O CINEMA COMO HINO A GAIA: Terrence Malick e “A Viagem do Tempo: Jornada da Vida” (2016, 90 min)

Quando lançou o divisor-de-águas em sua filmografia, “A Árvore da Vida”, de 2011, Terence Malick era artista um tanto “recluso”, que só saía de seu silêncio raramente e que havia realizado apenas quatro longas-metragens no período entre 1973 e 2010: “Badlands: Terra de Ninguém” (1973), “Days of Heaven: Cinzas no Paraíso” (1978), “Além da Linha Vermelha” (1998) e “O Novo Mundo” (2005). Depois de “A Árvore da Vida”, ele começou a fase mais fértil de sua carreira, com três longas-metragens de ficção lançados entre 2012 e 2017: “Amor Pleno” (2012), “Cavaleiro de Copas” (2015), “De Canção em Canção” (2017).

Após a consagração no Festival de Cannes, onde “A Árvore da Vida” papou a Palma De Ouro, o cinema de Terrence Malick embarcou numa viagem estética personalíssima, inimitável, que divide opiniões e que o torna uma figura a um só tempo cultuada e defenestrada. Seus filmes de ficção mais recentes são acusados por seus detratores de formalismo vazio, de viagens sem nexo, de virtuosismo fílmico gratuito… E decerto que há muitos argumentos punk a lançar como molotovs contra um cineasta cada vez prog. É o King Crimson ou o Pink Floyd do cinema, tomando pedrada dos fãs de um cinema mais The Clash ou Ramones

Um filme como “Voyage of Time: Life’s Journey” (2016) prova que ele é sim um criador cinematográfico relevante, alguém cuja obra traz a marca de uma certa originalidade que impressiona por sua capacidade de abandonar os cânones do cinema comercial, investindo em algo altamente idiossincrático e às vezes abertamente anti-mercadológico. O cineasta nos leva a uma jornada cósmica deslumbrante, repleta de imagens que impressionam por sua beleza, por sua estranheza, por sua bizarrice, por seu esplendor. Imagens que nos deixam sem palavras diante de um inefável banquete para nossa sensibilidade. Ao assisti-lo, fica evidente que Malick é um dos principais artistas que está propondo novos horizontes às poéticas visuais na arte contemporânea.

A voz serena e cadenciada de Cate Blanchett narra este filme incatalogável, que não conseguimos encaixar na díade de categorias prontas “ficção” ou “documentário”. Eu o chamaria de filme-poema, mas ele é também uma espécie de tratado científico, de especulação filosófica, de convite ao misticismo… É uma obra pra ser contemplada com os olhos bem arregalados, com a consciência alerta e desperta, e de preferência com a sensibilidade expandida com algum estupefaciente (em palavras mais simples: THC e LSD combinam muito bem com esse cine-rolê!).

É um filme de ambições estratosféricas e cujo texto pode soar para alguns ouvidos como alguma incompreensível baboseira esotérica trip-hippie, mas que inclui vários momentos de alto lirismo e densa poesia. Malick é, no fundo, uma espécie de filósofo panteísta, dedicando seu épico poema-visual a uma divindade universal, a Grande Mãe do Cosmos, “giver of life, bringer of light”. Ele quer, nada mais, nada menos, do que tentar sugerir os caminhos da Vida pelo Tempo desde os primórdios até hoje em dia. Supernovas, meteoros, dinossauros, crocodilos, hominídeos e mega-cidades todos participam desta sopa cósmica filmada. É embasbacante. Sonda a multiplicidade de formas que a Vida assume em seu ímpeto de recriação constante. Dá-nos vislumbres de pontos distantes do Universo onde nunca estivemos nem estaremos. Mescla a história natural com a história cultural.

É uma obra que pode cair muito bem em aulas de filosofia que busquem ilustrar os pensamentos de Heráclito, de Lucrécio, de Spinoza, de Darwin, de Bergson, dentre outros. Mas Malick jamais cita teorias, jamais abre aspas. Quer que a obra venha marcada por sua singularidade de visão. Só que sua visão de mundo, sua explicação geral sobre a Phýsis, seu tratado cinematográfico sobre Tudo Que Existe, têm vários precedentes históricos não só na história da filosofia e da poesia, mas também no misticismo.

Quem busca filmes que propiciem jornadas místicas, possibilidades de insights sobre o cosmos, ou mesmo fusões transcendentais com o que está para além da jaula do ego, não deve temer lançar-se às águas desta jornada. Em “Voyage of Time”, um artista maduro, que se enxerga como veículo de sabedoria, explora com muita maestria e virtuosismo os maiores mistérios de nossa existência no espaço exíguo de uns 90 minutos de projeção, no caso da versão do filme que assisti (uma versão de 60 minutos, para IMAX, com narração de Brad Pitt, é a opção alternativa).

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É um filme que evoca tanto o “2001: Odisséia Espacial” de Kubrick, baseado em Arthur C. Clarke, quanto a viagem de Carl Sagan em sua série “Cosmos”. Têm precedentes na história do cinema experimental em obras como “Koyaanisqatsi” de Godfrey Reggio, mas ao mesmo tempo nos dá a impressão, em certos momentos, de algo cada vez mais raro diante dos filmes: a sensação de “nunca vi nada parecido com isso antes”.

Algumas vezes Malick já pôde ser comparado por críticos a Kubrick, em especial pelo fato de que ambos tinham como marca a excelência de seu corpo de trabalho e o fato de que espaçavam bastante suas produções. Ao invés de apostarem no modelo produtivista à la Woody Allen – um filme por ano, pelo menos! – tanto Malick quanto Kubrick às vezes ficavam muitos anos sem aparecer no pedaço com novos filmes.

Voyage of Time integra esta filmografia de Malick na década de 2010 como um dos itens mais importantes, que fornece chaves para a compreensão das outras obras. Ele agora faz filmes que visam produzir em nossas consciências alguma espécie de unio mystica, de transe contemplativo.

Essa é uma das críticas possíveis a ele, aliás: ele não convida ao ativismo, à mudança concreta da realidade através da ação coletiva. Não é o cineasta da Arendtiana vita activa. É o cineasta que pode ser visto como aquele que seduz à evasão mística.

Mas quem disse que misticismo é necessariamente sinônimo de alienação e evasão? Ter lido William James – The Varieties of Religious Experience – e Henri Bergson – A Evolução Criadora – me livrou de vez da tentação de juízo tão reducionista. Spinoza, aliás, pode ser lido como conceito místico, e seu Deus sive Natura nada perde com isto de sua potência explicativa e de seus mananciais de motivação ética e existencial.

Malick oferece seu filme ao espectador como alguém que estende um convite para o mergulho pleno nas águas do fluxo universal resplandecente de mistério. Põe fogo em todos os elementos que constituem o Todo, como Heráclito fazia, propondo um cosmos que queima sem nunca se reduzir a cinzas.

Tudo está em um incêndio eterno onde o nascimento jamais irá morrer, por mais que morram os indivíduos. Malick dá expressão fílmica ao tudo flui, ao panta rei, que marca uma das vertentes mais fortes da filosofia pré-socrática, transbordando até nossos dias na contemporaneidade, onde Everything Flows e “tudo que é sólido se desmancha no ar”…

Seu panteísmo dialoga também com o materialismo que, desde a Antiguidade, com Demócrito e Epicuro, propõe que os átomos que tudo constituem são indestrutíveis, de modo que os pequenos tijolos que formam tudo o que há não podem jamais ser nadificados. Panteísmo e materialismo não são tão irreconciliáveis assim, acredito. O materialismo é um panteísmo da matéria eterna como Ser Supremo.

O poeta Malick é econômico nas palavras e endereça seus versos à Vida, à Natureza, à Grande Mãe, seduzindo o espectador a uma espécie de união mística repleta de amorosidade e aceitação. Que haja muita beleza na obra é difícil de negar, mas também acho que esta beatificação cósmica precisa ser problematizada, já que parece conter também uma boa dose de recalque e censura de tudo aquilo que há de horrendo e terrível nesta jornada. Malick fala pouco sobre a extinção de espécies, sobre as eras glaciais, sobre as múltiplas expressões da predação no reino animal, sobre a cadeia alimentar e suas impiedosas comilanças, sobre catástrofes ecológicas e colapsos de equilíbrio sócio-ambiental…

De todo modo, oferece-nos quadros impressionantes do salto que ocorreu dos hominídeos, nus diante das presas na selva e nos desertos primevos, ao Antropoceno das urbes metropolitanas atuais, polvilhadas de luzes eletrônicas, veículos em enxames e comunicações digitais.

