AS FRATURAS DE UMA PÁTRIA PARTIDA – Por Mauro Iasi, Vladimir Safatle e Eduardo Viveiros de Castro

17/04/2016 – Brasília-DF, Brasil – Durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, manifestantes ocuparam a Esplanada dos Ministérios e ficaram separados por um Muro. Foto: Ricardo Stuckert.

UM PAÍS FRATURADO – Por Mauro Luis Iasi

“Uma coisa é um país,
outra uma cicatriz.”
Affonso Romano de Sant’Anna

Somos um país fraturado. Um país fraturado é mais que um país dividido, é um país no qual a divisão tornou-se algo explosivo. Não é um mero trauma, é uma fratura exposta. Os bálsamos e unguentos tradicionais não vão curar o osso partido, a pele rompida, os tendões e músculos destroçados.

Sempre fomos um país divido. Dividido pela desigualdade estruturante das formações sociais, incluídas a força na ordem mercantil mundial e depois no modo de produção capitalista. Dividido entre colonizadores e povos indígenas, entre escravocratas e escravos, entre oligarcas e povo, entre latifundiários e agricultores, entre burgueses e proletários. No entanto, essa desigualdade nem sempre se manifesta como fratura. Em tempos ditos normais, a desigualdade encontra formas de subordinação à ordem, seja ela colonial, escravocrata, republicana ou democrática, de maneira que as tensões inevitáveis entre aqueles que exploram e dominam e aqueles que sofrem a dominação podem se apresentar como formas “civilizadas” de uma ordem instituída, até mesmo logrando a submissão passiva ou ativa de amplos segmentos das camadas oprimidas.

Por vezes, no entanto, essa ordem é abalada pela explosão das contradições que vão se acumulando no tecido de uma sociabilidade fundada na desigualdade e na exploração. Isso acontece com muito mais frequência do que gostariam os artífices do discurso sobre nossa “vocação pacífica e ordeira”. São muitos os exemplos, desde a resistência indígena na Confederação dos Tamoios (1554-1567), passando pelo Quilombo dos Palmares (1580-1710), a Confederação do Equador (1824), a Revolta dos Malês (1835), as Rebeliões Regenciais (1831-1840), a guerra de Canudos (1896-1897) as lutas operárias desde o final do século XIX, a Greve Geral de 1917 e a insurreição de 1919, o Movimento Tenentista de 1922, a Revolução Paulista de 1924, a Coluna Prestes (1925-1927), o movimento de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder, a insurreição da ANL e do PCB de 1935, a revolta de Trombas e Formoso em Goiás (1950-1957), a resistência armada contra o Golpe de 1964, apenas para citar alguns exemplos numa longa lista histórica de revoltas e resistências às quais devemos somar a cotidiana e, muitas vezes, invisível resistência contra a violência, a fome, a exploração e a opressão diária que empreendem os oprimidos.

A natureza estrutural da desigualdade, que encontra suas raízes no passado colonial e escravista, mas que que se consolida com o desenvolvimento do capitalismo dependente e a submissão ao imperialismo, acaba por determinar limites evidentes ao desenvolvimento da ordem democrática que se vê condenada à uma democracia restrita para poucos, resultando no aspecto autocrático do Estado brasileiro, nos termos em que define Florestan Fernandes. Uma democracia para poucos setores privilegiados, resultantes da fusão oligárquica-burguesa, que tem por principal problema equacionar a exclusão das amplas maiorias da ordem que as explora e domina.

O mito segundo o qual o desenvolvimento da economia capitalista resultaria na gradual diminuição das desigualdades se demonstrou uma falácia, seja pela prova prática do chamado “milagre brasileiro” durante a ditadura, seja pela recente e traumática experiência de conciliação de classes do ciclo petista. O que ficou comprovado é que a alternância de ciclos de crescimento e recessão acabam por revelar, ao final, aumento significativos das desigualdades econômicas e sociais entre as classes.

Nos momentos de euforia se produz fantasias ideológicas, tais como a “brasilianidade” da época getulista, o mito do “Brasil potência” na Ditadura, ou o discurso de que o Brasil poderia ser um “país de todos” no engodo da conciliação de classes. No entanto, na crise do capital, inevitável no processo de valorização do valor para quem o conhece, a ideologia se desmascara e a contradição latente emerge na forma de conflito e, em certas condições, de fratura. É nestes momentos que a outra face de nosso “caráter” se revela.

Vivemos hoje um desses momentos e é necessário compreendê-lo. Estamos convencidos de que não se trata de uma “onda conservadora”, ou um acidente inexplicável no curso normal de uma democratização interrompida, ou ainda uma momentânea espécie de “psicose de massas”. Estamos diante de uma manifestação compreensível e até certo ponto esperada de uma sociedade fortemente cindida em interesses inconciliáveis de classe que tem sido mantida e reproduzida por artifícios políticos e ideológicos que encontraram seu ponto de esgarçamento.

Resumidamente, podemos afirmar que vivemos em uma sociedade na qual os setores dominantes (primeiro oligárquicos e aristocráticos; depois burgueses dependentes e aliados à ordem imperialista, suspeitamos que sem que se percam aspectos oligárquicos e aristocráticos) que constituem não mais que algo em torno de 3% da população economicamente ativa, concentram a maior parte da riqueza socialmente produzida. Os dados de 2014 indicavam que os 10% mais ricos concentravam cerca de 72,4% da riqueza nacional (em 1990 concentravam 53%), em 2015, 1% dos mais ricos concentravam 28% da riqueza. Como um exemplo, as seis pessoas mais ricas do Brasil em 2017 (segundo dados da Oxfam), Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim), juntas têm mais dinheiro que metade da população brasileira.

