PLAYING THE PAIN AWAY – Sobre a arte prodigiosa de Tash Sultana e sua prática da catarse musicoterápica

Fico impressionado, de queixo caído, com os múltiplos dons musicais da Tash Sultana. Esta multi-instrumentista australiana, nascida em 1995 lá em Melbourne, vem se destacando no cenário cultural global como uma “banda-duma-mina-só” que esbanja inovação e feeling através dum som viajado, complexo, irrotulável. Sobretudo inspirador.

Virtuose da sinergia, Tash revigora como poucas artistas atuais os domínios do Rock Alternativo e da “cultura neo-hippie”. No processo, semeia fascínio em relação aos poderes da juventude humana quando pode deixar florescer sua criatividade e curiosidade. Com seu controle ímpar de instrumentos múltiplos e pedais de loop, ela chegou pra provar que é possível o surgimento de novos “guitar heroes” que não sejam apenas os que repisam nas pegadas de Clapton, Hendrix, Jeff Beck ou Eddie Van Halen.

Esta guitar heroine despontou com a viralização de seu vídeo caseiro da música “Jungle”, há 3 anos atrás (hoje ele possui cerca de 30.000.000 de visualizações no YouTube – assista abaixo). Com uma câmera estática filmando seu processo de “maga” dos sons, ela mostrou ao mundo que o cenário do indie-rock da Austrália ia muito além do Tame Impala. A performance de Tash, adicionando camadas e mais camadas de sons ao seu caldo de bruxa, voodoo child da novíssima generation, estarreceu muita gente com uma espécie de orquestra rock de uma mulher só:

Natasha (vulgo Tash) empilha sons em camadas superpostas sem precisar para isto do recurso de estúdio do overdub. Ela é capaz de criar, ao vivo, as “paredes de som” Phil Spectorianas que muitos pensavam só serem produzíveis em um contexto de estúdio e overdubbing. Ela é mestra na produção de um fluxo sônico onde os primeiros sons que ela produz na canção entram em estado de loop (repetição cíclica), repetindo-se como um eco do passado que segue presente, e os próximos sons adicionam-se a estes sons tocados no passado que seguem ressoando por proeza da tecnologia digital.

Conforme a canção progride, o que temos é uma espécie de câmara de ecos que poderia chafurdar na confusão mais caótica se não houvesse, no controle do processo, uma “regente” genial de si mesma como esta moça é. A revista Rolling Stone publicou uma crítica onde demonstrou toda sua admiração por um disco de estréia descrito como “deeply impressive”, onde sobressai a “guitar wizardry” da moça que é uma faz-tudo (cantora, compositora, multi-instrumentista, produtora, e por aí vai):

This Melbourne-based busker-gone-legit raises the “do it yourself” stakes with her debut, which is a top-to-bottom showcase of her varied virtuosity; she’s the lone musician credited on the album, as well as its producer and songwriter. Given Sultana’s playing-for-tips roots, it’s probably appropriate that Flow State whirls through styles — “Cigarettes” starts as loose-limbed R&B then speeds things up to a near-frantic pace, “Salvation” recalls the marriage of big beats and gossamer voices that dominated indie discos in the late Nineties, and the simmering “Seven” showcases Sultana’s violin skills over plush synth-pop and agitated chase-scene scores. Sultana can play 20 instruments, but her guitar wizardry is the clear star here; the yearning solo on “Pink Moon” yawps and shudders, while the gathering-storm riffage of “Blackbird” stretches out over nearly ten minutes, all thrilling. After years of being a festival and YouTube sensation, Sultana’s thrown down the gauntlet forcefully. (ROLLING STONE)

Parece-me que este é um procedimento estético que, além de dialogar com aquilo que o Radiohead fez de mais vanguardístico em sua carreira (a exploração cada vez mais arrojada de patterns rítmicos e ambiências que rompessem todas as caixinhas fechadas dos dogmas e paradigmas), aproxima Tash da “lógica” dos mantras budistas. Além disso, faz com que ela dialogue com a filosofia do Eterno Retorno Nietzschiana, como se seu imperativo categórico enquanto musicista fosse: “toque cada nota e cante cada frase como se você quisesse que aqueles compassos se repetissem eternamente no futuro da canção”.

Mas ninguém precisa intelectualizar demais a sua “stésis” (ou seja, seu aprendizado a partir da experiência sensorial) pra apreciar esta música: ela é capaz de fazer algo de benigno com nosso cérebro se simplesmente nos abrirmos a ela, sem pensamentos inúteis servindo de barreira para o impacto de seus encantos. Seus dois primeiros álbuns, Notion (2016) e Flow State (2018) – que A Casa de Vidro disponibiliza para dowload gratuito – penetram por nossos sentidos como uma avalanche sensorial complexa e inebriante, uma espécie de hippie-prog-rock do século 21.


“Synergy”, canção que abre o EP de estréia de Tash Sultana, Notion 

A habilidade rítmica da moça faz com que ela seja mestra em nos conduzir ao transe místico. Como uma neo-hippie pilotando a tecnologia da atualidade com maestria poucas vezes vista, Tash Sultana abre novos horizontes para uma percepção mais fluida de mundo e para uma redescoberta da música como mística. Ouvir os álbuns é uma vivência que recomendo, mas antes de ir a eles seria interessante uma imersão nos vídeos, pois neles se explicitam melhor os procedimentos técnicos e performáticos que permitem que uma musicalidade de tamanha complexidade possa nascer, ao vivo, de uma única pessoa, extraordinariamente jovem, que toca todos os instrumentos que se ouvem em seus shows e discos – o que alguns ouvintes vão julgar inacreditável. Tash Sultana toca como se quisesse nos conduzir, pela via dos sons, a alguma espécie nova de iluminação búdica.

FAÇA O DOWNLOAD DA DISCOGRAFIA DE TASH SULTANA EM MP3 – Notion EP (2016) e Flow State LP (2018)

Pra se ter uma noção do que são Notion e Flow State, são necessárias repetidas imersões em seus complexos sons. As explorações de territórios novos no indie rock, como Velvet Underground, Talking Heads ou Pixies fizeram no passado, convivem na obra de Sultana com influências culturais orientais, vibes meio rasta, flertes com o dub e o trance, tudo impregnado de uma espiritualidade meio búdica. Uma neo-hippie no perfeito comando da tecnologia a seu dispor, ela é também capaz de explorações existenciais e mergulhos psicológicos que expressam sua subjetividade conturbada. Uma de minhas prediletas fala sobre tudo aquilo que nos oprime por dentro, nos confunde a subjetividade, nos esmaga invisivelmente – tudo que é “assassinato pra mente” (“murder to the mind”):



“I was only screaming out for help
It was murder to the mind
It was blood on my hands
Fire in my soul…”

