Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

bjork_color

Se me perguntarem quais foram as experiências estéticas mais impressionantes que já vivenciei, entre as mais fortes eu colocaria a atuação de Björk em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier.

Ali no filme descobri, espantado, o enorme talento que a islandesa – que quando novinha era um cubo-de-açúcar cantante, e bem da-pá-virada, à frente do Sugarcubes – possui também como atriz e performer, perpassando tudo com a estranheza encantatória daquela indefinível incógnita: a Björkidade.


Deus does not exist…”

 Björk e sua dancer in the dark puderam comunicar algo de tal magnitude e complexidade que só dá pra descrever apelando para os adjetivos “épico” e “trágico”. Lars Von Trier, tentando ser Brecht, flertando com Ibsen, fazendo suas mímesis de Bergman, acabou gerando algo próximo de Shakespeare…

Depois de “conhecer” a personagem que ela encarnou na sala de cinema, Selma, é impossível não carregar Björk – esta pulsante presença feminina na arte global – na memória como marca indelével. Selma, que vai perdendo a visão e cantando em sua cegueira, pode até ter olhos que vão gradualmente fracassando na percepção do mundo externo, mas em contraste isso parece intensificar o colorido carrossel interior da personagem. E ela segue transformando toda desgraça em opereta.

Canta até mesmo no calabouço. Canta até o fim. Canta até que o cadafalso cale todas as canções. E é talvez o silêncio mais cruel que o enfant terrible Von Trier já nos expôs a sentir: Selma dependurada pelo pescoço, condenada à morte em um mundo de homens que não cantam nem encantam ninguém, e que decidiram pelo assassinato institucionalizado de uma mulher estigmatizada como assassina.

As circunstâncias de seu crime, porém, são bem mais que meramente atenuantes – Selma defendeu-se de um assalto às suas economias, arduamente acumuladas em seu “porquinho” de economias, já que era devotada à causa de salvar seu rebento do destino dela – a cegueira.

dancer-in-the-dark-poster.jpg

Se evoco aqui a obra-prima do provocador dinamarquês é para relembrar que Björk já tem um tremendo precedente em sua carreira “extra-musical” – e quão raro é que alguém do ramo da música vença um prestigioso prêmio como Melhor Atriz no Festival de Cannes!

bjork-selmasongs_1200x

MUSIC FROM LARS VON TRIER’S CONTROVERSIAL DANCER IN THE DARK. Selmasongs features the creative and emotional songs that helped to drive the film. Bjork plays the role of Selma, a Czech factory worker who is going blind but finds hope and refuge in the musicals she watches. Her character comes to life through the music Bjork composed, performed, and produced with conductor/arranger Vincent Mendoza and her longtime collaborators Mark “Spike” Stent and Mark Bell. She duets with Thom Yorke on “I’ve Seen It All,” while “In The Musicals” shows how easy it is for her character to slip into fantasy.





Björk demonstra mais uma vez suas múltiplas habilidades como performer e atriz no filme-concerto Biophilia, um espetáculo grandioso, ambicioso até o limite da megalomania, que demorou 4 anos para ser concretizado, e que merece muito ser visto no telão de um cinema e em volume no talo (tive a chance de vê-lo durante o festival This Film Should Be Player Loud do cinema Hot Docs/Bloor Street de Toronto).

Biophilia – do grego philia (amor) + bíos (vida) – é celebração da força vital, do élan animadora da matéria, através de um espetáculo multi-mídia que congrega teatralidade, coreografia e ritual pagão de adoração a Pan.

Biophilia carrega o “filme musical” a um patamar inaudito onde ele embarca numa onda nova: o show como ritual sagrado, dispositivo místico, destinado a causar a imersão do espectador no seio adorável de Pachamama, deusa-mãe que tudo inclui e dentro da qual estamos contidos. Björk em Biophilia é, em transes dos mais belos, a sacerdotisa de Gaia – aquela dos mais de mil nomes…

Suspeito que é uma obra que deve entrar para a história como um dos mais interessantes “filmes-show” já feitos, juntando-se ao Olimpo que já tem The Last Waltz (Martin Scorcese filmando a The Band) e Stop Making Sense (Jonathan Demme em sintonia com os Talking Heads), dentre outras pérolas do “show-cinema”. São filmes como Biophilia que podem agir como dínamos culturais que ampliam nossos horizontes do que pode e deve ser um show… 

Assemelha-se nisso, por exemplo, aos acessos místicos que nos são propiciados pelas imagens das espetaculares estripulias de Vossa Guitarreidade Suprema, o voodoo child Jimi Hendrix, no Live at Monterey focado pelo filme documental de D. A. Pennebaker.

TheJimiHendrixExperience_LiveAtMonterey_G0100018884887_F_001_72dpi

HENDRIX AT MONTEREY – Tracklisting: 1. Killing Floor; 2. Foxey Lady; 3. Like A Rolling Stone; 4. Rock Me Baby; 5. Hey Joe; 6. The Wind Cries Mary; 7. Purple Haze; 8. Wild Thing; 9. Stone Free; 10. Like A Rolling Stone.

Expandindo horizontes com a radicalidade de um Hendrix ou um Zappa, a Björk revela-se uma artista de imensa ambição e múltiplos talentos ao construir em Biophilia um retrato sônico, visual e teatral de certas imensidões que não se imagina caberem no espaço restrito de uma canção ou de um palco: galáxias de revirantes corpos celestes, unidos pela força invisível de abraços gravitacionais, são evocados com recorrência durante o concerto, fazendo deste um hino ao cosmos.

“Heaven’s bodies / Whirl around me / Make me wonder…”, canta Björk em “Cosmogony”, como se estivesse em delírio de fascinação diante do dínamo iluminado da noite.

A luz de horizontes distantes que penetra nossas as retinas, emanada de astros que estão há bilhões de anos-luz de distância de nós, tem como equivalente interno, na expressão de Björk, numa verdadeira “nebula interior” – fenômeno psiquíco-cosmológico que ela explora em uma das mais lindas composições do álbum, “Crystalline”:

bjoerk1

O nome do projeto também dá o que pensar: como é evidente, Biophilia tem como proposta colocar a música em um contexto biológico e litúrgico, constituindo uma espécie de culto musical à Vida.

Tanto é assim que o grande naturalista e broadcaster britânico David Attenborough é uma figura importante neste processo. Conhecido pelas mais de 5 décadas de trabalho educativo televisionado, em especial através da rebe pública inglesa BBC, Attenborough viaja o mundo documentando a diversidade da vida para séries consagradas como Life e Planet Earth.

Seu vozeirão à la John Hurt faz o prelúdio à Biophilia, convocando o público a explorar o amor à natureza em todas as suas manifestações. O encontro entre os dois rendeu ainda o instigante documentário “When Attenborough Met Björk” (2013, Direção de Louise Hooper).

MV5BYjk1MmVkZjUtYzNkNC00Mzk0LWIwZGUtYjdmYWJkMTQwMWRmXkEyXkFqcGdeQXVyNDQ4NjEwNTg@._V1_SY1000_CR0,0,684,1000_AL_

Attenborough

Quando Björk desponta em cena, é em exuberante e exótica fantasia, que deixa aberta a via para múltiplas interpretações: a mim pareceu que ela estava vestida com uma espécie de fantástico animal marítimo, com os cabelões em fogo como uma espécie de Agni animalizada e encarnada com feições asiásticas…

É como se Björk quisesse se desumanizar, mas em um bom sentido: ela tenta identificar-se com animais, plantas, rios, florestas, nuvens, estrelas, em uma espécie de devir-outro em que procura transcender os estreitos antropomorfismos e atingir uma arte que, apesar de humana, procura ser retrato de toda a beleza, força e mistério do inumano. Nada do que não é humano lhe é estranho.

Todos os conceitos que estão por detrás do projeto Biophilia são difíceis de compreender para um espectador que vai “virgem” ao álbum, ao espetáculo ou ao filme, o que é mais uma razão para louvar um documentário como When Attenborough Met Björk, que vai muito além de registrar uma conversação entre o erudito biólogo e a talentosa cantora no interior do Museu de História Natural de Londres.

 O documentário serve como ótimo “aperitivo” para Biophilia e merece ser exibido na sessão de cinema imediatamente anterior, fornecendo o “contexto” que possibilita perceber mais nuances da obra principal.

Attenborough desfila seu vasto conhecimento sobre os animais e os sons que eles produzem para compartilhar uma tese que a alguns pode até soar estranha: a música transcende a humanidade e pode-se inclusive falar, sem cair no ridículo, na “música dos pássaros”, na “música das baleias”, na “música dos macacos”…

Oliver Sacks

Oliver Sacks, o neurologista, com todo o conhecimento adquirido em mais de 80 anos de vida devotada a pesquisas sobre o cérebro humano, revela no documentário suas opiniões sobre o quão importante a música pode ser como “terapia”, relatando um experimento com pacientes idosos, em estado de demência, que só “despertam” de suas letargias ou de seus delírios quando “penetrados” por uma música evocativa, que traz memórias à tona e comunica para além da verbalidade. É o tema do lindo documentário Alive Inside. 

Björk, ela também, procura em sua música ir muito além da verbalidade. É evidente que suas canções tem palavras e que é plenamente possível imprimir suas letras em um encarte ou fazê-las aparecer em legendas. Mas seu trabalho sobre o som é muito mais amplo do que uma mera artesania vocabular.

A arte de Björk cria uma espécie de “atmosfera” em que o ouvinte-espectador pode mergulhar, realizar uma imersão e deixar-se afetar em todos os seus sentidos, para além da razão. Em Biophilia, o filme, as paisagens sonoras, aparecem mais como forças da natureza do que como algo a ser restrito ao âmbito da criatividade humana.

Eis uma arte que não apela somente ao intelecto, mas sim à sensibilidade por inteiro, e quem quiser “entender” Björk unicamente com a cabeça vai fracassar, assim como aquele que é “todo coração” e zero cérebro. Em sua relação com a música dela, só sendo “sentipensantes”, como propugna o escritor uruguaio Eduardo Galeano, é que poderemos apreciar a contento. Seria um crime não sentir as vibes de Biophilia, mas não pensar sobre elas também é via errônea. Quem desligar razão pra ser “só emoção” deixará de apreciar todo o arcabouço conceitual que está por detrás da obra.

A melhor atitude diante de uma obra ousada e excêntrica como essa, creio eu, é ir de cabeça aberta e coração alerta, pronto para o encontro com a estranheza maravilhante e o exotismo exuberante.

E quem quisar dropar um ácido ou intensificar sinapses com uma ganja, pode ir a Biophilia sem medo de bad trip. O único risco, que não é grave, está em ser acometido por experiências intensas de misticismo exacerbado, paganismo panteístico e biophilia desabrida.

Em suma, Biophilia manifesta Björk ensinando-nos a melhor amar a vida ao encenar e cantar seu próprio amaravilhamento cósmico. Acaba fazendo tudo com aquela Exuberância que o poeta William Blake dizia ser sinônimo de Beleza e da Sapiência (“the road of excess leads to wisdom”). Björk é encarnada biophilia: mestra do amor musicado à vida. Listen and learn.

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

I. XAMANISMO COM AMPLIFICADORES

Há um capítulo magistral de Dançando nas Ruas (Dancin’ In The Street) em que Barbara Ehrenreich fala sobre as raízes arcaicas do êxtase coletivo. “Arcaicas”, no caso, é uma palavra para referir-se não a algo de velho, mofado, já caído em desuso e aposentado da História. Arcaico – é também uma das lições fundamentais de gurus psicodélicos como Terence McKenna e Alan Watts – é aquilo que tem enraizamento em um passado muito distante, mas cuja raiz ainda hoje nutre uma árvore viva e nossa contemporânea, com sua eclosão vivificante de folhas, frutos, sementes.

O tempo arcaico segue agindo no tempo contemporâneo como um rio que flui lá do passado mais remoto e penetra com suas águas torrenciais no território do presente. É um passado que conflui com o agora, conectando-nos ao que passou, vinculados ao que foi ao invés de alienados de qualquer tradição e pertença. Unidos e solidários aos que hoje descansam seus ossos debaixo desta terra onde labutamos e dançamos, ao invés de trancados na estreiteza de um fluxo nonsense de momentos efêmeros e desconexos.

what-is-dionysus-roman-name_060a5b3a-0e5d-4577-b3bc-381b49dcd095

“No antigo mundo ocidental, muitas deidades serviam como objeto de adoração extática: na Grécia, Ártemis e Deméter; em Roma, as deidades importadas: Ísis (do Egito), Cibele, a Grande Mãe ou Magna Mater (da Ásia Menor), e Mitas (da Pérsia). Mas havia um deus grego para o qual a adoração extática não era uma opção, mas uma obrigação… Esse deus, fonte de êxtase e terror, era Dioniso, ou, como era conhecido entre os romanos, Baco. Sua jurisdição mundana cobria os vinhedos, mas a responsabilidade mais espiritual era presidir aorgeia (literalmente, ritos realizados na floresta à noite, termo do qual derivamos a palavra orgia), quando os devotos dançavam até chegar a um estado de transe. 