Alguns estudiosos estão preferindo utilizar termos como “plutocracia” para designar uma ordem na qual uma pequena maioria impõe seus interesses, e me parece cada vez mais adequado. Em um quadro como este, as formas políticas têm que ser limitadas à deformações autocráticas, ainda que, por momentos, se expressem em aparências democráticas, resultando naquilo que o mesmo Florestan denominou de “democracia de cooptação”. Nesta situação, a ideologia evidentemente ganha centralidade, uma vez que a ordem precisa do consentimento de parte daqueles que de fato nada têm a ganhar com ela, tal consentimento só pode ser logrado com poderosas doses de encobrimento, naturalização, justificativas, inversões que possam apresentar os estreitos interesses de uma insignificante minoria como se fossem interesses gerais.

O momento da crise é também o momento em que os mecanismos ideológicos mostram sua insuficiência para acobertar o real. As ideias que correspondiam a uma certa ordem social, perdem essa correspondência, tornando-se, nas palavras de Marx e Engels, “inautênticas” (A ideologia alemã, p. 283). No entanto, seguem os mesmos autores, paradoxalmente essas ideias “quanto mais desmentidas pela vida […] tão mais resolutamente são afirmadas, tanto mais hipócritas, moralistas e santa se torna”.

A falência dos mecanismos políticos, jurídicos, policiais e ideológicos, abre espaço para a violência. Mas analisemos mais detidamente essa violência. Na ordem burguesa (seja ela abertamente autocrática ou formalmente democrática), a violência sempre se faz presente – ela é uma condição inevitável, inclusive para a formação do chamado “consenso”. A violência de que aqui se trata é a reação de um segmento minoritário e privilegiado numa ordem intrinsicamente injusta e violenta que vê o risco da massa de oprimidos levantar-se contra eles.

Este é outro dos aspectos constitutivos de nossa formação social: as camadas e classes dominantes se antecipam para evitar que os fechamentos de ciclos possam levar a explosões que coloquem em risco a continuidade de seu domínio. Foi assim na abolição da escravidão, cercadas de garantias legais e policiais, para que os ex-escravizados não resolvessem reagir a séculos de arbítrio, agressões e exploração a que foram submetidos. Foi assim na chamada transição lenta, gradual e segura transição da ditadura à democratização. Um dos mecanismos desse fenômeno, que já foi chamado de “mudança conservadora”, é o fato que as classes dominantes manipulam estereótipos para produzir em torno delas a universalidade vazia que possa ocupar o lugar daquela que ela um dia por ventura tenha tido alguma substancialidade. Aí se inscrevem os mitos da “nação”, do “desenvolvimento”, do “risco do comunismo”, da “guerra contra as drogas e o crime”, a “defesa da família e da moral”, o combate à “corrupção” entre outros.

É por isso que as classes dominantes são tão violentas e irracionais: medo. E elas têm motivos para temer. O aspecto aparentemente irracional é adesão de segmentos dos explorados na defesa desses mitos e reforçando estereótipos que em última instância se voltam contra eles próprios. Em outra oportunidade refletimos sobre isso ao remeter aos estudos de Reich e a psicologia de massas do fascismo. Agora nos interessa um outro aspecto.

Algumas pessoas têm buscado entender a radicalização da fratura em nosso país pela emergência de um suposto “discurso de ódio”. Para provocar, nossa reflexão começaria dizendo que não há “discurso de ódio”… o que existe é ódio que se expressa, entre outras coisas, no discurso. Essa distinção aparentemente sutil nos parece importante porque, sem ela, podemos cair no equívoco de acreditar que é o “discurso” que gera o ódio, o que nos levaria à ingênua posição de alertar as pessoas para ter cuidado com que falam porque o que for dito pode nos conduzir à violência e à barbárie. Caso estejamos certos em nossas premissas, o discurso de ódio expresso por representantes das camadas privilegiadas é a expressão do receio desses segmentos de que as condições que permitem a continuidade de seus privilégios possam ser abaladas pelo despertar das massas cuja exploração é condição para tanto. Trata-se de um “ódio de classe”, o que não impede que se expresse também como racismo, homofobia, machismo e misoginia, fundamentalismo religioso ou outra forma qualquer de irracionalismo, mas seu fundamento é o ódio de classe. Há uma clara diferença no tratamento da desigualdade e da violência contra negros, mulheres, gays e lésbicas, quando se soma ao estigma do preconceito a condição de classe, ainda que seja sempre racismo, machismo, homofobia etc. É inegável que para os pobres e a classe trabalhadora o preconceito assume a forma de risco de morte.

Identificamos o fato de que o trauma da desigualdade e seu fundamento na exploração, alcançou o status de fratura, na medida que mesmo as manifestações mais elementares que poderiam indicar um caminho saudável de fusão em torno de uma universalidade um pouco mais substantiva, são o meio pelo qual o ódio de classe se manifesta. Vale elencar alguns poucos, mas representativos, exemplos.

Uma jovem negra e lésbica é assinada com tiros na cabeça, uma liderança indígena é abatida a tiros, um ônibus em campanha é atingido por tiros, um museu pega fogo e destrói um patrimônio inestimável. Imediatamente, o tecido fraturado da sociedade dá espaço para o brutal ataque e desqualificação das vítimas, de forma violenta, mentirosa, mesquinha. Vejam, não é um expediente desconhecido. Quando um jovem é assassinado na favela é preciso transformá-lo em traficante, quando um pedreiro é torturado até a morte e seu corpo desaparece é preciso levantar dúvidas sobre seu comportamento, quando uma mãe de família é baleada e seu corpo arrastado por uma viatura, é necessário contextualizar essa cena num tiroteio contra o crime organizado.

Agora, a vereadora assassinada ainda tem que ser alvejada por calunias contra sua pessoa, a universidade pública incinerada novamente, agora por notícias falsas que a responsabilizam pela agressão da PEC 241 que congela gastos por 20 anos, o ex-presidente tem que ser preso pela suposta e não provada propriedade de um apartamento na praia, a presidente deposta tem que ser agredida e desqualificada, um professor de uma universidade pública, com hábito de ler poemas, tem que ser processado como um perigoso terrorista que pode eliminar todos os conservadores a golpe de sonetos, pedagogos têm que ser torturados até confessar que leram Paulo Freire e que O pequeno príncipe é parte do “kit gay” distribuído nas escolas. Parece irracional, porque é. Mas é uma irracionalidade compreensível.

