vi a necessidade de me aproximar da sabedoria indígena, não mais numa relação unilateral de aprendizado, mas numa relação de troca.”

A autora foi agraciada com o 3° lugar no Prêmio Marcus Vinícius de Psicologia e Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia (CRP) – SP, na categoria estudante, com o artigo “Suicídios Guarani Kaiowá: a impossibilidade do território tradicional como obstáculo para a produção da identidade étnica”. O prêmio “tem como finalidade estimular a produção de artigos da área de Psicologia a respeito da persistente violação de direitos praticada pelo Estado, no passado e no presente.”

É com intensa gratidão que saúdo Danilo e Giuliana pelos excelentes momentos de convívio que tivemos na X Aldeia Multiétnica. E convido a todos para que experienciem, no vídeo que aqui compartilhamos, este diálogo inteligente, profundo e bem-informado que filmamos na convicção de que ajudará a elucidar muita coisa sobre o drama e a tragédia, a beleza e o sofrimento, as raízes e os horizontes, dos povos Guaranis. É nossa esperança de que este material, aqui compartilhado, possa contribuir para lançar luz e aprofundar reflexão sobre as existências atuais dos povos originários hoje (r)existem, a duras penas, em um mundo que gostaríamos que fosse menos hostil àqueles que resguardam tantas sabedorias conviviais, cosmovisões geniais e terapêuticas ancestrais.

ASSISTA JÁ:

Uma produção A Casa De Vidro – Junho de 2016 – 62 minutos
Filmagem e Edição: Eduardo Carli de Moraes
Fotografias: Bruna Brandão, Danilo Christidis, Vhera Poty
Trilha Sonora: Uakti

[Encontro de Culturas Txt 16] Sabenças da Infância: as ensinanças lúdicas da oficina de Thâmile Vidiz no XVI ECTCV

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A X Aldeia Multiétnica e o XVI Encontro de Culturas também são espaço de congregação lúdica e união cirandeira no entrelaçamento das culturas. Foto: Santiago Asef.

INFÂNCIA QUE REVIVE

Como parte integrante do XVI ECTCV, a oficina “Sabenças da Infância” de Thâmile Vidiz explorou o universo do lúdico, suas práticas e saberes, suas graças e charmes, numa jornada de reconexão com as raízes

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A oficina “Sabenças da Infância”, com Thâmile Vidiz, animou o Espaço Petrobrás na quarta-feira, 27 de julho, como parte da programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O projeto tem como um de seus objetivos possibilitar que a diversidade das tradições e culturas de infância se revelem na criação e recriação de brincadeiras, num espaço lúdico onde os jeitos-de-jogar se entremesclam. Por que não misturar os modos de brincar tão conhecidos dos brasileiros (como as cobras-cegas ou os jogos de “o que é, o que é?”) com jogos vindos de outras civilizações (como a confecção artesanal das bonequinhas quitapenas da Guatemala)?

Brincadeiras, mímicas, canções, narrativas, trava-línguas, cabras-cegas, unidunitês, jogos de adivinhar, dentre outros elementos, deram o tom desta vivência que foi destinada a todas as idades, inclusive as que desejam uma reconexão com o frescor perdido da infância. Durante a oficina, uma maioria de adultos e adolescentes, acompanhados por três crianças, buscaram reencontrar-se com uma espontaneidade e uma graça que o correr dos anos às vezes trata de aniquilar. Como disse Carl Gustav Jung, infelizmente temos a tendência a “nascer como originais e morrer como cópias”.

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Apesar do clima de leveza e descontração, de jovialidade e muitos risos, a oficina de Thâmile Vidiz deu muito o que pensar sobre o valor do lúdico no processo de aprendizado: um trava-língua é excelente instrumento para desenvolver habilidades linguísticas, virtuosismo no trato com o verbo falado, podendo servir como primeiros passos no processo de desenvolvimento de futuros rappers, repentistas, radialistas, rapsodos.

Os jogos-de-adivinhar também tem a serventia de aguçar a curiosidade e botar os miolos para funcionar. Diante de um “o que é, o que é”, a mente sai em busca da resposta para o mistério de decifrar e nisto se exercita alegremente, desenvolvendo aptidões novas e colocando em movimento uma espécie de divertida vasculhação do mundo e seus mistérios: “Quem é que vive com os pés na cabeça? É o piolho! Quem é que dá muitas voltas e não sai do lugar? É o relógio! Quem é que cai de pé e corre deitado? É a chuva! Quem é que tem mais de 10 cabeças e não sabe pensar? A caixa de fósforos! Quem é que corre a casa e vai dormir no canto? A vassoura!”.