Ainda mais do que as outras deidades, Dioniso era um deus acessível e democrático, cujo thiasos, ou elo sagrado, estava aberto tanto aos humildes como aos poderosos. Nietzsche interpretava esses ritos da seguinte maneira: ‘O escravo emerge como homem livre, todos os muros rígidos e hostis erigidos entre os homens pela necessidade ou pelo despotismo são despedaçados.’

Foi Nietzsche quem reconheceu as raízes dionisíacas do drama grego antigo, ao ver a inspiração louca e extática por trás da majestosa arte dos gregos – que, metaforicamente, ousavam levar a cabo não apenas a imortal simetria do vaso, mas as loucas figuras dançantes pintadas em sua superfície. O que o deus demandava, segundo Nietzsche, era nada menos que a alma humana, liberada pelo ritual extático do ‘horror da existência individual’ e transformada na ‘unidade mística’ do ritmo proporcionado pela dança.” (EHRENREICH, p. 48)

dionysos_thiasos_louvre_mne938-2017010700-587037278b32b

Longe de ser apenas de interesse para helenistas ou estudiosos de religiões antigas, a celebração comunal, vinculada no mundo greco-romano aos cultos a Dioniso e Baco, prossegue ativa em tempos contemporâneos. O livro de Barbara Ehrenreich é uma das melhores visões panorâmicas da busca pelo êxtase coletivo através da história e tem entre seus méritos uma postura simpática aos fenômenos estudados. Ela não condena, com fúria puritana, os rituais dionisíacos, o vodu haitiano, a capoeira ou o samba afrobrasileiro, os festivais de rock da Geração Hippie etc., mas busca compreender com empatia uma necessidade humana, que existe desde tempos imemoriais, de celebração coletiva e de vitória sobre o terrível confinamento na solidão de um eu isolado.

Dançando Nas Ruaspois, parece-me um livro magistral, de alto potencial libertário, que une-se aos esforços de um Terence McKenna, que propugnava um revival do arcaico, ou de uma Emma Goldman, pensadora política anarquista célebre por dizer: “Não é minha revolução se eu não puder dançar”.

Além disso, Barbara Ehrenreich realizou uma obra de interesse filosófico, ou mesmo teológico, afirmando que a experiência de re-encontro com o arcaico, de re-ligação com a fonte, é descrita por muitos que a vivenciam como uma revolução em nossa percepção temporal, uma percepção imediata ou insight súbito da eternidade do aqui-agora.

O livro contribui assim, imensamente, para o estudo e a compreensão do misticismo, podendo iluminar e elucidar a leitura de obras cruciais como a de William James, As Variedades da Experiência Religiosa, e Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, que talvez sejam as mais impressionantes reuniões de testemunhos sobre a experiência mística. Para uma visão mais contemporânea, que vincula a unio mystica ao consumo de substâncias enteógenas, vale sondar as reflexões de Aldous Huxley em Moksha e de Alan Watts por sua obra afora.

Quando transcendemos a prisão do eu, a jaula do isolamento, a percepção falha que nos leva a crer na possibilidade de nossa existência independente e separada do cosmos que a circunda e a inclui, aí então podemos abraçar um aqui-agora que têm densidade temporal. Que tem peso de eternidade. Aí percebemos – ainda que para ter este insight às vezes necessitemos de muito estudo do budismo, de muita prática da meditação e do yôga, de algumas gotas de um bom ácido lisérgico ou DMT… – que a interconexão é a verdade do real.

"Wonder", uma obra de Alex Grey

“Wonder”, uma obra de Alex Grey

Não somente somos todos interconexos, ligados a toda a teia da vida; além disso, isto não se esgota no presente imediato. O rio do passado vem regar-nos o presente e vivificar nossa construção comum de um presente futurível. Somos efêmeros contemporâneos da eternidade onde estamos incluídos – a Energia no Universo, garantem os cientistas, pode se transformar, mas jamais ser nadificada; os átomos e o vazio, desde Epicuro, são tidos por indestrutíveis! Esta percepção é aquilo que bacantes e mênades buscam – e às vezes acham – em seus rituais musicais, dançantes, psicodélicos. Buscam habitar um tempo de êxtase coletivo, de joy na vivência da interconexão. É uma utopia que propõe a re-união e a comum celebração, é um hedonismo sábio que propõe que não cortemos todas conexões com o rio do “foi-se e acabou-se”, prendendo-nos em um imediatismo niilista que nos deixaria apenas vagando ao léu, como náufragos agarrados a um pedaço de madeira que flutua no mar após a embarcação ir a pique.

Arcaicas – antigas mas ainda ativas! – são as variadas “técnicas do êxtase”. Esta, aliás, era uma das expressões prediletas que Mircea Eliade usava como ferramenta conceitual crucial para a compreensão e caracterização dos misticismos, do mais variado colorido, reunidos às vezes sob o nome de “xamanismo” e outras vezes sob a alcunha de “paganismo” ou termo semelhante. No tal do xamanismo, com enorme frequência, as técnicas do êxtase – o caminho que é preciso realizarmos junto até que sejamos uma coletividade capaz de celebração extática e auto-transcendência – são inseparáveis da dança e da música.

Este é um dos argumentos centrais do livro genial de Ehrenreich: êxtase tem tudo a ver com dança, com música, com expansão da consciência, com transcender o eu e abraçar o coletivos. que atravessa a História, da tragédia grega de 25 séculos atrás até os festivais hippie à la Monterey e Woodstock, para mostrar que os laços sociais vinculados à busca humana, trans-histórica e trans-cultural, de êxtase coletivo, são umbilicalmente vinculados com música, dança e alteração da percepção intelectual-sensível através do consumo de substâncias (naturais ou sintéticas) ditas estupefacientes. Apesar de toda repressão, de todo o sangue derramado por Inquisições, de toda a perseguição autoritária, Pan, Baco, Deméter, Dioniso, Shiva e toda a trupe dos deuses dançantes e orixás bailantes que seguem vivendo e atuando nos corações e mentes de seus carnais celebrantes.

Aquilo que Ehrenreich chama de collective joy, ou que Durkheim chamava de efervescência coletiva, é aquilo que sente-se no meio da torcida em um estádio de futebol quando explode um gol; mas também o que toma conta da vivência da platéia de um show do Jimi Hendrix Experience ou de Janis Joplin e o Big Brother Co. em pleno “Verão do Amor”. É aquela vivência que nos faz transcender a jaula do ego, rumo à inenarrável e estarrecedora experiência de estar acompanhados sob as estrelas, queimando sob o Sol, “todos juntos reunidos numa pessoa só” (como canta Arnaldo Baptista em canção d’Os Mutantes).

Os viventes precários que somos, que tentam somar e solidarizar-se, porém tanto separam-se e segregam-se, podem estar boquiabertos ou apáticos diante dos mistérios do mundo e de nossos vínculos secretos, com ele, mundo, e uns com os outros; a dança, a música e os estupefacientes são o caminho, o tao, uma maneira eficiente através da qual as culturas vão em busca de fazer acontecer o êxtase comunal. São técnicas para a realização das utopias, e não sua mera espera passiva. São técnicas do êxtas que hoje tem o auxílio da eletricidade, do ciberespaço, dos mega-amplificadores, das salas de cinema digital, de todo o aparato tecnológico-científico ainda tão desperdiçado com a estupidez bélica hi-tech… Invistamos, pois, nas arcaicas técnicas do êxtase!

9781847080080

“A dança grupal é a grande niveladora e conector das comunidades humanas, unindo todos os que participam no tipo de communitas que Turner encontrou nos rituais nativos do século XX. (…) Submeter-se corporalmente à música por meio da dança é ser incorporado por uma comunidade de uma maneira muito mais profunda do que o mito compartilhado ou os costumes comuns podem atingir. Nos movimentos sincronizados com o ritmo da música ou de vozes que cantam, as rivalidades mesquinhas e as diferenças de facções que podem dividir um grupo são transmutadas em uma inofensiva competição de quem é o dançarino mais hábil… “a dança”, como coloca um neurocientista, é a “biotecnologia da formação do grupo.”

Desse modo, grupos – e os indivíduos que os constituem – capazes de se manter juntos por meio da dança teriam possuído uma vantagem evolucionária em relação aos grupos ligados por laços menos fortes. (…) Nenhuma outra espécie jamais conseguiu fazer isso. Pássaros têm suas músicas características; vagalumes podem sincronizar a luz que emitem; chimpanzés às vezes podem bater os pés juntos e balançar os braços fazendo algo que os etologistas descrevem como um “carnaval”. Mas, se quaisquer outros animais conseguiram músicas e se mover em sincronia com ela, mantiveram esse talento bem escondido dos humanos.” (EHRENREICH, 2006, p. 37, trad. Julián Fuks)

A dança e a música, apesar de reduzidas, nas idéias estreitas de muitos de nossos contemporâneos, a meras mercadorias ou a reles entretenimentos, são algo que conecta-nos, hoje, à arcaica e ancestral peculiaridade humana, no seio da natureza, que é o fato de estarmos em busca de collective joy, êxtase comunal ou coletivo. Este é um fio que atravessa a história da espécie e que é inapagável, inextipável, incapaz de ser assassinado por quaisquer repressões autoritárias. É uma força resiliente, que sobrevive a todos os tiranos, e que têm como um de seus símbolos mais memoráveis, na história da arte, a batalha épico-trágica das Bacantes com o tirano de Tebas, Penteu, na peça de Eurípides.

As Bacantes, mais do que apenas uma obra-prima da dramaturgia universal, pode ser debatida como documento histórico, etnográfico, transmutado em obra-de-arte pelo engenho daquele que foi, com Ésquilo e Sófocles, um dos autores de dramas que sobreviveu a 25 séculos de transmissão histórica, da Grécia de IV a.C. até o Bixiga paulistano deste 2017 depois do Nazareno. Algo há aí, na resiliência de As Bacantes, na sua capacidade de manter-se com um monte a dizer e ensinar aos nossos próprios tempos, que explica como José Celso Martinez Côrrea pôde reativar a potência da peça nestes anos de 2016 e 2017, com os resultados acachapantes e geniais que já nos acostumamos a esperar do Teatro Oficina, Uzyna Uzona.

flyer_dionisiacas_em_belem

O Teatro Oficina é uma pérola refulgente neste pântano esmerdeado de nossa lambança nacional. É resistência e celebração – arte reXistente – que ativa um cyber-terreiro, uma arena-dionisíaca, um microcosmo-da-utopia, onde o Brasil mostra ao mundo o que tem de melhor: a exuberância irreverente de um povo que ginga em busca de um êxtase coletivo, traçando seu próprio caminho, no ritmado enraizado que lhe infundiram séculos de miscigenação e convívio entre gente de culturas do mais pluridiverso colorido.

Nas peças do Oficina, aparece sempre – mesmo quando trata-se de adaptações de autores gringos como Antonin Artaud (Para Dar Um Fim No Juízo De Deus) ou Schiller (Os Bandidos) – dá as caras um Brasil que está sempre recaindo em antagonismos, em querelas, em ríspidas lutas e mortíferas guerras.

As bacantes brazucas nunca podem celebrar em paz, pois são, a despeito de suas vontades, empurradas para uma arena de combate (ah, tiranos! elas só queriam beber vinho, dançar, celebrar! Por que cabeças teriam que rolar?!?); as mênades, proto-hippies da paz e do amor, dançantes e cantantes, re-ativadoras da força sempiterna do conatus, chocam-se contra os poderes do autoritarismo puritano e seus braços armados. A resiliência, a capacidade de sobrevivência da peça de Eurípides – vivíssima no Brasil de 2017! – está também na persistência. no nosso processo histórico, da batalha que o aquele fight – Bacantes versus Penteu – simboliza.