Eis um filme que decerto merece ser visto, ou melhor, uma obra na qual vale a pena mergulhar e dentro desse rio fluir a refletir. Mas de preferência para re-emergir no real, após esta sessão de cinema de uniões místicas e insights hippies, com a capacidade crítica ainda intacta. Pois tomar um banho de Mistério e uma overdose de Espanto pode ser benefício, é claro, mas jamais o será pôr pra dormir na cama das consolações agradáveis a indispensável força criadora e transformadora que é a criticidade.

Se o filme corre o risco, em certos momentos, de chafurdar no kitsch, de fazer pregação da Amorosidade Cósmica como panacéia universal, de pintar um retrato demasiado idealizado da Grande Mãe (que Malick não chama nem de Gaia, nem de Pachamama, perdendo também a chance de debater o tema antropológico-político do Matriarcado), no entanto em outros momentos o filme de Malick ascende à uma dimensão trágica, a uma cosmovisão que evoca o Cronos de Goya, o deus-tempo que devora suas crianças. O que evoca também o deus-criança de Heráclito que cria e destrói mundos. De todo modo, a Imensidão é demasiado grande para que possamos enxergá-la a olhos nus e a partir da perspectiva de nossa pequenez. É como diz aquela canção do Bright Eyes (Conor Oberst), “The Big Picture”:

“The picture is far too big to look at, kid!
Your eyes won’t open wide enough!
And you are constantly surrounded
By that swirling stream of what is and what was.”

O filme acaba e, se antes estávamos com a bunda na poltrona de um quarto idiota qualquer, agora estamos no mesmo quarto mas ele está inserido no Cosmo que flui pelo tempo afora em um processo gigantesco, mais do que épico, de devoração e de esplendor. Light and Dark. The moth and the flame. E perdura Tudo na devoração de si mesmo, no incêndio infindável da matéria em interação. A viagem do Tempo é a permanência da impermanência. A mudança é a única constante. As mortes todas fazem parte da perdurante sinfonia da vida. E o cinema às vezes nos agarra pelo pescoço e nos lança, estarrecidos e sem respostas, no meio pulsante da sopa cósmica que integramos. E nos dá, para ajudar a suportar tanto mistério, um hino a Gaia.

“You: too great to see. No end to your birth. Eternal birth. (…) Time: ravaging. Devouring all. What lasts?”

 

Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro 

Mais ensaios sobre cinema em Cinephilia Compulsiva

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FILMES RECOMENDADOS DO MESMO DIRETOR:

  • O NOVO MUNDO (The New World) 
  • ALÉM DA LINHA VERMELHA (The Thin Red Line)
  • A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life)
  • CINZAS NO PARAÍSO (Days of Heaven)
  • BADLANDS  – TERRA DE NINGUÉM

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Saiba mais:

IMDb – http://www.imdb.com/title/tt1945228/

Omelete – https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/voyage-of-time/?key=114716

The Guardian – https://www.theguardian.com/film/2016/sep/06/voyage-of-time-review-terrence-malick-venice-film-festival-2016

Wikipedia – https://en.wikipedia.org/wiki/Voyage_of_Time

Folha de S.Paulo – http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/09/1811165-terrence-malick-decepciona-com-jornada-filosofica-voyage-of-time.shtml

 

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

I. XAMANISMO COM AMPLIFICADORES

Há um capítulo magistral de Dançando nas Ruas (Dancin’ In The Street) em que Barbara Ehrenreich fala sobre as raízes arcaicas do êxtase coletivo. “Arcaicas”, no caso, é uma palavra para referir-se não a algo de velho, mofado, já caído em desuso e aposentado da História. Arcaico – é também uma das lições fundamentais de gurus psicodélicos como Terence McKenna e Alan Watts – é aquilo que tem enraizamento em um passado muito distante, mas cuja raiz ainda hoje nutre uma árvore viva e nossa contemporânea, com sua eclosão vivificante de folhas, frutos, sementes.

O tempo arcaico segue agindo no tempo contemporâneo como um rio que flui lá do passado mais remoto e penetra com suas águas torrenciais no território do presente. É um passado que conflui com o agora, conectando-nos ao que passou, vinculados ao que foi ao invés de alienados de qualquer tradição e pertença. Unidos e solidários aos que hoje descansam seus ossos debaixo desta terra onde labutamos e dançamos, ao invés de trancados na estreiteza de um fluxo nonsense de momentos efêmeros e desconexos.

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“No antigo mundo ocidental, muitas deidades serviam como objeto de adoração extática: na Grécia, Ártemis e Deméter; em Roma, as deidades importadas: Ísis (do Egito), Cibele, a Grande Mãe ou Magna Mater (da Ásia Menor), e Mitas (da Pérsia). Mas havia um deus grego para o qual a adoração extática não era uma opção, mas uma obrigação… Esse deus, fonte de êxtase e terror, era Dioniso, ou, como era conhecido entre os romanos, Baco. Sua jurisdição mundana cobria os vinhedos, mas a responsabilidade mais espiritual era presidir aorgeia (literalmente, ritos realizados na floresta à noite, termo do qual derivamos a palavra orgia), quando os devotos dançavam até chegar a um estado de transe. 

Ainda mais do que as outras deidades, Dioniso era um deus acessível e democrático, cujo thiasos, ou elo sagrado, estava aberto tanto aos humildes como aos poderosos. Nietzsche interpretava esses ritos da seguinte maneira: ‘O escravo emerge como homem livre, todos os muros rígidos e hostis erigidos entre os homens pela necessidade ou pelo despotismo são despedaçados.’

Foi Nietzsche quem reconheceu as raízes dionisíacas do drama grego antigo, ao ver a inspiração louca e extática por trás da majestosa arte dos gregos – que, metaforicamente, ousavam levar a cabo não apenas a imortal simetria do vaso, mas as loucas figuras dançantes pintadas em sua superfície. O que o deus demandava, segundo Nietzsche, era nada menos que a alma humana, liberada pelo ritual extático do ‘horror da existência individual’ e transformada na ‘unidade mística’ do ritmo proporcionado pela dança.” (EHRENREICH, p. 48)

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Longe de ser apenas de interesse para helenistas ou estudiosos de religiões antigas, a celebração comunal, vinculada no mundo greco-romano aos cultos a Dioniso e Baco, prossegue ativa em tempos contemporâneos. O livro de Barbara Ehrenreich é uma das melhores visões panorâmicas da busca pelo êxtase coletivo através da história e tem entre seus méritos uma postura simpática aos fenômenos estudados. Ela não condena, com fúria puritana, os rituais dionisíacos, o vodu haitiano, a capoeira ou o samba afrobrasileiro, os festivais de rock da Geração Hippie etc., mas busca compreender com empatia uma necessidade humana, que existe desde tempos imemoriais, de celebração coletiva e de vitória sobre o terrível confinamento na solidão de um eu isolado.

Dançando Nas Ruaspois, parece-me um livro magistral, de alto potencial libertário, que une-se aos esforços de um Terence McKenna, que propugnava um revival do arcaico, ou de uma Emma Goldman, pensadora política anarquista célebre por dizer: “Não é minha revolução se eu não puder dançar”.

Além disso, Barbara Ehrenreich realizou uma obra de interesse filosófico, ou mesmo teológico, afirmando que a experiência de re-encontro com o arcaico, de re-ligação com a fonte, é descrita por muitos que a vivenciam como uma revolução em nossa percepção temporal, uma percepção imediata ou insight súbito da eternidade do aqui-agora.

O livro contribui assim, imensamente, para o estudo e a compreensão do misticismo, podendo iluminar e elucidar a leitura de obras cruciais como a de William James, As Variedades da Experiência Religiosa, e Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, que talvez sejam as mais impressionantes reuniões de testemunhos sobre a experiência mística. Para uma visão mais contemporânea, que vincula a unio mystica ao consumo de substâncias enteógenas, vale sondar as reflexões de Aldous Huxley em Moksha e de Alan Watts por sua obra afora.

