NÃO ULTRAPASSE, de Elem Klimov (URSS, 1964) #CinephiliaCompulsiva

NÃO ULTRAPASSE, dirigido por Elem Klimov​ e lançado em 1964, é um dos mais adoráveis filmes soviéticos que conheço. É uma espécie de comédia anárquica que, além de lembrar a graça de humoristas clássicos da sétima arte como Charlie Chaplin (Official)​ e Buster Keaton​, evoca também lembranças do clássico do cinema francês, “Zero de Conduta” de Jean Vigo​. Nos dois casos, a luta entre a autoridade adulta e a anarquia infantil acaba com uma estrondosa vitória dos ingovernáveis.

A história se passa em um acampamento de verão onde estão reunidos, em todo o fervor da meninice, muitos jovens soviéticos que estão sendo instigados à disciplina para a realização de grandes façanhas. Os adultos, em seu altos ideais impostos de cima de tablados, querem que os rapazes e raparigas se tornem grandes esportistas e célebres cosmonautas, encantadores músicos e sublimes dançarinas – os futuros Tolstóis e Gagárins, Tsvetaiévnas e Tchaikovskys.

Mas para isso as autoridades pedagógicas necessitam driblar um desafio. Qual seja: a selvageria infantil, o ímpeto de vida indisciplinável, o gosto e o gozo da baderna.

O protagonista infantil, Kostya Inochkin, é aquele tipo de criança demasiado impertinente – como a Mafalda​ de Quino – e que desrespeita muitos limites impostos de fora. Entra assim em choque contra o diretor do campo, o Tavarish Dynin, camarada que busca por todos meios impor uma sociedade disciplinar em meio ao turbilhão de malandragem mirim.

O duelo entre o menino Kostya e o camarada Dynin rende muitas gargalhadas, mas o filme de Klimov – responsável também pelo clássico e contundente “Vá e Veja” – vai muito além da comédia pastelão.

Atinge a genialidade ao penetrar na subjetividade da criança, ao pintar seu mundo interior, ao filmar seus delírios internos. Como naquela cena em que, após ser expulso da comunidade pelo diretor devido a seu mau-comportamento, Kostya, na estação de trem, imagina as consequências de voltar para casa e dar a notícia de sua punição para a avó.

Evocando o cinema onírico, surrealista, que tem em Luis Buñuel e David Lynch alguns de seus gênios, o que Elem Klimov faz nestas cenas inesquecíveis é do mais estarrecedor brilhantismo: o pequeno Kostya imagina-se causando uma decepção letal à sua pobre avó, que morre de desgosto, desmaiando direto no caixão ao deparar com o neto, expulso pela autoridade disciplinar. É uma cena capaz de fazer o cinéfilo lembrar-se de algumas das melhores cenas de Ingmar Bergman​, mas que possui também um humor tão cáustico quanto o de Mary and Max​,

No funeral (delirado) que o menino está assistindo em seu cinema interior, ele vê dedos acusadores que o apontam, culpabilizando o criminoso involuntário, fazendo-o sentir-se pesadamente culpado pela morte (imaginária) da avó. E aí a procissão fúnebre desenha no território, filmado com maestria por uma câmera em vôo, um gigantesco ponto de interrogação formado por uma centopéia humana, completada pela frase: “Por que você matou sua vovó?”.

O menino, em sua fantasia, faz uma previsão sobre um futuro possível – causar a morte da avó através de sua aparição como figura punida por indisciplina – e resolve re-entrar na cena de onde havia sido expulso. Viverá uma vida clandestina após invadir o recinto que, bem ironicamente, contêm em seus portões os ditos contraditórios: “Seja Bem-Vindo!” e “Não Ultrapasse!”.

O filme pode ser lido com auxílio de Foucault e Wilhelm Reich, de Elisée Reclus e de Herbert Marcuse, como uma espécie de alegoria da sociedade de controle, alertando-nos sobre as consequências do excesso de repressão. O filme mostra a censura de um filme em suas cenas de amor mais quentes, e em outro momento mostra o diretor mandando amordaçar Vladimir Maiakovski​, cujos versos as crianças cantavam alegremente, dizendo que devemos lançar à lata de lixo da história todo esse papo de Adão e Eva…

Apesar de não ser nada fiel a quaisquer princípios do realismo socialista, o filme fornece vislumbres do que deve ter sido a pedagogia soviética, inspirada pelos ideais comunistas tais como eles se manifestavam na URSS dos anos 1960. O filme acaba por sugerir, de maneira impertinente-libertária – muito mais próximo do anarquismo do que do stalinismo! – que há algo na natureza humana que se revolta contra as mordaças e as camisas-de-força impostas pelo poder, por mais bem intencionado que este seja.

Este ímpeto vital, na meninice bastante ingovernável, é o que o processo pedagógico busca domesticar, impondo a ele limites, forjando para ele a jaula das regras e regulamentos, porém ele escapa sempre pelas frestas.

O protagonista, Kostya, é um emblema da pulsão vital, do élan pulsante de uma vida incontenível. Tanto que se rebela contra o pequeno cercadinho que é permitido aos pioneiros utilizarem, na beira da praia, para natação. A muvuca extrema naquele cercadinho de água é aquilo que instiga a rebeldia do pequeno pioneiro. Ele queria nadar como se estivesse livre em pleno oceano. Ele queria explorar as ilhas ao redor. Ele queria ir brincar com outras crianças da comunidade dos arredores, ao invés de ficar preso num círculo de convivência bem limitado, descrito aliás pelas autoridades com o nome militaresco de “tropa”.

Contra a disciplina imposta às crianças como partes de tropas a serem domesticadas, o pequeno rebento libertário que é Kostya utiliza toda a força da solidariedade entre os oprimidos para realizar uma espécie de Levante dos Zero de Comportamento.

Quando o filme se encerra, num desfecho memorável e delirante, surrealisticamente utópico, é como se Elem Klimov estivesse querendo botar pilha na fogueira de nossos ímpetos de ingovernáveis, chamando-nos para tentar até mesmo o que parece impossível: com Kostya, somos convocados ao redespertar da anarco-criança interior que é capaz de saltar por barreiras ditas incontornáveis, pulando por cima de fronteiras excessivas pela repressão edificadas.

Kropotkin, creio eu, aplaudiria.

Por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro

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GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.

“A história é escrita pelos vencedores”, escreve Orwell em 1944. “Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (p. 77)

É só lembrar que, em 1984, o Partido Único que governa a distópica sociedade que têm à sua testa o Grande Irmão também pratica a mentira em escala massificada: o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, onde passa seus dias adulterando notícias de jornal e registros históricos de acordo com as ordens da elite, adaptando o passado conforme os interesses da ocasião.

Propondo-se a não mentir sobre nada do que acredita, ponto em ação sua notável capacidade de parrhesía, Orwell tem como um de seus principais temas o pensamento e a prática utópicos. No artigo Socialistas podem ser felizes? (p. 63 a 72), Orwell tece certas reflexões importantes sobre a utopia (“a propósito, a palavra não significa ‘um lugar bom’, mas ‘um lugar inexistente'”) e estabelece sua própria perspectiva socialista democrática em bases sólidas, nada quiméricas, bastante pé-no-chão, sugerindo que as lutas contra as distopias reais são o primeiro passo de qualquer mobilização sócio-política rumo a uma sociedade mais fraternal:

“Sugiro que o verdadeiro objetivo do socialismo não é a felicidade. O verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana. Homens passam suas vidas em dolorosas lutas políticas, ou são mortos em guerras civis, ou torturados em prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer algum paraíso com aquecimento central, ar condicionado e iluminação fluorescente, mas porque eles querem um mundo no qual homens amem uns aos outros em vez de trapacearem e se assassinarem reciprocamente. E eles querem esse mundo como um primeiro passo. (…) Neste Natal, milhares de homens estarão sangrando até morrer nas neves da Rússia, ou se afogando em águas geladas, ou fazendo uns aos outros em pedaços com granadas nas ilhas pantanosas do Pacífico; crianças sem-teto estarão vasculhando as ruínas de cidades alemãs em busca de comida. Fazer com que esse tipo de coisas seja impossível é um bom objetivo.” (ORWELL, 2017, p. 70-71)

Estas palavras mostram bem que George Orwell não era um utopista, ou seja, alguém que tivesse proposto um modelo ou arquétipo de sociedade idealizada, mas muito mais um crítico mordaz dos pesadelos reais de que foi contemporâneo em seu tempo histórico. A distopia é o seu terreno, muito mais que a utopia, e certamente ele não fabricou com uma imaginação sem freios os sistemas políticos opressivos e totalitários de 1984 Revolução dos Bichos, mas partiu de realidades que pôde conhecer e nas quais se engajou. Sabe-se bem que Orwell não foi autor de exilar-se das turbulências do mundo em um torre de marfim. Por exemplo: ele fez parte das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) que insurgiu-se contra a tirania de Franco na Espanha, tendo lutado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), tendo sido baleado no pescoço (sobre o tema, escreveu Homenagem à Catalunha).

Com sua inteligência vigilante e seu senso crítico sempre ativo e operante, Orwell, vivendo na primeira metade do século XX, testemunhou a ascensão de lideranças nazi-fascistas como Franco (Espanha), Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha), mas também viu a Revolução Russa de 1917 trair as suas promessas ao transformar-se no pesadelo stalinista, denunciado na literatura por romances como O Zero e o Infinito (Darkness At Noon), de Arthur Koestler, autor que Orwell comenta longamente em um magistral ensaio de 1946, incluído em O Que É o Fascismo? (pgs. 102 a 116).

Somado ao monumental estudo de Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo, a obra de Orwell condensaria a tese de que teriam existido dois totalitarismos neste século que Hobsbawn apelidou A Era dos Extremos: um totalitarismo de direita e outro de esquerda. Seria indigno que nos indignássemos, por exemplo, apenas contra o pesadelo do III Reich e todos os seus holocaustos e atrocidades bélicas, caso silenciássemos sobre os gulags e os expurgos do regime de Stálin; seria indigno criticarmos somente o autoritarismo e a arbitrariedade cruel dos regimes de um Mussolini ou de um Pinochet, mas sem criticar o autoritarismo soviético que esmagou a Primavera de Praga em 1968..

A atitude de Orwell é de crítica ampla e ilimitada a todas as faces da tirania, mas nota-se que ele não menospreza seus adversários: boa parte dos ensaios é dedicado a um debate com poetas reacionários e conservadores, alguns francamente fascistas, como é o caso de Ezra Pound (que aliou-se ao regime de Mussolini). Orwell analisa de modo crítico a obra de um T.S. Eliot e um Yeats, sem cair na falácia de repudiar totalmente suas obras literárias por discordar de suas posições políticas. Chega a admitir que aprecia Louis-Ferdinand Céline como escritor, apesar de seu vociferante e inaceitável anti-semitismo.

Orwell também fala sobre o Mein Kampf de Hitler, destacando que “o que impressiona é a rigidez de sua mente, o modo como sua visão de mundo não evolui”, mas admitindo que “Hitler não teria tido sucesso contra seus muitos rivais não fosse a atração de sua própria personalidade”. Em frases capazes de chocar alguns, escreve: “nunca fui capaz de não gostar de Hitler. Desde que ele chegou ao poder, acho que decerto o mataria se pudesse ter acesso a ele, mas sem sentir nenhuma animosidade pessoal. O fato é que há nele algo que é profundamente atraente…” (p. 29)

Pode parecer estranhíssimo que Orwell confesse que havia em Hitler algo de “profundamente atraente”, mas de fato é um enigma importante de se decifrar: o que constitui o fascínio do fascismo? Como é possível que tanta gente se filie a movimentos fascistas, que tantos soldados tenham sido obedientes às ordens de seus líderes fascistas e que tenham marchado para campos de batalhas onde massacrariam e seriam massacrados?  Que atração é esta que Hitler, Mussolini, Franco ou Pinochet – alguns dos mais célebres estadistas fascistas – puderam exercer sobre seus acólitos? Para Orwell, Hitler sabia fazer uma pose heróica, como se a história fosse uma epopéia, era cheio de posturas “napoleônicas”:

“Se estivesse matando um camundongo ele saberia fazer com que parecesse estar matando um dragão. Sente-se, como no caso de Napoleão, que ele está lutando contra o destino, que ele não tem como vencer, mas que de certa forma ele o merece. A atração de uma pose assim é, obviamente, enorme; metade dos filmes a que assistimos trata desse mesmo tema… Hitler também  captou a falsidade da postura hedonista diante da vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra, com certeza todo o pensamento ‘progressista’, assumiu tacitamente que os seres humanos não desejam nada além de ter facilidade, segurança e evitar o sofrimento. Em tal visão da vida não há espaço, por exemplo, para o patriotismo e para as virtudes militares. O socialista que surpreende seu filho a brincar com soldadinhos costuma ficar aborrecido, mas nunca é capaz de pensar em um substituto para soldados de chumbo; pacifistas de chumbo, de certa forma, não iam funcionar.

Hitler, por sentir isso com força excepcional em sua própria e triste mente, sabe que seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, no geral, bom senso; eles também, ao menos intermitentemente, querem luta e autossacrifício, e isso sem falar em tambores, bandeiras e desfiles demonstrativos de lealdade. O que quer que possam ser como teorias econômicas, o fascismo e o nazismo são, em termos psicológicos, muito mais sensatos do que qualquer concepção hedonista da vida.” (New English Weekly, 1940, p. 30)

Este é um dos trechos mais questionáveis de todos os que já li de Orwell e sinto necessidade de debatêlo, e até contestá-lo: quando ele busca demolir a “concepção hedonista da vida”, parece compreender por esta expressão algo que pouco tem a ver com a ética epicurista (como se expressa também na obra de Lucrécio ou Horácio) ou com as propostas do materialismo iluminista (Helvétius, por exemplo). Ao falar contra o hedonismo, Orwell parece estar dizendo que o ser humano, longe de ser uma máquina simplória de perseguir o prazer pessoal e imediato, tem uma psiquê mais complexa e que pode admitir o martírio e o autossacrifício, caso acredite que através disso aumentará seu valor pessoal, seja no mercado intersubjetivo dos afetos humanos terrenos, seja no mercado transcendental em que alguns crêem e que pode incluir a noção de que compramos o tíquete de entrada no Paraíso através de certas afrontas que fazemos ao nosso próprio egoísmo.

Para Orwell, os líderes fascistas sabiam muito bem que as pessoas não desejam apenas conforto, segurança e entretenimento – em suma, sofás luxuosos onde deitarem-se para assistir TV enquanto comem salgadinhos com Coca-Cola. As pessoas têm necessidade íntima de sentido e não só prazer, e por isso fascinam-se por projetos que proponham aventura coletiva, heroísmo nacional, filiação e lealdade a projetos que transcendem a individualidade e a vida privada – e esta predisposição psíquica as conduziria a abraçar lideranças fascistas como Hitler. A tese orwelliana, bastante debatível, parece-me um pouco simplista, em especial quando a comparamos com aquilo que foi realizado pela psicologia de massas através de autores como Erich Fromm (O Medo à Liberdade),  Stanley Milgram (Obediência à Autoridade), Wilhelm Reich (Psicologia de Massas do Fascismo). Todas as reflexões de Hannah Arendt sobre o conceito de banalidade do mal parecem-me também de suma relevância.

fascínio do fascismo, segundo estes autores, tem a ver também com uma espécie de auto-demissão da autonomia, praticada por um sujeito que deleita-se em abandonar-se ao comando de algo mais forte que ele, gozando com a hedonê perigosa que é o alívio do senso de responsabilidade. Esta prazeirosa leveza da des-responsabilização, o hedonismo fácil que consiste em seguir o rebanho e ir com o fluxo, Orwell parece não ter considerado em suas incursões rápidas no território da psicologia social. Não se trata, para as massas arrebanhadas pelo fascismo, de anti-hedonismo, mas sim de um irracionalismo grávido de atrocidades onde os sujeitos sentem prazer no aniquilamento da própria autonomia e responsabilidade, mas o fazem, sim, em busca de um prazer pessoal por vezes bastante mesquinho e atroz, já que baseado em larga medida no prazer perverso ou sádico do ódio à alteridade  que o fascismo possibilita que se expresse, dando-lhe o estatuto de legalidade e garantindo-lhe os louvores e as salvas-de-palmas do regime.

Estes temas ganharam uma nova ocasião para reflexão em 1940 quando chegou aos cinemas O Grande Ditador (The Great Dictator), de Charlie Chaplin, obra que é objeto de um dos mais interessantes ensaios de Orwell em O Que É Fascismo?. No filme, Chaplin interpreta dois personagens: Hynkel, o ditador da Tomânia, inspirado em Hitler; e um barbeiro judeu que se torna soldado durante a 1ª Guerra Mundial, sobrevive à queda de seu avião e é trancafiado num hospício por 20 anos. Ao sair do hospício, retornando à sua barbearia, este personagem não sabe dos horrores que estão sendo praticados por Hynkel em seu frenesi antisemita e imperialista.

Após uma série de peripécias, repletas de humor pastelão entremeado com as ocorrências do lodaçal bélico em que a Europa chafurdou, a semelhança física entre Hynkel e o pobre barbeiro oferece ocasião para uma das cenas mais célebres da história do cinema e “o grande momento do filme”:

“A invasão de Osterlich (a Áustria) está prestes a acontecer, e Charlie, que foi preso por resistir às tropas de choque, foge do campo de concentração num uniforme roubado bem no momento em que Hynkel está para cruzar a fronteira. Ele é confundido com o ditador e levado à capital do país conquistado em meio à multidões que o aclamam. O pequeno barbeiro judeu vê-se guindado a um enorme palanque, com cerradas fileiras de dignitários nazistas atrás dele e milhares de soldados abaixo, todos esperando para ouvir seu discurso triunfal. Em vez de proferir a solene fala que dele se espera, Charlie faz um poderoso e combativo discurso em prol da democracia, da tolerância e da decência. É realmente um tremendo pronunciamento, uma espécie de versão do discurso de Gettysburg de Lincoln num inglês de Hollywood, uma das mais fortes peças de propaganda que ouvi em muito tempo.