A utopia que vem conectada ao trampo do Oficina ou à antropofagia de Oswald de Andrade, empreendimentos de sintonia íntima, tem a ver com um renascimento do dionisismo, ou seja, de uma cultura onde a celebração coletiva, a alegria dos vínculos estabelecidos sobre as ruínas da egolatria, seja mais potente do que a cultura, imposta de cima pra baixo com a voz grossa e bruta do Patriarcado repressor, que manda sempre postergar todos os gozos, desistir de campanhas inovadoras ou revolucionárias, conformar-se com a monocromia de uma vida cinza, de tédio e monotonia, de servil obediência aos que mandam mortificar a carne e sacrificar o presente, em nome de um tíquete de entrada prum futuro paradisíaco no além-túmulo…

As bacantes – mulheres que saem dos trilhos da cotidianidade, deixando suas posições obedientes na hierarquia de comando masculinista, machista, autoritária… – e vão para a floresta, não só para fugir por um pouco da dureza do dia-a-dia, mas para celebrar a existência e a liberdade, para buscar a força em uma imersão num coletivo que, com forças reunidas, pode muitos, mas muuito mais, do que qualquer indivíduo solitário, por mais fortão e musculoso que seja. A ética e a estética homéricas, que celebram em Aquiles ou Ulisses um heroísmo muito marcado pelas fúrias bélicas, têm nas bacantes, nas celebrantes dionisíacas, nas mênades dançantes e de cabelos esvoaçantes, a celebração da paz, não da guerra; da harmonia e da sincronia, não do antagonismo; do êxtase, não do massacre.Nietzsche

“Friedrich Nietzsche, o clássico indivíduo solitário e atormentado do século XIX, talvez tenha entendido a terapêutica do êxtase melhor do que qualquer outro. Em um tempo de celebração universal do ‘eu’, ousou falar sobre o ‘horror da existência individual’ e vislumbrou o alívio nos antigos rituais dionisíacos que só conhecia por meio de leituras – rituais em que, ele imaginava, ‘cada indivíduo não apenas se reconcilia com o outro, mas une-se a ele – como se o véu de Maya tivesse sido rasgado e só restassem retalhos flutuando ante a visão de uma Unidade mística. (…) Cada um sente a si como a um deus e caminha a passos largos com o mesmo júbilo e o mesmo êxtase dos deuses que viu em seus sonhos.” (EHRENREICH, op cit, pg. 184)

Zé Celso e sua trupe são no país aquelas forças que com mais exuberância servem como porta-vozes destas idéias, entremescla de Nietzsche com Oswald de Andrade, de Artaud com Brecht, e apesar do impiedoso tempo que nos arrasta à velhice e ao inevitável túmulo esta figuraça quintessencial de nossa cultura parece continuar em eterno verão – para citar o título de excelente reportagem e entrevista do El País:

ze-celso

Um dos grandes mestres do teatro brasileiro está prestes a completar 80 anos. Lúcido, sorridente, atuante. Muitos se perguntam qual é o segredo de José Celso Martinez Corrêa (Araraquara, 1937), o Zé Celso, para preservar tamanha energia e criatividade depois de 58 anos à frente do icônico Teatro Oficina – símbolo de resistência artística (e política) cravado no Bixiga, em São Paulo. Mas a verdade é que desse “xamã do teatro”, como ele gosta de se definir, não há segredos para se arrancar. Na entrevista concedida ao El País com os pés ao alto, em meio a uma nuvem de erva queimada, o dramaturgo vestido de um branco alvo como os fios de seus cabelos mostra que não tem assuntos proibidos, respondendo a esta altura da vida com voz suave tudo o que lhe é indagado. Isso, sim: sem fim, nem começo e pelos caminhos que lhe parecem.

A um desses caminhos ele volta sempre: a encenação de Bacantes, o clássico grego de Eurípedes montado pela primeira vez no Oficina em 1995 (em versão brasileira do diretor, no gênero “tragicomédia orgia”), que reestreou no Sesc Pompeia e logo passou ao Bixiga em outubro de 2016. A peça, de quase seis horas e com 52 atuadores em cena, reconstitui o ritual de origem do teatro na Grécia em 25 cantos e cinco episódios e tem música composta por Zé Celso (que também assina autoria e direção).


Encenada como ópera de Carnaval para cantar o nascimento, morte e renascimento de Dionísio, o deus do teatro, do vinho e das festas, ela tem lotado a casa tanto com habitués, como com novos assistentes – atraídos pela nudez libertária do elenco e às vezes também do público, pela genialidade do diretor, pela história ou por tudo ao mesmo tempo. A ideia é que os espectadores se integrem ao bacanal, e alguns deles terminam despidos pelos atores. Na primeira versão, isso aconteceu com Caetano Veloso. Por causa do sucesso orgiástico de Bacantes, Zé Celso ganhou ainda mais força e voz, voltando à carga em seus temas preferidos: teatro, política e xamanismo – que para ele são um só.

Para Zé Celso, duas coisas podem salvar o país da crise política em que começou a mergulhar em 2014: o xamanismo, claro, e a arte. O que ele procura é juntar as duas coisas, rumo à “revolução cultural” que o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica prega como a única saída para esses tempos obscuros.” (MORAES, Camila. O Eterno Verão de Zé Celso. El País.)

* * * * *

II. VIVACIDADE DA ANTROPOFAGIA OSWALDIANA

Oswald e Oficina

“Todas as nossas reformas, todas as nossas reações costumam ser feitas dentro do bonde da civilização importada. Precisamos saltar do bonde, precisamos queimar o bonde.
OSWALD DE ANDRADE, “Contra Os Emboabas” (via Bia Azevedo, p. 68)

Se digo que 2016 não foi de todo um ano catastrófico neste país golpeado e achincalhado por suas escrotas elites canalhocratas, mas teve sim seus esplendores e glórias, é pois a nossa arte e nossos artistas mais relevantes e geniais não nos decepcionaram. Em 16 de Abril de 2016, na véspera da votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, então presidida por Eduardo Cunha, estivemos na peça do Teatro Oficina, Para Dar Um Fim No Juízo De Deus. 

Saí do teatro de alma lavada e com os ímpetos dionisíacos re-turbinados, orgulhoso dos artistas desta terra e certo de que a política, enfim, não é tudo – que um lamaçal ético sem fim, na Esplanada dos Ministérios, não impede a refulgência de uma contracultura que não se cala, que manifesta-se com exuberância, que abraça a resistência com todo a verve, todo o ímpeto, toda interconexão de uma trupe de mênades e sátiros. E, além disso, saí do teatro com a impressão de ter vivenciado uma imersão não só no universo de Artaud, mas, é claro, no de Oswald de Andrade, constantemente evocado por Zé Celso e sua trupe. Desde os anos 1960, quando encenou O Rei da Vela, o Oficina tem sido talvez o mais resiliente e fiel coletivo que honra o legado da utopia antropofágica oswaldiana.

Também em 2016, caiu no mercado um livro – Antropofagia: Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo – que foi de imediato saudado por Eduardo Viveiros de Castro como “destinado a se tornar referência obrigatória para todo estudioso da obra deste que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores pensadores do século XX”. Viveiros de Castro pode até soar hiperbólico em seu elogio a Oswald como figura crucial no panorama do conhecimento global no século que se acabou, mas isto mostra o quanto este pensamento, longe de ser paroquial ou nacionalista, pode ser também uma espécie de produto de exportação autenticamente original gestado e gerado no solo fecundo da cultura brasileira. Queimando o bode da submissão e da subserviência às civilizações importadas e imperialistas.

Quem enxergou isso muito bem, como lembra Bia Azevedo, foi o Roger Bastide, sociólogo francês,  que lecionou na USP e publicou em 1950 o livro clássico Brasil: Terra de Contrastes: “Oswald devora as teorias estrangeiras como a cidade devora os imigrantes, transformando-os em carne e sangue brasileiros.” (BASTIDE, apud Azevedo, p. 70) O antropófago Oswald “comeu” toda a diversidade das culturas estrangeiras, mas na hora do vamos ver foi lá e criou algo de novíssimo, algo de revolucionário. “O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro afirma que ‘a Antropofagia Oswaldiana é a reflexão metacultural mais original produzida na América Latina até hoje. Era e é uma teoria realmente revolucionária.” (VIVEIROS DE CASTRO, apud Azevedo, p. 24)

A antropofagia é descrita como utopia no título de um dos livros de Oswald que a Ed. Globo recolocou no mercado e que traz textos clássicos como A Crise Da Filosofia Messiânica. Filosoficamente, Oswald tinha muitas similaridades e alianças com o pensamento de Nietzsche, e pode-se dizer que a antropofagia dialoga com o “dionisismo” como este aparece na obra do autor de Assim Falava Zaratustra. Oswald também é um crítico mordaz da civilização ocidental racionalista e repressora, que dá todas as honras a Apolo, a Sócrates, a Descartes, soltando os cachorros de sua feroz repressão contra Dioniso, contra Baco, contra mênades e bacantes, contra feiticeiras e heréticos… Oswald defende o caminho da “valorização do lúdico e da arte”, aproxima-se das teses de Huizinga em Homo Ludens no que diz respeito à presença em todas as culturas, de quaisquer latitudes e longitudes, da “constante lúdica”:

Oswald

“O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica. O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos – o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e, enfim, o cinema.” – OSWALD DE ANDRADE, “A Crise da Filosofia Messiânica” (Globo, 2001, p. 144)

get_img

por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Fevereiro de 2017
A ser continuado….


SIGA VIAGEM:

CONFLUÊNCIAS - Festival de Artes Integradas. Evoé Café Com Livros, 26/02, 17 horas. Com Luiza Camilo, quinteto Cocada Preta, Lua Plaza, Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros.

CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas. 2ª Edição: Evoé Café Com Livros, Domingo, 26/02, a partir das 17 horas. Com poesia encenada e pocket show com Luiza Camilo, show percussão-e-coral com o quinteto Cocada Preta, exposição de artes visuais da Lua Plaza, performance poética de Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros. Página do evento @ Facebook Brasil.


COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO:
Maria Augusta Foncesa – Oswald de Andrade (Biografia)

oswald-bioA editora Globo acaba de relançar – depois de revista e atualizada pela autora – a mais importante biografia de um dos maiores nomes da cultura brasileira moderna. Oswald de Andrade: biografia é obra de Maria Augusta Fonseca, que vem se dedicando há décadas à vida e à obra do grande modernista. Um dos maiores nomes da cultura brasileira, e não somente da literatura, porque Oswald de Andrade foi um daqueles raros homens certos no lugar certo na hora certa: nas palavras de Antonio Candido, “sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.” Esse meio era o da provinciana vida cultural brasileira do começo do século XX, que Oswald de Andrade ajudaria a ir ao encontro do mundo moderno.

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 03] O DOM DA CURA: Milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações

Foto: Santi Asef na X Aldeia Multiétnica

Pajé Raimundo Dessana, na X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

O DOM DA CURA

Milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (19 / 07 /2016)

As plantas que curam são parte integrante das culturas de povos indígenas através dos milênios. Os (con)viventes que estão na Aldeia Multiétnica têm tido várias oportunidades para conhecer mais sobre a medicina ancestral, vigente desde tempos imemoriais, que inclui chás energizantes, feitos com raízes e folhas, além de curiosos procedimentos xamânicos de intervenção curativa, hoje amplamente pesquisados pela ciência.

 Fenômenos como a disseminação transnacional da utilização terapêutica de substâncias naturais psicoativas, como o chá de ayahuasca ou o kampô (secreção cutânea da perereca Phylomedusa Bicolores), só vem corroborar a amplidão dos bio-saberes dos povos indígenas do planeta.

 Proveniente de São Paulo, a jovem Marília, uma das (con)viventes da Aldeia, compartilhou em uma roda-de-prosa um pouco de seu percurso de vida e de descoberta: “já fiquei muito doente e foram só os indígenas que foram capazes de me curar.” Esta vivência pregressa de uma cura através da maestria indígena fez com que ela buscasse saber mais e mais, numa jornada de conhecimento sem fim, sobre os saberes e fazeres destes povos que, segundo ela, “quanto mais a gente estuda, mais a gente descobre o quanto a gente ignorava.”

 A experiência de ter sido beneficiada por curandeiros indígenas foi também experienciada por uma colega de vivência, a jovem Dávila, que veio de Brasília e está pela primeira vez participando da Aldeia Multiétnica: “Passei por uma experiência surreal na madrugada de ontem”, relembra ela, durante os momentos-de-partilha com o grupo, lágrimas nos olhos e voz embargada. “Tenho bronquite, mas esqueci em casa os remédios e a ‘bombinha’. Comecei a passar muito mal, tossia demais e não conseguia respirar direito.”

 Dávila e sua amiga Samanta, que na ocasião estavam acampadas junto aos Kayapó, relatam que no meio da crise de bronquite que acometeu a adolescente ela estava desesperada para ir logo ao hospital. Velhos hábitos não morrem fácil. As duas amigas foram atrás da organização para tentar agilizar um transporte até um posto de saúde na cidade. Mas aí recomendaram à Dávila que se abrisse a um horizonte novo: talvez entre os indígenas ali congregados pudesse haver auxílio mais imediato e certeiro para seus males.

 Dávila foi assim conduzida aos cuidados do pajé Raimundo Dessana. Diante desta situação insólita, ela se confessa que se encontrava, a princípio, “meio descrente”: “Eu não tava acreditando que ia funcionar.” Para surpresa da própria paciente, através de bençãos, sopros e pedras energizadas, o pajé Dessana conseguiu controlar a crise de bronquite que afligia Dávila. Com seu saber-vivido, ele acompanhou-a até que ela melhorasse e pudesse pegar no sono. Dávila conta que acordou no dia seguinte já refeita e afirmando: “O pajé me curou.”