Quando transcendemos a prisão do eu, a jaula do isolamento, a percepção falha que nos leva a crer na possibilidade de nossa existência independente e separada do cosmos que a circunda e a inclui, aí então podemos abraçar um aqui-agora que têm densidade temporal. Que tem peso de eternidade. Aí percebemos – ainda que para ter este insight às vezes necessitemos de muito estudo do budismo, de muita prática da meditação e do yôga, de algumas gotas de um bom ácido lisérgico ou DMT… – que a interconexão é a verdade do real.

"Wonder", uma obra de Alex Grey

“Wonder”, uma obra de Alex Grey

Não somente somos todos interconexos, ligados a toda a teia da vida; além disso, isto não se esgota no presente imediato. O rio do passado vem regar-nos o presente e vivificar nossa construção comum de um presente futurível. Somos efêmeros contemporâneos da eternidade onde estamos incluídos – a Energia no Universo, garantem os cientistas, pode se transformar, mas jamais ser nadificada; os átomos e o vazio, desde Epicuro, são tidos por indestrutíveis! Esta percepção é aquilo que bacantes e mênades buscam – e às vezes acham – em seus rituais musicais, dançantes, psicodélicos. Buscam habitar um tempo de êxtase coletivo, de joy na vivência da interconexão. É uma utopia que propõe a re-união e a comum celebração, é um hedonismo sábio que propõe que não cortemos todas conexões com o rio do “foi-se e acabou-se”, prendendo-nos em um imediatismo niilista que nos deixaria apenas vagando ao léu, como náufragos agarrados a um pedaço de madeira que flutua no mar após a embarcação ir a pique.

Arcaicas – antigas mas ainda ativas! – são as variadas “técnicas do êxtase”. Esta, aliás, era uma das expressões prediletas que Mircea Eliade usava como ferramenta conceitual crucial para a compreensão e caracterização dos misticismos, do mais variado colorido, reunidos às vezes sob o nome de “xamanismo” e outras vezes sob a alcunha de “paganismo” ou termo semelhante. No tal do xamanismo, com enorme frequência, as técnicas do êxtase – o caminho que é preciso realizarmos junto até que sejamos uma coletividade capaz de celebração extática e auto-transcendência – são inseparáveis da dança e da música.

Este é um dos argumentos centrais do livro genial de Ehrenreich: êxtase tem tudo a ver com dança, com música, com expansão da consciência, com transcender o eu e abraçar o coletivos. que atravessa a História, da tragédia grega de 25 séculos atrás até os festivais hippie à la Monterey e Woodstock, para mostrar que os laços sociais vinculados à busca humana, trans-histórica e trans-cultural, de êxtase coletivo, são umbilicalmente vinculados com música, dança e alteração da percepção intelectual-sensível através do consumo de substâncias (naturais ou sintéticas) ditas estupefacientes. Apesar de toda repressão, de todo o sangue derramado por Inquisições, de toda a perseguição autoritária, Pan, Baco, Deméter, Dioniso, Shiva e toda a trupe dos deuses dançantes e orixás bailantes que seguem vivendo e atuando nos corações e mentes de seus carnais celebrantes.

Aquilo que Ehrenreich chama de collective joy, ou que Durkheim chamava de efervescência coletiva, é aquilo que sente-se no meio da torcida em um estádio de futebol quando explode um gol; mas também o que toma conta da vivência da platéia de um show do Jimi Hendrix Experience ou de Janis Joplin e o Big Brother Co. em pleno “Verão do Amor”. É aquela vivência que nos faz transcender a jaula do ego, rumo à inenarrável e estarrecedora experiência de estar acompanhados sob as estrelas, queimando sob o Sol, “todos juntos reunidos numa pessoa só” (como canta Arnaldo Baptista em canção d’Os Mutantes).

Os viventes precários que somos, que tentam somar e solidarizar-se, porém tanto separam-se e segregam-se, podem estar boquiabertos ou apáticos diante dos mistérios do mundo e de nossos vínculos secretos, com ele, mundo, e uns com os outros; a dança, a música e os estupefacientes são o caminho, o tao, uma maneira eficiente através da qual as culturas vão em busca de fazer acontecer o êxtase comunal. São técnicas para a realização das utopias, e não sua mera espera passiva. São técnicas do êxtas que hoje tem o auxílio da eletricidade, do ciberespaço, dos mega-amplificadores, das salas de cinema digital, de todo o aparato tecnológico-científico ainda tão desperdiçado com a estupidez bélica hi-tech… Invistamos, pois, nas arcaicas técnicas do êxtase!

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“A dança grupal é a grande niveladora e conector das comunidades humanas, unindo todos os que participam no tipo de communitas que Turner encontrou nos rituais nativos do século XX. (…) Submeter-se corporalmente à música por meio da dança é ser incorporado por uma comunidade de uma maneira muito mais profunda do que o mito compartilhado ou os costumes comuns podem atingir. Nos movimentos sincronizados com o ritmo da música ou de vozes que cantam, as rivalidades mesquinhas e as diferenças de facções que podem dividir um grupo são transmutadas em uma inofensiva competição de quem é o dançarino mais hábil… “a dança”, como coloca um neurocientista, é a “biotecnologia da formação do grupo.”

Desse modo, grupos – e os indivíduos que os constituem – capazes de se manter juntos por meio da dança teriam possuído uma vantagem evolucionária em relação aos grupos ligados por laços menos fortes. (…) Nenhuma outra espécie jamais conseguiu fazer isso. Pássaros têm suas músicas características; vagalumes podem sincronizar a luz que emitem; chimpanzés às vezes podem bater os pés juntos e balançar os braços fazendo algo que os etologistas descrevem como um “carnaval”. Mas, se quaisquer outros animais conseguiram músicas e se mover em sincronia com ela, mantiveram esse talento bem escondido dos humanos.” (EHRENREICH, 2006, p. 37, trad. Julián Fuks)

A dança e a música, apesar de reduzidas, nas idéias estreitas de muitos de nossos contemporâneos, a meras mercadorias ou a reles entretenimentos, são algo que conecta-nos, hoje, à arcaica e ancestral peculiaridade humana, no seio da natureza, que é o fato de estarmos em busca de collective joy, êxtase comunal ou coletivo. Este é um fio que atravessa a história da espécie e que é inapagável, inextipável, incapaz de ser assassinado por quaisquer repressões autoritárias. É uma força resiliente, que sobrevive a todos os tiranos, e que têm como um de seus símbolos mais memoráveis, na história da arte, a batalha épico-trágica das Bacantes com o tirano de Tebas, Penteu, na peça de Eurípides.

As Bacantes, mais do que apenas uma obra-prima da dramaturgia universal, pode ser debatida como documento histórico, etnográfico, transmutado em obra-de-arte pelo engenho daquele que foi, com Ésquilo e Sófocles, um dos autores de dramas que sobreviveu a 25 séculos de transmissão histórica, da Grécia de IV a.C. até o Bixiga paulistano deste 2017 depois do Nazareno. Algo há aí, na resiliência de As Bacantes, na sua capacidade de manter-se com um monte a dizer e ensinar aos nossos próprios tempos, que explica como José Celso Martinez Côrrea pôde reativar a potência da peça nestes anos de 2016 e 2017, com os resultados acachapantes e geniais que já nos acostumamos a esperar do Teatro Oficina, Uzyna Uzona.

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O Teatro Oficina é uma pérola refulgente neste pântano esmerdeado de nossa lambança nacional. É resistência e celebração – arte reXistente – que ativa um cyber-terreiro, uma arena-dionisíaca, um microcosmo-da-utopia, onde o Brasil mostra ao mundo o que tem de melhor: a exuberância irreverente de um povo que ginga em busca de um êxtase coletivo, traçando seu próprio caminho, no ritmado enraizado que lhe infundiram séculos de miscigenação e convívio entre gente de culturas do mais pluridiverso colorido.

Nas peças do Oficina, aparece sempre – mesmo quando trata-se de adaptações de autores gringos como Antonin Artaud (Para Dar Um Fim No Juízo De Deus) ou Schiller (Os Bandidos) – dá as caras um Brasil que está sempre recaindo em antagonismos, em querelas, em ríspidas lutas e mortíferas guerras.