“Murder to the Mind” é uma das músicas que mais impressionam em Flow State, um dos álbuns de estréia mais ambiciosos do século 21. O videoclipe é primoroso e revela ao espectador toda a densidade da experiência sensorial envolvida em Tash Sultana. Ela, em operação, é um corpo pulsando intensamente com a música, com seu organismo inteiro movimentado pelo estado-de-fluxo que a música propicia quando se é capaz de cometer, com ela e através dela, “abraço místico”, tema de outra das lindas canções do disco, “Mystic”, que evoca Van Morrison e sua música que nos conduz a “velejar into the mystic” em obras-primas da história da música como Moondance e Astral Weeks:


“There’s a natural mystic in the air…”

Na guitarra de Tash, repercutem os ritmos do dub, do ska, do reggae, do R&B, enfim: da diversidade abraçada, celebrada, praticada. Ela vai criando riffs onde também se manifestam toda a maestria Sultânica para a arte do loop. E acima de tudo isso, evidências de sobra de que ela sabe rockear: sua atitude nos palcos e na vida é de alguém que sabe também ser confrontacional. Outro de seus méritos enquanto musicista é que, não importa quão experimental seu som se torne, ela é sempre groovy em seu processo de ir experimentando… Não se trata apenas duma geek privilegiada que está com tempo livre de sobra pra aprender uns gimmicks com pedais-de-guitarra e softwares de sequenciamento de beats. Em Tash Sultana, estes instrumentos estão a serviço da maestria expressiva e interpretativa:


Estamos em uma era, na música, onde se agigantam de novo as teens fenomenais, dando uma nova versão da angústia adolescente através de uma Billie Eilish, mas igualmente através da imensa sabedoria que Tash Sultana já manifestava aos 21 anos de vida. Isso se evidencia na TED Talk em que ela, em clima confessional (similar àquela linda sessão TED com Flaira Ferro), relembra de certos episódios de sua vida pregressa em que lidou com a “psicose”, a confusão mental, a insociabilidade, a incapacidade de funcionar corretamente em meio à sociedade careta. Toda aquela dor, ela diz, foi sendo trabalhada através do tocar música, até que ela tenha alcançado um pouco de “clareza” [clarity] sobre os afetos [passions].

Aí, parece-me, está se exprimindo algo que também marcou a trajetória de Kurt Cobain, aquele irônico e icônico ídolo juvenil suicidado aos 27 e que cravou versos inesquecíveis como aquele que agora acorre à memória: “teenage angst has paid off well” (de “Serve the Servants”, magistral faixa de abertura do “In Utero”). Talvez Sultana possa dizer que conheceu a teenage angst cobainiana, que esteve tentada a auto-destruir-se devido a suas suicidal tendencies, mas que conseguiu, ao contrário do líder do Nirvana, encontrar saúde e clareza através da catarse musicoterápica. O que a aproxima também de Laura Jane Grace, mulher-trans à frente de uma das mais importantes bandas punk do mundo, o Against Me, que também fala no processo de “buscar claridade” em meio ao caos, através de sua arte, em álbuns incríveis como Searching For a Former Clarity e Transgender Disphoria Blues.

Ela não buscou esta catarse através da expressão por vontade de se conformar aos padrões e paradigmas da sociedade careta, mas ao contrário foi “playing the pain away” em sessões de performance-de-rua [streetperforming] que ela foi burilando seu estilo e aprendendo a comandar a impressionante aparelhagem que ela opera. Multi-instrumentista capaz de tocar mais de 10 instrumentos diferentes, ela é prova da vivacidade extasiante da capacidade de aprender humana manifestando-se na flor da juventude. Skateira, pouco conformada aos padrões de gênero que propõe à mulher que seja dócil e comportada, sempre de trejeitos “femininos” (ou seja, delicados…), ela traz na pele tatuada os signos de uma ânsia por sentido, diante da morte, construída com arte.

Aquela TED Talk, neste contexto, ensina uma imensidão: uma mente humana, há 21 anos no mundo, é uma das coisas mais complexas e fascinantes do cosmos – e pobres dos velhos que, prepotentes e arrogantes, ousam desprezar a juventude e supõe que ela é sempre mais tola e estúpida do que a geração que está a mais tempo no mundo. Na verdade, pode ser que o apego às velharias conhecido pelo nome de conservadorismo seja uma esclerose senil e que as forças da renovação da existência encarnam-se na geração juvenil. Isto é tão óbvio e evidente mas precisa ser reafirmado diante de uma faceta que nos esfaqueia no fascismo da atualidade: os fascistas são quase sempre velhos, opressores da juventude, apegados ao dogma de que os mais velhos devem mandar, numa espécie de gerontocracia. 

A música e a pessoa de Tash Sultana é pra dar um pontapé nesses arrogantes gerontocratas. A juventude pode muito e ainda vai poder mais: Rimbaud já tinha marcado para sempre a história da poesia francesa com 17 anos de idade, e eu afirmaria sem medo de errar que a música “pop” nos EUA poucas vezes foi marcada por uma obra prima artística tão primorosa quanto foi pelo lançamento de Tidal, disco de estréia gravado por uma Fiona Apple  que havia criado aquilo após apenas 16 giros de seu corpo ao redor do Sol.

Na esteira dos Beatles e do mantra “Can’t Buy Me Love”, ela realizou “Can’t Buy Happiness” (Não Se Pode Comprar Felicidade), sugerindo que só se é feliz, nesta vida, quando utilizamos a criatividade para lidar com os sofrimentos inevitáveis que a vida comporta.

A salvação não precisa ser privilégio dos crentes, nem ser necessariamente post mortem: pra salvar-se em vida de uma morte travestida de existência, de uma meia-viva apagadinha e meia-boca, é preciso que a arte seja convocada para infundir beleza e sentido ao que de outro modo poderia chafurdar no nonsense e na insignificância confusa. Para além de ser uma wizard dos instrumentos musicais, de ser brilhante no controle dos aparatos tecnológicos, Tash Sultana é também alguém que vivencia a arte como espiritualidade – o que é laico, secular, acessível a qualquer ateu. A beleza é um deus terreno que não exige de nós crença na transcendência sobrenatural, nem sacrifícios ascéticos em louvor a esta. Salvação, aqui e agora, através da criação, pela arte, de um mundo mais belo e mais habitável, de uma vida mais fascinante e envolvente.

É claro que, de um viés crítico, há o que se dizer sobre esta hipérbole do protagonismo que é o método do-it-yourself de Sultana levado ao extremo de um do-it-alone (with no one else). Alguns podem ler excesso de individualismo nesta estratégia artística de alguém que quer fazer tudo, estar no controle de todos os elementos, levando a questão da expressão individual à elefantíase. Avessa à especialização de funções, Tash não quis chamar uns brothers ou sisters para tocarem baixo, batera, trompete com ela. Ela toca consigo. Será isso solipsismo? Mesmo numa artista que, em “Mystic”, nos fala de uma sabedoria que consiste em botar o ego pra dormir?