 Dávila atribuiu a piora em seu estado de bronquite tanto ao frio da madrugada – já que as temperaturas caem bastante nas noites da Chapada – quanto aos banhos que tomou nas águas frescas do rio São Miguel. Quando perguntadas sobre os porquês da terapia ter sido efetiva, Dávila e Samanta refletem sobre várias possibilidades, desde as mais místicas até as mais pés-no-chão.

 No primeiro caso, como relembra Dávila, o pajé não passou de um médium para a intervenção de uma influência invisível ou mágica que veio do alto: “ele disse pra mim que não era pra eu confiar nele, pessoalmente, mas sim apontou o céu e pediu que eu confiasse nele.”

 Não inteiramente convictas nesta explicação celeste, Dávila e Samanta também consideram a possibilidade que o pajé seria capaz de mobilizar, para fins terapêuticos, o que elas chamam de “energias positivas” que ele transfere para o fluxo da água receitava para a paciente por seu curandeiro. Também não descartam a possibilidade de uma ação benéfica sobre a psique da paciente gerada por um certo “pensamento positivo” que emanaria do ancião, que garantiu a Dávila, a todo momento: “Não precisa ir pro hospital não, eu vou curar você.”

 De todo modo, a certeza que ficou para Dávila é de nunca ter vivido nada parecido antes, o que ela apelidou de “uma experiência surreal”. Esta vivência serviu também como estopim para nada mais nada menos do que reflexões sobre a história humana como um todo. As duas amigas passaram a matutar sobre o bocado de tempo que transcorreu antes do advento histórico dos profissionais da medicina, dos centros hospitalares, dos impérios farmacêuticos corporativos, das tecnologias avançadas como pet-scans e neurocirurgias.

 Como argumentou Samanta, a medicina possui uma longa história construída sobre os inumeráveis testes empíricos realizados pelos povos ancestrais em interação com o mundo natural circundante. “Por muito tempo as pessoas tiveram que experimentar com as plantas até adquirir estes saberes”, é a hipótese que Samanta levante, “e nestes testes uns morriam, outros não. Nossa, o tanto de gente que morreu pra salvar a gente, vamos parar pra pensar!”

 O cinegrafista carioca Pedro Rodrigues, que trabalha na equipe de filmagem da série Índio Presente(estréia prevista para 2017 na TV Brasil), relata vivência semelhante. Após o que ele mesmo confessa ter sido uma “comilança”, ele passou mal, com diarréia e muita febre. Foi visitar o pajé dos Guarani Mbya, que tem 107 anos de idade, e o ancião logo se mostrou prestativo e foi buscar na natureza algumas folhas de poder curativo.

 “O pajé foi ali na mata buscar a medicina”, relembra Pedro, “e o que eu achei mais curioso é que esta aqui nem é a região dele. O conhecimento dele é absurdo, já que ele não está no Estado dele, está aqui na região do cerrado. Aí meu fiquei pensando: esse senhor é um compêndio botânico, conhecedor dos fitoterápicos naturais. Provavelmente o que ele me deu foi um antibactericida e um analgésico.”

 O paciente Pedro também relembra que o pajé retornou da mata com dois raminhos de folhas e consultou sua esposa, que aparenta ter quase 100 anos de idade e certamente é também detentora de profundos saberes botânicos e terapêuticos. A mulher deu o seu aval para uma das folhas pré-selecionadas, com a qual se fez um chá, “de sabor delicioso”, que Pedro passou a consumir em busca de melhoras. Quando falamos, antes do almoço, ele já dizia estar sentindo-se “50% melhor” em relação à crise da véspera.

 Diante da experiência, ele pondera: “Eu sou um cara muito científico. Como fotógrafo e cinegrafista de cinema, levo a parte técnica muito a sério. Fiquei muito assombrado com a técnica do pajé, ele não fez uma coisa qualquer: ele diagnosticou meu problema, conversando comigo e me apalpando; foi lá pra buscar a planta e fez uma comparação; tirou uma conclusão técnica; e veio com um remédio. Não foi que ele simplesmente sacudiu um negocinho, soprou uma fumacinha, houve todo um processo técnico que deu ao processo toda uma credibilidade.”

 Já Marília Cyrne, uma das viventes da Aldeia Multiétnica 2016, conta que tem se relacionado com os Guarani da região do Jaraguá (SP) há cerca de 1 ano e meio. Procurou-os pela primeira vez por interesse em aprender o idioma guarani e começou a visitar a aldeia, “criando laços com a comunidade”.

 “Enquanto isso caminhava, num determinado momento da minha vida eu comecei a ficar muito mal com transtorno de ansiedade, emagreci 8 quilos em 2 meses e comecei a ficar muito doente. Aí um dia o Tupã, um de meus melhores amigos lá da aldeia e que começou a me ensinar guarani lá na aldeia, me levou para uma aldeia um pouco mais afastada, há uma duas horas de distância, onde eles trabalham com permacultura e plantação de orquídeas. Passei a madrugada lá e ele fez um processo assim: rezava em Guarani, soprava e puxava o ar do meu corpo, enquanto ia aquecendo as mãos na fogueira. Depois disso, que durou um bom tempo, eu chorei muito e dormi muito. E daí em diante as coisas foram se resolvendo e melhorando.”

 Ela comenta que seu amigo Tupã não é o pajé da tribo, mas sim uma “liderança jovem”, enfatizando que a juventude guarani “também aprende algumas técnicas de pajelança”. A experiência mudou rumos em sua vida: “agora toda semana eu vou pra lá. É um lugar onde me sinto bem e entre amigos. Quando calhou d’eu estar mal, eles ofereceram o que eles podiam para me ajudar – e funcionou.” Marília matuta ainda, sobre a atualidade desta terapêuticas ancestrais, que os benefícios destes saberes e técnicas medicinais não se aplicam somente aos males do organismo, mas que os povos indígenas também possuem um rico e complexo arsenal de táticas para lidar com o que chamamos de problemas psiquiátricos ou psicosomáticos.

 Nada impede que os chás-de-pajé, as artes-das-curandeiras e as plantas-que-curam, que possuem tão denso passado histórico, tenham também um excelente futuro.

SAIBA MAIS: http://www.encontrodeculturas.com.br/2016/

FIOS NA TEIA DA VIDA – O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

FIOS NA TEIA DA VIDA:
O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

por Eduardo Carli de Moraes

Escrito para o Edital do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (resultado)

“A pluralidade é a lei da terra”.
HANNAH ARENDT (1906 – 1975) [1]

“Não sou apenas o índio que perdeu a taba
Na curva da estrada que o trator abriu
Quando arrancou mãe-floresta,
Quebrou minha flecha
Deturpou minha festa e quase ninguém viu
Não quero esse lero-lero de quem diz:
Não posso! Coitado! Ai de mim!
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos.
E rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore
Pai nosso e do palmital
Pão nosso e do santo fruto
Ribeirinho enfrenta o mal
Do homem que traz a cerca
Planta capim, faz curral
Amparado num projeto de violência brutal
Onde o homem é esquecido
E o boi querido é o tal.”
ZÉ PINTO [2]

Neste ano de 2016, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros comemora 16 anos de travessia. Através desta história, vem atuando como propiciador de intercâmbios culturais que contribuem para que “a voz do nosso povo se faça ouvir com toda sua diversidade” [3], para lembrar palavras de Célio Turino.

Esta é também uma das tarefa de antropólogos e etnográfos, de fotógrafos e jornalistas: tornar evidente e manifesto a polifonia e a pluralidade de nosso “país que pulsa diversidade”, como se lê na Carta de São Jorge. Esta é um manifesto coletivo, nascido como um dos muitos frutos da 15ª edição do Encontro, assinado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reunida entre os dias 28 de julho a 01 de agosto na Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás. Suas eloquentes palavras permanecem, um ano depois, intensamente atuais:

O Brasil, que pulsa diversidade, está atento à onda conservadora que assola o País e promove uma crise civilizatória. Setores reacionários atacam nossa juventude por meio da redução da maioridade penal e o genocídio da juventude negra, agridem povos de terreiro, mulheres e a comunidade LGBTT com o crescente fundamentalismo religioso. Indígenas, quilombolas e povos tradicionais sofrem uma ofensiva do grande capital contra seus territórios. Fica claro para nós que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos não são suportadas pelas elites do nosso País… (Carta de São Jorge [4])

Aldeia_Multietnica_Yawalapiti_-_foto_de_Fredox_CarvalhoN

Aldeia Multiétnica @ Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – Foto: Fredox Carvalho

Premiado pelo Iphan em 2015 [5], o Encontro das Culturas Tradicionais tem contribuído para repovoar nosso imaginário utópico rumo a uma cultura polifônica, repleta de participação social e diálogos fecundos entre os diferentes povos e perspectivas que constituem os fios na grande teia da vida. É neste contexto que nos propomos, no presente texto, realizar algumas reflexões sobre o papel do jornalismo na defesa e na celebração da sociobiodiversidade, conceito muito enfatizado no “Encontrão” (como é carinhosamente conhecido).

Acredito que os profissionais da mídia têm o dever ético e profissional, além da função pública essencial, de engajarem-se na defesa da “inestimável sociobiodiversidade dos povos da floresta”6 e na denúncia da brutalidade das práticas “da cerca e do curral” mencionadas no poema-canção de Zé Pinto e que fazem com que “o homem seja esquecido”.

Hoje, mais do que nunca, quando estamos ameaçados por todos os lados por desmatamentos e etnocídios, por assassinatos de ecoativistas e imensas catástrofes ambientais (como aquela que ocorreu no Rio Doce), faz-se necessário e urgente defender as culturas em sua pluralidade, re-afirmando a possibilidade de um convívio fecundo e mutuamente enriquecedor entre as diferenças.

Para esta tarefa grandiosa e utópica é preciso a congregação de forças – e sem dúvida que os jornalistas podem (e devem) somar suas vozes e palavras, suas investigações e pesquisas, suas reportagens e fotografias, suas denúncias e seus anúncios, ao coro daqueles que querem uma cultura viva, pulsante, pluralíssima, que celebre o colorido todo da nossa inestimável sociobiodiversidade hoje tão ameaçada, vilipendiada e golpeada.

Geral Encontro 2_2015_Foto Leonil Jr

Palco de atrações artísticas do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – edição XV, 2015, foto de Leonil Jr

A desconexão pode enlouquecer – e não estamos falando da Internet que, quando cai, pode deixar doido (ao menos provisoriamente) alguns de seus usuários mais adictos. A desconexão mais nociva é aquela que nos separa uns dos outros em facções e seitas inimigas, impedindo-nos a congregação e a troca em meio à pluralidade que nos constitui. Em um país de cultura adoecida, os sujeitos estão desconectados da rede da vida. Podem estar conectados a seu feed de besteirol no celular ou no navegador, mas vivem na alienação da desconexão, desvinculados uns dos outros, construindo abismos intransponíveis que as separam ao invés de pontes que comunicam as margens, incapazes de perceberem os laços que os unem uns aos outros e à natureza comum de que participam.

O jornalismo, quando de fato fornece informação autêntica sobre a realidade concreta, fornece não apenas uma enxurrada de informação, infértil e sem consequência. O jornalismo, ao informar-nos sobre o real, fornece-nos algo essencial para a transformação do que há, para a superação do dado, uma vez que pode servir para desfazer os feitiços paralisantes da alienação, definida magistralmente por Milton Santos nos seguintes termos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.”

milton-santos-alienacao_thumb3

O jornalismo, quando de fato se presta a ouvir as vozes das comunidades tradicionais, quando abre-se a aprender com as sabedorias ancestrais de povos indígenas ou quilombolas, pode realizar um trabalho de revelação de uma realidade que muitos não enxergam. Pode contribuir para que a opinião pública se sensibilize em relação a problemas, dificuldades e desafios enfrentados pelas comunidades, mas pode também ensinar sobre outros modos de conviver e de criar. O jornalismo autêntico, segundo acredito, busca compartilhar um saber sobre o real de que somos contemporâneos, sendo uma atividade não apenas informativa mas também de formação; contêm uma dimensão pedagógica intrínseca, desde que não preste ao leitor o desserviço de enganá-lo ou ludibriá-lo por ordem do patrão.

Compartilhar o saber sobre a vida concreta, as dificuldades e os triunfos, os obstáculos e as vitórias, das comunidades tradicionais, pode ajudar os leitores a compreenderem a importância das raízes bem plantadas em solo fecundo para que as árvores dêem profusão de flores e frutos. O jornalismo pode ser uma dessas forças que fornece saber sobre a efetividade desses povos e que amplifica seus valores e práticas. Se saber não é exatamente poder, é sim um elemento essencial à eficácia da ação conjunta no mundo comum de que nos fala Hannah Arendt, esta terra cuja lei a filósofa afirmava ser a pluralidade.

Conhecer o real é indispensável para aqueles que querem transformá-lo, e o jornalismo, em sua vocação, deve ser veículo de conhecimento sobre aquilo de que somos contemporâneos. Assim considerado, o jornalista é análogo ao historiador (que deseja ter cognição do passado para comunicar conhecimento sobre tempos idos), com a diferença de que é no calor da hora, em um presente que está acontecendo em toda a sua desenrolante imprevisibilidade, que o jornalista buscará aquilo que é digno de comunicar a seu público.