As bacantes brazucas nunca podem celebrar em paz, pois são, a despeito de suas vontades, empurradas para uma arena de combate (ah, tiranos! elas só queriam beber vinho, dançar, celebrar! Por que cabeças teriam que rolar?!?); as mênades, proto-hippies da paz e do amor, dançantes e cantantes, re-ativadoras da força sempiterna do conatus, chocam-se contra os poderes do autoritarismo puritano e seus braços armados. A resiliência, a capacidade de sobrevivência da peça de Eurípides – vivíssima no Brasil de 2017! – está também na persistência. no nosso processo histórico, da batalha que o aquele fight – Bacantes versus Penteu – simboliza.

A utopia que vem conectada ao trampo do Oficina ou à antropofagia de Oswald de Andrade, empreendimentos de sintonia íntima, tem a ver com um renascimento do dionisismo, ou seja, de uma cultura onde a celebração coletiva, a alegria dos vínculos estabelecidos sobre as ruínas da egolatria, seja mais potente do que a cultura, imposta de cima pra baixo com a voz grossa e bruta do Patriarcado repressor, que manda sempre postergar todos os gozos, desistir de campanhas inovadoras ou revolucionárias, conformar-se com a monocromia de uma vida cinza, de tédio e monotonia, de servil obediência aos que mandam mortificar a carne e sacrificar o presente, em nome de um tíquete de entrada prum futuro paradisíaco no além-túmulo…

As bacantes – mulheres que saem dos trilhos da cotidianidade, deixando suas posições obedientes na hierarquia de comando masculinista, machista, autoritária… – e vão para a floresta, não só para fugir por um pouco da dureza do dia-a-dia, mas para celebrar a existência e a liberdade, para buscar a força em uma imersão num coletivo que, com forças reunidas, pode muitos, mas muuito mais, do que qualquer indivíduo solitário, por mais fortão e musculoso que seja. A ética e a estética homéricas, que celebram em Aquiles ou Ulisses um heroísmo muito marcado pelas fúrias bélicas, têm nas bacantes, nas celebrantes dionisíacas, nas mênades dançantes e de cabelos esvoaçantes, a celebração da paz, não da guerra; da harmonia e da sincronia, não do antagonismo; do êxtase, não do massacre.Nietzsche

“Friedrich Nietzsche, o clássico indivíduo solitário e atormentado do século XIX, talvez tenha entendido a terapêutica do êxtase melhor do que qualquer outro. Em um tempo de celebração universal do ‘eu’, ousou falar sobre o ‘horror da existência individual’ e vislumbrou o alívio nos antigos rituais dionisíacos que só conhecia por meio de leituras – rituais em que, ele imaginava, ‘cada indivíduo não apenas se reconcilia com o outro, mas une-se a ele – como se o véu de Maya tivesse sido rasgado e só restassem retalhos flutuando ante a visão de uma Unidade mística. (…) Cada um sente a si como a um deus e caminha a passos largos com o mesmo júbilo e o mesmo êxtase dos deuses que viu em seus sonhos.” (EHRENREICH, op cit, pg. 184)

Zé Celso e sua trupe são no país aquelas forças que com mais exuberância servem como porta-vozes destas idéias, entremescla de Nietzsche com Oswald de Andrade, de Artaud com Brecht, e apesar do impiedoso tempo que nos arrasta à velhice e ao inevitável túmulo esta figuraça quintessencial de nossa cultura parece continuar em eterno verão – para citar o título de excelente reportagem e entrevista do El País:

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Um dos grandes mestres do teatro brasileiro está prestes a completar 80 anos. Lúcido, sorridente, atuante. Muitos se perguntam qual é o segredo de José Celso Martinez Corrêa (Araraquara, 1937), o Zé Celso, para preservar tamanha energia e criatividade depois de 58 anos à frente do icônico Teatro Oficina – símbolo de resistência artística (e política) cravado no Bixiga, em São Paulo. Mas a verdade é que desse “xamã do teatro”, como ele gosta de se definir, não há segredos para se arrancar. Na entrevista concedida ao El País com os pés ao alto, em meio a uma nuvem de erva queimada, o dramaturgo vestido de um branco alvo como os fios de seus cabelos mostra que não tem assuntos proibidos, respondendo a esta altura da vida com voz suave tudo o que lhe é indagado. Isso, sim: sem fim, nem começo e pelos caminhos que lhe parecem.

A um desses caminhos ele volta sempre: a encenação de Bacantes, o clássico grego de Eurípedes montado pela primeira vez no Oficina em 1995 (em versão brasileira do diretor, no gênero “tragicomédia orgia”), que reestreou no Sesc Pompeia e logo passou ao Bixiga em outubro de 2016. A peça, de quase seis horas e com 52 atuadores em cena, reconstitui o ritual de origem do teatro na Grécia em 25 cantos e cinco episódios e tem música composta por Zé Celso (que também assina autoria e direção).


Encenada como ópera de Carnaval para cantar o nascimento, morte e renascimento de Dionísio, o deus do teatro, do vinho e das festas, ela tem lotado a casa tanto com habitués, como com novos assistentes – atraídos pela nudez libertária do elenco e às vezes também do público, pela genialidade do diretor, pela história ou por tudo ao mesmo tempo. A ideia é que os espectadores se integrem ao bacanal, e alguns deles terminam despidos pelos atores. Na primeira versão, isso aconteceu com Caetano Veloso. Por causa do sucesso orgiástico de Bacantes, Zé Celso ganhou ainda mais força e voz, voltando à carga em seus temas preferidos: teatro, política e xamanismo – que para ele são um só.

Para Zé Celso, duas coisas podem salvar o país da crise política em que começou a mergulhar em 2014: o xamanismo, claro, e a arte. O que ele procura é juntar as duas coisas, rumo à “revolução cultural” que o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica prega como a única saída para esses tempos obscuros.” (MORAES, Camila. O Eterno Verão de Zé Celso. El País.)

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II. VIVACIDADE DA ANTROPOFAGIA OSWALDIANA

Oswald e Oficina

“Todas as nossas reformas, todas as nossas reações costumam ser feitas dentro do bonde da civilização importada. Precisamos saltar do bonde, precisamos queimar o bonde.
OSWALD DE ANDRADE, “Contra Os Emboabas” (via Bia Azevedo, p. 68)

Se digo que 2016 não foi de todo um ano catastrófico neste país golpeado e achincalhado por suas escrotas elites canalhocratas, mas teve sim seus esplendores e glórias, é pois a nossa arte e nossos artistas mais relevantes e geniais não nos decepcionaram. Em 16 de Abril de 2016, na véspera da votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, então presidida por Eduardo Cunha, estivemos na peça do Teatro Oficina, Para Dar Um Fim No Juízo De Deus. 

Saí do teatro de alma lavada e com os ímpetos dionisíacos re-turbinados, orgulhoso dos artistas desta terra e certo de que a política, enfim, não é tudo – que um lamaçal ético sem fim, na Esplanada dos Ministérios, não impede a refulgência de uma contracultura que não se cala, que manifesta-se com exuberância, que abraça a resistência com todo a verve, todo o ímpeto, toda interconexão de uma trupe de mênades e sátiros. E, além disso, saí do teatro com a impressão de ter vivenciado uma imersão não só no universo de Artaud, mas, é claro, no de Oswald de Andrade, constantemente evocado por Zé Celso e sua trupe. Desde os anos 1960, quando encenou O Rei da Vela, o Oficina tem sido talvez o mais resiliente e fiel coletivo que honra o legado da utopia antropofágica oswaldiana.

Também em 2016, caiu no mercado um livro – Antropofagia: Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo – que foi de imediato saudado por Eduardo Viveiros de Castro como “destinado a se tornar referência obrigatória para todo estudioso da obra deste que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores pensadores do século XX”. Viveiros de Castro pode até soar hiperbólico em seu elogio a Oswald como figura crucial no panorama do conhecimento global no século que se acabou, mas isto mostra o quanto este pensamento, longe de ser paroquial ou nacionalista, pode ser também uma espécie de produto de exportação autenticamente original gestado e gerado no solo fecundo da cultura brasileira. Queimando o bode da submissão e da subserviência às civilizações importadas e imperialistas.