(…) Qual é o dom peculiar de Chaplin? É seu poder de representar uma espécie de essência concentrada do homem comum, a inerradicável crença na decência que existe no coração de pessoas normais, pelo menos no Ocidente. (…) Mais do que qualquer truque humorístico, assim creio, o poder de atração de Chaplin reside em sua capacidade de reiterar o fato, encoberto pelo fascismo e, muito ironicamente, pelo socialismo, de que vox populi é vox Dei, e que gigantes são uma praga. Não é de admirar que Hitler, a partir do momento em que chegou ao poder, tenha banido os filmes de Chaplin da Alemanha!” (p. 39)

CHARLIE CHAPLIN, O Grande Ditador

Discordo do tom um pouco populista que Orwell utiliza-se para falar que o “homem comum”, as “pessoas normais”, teriam uma “inerradicável crença na decência”: não se trata, aí, de idealização excessiva das classes populares, quando sabemos que existem cúmplices do fascismo em todas as classes e que muitos daqueles que eram funcionários em campos-de-concentração e apertavam botões para soltar o gás letal Zyklon B não eram de classes economicamente privilegiadas?

Ademais, Orwell tem certos arroubos anti-marxistas que parecem inacreditáveis de tão toscos, como quando ele diz que “uma educação no marxismo e em credos similares consiste grandemente em destruir o senso moral” (p. 39), algo que poderia ter sido escrito por algum reacionário direitista apoiador de C.C.C.s (Comando de Caça aos Comunistas). Este “socialista democrático” parecia descrente de qualquer possibilidade de construir uma sociedade onde a felicidade pudesse ser permanente – e boa parte dos artigos reunidos em O Que É Fascismo revelam a crítica orwelliana dos pensamentos e práticas dos utopistas:

“Todos os esforços para descrever uma felicidade permanente têm fracassado, desde a história mais primeva”, sugere Orwell, relembrando alguns intentos utópicos nas obras de H. G. Wells nos anos 1920 como The Dream e Men Like Gods. “Ali se tem uma imagem do mundo como Wells gostaria de vê-lo. É um mundo cujas tônicas são um hedonismo esclarecido e a curiosidade científica.Todos os demônios e todas as misérias que agora nos afligem desapareceram. Ignorância, guerra, pobreza, sujeira, doença, frustração, fome, medo, sobrecarga de trabalho, superstição – tudo desapareceu. Expresso dessa maneira, é impossível negar que é o tipo de mundo que todos nós queremos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas será que existe alguém que realmente quer viver numa utopia wellsiana?

Ao contrário, não viver num mundo como esse, não acordar um dia num higiênico subúrbio-jardim infestado de rigorosas professorinhas nuas tem se tornado de fato uma consciente motivação política. Um livro como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma expressão do verdadeiro medo que o homem moderno sente da sociedade hedonista racionalizada que ele tem o poder de criar. Um escritor católico disse recentemente que, em termos técnicos, utopias são agora factíveis e que, por consequência, como evitar uma utopia tornou-se uma questão séria. Com o movimento fascista bem à nossa vista, não podemos descartar isso como se fosse uma mera e tola observação. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar que se crie um mundo racional demais e confortável demais…” (ORWELL, 2017, p. 65).

A tentativa de construir uma sociedade perfeita pode acabar atingindo justamente o inverso: a instauração de uma distopia totalitária. Orwell insiste neste tema, comentando livros como o Nós de Zamyatin (pg. 141 a 146) e o Brave New World de Huxley, dizendo que a felicidade permanente de todos não é um objetivo factível, não é algo que possa ser de fato concretizado, é somente uma quimera inútil da qual ele pretende desenganar-nos:

“Quase todos os criadores de utopia se parecem com o homem que está com dor de dente e, por isso, pensa que a felicidade consiste em não ter dor de dente. Eles querem produzir uma sociedade perfeita mediante uma interminável continuação de algo que só foi valioso porque era temporário. Mais sábio seria dizer que há certas linhas ao longo das quais a humanidade tem de se movimentar, que a grande estratégia está mapeada, mas que profecia em detalhes não faz parte de nosso negócio. Quem quer que tente imaginar perfeição simplesmente revela seu próprio vazio.” (p. 72)

Orwell, portanto, está bem distante daquele dreamer evocado por Lennon em “Imagine”. O autor de 1984, vivendo em uma época histórica conturbada por conflagrações bélicas gigantescas, só podia mesmo enxergar com sarcasmo a proposta de que o ser humano chegaria um dia a constituir uma utopia sobre a face da Terra. Sua denúncia das realidades distópicas, porém, segue fornecendo alimento para nossa lucidez e permitindo-nos pensar em lutas necessárias e urgentes por um mundo menos pior. 

A perfeição, de fato, é inacessível, sonhá-la só nos trará desilusão. Trata-se de fazer com que tornem-se impossíveis os horrores e atrocidades que existem de fato nesta realidade em que convivemos e que muitas vezes nos faz pensar em James Joyce e sua frase lapidar: “a História é um pesadelo do qual estou tentando acordar”. Ao evocar um socialismo que é devotado à fraternidade humana, Orwell não fecha a porta à possibilidade de que esta fraternidade também possa manifestar-se como solidariedade no infortúnio, união na miséria, congregação coletiva que imperfeitamente improvisa o improvement de um mundo que, se nunca será perfeito, será sempre aperfeiçoável. Façamos juntos com que torne-se impossível aquilo que hoje é o mais horrível. E que esse seja nosso primeiro passo rumo a outro mundo possível.

Distopia que denuncia o totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

“Durante parte de 1941-1942, quando a Luftwaffe estava ocupada com a Rússia, a rádio alemã brindou sua audiência com histórias de devastadores ataques aéreos a Londres. Hoje, estamos cientes de que esses ataques nunca aconteceram. Mas que uso teria esse nosso conhecimento se os alemães houvessem conquistado a Grã-Bretanha? Para os fins de um futuro historiador, esses bombardeios aconteceram ou não? A resposta é: se Hitler sobreviver, eles aconteceram; se ele cair, eles não aconteceram.

O mesmo ocorre com inúmeros outros eventos dos 10 ou 20 anos passados. Serão os Protocolos dos Sábios de Sião um documento autêntico? Será que Trótski tramou com os nazistas? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa dará as boas vindas à nova ordem? Em nenhum desses casos você obterá uma resposta que seja aceita universalmente por ser verdadeira: em cada caso você terá um número de respostas totalmente incompatíveis, uma das quias é por fim adotada como resultado de algum embate físico. A história é escrita pelos vencedores.

Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (ORWELL, 2017, p. 77)

“O Que é Fascismo? E Outros Ensaios”
(Companhia das Letras, 2017, 160 pgs)
Compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

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SOBRE CRÂNIOS ESMAGADOS E A BANALIDADE DOS MALES: O que será do sangue derramado pela PM durante a Greve Geral em Goiânia?

SOBRE CRÂNIOS ESMAGADOS E A BANALIDADE DOS MALES

O sangue derramado sobre o asfalto pode até ter sido lavado, junto com o resto dos refugos da Greve Geral, mas ele não será esquecido tão cedo.

Ao escarlate do sangue misturavam-se as lágrimas indignadas que eu via correrem de muitas faces enquanto Mateus era atendido pelo Corpo de Bombeiros, estirado na Avenida Goiás, enquanto a galera gritava a plenos pulmões para a PM: “Polícia, fascista, você que é terrorista!”.

Passei as últimas horas obcecado com o pensamento de que aquele crânio esmagado poderia ter sido o meu. Ou o de algum amigo querido. Ou o de alguma companheira de midiativismo. A brutal agressão policial, furiosa irrupção de um autoritarismo brucutu, explicitação da completa incapacidade de reflexão e auto-controle por parte do criminoso fardado, poderia ter atingido qualquer um de nós.

Este texto poderia nunca ter sido escrito pois seu autor poderia estar agora numa UTI, com o crânio esmagado, pelo fato de estar nas ruas com uma câmera… O sangue entre as sobrancelhas da Júlia Aguiar, agredida por um policial enquanto tirava fotografias, não me deixa mentir.

Fotos: Júlia Aguiar, Ninja

Ao meio-dia deste 28 de Abril, enquanto o helicóptero da polícia sobrevoava baixo sobre nossas cabeças, ostentando o barulho de suas hélices e a metralhadora de seus soldados, eu filmava aquilo com as mãos tremendo: Mateus, desmaiado, a cabeça ensanguentada, carregado pelos companheiros desde a Anhanguera, através da Avenida Goiás, enquanto a Tropa de Choque e a Cavalaria já realizavam suas manobras para “dispersar” a multidão, usando aqueles métodos aprendidos com aquela Ditadura que alguns conjugam no passado, como se fosse matéria de livros de História, mas que ainda estamos longe de ter superado. A PM não só esmagou o crânio de um estudante de Ciências Sociais/Políticas Públicas; deixou-o ali para sangrar em praça pública.

Tudo isso aconteceu sob o olhar impiedoso da estátua do Anhanguera, genocida de pedra que decora o epicentro de Goiânia como um lembrete das autoridades ao povo: aqui tratamos como heróis e batizamos com nomes de avenidas aqueles que, no passado, marcaram época pelo sangue que derramaram em seus propósitos colonizadores. Se aquela estátua pudesse aplaudir, os PMs teriam tido as únicas palmas do dia. Agora, na cibercultura de nosso mundo cada vez mais insanizado e mais próximo de Black Mirror, fãs de Bolsonaro e fascistas de Facebook fornecem os aplausos ao horror…

Quem tenta justificar uma agressão homicida, que deixou o estudante da UFG com traumatismo craniano e respirando por aparelhos, já pôs-de do lado dos carrascos, já filiou-se como cúmplice do fascismo, já é funcionário inconsciente da banalidade do mal. “Se ele tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido”; “Ele provavelmente quebrou umas vidraças de banco, caso contrário não teria apanhado da polícia”; “Ele teve sua cabeça destroçada por um cassetete da PM, é verdade; mas quem mandou cobrir o rosto com uma máscara?” Nem é preciso ter estudado a “Psicologia de Massas do Fascismo” de Wilhelm Reich pra perceber nestes argumentos a manifestação do fascismo cotidianizado, que enxerga vidraças como mais sagradas do que vidas humanas, que aplaude a crueldade fardada como se esta fosse panacéia pra pôr ordem em nosso caos…

Pra completar a completa idiotia de tais argumentos, inúmeros vídeos, publicados pelo Desneuralizador e por outros manifestantes, já mostraram Mateus sendo agredido brutalmente por um policial enquanto andava “de boa”, sem mostras de agressividade ou resistência. Não há nenhuma evidência de que a vítima tenha praticado qualquer ato de vandalismo – e mesmo que tivesse, nenhuma vidraça destruída, saco de lixo queimado ou bandeira da CUT incinerada justifica que um agente do Estado pratique uma brutalidade com esta que presenciamos em Goiânia.

O sangue que eles derramaram neste dia de Greve Geral é combustível para uma indignação infinita contra certas ações de agentes fardados do Estado que, por seus comportamentos, não merecem mais do que serem caracterizados como “porcos fardados”.

O crânio esmagado brutalmente pelo policial militar é um horror que nos revela, mais uma vez, a face fascista dos cães-de-guarda desse status quo grotesco, que busca institucionalizar a espoliação e o apartheid em vasta escala na esteira do golpe parlamentar-jurídico-midiático que avassala o país.

O sangue do Mateus sobre o asfalto não é o sangue de uma pessoa, é o sangue de todos nós, agredidos por desejarmos ter voz e vez em um momento histórico onde nós, os 99%, somos tratados como sujeira a varrer pra baixo do tapete, junto com os farrapos de nossos títulos eleitorais.

Este sangue derramado será lembrado, assim como Guilherme Irish continua “presente” nas ruas mesmo depois de ter sido despachado do mundo pelos tiros disparados por seu pai. Na fornalha das tragédias estão sendo esculpidos nossos mártires – e tristes os tempos que necessitam destes!


Fotos: Annie Marques

AFASTA DE MIM ESSE CALE-SE [Doc, curta-metragem]

Esta agressão policial deixou cicatrizes nas memórias de todos nós que estávamos nas ruas, convictos de estar lutando e resistindo por uma causa justa – ainda que esta seja, infelizmente, mais a de barrar a avalanche de retrocessos do que a de avançar na construção de uma sociedade mais justa.

Aceito a provocação de Marx – os filósofos têm se ocupado demais em interpretar o mundo, quando o que interessa é transformá-lo. Mas isto não significa que a filosofia seja dispensável e que o ativismo deva ser irrefletido, impulsivo. Um longo contato com a obra de Arendt, mas também as descobertas mais recentes dos pensamentos de um Stanley Milgram ou de uma Mary Wollstonecraft, trouxeram-me à convicção cada vez mais forte de que a “banalidade do mal” é fruto da irreflexão; o sono da razão gera monstros; é alto o preço que pagamos por não exercitar o entendimento e não ativar nossas capacidades de empatia e diálogo.

A obediência cega, a subserviência de ovelha, a incapacidade de pensamento crítico e autonomia, são as incubadoras do fascismo que banaliza os males e coopta um exército de Eichmanns e PMs para realizar seu serviço sujo, depois congratulados pelos poderes que lucram com a repressão e a imposição da “cultura do silêncio.” (Paulo Freire)

Sei que não podemos tomar a parte pelo todo e dizer que por detrás das fardas dos policiais militares não estão seres humanos, mas porcos ou hienas. Este tipo de argumento totalizante, demonizatório, só perpetuará o ciclo de violência. O problema não está nos indivíduos sozinhos, mas na corporação que integram, no tipo de (de)formação que tiveram, nos comportamentos e ideologias que foram inculcados, que os leva a serem obedientes às ordens do patrão, do superior na hierarquia de comando, mesmo quando estas ordens rompam com os padrões éticos mais básicos da convivência humana – “não esmagarás o crânio de seu concidadão com um cassetete”.

Pode-se até dizer que, neste caso, o indivíduo fardado em questão não estava exatamente seguindo ordens de seu superior, mas sim dando vazão à brutalidade; mas por que permitimos a perpetuação de uma profissão que inclui a prática da crueldade, do racismo, da perseguição política, e que oferece excusas para o sadismo através de um uniforme que se veste e uma posição de poder que uma profissão supostamente outorga?

Se o indivíduo jamais pode ser desculpado como simples agente cego da corporação – esse cara tem que ser processado e demitido, pois cometeu algo próximo à tentativa de homicídio, no melhor dos casos; e homicídio mesmo, no pior… (torçamos pra que Mateus tenha força!) -, também não podemos desculpar toda a estrutura hierárquica e os vícios estruturais que fazem da Polícia Militar uma excrescência da Ditadura e uma das realidades mais revoltantes de um país que não tem escassez nenhuma de motivos de indignação (“tem tanta coisa errada que não cabe num cartaz”). Que participação social é possível sob a sombra dos Caveirões e dos crânios esmagados pela repressão?

Não há democracia real ou participativa possível com este tipo de polícia cometendo tais barbáries cotidianas contra os cidadãos e fazendo pender sobre nossas cabeças as espadas de Dâmocles da ameaça constante de que seremos vítimas da violência estatal. Odiei tossir gás lacrimogêneo e tomar gás de pimenta na cara lá em Brasília durante as duas batalhas da PEC 55 (registradas nos docs “A Babilônia Vai Cair” [https://youtu.be/CR6yMOzkzEU] e “Ponte Para o Abismo” [https://youtu.be/Yrv1VObgktk]).

Odiei também o sangue ontem derramado pela PM de Goiás durante o ato da Greve Geral, e não há filosofia capaz de transformar este ódio indignado em serenidade – donde este texto, uma erupção ou brainstorming de alguém que acharia muito pior, diante do acontecido, manter o silêncio que daria a vitória aos nossos inimigos. Pois eles nos querem quietos. Passivos. Obedientes aos desmandos e resignados a todos os golpes. Aos esmagadores de crânio e aos funcionários da banalidade do mal, é preciso seguir erguendo a voz, nas ruas e nas ruas, com um sonoro, polifônico “não!” “Não passarão!”

Sobre o episódio da lamentável brutalidade do policial contra o manifestante, a Faculdade de Ciências Sociais da UFG publicou a seguinte nota de solidariedade:

“A Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás reafirma o seu compromisso com a ordem jurídica vigente neste país e repudia a violência criminosamente perpetrada pela Polícia Militar do Estado de Goiás que, em desrespeito à lei e à sensatez, cometeu um bárbaro ato de agressão contra o estudante Mateus Ferreira da Silva, aluno do curso de graduação em Ciências Sociais – Habilitação: Políticas Públicas desta unidade acadêmica.

Mateus Ferreira da Silva é um exemplar estudante que, no dia 28 de abril de 2017, somou-se pacificamente à manifestação realizada no contexto da greve geral deflagrada contra as reformas previdenciária e trabalhista propostas pelo Governo Federal. Exercia, na ocasião, o seu direito fundamental de manifestação e de reunião, garantido no artigo 5o, incisos IV e XVI, da Constituição da República.

Como se infere de material audiovisual amplamente divulgado nos veículos de comunicação, Mateus sofreu uma agressão unilateral, criminosa e irracional por parte de um profissional que, investido em suas funções segundo o regime artigo 144, parágrafo 5o, da Constituição da República para manter a ordem, promoveu a ilicitude e a barbárie na manhã do dia 28 de abril, incorrendo arbitrária e imotivadamente contra os direitos fundamentais e a integridade físico-corporal de um cidadão.