“I guess I laid my ego to rest.” (“Mystic”)

Ela corre o risco de se embrenhar numa jornada egóica, como muito guitar hero já fez, fazendo a ostentação de seus feats técnicos para platéias embasbacadas. Ela é prodigiosa e sabe disso, mas isto coloca o perigo de um ego que cresça como um balão que se enche de ar e se desprega do chão. De todo modo, como o clipe de “Cigarettes” indica, Tash é um exemplo vivo do que pode acontecer com alguém que tem sua iniciação musical bem cedo, que tem seus dons expressivos incentivados desde o berço, e que ademais consegue trilhar como estudante os caminhos do aprendizado auto-didata (ela se diz self-taught):

Em seu pertinente e provocante documentário The Century of the Self, Adam Curtis sugeriu que vivemos no “século do self” no último centênio. Tash Sultana é expressão isso, de uma self made woman que conseguiu tornar-se “sozinha” um fenômeno transnacional da música. Só que este self é nela questionado pelos tropismos que ela manifesta pelas vertentes da sabedoria oriental que colocam a felicidade justamente na transcendência do ego e numa mística da re-união. Búdica religião do re-ligare, que através da arte faz o eu transbordar de si e encontrar-se com outros na mística profana e maravilhosa da comunicação estética. Através de sua arte, como uma blueswoman tecnizada, ela segue a caminhada da vida playing the blues away, na descoberta de uma catarse musicoterápica.

 

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 20/12/2019

Acessar todos os escritos sobre música

Acenando adeus a Chris Cornell, ícone da Geração Grunge – In Memoriam [1964 – 2017]

Uma das vozes mais extraordinárias do rock global nas últimas décadas calou-se para sempre, aos 52 anos, deixando como legado algumas canções imorredouras e um rastro indelével na história do Grunge.

Chris Cornell (1964 – 2017), que encantou e comoveu cantando no Soundgarden, no Audioslave, no Temple Of The Dog e em sua carreira solo, agora adentra o panteão de mortos ilustres da revolução sônica noventista, nascida e explodida deste Seattle, onde já estavam Kurt Cobain (Nirvana), Layne Stanley (Alice in Chains), Mia Zapata (The Gits), Andy Wood (Mother Love Bone), Scott Weiland (Stone Temple Pilots), dentre tantos outros mortos precoces do hypado cenário musical da terra natal de Jimi Hendrix.


“Words you say never seem
To live up to the ones
Inside your head

The lives we make
Never seem to ever get us anywhere
But dead

The day I tried to live
I wallowed in the blood and mud with
All the other pigs…”
The Day I Tried To Live

Ao enforcar-se em um banheiro de hotel, Chris Cornell põe um ponto final em sua existência em carne-e-osso de modo a lançar uma luz de crepúsculo sobre toda a sua obra anterior, como que sublinhando que seus lamentos musicados e seus berros de angústia impregnados não eram mera dramaturgia e jogo-de-cena. Eram a expressão genuína de um coração dilacerado pelos fardos que tinha em suas mãos e pela lida louca de tentar viver nesta estrepitosa estrada – “cheia de som e fúria e que não significa nada”? (Macbeth) – que ele batizou de Superunkown.


Chris matou-se e nos deixou chafurdando numa lama de porquês, meditando sobre vários “talvez”. Talvez, sem nenhuma intencionalidade consciente, Chris Cornell tenha partido do mundo deixando-nos uma série de emblemas.

Acenou adeus ao mundo enforcando-se na metrópolis que é uma encarnação da distopia Yankee, a outrora próspera capital-mundial-do-automóvel Detroit, hoje uma autêntica Devastolândia. Uma terra histórica para a música estadunidense (Motown, MC5, Stooges, White Stripes…), hoje reduzida a escombros do que foi outrora, prova viva da insanidade do american way of capitalism.

Ali Cornell rompeu com as grades desta jaula enferrujada que para ele tinha se tornado a vida.


Ele quis, talvez, com este ato derradeiro e fatal, demitir-se da Era Trump, que afinal não permite esperanças róseas de futuro erguendo-se no peito de ninguém (o que se ergue é o pavor da hecatombe nuclear e da estupidez da guerra devastadora on repeat). Quis afastar-se de vez do “pesadelo climatizado” de que falava Henry Miller, para enfim dar entrada naquele Trágico Olimpo onde habitam figuras que o mesmerizavam – como Kurt Cobain, Ian Curtis, Jeff Buckley, Mia Zapata † R.I.P etc.

Demitiu-se da vida, talvez, sonhando que valia a pena acabar de uma vez por toda com todo o sofrimento – também com toda felicidade – e ganhar de brinde, ainda que jamais sorvível por sua consciência, enfim uma consagração ao panteão dos deuses da música, dos mestres da voz? Não: talvez ele não estivesse pensando em fama póstuma, talvez estivesse simplesmente cansado de tudo, solitário mesmo ao cantar diante de multidões, sentindo-se como uma minoria de um, uma fading light, “The Disappearing One”.

Tudo o que ele mais temia veio à vida, tudo o que havia buscado construir como ninho mostrou-se no fundo como um túmulo disfarçado. À questão que, em O Mito de Sísifo, Albert Camus julga ser a mais fundamental das fundamentais, Cornell respondeu em ato, como antes havia feito Cobain: à pergunta “a vida vale a pena ser vivida?”, ele respondeu: “não mais”. Talvez ele apenas tenha caído em dias sombrios, mas sem ter tido mais a paciência ou a persistência para atravessá-los.


Talvez Chris Cornell sentisse que estava ficando pra trás, que o Audioslave já tinha sido sepultado e que seus ex-companheiros de banda já seguiam jornada, sem ele, sem precisar dele, sem ligar pra ele, profetas da raiva na nova empreitada de thrash metal hip hopper dos Prophets of Rage.

Chris, talvez, não sentisse mais em si queimando a chama vivaz da rebeldia, só o demônio malfazejo da depressão. A depressão, aliás, contra a qual ele parece ter lutado por toda a vida, e que enfim venceu a batalha, fatal demônio do meio-dia, sugador de vidas criativas em profusão, como mostram os casos de figuras como Sylvia Plath e Virginia Woolf, dentre tantas outras (Cf. ALVAREZ, O Deus Selvagem)


Talvez o Soundgarden fosse pra Chris já um jardim arrasado, um mamute lendário cuja força titânica já havia ficado no passado, envelhecido T-Rex perdendo seu vigor e que já não seria capaz de fazer jus, em seu futuro, aos clássicos Sabbáthicos do grunge que foram discaços como Badmotorfinger ou Superunkown. Não deve ser fácil conviver com uma relativa obscuridade, com uma sensação de decadência, quando em tempos idos já tivemos um grau de reconhecimento tão maior do que o atual.

Talvez aquele que lastimou-se ruidosamente por sentir-se “Outshined” estava sentindo-se obscurecido por um eclipse íntimo duradouro, uma noite que não passava, um “Black Hole Sun” que ele foi descobrindo tratar-se de um buraco negro devorador de toda luz.


Ah, Chris, que sedução estranha e irresistível veio exercer seu fascínio de Tânatos sobre ti, neste Maio de 2017, quando contavas 52 anos de idade, para que tenhas decidido encerrar sua estadia entre os vivos? Você foi com fé ou foi totalmente ateu? Foi com a esperança de que, lá do outro lado, beberia um vinho com Jeff Buckley e vocês cantariam em dueto as lindíssimas melancolias musicadas de “Grace”?