Quem enxergou isso muito bem, como lembra Bia Azevedo, foi o Roger Bastide, sociólogo francês,  que lecionou na USP e publicou em 1950 o livro clássico Brasil: Terra de Contrastes: “Oswald devora as teorias estrangeiras como a cidade devora os imigrantes, transformando-os em carne e sangue brasileiros.” (BASTIDE, apud Azevedo, p. 70) O antropófago Oswald “comeu” toda a diversidade das culturas estrangeiras, mas na hora do vamos ver foi lá e criou algo de novíssimo, algo de revolucionário. “O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro afirma que ‘a Antropofagia Oswaldiana é a reflexão metacultural mais original produzida na América Latina até hoje. Era e é uma teoria realmente revolucionária.” (VIVEIROS DE CASTRO, apud Azevedo, p. 24)

A antropofagia é descrita como utopia no título de um dos livros de Oswald que a Ed. Globo recolocou no mercado e que traz textos clássicos como A Crise Da Filosofia Messiânica. Filosoficamente, Oswald tinha muitas similaridades e alianças com o pensamento de Nietzsche, e pode-se dizer que a antropofagia dialoga com o “dionisismo” como este aparece na obra do autor de Assim Falava Zaratustra. Oswald também é um crítico mordaz da civilização ocidental racionalista e repressora, que dá todas as honras a Apolo, a Sócrates, a Descartes, soltando os cachorros de sua feroz repressão contra Dioniso, contra Baco, contra mênades e bacantes, contra feiticeiras e heréticos… Oswald defende o caminho da “valorização do lúdico e da arte”, aproxima-se das teses de Huizinga em Homo Ludens no que diz respeito à presença em todas as culturas, de quaisquer latitudes e longitudes, da “constante lúdica”:

Oswald

“O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica. O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos – o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e, enfim, o cinema.” – OSWALD DE ANDRADE, “A Crise da Filosofia Messiânica” (Globo, 2001, p. 144)

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por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Fevereiro de 2017
A ser continuado….


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oswald-bioA editora Globo acaba de relançar – depois de revista e atualizada pela autora – a mais importante biografia de um dos maiores nomes da cultura brasileira moderna. Oswald de Andrade: biografia é obra de Maria Augusta Fonseca, que vem se dedicando há décadas à vida e à obra do grande modernista. Um dos maiores nomes da cultura brasileira, e não somente da literatura, porque Oswald de Andrade foi um daqueles raros homens certos no lugar certo na hora certa: nas palavras de Antonio Candido, “sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.” Esse meio era o da provinciana vida cultural brasileira do começo do século XX, que Oswald de Andrade ajudaria a ir ao encontro do mundo moderno.

Alan Watts (1915-1973): Mystical Experience & Psychedelics [full article]

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Psychedelics and Religious Experience

by Alan Watts

The experiences resulting from the use of psychedelic drugs are often described in religious terms. They are therefore of interest to those like myself who, in the tradition of William James, are concerned with the psychology of religion. For more than thirty years I have been studying the causes, the consequences, and the conditions of those peculiar states of consciousness in which the individual discovers himself to be one continuous process with God, with the Universe, with the Ground of Being, or whatever name he may use by cultural conditioning or personal preference for the ultimate and eternal reality. We have no satisfactory and definitive name for experiences of this kind. The terms “religious experience,” “mystical experience,” and “cosmic consciousness” are all too vague and comprehensive to denote that specific mode of consciousness which, to those who have known it, is as real and overwhelming as falling in love. This article describes such states of consciousness induced by psychedelic drugs, although they are virtually indistinguishable from genuine mystical experience. The article then discusses objections to the use of psychedelic drugs that arise mainly from the opposition between mystical values and the traditional religious and secular values of Western society.

The Psychedelic Experience

OLYMPUS DIGITAL CAMERAThe idea of mystical experiences resulting from drug use is not readily accepted in Western societies. Western culture has, historically, a particular fascination with the value and virtue of man as an individual, self-determining, responsible ego, controlling himself and his world by the power of conscious effort and will. Nothing, then, could be more repugnant to this cultural tradition than the notion of spiritual or psychological growth through the use of drugs. A “drugged” person is by definition dimmed in consciousness, fogged in judgment, and deprived of will. But not all psychotropic (consciousness-changing) chemicals are narcotic and soporific, as are alcohol, opiates, and barbiturates. The effects of what are now called psychedelic (mind-manifesting) chemicals differ from those of alcohol as laughter differs from rage, or delight from depression. There is really no analogy between being “high” on LSD and “drunk” on bourbon. True, no one in either state should drive a car, but neither should one drive while reading a book, playing a violin, or making love. Certain creative activities and states of mind demand a concentration and devotion that are simply incompatible with piloting a death-dealing engine along a highway.

I myself have experimented with five of the principal psychedelics: LSD-25, mescaline, psilocybin, dimethyl-tryptamine (DMT), and cannabis. I have done so, as William James tried nitrous oxide, to see if they could help me in identifying what might be called the “essential” or “active” ingredients of the mystical experience. For almost all the classical literature on mysticism is vague, not only in describing the experience, but also in showing rational connections between the experience itself and the various traditional methods recommended to induce it: fasting, concentration, breathing exercises, prayers, incantations, and dances. A traditional master of Zen or Yoga, when asked why such-and-such practices lead or predispose one to the mystical experience, always responds, “This is the way my teacher gave it to me. This is the way I found out. If you’re seriously interested, try it for yourself.” This answer hardly satisfies an impertinent, scientifically minded, and intellectually curious Westerner. It reminds him of archaic medical prescriptions compounding five salamanders, powdered gallows rope, three boiled bats, a scruple of phosphorus, three pinches of henbane, and a dollop of dragon dung dropped when the moon was in Pisces. Maybe it worked, but what was the essential ingredient?

It struck me, therefore, that if any of the psychedelic chemicals would in fact predispose my consciousness to the mystical experience, I could use them as instruments for studying and describing that experience as one uses a microscope for bacteriology, even though the microscope is an “artificial” and “unnatural” contrivance which might be said to “distort” the vision of the naked eye. However, when I was first invited to test the mystical qualities of LSD-25 by Dr. Keith Ditman of the Neuropsychiatric Clinic at UCLA Medical School, I was unwilling to believe that any mere chemical could induce a genuine mystical experience. At most, it might bring about a state of spiritual insight analogous to swimming with water wings. Indeed, my first experiment with LSD-25 was not mystical. It was an intensely interesting aesthetic and intellectual experience that challenged my powers of analysis and careful description to the utmost.

Some months later, in 1959, I tried LSD-25 again with Drs. Sterling Bunnell and Michael Agron, who were then associated with the Langley-Porter Clinic, in San Francisco. In the course of two experiments I was amazed and somewhat embarrassed to find myself going through states of consciousness that corresponded precisely with every description of major mystical experiences that I had ever read.2 Furthermore, they exceeded both in depth and in a peculiar quality of unexpectedness the three “natural and spontaneous” experiences of this kind that had happened to me in previous years.

Through subsequent experimentation with LSD-25 and the other chemicals named above (with the exception of DMT, which I find amusing but relatively uninteresting), I found I could move with ease into the state of “cosmic consciousness,” and in due course became less and less dependent on the chemicals themselves for “tuning in” to this particular wave length of experience. Of the five psychedelics tried, I found that LSD-25 and cannabis suited my purposes best. Of these two, the latter—cannabis—which I had to use abroad in countries where it is not outlawed, proved to be the better. It does not induce bizarre alterations of sensory perception, and medical studies indicate that it may not, save in great excess, have the dangerous side effects of LSD.

For the purposes of this study, in describing my experiences with psychedelic drugs I avoid the occasional and incidental bizarre alterations of sense perception that psychedelic chemicals may induce. I am concerned, rather, with the fundamental alterations of the normal, socially induced consciousness of one’s own existence and relation to the external world. I am trying to delineate the basic principles of psychedelic awareness. But I must add that I can speak only for myself. The quality of these experiences depends considerably upon one’s prior orientation and attitude to life, although the now voluminous descriptive literature of these experiences accords quite remarkably with my own.