Quitapenas pelos pequenos e crescidos no Vilarejo de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, em um encontro do Sabenças da Infância... Bonequinhas que surgiram na Guatemala, por mães indígenas para acalentar coração de crianças com medo...  SAIBA MAIS

Quitapenas criadas pelos pequenos e crescidos no Vilarejo de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, em um encontro do Sabenças da Infância. Bonequinhas que surgiram na Guatemala, por mães indígenas para acalentar coração de crianças com medo… SAIBA MAIS!

Um dos auges da oficina de Thâmile Vidiz foi a confecção das quitapenas, pequeninas bonecas de origem nos povos indígenas da Guatemala. De fácil fabricação artesanal – você não precisa de muito mais do que palitos de fósforo, linhas para costura e muita criatividade para enfeites –, as pequenuchas quitapenas são brinquedos que cabem na palma da mão.

Como explicou Thâmile, o folclore conta que quando você não consegue pegar no sono, pois está aflito com preocupações, pode contar os teus problemas para a quitapena, depois guardá-la debaixo do travesseiro, e pronto: a pena se mandou. Segundo as lendas muito populares na cultura guatemalteca, a insônia será enxotada e as angústias serão aliviadas pelo simples fato de narrarmos nossos males para a microboneca. Eis um ótimo substituto – e muito econômico! – para o divã do psicanalista e os dispendiosos ouvidos de aluguel que são os praticantes do ofício psicanalítico.

Vivenciar a oficina “Sabenças da Infância” leva a pensar que, apesar da leveza e da graça com que faz e acontece, o lúdico é coisa séria na história. Em um estudo muito interessante, publicado em 1938, Johan Huizinga propôs que seria mais adequado que mudássemos o nome da espécie de homo sapiens para homo ludens. Afinal de contas, nada no percurso pregresso da humanidade, nem nada no nosso presente, referenda a avaliação de que sejamos sábios (sapiens). E tudo no nosso passado e no nosso presente indica que em toda parte, em qualquer latitude onde haja gente, culturas jogam, brincam, cantam, dançam. Em suma, congregam as pessoas com os cimentos invisíveis do lúdico.

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Em seu livro (acesse o ebook em PDF), Huizinga argumenta, de modo bem convincente, que o jogo é algo comum a todas as culturas, o traço de união que as congrega, uma espécie de universal concreto. Há quem jogue capoeira, há quem prefira o futebol; há quem toque violão, há quem prefira ficar no faz-de-conta ou no air guitar; tem quem prefira correrias e atletismos, e há os que são mais de um xadrez cerebral. De todo modo, não existe povo sem jogo, todo tipo de gente inventa sua ludicidade. E as artes, em sua raiz, também estão conectadas ao jogar, a ponto de Huizinga diagnosticar que a cultura, num sentido amplo, tem no lúdico, no “jogo”, um de seus nascedouros e uma de suas fontes mais importantes.

“O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana'” (Huizinga, “Homo Ludens”, 1980, p.33).

Vale notar que seria difícil quantificar a magnitude da riqueza cultural brasileira que emerge do âmbito do lúdico: não faltam artistas brincalhões e geniais por meio da história de nossas artes: lembremos somente, de modo sumário, d’Os Mutantes, de Tom Zé, do Patu Fu, de Oswald de Andrade, Manoel de Barros, Stanislaw Ponte Preta, de Henfil, Millôr Fernandes, Laerte, Angeli etc.

Quem acha que sabedoria é coisa de velhos e só existe em gente de cabelos brancos, pôde repensar este dogma a partir da oficina de Thâmile Vidiz. Ela nos revelou a amplidão das “sabenças da infância”, práticas e jogos que servem para congregar, transpondo os abismos da alteridade numa ciranda onde o eu transcende seu isolamento rumo a ser parte-de-nós. E o melhor: através do lúdico, empreendemos este processo de construção de pontes na companhia de risos e sorrisos. É também a sabença de Cartola: “A sorrir eu pretendo levar a vida / Pois chorando eu vi a mocidade… perdida.”

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Fotos: Pedro Henriques no XVI ECTCV

[Encontro de Culturas Txt 15] Preciosos patrimônios culturais: a valorização e proteção das festas tradicionais é tema de roda de prosa no XVI E.C.T.C.V.