Em nosso país de dimensões continentais como o Brasil, estamos condenados a desconhecer vários Brasis onde nunca estivemos, vários locais onde nossa experiência imediata nunca bebeu. E já que ninguém tem o dom da ubiquidade, só se pode conhecer a fundo este país gigantesco – e de si mesmo tão dessemelhante! – através das narrativas que tecemos e comunicamos uns aos outros, entre elas as jornalísticas. Uma boa reportagem não difere tanto, quanto aos efeitos éticos e estéticos que propicia à sensibilidade e à inteligência do leitor, de algum primoroso conto de nosso repertório literário. E creio não haver absurdo em debater quem é a escritora mais magistral, se Clarice Lispector, se Eliane Brum.

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

No Brasil, existem em atividade alguns jornalistas muito engajados nas questões socioambientais: caso de Washington Novaes, Felipe Milanez, Eliane Brum (El País), Inês Castilho (Outras Palavras), André Trigueiro, dentre outros. Há também institutos e ONGs, com seus respectivos blogs e sites, devotados ao jornalismo de qualidade sobre o tema, caso do Combate Racismo Ambiental, Instituto Sócio Ambiental ou Envolverde [7]. O jornalismo, tal como praticado por estes inspiradores luminares da profissão, pode contribuir para que o leitor enxergue as conexões entre os fenômenos, refletindo sobre as consequências futuras de nossas ações atuais etc.

Infelizmente, a chamada “grande mídia” não costuma dar o devido destaque aos temas do meio ambiente e dos modos-de-vida de populações tradicionais capazes de uma relação harmônica com a natureza. Temas de extrema importância, como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição atmosférica, o desmatamento, a invasão de garimpeiros e madeireiras sobre áres demarcadas, dentre outros temas, sofrem com uma espécie de blecaute cotidiano em grande parte da imprensa empresarial, apelidada por alguns “mídia burguesa”.

Ainda assim, há de se reconhecer que, apesar das críticas que podem lhe ser dirigidas, existem projetos como a Planeta Sustentável, “uma iniciativa multiplataforma de comunicação que tem a missão de difundir conhecimentos sobre desafios e soluções para questões ambientais, sociais e econômicas do nosso tempo. Dissemina conhecimentos sobre temas relacionados a sustentabilidade para 21 milhões de leitores anuais por meio de seu site mais de 30 títulos de revistas da Editora Abril.” [8]

Já no âmbito da intelectualidade brasileira, também há alguns ilustres autores que têm oferecido muitas reflexões relevantes sobre os temas socioambientais e culturais: é o caso, por exemplo, de Ricardo Abramovay, Ladislau Dowbor, Deborah Danowski, Eduardo Gianneti da Fonseca, Antonio Nobre, Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros.

Quando exercido por profissionais de talento literário e percepção sociológica aguçada, a narrativa jornalística pode atingir tons épicos, grandiosos. Um exemplo excelente é aquilo que costumo chamar de “jornalirismo” de Eliane Brum, autora capaz de descrições socioambientais de raro brilhantismo literário, que podemos exemplificar relembrando sua descrição da realidade vivenciada pelos ianomâmis:

A floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final. – ELIANE BRUM 9

Eliane Brum serve para ilustrar a potência do jornalismo quando pratica a sensibilização do leitor para as questões socioambientais, em que a vida humana e a vida da biosfera nunca estão desconectadas, onde as florestas e seus povos são reveladas em toda a tessitura de sua pluralidade, inclusive com a revelação recorrente da unicidade de cada personagem que dá o ar de sua graça na reportagem.

Foi lendo e relendo os textos de Brum que fui me convencendo que hoje o jornalista precisa ser um pouco antropólogo, um pouco etnógrafo, movido por um sincero desejo de compreender o mundo do outro, acessar a perspectiva existencial alheia, construindo pontes de comunicação que permitam uma mútua cognição e que nos auxiliem a melhor tecer, em conjunto, a continuação da teia da vida.

Sem dúvida, o jornalista responsável, que conhece sua função pública, têm necessariamente de pôr em prática permanente o seu senso crítico, inclusive sobre os dogmas e as dominações que vigem na profissão. Um livro publicado recentemente no Brasil pela Ed. Boitempo, Mídia, Poder e Contrapoder – Da concentração monopólica à democratização da informação, traz um interessante artigo de Ignacio Ramonet onde ele afirma que vários grupos midiáticos “estão se comportando, segundo o conceito de Louis Althusser, como ferramenta ideológica da globalização”10.

Para não se render a ser serviçal das ideologias hegemônicas e dos sistemas de produção e consumo hoje hegemônicos, que são insustentáveis pois ecocidas, o jornalismo precisa esclarecer a opinião pública sobre as culturas, em sua pluralidade, que sobrevivem hoje com técnicas ancestrais de interação com o meio ambiente, sem devastação, com respeito e sabedoria. Povos indígenas e quilombolas têm destaque neste cenário, infelizmente ainda muito desconhecido de boa parte dos brasileiros “civilizados”, já que muitos urbanóides que habitam os grandes centros urbanos ignoram boa parte da realidade brasileira (e, como viemos explorando, a mídia empresarial tem culpa no cartório em relação à produção social desta relativa cegueira).

Um outro exemplo de jornalismo competente, cujo tema tem muita relação com o XVI Encontro de Culturas das Chapadas dos Veadeiros, é uma interessante reportagem recente chamada “As Novas Cercas do Quilombo”, na qual Repórter Brasil revelou que “apenas 7% das famílias quilombolas vivem em áreas tituladas. Na busca pelo reconhecimento dos territórios, comunidades enfrentam ameaças, confisco de objetos históricos e resistência até do órgão de preservação do patrimônio.” Eis um exemplo interessante de como o jornalismo pode servir ao bem público ao informar-nos sobre a realidade social:

Dos cerca de 2.700 quilombos de todo o país já certificados pela Fundação Palmares, só 163 chegaram à etapa final e foram titulados. No Incra, a morosidade é absoluta: “A questão é que há mais de 1.500 processos abertos no Incra, mas o órgão não tem capacidade de encaminhá-los”, afirma Otávio Penteado, assessor da Comissão Pró-Índio de São Paulo, organização que também lida com a questão quilombola. Para Otávio, a falta de titulação das terras ocorre por “desinteresse político”, o que se traduz em cortes orçamentários na área.

A mudança na composição dos ministérios que o presidente interino Michel Temer (PMDB) realizou assim que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado agravou as preocupações das entidades ligadas à questão quilombola. Na última quinta-feira (12/05), o deputado federal ligado à bancada ruralista Osmar Terra (PMDB-RS) foi nomeado para a pasta de Desenvolvimento Social e Agrário, que é responsável pelo Incra. Também foi extinto o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que coordenava o Programa Brasil Quilombola e executava políticas voltadas às comunidades negras tradicionais. – Repórter Brasil [11]

Acredito que o jornalismo possa ser uma tocha iluminante em nossos tempos sombrios, fornecendo informação verídica sobre o real que permita transformá-lo de modo criativo. Quando soma suas forças narrativas à eventos como o Encontro de Culturas Tradicionais, pode auxiliar a tornar visíveis os invisíveis, tornar audíveis os silenciados, dando voz e vez àqueles que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apelidou recentemente de os involuntários da pátria [12].

O jornalismo, que também integra o âmbito da cultura e tem todo o interesse em seu florescimento, pode (e deve) agir consciente de sua função pública ao invés de servil a interesses empresariais classistas e excludentes. Para recuperar a Carta de São Jorge com que começamos, não há jornalismo emancipador que não seja devotado à construção de uma democracia participativa, do diálogo perene, que aposte numa política da gestão compartilhada do mundo comum, tendo sempre em foco a defesa e a celebração da sociobiodiversidade. Por isso, subscrevemos o seguinte trecho do manifesto:

Entendemos que a cultura deve estar na centralidade do modelo de desenvolvimento do país. E um governo que tem como lema Pátria Educadora deve reconhecer as sabedorias, os conhecimentos e os ensinamentos próprios de seu povo. Deve reconhecer, também, que quem faz cultura, quem produz cultura não são gestores em gabinetes, mas o povo no seu viver, conviver, sobreviver, existir e resistir. A Política Nacional de Cultura Viva (Lei 13.018) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Ela é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada.”

Que a pluralidade pulse no XVI Encontro e que o jornalismo possa juntar sua voz para cantar nesta ciranda exuberante da cultura viva!

14a edição 4

Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – 14a edição

* * * * *

NOTAS

1 A frase de filósofa está presente em seu livro A Vida Do Espírito – Volume I: Pensar.

2 Zé Pinto é poeta e cantador de Rondônia e este poema foi declamado na música “Devoção à Amazônia” do CD Arte em Movimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ouça na Internet: https://youtu.be/InHzQ_h1SbA.

3 Célio Turino em Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. 2ª ed. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2010. P. 16.

5 Na 28ª edição do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), foi um dos vencedores na categoria II – “iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do patrimônio cultural.“

6 CALEGARE; HIGUCHI (org). Nos interiores da Amazônia: leituras psicossociais. Curitiba-PR: Ed. CRV, 2016.

9 BRUM, E. A Guerra do Começo do Mundo. Leia a reportagem na íntegra no portal A Casa de Vidro. O texto integra o livro Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (ed. Globo, 2008, p. 53)

10 “Vocês acham que os meios de comunicação dominantes, que pertencem a grupos de alta relevância no mercado, serão críticos com a globalização e o neoliberalismo, sendo que eles são atores centrais nessas duas dinâmicas? É evidente que a possibilidade disso acontecer é pequena. Em termos gerais, o que eles dizem sobre esse assunto? Que isso é muito bom para nós. Você perdeu seu trabalho, não dispõe mais de serviços públicos, cortaram sua pensão, complicam sua aposentadoria e fazem você trabalhar mais… mas isso é muito bom! É excelente! Todos os meios de comunicação nos repetem isso constantemente. Em outras épocas, quem dava a visão de mundo, quem tinha a responsabilidade e a missão de inculcá-la na sociedade era a Igreja. A Igreja difundia uma concepção de mundo; do mundo e do além. Por exemplo, na colonização da América, os conquistadores eram acompanhados por evangelizadores na destruição de sociedades que tinham sua idiossincrasia, sua religião, sua cultura, suas línguas, sua própria cosmogonia. O conquistador brutal destruía todos esses elementos da sociedade e o evangelizador dizia: ‘mas que sorte maravilhosa!’ Destruíram sua família, destruíram seu povo, destruíram suas crenças, destruíram sua língua, destruíram sua cultura, mas agora você tem a verdadeira religião! Alegre-se! Hoje, a imprensa e os meios de comunicação têm a missão de ser a ferramenta ideológica da globalização.” (RAMONET: Boitempo, 2013, p. 63)

12 Em um trecho magistral, Viveiros de Castro diz: “Povo” só ‘(r)existe’ no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano.” Trecho de “Os Involuntários da Pátria”, aula pública de Viveiros de Castro proferida durante o ato Abril Indígena, na Cinelândia, RJ, em 20/04/2016, que pode ser lida na íntegra no portal A Casa de Vidro.