Talvez, quem sabe, Chris tenha pensado em Andy Wood, morto por overdose antes de tornar-se o rock-star que todo mundo esperava que se tornasse. Talvez Chris tenha se lembrado de que, sobre o cadáver do Mother Love Bone, ergueram-se monumentos da música estadunidense: o álbum de estréia do Temple Of The Dog e as sementes do Pearl Jam.

Terá morrido com o reconfortante consolo de que algo musicalmente esplendoroso seria erguido em sua homenagem, depois de sua partida? Que nova “Hunger Strike”, cantada em dueto com Eddie Vedder, virá para celebrar a vida e a morte de Cornell?



Chris, você deixa-nos lotados de perguntas e perplexidades. O fim da tua vida faz emanar algo semelhante à tua arte: a sensação de que, como diz Albert Camus, “a angústia é o habitat perpétuo do homem lúcido”. Teus wails eram o lamento de um homem cujo fardo eram enxergar bem demais as agruras do mundo. Tua alma atormentada era grungy como a garganta abissalmente profunda de Mark Lanegan. Alguns de teus berros são tão viscerais quanto Cobain dando uma de blueseiro e rasgando um Leadbelly ao fim do Acústico MTV.

Chris Cornell: em ti eu encontrava, comovido, um artista capaz de catarse e de expressão emocional impressionantes, conjugadas com um domínio técnico de seu métier de cantor que o tornam, sem dúvida, um dos gênios-da-voz no rock contemporâneo.O grunge, afinal de contas, tinha um pé fincado na lama do blues e outro pé saltando no lodo do punk; Chris Cornell, que também tinha algo de headbanger e foi muito celebrado por metaleiros como uma espécie de Dio de Seattle, tinha uma tamanha capacidade de musicar seus tormentos íntimos de modo hiperbólico e teatral, que pode até considerado uma das figuras prefiguradoras do emocore (tal como se manifesta no At The Drive-In ou no Linkin Park, por exemplo).

Assisti Chris Cornell em ação sobre o palco duas vezes, ambas muito impressionantes: um show de sua carreira solo em São Paulo e um show recente do Soundgarden no Festival d’Été de Québec. Aquela voz era de fato merecedora de ressoar por um vasto espaço, ecoando pela arena, pois carregava uma imensidão de sentimentos e de nuances, nos seus melhores momentos evocando O Grito de Munch. Se aquela pintura cantasse, talvez soasse como Chris Cornell no auge de suas catarses?

Sua vida e sua obra não serão esquecidos – com o perdão deste clichê de necrológios que é aqui mais uma vez tão válido. Seu organismo esfacelou-se, seu gogó calou-se para sempre, mas sua música fica entre nós, legado imorrível que não cessará de nos emocionar e nos empolgar. Que essa morte seja uma semente, que a plantemos em nossos campos e que dela sigam crescendo as Screaming Trees de nossa sublime e dilacerada grungidade.

Em “Wave Goodbye”, do seu disco-solo de estréia Euphoria Morning, o homenageado era o talentosíssimo Jeff Buckley, que afogou-se aos 30 anos tendo lançado apenas um álbum, “Grace”, uma das obras-primas da música global no fim do século XX. Agora é nossa vez de cantar, com a voz embargada, um “Wave Goodbye” para Chris Cornell, recém-embarcado numa estrada da qual nenhum viajante jamais retornou: a Superunkown que vai ao Hades e é uma via de mão única. Para aquele que criou e extroverteu tanta música cheia de alma, it’s just the end of the world.

E se alguém ainda nutre dúvidas de que perdemos um baita dum Poeta Grunge, antena de seu tempo e geração, relembro uma canção obscura de “Euphoria Morning” (1999), chamada “O Travesseiro Dos Teus Ossos” (“Pillow of Your Bones”). Ela ganha hoje uma nova camada de densidade enquanto a carne que recobria os ossos do cantor do Soundgarden e do Audioslave vai se desintegrando no seio da Phýsis e ele prepara-se para a sina sem dores de esqueleto.

Aí, nesta canção impressionante, Chris Cornell – que neste álbum já havia evocado nada menos que um fim do mundo, testemunhado e compartilhado por um eu-lírico “Radioheadiano” – segue explorando uma escrita hiperbólica, que deve ter lá suas similaridades com as tempestades psíquicas de poetas como um Rimbaud, um Lautréamont, um Poe… Cornell destila um lirismo sombrio através de sua pictórica poiésis, escancara paradoxos verbalmente cheios de wit (“the rising of my low”), e prova que é um letrista ainda muito sub-estimado e sub-apreciado.

Eis um compositor merecedor de mais estudo até mesmo por nós filósofos, que muitas vezes ficamos discutindo o conceito de catarse em Aristóteles, não avançando além dele, o que nos deixa desagradavelmente antiquados, pois poderíamos muito bem discutir catarse – e Estética – também, por exemplo, através da Geração Grunge e das obras de Cobain, Vedder, Cornell, Stanley, Lanegan (por uma sala de aula com mais Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains e Screaming Trees!). Ladies and germs, listen to an awesome grungy poet:

PILLOW OF YOUR BONES

The embers of the saint inside of you
Are growing as I’m bathing in your glow
I’m swallowing the poison of your flower
And hanging on the rising of my low
Colorful and falling from your mouth
Like a painted fever in recoil
Like a lie without the pain

On a pillow of your bones
I will lay across the stones
Of your shore until the tide comes crawling back

A waning hand on silver granite ways
Will mend my broken limbs and bend my haze
I’m sleeping in the silence of your voice
I’m cradling the peril of my only choice
Colorful and falling from your mouth
Like a painted fever in recoil
Like a lie without the pain

On a pillow of your bones
I will lay across the stone
Of your shore until the tide comes crawling back
Throw my pillow on the fire
Make my bed under the eye
Of your moon until the tide comes crawling back

Even though the truth can burn inside or fall behind
I will wander through your open mind
And you will find no lie can hide
Until the tide comes crawling…

COMPARTILHAR NO FACEBOOK

– Uma homenagem a Chris Cornell (1964 – 2017), in memoriam.
Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro.

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com

What-Happened-Miss-Simone-posterO artista genuíno é ao mesmo tempo um espelho de sua época e uma fonte perene de beleza e inspiração para a posteridade. Tal definição me ocorre diante desse fenômeno da natureza que foi Nina Simone (1933-2003), a quem é devotado o documentário What Happened, Miss Simone? (uma produção Netflix, direção de Liz Garbus, 2015).

Eu, que já tinha Nina em alta estima como uma das cantoras mais magistrais da história de sua nação, no patamar duma Ella Fitzgerald, duma Billie Holiday, duma Sarah Vaughan, duma Bessie Smith, só tive minha admiração aumentada ao conhecer mais o ser humano extraordinário que ela foi. Tamanha honestidade e profundidade expressiva, tamanha capacidade de comunicar afetos dos mais diversos, tamanha sensibilidade à flor da pele, tamanha musicalidade genuína e transbordante, é uma jóia rara!