A única maneira de uma ordem desumana, depredadora, profundamente desigual e cruel conseguir forjar um consenso em torno dos segmentos privilegiados é criar algo que aparentemente atinja todos e responsabilizar os segmentos que você quer isolar. Um exemplo clássico é o da corrupção. Uma vez que tal prática delapida o patrimônio público e acaba desviando os recursos da educação, da saúde e de outros setores, basta colar o estigma no segmento que se deseja combater e pronto.

A operação costuma funcionar como um evento traumático que signifique muito para muita gente. Manipula-se um sentimento de insegurança; uma morte, um assassinato, que possa gerar identificação imediata. Vários são os exemplos de episódios que antecederam aventuras violentas e desastrosas: o famoso incêndio de 1933 no Reichstag, cuja culpa foi atribuída a um pedreiro desempregado que havia sido membro do Partido Comunista, contribuindo de forma decisiva para a consolidação do domínio nazista na Alemanha; o atentado contra Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em 1954, que acabou por isolar o presidente Getúlio Vargas e o levar ao suicídio; o assassinato do Arquiduque de Sarajevo, em 1914, estopim da Primeira Guerra Mundial; o conhecido “plano Cohen”, forjado por Getúlio Vargas e atribuído aos comunistas para justificar o golpe de 1937, entre muitos outros exemplos.

É evidente que nem toda tentativa é assim tão sofisticada (tenho muita pena dos historiadores do futuro), como a delirante denúncia de que os perigosos marxistas do Foro de São Paulo (poucas iniciativas foram tão reformistas e pouco marxistas como o Foro de São Paulo) têm um plano secreto para implantar na América Latina uma federação de repúblicas socialistas. No entanto, a lógica é a mesma: encontrar o inimigo, estigmatizá-lo, depositar a culpa da crise sobre seus ombros e arrastar o irracionalismo até o ponto em que parte das massas sirvam à manipulação e a prestem-se ao papel de defesa de uma ordem que as oprime e despreza contra aqueles que tentam defender seus reais interesses.

Assim se destrói a saúde pública e se culpa os que defendem o SUS. Assim se sucateia a universidade pública culpando aqueles que trabalham em sua defesa. Assim se mata nas favelas, culpando as que próprias pessoas que são obrigadas a viverem lá. Assim se destrói todo um país culpabilizando aqueles que tentam salvá-lo. As margens do rio continuam seu trabalho de opressão e já se prepara o discurso que culpabilizará a força das águas que estão prestes a transbordar.

O problema é o que fazer com fraturas expostas. As classes dominantes estão jogando um jogo muito perigoso, mas que jogam bem e têm recursos para tanto. Acreditam, como em outros momentos da história, que podem utilizar de seus extratos mais radicalizados da extrema direita, eliminar seus adversários e voltar com reconciliadores da vida nacional. Nem sempre dá certo, como provam os casos do nazi-fascismo na Europa, a ditadura no Brasil e o Trump nos EUA. No enterro da democracia, coitada tão frágil, todos os presentes chorarão copiosamente, inclusive, como vemos sempre nos filmes e series policiais, o assassino. Uma coisa sabemos: o bálsamo das eleições não ungirá o vencedor com a legitimidade esperada e o Brasil sairá do pleito ainda mais fraturado do que entrou.

Nuvens pesadas se assomam no horizonte e diálogos francos e chá de camomila ajudam tanto como a criança que tenta juntar os cacos do vaso que despedaçou.

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PÚBLICO ENTREVISTA VIVEIROS DE CASTRO

“O Museu Nacional talvez fosse o lugar mais importante do Brasil em termos do seu valor como património cultural e histórico, não só brasileiro como mundial. Trata-se da destruição do ground zero, o lugar central que era o símbolo da génese do país como nação independente e continha um acervo inestimável, não só do ponto de vista da história da cultura e da natureza brasileiras mas com peças de significado mundial. Foi destruída toda a colecção de etnologia indígena, inclusive de vários povos desaparecidos, foi destruída toda a biblioteca do sector de Antropologia, e foi destruído o Luzia, o fóssil humano mais importante e antigo das Américas. É uma perda que não tem como reverter, não há nada que se possa fazer que mitigue, que amenize essa situação. Só se pode chorar em cima do leite derramado, que não adianta nada.

As causas últimas desse incêndio, todo o mundo sabe quais são. É o descaso absoluto desse Governo, e dos anteriores, para com a cultura. O Brasil é um país onde governar é criar desertos. Desertos naturais, no espaço, com a devastação do cerrado, da Amazônia. Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo. Estamos perdendo com isso parte da história do Brasil e do mundo, porque se trata de testemunhos com significado para toda a civilização.

(…) É uma perda incalculável que se explica – não se justifica, mas explica-se – pelo descaso absoluto que todos os Governos, e esse Governo ilegítimo em particular, votam à cultura, com cortes dramáticos nos orçamentos da cultura e da educação, ameaças grave de desmontagem das universidades públicas [o Museu Nacional está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro]. É um projecto de devastação, de criação de desertos, desertos no espaço e no tempo. A destruição do museu é um deserto no tempo, é destruir a memória, destruir a História.

(…) A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio.

Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial.” – Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro

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O PAÍS ESTÁ QUEIMANDO
por Vladimir Safatle

Dificilmente alguém conseguiu sintetizar de forma tão precisa a atitude a tomar diante da destruição do Museu Nacional como o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

Segundo ele, as ruínas do museu deveriam ser deixadas como estão, a destruição deveria ser eternamente lembrada. Nada deveria ser reparado ou construído no lugar. Isso faria com que as gerações futuras se lembrassem do que são capazes aqueles que atualmente acreditam nos governar.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, os alemães decidiram deixar em ruínas uma das catedrais mais importantes de Berlim. Quem for à praça Breitscheid pode ver ainda hoje o que restou da igreja luterana Kaiser Wilhelm. Essa foi a maneira de inscrever no coração da cidade a memória do que produz o totalitarismo.