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Foto: Santi Asef

Foto: Santi Asef, Vila de São Jorge durante o XVI E.C.T.C.V.

Preciosos patrimônios culturais: a valorização e proteção das festas tradicionais é tema de roda de prosa no XVI E.C.T.C.V.

Propor caminhos para a valorização e proteção dos patrimônios culturais, com destaque para as festas tradicionais, esteve entre os objetivos de muitos participantes do “Encontrão” 2016

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A roda-de-prosa “Manutenção das festas tradicionais: valorização e proteção do patrimônio cultural imaterial” aconteceu na Casa de Cultura Cavaleiro Jorge na terça-feira, 26 de julho de 2016, como parte da programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O “troca-troca cultural” contou com a presença de Juliano Basso (Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e ECTCV), Eduardo Melo (Festa da Lavadeira), Paulo Dias (Instituto Cachuera!), Glaucia Rodrigues (CEU – Centro de Estudos Universais), Zé Nilo (Caçada da Rainha), Mestre Hugo Leonardo (do coco e maracatu pernambucano, que apresentou-se com o grupo Besouro de Mangangá), Bruno Goulart (antropólogo e documentarista, co-diretor de A Noite Mais Curta), Sinvaline Pinheiro (que trabalha com preservação da memória do cerrado), Gabriel Levy (Música do Mundo), Tôca (da comunidade Kalunga), dentre outros.

Durante o diálogo em roda, foram debatidas formas inovadoras de alcançar o fortalecimento e a interconexão de encontros, festivais, institutos, além de outras iniciativas similares, que tenham por valor diretriz a salvaguarda e o empoderamento de culturas tradicionais. “Temos uma diversidade humana que está entre as maiores do mundo”, afirmou Basso, destacando a importância de iniciativas como a Aldeia Multiétnica, que realizou sua décima edição em 2016.

Juliano Basso destacou também a potência de encontros como este que se realiza há 16 anos, na Chapada dos Veadeiros, como espaço propositor de políticas públicas: “A gente passa por uma época difícil, com este governo Temer, e é importante que a gente aponte caminhos. O Encontro sempre prezou por este papel de apontar caminhos para a manutenção e para o fortalecimento das culturas tradicionais e suas festas. Pois é nas festas que se fortalece toda a comunidade. Existe este Brasil, que é um Brasil muito verdadeiro, que ainda não alcançou o espaço necessário nas mídias tradicionais, na mentalidade do povo brasileiro, no sistema de educação etc”.

Foto: Bruna Brandão

Foto: Bruna Brandão

Um exemplo notável é a comunidade do sítio histórico Kalunga, que ocupa 237 mil hectares e abriga mais de 4.500 pessoas. Trata-se, segundo Basso, de “uma terra muito bonita e preservada, cheia de cachoeiras, com um alto potencial econômico sustentável, e onde as manifestações tradicionais, como a dança sussa, são cada vez mais fortes na comunidade, que está cada vez mais assumindo sua identidade. O Encontro fez um papel de ajudar e de promover isso durante esses anos todos. Também temos as festas tradicionais ligadas ao povo que foi escravizado, ao povo negro que veio da África, como a Caçada da Rainha, que remonta à primeira ocupação desta região da Chapada dos Veadeiros, no começo dos anos 1700”.

Uma iniciativa sintonizada aos ideais que animam o ECTCV é o Instituto Cachuera!, de São Paulo, representado por Paulo Dias, que explicou os objetivos e atividades do Cachuera! em sua trajetória que visa pesquisar, documentar e divulgar a cultura popular brasileira. Há 17 anos, instituto vem agindo em prol da salvaguarda e fortalecimento de expressões culturais populares de muita presença no cenário cultural do Sudeste, como o jongo, e tem entre seus objetivos a criação de um acervo digital:

“O Acervo Cachuera! é composto por aproximadamente 1.300 horas de registro audiodigital, 900 horas em vídeo de mais de 140 localidades percorridas e está acondicionado em reserva técnica localizada na sede da Associação. Seu conteúdo prioritário é focado nas manifestações das comunidades afro-descendentes do Sudeste brasileiro, particularmente de matriz bantu. O banco de dados do Acervo Cachuera!, disponível para consulta pública gratuita no local e online, é formado a partir do esforço em articular e sistematizar a catalogação dos registros realizados em diferentes suportes, desenvolvendo condições de acesso a usuários como pesquisadores, artistas e estudantes. A política de retorno do acervo tem propiciado a oportunidade de a associação realizar projetos em parceria com diversas comunidades, como é o caso do Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi, do qual a Cachuera! foi proponente.” [Site do I. Cachuera!]