Logo no início do filme, ela revela sua fórmula da liberdade: “freedom”, opina Nina, significa “no fear” (ausência de medo). Levei pra vida este novo emblema, que carregarei lado a lado, no lado esquerdo do peito, junto com o verso da Janis em “Me and Bobby McGee” – “freedom’s just another word for nothing-left-to-lose” – e com as inesquecíveis palavras da Cecília Meirelles – “liberdade é um sonho que o coração humano alimenta, não há quem explique e não há quem não entenda.” Nina Simone, rebelde com causa, voz visceralmente comovente, ensina-nos um bocado, na práxis, sobre os espíritos livres e sobre as batalhas que combatem contra as gaiolas.

Eunice Waymon nasceu numa família pobre, de 8 filhos, na Carolina do Norte. Começou a tocar piano aos 3 anos de idade e desde cedo sonhou em entrar para a história como a primeira pianista clássica negra dos EUA. Estudando de 6 a 8 horas diárias, logo aprimorou-se em suas interpretações de Bach, Debussy, Chopin, Brahms, entre outros compositores. Porém, sentia na pele, desde então, o racismo da sociedade norte-americana na época da lei Jim Crow: para ter aulas de piano, por exemplo, precisava se dirigir ao “setor branco” da cidade, sinal inequívoco da segregação racial vigente.

Criança

A pequena Eunice Waymon

A carreira de “rebelde com causa” de Nina Simone teve seu início precoce aos 12 anos de idade, quando ela apresentou seu recital de estréia em uma igreja. O Sul norte-americano dos anos 1940 não era fácil: o racismo cotidianizado era tão difundido que os pais da pequena Eunice foram proibidos de sentar na primeira fileira para assistir a filha tocar, já que eram negros e aqueles assentos estavam reservados para brancos. Conta a lenda que Eunice recusou-se a começar o concerto antes que seus pais pudessem se sentar na frente.

Sua mãe, pastora metodista, costumava levar a pequena Eunice aos cultos, onde a intensidade da música gospel impressionou indelevelmente a pequena (é bem sabido que algumas das vozes mais sublimes e poderosas da música dos EUA, como Mahalia Jackson e Aretha Franklin, possuíam raízes firmemente plantadas no solo do gospel). Com o desenrolar de sua carreira pianística, Eunice Waymon estuda na escola Julliard em NYC. Posteriormente, é recusada como aluna de conservatórios mais conservadores (leia-se: mais racistas), como o prestigioso Curtis Institute da Philadelphia.

Para ganhar a vida, começa a tocar em bares e cabarés de Atlantic City, ocasião em que decide mudar seu nome de Eunice Waymon para Nina Simone (unindo o diminutivo carinhoso de Eunice, Nina, com uma homenagem à atriz Simone Signoret). A decisão de adotar o nome artístico veio menos de interesses comerciais e mais de seu desejo de que a mãe não soubesse que ela andava tocando “música do diabo” para platéias noctívagas em pubs de reputação duvidosa… 

Nina7

Sua carreira deslancha quando ela, além de tocar piano clássico de modo magistral, começa a soltar seu gogó-de-ouro em canções de jazz, blues, folk, soul. Logo ganharia o apelido “High Priestess of Soul” e se consolidaria como uma “diva”, mas com a originalidade de estar conectada à tradição afro dos griots. Nina apresenta-se em importantes festivais internacionais, com destaque para o Newport Jazz Festival em 1960 e para o Festival de Montreux, na Suíça, em 1976. Concretiza também seu sonho de tocar no Carnegie Hall, em 1963. Já sua produção discográfica, que abrange cinco décadas, é impressionante em quantidade e qualidade, levando-nos a pensar em Nina Simone como uma fonte exuberante e inesgotável de música sincera, intensa, sempre heartfelt (obs: ao fim deste post, baixe gratuitamente muitos álbuns dela na íntegra!).

Nem tudo são flores na vida pessoal de Nina, porém. Casa-se com Andrew Stroud, um policial do setor anti-narcóticos de NYC que, depois do casório, torna-se também seu empresário. Andy, como revelado pelo filme, era mandão e capaz de muitas brutalidades com a esposa, forçando-a a uma maratona de trabalho extenuante e violentando-a na vida doméstica. O casamento é problemático ao extremo: Andy pressiona a esposa para que trabalhe até o limite, viajando o mundo em turnês, a ponto dela sentir-se como um cavalo-de-corrida (race horse) que é forçado até às beiras do colapso. Pior: são frequentes os episódios de violência doméstica em que Nina é espancada pelo marido. Nina narra no documentário até mesmo a cena de um estupro perpetrado por um truculento Andy.

O casal tem uma filha, Lisa, entrevistada pelo filme, que revela os graus de violência doméstica em que viveram (e a própria Nina não é poupada de acusações, por parte da filha, já que Lisa revela ter sido vítima de espancamentos perpetrados pela mãe…). A vida privada da diva, sua agenda sempre lotada, sua farmacopéia de pílulas, vão gerando um quadro psíquico de depressão, fadiga, insônia, bi-polaridade, mood swings… O que culmina no divórcio e no auto-exílio de Nina, que deixou os EUA para tentar viver uns tempos na África, na França, na Holanda.

Além de canalizar todos estes afetos de sua vida inter-subjetiva em suas canções – de modo a influenciar a emergência posterior de artistas como Joni Mitchell, Fiona Apple, Tori Amos, Regina Spektor… – Nina Simone também era mestra em transformar em música alguns dos episódios sócio-políticos que vivenciou – o que coloca-a na companhia de figuras como Woody Guthrie e Bob Dylan.

 Birmingham4-little-girls1

Na cidade de Birmingham, no Alabama, em 1963, uma igreja batista da comunidade afroamericana é bombardeada pela Klu Klux Klan, com o saldo sinistro de quatro garotinhas mortas. Este crime racista que choca a nação – e que será documentado por um dos grandes cineastas norte-americanos, Spike Lee, em Four Little Girls – gera imensa revolta em Nina Simone, que escreve a canção de protesto “Mississipi Goddam”. Na canção, que logo torna-se uma espécie de hino dos movimentos pelos direitos civis e das lutas anti-racistas, Nina não se acanha de usar toda a força do palavrão (“God damn!”) para transmitir sua indignação diante do descalabro do ato terrorista.

martin_luther_king_jr_s_economic_dream_still_unfulfilled_42_years_later-850x960A politização e radicalização de Nina se exacerbam nos anos seguintes e ela entrega-se de corpo e alma ao Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1960. Em 1965, na histórica marcha liderada por Martin Luther King entre Selma e Montgomery (cuja crônica cinematográfica foi realizada recentemente pelo filme Selma, de Ava DuVernay), Nina Simone esteve lá, cantando para os manifestantes. Porém, como revelado pelo documentário, Nina Simone não era 100% fiel aos preceitos de Luther King e chegou a dizer, sem papas na língua, ao pacifista e gandhiano Doutor King: “I’m not non-violent!” 