Esta unidade acadêmica solidariza-se com os familiares e amigos de Mateus, esperando uma breve e plena recuperação de sua saúde.

Adicionalmente, diante deste repudiável episódio – cuja natureza de arbítrio e de desrespeito por agentes públicos às garantias fundamentais de cidadania soma-se à longa relação de casos similares no Estado de Goiás – exige-se a mais célere, contundente e efetiva apuração do crime que vitimou o nosso estudante, punindo-se o policial militar que o perpetrou e responsabilizando-se o Poder Público por esse bárbaro ato de desrespeito ao direito e aos mais basilares princípios civilizatórios.” – Goiânia, 29 de abril de 2017.

 

Eduardo Carli de Moraes [29/04/2017]
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POR UMA ÉTICA DA DESPOSSESSÃO DE SI – Sobre Judith Butler e seu “Relatar a Si Mesmo – Crítica da Violência Ética” (Editora Autêntica, 2015, 200 pgs)

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POR UMA ÉTICA DA DESPOSSESSÃO DE SI

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Não é à toa que “identidade” e “idêntico” são palavras tão semelhantes. O sujeito dotado de identidade é aquele que, supostamente, permanece idêntico a si mesmo. Flui através do tempo conservando intacta sua identidade, como uma espécie de diamante que a ferrugem nunca corrói. Assim como os anjos da mitologia não envelhecem com o devir, nem nunca se ouviu falar de querubins com mal de Alzheimer, as identidades seriam entes angelicais, intocáveis pelo poderio tão vasto e profundo do Tempo-Rio, velha criança que corre sem cessar no frescor de sua juventude infatigável.

Os documentos de identidade que nos servem como números identificatórios no seio da comunidade civil também pretendem ser imutáveis: não conheço quem tenha mudado de RG ou CPF, ainda que já esteja na décima solicitação de uma segunda via… Tanto a linguagem consolidada, quanto as instituições políticas, parecem exigir de cada pessoa que seja um eu dotado de identidade fixa, sólida, como se algo em mim, algo em ti, sobrevivesse do berço ao túmulo. Como se algo de indestrutível unisse o bebê ao ancião – a mesma identidade diamantina que os ventos do tempo jamais são capazes de abalar.

Há nessa crença no si que não muda algo de falacioso, de ilusório, algo que os filósofos materialistas, pela História afora, não cessam de denunciar nos seus adversários, os idealistas. A filosofia materialista, com a epistemologia e a ética que lhe são consubstanciais, anunciam um outro tipo de si, jamais idêntico a si mesmo, jamais mônada isolada de outros sis, mas sim um si inerentemente em fluxo, necessariamente envolvido numa teia relacional. Um si inseparável do social e que só pode ser compreendido em suas interações com outros sis, jamais como individualidade estanque e separável, jamais como entidade idêntica-a-si-mesma. O materialismo convida a pensar no eu-identidade como uma quimera invivível, como o sonho alucinante de uma identidade perpetuamente perdurável.

A ética, inseparável do que Foucault chamará de um cuidado de si, um cultivo de si mesmo, pode até soar como empreendimento um tanto individualista, compreendida como os trabalhos que um alguém realiza sobre si mesmo, tendo em vista e como meta o próprio aperfeiçoamento. Mas é evidente que este trabalho sobre si da ética é impossível para o eu isolado e desconectado – o espaço da ética é sempre o de entre-outros. Mas já que ninguém escolhe nascer, e cada um pinta no mundo em circunstâncias que independem de sua vontade, sendo lançado a uma situação que formou-se a partir de uma imensa cadeia de causas precedentes, este surgimento-de-si jamais é um fenômeno plenamente compreensível. Os atos mais básicos do viver, sua gênesis e seu aniquilamento, o nascer e o morrer, são imensas portas abertas para um mistério sem fim. Ninguém compreendeu jamais a contento porque nascemos e morremos, nem tudo o que aconteceu antes de acontecermos e ainda acontecerá depois de termos acontecido.

A filosofia, em sua criticidade da faculdade de conhecer, chegou sim à noção do incognoscível, do impossível de conhecer, como a coisa-em-si de Kant. Segundo o autor da Crítica da Razão Pura, era absurda qualquer pretensão de saber a verdade absoluta sobre Deus, a alma imortal ou a liberdade da vontade. Estas são coisas de que não temos experiência empírica e que são objeto mais da fé do que da razão.

O que estou buscando comunicar aqui é a noção de que também o auto-conhecimento envolve uma dimensão de inconhecível, isto é, jamais alguém conhece-se plenamente e perfeitamente. Está redondamente enganado qualquer um que diga, com presunção hiperbólica sobre seus próprios poderes de auto-compreensão: “eu conheço-me perfeitamente bem!” Mesmo que fosse possível que alguém algum dia chegasse a exercer tão bem a arte do conhece-te a ti mesmo, aquela que o velho Sócrates já vinculava tão intimamente à prática da sabedoria (sophia), este sujeito escorregaria na banana da ambição desmedida e cairia de bunda no chão das ilusões nocivas se dissesse: “hoje, atingi o perfeito auto-conhecimento! Mesmo que eu viva mais 40 anos, e mesmo que jamais volte a praticar a auto-inspecção lúcida, não hei de perder jamais este conhecimento-de-mim que hoje possuo!”

Partir da pressuposição, plausível, de que não há identidades fixas e imutáveis, nem auto-conhecimento que possa chegar a um ponto-final, não significa abandonar-se a um ceticismo infértil de quem dissesse: já que não é possível tudo saber, contento-me em não saber nada. Há muito a ser sabido, ainda que nunca cheguemos ao saber-tudo. Saber-tudo com plenitude completa é uma quimera de filósofos que, ao idolatrar tão perigoso ídolo, às vezes fazem como Tales de Mileto, de quem caçoava a trabalhadora ao vê-lo despencar de fuça no poço pois, ao invés de mirar o chão debaixo do nariz, admirava sem fim as estrelas… Ponhamos nossos pés no chão e lidemos com o fato de que cada um de nós nasceu sem ter pedido, sem ter sido consultado sobre as circunstâncias específicas em que veio-a-ser: somos lançados a um turbilhão que não é de nossa escolha, e todas as nossas escolhas serão determinadas por este evento colossal do nosso surgimento e que nenhum cérebro humano é capaz de compreender em sua inteireza.

Afinal, “nascer é muito comprido”, como dirá o poeta Murilo Mendes, sugerindo que a na vida estamos sempre nascendo e que nunca já estamos nascidos e pronto. Nascemos para a velhice e nascemos para a agonia, assim como nascemos antes para a juventude e para a luz do dia após meses de caverna uterina. Nascer, pois, nunca é missão cumprida. E convêm continuar nascendo até mesmo na hora de findar, pois o fim é só um outro começo na grande sinfonia cósmica. Lucrécio, no poema mais belo já escrito por um pensador materialista, terá muito a dizer sobre a sobrevida dos átomos, eles sim imortais e indestrutíveis, quando a vida abandona um dos entes atômicos, agregados materiais, destes que nós  provisoriamente somos. Os átomos entretecidos para constituir tudo que é vivo não são passíveis de destruição: a eternidade em dança da matéria contrasta com a efemeridade destes agregados de partículas imortais que por enquanto estamos sendo, e que no passado outros estiveram sendo, até que não foram mais, e que futuramente muitos serão, até que não mais sejam.

No seio desta impermanência onde estamos sendo, ética é o nome para o trabalho de um certo impulso criativo que pulsa em nós, mais ou menos conscientes que somos de que o eu não é uma sina, um fardo, algo imposto a nós de fora de uma vez por todas, mas também algo do quê podemos ser os co-criadores. Jamais sós, porém, mas sempre no espaço do entre-outros, do among others, pois uma ética cega à alteridade é muito pior que uma toupeira.

Aqueles que enxergam apenas a negatividade da ética – ou seja, acham que este troço escroto de ética e moral só servem mesmo para cagar-regra e ficar condenando comportamentos… – perdem de vista a perspectiva de que a ética possa ser a própria vida no exercício de uma criatividade que se dá em conjunto, no concerto e desconcerto dos contatos com outros.

Uma das grandes questões que surge é, então, quais os limites desta criatividade? Por que tantas pessoas aceitam ser tão pouco, criar tão pouco, ousar tão pouco? Por que tanta gente enxerga o si como uma jaula, e não como um ateliê de pintura, de escultura, de criação e recriação? Por que tantas pessoas resignam-se a fixar-se numa postura de estátuas, quando a vida nos quer bailarinas de gelo, a dançar até o derretimento, dissolvendo-se pelo palco da galáxia?

A leitura das obras de Judith Butler e Michel Foucault, acredito, podem contribuir para que pensemos em uma ética da despossessão de si, o que de modo algum quer dizer alguma espécie de displicência consigo, mas sim uma ética que funda-se na incapacidade em que estamos todos, eu e ti, quem quer que sejamos, de realmente sermos os possuidores de um eu da mesma maneira que alguém possui um colar de diamantes. É afirmar o óbvio ululante dizer que o eu não tem nada a ver com um colar de diamantes, e muito mais certeiro na metáfora foi o velho Heráclito quando em sua inesquecível parábola ensinou: “não se entra duas vezes no mesmo rio”. No rio do tempo, você não é mais o mesmo que um segundo atrás; e daqui dez anos, será que o teu eu será idêntico a este que agora aqui está?

Falar em rio do tempo, porém, não deve nos fazer cair num naturalismo que exclui a história do quadro: o ser humano é fluxo, sim, e o rio que nos arrasta em suas águas precisa ser compreendido sim como natureza necessária e inescapável. Porém fluímos também pelo rio da História, é em determinado espaço-tempo que calhamos de “pintar”, e isto também determina de modo radical o nosso leque de possibilidades existenciais.

Os heróis homéricos não tinham a chance de praticarem proezas bélicas enquanto aviadores ou pilotos de helicópteros, nem as legiões de César tinham à sua disposição metralhadoras e granadas, de modo que as limitações tecnológicas destas épocas determina também a natureza de suas épicas e de suas éticas. A figura do herói muda consideravelmente no tempo que vai, digamos, de Ulisses a Luke Skywalker. Portanto a ética nunca é a-histórica, os valores nunca são eternos e fora-do-tempo, sempre nasce-se em uma situação que tratará de impor certos limites e normas vigentes ali e então (ainda que possam ser transcendidos e subvertidos).

Em um texto chamado “O que é crítica? Um ensaio sobre a virtude em Foucault”, Judith Butler (2015, p. 29) comenta que “a realização ética de si mesmo em Foucault não é uma criação radical do si-mesmo ex nihilo”, ou seja, ninguém cria-se do nada, ninguém pratica a ética no vácuo:

“Esse trabalho sobre si mesmo acontece no contexto de um conjunto de normais que precede e excede o sujeito. Investidas de poder e obstinação, essas normas estabelecem os limites do que será considerado uma formação inteligível do sujeito dentro de determinado esquema histórico de coisas. Não há criação de si (poiesis) fora de um modo de subjetivação (assujettisement) e, portanto, não há criação de si fora das normas que orquestram as formas possíveis que o sujeito deve assumir. A prática da crítica, então, expõe os limites do esquema histórico das coisas, o horizonte epistemológico e ontológico dentro do qual os sujeitos podem surgir. Criar-se de tal modo a expor esses limites é precisamente se envolver numa estética do si-mesmo que mantém uma relação crítica com as normas existentes…

Na introdução de O Uso dos Prazeres (História da Sexualidade – Volume II ), Foucault especifica essa prática da estilização de si mesmo em relação às normais quando deixa claro que a conduta moral não é uma questão de se conformar às prescrições estabelecidas por determinado código, tampouco de interiorizar uma proibição ou interdição primárias. (…) Para Foucault, tanto como para Nietzsche, a moral reorganiza um impulso criativo. Para Foucault, a moral é inventiva, requer inventividade, e além disso tem um custo. No entanto, o si-mesmo engendrado pela moral não é concebido como agente psíquico de autocensura. Desde o princípio, a relação que o eu vai assumir consigo mesmo, como vai se engendrar em resposta a uma injunção, como vai se formar e que trabalho vai realizar sobre si mesmo – tudo isso é um desafio, quiçá uma pergunta em aberto. A injunção força o ato de criar a si mesmo ou engendrar a si mesmo, ou seja, ela não age de maneira unilateral ou determinística sobre o sujeito. Ela prepara o ambiente para a autocriação do sujeito, que sempre acontece em relação a um conjunto de normas impostas. A norma não produz o sujeito como seu efeito necessário, tampouco o sujeito é totalmente livre para desprezar a norma que inaugura sua reflexividade; o sujeito luta invariavelmente com condições de vida que não poderia ter escolhido.

Se nessa luta a capacidade de ação, ou melhor, a liberdade, funciona de alguma maneira, é dentro de um campo facilitador e limitante de restrições. Essa ação ética não é totalmente determinada nem radicalmente livre. Esta luta com as condições não escolhidas da vida – uma ação – também é possível, paradoxalmente, graças à persistência dessa condição primária de falta de liberdade.” (BUTLER, Relatar a Si Mesmo, 2015, p. 29)

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Dar um relato de si mesmo é tarefa complexa justamente pois um ser humano não cabe num relatório, e ademais ninguém é bom juiz em causa própria. As dificuldades acumulam-se umas sobre as outras até formar uma montanha que nos obstaculiza a vista lúcida: como é possível a gente ser verdadeiro numa narrativa sobre nós mesmos se há tanto, afogado no passado, que já esquecemos, ou que nunca pudemos experimentar de fato? Quem é que pode relatar como foi sua experiência no útero da mãe, ou descrever o que sentiu após a gloriosa junção, microscópica mas repleta de consequências, de um espermatozóide com um óvulo? Muitas das experiências que constituem os nossos corpos estão para além de qualquer capacidade de “resgate” pelo nosso cérebro atual. Butler afirma que “a história deste corpo não é inteiramente narrável”, “o corpo tem uma história da qual não posso ter recordações” (p. 54):

“Não posso estar presente numa temporalidade que precede minha própria capacidade de autoreflexão, e qualquer história que eu possa dar sobre mim tem de levar em consideração essa incomensurabilidade constitutiva… Isso quer dizer que minha narrativa começa in media res, quando já aconteceram várias coisas que me fazem possível na linguagem e fazem possível minha história na linguagem. Eu sempre recupero, reconstruo e encarrego-me de ficcionalizar e fabular origens que não posso conhecer. (…) O relato que faço de mim mesma é parcial, assombrado por algo para o qual não posso conceber uma história definitiva. Não posso explicar exatamente por que surgi dessa maneira, e meus esforços de reconstrução narrativa são sempre submetidos à revisão. Há algo em mim e de mim do qual não posso dar um relato. Mas isso quer dizer que, no sentido moral, eu não sou responsabilizada por aquilo que sou e faço? Se descubro que, apesar de meus melhores esforços, ainda resta certa opacidade e que não posso relatar a mim mesma totalmente para o outro, seria isso um fracasso ético? (…) Nessa afirmação de transparência parcial, existe a possibilidade  de reconhecer uma relacionalidade que me vincule à linguagem  e ao tu de maneira mais profunda do que antes?” (BUTLER, op cit, p. 56)

Se o mérito de um filósofo também decorre da profundidade das perguntas que ele é capaz de formular, considero que Judith Butler conseguiu passar com louvores no teste: ela coloca-nos questões assombrosas, daquelas capazes de deixar o sujeito insone e boquiaberto a refletir pelas madrugadas. De fato, quando perscrutamos demoradamente a questão do auto-conhecimento e do relato-de-si, trombamos com obstáculos intransponíveis, dificuldades epistemológicas, impossibilidades existenciais, todas decorrentes de estarmos embarcados no fluxo de um rio cujo princípio e fim não podemos enxergar.

Esta “cegueira” quanto à verdade sobre nós só pode ser parcialmente corrigida pelos avanços de nossa audaz auto-inspecção, porém jamais chegaríamos a bom termo nesta jornada caso abandonássemos a consideração das normas morais, dos paradigmas de comportamento, que estão dados em uma determinada época, formas de subjetivação que podem ser acatadas ou contestadas, aceitas ou resistidas, mas que de todo modo constituem-nos até mesmo quando vivemos para revolucioná-las. Donde a importância do procedimento genealógico, na ética, que Nietzsche não inaugurou, mas que levou a graus extremos e intensos de criticidade, e que figuras como Michel Foucault e Gilles Deleuze / Félix Guattári irão continuar, re-trabalhando o legado da Genealogia da Moral, de Além de Bem e Mal, de Assim Falava Zaratustra etc.

O espírito livre de que Nietzsche tanto falava, prenunciado pelas figuras dionisíacas na tragédia grega, encarnado na figura trágico-lúdica de Zaratustra, é afinal alguém em quem ética e estética deram-se as mãos e que dançam uma ciranda criativa em que o Übermensch está no horizonte como uma espécie de estrela-guia. Síntese de criança, camelo e leão – ingenuidade acrítica mas criadora, conformismo aos fardos impostos pela civilização, ousadia libertária de contestação do que nos é exigido… – o espírito livre, dionisíaco e zaratustriano, não é crédulo do conhecimento de si, ou seja, não acredita jamais possuir por completo a verdade de si mesmo. A ética nietzschiana é muito mais a do perene esforço de auto-superação, inclusive dos limites do nosso auto-conhecimento, do nosso alter-conhecimento, do nosso mundo-conhecimento, e jamais de repouso na suposta resposta certa, verdadeira, imutável, possuível de uma vez para sempre.