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Também contribuiu para os debates desta roda-de-prosa, no XVI ECTCV, a psicóloga Gláucia C. B. Rodrigues, que há 20 anos atua no Centro de Estudos Universais (CEU), iniciativa nascida no interior da Univeridade de São Paulo (USP). “O CEU buscava juntar, dentro da universidade, a arte, a ciência e a espiritualidade, temas que muitas vezes são mantidos separados dentro da academia”, disse Gláucia. “Nós do Centro de Estudos Universais pensamos que esta união – arte, ciência, espiritualidade – é essencial para a transformação e para a saúde do planeta”.

Ela é a idealizadora e realizadora do Encontro de Músicas e Danças do Mundo, que realizou em 2016 sua décima edição, na Bahia, com o tema Dançando pela Paz. “Nós nos percebemos como cidadãos planetários, que compartilham de um mesmo espaço, que é o planeta Terra, rico em diversidade”, disse Gláucia. “Porém, neste momento em que vivemos, a cada 15 minutos uma língua desaparece da Terra – e isto é uma grande perda para o planeta. Hoje todo mundo se preocupa muito com a parte física desta perda, com a ecologia, a sustentabilidade, a preservação da natureza, mas julgamos que junto com esta preservação natural tem que estar a preservação da diversidade dos povos. Em cada língua, em cada vestimenta, em cada cultura há uma sabedoria muito grande”.

A extinção de línguas e culturas – aquilo que o antropólogo Pierre Clastres se propôs a batizar com o termo etnocídio – é uma triste recorrência histórica no Brasil (e não só por aqui). Hoje, segundo dados do IBGE, 274 línguas indígenas são faladas no Brasil. O número pode parecer elevado, mas já foi muito mais: uma imensidão de diversidade sociocultural já foi perdida, como aponta José R. Bessa Freire: “no século XVI, no território que é hoje o Brasil, eram faladas mais de 1.300 línguas, de diferentes famílias e troncos linguísticos, todas elas portadoras de narrativas orais, de conhecimentos e de memória.” (José R. Bessa Freire, A Demarcação das Línguas Indígenas no Brasil, cap. #14 do livro de Carneiro Cunha [org.], 2014, p. 365.)

É também para apontar caminhos rumo à utopia de um Brasil realmente inclusivo, ciente de sua diversidade, celebrador de suas múltiplas diferenças, fiel a suas raízes, que muitos encontros e intercâmbios estão agora em ebulição no Encontrão da Chapada dos Veadeiros. São intensas tentativas de constituir uma “rede de encontreiros”, uma união de produtores culturais, uma fraternidade digitalizada de pessoas conectadas às causas das comunidades originárias e tradicionais, tudo em prol do fortalecimento de parcerias e da solidarização de esforços que conduzam a um outro mundo possível, onde a sociobiodiversidade seja defendida, fortalecida, celebrada. Pois só assim teremos um futuro.

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Fotos: Pedro Henriques, Vila De São Jorge, XVI E.C.T.C.V.

[Encontro de Culturas Txt 14] A tradição sobe ao palco: conheça o documentário “A Noite Mais Curta”, exibido durante o XVI E.C.T.C.V.

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Vinícius Fernandes e Bruno Goulart, co-diretores do filme “A Noite Mais Curta”. Foto: Bruna Brandão.

A tradição sobe ao palco: “A Noite Mais Curta”

Filmado durante o XV Encontro de Culturas Tradicionais, documentário revela mestres da cultura afro-brasileira e tradicional, assim como produtores culturais, falando sobre os dilemas vivenciados na apresentação da tradição em palco

Filmado durante o XV Encontro de Culturas Tradicionais, em Julho de 2015, o documentário curta-metragem “A Noite Mais Curta”, realizado por Vinícius Fernandes (formado em audiovisual na UnB) e Bruno Goulart (antropólogo que realiza atualmente pesquisa de doutorado sobre o Encontro de Culturas), foi exibido durante o cineclube da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge na terça-feira (26 de Julho), às 19h. Ele também foi disponibilizado para ser assistido, na íntegra, no Youtube.