Apesar de sua discordância em relação ao pacifismo absoluto de Martin Luther King, Nina Simone admirava-o profundamente como líder político e soube louvá-lo com uma de suas mais belas canções quando King foi assassinado. “The King Of Love Is Dead”, uma composição de Gene Taylor, estava destinada não só a arrancar cachoeiras de lágrimas dos milhões que se puseram de luto diante do cadáver de Martin Luther King, como também se transformaria num espectro a assombrar o país, com seus questionamentos contundentes sobre o que seria do amanhã depois que o amor foi mais uma vez morto a balas.

Once upon this planet earth,
Lived a man of humble birth,
Preaching love and freedom for his fellow man,

He was dreaming of a day,
Peace would come to earth to stay,
And he spread this message all across the land.

Turn the other cheek he’d plead,
Love thy neighbor was his creed,
Pain humiliation death, he did not dread

With his Bible at his side,
From his foes he did not hide,
It’s hard to think that this great man is dead. (Oh yes)

Will the murders never cease,
Are thy men or are they beasts?
What do they ever hope, ever hope to gain?

Will my country fall, stand or fall?
Is it too late for us all?
And did Martin Luther King just die in vain?

Cos he’d seen the mountain top,
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think
Cos we’re heading for the brink.
What will happen now that he is dead?

He was for equality,
For all people you and me,
Full of love and good will, hate was not his way.

He was not a violent man.
Tell me folks if you can,
Just why, why was he shot down the other day?

Well see he’d seen, the mountain top.
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think…and feel again,
For we’re heading for the brink.
What’s gonna happen now that the king of love is dead?

Nina9Influenciada pelo discurso e pelo exemplo de Malcolm X, Angela Davis, Stokely Carmichael, Medgar Evers, do partido dos Panteras Negras (Black Panthers), Nina chega à conclusão de que não há numa solução pacífica para a guerra racial nos EUA. A libertação social dos negros passa a ser vista por muitas vertentes de ativismo radical como conquistável apenas pela guerrilha armada. Tal radicalismo pode ser percebido também em figuras como Frantz Fanon ou no grande músico nigeriano Fela Kuti. Neste contexto explosivo, Nina Simone, apesar de nunca ter abraçado uma metralhadora, põe sua música a serviço desta causa libertária. Tanto que, em sua lendária apresentação no Harlem Cultural Festival, em 1969, em plena guerra do Vietnã, conclama o povo à Revolução:

A politização de Nina Simone, sua adesão à doutrina Malcolm-X-iana do “all means necessary”, é fruto de tempos conturbados em que acirram-se os conflitos raciais no país que a própria Nina apelidou de “United Snakes of America” (Cobras Unidas da América). Nesse contexto, Nina Simone recupera e reinterpreta uma canção que ficou clássica na voz de Billie Holiday, “Strange Fruit”, um hino anti-racista que trabalha com imagens poéticas sinistras e impactantes: os tais “frutos estranhos”, pendendo das árvores, são cadáveres de negros enforcados por brancos. “Black bodies swingin’ in the summer breeze…”


Strange Fruit(Tradução via Vagalume)

Outra peça clássica de seu cancioneiro político é “Backlash Blues”, escrita em parceria com Langston Hughes (1902-1967). Neste petardo rebelde, Nina vocifera contra um certo “Senhor Backlash”, que ela interpela em tom acusativo e rebelde: você aumenta meus impostos, congela meus salários, manda meus filhos para morrer no Vietnã; me dá moradia de segunda classe, escolas de segunda classe, trata todos os negros como se fossem tolos de segunda classe. Aliás, o tal do “backlash” significa um tapa com a parte posterior da mão, oposta à palma, simbolizando a atitude supremacista do branquelo espancador.

BACKLASH BLUES

Mr. Backlash, Mr. Backlash
Just who do think I am?
You raise my taxes, freeze my wages
And send my son to Vietnam

You give me second class houses
And second class schools
Do you think that all colored folks
Are just second class fools?
Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

When I try to find a job
To earn a little cash
All you got to offer
Is your mean old white backlash

But the world is big
Big and bright and round
And it’s full of folks like me
Who are black, yellow, beige and brown

Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

Langston Hughes

É provável que a carreira de Nina Simone pudesse ter sido comercialmente mais bem-sucedida caso ela tivesse sido menos radical em suas posições políticas. O Mercado, entidade bastante cruel, boicotou Nina Simone assim que notou seu ativismo radical anti-racista e pró-direitos civis. De todo modo, o documentário congrega vários depoimentos de Nina em que esta diz que foi compelida a assumir tais atitudes pelos eventos históricos que testemunhou. André Barcinski, em seu texto Quando A Música Importava, explora o tema:

Nina passou a cantar somente músicas de cunho político. Seus discos pararam de vender e os shows rarearam. Os assassinatos de John Kennedy (1963), Malcolm X (1965), Bobby Kennedy (1968), Martin Luther King (1968) e Fred Hampton (1969) deram a Nina a certeza de que uma guerra racial estava em curso no país, e ela passou a defender a violência contra o “domínio branco”. Uma das cenas do filme mostra a cantora perguntando à plateia em um show: “Vocês estão prontos para incendiar prédios?”. Se hoje a radicalização política de Nina Simone pode soar paranoica e agressiva, é preciso analisar o contexto da época e o passado da cantora para tentar entender suas motivações. Numa época em que amigos e políticos que ela admirava eram mortos, jovens negros eram mandados para o Vietnã em números proporcionalmente muito maiores que jovens brancos, e grupos armados como os Panteras Negras prometiam incendiar o país, todo o ressentimento de uma infância passada em um lugar segregado, onde os pais não podiam sequer entrar nos teatros onde Nina tocava piano, fez explodir nela uma fúria incontrolável. Por quase dez anos, Nina Simone sabotou a própria carreira. Defendeu o poder negro “por todos os meios necessários”, aproximou-se de grupos radicais e criticou artistas negros que, segundo ela, faziam concessões ao mercado.

Slavery

Lorraine_Hansberry

Lorraine Hansberry (1930-1965)

Prenunciando o espírito que daria o tom de várias vertentes do movimento Hip Hop – se Gil Scott-Heron é o “vovô do rap”, Nina Simone pode ser considerada como sua madrinha nutriz! – a arte de Nina também inclui um forte elemento de valorização identitária, de auto-afirmação da negritude, algo exemplificado bem pela canção “Young, Gifted and Black”. Esta música foi escrita em memória de uma das melhores amigas de Nina Simone, a escritora Lorraine Hasberry, autora de Raisin’ in the Sun, falecida aos 34 anos de idade. Mais uma vez, a canção tornou-se um hino para todos aqueles que eram “jovens, talentosos e negros”, conclamando à uma atitude de auto-estima e cabeça-erguida que lembra um pouco James Brown e seu hit “Say It Loud: I’m Black and I’m Proud”.