Se quisermos nos livrar do destino que estão a nos impor, o melhor a fazer é transformar as pedras do Museu Nacional em nosso espaço de memória.

Todos verão que naquele lugar o governo brasileiro queimou a história de seu próprio país no altar do livro sagrado das insanidades econômicas. Essas ruínas são o único monumento possível à “austeridade”.

No entanto, é claro que este governo e todos aqueles que acham sua política econômica piromaníaca “racional”, gente espalhada em colunas de jornais, atuando como “especialistas” ou “consultores”, estão agora a expor o mais patético de todos os espetáculos: a transferência de responsabilidade.

Afinal, faz parte do ideário liberal empurrar as catástrofes que ele próprio produz para o colo do outro. Por isso, você nunca encontrará um liberal fazendo alguma forma de autocrítica. Caminhoneiros podem parar o país e museus podem queimar, mas a política econômica responsável por tudo isso estava e continua a estar absolutamente correta.

Assim, mesmo que os números sejam explícitos a respeito do corte brutal de verbas para o museu nos últimos três anos, chegando a míseros R$ 54 mil em 2018, mesmo que o teto de gastos tenha destroçado os orçamentos das universidades federais, mesmo que os museus públicos estejam todos gritando por socorro e as entidades de fomento à pesquisa estejam todas alertando a sociedade para o colapso da pesquisa nacional por falta de financiamento, a culpa do incêndio só pode ser do porteiro do prédio ou do reitor da UFRJ, entidade a qual o museu era vinculado.

Essa é uma estratégia clássica e vergonhosa de desinformação. Como é impossível dizer que não havia dinheiro —pois um governo que reajusta salários do Poder Judiciário teria verba para seus museus se entendesse isso como uma prioridade—, sobra a produção de falsas notícias e “polêmicas” a fim de criar a impressão de que “tudo isso é muito complicado para entendermos”.

Então começamos a ouvir, por exemplo, que a verba repassada à universidade teria aumentado, enquanto o que subiu foram, na verdade, as despesas não discricionárias (as que a reitoria não pode, por lei, modificar o destino). Nada desse montante estava direcionado ao museu.

Ouvimos ainda que, há 20 anos (quando, diga-se de passagem, o governo federal era do PSDB), a UFRJ teria recusado US$ 80 milhões do Banco Mundial para reformar o museu por não querer repassá-lo à gestão privada. O próprio banco desmentiu o que foi veiculado como verdade por parte da imprensa.

Esse jogo primário de desinformação visa esconder um fato que a população grita nas ruas para quem quiser ouvir: enquanto nossos bancos batem seguidamente recordes de lucros —obscenos até para os padrões do capitalismo mundial—, enquanto a elite rentista tem seus ganhos intocados graças a um sistema tributário feito para blindá-la, o país está queimando.

Estamos em ruínas. Mas para essa elite dirigente e rentista, com seus porta-vozes, o fogo realmente importa pouco.

Nesta semana, descobrimos que o Museu do Louvre recebeu neste ano mais brasileiros que o Museu Nacional. Ou seja, como se trata de uma parcela da população acostumada à lógica do saque e da fuga, é normal que seus olhos estejam voltados para fora, para os lugares nos quais eles gastarão aquilo que espoliaram.

Pois quem viverá entre as ruínas, podem ter certeza, seremos apenas nós.

Vladimir Safatle

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AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

I. XAMANISMO COM AMPLIFICADORES

Há um capítulo magistral de Dançando nas Ruas (Dancin’ In The Street) em que Barbara Ehrenreich fala sobre as raízes arcaicas do êxtase coletivo. “Arcaicas”, no caso, é uma palavra para referir-se não a algo de velho, mofado, já caído em desuso e aposentado da História. Arcaico – é também uma das lições fundamentais de gurus psicodélicos como Terence McKenna e Alan Watts – é aquilo que tem enraizamento em um passado muito distante, mas cuja raiz ainda hoje nutre uma árvore viva e nossa contemporânea, com sua eclosão vivificante de folhas, frutos, sementes.

O tempo arcaico segue agindo no tempo contemporâneo como um rio que flui lá do passado mais remoto e penetra com suas águas torrenciais no território do presente. É um passado que conflui com o agora, conectando-nos ao que passou, vinculados ao que foi ao invés de alienados de qualquer tradição e pertença. Unidos e solidários aos que hoje descansam seus ossos debaixo desta terra onde labutamos e dançamos, ao invés de trancados na estreiteza de um fluxo nonsense de momentos efêmeros e desconexos.

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“No antigo mundo ocidental, muitas deidades serviam como objeto de adoração extática: na Grécia, Ártemis e Deméter; em Roma, as deidades importadas: Ísis (do Egito), Cibele, a Grande Mãe ou Magna Mater (da Ásia Menor), e Mitas (da Pérsia). Mas havia um deus grego para o qual a adoração extática não era uma opção, mas uma obrigação… Esse deus, fonte de êxtase e terror, era Dioniso, ou, como era conhecido entre os romanos, Baco. Sua jurisdição mundana cobria os vinhedos, mas a responsabilidade mais espiritual era presidir aorgeia (literalmente, ritos realizados na floresta à noite, termo do qual derivamos a palavra orgia), quando os devotos dançavam até chegar a um estado de transe. 

Ainda mais do que as outras deidades, Dioniso era um deus acessível e democrático, cujo thiasos, ou elo sagrado, estava aberto tanto aos humildes como aos poderosos. Nietzsche interpretava esses ritos da seguinte maneira: ‘O escravo emerge como homem livre, todos os muros rígidos e hostis erigidos entre os homens pela necessidade ou pelo despotismo são despedaçados.’