É justamente a noção de uma identidade, imóvel, possuível, diamantina, que o pensamento de Judith Butler tanto esforça-se para pôr em crise. Ela quer refletir sobre a possibilidade de uma “ética baseada em nossa cegueira comum”, uma ética que passaria pelo “reconhecimento de que não somos, em casa ocasião, os mesmos que nos apresentamos no discurso”: “Para mim, suspender a exigência da identidade pessoal, ou, mais especificamente, da coerência completa, parece contrariar certa violência ética, que exige que manifestemos e sustentemos nossa identidade pessoal o tempo todo e requer que os outros façam o mesmo.” (p. 60)

Devemos reconhecer, com humildade, os limites do conhecimento no campo relacional: nunca te conheço nem nunca me conheces por completo, e isto faz o desafio e o charme dos encontros e das convivências. Não é a transparência perfeita, mas a opacidade parcial que constitui o campo minado e o palco iluminado para as aventurosas incursões do amor e da amizade. A philia e a sophia só se praticam em meio à borrasca desta viagem que fazemos pelo rio da vida neste bote tão frágil que é este corpo mortal. Butler sugere uma ética onde saibamos experimentar os limites de nosso mútuo saber: “isso pode constituir uma disposição tanto da humildade quanto da generosidade: terei de ser perdoado por aquilo que não posso conhecer totalmente e terei obrigação semelhante de perdoar os outros, que também são constituídos com uma opacidade parcial em relação a si mesmos.” (p. 61)

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“Se a identidade que dizemos ser não nos captura e marca imediatamente um excesso e uma opacidade que estão fora das categorias da identidade, qualquer esforço de fazer um relato de si mesmo terá de fracassar para que chegue perto de ser verdade. Quando pedimos para conhecer o outro, ou pedimos para que o outro diga, final ou definitivamente, quem é, é importante não esperar nunca uma resposta satisfatória. Quando não buscamos a satisfação e deixamos que a pergunta permaneça aberta e perdura, deixamos o outro viver, pois a vida pode ser entendida exatamente como aquilo que excede qualquer relato que dela possamos dar.” (BUTLER, p. 61)

Para pôr em crise todos os sistemas que impõe rigidez identitária, Butler procede de modo bastante Heraclítico, mas destacando não apenas a fluência do sujeito em meio ao rio imparável dos eventos no tempo, mas também o fato de que não há sujeito que exista desvinculado da teia de alteridade: “sou invariavelmente transformada pelos encontros que vivencio; o reconhecimento se torna o processo pelo qual eu me torno outro diferente do que fui e assim deixo de ser capaz de retornar ao que eu era… O encontro com o outro realiza uma transformação do si-mesmo da qual não há retorno.” (p. 41) Assim, o que está em questão é uma ética da despossessão de si, em que o sujeito não acredita-se “dono” de uma identidade, mas aventureiro navegante da imprevisível e mutante ciranda do viver-com-outros. Pois viver é sempre conviver e fluir.

Talvez existam mesmo janelas de conexão entre o que diz Judith Butler e a ética em Paulo Freire, onde somos enxergados como seres inconclusos e conectíveis, onde a importância do diálogo está justamente num avançar contras as trevas de opacidade que tendem a nos deixar em situação de mútua estranheza e gélida solidão. Também Condorcet, um dos luminares da pedagogia iluminista na França revolucionária, falará na nossa condição humana como a de sujeitos perfectíveis, mas nunca perfeitos; e a educação ética seria justamente  destinado a nos fazer trilhar a estrada do aperfeiçoamento perene que jamais repousará na perfeição suprema. Nietzsche não está longe: é uma corda sobre o abismo que devemos atravessar, e não se sabe de ninguém que tenha conseguido atravessar como equilibrista a corda sobre o abismo ao estagnar na imobilidade.

Albert Einstein também dizia algo similar: viver é como andar de bicicleta e para não perder o equilíbrio é preciso estar sempre em movimento. O conviver, parece sugerir Butler, também é assim: é preciso dar-se permissão e permitir a outrem que estejam despossuídos de si, abertos assim à aventura de mudar, já que a mudança não nos impede de nos reconhecer, ainda que conheçamos os limites de nosso mútuo conhecimento. As metamorfoses ambulantes cantadas por Raul Seixas não podem nunca dormir na sensaboria, denunciada em “Medo da Chuva”, de acreditarem-se como pedras quando são rios. O psicólogo Reichiano brasileiro J.A. Gaiarsa falará muitas maravilhas sobre o tema, apelando em uma de suas obras-primas para a antinomia entre A Estátua e a Bailarina.

 Em seu posfácio à obra de Butler, Vladimir Safatle tenta sintetizar essa ética em que “minha opacidade em relação a mim mesmo é uma forma de abertura àquilo que, no outro, implica-me sem que eu possa controlar, abertura àquilo que,  no outro, desfaz minhas ilusões de autonomia e controle. (…) Com Butler o sujeito moral aparece claramente como aquele capaz de assumir uma heteronomia sem sujeição, como diz Jacques Derrida, de se impulsionar a uma processualidade contínua própria ao que não se estabiliza completamente em imagem alguma da vontade.” (SAFATLE, p. 195)

Despossuir-se é abrir-se à outridade, esta belíssima palavra cunhada por Octavio Paz. É uma ética do deixar-se tecer pelos encontros, o avesso do solipsismo e do individualismo do auto-encerramento, mas que têm no cerne da sua reflexão crítica a problematização do tema do reconhecimento, sua dificuldade, seus desafios, sua tão frequente catástrofe, manifesta na violência das crises de reconhecimento, da recusa de reconhecimento, da subjugação e humilhação do outro em práticas racistas, homofóbicas, xenofóbicas etc. Safatle, um dos que mais tem feito no Brasil para sublinhar a importância de Judith Butler no cenário global contemporâneo, diz que esta ética “permite a Butler operar como quem diz: dos travestis e queers aos palestinos apátridas e aos prisioneiros de Guantánamo – um só problema.” (p. 196)

O relato de si, se quiser fugir ao solipsismo de um quimérico indivíduo isolado, tem que tornar-se nada menos que uma inspecção da posição do sujeito na teia de relações na qual ele está necessariamente imbricado. Falar sobre si sem falar do meio social onde se vive, dos vínculos que se tem, dos intercâmbios materiais e simbólicos que se dão neste espaço entre-outros, não é falar sobre si verdadeiramente, mas forjar o equívoco enganador de uma mônada sem relação, algo que não existe senão na imaginação autista de alguns.

A própria presença em nós de uma linguagem, de uma capacidade de expressão e interlocução, já é sinal de nossa necessária sociabilidade, de nossa pertença a um espaço-tempo específico, e alguém que fosse privado do convívio com seus semelhantes, criado no isolamento completo, como o Kaspar Hauser cuja crônica cinematográfica impressionante foi realizada por Werner Herzog, emergeria desta experiência solitária com sérios handicaps, desprovido dos meios linguísticos de relatar a si mesmo e de, assim, perceber-se como partícipe de um network social que o envolve, que o condiciona e é por ele condicionado, que o determinada mas é por ele determinado etc.

“Quando o ‘eu’ busca fazer um relato de si mesmo, pode começar consigo, mas descobrirá que esse ‘si mesmo’ já está implicado numa temporalidade social que excede suas próprias capacidades de narração; na verdade, quando o ‘eu’ busca fazer um relato de si mesmo sem deixar de incluir as condições de seu próprio surgimento, deve, por necessidade, tornar-se um teórico social.” (BUTLER, p. 18)

Quaisquer que sejam as circunstâncias em que realizamos um relato de si – em um diário, em um divã psicanalítico, em um tribunal… – o que sempre emerge dele é a dependência em que  a identidade mutável encontra-se dos outros; não há identidade definível em absoluta independência de sua imbricação numa particular teia de outridade. Essa intrínseca relacionalidade do sujeito é que torna todo relato de si também um problema ético-moral, ou seja, uma averiguação sobre os efeitos de nossos ditos e atos sobre os universos afetivos daqueles com os quais nos relacionamos: escrever um diário, narrar um nó emocional ao psicanalista, explicar ao júri no tribunal o que foi feito, é sempre mergulhar nas angustiosas questões relacionadas à responsabilidade pela felicidade e sofrimento de outrem que possam ter como causas, diretas ou mediadas, a ação às vezes semicega do sujeito que se move na inescapável matrix relacional.

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Para além das violências concretas, físicas, como infligir dor ao outro ao dar-lhe uma pancada com um toque de baseball, há aquilo que Butler chama de violência ética. Franz Kafka foi um gênio na descrição destas, como Butler sabe bem desvelar, e um conto como “O Veredito” serve como parábola para o poderio que uma violência ética pode desencadear: o protagonista Georg é condenado pelo próprio pai à morte por afogamento – “e Georg, como se movido pela força da declaração, sai correndo de casa e salta sobre o parapeito de uma ponte. É claro, a declaração de tem de apelar a uma psique disposta a satisfazer o desejo do pai de ver o filho morto… Georg deve assumir  a condenação como princípio de sua própria conduta e participar da vontade que o incita a se atirar para fora de casa.” (p. 66)

O que soa como absurdidade forjada pela imaginação pungente e atormentada de Kafka – autor que, como se sabe, revela todos os dilemas e neuroses de sua relação com a figura paterna em sua Carta ao Pai – parece ser mobilizada por Butler a fim de revelar um exemplo memorável de violência ética em que o sujeito Georg aparece como dependente e vulnerável ao extremo em relação à vontade do genitor. Espécie de deus encarnado – Deus-Pai nos céus, deus-papai na Terra? – o pai aparece aqui como entidade arbitrária e autoritária, mas que Georg não consegue contestar ou contra ela se rebelar; Georg assume a posição de obediência estrita que confunde-se com o masoquismo suicida.

Kafka é um mestre na pintura de sujeitos que estão como que amarrados, sem chance de libertação, na teia-de-aranha de uma matriz relacional insanizante – na qual a aranha acaba sempre por devorá-los como se não passassem de suculentas moscas ou baratas. Ler O Veredito junto com A Metamorfose é uma excelente porta-de-entrada para uma abordagem poética, metafórica e repleta de parábolas para a problemática disto que Butler chama “violência ética” e outros chamam de “violência (ou dominação) simbólica”.

No que diz respeito à psicanálise, Butler também problematiza a noção de que a cura do sujeito complexado ou neurótico possa se dar através da obtenção de uma perfeita compreensão de si, decorrente da confecção de uma narrativa coerente da própria vida. É verdade que a psicanálise, desde sua origem com Freud e Breuer, tem um forte elemento de terapêutica da verbalização, talking cure, que concebe como libertadora a prática de realizar um relato de si que ocasione uma espécie de “conquista”, por parte do consciente, deste vasto território incógnito e ameaçador do inconsciente. Há algo em Freud do racionalista que crê nos poderes redentores da razão compreensiva – algo, é bem verdade, que faz parte do legado iluminista e que, antes disso, era também forte em Spinoza (“não chorar, não rir, não lamentar, mas compreender”). Butler comenta, sempre problematizante:

“Dentro de alguns círculos, doutrinas e práticas psicanalíticas, um dos objetivos declarados da psicanálise é oferecer ao cliente a chance de formar uma história sobre si mesmo, de relembrar o passado, entrelaçar os eventos ou as vontades da infância com eventos posteriores, tentar dar sentido, por meios narrativos, à vida que passou, aos empasses encontrados vez ou outra e ao que ainda está por vir. Com efeito, argumenta-se que o objetivo normativo da psicanálise é permitir que o cliente conte uma história única e coerente sobre si mesmo, de modo a satisfazer a vontade de conhecer a si próprio, ou melhor, de conhecer a si próprio em parte por meio de uma reconstrução narrativa na qual as intervenções do analista ou terapeuta contribuem de diversas maneiras para recriar e retramar a história. Roy Schafer defender essa posição…

É claro, aprender a construir uma narrativa é prática crucial, principalmente quando pedaços descontinuados da experiência permanecem dissociados entre si em virtude de condições traumáticas. Minha intenção não é subestimar a importância do trabalho narrativo na reconstrução de uma vida que, de modo geral, sofre de fragmentação e descontinuidade. Não se deve subestimar o sofrimento que pertence às condições de dissociação. (…) No entanto, a conexão demasiada pode levar a formas extremos de isolamento paranoico. De todo modo, se uma vida necessita de alguma estrutura narrativa, não se pode deduzir que todas as vidas tenham de ser traduzidas de forma narrativa. Tal conclusão transformaria um requisito mínimo de estabilidade psíquica no objetivo primeiro do trabalho analítico.” (p. 72)

Tentarei traduzir o que Butler quis dizer: a noção de que narrar a própria vida é o todo da terapia parece algo suspeito de excessivo racionalismo, algo que Nietzsche acusaria de “socratismo”, calcado na noção de que o auto-conhecimento, aqui concebido como capacidade de forjar uma narração-de-si translúcida e coerente, é o que basta para a saúde psíquica. Sem subestimar a importância da narratividade, é preciso denunciar nesta perspectiva um certo excesso de verbalismo, uma concepção da saúde psíquica que tende a deixar o corpo um pouco nas sombras, como se fôssemos essencialmente entes verbais, e não corpos libidinosos e com ânsias corpóreas que estão para além da linguagem. Se fosse verdade que a narrativa de si é a panacéia psicoterapêutica, seríamos levados a concluir que beijos, abraços e orgasmos pouco ou nada tem a contribuir com a vida feliz do sujeito, o que é obviamente uma falácia. Nisto sou visceralmente Reichiano.

Para Wilhelm Reich, a terapia tem que ser intensamente corporal e relacional, não pode fechar-se no verbalismo. É perfeitamente plausível que um sujeito saiba realizar um relato de si racional e coerente, e no entanto permaneça profundamente neurótico pois apegado de modo excessivo à couraça de seu caráter. O que o sujeito são necessita não é somente narrar-se, mas encontrar uma teia de relações onde possa satisfazer-se emocional e sexualmente. Narrar-se numa vida desprovida de orgasmos, contar histórias coerentes sobre si mas não ter seu corpo beijado nem abraçado por ninguém, só pode ser um deserto e um pesadelo. No Brasil, acredito que Gaiarsa tenha sido um de nossos mais sábios pensadores da antinomia normal e patológico, e o interesse de sua obra consiste não só em sua apropriação criativa extremamente fértil do pensamento e das práticas de Reich, mas na sua capacidade de afirmar que os atuais paradigmas de normalidade é que são neuróticos (a “normopatia”), e que a sanidade está do lado daquelas práticas normalmente ditas “contra-culturais”, de liberação sexual, afetiva, corporal.

Não quero com isso subestimar a importância do domínio simbólico e reduzir-nos a corpos tarados, libidinosos, que só querem gozar. A obra de Butler fornece um mergulho profundo nos meandros da questão do reconhecimento, que é descrito, parece-me, como uma necessidade psíquica humana básica e muitas vezes insatisfeita. A nossa frequente incapacidade mútua para nos relacionarmos em regime de empático reconhecimento decorre também de causas sociais, de ideologias introjetadas, como aquelas que pretendem recusar o devido reconhecimento a outros a quem se atribui determinada raça ou etnia, determinada orientação sexual ou corporalidade desviante.

O racismo, a homofobia, a xenofobia, são as montanhas que obstaculizam o caminho do reconhecimento empático, mas também a noção de identidade como sujeito idêntico a si mesmo é uma trava grave em nossas relações. Como procurei mostrar, Butler aposta numa ética que seria mais saudável justamente por pôr em crise as identidades fixas, tidas por imutáveis; uma ética em que nos reconhecemos melhor justamente pois nos permitimos ser metamorfoses ambulantes. Uma ética que está para além da caretice estreita e limitante de um sujeito que só aceita relacionar-se com aqueles que considera seus iguais: por exemplo, o homem branco, heterossexual e de primeiro mundo que mantêm distância de todos os negros, homossexuais e terceiro-mundistas com medo de contaminar-se com uma outridade que considera tóxica ou inferior. Estes tipos de elitismo, isolacionismo, aristocratismo, merecem ser tratados como patologia, por mais “normais” que nos pareçam…

Ao invés de ir ao encontro do outro exigindo dele uma identidade fixa e claramente delimitada, uma orientação sexual precisa, uma etnia ou raça perfeitamente reconhecível, uma postura rapidamente catalogável no âmbito da normalidade, mais vale estar no mundo, entre outros, com uma atitude de abertura à diversidade humana e a todo o colorido das posturas queer. Como destaca Vladimir Safatle, “o termo ‘queer’ aparece no inglês do século XVI para designar o que é ‘estranho’, ‘excêntrico’, ‘peculiar’. A partir do século XIX, a palavra começa a ser usada como xingamento para caracterizar homossexuais e outros sujeitos com comportamentos sexuais aparentemente desviantes. No entanto, no final dos anos 1980, o termo começa a ser apropriado por certos grupos LGBT no interior de um processo de ressignificação no qual o significado pejorativo da palavra é desativado através de sua afirmação por aqueles a quem ela seria endereçada e que procura excluir.

Sensíveis a tal inversão, algumas teóricas de gênero viram nesta operação uma oportunidade para descrever um outro momento das lutas por reconhecimento de minorias. Momento não mais centrado na defesa de alguma identidade particular aos homossexuais, mas na identificação de si com o que parece expulso do universo da reprodução ‘normal’ da vida. De onde se seguiu a produção do sintagma ‘Teoria Queer’, enunciado primeiramente pela feminista italiana Teresa de Lauretis em The Practice of Love: Lesbian Sexuality and Perverse Desire (Bloomington, Indiana, 1994).