Por essas e outras, Nina Simone é uma daquelas celebridades musicais que não se apaga como as estrelas comerciais mais vulgares, que navegam a crista do hype para serem esquecidas no próximo verão. Nina Simone construiu uma obra cujo legado sobrevive e sobreviverá pela qualidade estética, pela expressividade afetiva, pelo caráter de espelho de toda uma época. Não tenho dúvidas de que esta rebelde com causa foi uma das figuras mais geniais que já pudemos testemunhar em ação diante de um piano e de um microfone.

O lançamento recente do documentário What Happened, Miss Simone? e do disco tributo Nina Revisited (com versões primorosas cantadas por Lauryn Hill e outras figuras contemporâneas) só reativa a chama desta inextinguível fogueira humana. Nina não só viveu e cantou, dando-nos tudo o que tinha, como é cada vez mais inadequado conjugá-la no passado: ela ainda vive e ainda canta, pássaro negro exuberante e sublime que, para citar um poema de Maya Angelou, canta tão belamente pois está em rebelião aberta contra as gaiolas e celebra sempre a liberdade.

A liberdade vivenciada, a liberdade ausente, a ambiguidade da liberdade cuja ausência sofremos e cuja presença deliciosamente desfrutamos, tudo isso anima o canto de Nina a ponto de torná-la uma das vozes mais libertárias que conheço – ainda que não ruja como Zack de la Rocha e não faça as macacagens hardcore de Jello Biafra. Em “I Wish I Knew How It Feels To Be Free”, Nina Simone talvez tenha nos presenteado com a mais sintética expressão de sua vontade de liberdade:

“I wish I knew how
It would feel to be free
I wish I could break
All the chains holding me
I wish I could say
All the things that I should to say
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole round world to hear.”

A versão do Cold Blood, grupo psicodélico de San Francisco, 1960s, com uma vocalista meio Janis Joplin:

* * * *

Nina66

Caged Bird

By Maya Angelou

A free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wing
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

The free bird thinks of another breeze
and the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn bright lawn
and he names the sky his own

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Outubro de 2015

* * * * *

LEIA TAMBÉM: ANDRÉ BARCINSKIJORNAL GGN – OBVIOUS – NINA SIMONE.COMDAZED – BIOGRAPHY.COM

* * * *

ALGUNS VÍDEOS RECOMENDADOS

* * * *

DOWNLOADS DE ÁLBUNS COMPLETOS:folder

DOWNLOAD DO CD COMPLETO:
NINA SIMONE
Antologia das Canções de Protesto
Acesse via Google Drive

Playlist files:

  1. Nina Simone – By Any Means Necessary (Interview) (1:13)
  2. Nina Simone – Revolution (4:40)
  3. Nina Simone – Mississippi Goddamn (Interview) (1:54)
  4. Nina Simone – Mississippi Goddamn (4:31)
  5. Nina Simone – Old Jim Crow (Interview) (1:07)
  6. Nina Simone – Old Jim Crow (2:19)
  7. Nina Simone – Backlash Blues (Interview) (2:45)
  8. Nina Simone – Backlash Blues (3:07)
  9. Nina Simone – Four Women (Interview) (2:14)
  10. Nina Simone – Four Women (4:09)
  11. Nina Simone – Nobody (Interview) (1:26)
  12. Nina Simone – Nobody (5:08)
  13. Nina Simone – I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free (4:53)
  14. Nina Simone – Strange Fruit (Interview) (0:59)
  15. Nina Simone – Strange Fruit (3:28)
  16. Nina Simone – Definition of an Artist (3:04)
  17. Nina Simone – Why? The King of Love is Dead (9:20)
  18. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (Interview) (1:01)
  19. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (3:40)

BAIXAÊ
Shortlink para compartilhar: http://bit.ly/1NW0ald

* * * *

BAIXE TAMBÉM:




“A VELHA DA CAPA PRETA” – Uma obra prima de Siba, interpretada por Juçara Marçal

“A Velha da Capa Preta”
(Siba)

Interpretação:
Juçara Marçal (Metá Metá)
Do álbum Encarnado (2014)

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação

Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não

Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro

Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro

A vida é como um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela

Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela

Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar

Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar

Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar!

Assista acima: programa “Ensaio” da TV Cultura com Juçara Marçal. Cantora e compositora, teve seu início de carreira como integrante do Grupo Vesper e por muitos anos participou da Barca. Em entrevista a Fernando Faro, ela relembra as viagens e o tempo de estudos sobre Mário de Andrade. No repertório, ela apresenta músicas de seu mais recente álbum, ‘Encarnado’, com participações de Kiko Dinnucci, Thomas Rohrer e Rodrigo Campos.

[Vídeos Musicais] Nina Simone, “Ao Vivo Em Londres, 1968” (22 min)

NIna

Nina Simone (1933 – 2003)

0.00 • Go To Hell
3:10 • I Ain’t Got, I Got Life
7:55 • Backlash Blues
11:35 • I Put A Spell On You
13:24 • Don’t Let Me Be Misunderstood

200 CLÁSSICOS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NAS DÉCADAS DE 1960, 1970 E 1980 (EM ORDEM CRONOLÓGICA) [PARTE I]

MPB

200 CLÁSSICOS DA MÚSICA BRASILEIRA
NAS DÉCADAS DE 1960, 1970 E 1980
(EM ORDEM CRONOLÓGICA)

Link para esta página: https://acasadevidro.com/?p=5593

Uma das maravilhas que a Internet nos proporciona é o acesso a uma imensa biblioteca musical. Este baú de tesouros – não somente guardados mas compartilhados – está acessível a qualquer um que se conecte à grande rede, mas as pepitas estão dispersas por toda parte e a compilação da fina flor deste gigante acervo exige todo um trampo de garimpagem e coleta. Na intenção de organizar um pouco todo este vasto material musical, A Casa de Vidro apresenta aqui uma seleção com 200 álbuns da MPB nas décadas de 60, 70 e 80, todos eles disponíveis para audição na íntegra no YouTube. Obras cruciais na história cultural brasileira estão aí reunidas para degustação livre. A lista vai ser expandida constantemente e as sugestões de vocês são muito bem-vindas. Subam o volume e boa viagem!

Tem João Gilberto, Jorge Ben, Nara Leão, Sambalanço Trio, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Baden Powell, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gal Costa, Os Mutantes, Paulinho da Viola, Tom Zé, Ronnie Von, Egberto Gismonti, Erasmo Carlos, Som Imaginário, Rita Lee, Dom Salvador e a Abolição, Clube da Esquina, Tim Maia, Eumir Deodato, Novos Baianos, Jards Macalé, Clube da Esquina, Secos e Molhados, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Walter Franco, Luiz Bonfá, Marcos Valle, Rogério Duprat, Arnaldo Baptista, Hermeto Pascoal, Lula Côrtez e Zé Ramalho, Adoniran Barbosa, Cartola, Clara Nunes, Belchior, Raul Seixas, Elis Regina, Sergio Sampaio, Taiguara, Odair José, Banda Black Rio, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Paulo Vanzolini, Titãs, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Legião Urbana… e muito mais!

Quem curtiu… compartilha!