SIGA VIAGEM:

Moacir

moacir-chapada

Trabalhos do artista plástico Moacir, na Vila de São Jorge (GO), tema do documentário “Moacir Arte Bruta” de João Jardim (assista abaixo)


“Chapada dos Veadeiros” – filmagens de drone


“Cada Terra Tem Um Uso, Cada Roda Tem Um Fuso” (2009, 80 min, diretor Neto Borges)


“ATLÂNTICO NEGRO – Na Rota dos Orixás”


SERRAS DA DESORDEM – Um filme de Andrea Tonacci (2006, COMPLETO)


PROGRAMA ENREDO CULTURAL DA TV UFG


BOOGARINS – “Benzin” (clipe filmado na Chapada e estrelado pela Salma do Carne Doce)


ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DO 
XVI ENCONTRO DE CULTURAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS
Site oficialhttp://www.encontrodeculturas.com.br/

“Para atrair muitos para fora do rebanho – vim para isso!” – Zaratustra

nietzschye 1

A FIDELIDADE À TERRA
Estudos sobre Assim Falou Zaratustra
(Cia das Letras, 2011, trad. Paulo César de Souza)
por Eduardo Carli de Moraes

  1. CONTRA OS QUE PREGAM NA CRUZ OS HUMANOS!

zara1Podemos considerar Assim Falou Zaratustra como um escrito religioso? Estamos diante de uma tentativa nietzschiana de compor uma nova bíblia ou algo a ser reverenciado como sagrado? A estas questões podemos seguramente responder negativamente: em sua autobiografia, Ecce Homo, Nietzsche é explícito em afirmar que ali não fala nenhum fundador de religião e que seu autor prefere ser considerado mais um sátiro do que um santo. Ademais, a filosofia do autor de O Anticristo e O Crepúsculo dos Ídolos inclui um vasto empreendimento de desmistificação e crítica da religião: o conjunto da obra nietzschiana está repleta de dinamitações das idolatrias e das superstições, sendo evidente que Nietzsche jamais pretendeu escrever algo a ser sacralizado ou solidificado em dogma.

heinrich_heine

Heinrich Heine, um dos poetas que Nietzsche mais admirava

 A edição brasileira da Companhia das Letras traz em sua contra-capa, por exemplo, a ideia de que “o profeta Zaratustra deixa seu esconderijo nas montanhas para pregar aos homens um novo evangelho”, formulação equívoca e que certamente desagradaria ao próprio Nietzsche, que jamais se mostrou desejoso de escrever um “novo evangelho”. E nada lhe causava mais horror do que a perspectiva de um dia ser canonizado!  Preferimos considerar o Zaratustra como uma obra-de-arte, um livro onde as fronteiras entre a filosofia e a literatura, o pensamento racional e a poesia lírica, o misticismo e a música, são dissolvidas. Uma obra em que aparecem unidas a crítica social, a busca pelo conhecimento e a ânsia de criar beleza. Um monumento da criatividade humana onde a ética e a estética dão as mãos. Nietzsche compôs um livro impregnado de lirismo e eloquência poética, cheio de elementos lúdicos e satíricos, que revela muitos traços da influência exercida sobre ele por alguns de seus autores prediletos – como Hölderlin, Heine, Byron e Goethe. Ademais, o livro carrega um alto grau de musicalidade, podendo ser designado como um “poema sinfônico”, como frisa Paulo César de Souza:

 “Nietzsche tinha uma preocupação extrema com a sonoridade das frases, e sempre recordava que ler, para os antigos gregos, significava ler em voz alta. (…) A arquitetura de Assim falou Zaratustra tem alguma afinidade com obras musicais. Não tanto porque as quatro partes corresponderiam aos movimentos de uma sinfonia, mas pelo empenho em dar expressão a muitos tons e sentimentos. (…) O compositor Gustav Mahler, por exemplo, disse que o Zaratustra ‘nasceu completamente dentro do espírito da música’. O que não chega a surpreender, sendo Nietzsche o filósofo que mais intensamente se envolveu com música e tendo sido ele próprio um (modesto) compositor.” (SOUZA, P.C. Posfácio à “Assim Falou Zaratustra”. São Paulo: Ed. Cia das Letras, 2011. Pg. 345.)

Vale lembrar que a obra de Nietzsche também inspirou a composição homônima de Richard Strauss, composta em 1896 e cujas 9 partes são todas batizadas com nomes de capítulos do Zaratustra; a abertura, que representa o nascer do Sol, tornou-se célebre ao ser utilizada por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisséia Espacial (1968).

Compreendido no contexto das outras obras de Nietzsche, marcadas por uma hostilidade escancarada em relação ao cristianismo e por uma crítica feroz de toda “moralidade de rebanho”, torna-se evidente que Assim Falou Zaratustra é uma obra que destoa dos escritos ditos “sagrados” pela profusão de conteúdos ímpios, blasfematórios e heréticos que povoam suas páginas. O Livro I, por exemplo, termina com uma máxima claramente atéia, na qual o crepúsculo dos deuses e a aurora de uma nova humanidade são anunciados como fenômenos consecutivos: “Mortos estão todos os deuses: agora queremos que viva o super-homem!”

Se os profetas das mais variadas tradições religiosas exigem de seus seguidores a fidelidade absoluta e a obediência completa, Zaratustra, pelo contrário, é aquele que recomenda a suspeita e a desconfiança em relação a todos os profetas, a começar por ele próprio: “afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! (…) Retribuímos mal a um professor, se continuamos apenas alunos. E por que não quereis arrancar louros da minha coroa?” (Livro I, Da Virtude Dadivosa, #3). Palavras escritas por um filósofo que se auto-denominava um “mestre da suspeita” e que dizia que todo autêntico pensador tem o “dever da desconfiança”!

camelo

Vê-se claramente que não estamos diante de um mestre que exija subserviência e submissão, mas sim de alguém que convida seus alunos ao pensamento independente e à vontade própria. Isto se torna ainda mais claro na parábola sobre o camelo, o leão e a criança (“Das Três Metamorfoses”): nela, o camelo é símbolo de uma reverência servil, de quem “se ajoelha e quer ser bem carregado” (Livro I, Das Três Metamorfoses, p. 27). Esta besta-de-carga, que renuncia à sua vontade própria e deixa que seu lombo seja carregado com pesados fardos, este triste camelo resignado e sofredor, é o que Zaratustra nos exorta a enxotar de nosso espírito com um rugido leonino!

No Livro III, Nietzsche retoma o tema quando versa sobre seu arqui-inimigo, o “espírito de gravidade”, frisando que a batalha de Zaratustra é contra tudo o que é imposto – como cruz! – às costas dos humanos, tornando-os vergados, corcundas, forçando-os a cair de joelhos. A rebeldia do leão que diz “não!” é, portanto, uma etapa essencial na metamorfose do espírito em sua caminhada rumo à possibilidade de se transformar num genuíno criador.

“Quase no berço já nos dão pesados valores e palavras: ‘bem’ e ‘mal’ – é como se chama esse dote. (…) E nós – carregamos fielmente o que nos dão em dote, em duros ombros e por ásperas montanhas! E, se suamos, nos dizem: ‘Sim, a vida é um fardo!’ Mas apenas o homem é um fardo para si mesmo! Isso porque carrega nos ombros muitas coisas alheias. Tal como o camelo, põe-se de joelhos e deixa que o carreguem bastante. Em especial… o homem no qual é inerente a veneração: demasiados valores e palavras pesados alheios põe ele sobre si – e então a vida lhe parece um deserto!” (Livro III, Do Espírito de Gravidade,  #2, p. 184).

zara2Claramente se vê que a reverência acrítica, a obediência à figuras de autoridade, a servidão voluntária, parecem abomináveis a Nietzsche, um dos filósofos que mais ardor pôs em denunciar a tendência a obedecer-sem-pensar. São inumeráveis as ocasiões em que Zaratustra critica a covardia de seguir-o-fluxo, indo onde o rebanho vai: nada mais detestável do que uma pessoa que, em tudo que faz, é uma mariazinha-vai-com-as-outras ou uma obediente seguidora de ordens que descem da boca do opressor, do governante, do sacerdote. O que Zaratustra busca não são crentes, papagaios de sua doutrina, repetidores de dogmas, disseminadores de uma decoreba, veneradores imbecis de autoridades transformadas em estátuas:

“Vós me venerais; mas e se um dia vossa veneração tombar? Cuidai para que não vos esmague uma estátua! Dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa Zaratustra? Sois os meus crentes: mas que importam todos os crentes? Ainda não havíeis procurado a vós mesmos: então me encontrastes. Assim fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças. Agora vos digo para me perder e vos achar; e somente quando todos vós me tiverdes negado eu retornarei a vós.” (Livro I, Da Virtude Dadivosa, #3)

Seria pois legítimo chamar de profeta uma figura que detesta os crentes, que não deseja ser o pastor de um rebanho uniforme e que recomenda a cada um que siga a trilha da independência? Zaratustra não seria muito mais o anti-profeta, hostil a todos os pastores, arredio ao autoritarismo daqueles que desejam ser seguidos, obedecidos e venerados? De fato, Zaratustra veicula críticas severas àqueles que agem sempre por “instinto de rebanho”, motivados por um impulso gregário que os leva se unirem em seitas para fugirem de si mesmos. Só julgam insuportável a solidão aqueles que não suportam a companhia de si mesmos – e estes jamais conquistarão nenhuma sabedoria. “Todo isolamento é culpa: assim fala o rebanho…” (Livro I, Do Caminho do Criador, pg. 60)

O fato de Zaratustra ter escolhido o isolamento voluntário nas montanhas, onde viveu como um eremita por 10 anos, explicita que se trata de uma figura que, como outras na história religiosa, buscou a iluminação através da meditação solitária – de modo semelhante, por exemplo, a Sidarta Gautama (o Buda). Contra a tendência de pastores e pregadores a culpabilizarem aqueles que se desgarram do rebanho, Zaratustra afirma que a sabedoria só é possível para aquele que tem a ousadia desse desgarramento. “De companheiros vivos necessito, que me sigam porque querem seguir a si mesmos… Zaratustra não deve se tornar pastor e cão de um rebanho! Para atrair muitos para fora do rebanho – vim para isso. Povo e rebanho se enfurecerão comigo: Zaratustra quer ser chamado de ladrão pelos pastores.” (Prólogo, #9, pg. 23)

A essência dos ensinamentos zaratustrianos vão num sentido radicalmente contrário à mensagem de quase todos os profetas religiosos: Zaratustra não exige fé nem esperanças supraterrenas; afirma que não existem transcendentes paraísos nem infernos; nega que exista vida após a morte do corpo; afirma que Deus está completamente morto e se auto-denomina o “sem-deus”… Em suma: se Zaratustra pudesse ser chamado de profeta, teríamos que compreendê-lo como uma espécie revolucionária de profeta ateu, que jamais fala sobre um vindouro Reino de Deus, nem de qualquer Redenção dos Pecados. Se há a presença forte do futuro nos ditos de Zaratustra, trata-se sempre do futuro da Terra e da Humanidade, jamais de um suposto Além-Mundo post mortem.

No capítulo Dos Sacerdotes, do Livro II, torna-se explícita a antipatia que Zaratustra sente por seus “inimigos”, os sacerdotes, que “lhe causam pena e também ofendem seu gosto”:

rio de janeiro

“Para mim, são prisioneiros… Aquele a quem chamam Redentor lhes pôs correntes – cadeias de falsos valores e palavras ilusórias! Ah, se alguém os redimisse de seu Redentor! (…) Canções melhores eles teriam de me cantar, para que eu aprendesse a acreditar em seu Redentor: os discípulos deste teriam de me parecer mais redimidos! (…) Em verdade, seus redentores mesmos não vieram da liberdade e do sétimo céu da liberdade! Em verdade, eles mesmos nunca andaram sobre os tapetes do conhecimento! O espírito desses redentores era feito de lacunas; mas em cada lacuna haviam posto sua ilusão, seu tapa-buraco, que chamavam de Deus.” (Livro II, Dos Sacerdotes, p. 87)

As crenças religiosas, como é tão recorrente na obra de Nietzsche, são explicadas a partir da psicologia, ou seja, a partir de “carências” humanas que estas crenças nascem para remediar – em linguagem zaratustriana, portanto, Deus é a invenção de homens que o criaram como “tapa-buraco” para suas lacunas. Uma perspectiva semelhante sobre a gênese das idéias religiosas, consideradas como fruto das fraquezas e insuficiências humanas, encontra-se em muitos autores contemporâneos ou posteriores a Nietzsche – como, por exemplo, Feuerbach, Max Stirner, Karl Marx e José Saramago.

No Livro IV, quando Zaratustra encontra o personagem do “Último Papa”, uma espécie de figura crepuscular de uma religião moribunda, explicita-se ainda mais o que Nietzsche rejeita no monoteísmo e na divindade como a imagina a tradição judaico-cristã. A ideia de um deus colérico, vingativo, que age através de dilúvios e bolas de fogo, que comete os mais gigantescos genocídios, que ameaça com punições infernais e seduz com recompensas celestiais, tudo isso parece abominável aos olhos de Zaratustra: “Quem o exalta como deus do amor não tem o amor em alta conta. Não pretendia também ser juiz esse deus? Mas quem ama, ama acima do prêmio e do castigo. Quando ele era jovem, esse deus do Oriente, era duro e vingativo, e construiu um inferno para o gozo de seus favoritos…” (Livro IV, Aposentado, p. 247).

Em uma carta da época em que redigiu Assim Falou Zaratustra, endereçada a seu amigo Franz Overbeck, Nietzsche descreve “o espanto que sentiu ao presenciar, em Roma, devotos que subiam de joelhos a escadaria de São Pedro (carta de 20 de maio de 1883)” [Nota de Paulo César de Souza, pg. 322]. Inspirado por este assombro diante dos penitentes, Nietzsche põe na boca de Zaratustra uma série de diatribes contra aqueles que “não souberam amar seu Deus de outra forma senão pregando na cruz o ser humano!” (Livro II, Dos Sacerdotes, pg. 88). As igrejas construídas pelos sacerdotes são descritas como “cavernas” de “luz falseada” e “ar abafado” onde os sacerdotes exigem os atos mais indignos: a submissão e o auto-rebaixamento.