Foi Nietzsche quem reconheceu as raízes dionisíacas do drama grego antigo, ao ver a inspiração louca e extática por trás da majestosa arte dos gregos – que, metaforicamente, ousavam levar a cabo não apenas a imortal simetria do vaso, mas as loucas figuras dançantes pintadas em sua superfície. O que o deus demandava, segundo Nietzsche, era nada menos que a alma humana, liberada pelo ritual extático do ‘horror da existência individual’ e transformada na ‘unidade mística’ do ritmo proporcionado pela dança.” (EHRENREICH, p. 48)

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Longe de ser apenas de interesse para helenistas ou estudiosos de religiões antigas, a celebração comunal, vinculada no mundo greco-romano aos cultos a Dioniso e Baco, prossegue ativa em tempos contemporâneos. O livro de Barbara Ehrenreich é uma das melhores visões panorâmicas da busca pelo êxtase coletivo através da história e tem entre seus méritos uma postura simpática aos fenômenos estudados. Ela não condena, com fúria puritana, os rituais dionisíacos, o vodu haitiano, a capoeira ou o samba afrobrasileiro, os festivais de rock da Geração Hippie etc., mas busca compreender com empatia uma necessidade humana, que existe desde tempos imemoriais, de celebração coletiva e de vitória sobre o terrível confinamento na solidão de um eu isolado.

Dançando Nas Ruaspois, parece-me um livro magistral, de alto potencial libertário, que une-se aos esforços de um Terence McKenna, que propugnava um revival do arcaico, ou de uma Emma Goldman, pensadora política anarquista célebre por dizer: “Não é minha revolução se eu não puder dançar”.

Além disso, Barbara Ehrenreich realizou uma obra de interesse filosófico, ou mesmo teológico, afirmando que a experiência de re-encontro com o arcaico, de re-ligação com a fonte, é descrita por muitos que a vivenciam como uma revolução em nossa percepção temporal, uma percepção imediata ou insight súbito da eternidade do aqui-agora.

O livro contribui assim, imensamente, para o estudo e a compreensão do misticismo, podendo iluminar e elucidar a leitura de obras cruciais como a de William James, As Variedades da Experiência Religiosa, e Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, que talvez sejam as mais impressionantes reuniões de testemunhos sobre a experiência mística. Para uma visão mais contemporânea, que vincula a unio mystica ao consumo de substâncias enteógenas, vale sondar as reflexões de Aldous Huxley em Moksha e de Alan Watts por sua obra afora.

Quando transcendemos a prisão do eu, a jaula do isolamento, a percepção falha que nos leva a crer na possibilidade de nossa existência independente e separada do cosmos que a circunda e a inclui, aí então podemos abraçar um aqui-agora que têm densidade temporal. Que tem peso de eternidade. Aí percebemos – ainda que para ter este insight às vezes necessitemos de muito estudo do budismo, de muita prática da meditação e do yôga, de algumas gotas de um bom ácido lisérgico ou DMT… – que a interconexão é a verdade do real.

"Wonder", uma obra de Alex Grey

“Wonder”, uma obra de Alex Grey

Não somente somos todos interconexos, ligados a toda a teia da vida; além disso, isto não se esgota no presente imediato. O rio do passado vem regar-nos o presente e vivificar nossa construção comum de um presente futurível. Somos efêmeros contemporâneos da eternidade onde estamos incluídos – a Energia no Universo, garantem os cientistas, pode se transformar, mas jamais ser nadificada; os átomos e o vazio, desde Epicuro, são tidos por indestrutíveis! Esta percepção é aquilo que bacantes e mênades buscam – e às vezes acham – em seus rituais musicais, dançantes, psicodélicos. Buscam habitar um tempo de êxtase coletivo, de joy na vivência da interconexão. É uma utopia que propõe a re-união e a comum celebração, é um hedonismo sábio que propõe que não cortemos todas conexões com o rio do “foi-se e acabou-se”, prendendo-nos em um imediatismo niilista que nos deixaria apenas vagando ao léu, como náufragos agarrados a um pedaço de madeira que flutua no mar após a embarcação ir a pique.

Arcaicas – antigas mas ainda ativas! – são as variadas “técnicas do êxtase”. Esta, aliás, era uma das expressões prediletas que Mircea Eliade usava como ferramenta conceitual crucial para a compreensão e caracterização dos misticismos, do mais variado colorido, reunidos às vezes sob o nome de “xamanismo” e outras vezes sob a alcunha de “paganismo” ou termo semelhante. No tal do xamanismo, com enorme frequência, as técnicas do êxtase – o caminho que é preciso realizarmos junto até que sejamos uma coletividade capaz de celebração extática e auto-transcendência – são inseparáveis da dança e da música.

Este é um dos argumentos centrais do livro genial de Ehrenreich: êxtase tem tudo a ver com dança, com música, com expansão da consciência, com transcender o eu e abraçar o coletivos. que atravessa a História, da tragédia grega de 25 séculos atrás até os festivais hippie à la Monterey e Woodstock, para mostrar que os laços sociais vinculados à busca humana, trans-histórica e trans-cultural, de êxtase coletivo, são umbilicalmente vinculados com música, dança e alteração da percepção intelectual-sensível através do consumo de substâncias (naturais ou sintéticas) ditas estupefacientes. Apesar de toda repressão, de todo o sangue derramado por Inquisições, de toda a perseguição autoritária, Pan, Baco, Deméter, Dioniso, Shiva e toda a trupe dos deuses dançantes e orixás bailantes que seguem vivendo e atuando nos corações e mentes de seus carnais celebrantes.

Aquilo que Ehrenreich chama de collective joy, ou que Durkheim chamava de efervescência coletiva, é aquilo que sente-se no meio da torcida em um estádio de futebol quando explode um gol; mas também o que toma conta da vivência da platéia de um show do Jimi Hendrix Experience ou de Janis Joplin e o Big Brother Co. em pleno “Verão do Amor”. É aquela vivência que nos faz transcender a jaula do ego, rumo à inenarrável e estarrecedora experiência de estar acompanhados sob as estrelas, queimando sob o Sol, “todos juntos reunidos numa pessoa só” (como canta Arnaldo Baptista em canção d’Os Mutantes).