Acesse o post 2 com outros 100 álbuns!

  1. JOÃO GILBERTO
    O Amor, o Sorriso e a Flor (1960)
  2. BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL (1962)
  3. TAMBA TRIO (1962)
  4. JORGE BEN
    Samba Esquema Novo (1963)
  5. STAN GETZ E JOÃO GILBERTO (1963)
  6. SAMBALANÇO TRIO (1964)
  7. FLORA PURIM
    Flora é M.P.M. (1964)
  8. LENNIE DALE E SAMBALANÇO TRIO (1965)
  9. BADEN POWELL,
    AfroSambas (1966)
  10. BADEN POWELL, VINICIUS DE MORAES, QUARTETO EM CY
    Afrosambas (1966)
  11. CHICO BUARQUE (1966)
  12. CHICO BUARQUE
    Vol. 2 (1967)
  13. TOM JOBIM
    Wave (1967)
  14. CAETANO VELOSO E GAL COSTA
    Domingou (1967)
  15. QUARTETO NOVO (1967)
  16. OS MUTANTES (1968)
  17. GIL, CAÊ, DUPRAT, OS MUTANTES & CIA
    Tropicalia ou Panis et Circencis (1968)
  18. CHICO BUARQUE
    Vol. 3 (1968)
  19. TOM ZÉ
    Grande Liquidação (1968)
  20. PEDRO SANTOS KRISHNANDA (1968)
  21. RONNIE VON (1968)
  22. RONNIE VON
    A Misteriosa Luta Do Reino De Parassempre Contra O Império Nuncamais (1969)
  23. JORGE BEN (1969)
  24. GAL COSTA
    Gal (1969)
  25. EGBERTO GISMONTI (1969)
  26. OS MUTANTES
    II (1969)
  27. OS MUTANTES
    A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
  28. TOM JOBIM
    Tide (1970)
  29. ERASMO CARLOS
    E Os Tremendões (1970)
  30. SOM IMAGINÁRIO (1970)
  31. CHICO BUARQUE,
    Construção (1971)
  32. DOM SALVADOR E A ABOLIÇÃO,
    Som, Sangue E Raça (1971)
  33. AIRTO MOREIRA
    Seeds on the Ground (1971)
  34. RAUL SEIXAS, SERGIO SAMPAIO, EDY STAR E MIRIAM BATUCADA
    Sociedade da Grã Ordem Kavernista (1971)
  35. CAETANO VELOSO,
    Transa (1972)
  36. EUMIR DEODATO
    Also Sprach Zarathustra (1972)
  37. TIM MAIA (1972)
  38. JORGE MAUTNER,
    Para Iluminar a Cidade (1972)
  39. NOVOS BAIANOS
    Acabou Chorare (1972)
  40. ALCEU VALENÇA E GERALDO AZEVEDO
    Quadrafônico (1972)
  41. QUINTETO VIOLADO (1972)
  42. JARDS MACALÉ (1972)
  43. LÔ BORGES (1972)
  44. RAUL SEIXAS
    Krig Ha, Bandolo! (1973)
  45. SECOS E MOLHADOS (1973)
  46. GILBERTO GIL
    Ao Vivo na Poli USP (1973)
  47. NOVOS BAIANOS F.C. (1973)
  48. SOM IMAGINÁRIO
    Matança do Porco (1973)
  49. TOM ZÉ
    Todos os Olhos (1973)
  50. LUIZ MELODIA
    Pérola Negra (1973)
  51. GUILHERME LAMOUNIER (1973)
  52. WALTER FRANCO
    Ou Não (1973)
  53.  SERGIO SAMPAIO
    Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua (1973)
  54. RAUL SEIXAS
    Gita (1974)
  55. JOÃO DONATO E EUMIR DEODATO
    Donato / Deodato (1973)
  56. MARCOS VALLE E AZYMUTH
    Previsão do Tempo (1973)
  57. O PESO
    Em Busca do Tempo Perdido (1974)
  58. TIM MAIA,
    Racional (1974)
  59. WILSON SIMONAL
    Vinil Mexicano da Philips (1974)
  60. ARNALDO BAPTISTA
    Lóki? (1974)
  61. ROGÉRIO DUPRAT
    Brasil com S (1974)
  62. O BANQUETE DOS MENDIGOS (1974)
  63. RITA LEE & TUTTI FRUTTI
    Fruto Proibido (1975)
  64. EMÍLIO SANTIAGO (1975)
  65. LULA CÔRTES E ZÉ RAMALHO
    Paêbirú (1975)
  66. O TERÇO,
    Criaturas da Noite (1975)
  67. DI MELO (1975)
  68. ADONIRAN BARBOSA (1975)
  69. EDUARDO GUDIN, MÁRCIA E PAULO CÉSAR PINHEIRO
    O Importante é que Nossa Emoção Sobreviva (1975-1976)
  70. RAUL SEIXAS,
    Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás (1976)
  71. BELCHIOR
    Alucinação (1976)
  72. TOM ZÉ
    Estudando o Samba (1976)
  73. CARTOLA (1976)
  74. DOCES BÁRBAROS (1976)
  75. ELIS REGINA
    Falso Brilhante (1976)
  76. CHICO BUARQUE
    Meu Caro Amigo (1976)
  77. SERGIO SAMPAIO
    Tem Que Acontecer (1976)
  78. CARTOLA (1976)
  79. TAIGUARA
    Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976)
  80. ALCEU VALENÇA,
    Espelho Cristalino (1977)
  81. HERMETO PASCOAL,
    Slaves Mass (1977)
  82. MILTON NASCIMENTO E CLUBE DA ESQUINA,
    II (1978)
  83. CLARA NUNES,
    Guerreira (1978)
  84. TOM ZÉ
    Correio da Estação do Brás (1978)
  85. BANDA BLACK RIO (1978)
  86. HERMETO PASCOAL,
    Zabumbê-bum-á (1979)
  87. CÁTIA DE FRANÇA,
    20 Palavras ao Redor do Sol
  88. MPB4
    Bons Tempos, Hein?!?
  89. ITAMAR ASSUMPÇÃO, 
    Beleléu, Leléu, Eu (1980)
  90. EGBERTO GISMONTI
    Circense (1980)
  91. ARRIGO BARNABÉ
    Clara Crocodilo (1980)
  92. PAULO VANZOLINI
    Por Ele Mesmo (1981)
  93. EDU LOBO E CHICO BUARQUE
    O Grande Circo Místico (1982)
  94. ARNALDO BAPTISTA
    Singin’ Alone (1982)
  95. PARALAMAS DO SUCESSO
    O Passo do Lui (1984)
  96. ULTRAGE A RIGOR
    Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985)
  97. LEGIÃO URBANA
    Dois (1986)
  98. TITÃS
    Cabela Dinossauro (1986)
  99. PATIFE BAND
    Corredor Polonês (1987)
  100. LEGIÃO URBANA
    Quatro Estações (1989)

Acesse o post 2 com outros 100 álbuns!

Confira também:
Revista Rolling Stone Brasil elege 100 melhores álbuns da MPB