Desta forma, Butler pode sintetizar uma crítica do capitalismo enquanto forma social baseada na organização a partir do princípio de identidade que anima a figura do indivíduo. Ela se baseará na possibilidade de constituição de relações intersubjetivas fundadas na desarticulação de um princípio de identidade definido como posse… Como se a afirmação da despossessão fosse estratégia maior para toda e qualquer crítica do capitalismo como forma de vida. E é na escuta da experiência sexual que aprendemos inicialmente a viver despossuídos.” (SAFATLE: p. 178)

Laerte

No Brasil, uma figura emblemática para estas discussões sobre gênero, sexualidade e identidade é certamente Laerte, que muito além do crossdressing ou do “travestismo”, parece ter embarcado em uma viagem existencial ousada e aventurosa em busca de viver e criar para além das imposições estreitas das fôrmas caretas de normalidade. A genialidade da arte Laertiana está no modo conciso, pedagógico, irônico, sagaz e crítico com que esta obra põe em questão a imposição social de padrões de conduta baseados na dominação masculina, heterossexual, branca – dominação esta que funciona como uma espécie de mega-máquina-de-moer-diversidade e que merece que mobilizemos contra ela toda a potência de nossa revolta criativa.

Em uma espécie de resenha em quadrinhos do livro “Judith Butler e a Teoria Queer”, de Sara Salih (Ed. Autêntica), Laerte oferece uma excelente introdução ao âmbito da queerdade e da ética e política a ela conexas. Já passou da hora de percebermos, na sociedade, a sabedoria convivencial que há na desconstrução da noção de identidades possuíveis e no aniquilamento de velhas e mofadas classificações sobre o normal e o patológico. A invenção de si, no espaço entre-outros em que estamos condenados à nossa liberdade, será tão mais sábia quanto mais despossuídos de preconceitos  e mais desagarrados de identidades fixas formos capazes de sermos. Se joga na relação, sem pré-concepção, e deixe o outro, como ti, ser metamorfose ambulante e sujeito transindividual em contínua reinvenção!

– Carli, Goiânia, 28/11/16

RESUMO DA ÓPERA – Por Laerte:

 

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LEIA TAMBÉM:

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Daniel Pereira

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JUDITH BUTLER – “Relatar a Si Mesmo – Crítica da Violência Ética”
(Editora Autêntica, 2015, 200 pgs)
Tradução: Rogério Bettoni || Posfácio: Vladimir Safatle

SINOPSE VIA EDITORA AUTÊNTICA: “Butler nos mostra neste livro como é difícil relatar a si mesmo e como essa falta de autotransparência e narratividade é crucial para um entendimento ético do ser humano. Em um diálogo brilhante com Adorno, Lévinas, Foucault e outros pensadores, Butler nos oferece uma crítica do sujeito moral, argumentando que o sujeito ético transparente e racional é um construto impossível que busca negar a especificidade do que é ser humano. Só podemos nos conhecer de forma incompleta, e apenas em relação a um mundo social mais amplo que sempre nos precedeu e moldou de maneiras que não somos capazes de apreender inteiramente. Se somos opacos a nós mesmos, de que maneira o ato ético pode ser definido pela explicação que damos de nós? Um sistema ético que nos considera responsáveis por nosso pleno autoconhecimento e nossa consistência interna não nos inflige um tipo de violência ética, levando a uma cultura de autocensura e crueldade? Ao reformular a ética como um projeto em que ser ético significa tornar-se crítico das normas que nunca escolhemos, mas que guiam nossas ações, Butler ilumina o que significa para nós, criaturas falíveis, criar e compartilhar uma ética da vulnerabilidade, da humildade e da responsabilidade.”

ASSISTA:
CONFERÊNCIA MAGNA COM JUDITH BUTLER | I Seminário Queer
SESC Vila Mariana – SP | Setembro de 2015
(Legendas em PORTUGUÊS, INGLÊS e ESPANHOL)

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AMORES ILÍCITOS EM UMA ERA TRÁGICA – Reflexões sobre “O Amante de Lady Chatterley” (1928), de D.H. Lawrence (1885 – 1930)

O AMOR EM UMA ÉPOCA TRÁGICA

Reflexões sobre “O Amante de Lady Chatterley” (1928), de D.H. Lawrence (1885 – 1930)

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

1O mínimo que se pode dizer é que a Inglaterra não estava preparada para acolher sem escândalo aquele livro ousado, devastador de tabus, dotado de um lirismo selvagem, e dionisíaco. Além do mais, a crítica social radical que o livro incluía, em sua denúncia da desumanização acarretada pelo industrialismo, era mais do que a época podia digerir. Tanto que a obra foi de pronto estigmatizada como pornográfica – uma calúnia hoje já desacreditada – e censurada por pessoas que auto-proclamavam como baluarte dos bons costumes da  da moralidade pública.

Hoje o bafafá e o frisson causado pelo magnum opus de D. H. Lawrence (1885 – 1930) parece-nos estranho, já que o romance não tem mais o poder de nos chocar tanto. O mais provável é que O Amante de Lady Chatterley tenha sido condenado sem ter sido lido por muita gente de mentalidade estreita, que não deseja permitir que o Livro exerça uma de suas mais preciosas vocações: a de libertar corações e mentes. E não há libertação – Lawrence ensina! – que deixe de fora os corpos e pretenda emancipar só no mental, no “espiritual”.

Qualquer livro libertário não tem opção senão a de encarar com coragem e contundência os adversários da liberdade, os obscurantistas de profissão e vocação, aceitando as consequências em prol de sua tarefa de quebrar correntes e coleiras. Foi o que Lawrence fez nesta notável obra-de-arte em cuja essência está o processo de emancipação de uma mulher que recusa uma submissão infeliz e uma dócil miséria conjugal. Ela ilustra, como  caso específico, um tema maior: os amores ilícitos em uma época trágica.

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D.H.-LawrenceFoi no fim de sua vida, terminada de modo precoce aos 44 anos de idade, que D. H. Lawrence (1885 – 1930) escreveu O Amante de Lady Chatterley, um livro que ficou pronto em 1928 mas só teve sua publicação permitida em solo inglês em 1960, 30 anos após a morte do autor.

As razões mais óbvias para o banimento deste romance são o puritanismo dos administradores sociais que defendem os tabus e as hierarquias antigas contra o assalto de novidades consideradas perigosas. Um perigo, no caso, era a idéia de libertação ou des-repressão sexual como algo desejável para a civilização como um todo. Há nesta literatura inovadora e precursora de D.H. Lawrence o anúncio do que viria a ser teorizado depois em pensadores já clássicos da psicologia social como Marcuse (Eros e Civilização) ou Wilhelm Reich (A Função do Orgasmo, A Revolução Sexual).

Parece-me que, para além do horror puritano a uma representação literária dos amores humanos em sua carnalidade, o que horrorizava os detratores do romance de Lawrence era a atitude da protagonista, repleta de posturas que os caretas não julgam adequadas a uma “moça direita”, em especial cometer um adultério com alguém que não é da sua própria classe. A aristocracia misturando-se com a riff-raff, a transa entre ricos e ralé, o amor que tripudia sobre estas barreiras artificiais de respeitabilidade, é que deixou muito conservador e muito reacionário de cabelos em pé.

Acredito, ademais, que o livro foi odiado, vilipendiado, apedrejado, censurado e caluniado com tanta crueldade por puro machismo da parte de seus carrascos. Pois Connie Chatterley é uma mulher que ousa afirmar sua própria vontade, dizer-sim a seu próprio desejo, pousar plenamente em seu próprio corpo, rompendo de modo rebelde com as coleiras do matrimônio infeliz, fugindo da jaula da ortodoxia de classe, corajosa e intrépida exploradora de experiências que são muito mais e muito além de “aventuras eróticas”, uma vez que são existencialmente transformadoras (e transtornadoras). 

Assim como Freud chocou os círculos burgueses e aristocráticos da Viena de sua época ao insistir na existência da sexualidade infantil e ao explicar o problema da saúde ou da normalidade psíquicas como necessariamente conectadas à gestão da libido, Lawrence também chocou-se headfront com um establishment que era cheio de melindres em relação à narração genuína dos amores carnais humanos. Ele pintou em Lady Chatterley uma figura feminina que ousa afirmar os anseios de seu corpo e ter uma vontade muito própria, ao invés de manter-se subalterna ou submissa. Uma expressão de Lawrence parece-me sintetizar a força desta mulher: “a will of her own”. Tanto que poucos machos da espécie podem se orgulhar de terem escrito um livro tão feminista quanto este.

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Lady Chatterley não é material para um convento; não lhe interessa morrer para o mundo e todos os afãs mundanos, entregando-se inteiramente a Deus, à pátria ou ao marido. O ímpeto, um tanto boêmio, dionisíaco, contracultural, que pulsa nela e lhe dá seu charme (ela é muito mais charmosa que a Madame Bovary de Flaubert, por exemplo), é o ímpeto de gozar de uma felicidade que quer ser sorvida aqui-e-agora, neste mundo, nesta vida. O romance é veículo para uma ética vitalista, sensualista, comunalista, levantando uma bandeira que poderíamos descrever com termos míticos: é a batalha do deus pagão Pã contra o “Mammon da ganância mecanizada”.

Como no Walden de Thoreau, os woods são em Lawrence uma espécie de território utópico, refúgio contra os horrores múltiplos do industrialismo – este complexo de forças de caráter modernizante e ecocida, poluidor de atmosferas e aniquilador de laços humanos. Em meio à distopia do Capital e da frieza cruel das relação de dominação, Connie e Mellors, ainda que sejam outlaws aos olhos de muitos, são exploradores daquela liberdade que somente em comum pode-se viver. Pois liberdade foi feita pra gozarmos juntos, jamais em solitude.

 Ainda que a narrativa de Lawrence seja tão lírica, que as transas sejam descritas através de expressões tão cheias de lirismo e singeleza, que nunca existam vislumbres de perversões (não procurem aqui por cenas sado-masô ou por zoofilia…), ainda assim os amores físicos de Lady Chatterley e Oliver Mellors lograram suscitar reações bastante negativas. Parece-me que padres puritanos, homens e mulheres sérios e respeitáveis (que coligam-se em trecos como “Ligas das Senhoras Católicas” ou “Cristãos Pela Temperança”), quando ficam horrorizados com um livro desta qualidade apenas mostram que há muito mais de errado com o censor do que o autor. Quem taca pedras em D. H. Lawrence não diminui o esplendor deste escritor, apenas revela a sua própria baixeza, estreiteza e mesquinharia. Quem taca pedras neste livro só confessa ser dotado de uma mentalidade que não desabrochou e que permaneceu cega por coleiras e cabrestos.

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Um caso contemporâneo ilustra algo semelhante: aquela que considero uma das obras-primas da arte cinematográfica no século 21, filmaço vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Azul É A Cor Mais Quente de Abdel Kechiche, também despertou fúrias e censuras vociferadas por gente suficientemente medíocre para mobilizar uma homofobia estúpida e virar as costas para a obra, de maneira preconceituosa e estupidamente, com o argumento de que aquilo não passaria de “soft porn lésbico”. Quem assim agiu, ao invés de abrir coração e mente à comunicação com a obra, perdeu a chance preciosa de assistir uma magnum opus na história do cinema, um filme expansor-de-consciência, alargador-de-mentalidade, desabrochador de senciência, ensinador-de-amor.

Senciência – este conceito tão propagado pelos budistas, esta capacidade-de-sentir que une os humanos aos outros animais numa teia solidária – é também um conceito central para D. H. Lawrence. E o romance contêm quase um tratado de psicologia sobre as condições sociais que produzem o horror da in-senciência. Clifford é o melhor exemplo: o marido de Lady Chatterley, um aristocrata que é estropiado pela guerra e fica paraplégico, tenta manter-se na elevação de sua posição de elite econômica e cultural, mas revela no dia-a-dia dotado duma frieza, uma desumanidade, uma incapacidade de empatia, que é um dos grandes feitos de Lawrence esclarecer para o leitor. O processo de produção social da insenciência, da não-empatia, da negação da intimidade, é um dos grandes temas explorados pelo autor.

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No que diz respeito à batalha pra ter voz e vez que o livro teve que encarar – e isso quando Lawrence já havia tido seu cadáver roído pelos vermes -, um momento emblemático se deu quando a Penguin Books teve que recorrer às cortes de Justiça, em 1960, contestando o “Obscene Publications Act”, para conseguir a liberação da publicação deste que viria a ser um dos mais célebres romances da história literária do século XX.

Foi um best-seller imediato: conta-se que foram 200.000 cópias vendidas de supetão. O que só reitera a tese de que o proibido é mais gostoso. Não há campanha de publicidade melhor para um livro arrasa-quarteirão, devasta-tabu, repleto de thrills, do que ser abominado pelos fascistas e ser condenado pelos puritanos. Um livro que tanto irritou padres e papas, que tanto enfureceu carolas e caretas, que tanto escandalizou ortodoxos e fanáticos, só pode ser… bom pra diabo!

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E é o caso: o sabor, para o meu paladar literário, é de um livro saborosíssimo, refulgente de brilho, capaz de capturar o interesse. É quase impossível de ler só pela metade, sendo um daqueles page-turners que desafiam os críticos literários a explicar o mistério do craft de certos autore, que são espantosamente capazes de reter a atenção do leitor e conduzi-los adiante com curiosidade crescente. Quite thrilling! 

Este seria um livro bem pior caso de fato fosse sobre aquilo que as sinopses lhe atribuem como essência: um caso extra-conjugal, uma mera aventura extra-marital. O que está em questão é muito mais amplo e Lawrence era ambicioso o bastante para desejar, através da obra, nada menos do que questionar o conjunto da civilização dita “industrial” e “moderna” em uma época que o autor sente ser “essencialmente trágica”.

O Amante de Lady Chatterley é como um raio-X do Amor (adoecido, enfraquecido, dificultado em sua eflorescência) em tempos de guerra, de cólera, de devastação – de insenciência. Tempos de crise de percepção. Surge numa época histórica que hoje chamamos de entre-guerras, mas que era simplesmente, para Lawrence e seus contemporâneos, simplesmente o período que sucedeu à Grande Guerra, à maior das carnificinas já registradas pela História, em que o “avanço” das tecnologias bélicas havia atingido uma capacidade inaudita de destruição (eles ainda não conheciam a bomba atômica ou os aviões despejadores de napalm e outras mortíferas pestes químicas).

Não é com o amor, mas com os corpos dilacerados e mortos pelo clash dos ódios; não é com beijinhos doces, mas com membros decepados e som de tiros; não é com primavera florida, mas com o inverno das ruínas que o livro se inicia:

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“Ours is essentially a tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habitats, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen.

This was more or less Constance Chatterley’s position. The war had brought the roof down over her head. And she had realized that one must live and learn…” (p. 1)

Em Lawrence, o romance é um gênero literário que mostra-se capaz de uma espécie de grande síntese sociológica, que resume uma época através do relato dos destinos específicos de que trata em primeiro plano, mas é também essencialmente algo destinado a agir sobre a emoção, educando-a.

“It is the way our sympathy flows and recoils that really determines our lives. And here lies the vast importance of the novel, properly handled. It can inform and lead into new places the flow of our sympathetic consciousness, and it can lead our sympathy away in recoil from things gone dead. Therefore, the novel, properly handled, can reveal the most secret places of life: for it is in the passional secret places of life, above all, that the tide of sensitive awareness needs to ebb and flow, cleansing and freshening.

But the novel, like gossip, can also excite spurious symphaties and recoils, mechanical and deadening to the psyche. The novel can glorify the most corrupt feelings, so long as they are conventionally ‘pure’. Then the novel, like gossip, becomes at last vicious, and, like gossip, all the more vicious because it is always ostensibly on the side of the angels.”

(D.H. LAWRENCE, “Lady Chatterley’s Lover”, chapter 9, pg. 129)

Eu resumiria o intento do autor – com o perdão de toda carniceria que é resumir 400 páginas em uma frase – dizendo que ele quis retratar o modo com as forças vitais do amor e da congregação tentam sobreviver às pilhas de cadáveres e aos céus tóxicos de uma época trágica.

Dito isto, acho que já se diz muito sobre a atualidade do livro, para nós que ainda não deixamos a era trágica para trás. Muito pelo contrário: como Elizabeth Kolbert argumenta em seu novo livro, o vencedor do Pulitzer A Sexta Extinção, vivemos numa era em que deixamos de temer as catástrofes que extinguem a vida em massa para termos nos transformado, nós mesmos, numa catástrofe colossal. Eis o Antropoceno, “the age of humans”, em que não tememos mais o asteróide que extinguiu os dinossauros e boa parte da vida sobre o planeta, pois somos nós o asteróide!

Lady Chatterley tem coisas à beça a ensinar ao Antropoceno, e não duvido ser possível uma leitura ecológica, de verve ecosocialista, do romance (“People are killing the very air. The stream of so much boredom, and discontent and anger out of all people, just kills the the vitality in the air. I’m sure of it. It’s man that poisons the universe” – p. 110). Nos corpos de Cliff – que volta da guerra com uma paralisia incurável da cintura para baixo -, de Connie e de Mellors, Lawrence pinta os destinos coletivos de tempos deveras trágico. Mas será que há algum tempo que não o seja?

Explorando os meandros do tecido literário com tanto esmero urdido por D. H. Lawrence, escrevi notas de leitura que a seguir compartilho em um longo hipertexto. São notas esparsas que fui tomando enquanto progredia na leitura e nas quais tento propiciar oportunidades para um mergulho mais fundo, uma reflexão mais demorada, um debate mais lúcido, sobre O Amante de Lady Chatterley e o que ele nos comunica sobre a realidade recorrente e bumerânguica do amor em tempos de tragédia.

* * * * * *

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TUDO QUE A GUERRA ESTROPIA

É incontável o total de horrores
Que acompanham a estropiante.
Ao invés de enumerá-los ao infinito,
evocando lágrimas de viúvas e bebês órfãos,
membros decepados e mortíferas baionetas,
lembremos de Cliff, o marido de Lady Chatterley,
retornado da 1ª Guerra Mundial aos pedaços (“in bits”),
condenado à cadeira-de-rodas e à dura lida
de colar os estilhaços de si mesmo.