“A Noite Mais Curta” revela mestres da cultura afro-brasileira e tradicional, assim como produtores culturais, falando sobre os dilemas vivenciados na apresentação da tradição em palco. Um exemplo de dilema está na dificuldade de “migração” de expressões culturais que se dão “no chão”, e muitas vezes com instrumentos musicais artesanais, para um novo contexto, a estrutura palco-platéia, que inclui microfonação, amplificação, holofotes de luz e uma temporalidade determinada pela agenda do evento.

“O que me interessa bastante, desde minha pesquisa de mestrado, são os dilemas que os grupos de cultura popular enfrentam quando tem que levar práticas religiosas, como as folias, que tem um tempo ritual, para cima de um palco, ou seja, para um contexto de apresentação”, esclarece Bruno Goulart.

Para explicar melhor os processos sociais que eles pretenderam problematizar com o filme, Goulart evoca o exemplo da apropriação do samba por parte do Estado Novo, instaurado por Getúlio Vargas em 1937, em que o samba era celebrado mas sofria um processo de “embranquecimento”: “Celebrava-se a estética do samba e do carnaval, que eram práticas sociais associadas à população negra brasileira, mas que quando iam para o cinema ou para o rádio, por exemplo, sofriam um processo de embranquecimento. O samba vai fazer sucesso na voz de cantores como a Carmen Miranda, por exemplo.”

Goulart destaca que a própria noção de um grupo musical definido vai se constituindo neste processo de trânsito entre o solo original de manifestação da expressão cultural e o palco onde se apresentará a um público: “Não existe a noção de grupo no folguedo popular, por exemplo. Por isso eles tem que constituir grupos para se apresentarem aqui no Encontro de Culturas. Quisemos abordar os dilemas que muitos mestres da cultura popular vivenciam diante da apresentação, já que há muitas práticas religiosas que não tem nada a ver com o palco. Quisemos mostrar como os mestres e os artistas estão construindo essas apresentações, como eles lidam com a performance em um contexto que é mais do espetáculo, diante de um público muitas vezes alheio a esta religiosidade que está presente, por exemplo, nas congadas. Foi tentando problematizar estas questões a partir dos mestres que surgiu a ideia do documentário.”

 Vinícius Fernandes, responsável pela filmagem e pela edição do curta-metragem, complementa: “percebemos que uma série de adaptações de ordem técnica e estética, de tempo e espaço, ocorriam. Tentamos nos aproximar dessas adaptações e reinvenções, revelando um pouco dos bastidores desta vinda dos grupos de seus contextos locais para a apresentação aqui no Encontro de Culturas. Por meio de conversas com os mestres e os produtores culturais, buscamos pensar as perspectivas e as nuances desse trânsito do chão para o palco, do contexto local para o contexto do espetáculo e da indústria cultural.”

 Os realizadores do documentário procuraram dar voz tanto aos mestres da cultura popular, para mostrar como eles vivenciam este contexto, quanto aos produtores culturais (dentre eles, Juliano Basso e Geovana Jardim). Como reflete Goulart, um dos grandes temas de “A Noite Mais Curta” é o reconhecimento:

 “Muitas das tradições populares que estão sendo apresentadas aqui no palco, durante o Encontro, são manifestações populares que foram invisibilizadas, que sofreram perseguição e preconceito inclusive por parte da igreja: muitos padres se recusavam a reconhecer as festas de congado em algumas cidades e as próprias folias eram vista com maus olhos por muitas autoridades religiosas; e muitos padres, como o seu Severo dos Crixás colocou pra gente, não deixavam as folias entrar na igreja. Foi interessante então perceber como estes mestres percebiam o palco como um momento de reconhecimento, de aceitação por parte da sociedade destas manifestações tradicionais.”

ASSISTA: “A NOITE MAIS CURTA” (19 min)

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SINOPSE BREVE: Mestres da cultura afro-brasileira e tradicional, assim como produtores culturais, falam sobre os dilemas vivenciados na apresentação da tradição em palco.