Almost invariably, my experiments with psychedelics have had four dominant characteristics. I shall try to explain them-in the expectation that the reader will say, at least of the second and third, “Why, that’s obvious! No one needs a drug to see that.” Quite so, but every insight has degrees of intensity. There can be obvious-1 and obvious-2, and the latter comes on with shattering clarity, manifesting its implications in every sphere and dimension of our existence.

The first characteristic is a slowing down of time, a concentration in the present. One’s normally compulsive concern for the future decreases, and one becomes aware of the enormous importance and interest of what is happening at the moment. Other people, going about their business on the streets, seem to be slightly crazy, failing to realize that the whole point of life is to be fully aware of it as it happens. One therefore relaxes, almost luxuriously, into studying the colors in a glass of water, or in listening to the now highly articulate vibration of every note played on an oboe or sung by a voice.

From the pragmatic standpoint of our culture, such an attitude is very bad for business. It might lead to improvidence, lack of foresight, diminished sales of insurance policies, and abandoned savings accounts. Yet this is just the corrective that our culture needs. No one is more fatuously impractical than the “successful” executive who spends his whole life absorbed in frantic paper work with the objective of retiring in comfort at sixty-five, when it will all be too late. Only those who have cultivated the art of living completely in the present have any use for making plans for the future, for when the plans mature they will be able to enjoy the results. “Tomorrow never comes.” I have never yet heard a preacher urging his congregation to practice that section of the Sermon on the Mount which begins, “Be not anxious for the morrow….” The truth is that people who live for the future are, as we say of the insane, “not quite all there”—or here: by over-eagerness they are perpetually missing the point. Foresight is bought at the price of anxiety, and when overused it destroys all its own advantages.

The second characteristic I will call awareness of polarity. This is the vivid realization that states, things, and events that we ordinarily call opposite are interdependent, like back and front, or the poles of a magnet. By polar awareness one sees that things which are explicitly different are implicitly one: self and other, subject and object, left and right, male and female-and then, a little more surprisingly, solid and space, figure and background, pulse and interval, saints and sinners, police and criminals, in-groups and out-groups. Each is definable only in terms of the other, and they go together transactionally, like buying and selling, for there is no sale without a purchase, and no purchase without a sale. As this awareness becomes increasingly intense, you feel that you yourself are polarized with the external universe in such a way that you imply each other. Your push is its pull, and its push is your pull—as when you move the steering wheel of a car. Are you pushing it or pulling it?

At first, this is a very odd sensation, not unlike hearing your own voice played back to you on an electronic system immediately after you have spoken. You become confused, and wait for it to go on! Similarly, you feel that you are something being done by the universe, yet that the universe is equally something being done by you-which is true, at least in the neurological sense that the peculiar structure of our brains translates the sun into light, and air vibrations into sound. Our normal sensation of relationship to the outside world is that sometimes I push it, and sometimes it pushes me. But if the two are actually one, where does action begin and responsibility rest? If the universe is doing me, how can I be sure that, two seconds hence, I will still remember the English language? If I am doing it, how can I be sure that, two seconds hence, my brain will know how to turn the sun into light? From such unfamiliar sensations as these, the psychedelic experience can generate confusion, paranoia, and terror-even though the individual is feeling his relationship to the world exactly as it would be described by a biologist, ecologist, or physicist, for he is feeling himself as the unified field of organism and environment.

The third characteristic, arising from the second, is awareness of relativity. I see that I am a link in an infinite hierarchy of processes and beings, ranging from molecules through bacteria and insects to human beings, and, maybe, to angels and gods-a hierarchy in which every level is in effect the same situation. For example, the poor man worries about money while the rich man worries about his health: the worry is the same, but the difference is in its substance or dimension. I realize that fruit flies must think of themselves as people, because, like ourselves, they find themselves in the middle of their own world-with immeasurably greater things above and smaller things below. To us, they all look alike and seem to have no personality-as do the Chinese when we have not lived among them. Yet fruit flies must see just as many subtle distinctions among themselves as we among ourselves.

Alan Watts Rorschach

From this it is but a short step to the realization that all forms of life and being are simply variations on a single theme: we are all in fact one being doing the same thing in as many different ways as possible. As the French proverb goes, plus ca change, plus c’est la meme chose (the more it varies, the more it is one). I see, further, that feeling threatened by the inevitability of death is really the same experience as feeling alive, and that as all beings are feeling this everywhere, they are all just as much “I” as myself. Yet the “I” feeling, to be felt at all, must always be a sensation relative to the “other”-to something beyond its control and experience. To be at all, it must begin and end. But the intellectual jump that mystical and psychedelic experiences make here is in enabling you to see that all these myriad I-centers are yourself—not, indeed, your personal and superficially conscious ego, but what Hindus call the paramatman, the Self of all selves.3 As the retina enables us to see countless pulses of energy as a single light, so the mystical experience shows us innumerable individuals as a single Self.

A kind of waking trance I have frequently had, quite up from boyhood, when I have been all alone. This has generally come upon me thro’ repeating my own name two or three times to myself silently, till all at once, as it were out of the intensity of the consciousness of individuality, the individuality itself seemed to dissolve and fade away into boundless being, and this not a confused state, but the clearest of the clearest, the surest of the surest, the weirdest of the weirdest, utterly beyond words, where death was an almost laughable impossibility, the loss of personality (if so it were) seeming no extinction but the only true life.

The fourth characteristic is awareness of eternal energy, often in the form of intense white light, which seems to be both the current in your nerves and that mysterious e which equals mc2. This may sound like megalomania or delusion of grandeur-but one sees quite clearly that all existence is a single energy, and that this energy is one’s own being. Of course there is death as well as life, because energy is a pulsation, and just as waves must have both crests and troughs, the experience of existing must go on and off. Basically, therefore, there is simply nothing to worry about, because you yourself are the eternal energy of the universe playing hide-and-seek (off-and-on) with itself. At root, you are the Godhead, for God is all that there is. Quoting Isaiah just a little out of context: “I am the Lord, and there is none else. I form the light and create the darkness: I make peace, and create evil. I, the Lord, do all these things.”4 This is the sense of the fundamental tenet of Hinduism, Tat tram asi—”THAT (i.e., “that subtle Being of which this whole universe is composed”) art thou.”5 A classical case of this experience, from the West, is in Tennyson’s Memoirs:

Obviously, these characteristics of the psychedelic experience, as I have known it, are aspects of a single state of consciousness—for I have been describing the same thing from different angles. The descriptions attempt to convey the reality of the experience, but in doing so they also suggest some of the inconsistencies between such experience and the current values of society.

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Opposition to Psychedelic Drugs

Resistance to allowing use of psychedelic drugs originates in both religious and secular values. The difficulty in describing psychedelic experiences in traditional religious terms suggests one ground of opposition. The Westerner must borrow such words as samadhi or moksha from the Hindus, or satori or kensho from the Japanese, to describe the experience of oneness with the universe. We have no appropriate word because our own Jewish and Christian theologies will not accept the idea that man’s inmost self can be identical with the Godhead, even though Christians may insist that this was true in the unique instance of Jesus Christ. Jews and Christians think of God in political and monarchical terms, as the supreme governor of the universe, the ultimate boss. Obviously, it is both socially unacceptable and logically preposterous for a particular individual to claim that he, in person, is the omnipotent and omniscient ruler of the world-to be accorded suitable recognition and honor.

Such an imperial and kingly concept of the ultimate reality, however, is neither necessary nor universal. The Hindus and the Chinese have no difficulty in conceiving of an identity of the self and the Godhead. For most Asians, other than Muslims, the Godhead moves and manifests the world in much the same way that a centipede manipulates a hundred legs-spontaneously, without deliberation or calculation. In other words, they conceive the universe by analogy with an organism as distinct from a mechanism. They do not see it as an artifact or construct under the conscious direction of some supreme technician, engineer, or architect.