“Having suffered so much”, escreve D. H. Lawrence,
“the capacity for suffering had to some extent left him.
He had been so much hurt that something inside him
had perished, some of his feelings were gone.
There was a blank of insentience.” (p. 2)

A guerra tinha matado em Cliff a vitalidade do sentimento,
a capacidade de sentir deste homem que a dor em excesso
empurrou ao vazio da insenciência.
Avesso de Buda, não-iluminado na cela de si mesmo,
Cliff Chatterley ainda por cima deve sofrer sobremaneira
Pela guerra ter-lhe estropiado o sexo e a fertilidade,
o tesão e a ereção, a potência para o amor físico.
Assim esmaga vida-sobrevivente a guerra-estropiante.

MTE5NDg0MDU1MjYwNzkyMzM1

D.H. Lawrence (1885 – 1930)

SHIPPED HOME SMASHED

Pode até ser que tenha caducado
A dicotomia corpo – espírito
Tal como concebida por teólogos e padrecos.
Permanece vivíssima a dualidade organismo-mente:
Cliff é da guerra re-enviado para casa “smashed”,
Cheio de hematomas e ossos semi-fraturados,
Membros desconectados da espinha dorsal,
E não é decerto unicamente na carne que sofre,
mas também no mais profundo de sua Psique:

“…one of the great laws of the human soul:
when the emotional soul receives a wounding shock,
which does not kill the body, the soul seems to recover
as the body recovers. But this is only appearance.
It is really only the mechanism of the re-assumed habit.
Slowly, slowly the wound to the soul begins to make itself felt,
like a bruise, which only deepens its terrible ache,
till it fills the psyche.” (p. 57)

Sofrer demais, na carne,
Pode conduzir à insenciência
Dos frios e insensíveis –
Esta, uma das lições
que ensina Lawrence
Através do “caso Cliff”
Determinante pro destino
de Connie Chatterley, sua esposa.

lchatterleynew

Uma das melhores adaptações literárias do romance de D. H. Lawrence, dirigida por Pascale Ferran

GLEAM AND SPARKLE IN THE FLESH

Que o espírito possa independer da matéria,
que a alma consiga ser sem corpo,
é uma velha aposta hipotética que
talvez não seja mais tão acreditada,
uma desacreditada fantasia religiosa
que foi demolida pelos trabalhos
da razão crítica materializante.
A literatura de Lawrence integra
o zeitgeist de onde emergiu também Freud
e sua escola que tanta importância confere
à sexualidade nas discussões sobre a psicologia –
o “fenômeno sexual” seria quintessencial
à mente humana, e não um mero apêndice corporal.

O exemplo é o corpo, “velho aos 27 anos de idade,
de Connie Chatterley, que ao raiar do capítulo 7
fica nua diante do espelho e lamenta-se:
“Her body was going meaningless,
going dull and opaque, so much insignificant substance.
It made her feel immensely depressed and hopeless.
She was old, old at 27, with no gleam and sparkle in the flesh.” (p. 83)

Pro cintilar e resplandecer da carne
O amor físico é indispensável elemento –
O que equivale a uma revolução na medicina:
saudável agora passa a ser viver plenamente o sexo,
ao invés de reprimi-lo, não satisfazê-lo, atrofiá-lo;
Sensualidade não é mais coisa do demônio,
tentação de pecado ou coisa que o valha.

Na teoria psicológica manifesta pela obra,
Há perigo de patologia no intelectualismo exacerbado
de Cliff e seu círculo de conies, verbólatras e superciliosos,
que pretendem justificar sua posição privilegiada de classe,
de aristocratas letrados, com base numa suposta superioridade
Dos intelectuais e artistas sobre a reles ralé…
O arrogante desprezo Cliffordiano pela riff-raff
é uma espécie de alienação separatista e síndrome do não-me-toques.

Connie Chatterley, em sua juventude, rebela-se
contra os efeitos desvitalizadores do intelectualismo ascético:
“The mental life! Suddenly she hated it
with a rushing fury, the swindle!” (p. 83)

Nos homens de seu círculo social, Connie encontra
gente exangue, de vida apoucada por raciocínio excessivo
e repressão sexual instituída em caráter (cf. Wilhelm Reich).
Connie lembra de seus amores juvenis na Alemanha
com uma certa nostalgia da sensualidade sadia:
“the healthy human sensuality
that warms the blood
and freshens the whole being.” (83)

O amargume que ela sente por Clifford
É por sentir-se defraudada de seu corpo
(“defrauded of her own body”, p. 84),
Excluída da possibilidade de ter a carne a cintilar
Aos contatos vivificantes dos físicos amores.
Como pele pálida por falta de sol,
o corpo de Connie padece por sexo de menos.
“Unjust! Unjust!
The sense of deep physical injustice
burned to her very soul.” (p. 84)

* * * * *

LACK OF WARMTH

Falta calor humano na vida desta casal:
estão sob o mesmo teto, mas não no mesmo ninho.
Cliff e Connie são partes da catástrofe geral
de uma guerra estropiadora de corpos.
Mesmo que não mate, ela fere a vida na raiz
Ao trucidar a capacidade de gozar,
O deleite singelo de sentir.

Tolstói em Anna Karenina também foi o
genial pintor das dificuldades conjugais de Anna
e seu maridão Karenin, o “autômato ministerial”.
Com Lady Chatterley, Lawrence também retrata
uma mulher que sofre com a frieza do marido,
sua insensibilidade, sua insenciência.
No warmth, no glow!

A guerra escurecera a psique
Cravejada de bruises
Após ter estropiado o corpo
Tornando-o estéril, infértil.
Para além das crippled legs,
there was a crippled heart.

E John Lennon poderia ter composto
para Cliff Chatterley a sua canção magistral
“Crippled Inside” (“Aleijado Por Dentro”).

Não só a ressaca da guerra
Entenebrece o ar dos tempos
Mas a vigência secular duma
Cultura do ideal ascético
Que desvitaliza os corpos
Ao pregar o intelecto superior
Que deve controlar o sensível subjugado.
Resultado: “all the dreadful, carrion-bodied people.” (p. 101)

INSANA DESCONEXÃO

Desconectar-se ensandece –
e não falo da Internet
Que quando despenca
Pode deixar doidos
Alguns usuários adictos.
Estar sem conexão real com outros
é deprimente, enlouquecente.
Connie Chatterley teme
Por sua própria sanidade.
Pois em casa falta o toque:
ela e Clifford estão literalmente
“OUT OF TOUCH”.
A expressão captura bem a ausência de carnalidade –
pois pior que falta de intimidade, de diálogo fracassado,
trata-se aqui de contato corpóreo concreto
o que está em falta. Falta insanizante.

O amor físico inexiste –
Nem orgasmos, nem carinhos.
Nem êxtases, nem migalhas.
Quem pode culpá-la se ela
pula o muro e adentra
as woods do amor proibido?
Ela é compelida por sua
Situação de vida deprimente
A buscar o calor humano
Que Cliff não lhe fornece nem uma vela
(“no warmth at all” – p. 166)

Em Mellors, que o marido esnobe despreza
pois não passa de serviçal da classe inferior,
Connie busca o calor do mútuo encantamento
não só verbal e intelectual, mas corporal e emocional,
Que desde jovem ela julga quintessencial ao
Amor verdadeiro da intimacy.

Em D. H. Lawrence, parece-me, a ideia de amor íntimo
Jamais é reduzida à espiritualidade, ao conhecimento “cerebral”
que os amantes possuem um do outro como se fosse saber desapaixonado;
a noção de intimidade é inseparável da fisicalidade dos amplexos,
da transa de fato entre bocas e peles, vaginas e falos,
e Connie busca em Mellors não a conversa-fiada de salão
mas a fogueira ardente dos contatos físicos, o fogo do sexo,
o êxtase da beleza vivida na carne, os orgasmos simultâneos.
Lady Chatterley não acha que há felicidade possível aos intocáveis e intocados.

Com Mellors, ela afirma a fisicalidade amorável,
A sensualidade destravada que em casa com Cliff se atrofia.
Pois Cliff é intelectualóide e ascético,
Em seu crippled corpo there’s a coldness
(antegosto da morte e seus rigores)
Que tomou a carne – e calor dele não emana.
Ele lê Racine e conclui em prol
duma ética apolínea do controle: 
contra o desregramento passional que causa tragédias,
o redentor autoritarismo da razão controladora.
Ele diz: “The modern world has only vulgarized emotions
by letting it loose. What we need is classic control.” (p. 160)

Cliff quer pintar como virtude
e justificar sua posição aristocrática e privilegiada na comunidade
recorrendo a seu auto-controle (que é também um alter-controle),
sua capacidade de ter as emoções sempre em estreita coleira.
D. H. Lawrence o caracteriza como neurótico e histérico,
e em certos trechos do livro um autor outsider proto-punk
produz uma cáustica sátira de Clifford, the control freak,
que poderia inspirar um petardo hardcore que se chamasse:
“Fuck Your Control Freakyness, grumpy Clifford!”

Seu corpo, estropiado pela guerra,
Já está inapto para as libertinagens,
e Cliff é um homem com transas na memória
Mas nenhuma no futuro ou nos planos.
O trauma o impossibilita para o amor físico
e parece que sua visão-de-mundo arrogante
nasce como mecanismo compensatório,
de teor semi-alucinante,
em que ele transforma impotência e ressentimento
em virtude superior e justificativas para preponderância social.
(Nietzsche explica! Conferir a Genealogia da Moral)

Cliff, crippled, é um sujeitinho todo bossy supercilious,
que esconde do mundo sua ansiedade tremeluzente e seu
medo da morte ameaçante que já lhe mordiscou os membros.
Para Connie Chatterley, o controle de Clifford não é sentido
como mérito, valor, virtude, característica amável,
mas rima emocionalmente com coldness e cruelty.
Cold cruel controlled controlling Clifford
em sua controlfreakiness irá perder
– irremediavelmente –
a esposa que quis possuir.
Pois ela, em sua atitude mais rebelde que subalterna,
afirma seu corpo com toda a energia,
proto-roqueira que prenuncia futuras
cataratas de rock’n’roll libertário
a estrondosamente bradar
“LET IT LOOSE!”

* * * * *

EMOTIONAL IDIOCY

Em D. H. Lawrence há uma coleção de reflexões
Psicológico-existenciais sobre a emotividade humana
Sendo que o autor trabalha com uma espécie de escala,
De termômetro, de medido, de mensurador etc.
Do grau de maturidade ou idiotia da Emoção em certo indivíduo.
Muito antes e indo muito além dos livrinhos de auto-ajuda banais,
Lawrence pôs em ação a noção de inteligência emocional.

Sente-se a afirmação de que a forma artística do romance
pode servir à Educação Sentimental (que um Flaubert tb propicia),
e Lawrence fornece um arsenal conceitual-linguístico muito fecundo
para análises interessantes sobre os mistérios da Psiquê.
Lawrence atribui aos homens (machos) com frequência
uma imaturidade emocional que os deixa parecidos
com bebezões (big babies) ou mesmo cães irracionais
(a desenvolver: o brilhantismo dos metáforas animalizantes de Lawrence!).

Lawrence não separa o emocional do político,
não cinde subjetividade e objetividade,
mas procura reconectar o problema
da felicidade trans-individual (o amor)
ao quadro mais amplo da felicidade geral-coletiva (a utopia);
o background do romance é a Inglaterra do começo do século XX,
um pesadelo de carvão e ferro, repleta de insenciência,
de negação do sensível, de “culto à razão” que é no fundo emocional-idiotia.

Pulsa uma verve romântica neste romance anti-establishment
Que pinta o industrialismo capitalista como insânia,
Como destruidor das belezas naturais
Além de desumanizador de humanos.
Connie Chatterley, acordada, passeia como sonâmubula
pelos arredores de Wragby e Tevershall, onde mora,
sentindo-se atravessando um pesadelo:
“a nightmare of half-corpses”
(e isso não é um filme de zumbi!),
o horror de gente a viver a meia-vida,
de estar meio-morto e mamando nas tanatotetas de Mammon.

* * * * * *

"Mamon" de Collin de Plancy

“Mamon” de Collin de Plancy

THE MAMMON OF MECHANIZED GREED

Arranhando os céus como falos de concreto
Mil vezes maiores que as picas de seus construtores
“Balançam edifícios de 40 andares” (Siba)


“Com olhos de vidro de cores berrantes
Balançam edifícios de quarenta andares
Que olhados de longe se parecem altares
Do culto esquecido de uns deuses gigantes
Que rompem os tempos dizendo arrogantes
Que os ventos libertos não podem passar
E atrás das colunas que agarram o ar
Uns tantos se espremem sentindo os mormaços
Nas sombras de uns poucos que miram os espaços
Cantando ciranda na beira do mar.” (Siba)

Como outrora a Torre de Babel mítica
Dirigem-se com ímpeto de Ícaro ao alto
Os que idolatram, cá de baixo, criatura celeste

Podem chamá-lo God, Deus, Jeová,
Alá, Oxum ou sei lá quê mais,
Mas D.H. Lawrence chama-o Mammon.

Falemos de um deus chamado Dinheiro,
Servido não por preces pias mas muito mais
Por práticas de ganância egocêntrica.

Ídolo que os gregos chamavam Pluto,
Tema de Aristófanes em saborosa comédia,
É para Lawrence este tal de Mammon.

Uma sociedade devota de Mammon povoa
A face da terra com novidades perigosas –
Como a queima massiva e descontrolada

De carvão e petróleo, intoxicantes d’atmosfera,
Que adoecem-nos na carne envenenada
Enquanto enriquecem punhados de Cliffords Chartterleys.

Em Lawrence, indústrias são um pouco como
Os moinhos satânicos que moem até a geléia
A possibilidade do amor e a potência para ser-junto.

Estar-solidário é  que Connie busca,
desejando com intensidade “physical togetherness” (p; 197)
Companhia e camaradagem que vá pr’além

Do verbalismo e dos abismos de distância,
Do racionalismo e suas incomunicabilidade,
Do ortodoxismo e suas estreitezas de mentalidade.

* * * * *

THE BONDS OF LOVE ARE ILL TO LOOSE (P. 197)

O amor como fenômeno social complexo fica explícito
No caso de Connie e Oliver Mellors pelo antagonismo de classe
Que complica as coisas pro casal:
Cliff e Connie são aristocracia, descritos às vezes como
integrantes das “leisured classes”,
já Mellors é ex-soldado retornado à riff-raffness
(and it’s a rather rough ride!)

Quando Connie revela ao amante o plano de ter um filho,
Mellors pergunta-lhe se ela revelaria ao marido a identidade do pai
desta hipotética criança que Cliff pretende adotar.
Mellors percebe muito bem que
“He [Cliff] woud hardly swallow me
as a substitute breeder.” (p. 203)

Cliff, com pernas paralisadas mas arrogância intacta,
acredita-se superior à ralé e destinado a ser o boss.
Autodescreve-se como um “conservador-anarquista” (p. 216),
Oxímero bizarro (à la Borges) que significa no fundo
Algo próximo a anarco-capitalismo ou plutolatria.
“Industry comes before the individual”, é um de seus lemas,
não se deve fazer caridade aos pobres, mas investir em indústrias
que empregarão os pobres – “it’s the only way to feel all mouths
and clothe all bodies.” (p. 217)

Ao mesmo tempo que Cliff sustenta ser a fate
Quem define quem será boss of the show
Lida com as massas como se fossem subgente.
Dos escravos de Nero aos operários da Ford
A riff-raff laborante não passa de sub-classe
A ser comandada, controlada, assalariada, subjugada.
Pontifica capitalistopapa Clifford:
“The masses have been ruled since time began,
and till times end, ruled they will have to be.
It’s sheer hypocrisy and farce to say
they can rule themselves.” (p. 220)

Connie antipatiza com a arrogância de Cliff;
Há rebeldia em sua escolha de Mellors como amante,
Já que isto subverte os preconceitos e as baboseiras eugênicas
Das ruling classes inglesas que tem em Cliff um lord…

Connie está transando fora de sua classe,
Connie está amando fora de sua casta,
e presume-se que seja justamente isso
o fator escandalizante para a sociedade careta
e o fator que adiciona ao caldo de êxtases sexuais-afetivos
o célebre tempero do proibido.

* * * * *

A EMANCIPAÇÃO E SEU PROCESSO

Não há de fato um feminismo panfletário no livro
Mas as condutas de Connie Chatterley são sim libertárias
Já que é uma mulher que ousa ir além dos limites fixados
Pelas autoridades-machonas que pretendem controlá-la,
Domando seu corpo e enjaulando- no laço insano com Cliff.
O corpo vai em busca de sua saúde ao confrontar
A control-freakiness dos patriarcas dominadores
De que Clifford Chatterley é memorável espécimen.
Lady Chatterley é um dos emblemas da mulher inglesa
Que nascia refulgente da Era Suffragette
Conquistando direito ao voto democrático mas também
Direito ao corpo e ao gozo orgásmico, sexual-afetivo.