Os viventes precários que somos, que tentam somar e solidarizar-se, porém tanto separam-se e segregam-se, podem estar boquiabertos ou apáticos diante dos mistérios do mundo e de nossos vínculos secretos, com ele, mundo, e uns com os outros; a dança, a música e os estupefacientes são o caminho, o tao, uma maneira eficiente através da qual as culturas vão em busca de fazer acontecer o êxtase comunal. São técnicas para a realização das utopias, e não sua mera espera passiva. São técnicas do êxtas que hoje tem o auxílio da eletricidade, do ciberespaço, dos mega-amplificadores, das salas de cinema digital, de todo o aparato tecnológico-científico ainda tão desperdiçado com a estupidez bélica hi-tech… Invistamos, pois, nas arcaicas técnicas do êxtase!

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“A dança grupal é a grande niveladora e conector das comunidades humanas, unindo todos os que participam no tipo de communitas que Turner encontrou nos rituais nativos do século XX. (…) Submeter-se corporalmente à música por meio da dança é ser incorporado por uma comunidade de uma maneira muito mais profunda do que o mito compartilhado ou os costumes comuns podem atingir. Nos movimentos sincronizados com o ritmo da música ou de vozes que cantam, as rivalidades mesquinhas e as diferenças de facções que podem dividir um grupo são transmutadas em uma inofensiva competição de quem é o dançarino mais hábil… “a dança”, como coloca um neurocientista, é a “biotecnologia da formação do grupo.”

Desse modo, grupos – e os indivíduos que os constituem – capazes de se manter juntos por meio da dança teriam possuído uma vantagem evolucionária em relação aos grupos ligados por laços menos fortes. (…) Nenhuma outra espécie jamais conseguiu fazer isso. Pássaros têm suas músicas características; vagalumes podem sincronizar a luz que emitem; chimpanzés às vezes podem bater os pés juntos e balançar os braços fazendo algo que os etologistas descrevem como um “carnaval”. Mas, se quaisquer outros animais conseguiram músicas e se mover em sincronia com ela, mantiveram esse talento bem escondido dos humanos.” (EHRENREICH, 2006, p. 37, trad. Julián Fuks)

A dança e a música, apesar de reduzidas, nas idéias estreitas de muitos de nossos contemporâneos, a meras mercadorias ou a reles entretenimentos, são algo que conecta-nos, hoje, à arcaica e ancestral peculiaridade humana, no seio da natureza, que é o fato de estarmos em busca de collective joy, êxtase comunal ou coletivo. Este é um fio que atravessa a história da espécie e que é inapagável, inextipável, incapaz de ser assassinado por quaisquer repressões autoritárias. É uma força resiliente, que sobrevive a todos os tiranos, e que têm como um de seus símbolos mais memoráveis, na história da arte, a batalha épico-trágica das Bacantes com o tirano de Tebas, Penteu, na peça de Eurípides.

As Bacantes, mais do que apenas uma obra-prima da dramaturgia universal, pode ser debatida como documento histórico, etnográfico, transmutado em obra-de-arte pelo engenho daquele que foi, com Ésquilo e Sófocles, um dos autores de dramas que sobreviveu a 25 séculos de transmissão histórica, da Grécia de IV a.C. até o Bixiga paulistano deste 2017 depois do Nazareno. Algo há aí, na resiliência de As Bacantes, na sua capacidade de manter-se com um monte a dizer e ensinar aos nossos próprios tempos, que explica como José Celso Martinez Côrrea pôde reativar a potência da peça nestes anos de 2016 e 2017, com os resultados acachapantes e geniais que já nos acostumamos a esperar do Teatro Oficina, Uzyna Uzona.

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O Teatro Oficina é uma pérola refulgente neste pântano esmerdeado de nossa lambança nacional. É resistência e celebração – arte reXistente – que ativa um cyber-terreiro, uma arena-dionisíaca, um microcosmo-da-utopia, onde o Brasil mostra ao mundo o que tem de melhor: a exuberância irreverente de um povo que ginga em busca de um êxtase coletivo, traçando seu próprio caminho, no ritmado enraizado que lhe infundiram séculos de miscigenação e convívio entre gente de culturas do mais pluridiverso colorido.

Nas peças do Oficina, aparece sempre – mesmo quando trata-se de adaptações de autores gringos como Antonin Artaud (Para Dar Um Fim No Juízo De Deus) ou Schiller (Os Bandidos) – dá as caras um Brasil que está sempre recaindo em antagonismos, em querelas, em ríspidas lutas e mortíferas guerras.

As bacantes brazucas nunca podem celebrar em paz, pois são, a despeito de suas vontades, empurradas para uma arena de combate (ah, tiranos! elas só queriam beber vinho, dançar, celebrar! Por que cabeças teriam que rolar?!?); as mênades, proto-hippies da paz e do amor, dançantes e cantantes, re-ativadoras da força sempiterna do conatus, chocam-se contra os poderes do autoritarismo puritano e seus braços armados. A resiliência, a capacidade de sobrevivência da peça de Eurípides – vivíssima no Brasil de 2017! – está também na persistência. no nosso processo histórico, da batalha que o aquele fight – Bacantes versus Penteu – simboliza.