[Encontro de Culturas – Txt 11] Corpo a corpo com a ancestralidade: os segredos da musicalidade afrobrasileira segundo Nego Ativo, do Berimbrown

Corpo a corpo com a ancestralidade: os segredos da musicalidade afrobrasileira segundo Nego Ativo, do Berimbrown

Oficina de Musicalização, com o mestre Nego Ativo do Berimbrown, revela muitos segredos da musicalidade afrobrasileira e do potencial artístico de berimbaus e capoeiras

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

O XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros ofereceu aos interessados uma ótima oportunidade de vivência sobre a musicalidade afrobrasileira através da “Oficina de Musicalização na Capoeira”, que ocorreu na manhã de Domingo, 24 de Julho, no espaço Petrobras.  A vivência foi conduzida pelo mestre Nego Ativo, um dos fundadores e líderes do grupo mineiro Berimbrown, banda que já tem 20 anos de trajetória e realizou 2 shows durante o Encontrão deste ano.

O berimbau é um dos instrumentos musicais mais representativos da cultura afrobrasileira e um elemento essencial da capoeira. O ritmo e a vibe que animam as interações corporais acrobáticas dos capoeiristas estão umbilicalmente conectados à peculiar sonoridade do berimbau. Este instrumento musical, originário de Angola, foi trazido ao Brasil por aqueles que foram sequestrados no continente africano pelo imperialismo escravagista e que, mesmo a duras penas, sob o jugo tenebroso da escravidão, no Novo Mundo mantiveram viva a chama de sua cultura nativa.

O berimbau, por isso, soa como o som da resistência e da resiliência de uma cultura milenar que, longe de ter sido dizimada pelas atrocidades dos imperialistas europeus, sobreviveu após atravessar aquilo que o historiador e antropólogo Paul Gilroy batizou, em seu clássico estudo, de Atlântico Negro.

Durante a oficina pudemos conhecer em minúcias alguns detalhes e curiosidades sobre o berimbau. Poucos sabem, por exemplo, que existem pelo menos 3 subtipos de berimbau: o gunga ou berra-boi, de tom mais grave; o berimbau médio; e o viola, de tom mais agudo. Cada berimbau é simultaneamente um instrumento percussivo e harmônico, o que foi exemplificado na prática durante a oficina através de 3 berimbaus, de diferentes tonalidades, que foram tocados juntos, criando um campo harmônico convidativo para que um coro de vozes desenhasse sua melodia sobre eles.

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Nego Ativo, mestre de capoeira e grande conhecedor de nossa MPB, realizou junto aos presentes uma série de dinâmicas de grupo destinadas a ensinar algumas noções básicas de ritmo, harmonia e melodia. Mas não foram lições de teor teórico, pois o intento era conseguir, junto aos presentes, uma criação coletiva e improvisada, numa espécie de jam session de afrobrasilidade. Dito e feito.

Ele explicou brevemente o funcionamento dos compassos musicais com um linguajar acessível e saboroso: para explicar o compasso quaternário, de quatro tempos, destacou a importância do primeiro tempo, “a cabeça do compasso”, “aquilo que nos sustenta”, e com auxílio das batidas geradas pelas palmas ou pelos pés no chão mostrou na prática como funcionam os mecanismos de acentuação rítmica (pedindo, por exemplo, palmas no segundo e no quarto tempo do compasso quaternário).

Teceu ainda comentários sobre tempo e contratempo, explanou sobre a sustentação de notas e sobre as notas mais breves (os chamados stacattos). Recomendou aos presentes que querem fazer boa música: “vocês não podem sair correndo, com tudo descompassado.” Segundo Nego Ativo, a ritmicidade genuína não tem nada a ver com a pressa ou correria que caracteriza boa parte das atitudes daqueles que vivem em grandes centros urbanos e submetidos às disciplinas do mercado de trabalho.

“A gente ser lento no mundo moderno é uma dificuldade”, refletiu. Complementou, de modo a um só tempo brincalhão e sério: “temos que dar uma banana para a velocidade!” Para desenvolver um ouvido musical, é preciso dedicar tempo a não somente ouvir música, mas realmente tentar compreendê-la, em todos os seus elementos. “Temos que limpar os ouvidos, mas não tô falando de cotonetes”, brincou.

  Mano Ativo forneceu uma série de dicas para desenvolver o que ele chamou de “consciência rítmica”, dentre eles um exercício simples mas eficaz: atentar para a própria batida deste tambor incansável que cada um de nós carrega no peito (uma excitante canção recente do indie-rock internacional resume a ópera: “The Heart Is A Beating Drum”). O coração, com suas sístoles e diástoles, é o percussionista do nosso organismo. E não há músico que dê conta de realizar algo de ritmo interessante sem estar em sintonia com o pulsar do próprio corpo. O segredo da boa música, sugere Nego Ativo, consiste numa reconexão com o corpo ancestral.