“Sua fé ordena: ‘Subi de joelhos, ó pecadores!’ Quem criou tais cavernas e degraus de penitência? Não foram aqueles que queriam se esconder e se envergonhavam diante do céu puro?“ (p. 87) Claramente, Zaratustra fala contra a pregação sacerdotal que inculca a vergonha, a culpa, a necessidade de penitência e subserviência. Zaratustra não cessa de expressar seu nojo e seu desgosto com uma humanidade que dobra os joelhos diante de falsos profetas e ídolos monstruosos. Zaratustra quer, antes de tudo, retirar o homem de sua cruz, aliviar o camelo do fardo em seu lombo, devolver aos humanos o canto, o riso e a alegria terrestre.

Zaratustra não possui igrejas ou templos onde deseja ver congregados seus seguidores; pelo contrário, aprecia as caminhadas ao ar livre, o cume das montanhas, a paisagem ampla contemplada com brisa no rosto. Poderíamos dizer que nenhum templo de pedra o satisfaria e que, como Dionísio, ele só aprecia cultos a céu aberto. Nietzsche, filósofo  demolidor de ídolos, procura dessacralizar e parodiar a imagem solene do Cristo martirizado e crucificado: ao invés da coroa de espinhos, Zaratustra usa uma coroa de flores e se diz  discípulo deste “deus carnavalizador” que é Dionísio.

Para Nietzsche, a tradição judaico-cristão acarretou uma terrível decadência para a humanidade, que passou a cultuar o martírio, a auto-renúncia, o sacrifício-de-si, como se a mensagem de Jesus Cristo fosse esta: “carregue resignado a cruz do teu sofrer na esperança de uma recompensa por vir!” Zaratustra é inimigo da cruz, este instrumento de pena capital usado pelos romanos contra milhares de pessoas assassinadas pelo Império! E é uma estranha perversão transformar a mensagem de Jesus de Nazaré, eivada de exortação ao amor ao próximo e à caridade terráquea entre mortais, numa apologia do sofrimento voluntário e do ressentimento impotente que se contenta com a imaginação de outros-mundos! Zaratustra, longe de cultuar o sofrimento redentor, é uma figura dionisíaca, firmemente plantado no jardim terrestre, que não acredita em nenhum mundo transcendente. Como lembra Maria Cristina Ferraz, recuperando as divindades gregas Apolo e Dionísio que tanta importância tiveram na obra de Nietzsche sobre A Origem da Tragédia,

“Dionísio difere de seu irmão Apolo, o deus arquiteto do panteão, fundador de grandes cidades, pois sua morada preferida será sempre um templo ao ar livre, um belo antro sempre verde; e, para os iniciados, um lugar onde cantar o evoé.” (FERRAZ: O Bufão dos Deuses, p. 87) É neste contexto que se deve compreender a fala de Zaratustra (Livro III, Os 7 Selos, # 2), quando este diz “amar até mesmo as igrejas e os túmulos de deuses, quando o olho puro do céu atravessa os tetos em ruína; gosto de me sentar sobre igrejas em ruína.” Como sintetiza Ferraz, “sobre as ruínas do cristianismo senta-se, triunfante, o antigo deus nômade; sobre os escombros da tradição judaico-cristã Dionísio se reapropria dos velhos templos…” (FERRAZ: op cit, p. 88).

zara

2. O ZARATUSTRA HISTÓRICO SEGUNDO MIRCEA ELIADE

O ataque virulento contra as autoridades sacerdotais, os valores transcendentes e as esperanças supraterrenas, marcas tanto da filosofia nietzschiana quanto dos discursos de Zaratustra, não impedem que muitos considerem o “tom” da obra muito aparentado com o de outros escritos “sagrados”. O tradutor brasileiro de Nietzsche, Paulo César de Souza, pondera sobre as “manifestações de um sentimento profundamente religioso” em Assim Falou Zaratustra nos seguintes termos:

“A reverência ante os problemas fundamentais da vida, a intensidade da indagação, a proposta de redenção da humanidade, os conceitos de “sobre-humanidade” e de eterno retorno das coisas, e ainda mais o tom em que tudo isso é expresso, são manifestações de um sentimento profundamente religioso, e remetem a um tempo em que religião, poesia e pensamento mal se distinguiam um do outro, ao período pré-clássico da Antiguidade, tão estimado por Nietzsche.” (pg. 346)

De fato, Assim Falou Zaratustra traz muitas referências e alusões aos livros sagrados das mais variadas culturas. Múltiplas alusões à Bíblia, muitas vezes paródicas, povoam a obra.  Como Souza soube tão bem notar, marcam presença também muitos elementos da tradição religiosa oriental, que Nietzsche decerto conhecia e estudava há tempos, a ponto de ter escolhido um verso do Rig Veda hinduísta como epígrafe de Aurora (“há tantas auroras que ainda não nasceram…”).

Como leitor atento da obra de Schopenhauer, Nietzsche decerto adquiriu muito conhecimento sobre a “espiritualidade” oriental que tanto influenciou o autor de O Mundo Como Vontade e Representação. Já Paul Deussen, com quem Nietzsche estudou filologia na juventude e que foi um de seus amigos mais próximos e fiéis, chegou a escrever grandes e minuciosas obras sobre o tema, com destaque para O Sistema dos Vedanta, que Nietzsche certamente leu, como indicam sua correspondência com este camarada. De modo que o autor do Zaratustra possuía um amplo leque de leituras e saberes a respeito das crenças, mitos, ritos e profetas das mais variadas vertentes religiosas, algo essencial de se manter em mente na decifração de Assim Falou Zaratustra, texto tecido a partir de uma rica inter-textualidade. Por exemplo: os discursos do Buda normalmente terminavam com um “assim falou o sublime”, o que pode ter influenciado o recorrente desfecho das falas zaratustrianas.

eliadeSabe-se ainda que o personagem principal da obra de Nietzsche se baseia numa personalidade histórica, Zaratustra ou Zoroastro, um profeta-poeta que viveu na antiga Pérsia (atual Irã), aproximadamente entre 628 e 551 a.C. Suas doutrinas integram o Zend-Avesta, reunião dos textos sagrados do zoroastrismo. Segundo o historiador das religiões Mircea Eliade, os gathas (hinos) de Zaratustra estão repletos de “poemas enigmáticos suscetíveis de fascinar o não especialista” e “inscrevem-se numa velha tradição indo-europeia de poesia sagrada” (ELIADE: História das Crenças e das Ideias Religiosas, Volume I: Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis, Ed. Jorge Zahar, p. 289 e 291).

 Quanto ao problema da “historicidade de Zaratustra”, Eliade pondera: “Depois de algumas gerações, a memória coletiva já não consegue conservar a biografia autêntica de uma personagem eminente; esta acaba por se tornar um arquétipo, no sentido de exprimir unicamente as virtudes de sua vocação, ilustrada por acontecimentos paradigmáticos específicos ao modelo que ela encarna. Isso é verdadeiro não só para Gautama Buda ou Jesus Cristo, mas também para personagens de menor envergadura… Os gathas, considerados pela maioria dos eruditos como obra de Zaratustra, contêm alguns detalhes autobiográficos que confirmam a historicidade de seu autor. Aliás, eles são as únicas referências de que dispomos sobre sua vida.” (ELIADE, op cit, p. 290).

De acordo com a reconstituição de Eliade, Zaratustra pertencia a um clã de criadores de cavalo e era extremamente pobre; “segundo a tradição, Zaratustra veio ao mundo rindo” (p. 293); adorava uma divindade chamada Aúra-Masda e foi uma das figuras mais importantes da religião masdeísta; “a comunidade a que ele dirigiu sua mensagem era constituída de pastores sedentários”. Zaratustra é um crítico feroz dos sacerdotes “sacrificantes”, “ataca violentamente as pessoas que sacrificam bovinos” e “incita seus companheiros a rechaçar pelas armas os inimigos, o ‘mau’…” (p. 291).

Zarathustra 02Em sua análise dos textos litúrgicos do zoroastrismo, os Yasna, Eliade comenta que “causam espanto a urgência e a tensão existencial com que Zaratustra interroga seu Senhor: roga-lhe que o informe dos segredos cosmogônicos e que lhe revele seu futuro… Cada estrofe do célebre Yasna é introduzida com as mesmas palavras: ‘Eis o que te pergunto, Senhor – queira responder-me!’ Zaratustra deseja saber ‘quem determinou o curso do Sol e das estrelas’, ‘quem fixou a Terra embaixo, o Céu nas nuvens, de sorte que não caia?’, e suas perguntas relativas à Criação sucedem-se num ritmo cada vez mais intenso.” (p. 292) O Zaratustra persa é portanto uma figura que tenta decifrar os enigmas cosmogônicos, as esfinges das estrelas, de maneira similar às abissais reflexões do Zaratustra nietzschiano sobre a Eternidade.

Nietzsche também explica sua escolha deste personagem, em Ecce Homo, dizendo que Zaratustra foi o primeiro a estabelecer uma dicotomia radicalmente maniqueísta entre Bem e Mal: “Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a roda motriz na engrenagem das coisas – a transposição da moral para o plano metafísico, como força, causa, fim em si, é obra sua. (…) Ele criou esse mais fatal dos erros, a moral; em consequência, deve ser também o primeiro a reconhece-lo.” (Posfácio, pg. 339). Eliade concorda que o Zaratustra persa era alguém obcecado com a moral: “o castigo dos maus e a recompensa dos virtuosos são, para Zaratustra, obsessões. Ele não se esquece de interrogar o Senhor sobre a punição imediata de ‘quem não dá o salário a quem o mereceu’. Mostra-se impaciente diante da impunidade dos membros das ‘sociedades de homens’ que continuam a sacrificar bovinos.” (ELIADE: #101, p. 292). “O combate contra os demônios, isto é, contra as forças do mal, constitui o dever essencial de todo masdeísta.” (p. 293)

Eliade também sublinha que Zaratustra e seus primeiros seguidores são tidos por muitos estudiosos como praticantes do “êxtase característico dos xamãs centro-asiáticos” e que estava familiarizado com técnicas xamânicas indo-iranianas. “Na tradição avéstica o próprio Zaratustra gozava da fama de entregar-se ao êxtase” e é “provável que o canto desempenhasse um papel importante” na conquista do transe. Vishtaspa, um dos primeiros discípulos de Zaratustra, responsável pela disseminação de suas idéias e hinos, é descrito pela tradição como alguém que “utilizava o cânhamo (bhang) para alcançar o estado extático” (p. 294). Não é nada absurdo, portanto, supor que haja semelhanças entre este xamanismo masdeísta do Zaratustra histórico e os ritos dionisíacos que Nietzsche sublinha em sua meditação sobre a Grécia do período trágico. Eliade sublinha ainda que a “experiência mística masdeísta é o resultado de uma prática ritual iluminada pela esperança escatológica”.

A divindade adorada pelo Zaratustra persa, Aúra-Masda, “criou o mundo por meio do pensamento, o que equivale a uma creatio ex nihilo” (p. 295). Esta divindade dá ao homem a liberdade de escolher entre o bem e o mal e há uma “viagem dos mortos” a um local de julgamento, onde “cada um será julgado de acordo com a escolha que efetuou na Terra. Os justos serão admitidos no paraíso, na ‘casa do canto’; quanto aos pecadores, permanecerão ‘para sempre hóspedes da casa do mal’ (Yasna, 46:11)”. (ELIADE: p. 297). As semelhanças com a mitologia judaico-cristã que surgirá séculos depois não param por aí, já que

“o ponto de partida da predicação de Zaratustra é a revelação da onipotência, da santidade e da bondade de Aúra-Masda. Ao escolher Aúra-Masda, o masdeísta escolhe o bem contra o mal, a verdadeira religião contra aquela dos daevas. Por conseguinte, todo masdeísta deve lutar contra o mal. Nenhuma tolerância com relação às forças demoníacas… Essa tensão não tardará a solidificar-se em dualismo. O mundo será dividido em bons e maus, e acabará por assemelhar-se a uma projeção, em todos os níveis cósmicos e antropológicos, da oposição entre as virtudes e os seus contrários. Uma outra oposição é apenas indicada, mas terá um grande futuro na especulação iraniana: aquela entre o espiritual e o material, entre o pensamento e o ‘mundo ósseo’ (Yasna, 28:2)” (p. 298-299).

O personagem de Nietzsche, longe de ser construído em fidelidade a seu protótipo persa, é em muitos aspectos a subversão exata deste: se o antigo Zaratustra era um maniqueísta, o Zaratustra nietzschiano é alguém que pretende “ir além do bem e do mal”; se o antigo Zaratustra acreditava na criação a partir do nada (ex nihilo) e numa temporalidade linear, com início no ato criador do cosmos de Aúra-Masda e com desfecho num julgamento final, o Zaratustra nietzschiano concebe o tempo como um círculo ou um anel, afirmando uma eternidade cuja trilha é curva. Em suma, Nietzsche não respeita as características do profeta persa, mas o remolda e subverte até transformá-lo numa figura dionisíaca, dançarina, cantarolante, que santifica a própria risada e é inimiga de todos os camelos carregadores de cruzes.