Annie Kenney and Christabel Pankhurst used violent tactics in Britain as members of the Women's Social and Political Union (WSPU)

Annie Kenney and Christabel Pankhurst used violent tactics in Britain as members of the Women’s Social and Political Union (WSPU)

Os capítulos 15 e 16 conduzem o drama a um clímax;
Lady na mata com o amante, experimentando erotismos,
inclusive pelados na chuva thunderstórmica,
enquanto o maridão Cliff surta de pavor e ansiedade,
na segurança do lar mas num “state of nervous frenzy” (p. 278).
Depois de uma noite aventurosa, de deslimite,
Connie se ressente por ter que voltar pra casa
Como se fosse uma cadela na coleira de volta à jaula.
A criada Mrs Bolton, que havia sido incumbida pelo chege
de encontrar a Lady desaparecida, quando a encontra
tem que ouvir iradas extroversões de insatisfação existencial:

“- How foolish of Clifford to make a fuss! – said Connie.
– It’s monstruous that I should have to be followed!” (p. 279)

Furiosa com Cliff, esta mulher está libertando-se
Também através de práticas subversivas das normas
E enfurecedoras de maridões tirânicos e frios,
O que prova que não há libertação possível
Que não irrite e horrorize os mantenedores da tirania.
Connie Chatterley busca jornada de libertação progressiva
E faz parte deste processo emancipatório que ela improvisa
O realizar de certas loucurinhas (ou melhor:
Comportamento que os caretas rotulam como insanos)
Como correr pela pela floresta na chuva.
Ela confessa a conduta a Cliff e ele acusa-a de doida.

“- I ran out in the rain with no clothes on.
– You must be mad!
– Why? To like a shower bath from the rain?” (p. 281)

Acusa-se de irracional aquele que quer
Transcender a estreiteza da razoabilidade administrada.
Dá pra ler o romance de Lawrence num viés foucaultiano –
Clifford como emblema do poder disciplinador
Que domina em prisões, escolas, manicômios.
Quando ele “explode” de autoritarismo no cap. 16
E torna-se um corno bravo e esbravejante
Seu caráter conservador e control freak
Vem à tona com enxurrada de grosserias:
“What the hell do you go to that bloody wood for?” (p. 280)

Cliff estigmatiza Connie por sua conduta,
Xinga a esposa livre-demais de maniac
Sem perceber que ela odeia a jaula conjugal
Em que é mantida cativa pelo tirano da cadeira-de-rodas.
Ademais, Cliff representa uma postura-de-classe
Aristocrática, separatista, pró-apartheid,
com repúdio racista à mescla,
ideário do you shouldn’t mix with the riff-raff.

9780140424584

A RESSURREIÇÃO DO CORPO

 “I feel that whatever God there is
has at last wakened in my guts.”
Connie Chatterley, p. 284

A coragem que é necessária para a ternura:
Disso raramente se fala na literatura.
Uma das canções mais sublimes do rock inglês
– “I Know It’s Over” dos Smiths (@The Queen is Dead) –
fala sobre isso: “it takes strenght to be gentle and kind”.

Desde Homero é mais comum que se frisem feitos bélicos,
viris combatências, proezas de duelistas violentos,
atos de heróis capazes de bravezas e urros…
Mellors é diferente: nada tem de Aquiles ou Ulisses,
sua postura é mais retraída e introverida
e seu refúgio na mata é quase ermitério.
Poderia ser o protagonista de um romance existencialista,
desesperado e descrente do futuro,
misantrópico por vivência própria da
horroribilidade humana:
” – People are always horrid.
I have such a terrible mistrust of the future.” (p. 334)

Seu caráter só se revela mais ao fim do livro,
Quando ele se auto-descreve, no diálogo em Londres com Connie,
Como outsider no mundo dos homens, como inconformista,
Como alguém que não quer caçar, nem quer ser militar,
Nem quer ficar rico, que nem mesmo deseja ser sociável.
Sua experiência pregressa no exército deixou legado:
ele odeia e não pode suportar as atitudes das chefias:
“- I can’t stand the twaddling bossy impudence
of the people who own this world.
I hate the impudence of money,
and I hate the impudence of class.” (p. 336)

Mellors revela-se então um rebelde,
Um pouco como Thoreau em Walden
É sua estadia na cabana nos woods de Wragby…
O futuro da humanidade, da civilização,
Parecem-lhe incertos, e ele tende a pressentir
A catástrofe muito mais que a utopia:
” – If there’s got to be a future for humanity,
there’ll have to be a very big change from what now is.” (p. 337)

Mellors defende uma filosofia-de-vida em que
É central o conceito de awareness – 
no sentido de Buda, ele apressa-se a esclarecer.
Atingir o Nirvana é levar ao auge a awareness.
Mellors pensa que temos necessidade urgente
De acordar para a vida, espantar da consciência
Todas as teias de aranha que ali se juntaram.
E não é à toa que rimam awareness e tenderness.
O sexo seria o contato sensível mais íntimo possível
Entre duas pessoas abertas ao vivificante e tonificante
Processo de autêntica entrega mútua que possibilita
Inclusive a rara bliss do “come together”.

“Sex is really only touch, the closest of all touch.
And it’s touch we’re afraid of.
We’re only half-conscious and half-alive.” (p. 338)

Tocar e ser tocado com tenderness,
apesar dos tabus repressores e ascéticos,
acorda, conecta, vivifica. Nirvaniza a dois.

Por isso D. H. Lawrence parece-me autor próximo
À Wilhelm Reich ou à F. Nietzsche em sua visão-de-mundo
Em que a repressão sexual aparece como doentia imposição
De uma civilização insana e de valores mortíferos.
A cultura que condena os “prazeres carnais” e os “deleites terrenos”,
Que ensina as crianças a sentirem vergonha da sexualidade
Desde suas primeiras manifestações primevas,
Que faz do adultério um pecaminoso escândalo
Contra os laços sagrado d’um matrimônio idealizado,
Tem tudo a ver com o industrialismo ecocida,
Com as guerras estropiantes, com a desconexão entre as gentes,
com a falta geral de warmth and kindness.

Connie Chatterley, na companhia de Mellors,
Foge da jaula de intelectualismo estéril
Que é a vida de Clifford, ele que talvez só defenda com ênfase
A superioridade do espiritual sobre o físico pois é um
Estropiado, um cripple, “a physical failure” (p. 283).
Entre este casal existe também um abismo filosófico,
um gulf mental que fica explícito no capítulo 16:
Cliff lê um livro “científico-religioso” que Connie confronta
Com sarcasmo e criticismo que já não se escondem detrás de pudores.
No livro que Cliff parece adorar, o autor defende que já no universo
“dois aspectos” – um físico, decadente, e outro espiritual, ascendente,
e que a evolução do cosmos, após alguns éons, fará que o mundo físico
vá desaparecendo, diminuindo, rumo a ser só um “ripple”,
“barely distinguished from non-entity” (p. 282).

Nesta teoria metafísica que profetiza o fim da fisicalidade
há também a afirmação temerária de um Deus
“upon whose wisdom all forms of order depend”
E Clifford parece aderir a um idealismo-dualismo platonizante –
o que o põe miles apart from Connie, que em seu affair
descobre-se, filosoficamente, como materialista-sensualista
(mais pra Diderot do que pra Sade, decerto!).

Filosofa Connie:
“I believe the life of the body is a greater reality
than the life of the mind:
when the body is really wakened to life.” (p. 284)

Clifford responde com o clichê espiritualista
Que despreza o corpo como meramente animal:
“The life of the body is just the life of animals.”

A resposta de Connie serve como súmula filosófica:

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“- That’s better than the life of professional corpses. But it’s not true! The human body is only just coming to real life. With the Greeks it gave a lovely flicker, then Plato and Aristotle killed it, and Jesus finished it off. But now the body is coming really to life, it is really rising from the tomb. And it will be a lovely, lovely life in the lovely universe, the life of the human body…” (p. 284)

Cliff, apolíneo e espiritualista, percebe bem que Connie está
no auge de uma espécie de transe dionisíaco
e até atribui a ela uma conduta de “bacante” (p. 284).
O dionisismo de Connie choca-se com o control freak do marido
Pois ela manifesta assim sua autonomia, a will of her own,
E ademais ela não idolatra a “vida da mente” quando
separada da carnalidade, intelecto descanrado,
já que ela está embarcada na aventura de descobrir
um misticismo sensualista bacântico
da ressurreição – neste mundo – do corpo.

BURNIN’ OUT THE SHAMES

A experiência existencialmente transformando de Connie e Mellors
Não é retratada jamais por Lawrence em tom condenatório, moralista, repressor.
O livro revela os benefícios de uma sensualidade libertada e aposta numa
ética sensualista, vitalista, hedonista, que está mais próxima de um
lúcido epicurismo do que de qualquer pornografia barata.
É como um requintado tratado psicológico-filosófico sobre
A indissolúvel unidade mente-corpo, a união psico-somática,
Que sugere que é sempre mentirosos o reducionismo que busca limitar
o sexo à carnalidade ou à animalidade, como se as mentes não transassem também…
A refulgência dos estados psíquicos de Connie enquanto transa
É uma das virtudes maiores da prosa de Lawrence
Como mostra uma das mais belas cenas eróticas
De que me lembro de que ter lido pela literatura afora:

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“It was a night of sensual passion, in which she was a little startled and almost unwilling. (…) The reckless, shameless sensuality shook her to her foundations, stripped her to the very last, and made a different woman of her. It was not really love. It was not voluptuousness. It was sensuality sharp and searing as fire, burning the soul to tinder. Burning out the shames, the deepest, oldest shames, in the most secret places.

In the short summer night she learnt so much. She would have thought a woman would have died of shame. Instead of which, the shame died. Shame, which is fear: the deep, organic shame, the old, old physical fear which crouches in the the bodily roots of us, and can only be chased away by the sensual fire, at last it was roused up and routed by the phallic hunt of the man, and she came to the very heart of the jungle of herself. She felt, now, she had come to the real bed-rock of her nature, and was essentially shameless.” (p. 298)

Há êxtase na morte da vergonha, na superação do pudor,
na entrega total ao amor físico e ao amplexo carnal apaixonado,
Quando a chama intersubjetiva queima o medo até as cinzas.
“We fucked a flamed into being”, resumirá Mellors (p. 370).

Connie descobre o quão revitalizante é a sensualidade afirmada,
e não só para o corpo mas também para a mente – exit dualismo ascetizante.
Agora há indissociabildiade entre corpo-mente e só há saúde vital
num dizer-sim ao corpo, aos sentidos, à vontade, ao mundo terrestre,
à vida do aquém e não à promessa quimérica e vã de paraísos além.
Há até tese ético-epistemológica que resulta duma boa trepada:
os humanos precisam de “sheer sensuality even to
purify and quicken the mind.” (p. 300)
Não há razão para supor que o intelecto se aprimora
Ao praticar o sacrifício corporal, a frieza, o ascetismo,
o rigor mortis dos auto-controles exageradamente autoritários.
No fim, Lawrence afirma o potencial político do amor liberto
Através de Mellors e sua “bandeira”: “I stand for
the touch of bodily awareness between human beings,
and the touch of tenderness. It’s a battle against the
insentient ideal monkeyishess of the world.” (p. 340)

 

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro
Goiânia, Julho de 2016

* * * * *

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SAIBA MAIS:

ARTIGOS
D. H. Lawrence’s Critique of ReductionismD. H. Lawrence on the Unconscious; D. H. Lawrence’s Critique of Modernity – by Derek Hawthorne

LIVROS
Love and Sex in D. H. Lawrence – by David Ellis

A TEORIA CRÍTICA DIANTE DAS CALAMIDADES TRIUNFAIS [Estudos Filosóficos, Parte 01] (acasadevidro.com)

A TEORIA CRÍTICA DIANTE DAS CALAMIDADES TRIUNFAIS

“A imagem de uma justiça completa não poderá jamais realizar-se na história, pois ainda que uma sociedade melhor substitua a desordem atual e se desenvolva, a miséria do passado não se transformaria em bem e o sofrimento da natureza circundante não seria transcendido.”

“Se por Luzes (Aufklärung) e progresso intelectual pretendemos dizer libertar o homem da crença supersticiosa em forças malignas, nos demônios e fadas, no destino cego, enfim, emancipá-lo de todo medo, então a denúncia do que comumente chamamos razão é o maior serviço que a razão pode lhe prestar.”

MAX HORKHEIMER

Olgária Matos, pensadora brasileira, professora de filosofia na FFLCH/USP

Olgária Matos, pensadora brasileira, professora de filosofia na FFLCH/USP

O século XVIII, a “era das Luzes”, celebrava a si mesma como “a época da emancipação do homem através da realização do potencial da razão”, como diz a professora Olgária Matos da faculdade de filosofia da USP. Porém, autores como Adorno, Horkheimer, Benjamin, Marcuse, Erich Fromm ou Wilhelm Reich sabiam muito bem que a emancipação, longe de ter sido completada com sucesso, continuava uma tarefa por fazer, uma esperança ainda não desabrochada plenamente, que segue sendo um potencial, uma promessa, diante de uma realidade repleta de “calamidades triunfais” (para citar uma expressão da “Dialética do Esclarecimento” de Adorno & Horkheimer).

Nada em nossa experiência individual ou coletiva nos permite afirmar que a humanidade está progredindo sempre, subindo em rumo à luz da plena sabedoria: na verdade está sempre aberta a possibilidade de regressão, de irrupções de destrutividade, de recaídas na barbárie. Eis, parecem-me, alguns dos ensinamentos da Escola de Frankfurt: convenhamos que nem Auschwitz, nem Hiroshima, nem a Guerra do Vietnã, nem Chernobyl, nem Fukushima, nem a atual hecatombe ambiental brasileira nas Minas Gerais (e no Espírito Santo, e no Oceano Atlântico…), nem muitas outras atrocidades hi-tech, podem ser tidos como exemplos de sucesso civilizatório e frutos do progresso compulsório. Pelo contrário, não são poucos os horrores – de holocaustos e a guerras mundiais – de que é responsável nossa tão louvada civilização capitalista, tecnocrática, dominadora da phýsis, que é supostamente “avançada”, “desenvolvida” e”civilizada”, perenemente em progresso e em triunfante marcha de aprimoramento perpétuo, mas que gerou o Antropoceno e o ticking clock da catástrofe climática iminente… 

Theodor Adorno duvidará muito que possamos celebrar e comemorar o caminho tecnológico-científico quando este é aplicado ao militarismo e ao belicismo: não há festa a fazer diante do processo que nos levou “do estilingue à bomba atômica de megatons“. Poderíamos dizer o mesmo, talvez, sobre a civilização viciada em combustíveis fósseis, fábricas poluentes, automóveis (que mal se movem nos engarrafamentos), desmate de florestas ancestrais, poluição irreversível de rios, extinção maciça de espécies, dentre outras ocorrências de que somos contemporâneos. Valeu tanto a pena vir da bicicleta ao foguete, da roda primitiva ao tanque de guerra, se era tudo para enfim afundarmos nesse lodaçal de drones mortíferos e tecnologias ecocidas?

Vítimas do Holocausto. Clique para ver em tamanho maior.

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Esses pensadores da Escola de Frankfurt são contemporâneos (e, de certo modo, também vítimas) de forças titânicas de alto poder destrutivo. Talvez a crítica ao Iluminismo seja neles efeito dos tempos sombrios, de que fala Hannah Arendt, e talvez eles mesmos sejam animados por uma chama iluminista que não foi totalmente morta pelo que vivenciaram. Voltaire já havia conclamado seus contemporâneos a uma convivência mais tolerante, para uma relação com a alteridade menos calcada em fundamentalismos e sectarismos, para que chacinas como a Noite de São Bartolomeu nunca voltassem a acontecer; similarmente, Adorno vê como meta de sua ação, enquanto filósofo e educador, o imperativo de evitar que Auschwitz se repita.

Talvez possamos dizer que o Iluminismo é uma utopia que colapsou, uma promessa que falhou em se cumprir, uma doutrina que prometeu as flores da igualdade, da liberdade, da fraternidade, e acabou por entregar-nos uma “calamidade triunfal”, para citar o início da obra de Adorno e Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento, em que eles investigam o grau de sucesso ou de fracasso do “programa do esclarecimento” cuja “meta era o desencantamento do mundo, dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber”.

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“A desumanidade terá um grande futuro…”
PAUL VÁLERY

Os cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Os campos de concentração e extermínio do III Reich nazista (Auschwitz, na Polônia, o mais célebre deles). As gulags na Sibéria construídas pelo stalinismo soviético. A tortura institucionalizada e a execução de adversários políticos nas Ditaduras Militares latino-americanas (rebentos da Doutrina do Choque, exposta no brilhante livro de Naomi Klein e no documentário de M. Winterbottom). Há exemplos em profusão da proliferação de fascismos em nossa história recente. Infelizmente, a barbárie e a violência, o etnocentrismo aniquilador da alteridade, a deflagração dos ódios irracionais, são estrupícios que têm marcado o caminhar da carruagem política da humanidade “ultimamente”. Agir e educar para que o(s) fascismo(s) não se repita(m), eis a missão da época, segundo Adorno. A tarefa é evitar que as monstruosidades ocorridas no século XX voltem a acontecer. Em “Educação Após Auschwitz” – texto presente no livro Educação e Emancipação (Ed. Paz e Terra) – sentimos que a pena de Adorno indigna-se e geme, lamentando, em temor e tremor, a “persistência da possibilidade de que se repita a monstruosidade”.

MORAES, Eduardo Carli de. SIGA LENDO @ A CASA DE VIDRO: PARA QUE O FASCISMO NÃO SE REPITA! – Por uma educação devotada à auto-reflexão crítica [Notas sobre “Educação Após Auschwitz” de Theodor Adorno]

Hans Jonas achará a expressão mais emblemática dos perigos da civilização industrial, supostamente esclarecida e progressista, dominadora e triunfante em sua tecnê científica, equiparando-a à figura mítica de Prometeu, mas desta vez libertado das correntes. A obra Princípio de Responsabilidadeapesar de não estar vinculado diretamente à Escola  de Frankfurt, também soma uma voz forte e argumentos poderosos à denúncia daqueles que puseram a razão, a ciência, a tecnologia – as meninas-dos-olhos da Civilização Ocidental! – não a serviço da emancipação, mas sim na construção de fábricas da morte e campos de concentração, e que atualmente empurram-nos, goelas a baixo, catástrofes ecológicas, crises climáticas e infindáveis guerras (ao Terror, às Drogas, Pelo Petróleo…).