Ao final da vivência, ponderou: “Hoje, nesta manhã, conseguimos fazer esta conexão com o nosso corpo ancestral, com o nosso coração rítmico, pois nos permitimos este intercâmbio. Oficinas assim podem nos ajudar a ganhar uma sabedoria para que a gente aprenda a combater este sistema veloz que nos é imposto o tempo todo. É preciso termos um controle maior da nossa velocidade.”

Foi assim que Nego Ativo compartilhou um pouco de seus ricos saberes, incentivando os participantes a realizarem junto com ele, através de batuques e palmas, de cantos e danças, uma imersão no âmbito da musicalidade afro. Ele também abordou temas como a educação do ouvido musical, o desenvolvimento de uma consciência rítmica, além de temas conectados à alienação política e sua possível superação (que só se dará, segundo ele, se criarmos as condições para o florescimento de cidadãos pensantes e atentos, conectados à ancestralidade e autônomos, autodeterminados).

Nossa música popular brasileira foi profundamente marcada por amplas influências afro, sem as quais, por exemplo, não teria nascido o samba. Um instrumento de corda como o berimbau – que é constituído não só por uma vara com um fio de arame tensionado, mas também por uma cabaça dotada de caixa de ressonância, além de outros elementos – teve entre os músicos brasileiros alguns de seus maiores virtuoses (como Naná Vasconcelos), inspirou algumas de nossas mais inesquecíveis canções (como o afrosamba de Baden Powell e Vinicius de Moraes) e chegou até mesmo a ser representado nas artes plásticas por Jean-Baptiste Debret. Nego Ativo forneceu um ótimo painel disto no contexto da música brasileira, abrindo horizontes para que os presentes depois conhecessem de modo mais aprofundado alguns artistas que ele mencionou e recomendou (como Waldemar Liberdade).

 A oficina também contribuiu para incrementar nos conviventes a apreciação estética das performances da banda mineira Berimbrown, uma das grandes atrações musicais do XVI ECT. O grupo tem uma proposta estética e política de reconexão com as raízes ancestrais, em especial as africanas e suas descendências musicais americanas (via funk, soul, hip hop etc.). Este enraizamento se dá sem perder de vista o que há de mais contemporâneo, não há problema em mesclar os beats eletrônicos do DJ com a percussividade ancestral do berimbau – algo explícito no novo álbum deles, Lamparina. Além disso, o Berimbrown lida em suas letras com temas conectados às populações periféricas, quilombolas, subalternizadas, numa perpectiva que tem semelhanças com aquela que anima o projeto artístico de Manu Chao, Mundo Livre S.A ou Anita Tijoux.

 Algumas pessoas descrevem o som do Berimbrown como uma mistura de O Rappa com James Brown. Eles evocam no palco também outras figuras emblemáticas e inspiradoras, como Bob Marley, e revelam inspirações não somente artísticas,  mas intelectuais e cívicas, como Milton Santos. O Berimbrown convoca a galera para acender a lamparina e levantar-se por seus direitos (tocam uma versão peculiar de “Get Up Stand Up” do rasta-rei do ragga, por exemplo), transitando por estilos com desenvoltura, sempre na luta por por uma outra globalização, que inclua a diversidade ao invés de prosseguir na rota atual de um capitalismo perverso e excludente.

©Bruna Brandao-9114

Fotos: Bruna Brandão

ASSISTA AO CLIPE COM ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DO SHOW DO BERIMBROWN:

[Encontro de Culturas 2016 – Txt 08] “Caminhadeira”: conheça mais sobre a peça teatral de Suzana Zana na X Aldeia Multiétnica e assista a um vídeo exclusivo da apresentação

CAMINHADEIRA

Caminhadeira é uma mulher que resolveu fazer de sua casa o caminho e encher sua bagagem com as histórias que brotam dos encontros e das andanças. Assista o vídeo de sua apresentação na Aldeia Multiétnica, além de conferir trechos de uma entrevista com a multiartista Suzana Zana

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A multiartista Suzana Zana chegou à Chapada dos Veadeiros acompanhada por sua produtora Luiza Ritter após uma saga cheia de peripécias. A jornada delas faz jus ao título do espetáculo que Zana apresentou em três ocasiões durante o XVI Encontro de Culturas: Caminhadeira. Quem não pôde curtir a peça ao vivo, ou quem assistiu e já está com saudades, agora pode assistir a este vídeo, que registra na íntegra a performance da peça na Aldeia.