A SER CONTINUADO…

O Selvagem e o Relógio


O SELVAGEM E O RELÓGIO

(Uma exposição de angústias)

“Quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence
Que não tem o bastante.

LEGIÃO URBANA
“Índios”

Era uma vez um índio que nunca havia visto um relógio. Um dia, suas terras são invadidas por conquistadores. Estes, no futuro chamarão esta data de “Dia do Descobrimento”. Eles, os estrangeiros que entram em terra alheia, “descobrindo-a” para colonizá-la, descem de suas caravelas suntuosas carregando cruzes, pólvora, relógios.

 O índio jamais viu nada disso em sua frente e não entende o que há de tão “sagrado” numa cruz, nem com que finalidades aquelas criaturas estrangeiras pretendem usar a pólvora, nem como diabos se faz um relógio. Seria este “selvagem” impulsionado, como sugerem tantos defensores da Teoria do Design Inteligente, a julgar que é obra divina tudo aquilo diante do quê ele se espanta (pois antes desconhecia)? Há de concluir o índio que o relógio é obra do deus dos invasores e que, diante de tal potência tão apta a realizar maravilhas e prodígios, nada resta senão aquiescer e cair de joelhos?…

Não: não acho que baste mostrar ao selvagem um relógio para que ele vire a casaca pro outro time e se apresse a trocar sua nudez desinibida por uma batina. Não é tão fácil assim vencer uma alma “pagã” para o cristianismo, recuperar uma ovelha desgarrada que está “extraviada” longe de Cristo… O índio não se deixa catequisar tão fácil por esta doutrina estranha, autoritária, invasora, que deseja impor seu império à força. Talvez pressinta que há algo de terrificante numa civilização que, cultuando uma cruz, cultua um símbolo da morte, um instrumento de execução, uma ferramenta assassina. Richard Dawkins percebeu bem: o equivalente moderno do hábito sacralizado na Cristandade de usar um crucifixo sobre o peito seria algo como… andar por aí com uma cadeira elétrica em miniatura ornando o peito. E vocês acham que índio têm toda essa vontade de se submeter a potências negadoras da natureza e adoradoras da morte? E vocês acham que índio se impressiona tanto assim com relógios?!?

 Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.” Eis o diagnóstico de Renato Russo. Concordo que uma parte das respostas está por aí: no espelho, no umbigolismo, no egocentrismo. Narcisos inventores de doutrinas inventaram a história de que nós, narcisos, somos o cume absoluto da criação, os predilelos supremos de deus, as únicas criaturas que PRESTAM neste globo inteiro! Ó polegar opositor! Ó tele-encéfalo altamente desenvolvido! Minhoca, barata, porco: tudo bicho escroto. Mas o homem, ah não! O Homem é a Glória da Criação! Feitos à imagem e semelhança de um divino deus, belíssimo e bom! Já boi, frango, peixe: são tudo uns bichos “porcaria” que nem tem alma… “Nem tem alma!”



Narciso inventa-se uma alma e fica se achando muitíssimo importante no esquema geral das coisas. Fica de ego inchado. Ele é, nada mais, nada menos, que o filho predileto da divindade única e toda-poderosa e, se agir direitinho, como manda a cartilha (quero dizer, a Bíblia…), o Papai-do-Céu lhe irá destinar um imenso parque-de-diversões celeste, repleto de infinitas delícias.

Em breve, gostando mais e mais dessa ideia, apegando-se a ela com afinco mais e mais ardoroso, ele chegará um dia a achar muitíssimo conveniente possuir uma alma imortal que ele nega a outros animais (e mesmo a outros humanos!). Ele quer triunfar sobre a morte que cai sobre as bestas, proclamar a si mesmo como a única exceção universal, e pensa tê-lo feito de fato quando imagina seu desejo realizado, quando escreve livros que lhe garantem que a promessa será cumprida!

E é assim que surgem na História humana estes fenômenos tão estranhos e bizarros: que uma religião que prega a fraternidade, como o cristianismo, possa conduzir tantas mentes a romper as relações fraternas com o mundo natural que tantos dos ditos “selvagens” praticam de modo tão espontâneo, fácil e exemplar. Ao invés de se perguntar “o que poderíamos nós aprender com eles?”, o homem que desceu das caravelas com suas bíblias e escopetas, querendo expandir o império de distantes reis europeus, só quis saber de forçar seus dogmas a outros – e a quem se recusasse… o calabouço, o chicote, o fuzil!

Foi assim que a religião que se vende como “fraterna” decidiu convencer seu séquito de fiéis de que índio e negro, como os bois e as minhocas, não tem alma. Os relógios que desceram das caravelas junto com os espelhos e a pólvora calculariam os tempos das jornadas que fariam os navios negreiros, lotados de homens acorrentados e tratados como bestas-sem-alma. Os relógios calculariam também o valor das riquezas que seriam daqui arrancadas, a demora exigida para as caravelas singrarem o Oceano, levando à Europa toda a prata de Potosí, todo o ouro de Vila Rica!

Nós, latino-americanos, não devemos nos esquecer das Veias Abertas da América Latina! Felizmente não tivemos nenhuma experiência histórica sobre fenômenos que nos parecem tão distantes e estranhos quanto as Cruzadas e as Inquisições. Aprendemos o pouco que sabemos sobre o assunto em livros um tanto maçantes, e cuja leitura os padres não nos recomendam. O que nós, aqui na América Latina, pudemos vivenciar, que nossos ancestrais diretos tiveram que encarar na pele, foi o ímpeto imperialista da civilização cristã e protestante européia – que conseguiu não somente impor-se, como também praticar o maior roubo de riquezas da história conhecida das civilizaçãos, e com a utilização dos métodos mais torpes e enojantes, incluindo a escravidão e o genocídio.

À Narciso às vezes agrada muitíssimo a ideia de que ele é capaz de possuir todas as verdades e que um único livro, que ele nem suspeita ter sido escrito por narcisos como ele, contêm tudo o que se precise saber, respostas finais e soluções definitivas para tudo na vida.

O maior perigo do monoteísmo, por isso, me parece ser o seu potencial de tornar o sujeito arrogante, cheio de empáfia, julgando-se absolutamente certo em suas convicções inalabáveis e disposto a degolar os que pensam diferente. O potencial altamente destrutivo do monoteísmo está nesta sua aversão à diversidade que lhe é inerente. Um fiel monoteísta acredita que todo mundo, sem exceções, deve se prostrar diante do mesmo deus. Que deva haver o mesmo culto para 7 bilhões de criaturas. Sonhar que é possível uma tal “unificação” entre os povos, algo que tudo na História nos diz que é absolutamente sem precedentes, me parece mais uma fantasia lunática do que um projeto político realista.

A civilização que inventou o relógio chegou diante dos homens do novo continente com a arrogância autoritária de quem se julga superior. Narciso tinha se convencido que, por ele ter sabido inventar relógios e espelhos, ele tinha direito ao império sobre o resto do mundo natural. E até hoje muito cristão que se julga um excelentíssimo sujeito vai sem um pingo de culpa ao açougue e à churrascaria, plenamente convencido de que bicho não vale tanto quanto um bom cristão e que pode ser tranquilamente tratado como um amontoado de carne sem sentimentos e que os matadouros fazem muito bem em degolar aos milhares.

E até hoje muito sujeito que se considera “santo” e que vai à Igreja todos os domingos apóia que caiam as bombas sobre o Iraque, o Afeganistão e o Irã – afinal de contas, quem crê numa divindade tão falsa como Alá merece mesmo o destino de uma Gomorra ou uma Sodoma. E até hoje muito sujeito que diz professar o cristianismo e ser “pró-vida” espalha por aí que usar camisinha é um pecado e que a AIDS é uma punição divina contra a festa da diversidade sexual e do “permissivismo” – agravando com isso epidemias mortíferas que causam um grau de sofrimento inimaginalvemente grande, impedindo que sejam adotadas medidas racionais e lúcidas contras os males que afligem a humanidade.

Quem espera ajuda dos céus tende a fazer pouco na Terra além de cair de joelhos e rezar, ou pegar em cruzes e pregar, ou agarrar-se em livros supostamente sagrados para tentar convencer toda a humanidade a NÃO LER NADA além dele, o Único Livro Que Presta!

Eu, como amante dos livros, como alguém que se delicia com as orgias que realiza em seu cérebro entre os mais diversos autores, que goza com a combinação sem preconceitos de poetas e músicos, dançarinos e palhaços, romancistas e pensadores, me sinto ofendido por essa gente que prega que só devemos ler um livro. Acho isso um crime contra a cultura humana do passado, que em sua imensa riqueza e diversidade merece ser apropriada o máximo que pudermos. Limitar o nosso horizonte a um único documento, quando as bibliotecas e as locadoras e os sites estão tão repletos de um conteúdo tão fascinantemente diversificado e colorido me parece a mesma coisa que vestir em si mesmo um cabresto. Prender a si mesmo numa jaula. Impedir o próprio cérebro de enxergar mais longe.

No fundo, escrevo este texto sob o impacto do filme Xingu, de Cao Hamburguer, da reação a ele manifestada pela Eliane Blum na Revista Época e por alguns vídeos de YouTube que mostram as tensões sociais em Belo Monte. Sinto uma inquietação vaga diante deste plano faraônico do Brasil de construir uma das maiores hidrelétricas do planeta. Se falei tanto de Narciso, foi por essa inquietação de que possamos estar sofrendo com a doença que um dia foi aquela de nossos invasores europeus e que hoje é a cegueira dos Estados Unidos da América. É arrogância que sobe às nossas cabecinhas narcísicas à ideia de que deixamos a Inglaterra na poeira e somos agora uma das 5 maiores economias do mundo? Não estará o governo federal sendo autoritário em sua imposição de um desenvolvimento econômico que aquelas regiões não solicitaram e que muitos indígenas consideram lesativa à terra e aos ecossistemas?


As questões espinhosas da Eliane Brum ressoam, sem resposta:

“…por que permitimos, pela omissão da maioria, que a faraônica obra de Belo Monte – aqui, agora – destrua uma das maiores riquezas culturais e biológicas do planeta? Por que, em um governo dito popular, se reedita o autoritarismo para impor um elefante branco da democracia, com a nossa cumplicidade? […]

O efeito da Transamazônica, apenas sobre uma única etnia indígena, foi um genocídio de mais de 500 seres humanos. E a Transamazônica até hoje é uma picada intrafegável boa parte do ano, apelidada por onde passa de “Transamargura”. As obras de Belo Monte começaram – sem o cumprimento das condicionantes ambientais – e o estrago já é visível.”

Eu, que não conheço a Amazônia, que só acompanho de longe esses problemas, ainda assim me sinto como que “empurrado” a tentar expressar angústias sobre esse assunto. Tenho medo desse “desenvolvimentismo” que me soa tão… anos 50. A Transamazônica e Belo Monte servem mesmo para “integrar o Brasil”, ou querem mesmo é abrir rotas vantajosas de comércio e possibilidade de enriquecimento infindo para muitas empresas? Precisamos tanto assim de alumínio (que, segundo o Fernando Meirelles, é o deus em glória de quem a hidrelética está sendo construída)? A Amazônia, o pulmão do mundo, peça essencial para sustentar o clima da Terra, para nos livrar de catástrofes naturais hecatômbicas que a insustentabilidade do capitalismo selvagem está nos legando, pode ser tratada, mais uma vez, como um elemento num jogo de capitais ao invés de um ecossistema vivo contendo uma das mais vastas biodiversidades do Universo conhecido? O que o futuro nos reserva: shopping centers pipocando nas margens do Xingu e índios sonhando em vestir tênis Nike e comer no McDonalds?

A minha suspeita é a de que o Brasil possa estar vivendo uma espécie de “imperialismo interno”, em que um modelo de desenvolvimento um tanto tecnocrático e cientificista está sendo imposto a civilizações que, ainda que estejam dentro de nosso território, possuem outros valores, outros estilos-de-vida, outros horizontes. Quiçá possamos, com os horizontes deles, abrindo-nos a eles, ampliar os nossos! Estou convicto de que, se cada bom cristão resolvesse experimentar a Ayahuasca um dia, ao invés de ficar só na hóstia, podia mudar seus parâmetros sobre a “superioridade” da civilização cristã sobre as outras, sobre o “resto”. Quiçá um dia aprendamos a lidar com o diferente num espírito de aprendizado mútuo e não de dominação prepotente. E quiçá um dia os dogmáticos e os fanáticos, os narcisos que se comprazem em crer no que lhes deixa mais contentes, os que só conseguem enxergar um livro e têm os horizontes fechados para todo o resto, possam perceber que relógios não valem muito para aqueles que sabem sentir-se, no presente, como se estivessem na eternidade. E que livros são pouca coisa para aquele que sabe, com as portas da percepção escancaradas, beber com seus sentidos o universo, em grandes goladas, lendo maravilhado o Grande Livro da Natureza!

“To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.”

WILLIAM BLAKE,
O SELVAGEM