A utopia que vem conectada ao trampo do Oficina ou à antropofagia de Oswald de Andrade, empreendimentos de sintonia íntima, tem a ver com um renascimento do dionisismo, ou seja, de uma cultura onde a celebração coletiva, a alegria dos vínculos estabelecidos sobre as ruínas da egolatria, seja mais potente do que a cultura, imposta de cima pra baixo com a voz grossa e bruta do Patriarcado repressor, que manda sempre postergar todos os gozos, desistir de campanhas inovadoras ou revolucionárias, conformar-se com a monocromia de uma vida cinza, de tédio e monotonia, de servil obediência aos que mandam mortificar a carne e sacrificar o presente, em nome de um tíquete de entrada prum futuro paradisíaco no além-túmulo…

As bacantes – mulheres que saem dos trilhos da cotidianidade, deixando suas posições obedientes na hierarquia de comando masculinista, machista, autoritária… – e vão para a floresta, não só para fugir por um pouco da dureza do dia-a-dia, mas para celebrar a existência e a liberdade, para buscar a força em uma imersão num coletivo que, com forças reunidas, pode muitos, mas muuito mais, do que qualquer indivíduo solitário, por mais fortão e musculoso que seja. A ética e a estética homéricas, que celebram em Aquiles ou Ulisses um heroísmo muito marcado pelas fúrias bélicas, têm nas bacantes, nas celebrantes dionisíacas, nas mênades dançantes e de cabelos esvoaçantes, a celebração da paz, não da guerra; da harmonia e da sincronia, não do antagonismo; do êxtase, não do massacre.Nietzsche

“Friedrich Nietzsche, o clássico indivíduo solitário e atormentado do século XIX, talvez tenha entendido a terapêutica do êxtase melhor do que qualquer outro. Em um tempo de celebração universal do ‘eu’, ousou falar sobre o ‘horror da existência individual’ e vislumbrou o alívio nos antigos rituais dionisíacos que só conhecia por meio de leituras – rituais em que, ele imaginava, ‘cada indivíduo não apenas se reconcilia com o outro, mas une-se a ele – como se o véu de Maya tivesse sido rasgado e só restassem retalhos flutuando ante a visão de uma Unidade mística. (…) Cada um sente a si como a um deus e caminha a passos largos com o mesmo júbilo e o mesmo êxtase dos deuses que viu em seus sonhos.” (EHRENREICH, op cit, pg. 184)

Zé Celso e sua trupe são no país aquelas forças que com mais exuberância servem como porta-vozes destas idéias, entremescla de Nietzsche com Oswald de Andrade, de Artaud com Brecht, e apesar do impiedoso tempo que nos arrasta à velhice e ao inevitável túmulo esta figuraça quintessencial de nossa cultura parece continuar em eterno verão – para citar o título de excelente reportagem e entrevista do El País:

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Um dos grandes mestres do teatro brasileiro está prestes a completar 80 anos. Lúcido, sorridente, atuante. Muitos se perguntam qual é o segredo de José Celso Martinez Corrêa (Araraquara, 1937), o Zé Celso, para preservar tamanha energia e criatividade depois de 58 anos à frente do icônico Teatro Oficina – símbolo de resistência artística (e política) cravado no Bixiga, em São Paulo. Mas a verdade é que desse “xamã do teatro”, como ele gosta de se definir, não há segredos para se arrancar. Na entrevista concedida ao El País com os pés ao alto, em meio a uma nuvem de erva queimada, o dramaturgo vestido de um branco alvo como os fios de seus cabelos mostra que não tem assuntos proibidos, respondendo a esta altura da vida com voz suave tudo o que lhe é indagado. Isso, sim: sem fim, nem começo e pelos caminhos que lhe parecem.

A um desses caminhos ele volta sempre: a encenação de Bacantes, o clássico grego de Eurípedes montado pela primeira vez no Oficina em 1995 (em versão brasileira do diretor, no gênero “tragicomédia orgia”), que reestreou no Sesc Pompeia e logo passou ao Bixiga em outubro de 2016. A peça, de quase seis horas e com 52 atuadores em cena, reconstitui o ritual de origem do teatro na Grécia em 25 cantos e cinco episódios e tem música composta por Zé Celso (que também assina autoria e direção).


Encenada como ópera de Carnaval para cantar o nascimento, morte e renascimento de Dionísio, o deus do teatro, do vinho e das festas, ela tem lotado a casa tanto com habitués, como com novos assistentes – atraídos pela nudez libertária do elenco e às vezes também do público, pela genialidade do diretor, pela história ou por tudo ao mesmo tempo. A ideia é que os espectadores se integrem ao bacanal, e alguns deles terminam despidos pelos atores. Na primeira versão, isso aconteceu com Caetano Veloso. Por causa do sucesso orgiástico de Bacantes, Zé Celso ganhou ainda mais força e voz, voltando à carga em seus temas preferidos: teatro, política e xamanismo – que para ele são um só.

Para Zé Celso, duas coisas podem salvar o país da crise política em que começou a mergulhar em 2014: o xamanismo, claro, e a arte. O que ele procura é juntar as duas coisas, rumo à “revolução cultural” que o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica prega como a única saída para esses tempos obscuros.” (MORAES, Camila. O Eterno Verão de Zé Celso. El País.)

* * * * *

II. VIVACIDADE DA ANTROPOFAGIA OSWALDIANA

Oswald e Oficina

“Todas as nossas reformas, todas as nossas reações costumam ser feitas dentro do bonde da civilização importada. Precisamos saltar do bonde, precisamos queimar o bonde.
OSWALD DE ANDRADE, “Contra Os Emboabas” (via Bia Azevedo, p. 68)

Se digo que 2016 não foi de todo um ano catastrófico neste país golpeado e achincalhado por suas escrotas elites canalhocratas, mas teve sim seus esplendores e glórias, é pois a nossa arte e nossos artistas mais relevantes e geniais não nos decepcionaram. Em 16 de Abril de 2016, na véspera da votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, então presidida por Eduardo Cunha, estivemos na peça do Teatro Oficina, Para Dar Um Fim No Juízo De Deus. 

Saí do teatro de alma lavada e com os ímpetos dionisíacos re-turbinados, orgulhoso dos artistas desta terra e certo de que a política, enfim, não é tudo – que um lamaçal ético sem fim, na Esplanada dos Ministérios, não impede a refulgência de uma contracultura que não se cala, que manifesta-se com exuberância, que abraça a resistência com todo a verve, todo o ímpeto, toda interconexão de uma trupe de mênades e sátiros. E, além disso, saí do teatro com a impressão de ter vivenciado uma imersão não só no universo de Artaud, mas, é claro, no de Oswald de Andrade, constantemente evocado por Zé Celso e sua trupe. Desde os anos 1960, quando encenou O Rei da Vela, o Oficina tem sido talvez o mais resiliente e fiel coletivo que honra o legado da utopia antropofágica oswaldiana.