Suzana e Luisa vieram de Barra Mansa (Rio de Janeiro) e  integram o coletivo de teatro de rua Sala Preta (conheça o site oficial), que existe há sete anos. Para apresentarem-se neste XVI Encontro de Culturas, mobilizaram todas as suas forças em um financiamento colaborativo, por meio de rifas e muita propaganda boca-a-boca, o que foi bem sucedido em trazê-las até a vivência de intensa interação intercultural que caracteriza o “Encontrão”:

“A gente se inscreveu no edital de artistas”, conta Suzana, “e aí, quando chegou a resposta de que fomos aprovadas, primeiro a gente ficou feliz e logo depois triste: já era dia 10 de junho, faltavam só uns 40 dias para o evento, e a gente não tinha grana pra pagar a viagem até a Chapada dos Veadeiros. Aí pensamos em rifar a peça, no valor mínimo de 10 reais. Nunca na vida falei tanto sobre a peça, sobre a importância dela. Foi um mês inteiro de campanha, em que fizemos também duas apresentações para ‘passar o chapéu’, e assim a gente conseguiu a grana exata para chegar até aqui. Só que ainda não sabemos se vai dar pra ir embora… (risos).”

A peça teatral, interpretada por Suzana, tece uma narrativa inspirada no conto popular A Lenda do Preguiçoso. O espetáculo tem por protagonista um sujeito que é preguiçoso de nascença, que nunca teve vontade de fazer nada e que, com tanta preguiça, nada construiu de relevante com seu tempo entre os vivos. Até que se vê no limite e toma uma decisão drástica em sua vida. De modo lúdico e livre, com abertura para improvisações e momentos musicais, Suzana interage com qualquer faixa etária e faz refletir sobre a existência e seu sentido de maneira leve e graciosa, mas que não deixa de ser filosófica e provocativa.

“Com essa história do preguiçoso eu tenho intimidade, conheço desde os 7 ou 8 anos de idade”, relembra Suzana em um papo que tivemos às beiras do Rio São Miguel. “Descobri a lenda em um livro de português que líamos na escola, para aqueles exercícios de interpretação de texto, sabe? O que me chamou a atenção foi que era um cara que não fazia nada na vida, não tinha vontade de nada. A história que criei fala da força do seu querer, como você pode mudar o seu destino a partir de um impulso ou iniciativa que você tem. O protagonista precisa de um despertar na vida, e o legal é que o público não é condescendente com ele e basicamente manda ele se levantar.”

O espetáculo estreou em 2011 no Equador, em San Lorenzo, uma região equatoriana habitada por uma grande população de africanos provenientes da diáspora. “Esta é uma região para onde foram quase todos os escravos na época da abolição”, explica Suzana, “então a cidade é basicamente de  população negra, que vive em um território onde criaram suas comunidades, mantiveram suas raízes e puderam inventar sua afrolatinidade. Foi uma estréia que ficou muito marcada na minha memória, uma situação rara.”

Atualmente, Caminhadeira já conta com mais de 100 apresentações já realizadas nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. As performances ocorreram nos mais variados locais, como praças, salas de aula, refeitórios, instituições e feiras. São cinco anos de estrada, luta e resistência – e agora a Chapada dos Veadeiros também participa, com capítulos memoráveis, da saga artística de Suzana Zana e Luísa Ritter. Elas com certeza enriqueceram e foram enriquecidas pela caminhada chapadeira, pelas vivências e intercâmbios, pelas amizades e contatos, pelas prosas e poesias, propiciadas pelo Encontrão 2016.

Vivencie “Caminhadeira” na X Aldeia Multiétnica e emocione-se com uma mulher que resolveu fazer de sua casa o caminho e encher sua bagagem com as histórias que brotam dos vínculos que se criam nas andanças. A Caminhadeira, nesta vida, está sempre de passagem, mas sabe que passar é muito mais gracioso e doce quando carregamos, pelo caminho que trilhamos, os amigos e as histórias, os laços e as memórias, que juntos tecemos na ciranda da cultura.

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ASSISTA AO VÍDEO:
CAMINHADEIRA NA X ALDEIA MULTIÉTNICA NO YOUTUBE OU NO VIMEO