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Walter Benjamin, em 1940, fugindo dos nazis, tentando atravessar fronteiras nacionais em uma época de anti-semitismo irracional, insano e epidêmico, prefere o suicídio à sua captura pelos fardados sanguinários, funcionários obedientes do III Reich em pleno gás genocida. A “era de Extremos” de que fala o historiador Eric Hobsbawn nada tinha de um concreto e efetivo mundo emancipado pelas Luzes. Ao contrário, estávamos plenamente chafurdados na barbárie mais trevosa, nos holocaustos mais horrendos, nos cogumelos atômicos mais retardados…

Adorno, em um dos textos que integra o livro Educação e Emancipação (Ed. Paz e Terra), formulará para o pensamento uma nova exigência, um imperativo categórico que Kant jamais sonhara: é preciso fazer tudo para que Auschwitz não se repita. Tornou-se irrecusável missão para a filosofia contribuir para que não nasçam os Hitlers do futuro, que não possa ocorrer de novo a tragédia coletiva como aquela que produziu a Shoah, o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, os desastres radioativos (de Chernobyl a Goiânia) e as catástrofes ecológicas antropogênicas…

Pode ser uma experiência comovente e emocionante entrar em contato, através da leitura, com a potência do pensamento destes autores que integram a Escola de Frankfurt, pois há ali um confronto direto com uma situação histórica dramática e trágica. A crítica empreendida por eles vai à raiz do ideal iluminista, faustiano, que anima a tal da Modernidade supostamente “emancipada” pelo avanço das Luzes de uma razão triunfante. Esses autores sabem muito bem que a razão, se instrumentalizada, se posta a serviço da dominação de classe, se pervertida por crendices racistas ou ideologias xenófobas, podia gerar muitos monstros.

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“Foi preciso que a face opressora do trabalho se mostrasse inteira na miséria gerada pela desigualdade social, que a brutalidade da 1ª Guerra Mundial abalasse a crença no estabelecimento definitivo do reino da razão tecnológica, para que se abrisse o espaço da crítica de um ideal de racionalidade no qual os valores humanos já não apareciam como finalidade. O movimento conhecido como Escola de Frankfurt surge, portanto, num cenário dramático, e seus integrantes não tardarão a se tornar vítimas da violência que procuravam desmascarar.

escola-de-frankfurtEscola de Frankfurt é a denominação tardia do Instituto Para A Pesquisa Social, fundado em 1923 pelo economista austríaco Carl Grunberg, editor do Arquivo para a História do Pensamento Operário, que visavam preencher uma lacuna nas ciências sociais: a história do movimento operário e do socialismo. O Instituto, a que originariamente se cogitou chamar Instituto de Marxismo, revela a vocação para integrar a questão socialista no âmbito das reflexões acadêmicas e universitárias, pois esteve ligado à Universidade de Frankfurt.

A partir de 1931 é Max Horkheimer (1895-1973) quem assume a direção do Instituto e, com a colaboração de diversos pesquisadores, como Theodor Adorno (1903-1969), Walter Benjamin (1892-1940), Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm, Lowenthal, constituiria um círculo de intelectuais voltados para o largo espectro da filosofia social. A Revista Para Pesquisa Social, órgão oficial do Instituto, foi publicado de 1932 a 1933 em Leipzig e, após a ascensão de Hitler ao poder, e o advento das perseguições nazistas a marxistas, judeus e socialistas, passou a ser editado em Paris (de 1933 a 1939), por causa do exílio dos intelectuais que nele publicavam seus ensaios. Entre 1939 e 1941, a revista foi publicada em Nova York e em língua inglesa, quando passou a denominar-se Estudos de Filosofia e Ciência Social.

HISTÓRIA DA FILOSOFIA DA NOVA CULTURAL, de Bernadette Siqueira Abrão (São Paulo, 2004, Pg. 457 a 459)

Diante do que os tempos traziam de dramas, tragédias, esperanças de triunfo, lutas de classes, clashes de ideologias, parece emanar destes autores uma atividade crítica intensificada e visceral, que parece emanar do engajamento existencial da parte de pensadores – como Adorno, Horkheimer, Marcuse, Benjamin, ou mesmo de figuras similares como Lúkacs, Gramsci ou H. Jonas – que se insurgem contra poderes que sentem, na própria carne e no próprio espírito, como humilhação, opressão, desumanização… 

2622700Com isso quero dizer que, como diz brilhantemente o título de um dos livros de Hannah Arendt, trata-se de Homens Em Tempos Sombrios (Cia Das Letras): e não é à toa que Walter Benjamin é um dos biografados nesta coletânea de “retratos” que Arendt pinta  (Rosa Luxemburgo, Karl Jaspers e Bertolt Brecht são outras das figuras que a pena de Hannah descreve em seus confrontos com um tempo histórico ensombrecido e aterrador…). É como se fosse no auge da escuridão, no apogeu da barbárie, que Walter Benjamin responde, com o suicídio, ao dilema de Hamlet: “ser ou não ser, eis a questão”.

“Benjamin optou pela morte naqueles primeiros dias do outono de 1940 que, para muitos de sua origem e geração, marcaram o momento mais negro da guerra – a queda da França, a ameaça à Inglaterra, o ainda intacto pacto Hitler-Stálin, cuja consequência mais temida naquele momento era a íntima cooperação entre as duas forças policiais secretas mais poderosas da Europa.” HANNAH ARENDT (P. 165)

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Benjamin e Brecht jogam xadrez

critical_300Não seria justo cometer contra a Escola de Frankfurt a mutilação de impor a eles a lógica do rotulamento, do encaixotamento, enfiando-lhes na mesma caixa, domados e rotulados. É impossível encaixá-los na categoria de “intelectuais judeus” ou de “filósofos marxistas”, a começar pelo fato de que eles não primavam pelas ortodoxias. Tanto que o modo de expressão que tem primazia nos textos “frankfurtianos” é muito mais o ensaio do que o sistema. Eles pendem mais para escrever como Nietzsche do que a erigir castelos conceituais sistemáticos como um Liebniz ou Hegel. Um cabra como Walter Benjamin, como diz também Arendt, “foi provavelmente o marxista mais singular já produzido por esse movimento que teve seu quinhão completo de excentricidades” (p 176).

Entre Adorno e Marcuse também podem ser multiplicados os contrastes, as diferenças, os antagonismos. Em 1968, com os grandes levantes estudantis e operários em Paris (e os concomitantes levantes da Primavera de Praga e da Cidade do México nas Olimpíadas), foi principalmente com Marcuse, e não com Adorno, que os revoltosos e insurgentes se identificaram e viram como guia e mentor.

Talvez porque o discurso de Adorno era tido como demasiado pessimista para ser capaz de mobilizar entusiasmos de ativismo: quem lê Adorno desanima dos coquetéis molotov, das barricadas de rua, pois o inimigo tem bombas atômicas, é o dono de todas as prisões, patrão de todos os policiais… Já a Contracultura dos sixties, argumenta uma reportagem do The Guardian, beberia na fonte de Marcuse e sua verve libertária, mesclada à análise crítica da civilização tecnológica, de modo que em Marcuse poderiam-se haurir forças para lutar por um outro mundo possível, em que Eros padecesse menos que hoje, quando está acorrentado e diminuído, subjugado por repressões em excesso.

Herbert Marcuse e Angela Davis

Herbert Marcuse e Angela Davis

“Marcuse linked economic exploitation and the commodification of human labour with a wider concern about the ways in which generalised commodity production (Marx’s basic description of a capitalist society) was at one and the same time creating a massive surplus of wealth through economic and technological development and an acceleration of the process of reducing humanity down to the level of a mere cog in the machine of that production.”

PETER THOMPSON, The Guardian (click na imagem para ler o artigo na íntegra)

Marcuse no Guardian

Nos anos 1940, conta-nos a História da Filosofia da Editora Nova Cultural, os pensadores frankfurtianos serão impulsionados pelos tempos sombrios em que vivem a realizar uma genealogia do totalitarismo, uma compreensão dos fundamentos dos horrores de que foram contemporâneos: 

“Sob o impacto do nazismo e da 2ª Guerra Mundial, a teoria crítica iria procurar a genealogia do fenômeno totalitário não apenas na crise econômica, política e social, nem no erro tático ou estratégico das forças de esquerda alemãs, mas, de maneira original, em uma questão metafísica: é a própria noção de razão e de racionalidade a responsável pela produção do irracional fascista. Essa razão se funda na hostilidade ao prazer, na renúncia à felicidade, no ‘ascetismo do mundo interior’, no domínio e controle da natureza exterior e das paixões humanas. A natureza assim reprimida se vinga na forma de destrutitividade social. É dessa época – a década de 40 – a obra Dialética do Esclarecimento , fragmentos filosóficos de Adorno & Horkheimer. (…) Daí derivam as reflexões frankurtianas a respeito das tendências no mundo moderno para o totalitarismo, mundo homogêneo, uniforme, sem oposição, que suprime os indivíduos ao liquidar sua autonomia e a liberdade de ação na história.” (op cit, p. 461)

O Iluminismo havia prometido um porvir luminoso que o séc. XX foi obrigado a constatar que havia falhado ao encontro. A promessa não havia se cumprido, como provavam as câmaras de gás e fornos crematórios espalhados por um Europa totalmente devastada por guerras e holocaustos. Não era crível, em tal era sangrenta, a idéia de que a História fosse uma escadaria que sempre sobe rumo a um progresso mais alto, e que a Humanidade não cessava de triunfalmente subir estes degraus que conduzem ao El Dorado da Utopia encarnada… A filosofia de Adornos e Benjamins, de Marcuses e de Arendts, nasce na plena consciência de que a sociedade passa por “recaídas periódicas na barbárie” (Siqueira Abrão, p. 463).

A hýbris desta sociedade racionalista, tecnologizada, posta ao serviço da acumulação de capital em poucas mãos, chafurdada no consumismo alienado e ecologicamente predatório, trouxe-nos às beiras do colapso da biosfera terrestre. Vivemos hoje, na aurora do século 21, diante da perspectiva da caotização intensificada dos fenômenos climáticos e das catástrofes socioambientais. Nossa technê nos trouxe até aqui: a este ponto da História onde a Natureza, excessivamente transformada e dominada e poluída pelos seres humanos, acirra seus processos extremos e incontroláveis, que ameaçam a humanidade com inauditas hecatombes (como se já não fôssemos bastante capazes de, através de nossas lambanças, causarmos imenso mal a nós mesmos e nosso habitát, de Fukushima no Japão ao desastre em Minas Geras neste Novembro de 2015).

Brazilian Fukushima
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A Escola de Frankfurt não é só limitada à crítica das forças dominantes, do status quo, mas também inclui a reflexão sobre uma revolução possível. E talvez Walter Benjamin estivesse muito próximo da lucidez de que hoje necessitamos quando disse que as revoluções são como freios de emergência, que é preciso puxar quando as classes dominantes pilotam a sociedade – em nosso caso, o próprio planeta! – no rumo do colapso, com a estupidez notória de quem conduz-nos cegamente ao suicídio coletivo. “Marx afirma que as revoluções são a locomotiva da história”, escreve Benjamin, “mas talvez seja o contrário; pode ser que elas sejam o freio de emergência da humanidade que viaja nesse trem.”

Olgária Matos descreve bem a originalidade e a pertinência, ainda hoje válidas, da Teoria Crítica “frankfurtiana” ao situá-la em sua emergência histórica e em seu debate (fecundo) com o marxismo:

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“O Instituto para a Pesquisa Social surge na Alemanha em 1923 num período de êxito da revolução bolchevique na União Soviética. Trata-se de uma fase em que a Alemanha, depois de ser proclamada a República, em 1918, assiste a duas insurreições operárias, a de 1918 e a de 1923. A iminência da revolução proletária, nos termos clássicos, é vivida como uma realidade, sobretudo a influência do pensamento de Karl Korsch e Lukács marca muito os pensadores desse período. A referência básica é a idéia de que uma sociedade melhor, mais justa, mais feliz, só pode vir por meio da revolução social.

Num ensaio de 1937, considerado um panfleto da escola [de Frankfurt], Horkheimer, embora continue se afirmando marxista, e dizendo que acredita na idéia da revolução como única forma de redenção social, diz: ‘Essa idéia de Marx que só existe uma única classe social, sujeito de toda história, é uma utopia.’ Em outros termos, a idéia de que na luta de classes uma delas – o proletariado – é a preferencial, a que não apenas é a mais despojada, mais humilhada, mais oprimida, mas que também está encarregada de realizar o futuro livre da humanidade, a idéia, enfim, de classe como motor da história, é algo que Horkheimer já tem uma certa dificuldade em aceitar. (…) Desse modo, revolução não é progresso, não é sinônimo dele, mas sim justamente o meio pelo qual é possível realizar uma interrupção temporal, isto é, sair da linha de um progresso que acarretou consequências terríveis.

O distanciamento em relação ao marxismo já está sendo gestado no interior da teoria crítica. Além disso, na fase que vai de 1944 até a década de 1950, sobretudo com a obra Dialética do Iluminismo, de Horkheimer e Adorno, a idéia de classes e de luta de classes desaparece: passam a substituir a crítica da economia política pela crítica da civilização técnica. Assim, o tema agora é a crítica da racionalidade produtivista, da racionalidade de dominação, tanto a da ciência quanto a da técnica moderna.

Nesse período, a Alemanhanha deixa de ser a referência exclusiva. Os pensadores da escola [Adorno, Horkheimer] já tinham emigrado para os EUA, e estavam vivendo a experiência de uma civilização pragmática e altamente tecnológica. Tematizaram o ‘desencantamento do mundo’ e a perda do sentido da existência numa civilização que é inimiga da memória, do passado. Pensaram criticamente uma racionalidade que pode levar à destruição planetária. ” (OLGÁRIA MATOS)

O valor desta empreitada para o mundo de hoje torna-se explícito: a Razão que a Teoria Crítica almeja destronar, desmascarar, dela divergir, prossegue triunfante e levando-nos a um cortejo de calamidades triunfais. Tanto aqueles que pensam uma ética global e cosmopolita que nos torne responsáveis pelos viventes vindouros e pelo futuro da vida no planeta, na esteira de autores como Hans Jonas (autor de O Princípio Responsabilidade) e Michel Serres (autor de O Contrato Natural), tanto aqueles que militam na causa ecosocialista (mapeada com brilhantismo no livrinho de Michael Löwy), tem ainda muito a aprender bebendo na obra de Horkheimers e Marcuses, de Adornos e Benjamins…

Eu diria, pra terminar, que Escola de Frankfurt não constata a morte total do Iluminismo: ela encontra sua utopia enterrada sobre os escombros, como uma pequena brasa que resiste por baixo das cinzas. Mesmo na obra considerada como tão pessimista de Adorno e Horkheimer podemos sentir a chama de algumas fagulhas de esperança, já que havia, para eles, no passado algumas esperanças que ainda solicitavam serem realizadas, por exemplo o plano libertário de superar a cisão entre Eros e Logos, “tornados antagônicos pela civilização repressiva”:

“Para a teoria crítica, é preciso delinear uma nova figura da razão e da racionalidade que reconcilie o sujeito e o objeto, o homem e a natureza, o corpo e a alma. É preciso que se reunifiquem Eros e Logos, tornados antagônicos pela civilização repressiva. Daí a importância da dimensão estética”, escreve Bernadette Siqueira Abrão, que considera em sua História da Filosofia que a Escola de Frankfurt possui uma potência crítica que pode incidir sobre toda a tradição filosófica racionalista, antiquíssima, que vai de Sócrates e Platão, passa por Agostinho e Pascal, deixa suas marcas em Descartes, Kant e Hegel… Uma tradição que corre o risco de ter transformado uma certa concepção da Razão um ídolo, prostra-se para adorá-lo, achando que este novo deus exige em sua homenagem alguns sacrifícios: “a repressão do sensorial e do sensual, que na tradição racionalista são considerados fonte de erro e ilusão.”(BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO, op cit, p. 463)

Laços de solidariedade quase bacântica poderiam ser estabelecidos entre o pensamento de Nietzsche – que não acreditaria em um Deus que não pudesse dançar, nem julgava que uma vida sem música pudesse ser algo mais que um erro – e certas louvações das arte, de um senso estético desperto, de faculdades criativas em pleno desabrochar, que encontramos nos frankfurtianos. Tanto que Olgária Matos repete sempre que a idéia presente na afirmação de Schelling – “lá onde a filosofia desampara e não consola, aí começa a arte” – poderia ser integralmente reivindicada pela teoria crítica.

“A arte assim compreendida procurará reconciliar Logos, Eros e Chrono, apontando para uma nova concepção de tempo: não mais a dos cronômetros e relógios, tempo vazio e do trabalho abstrato que mede uma espera, mas sim a atemporalidade do desejo, a fim de criar as condições de sua realização, pois, nas palavras de Adorno e Horkheimer, “não se trata de recuperar o passado, mas de realizar suas esperanças.” (op cit. p. 464)

E.C.M., 25/11/2015
CONTINUA EM UM PRÓXIMO POST (EM BREVE)

BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Ed Zahar, Rio, 2006.

ARENDT, HannahHomens Em Tempos Sombrios. Ed. Cia de Bolso.

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. Ed. Brasiliense.

MATOS, Olgária. Vestígios – Escritos de Filosofia e Crítica Social. Ed. Palas Athena, SP, 1998.

HISTÓRIA DA FILOSOFIA. De Bernadette Siqueira Abrão. São Paulo, 2004.

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Márcia Tiburi explica a Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica, com foco em Adorno, Horkheimer, Benjamin e Flusser. TV Puc/Sp.

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Olgária MatosTempo Sem Experiência [41 min]