If, however, in the context of Christian or Jewish tradition, an individual declares himself to be one with God, he must be dubbed blasphemous (subversive) or insane. Such a mystical experience is a clear threat to traditional religious concepts. The Judaeo-Christian tradition has a monarchical image of God, and monarchs, who rule by force, fear nothing more than insubordination. The Church has therefore always been highly suspicious of mystics, because they seem to be insubordinate and to claim equality or, worse, identity with God. For this reason, John Scotus Erigena and Meister Eckhart were condemned as heretics. This was also why the Quakers faced opposition for their doctrine of the Inward Light, and for their refusal to remove hats in church and in court. A few occasional mystics may be all right so long as they watch their language, like St. Teresa of Avila and St. John of the Cross, who maintained, shall we say, a metaphysical distance of respect between themselves and their heavenly King. Nothing, however, could be more alarming to the ecclesiastical hierarchy than a popular outbreak of mysticism, for this might well amount to setting up a democracy in the kingdom of heaven-and such alarm would be shared equally by Catholics, Jews, and fundamentalist Protestants.

The monarchical image of God, with its implicit distaste for religious insubordination, has a more pervasive impact than many Christians might admit. The thrones of kings have walls immediately behind them, and all who present themselves at court must prostrate themselves or kneel, because this is an awkward position from which to make a sudden attack. It has perhaps never occurred to Christians that when they design a church on the model of a royal court (basilica) and prescribe church ritual, they are implying that God, like a human monarch, is afraid. This is also implied by flattery in prayers:

O Lord our heavenly Father, high and mighty, King of kings, Lord of lords, the only Ruler of princes, who dost from thy throne behold all the dwellers upon earth: most heartily we beseech thee with thy favor to behold….

The Western man who claims consciousness of oneness with God or the universe thus clashes with his society’s concept of religion. In most Asian cultures, however, such a man will be congratulated as having penetrated the true secret of life. He has arrived, by chance or by some such discipline as Yoga or Zen meditation, at a state of consciousness in which he experiences directly and vividly what our own scientists know to be true in theory. For the ecologist, the biologist, and the physicist know (but seldom feel) that every organism constitutes a single field of behavior, or process, with its environment. There is no way of separating what any given organism is doing from what its environment is doing, for which reason ecologists speak not of organisms in environments but of organism-environments. Thus the words “I” and “self” should properly mean what the whole universe is doing at this particular “here-and-now” called John Doe.

The kingly concept of God makes identity of self and God, or self and universe, inconceivable in Western religious terms. The difference between Eastern and Western concepts of man and his universe, however, extends beyond strictly religious concepts. The Western scientist may rationally perceive the idea of organism-environment, but he does not ordinarily feel this to be true. By cultural and social conditioning, he has been hypnotized into experiencing himself as an ego-as an isolated center of consciousness and will inside a bag of skin, confronting an external and alien world. We say, “I came into this world.” But we did nothing of the kind. We came out of it in just the same way that fruit comes out of trees. Our galaxy, our cosmos, “peoples” in the same way that an apple tree “apples.”

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Such a vision of the universe clashes with the idea of a monarchical God, with the concept of the separate ego, and even with the secular, atheist/agnostic mentality, which derives its common sense from the mythology of nineteenth-century scientist. According to this view, the universe is a mindless mechanism and man a sort of accidental microorganism infesting a minute globular rock that revolves about an unimportant star on the outer fringe of one of the minor galaxies. This “put-down” theory of man is extremely common among such quasi scientists as sociologists, psychologists, and psychiatrists, most of whom are still thinking of the world in terms of Newtonian mechanics, and have never really caught up with the ideas of Einstein and Bohr, Oppenheimer and Schrodinger. Thus to the ordinary institutional-type psychiatrist, any patient who gives the least hint of mystical or religious experience is automatically diagnosed as deranged. From the standpoint of the mechanistic religion, he is a heretic and is given electroshock therapy as an up-to-date form of thumbscrew and rack. And, incidentally, it is just this kind of quasi scientist who, as consultant to government and law-enforcement agencies, dictates official policies on the use of psychedelic chemicals.

Inability to accept the mystic experience is more than an intellectual handicap. Lack of awareness of the basic unity of organism and environment is a serious and dangerous hallucination. For in a civilization equipped with immense technological power, the sense of alienation between man and nature leads to the use of technology in a hostile spirit—to the “conquest” of nature instead of intelligent co-operation with nature. The result is that we are eroding and destroying our environment, spreading Los Angelization instead of civilization. This is the major threat overhanging Western, technological culture, and no amount of reasoning or doom-preaching seems to help. We simply do not respond to the prophetic and moralizing techniques of conversion upon which Jews and Christians have always relied. But people have an obscure sense of what is good for them-call it “unconscious self-healing,” “survival instinct,” “positive growth potential,” or what you will. Among the educated young there is therefore a startling and unprecedented interest in the transformation of human consciousness. All over the Western world publishers are selling millions of books dealing with Yoga, Vedanta, Zen Buddhism, and the chemical mysticism of psychedelic drugs, and I have come to believe that the whole “hip” subculture, however misguided in some of its manifestations, is the earnest and responsible effort of young people to correct the self-destroying course of industrial civilization.

The content of the mystical experience is thus inconsistent with both the religious and secular concepts of traditional Western thought. Moreover, mystical experiences often result in attitudes that threaten the authority not only of established churches, but also of secular society. Unafraid of death and deficient in worldly ambition, those who have undergone mystical experiences are impervious to threats and promises. Moreover, their sense of the relativity of good and evil arouses the suspicion that they lack both conscience and respect for law. Use of psychedelics in the United States by a literate bourgeoisie means that an important segment of the population is indifferent to society’s traditional rewards and sanctions.

In theory, the existence within our secular society of a group that does not accept conventional values is consistent with our political vision. But one of the great problems of the United States, legally and politically, is that we have never quite had the courage of our convictions. The Republic is founded on the marvelously sane principle that a human community can exist and prosper only on a basis of mutual trust. Metaphysically, the American Revolution was a rejection of the dogma of Original Sin, which is the notion that because you cannot trust yourself or other people, there must be some Superior Authority to keep us all in order. The dogma was rejected because, if it is true that we cannot trust ourselves and others, it follows that we cannot trust the Superior Authority which we ourselves conceive and obey, and that the very idea of our own untrustworthiness is unreliable!

Citizens of the United States believe, or are supposed to believe, that a republic is the best form of government. Yet vast confusion arises from trying to be republican in politics and monarchist in religion. How can a republic be the best form of government if the universe, heaven, and hell are a monarchy? Thus, despite the theory of government by consent, based upon mutual trust, the peoples of the United States retain, from the authoritarian backgrounds of their religions or national origins, an utterly naive faith in law as some sort of supernatural and paternalistic power. “There ought to be a law against it!” Our law-enforcement officers are therefore confused, hindered, and bewildered—not to mention corrupted—by being asked to enforce sumptuary laws, often of ecclesiastical origin, that vast numbers of people have no intention of obeying and that, in any case, are immensely difficult or simply impossible to enforce—for example, the barring of anything so undetectable as LSD-25 from international and interstate commerce.

Finally, there are two specific objections to use of psychedelic drugs. First, use of these drugs may be dangerous. However, every worth-while exploration is dangerous—climbing mountains, testing aircraft, rocketing into outer space, skin diving, or collecting botanical specimens in jungles. But if you value knowledge and the actual delight of exploration more than mere duration of uneventful life, you are willing to take the risks. It is not really healthy for monks to practice fasting, and it was hardly hygienic for Jesus to get himself crucified, but these are risks taken in the course of spiritual adventures. Today the adventurous young are taking risks in exploring the psyche, testing their mettle at the task just as, in times past, they have tested it—more violently—in hunting, dueling, hot-rod racing, and playing football. What they need is not prohibitions and policemen, but the most intelligent encouragement and advice that can be found.

Second, drug use may be criticized as an escape from reality. However, this criticism assumes unjustly that the mystical experiences themselves are escapist or unreal. LSD, in particular, is by no means a soft and cushy escape from reality. It can very easily be an experience in which you have to test your soul against all the devils in hell. For me, it has been at times an experience in which I was at once completely lost in the corridors of the mind and yet relating that very lostness to the exact order of logic and language, simultaneously very mad and very sane. But beyond these occasional lost and insane episodes, there are the experiences of the world as a system of total harmony and glory, and the discipline of relating these to the order of logic and language must somehow explain how what William Blake called that “energy which is eternal delight” can consist with the misery and suffering of everyday life.

The undoubted mystical and religious intent of most users of the psychedelics, even if some of these substances should be proved injurious to physical health, requires that their free and responsible use be exempt from legal restraint in any republic that maintains a constitutional separation of church and state. To the extent that mystical experience conforms with the tradition of genuine religious involvement, and to the extent that psychedelics induce that experience, users are entitled to some constitutional protection. Also, to the extent that research in the psychology of religion can utilize such drugs, students of the human mind must be free to use them. Under present laws, I, as an experienced student of the psychology of religion, can no longer pursue research in the field. This is a barbarous restriction of spiritual and intellectual freedom, suggesting that the legal system of the United States is, after all, in tacit alliance with the monarchical theory of the universe, and will, therefore, prohibit and persecute religious ideas and practices based on an organic and unitary vision of the universe.

ALAN WATTS
This essay is published in his book:
“Does Is Matter? Essays on Man’s Relation to Materiality”
New World Library, California, 2007.
Available at Toronto’s Public Library.

“Sobriety diminishes, discriminates and says no; drunkenness expands, unites, and says yes. It is in fact the great exciter of the Yes function in man. It brings its votary from the chill periphery of things to the radiant core. It makes him for the moment one with truth.” (William James)

mysticism
ESTADOS MÍSTICOS DE CONSCIÊNCIA
por WILLIAM JAMES (1842-1910)
in: “Varieties of Religious Experience”

Formado em medicina, “um dos fundadores da psicologia moderna e importante filósofo ligado ao Pragmatismo”, William James escreveu no começo do século XX um livro já clássico, As Variedades da Experiência Religiosa. Na sequência, compartilhamos um texto desta obra em que James versa sobre o misticismo (entendido como um estado “expandido” de consciência), tece relações com o conceito de “consciência cósmica” de Bucke e filosofa sobre as substâncias químicas facilitadoras destes “transes místicos” (Aldous Huxley será profundamente influenciado por este estudo em suas próprias viagens na tentativa de decifrar os estados mentais desencadeados pelo consumo da mescalina, por exemplo). James faz ainda um belo elogio da música, da poesia e da arte em geral, avançando a hipótese ousada de que nossa susceptibilidade estética, ou nossa capacidade para fruir obras-de-arte, depende do frescor e da vivacidade das potencialidades místicas de nossa consciência. Um texto denso, profundo e belíssimo que vale a pena ler com calma, refletir sobre e viajar em cima. Have a nice trip!

* * * * *

“MYSTICISM” (BY WILLIAM JAMES)

What does the expression ‘mystical states of consciousness’ mean? I’ll propose to you four marks which, when an experience has them, may justify us in calling it mystical:

1. Ineffability.- The handiest of the marks by which I classify a state of mind as mystical is negative. The subject of it immediately says that it defies expression, that no adequate report of its contents can be given in words. It follows from this that its quality must be directly experienced; it cannot be imparted or transferred to others. In this peculiarity mystical states are more like states of feeling than like states of intellect. No one can make clear to another who has never had a certain feeling, in what the quality or worth of it consists. One must have musical ears to know the value of a symphony; one must have been in love one’s self to understand a lover’s state of mind. Lacking the heart or ear, we cannot interpret the musician or the lover justly, and are even likely to consider him weak-minded or absurd. The mystic finds that most of us accord to his experiences an equally incompetent treatment.

2. Noetic quality.- Although so similar to states of feeling, mystical states seem to those who experience them to be also states of knowledge. They are states of insight into depths of truth unplumbed by the discursive intellect. They are illuminations, revelations, full of significance and importance, all inarticulate though they remain; and as a rule they carry with them a curious sense of authority for after-time.

3. Transiency.- Mystical states cannot be sustained for long. Except in rare instances, half an hour, or at most an hour or two, seems to be the limit beyond which they fade into the light of common day. Often, when faded, their quality can but imperfectly be reproduced in memory; but when they recur it is recognized; and from one recurrence to another it is susceptible of continuous development in what is felt as inner richness and importance.

4. Passivity.- Although the oncoming of mystical states may be facilitated by preliminary voluntary operations, as by fixing the attention, or going through certain bodily performances, or in other ways which manuals of mysticism prescribe; yet when the characteristic sort of consciousness once has set in, the mystic feels as if his own will were in abeyance, and indeed sometimes as if he were grasped and held by a superior power. This latter peculiarity connects mystical states with certain definite phenomena of secondary or alternative personality, such as prophetic speech, automatic writing, or the mediumistic trance. When these latter conditions are well pronounced, however, there may be no recollection whatever of the phenomenon and it may have no significance for the subject’s usual inner life, to which, as it were, it makes a mere interruption. Mystical states, strictly so called, are never merely interruptive. Some memory of their content always remains, and a profound sense of their importance. They modify the inner life of the subject between the times of their recurrence.

The simplest rudiment of mystical experience would seem to be that deepened sense of the significance of a maxim or formula which occasionally sweeps over one. “I’ve heard that said all my life,” we exclaim, “but I never realized its full meaning until now.” (…) This sense of deeper significance is not confined to rational propositions. Single words, and conjunctions of words, effects of light on land and sea, odors and musical sounds, all bring it when the mind is tuned aright. Most of us can remember the strangely moving power of passages in certain poems read when we were young, irrational doorways as they were through which the mystery of fact, the wildness and the pang of life, stole into our hearts and thrilled them. The words have now perhaps become mere polished surfaces for us; but lyric poetry and music are alive and significant only in proportion as they fetch these vague vistas of a life continuous with our own, beckoning and inviting, yet ever eluding our pursuit. We are alive or dead to the eternal inner message of the arts according as we have kept or lost this mystical susceptibility.

The next step into mystical states carries us into a realm that public opinion and ethical philosophy have long since branded as pathological, though private practice and certain lyric strains of poetry seem still to bear witness to its ideality. I refer to the consciousness produced by intoxicants and anaesthetics, especially by alcohol. The sway of alcohol over mankind is unquestionably due to its power to stimulate the mystical faculties of human nature, usually crushed to earth by the cold facts and dry criticisms of the sober hour. Sobriety diminishes, discriminates and says no; drunkenness expands, unites, and says yes. It is in fact the great exciter of the Yes function in man. It brings its votary from the chill periphery of things to the radiant core. It makes him for the moment one with truth. Not through mere perversity do men run after it. To the poor and the unlettered it stands in the place of symphony concerts and of literature; and it is part of the deeper mystery and tragedy of life that whiffs and gleams of something that we immediately recognize as excellent should be vouchsafed to so many of us only in the fleeting earlier phases of what in its totality is so degrading a poisoning. The drunken consciousness is one bit of the mystic consciousness, and our total opinion of it must find its place in our opinion of that larger whole.

Our normal waking consciousness, rational consciousness as we call it, is but one special type of consciousness, whilst all about it, parted from it by the filmiest of screens, there lie potential forms of consciousness entirely different. We may go through life without suspecting their existence; but apply the requisite stimulus, and at a touch they are there in all their completeness, definite types of mentality which probably somewhere have their field of application and adaptation. No account of the universe in its totality can be final which leaves these other forms of consciousness quite disregarded. How to regard them is the question,—for they are so discontinuous with ordinary consciousness. Yet they may determine attitudes though they cannot furnish formulas, and open a region though they fail to give a map. At any rate, they forbid a premature closing of our accounts with reality. Looking back on my own experiences, they all converge towards a kind of insight to which I cannot help ascribing some metaphysical significance. The keynote of it is invariably a reconciliation. It is as if the opposites of the world, whose contradictoriness and conflict make all our difficulties and troubles, were melted into unity.

Even the least mystical of you must by this time be convinced of the existence of mystical moments as states of consciousness of an entirely specific quality, and of the deep impression which they make on those who have them. A Canadian psychiatrist, Dr. R.M. Bucke, gives to the more distinctly characterized of these phenomena the name of cosmic consciousness.

“The prime characteristic of cosmic consciousness is a consciousness of the cosmos, that is, of the life and order of the universe. Along with the consciousness of the cosmos there occurs an intellectual enlightenment which alone would place the individual on a new plane of existence- would make him almost a member of a new species. To this is added a state of moral exaltation, an indescribable feeling of elevation, elation, and joyousness, and a quickening of the moral sense, which is fully as striking, and more important than is the enhanced intellectual power. With these come what may be called a sense of immortality, a consciousness of eternal life, not a conviction that he shall have this, but the consciousness that he has it already.”

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