Também em 2016, caiu no mercado um livro – Antropofagia: Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo – que foi de imediato saudado por Eduardo Viveiros de Castro como “destinado a se tornar referência obrigatória para todo estudioso da obra deste que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores pensadores do século XX”. Viveiros de Castro pode até soar hiperbólico em seu elogio a Oswald como figura crucial no panorama do conhecimento global no século que se acabou, mas isto mostra o quanto este pensamento, longe de ser paroquial ou nacionalista, pode ser também uma espécie de produto de exportação autenticamente original gestado e gerado no solo fecundo da cultura brasileira. Queimando o bode da submissão e da subserviência às civilizações importadas e imperialistas.

Quem enxergou isso muito bem, como lembra Bia Azevedo, foi o Roger Bastide, sociólogo francês,  que lecionou na USP e publicou em 1950 o livro clássico Brasil: Terra de Contrastes: “Oswald devora as teorias estrangeiras como a cidade devora os imigrantes, transformando-os em carne e sangue brasileiros.” (BASTIDE, apud Azevedo, p. 70) O antropófago Oswald “comeu” toda a diversidade das culturas estrangeiras, mas na hora do vamos ver foi lá e criou algo de novíssimo, algo de revolucionário. “O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro afirma que ‘a Antropofagia Oswaldiana é a reflexão metacultural mais original produzida na América Latina até hoje. Era e é uma teoria realmente revolucionária.” (VIVEIROS DE CASTRO, apud Azevedo, p. 24)

A antropofagia é descrita como utopia no título de um dos livros de Oswald que a Ed. Globo recolocou no mercado e que traz textos clássicos como A Crise Da Filosofia Messiânica. Filosoficamente, Oswald tinha muitas similaridades e alianças com o pensamento de Nietzsche, e pode-se dizer que a antropofagia dialoga com o “dionisismo” como este aparece na obra do autor de Assim Falava Zaratustra. Oswald também é um crítico mordaz da civilização ocidental racionalista e repressora, que dá todas as honras a Apolo, a Sócrates, a Descartes, soltando os cachorros de sua feroz repressão contra Dioniso, contra Baco, contra mênades e bacantes, contra feiticeiras e heréticos… Oswald defende o caminho da “valorização do lúdico e da arte”, aproxima-se das teses de Huizinga em Homo Ludens no que diz respeito à presença em todas as culturas, de quaisquer latitudes e longitudes, da “constante lúdica”:

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“O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica. O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos – o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e, enfim, o cinema.” – OSWALD DE ANDRADE, “A Crise da Filosofia Messiânica” (Globo, 2001, p. 144)

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por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Fevereiro de 2017
A ser continuado….


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CONFLUÊNCIAS - Festival de Artes Integradas. Evoé Café Com Livros, 26/02, 17 horas. Com Luiza Camilo, quinteto Cocada Preta, Lua Plaza, Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros.

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Maria Augusta Foncesa – Oswald de Andrade (Biografia)

oswald-bioA editora Globo acaba de relançar – depois de revista e atualizada pela autora – a mais importante biografia de um dos maiores nomes da cultura brasileira moderna. Oswald de Andrade: biografia é obra de Maria Augusta Fonseca, que vem se dedicando há décadas à vida e à obra do grande modernista. Um dos maiores nomes da cultura brasileira, e não somente da literatura, porque Oswald de Andrade foi um daqueles raros homens certos no lugar certo na hora certa: nas palavras de Antonio Candido, “sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.” Esse meio era o da provinciana vida cultural brasileira do começo do século XX, que Oswald de Andrade ajudaria a ir ao encontro do mundo moderno.

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“TRÓPICOS UTÓPICOS”: Eduardo Giannetti faz a autópsia de uma utopia míope e sugere caminhos para um outro Brasil [Leia excertos selecionados do livro: Cia das Letras, 2016, 214 pgs]

“Trópicos Utópicos – Uma perspectiva brasileira da crise civilizatória”, de Eduardo Giannetti (Companhia das Letras, 2016, 214 páginas)

Em sua nova obra, que em seu título parece inverter a fórmula de Lévi-Strauss em Tristes Trópicos, Eduardo Giannetti  encara o “desafio de desentranhar luz das trevas” (Prefácio, #1). Escritor de raro talento, de pena Machadiana, Giannetti é autor de livros consagrados como Auto-Engano; Felicidade; A Ilusão da Alma; O Valor do Amanhã; Vícios Privados, Benefícios Públicos?, dentre outros. Seu Trópicos Utópicos é uma coletânea de aforismos, em formato um tanto nietzchiano, que busca pintar tanto um retrato distópico da “crise civilizatória” que hoje nos assola, quanto apontar os rumos para um Brasil que tivesse alguma utopia a propor ao desconcerto das nações.

Giannetti declara, em seu prefácio, sua dívida de gratidão em relação a dois autores que o inspiraram: Viveiros de Castro e Antonio Risério. “O mergulho em duas obras recentes de antropologia exerceu um papel decisivo na formação de minha capacidade de apreciar a riqueza dos saberes e da cultura de extração ameríndia e africana na vida brasileira: A inconstância da alma selvagem, de Viveiros de Castro, e A utopia brasileira e os movimentos negros, de Risério.”

Muitas das reflexões presentes no livro também soam como uma espécie de amplificação e complexificação do debate de Giannetti com Caetano Veloso no Roda Viva, da TV Cultura, em setembro de 1996.  Caetano, aliás, celebra na contracapa este como “um dos mais belos livros escritos sobre o Brasil” que já leu: nele, segundo Caê, “os becos sem saída criados pela espécie humana são encarados com coragem” (contracapa).

De fato, a crise trevosa em que a humanidade está atolada recebe um diagnóstico de conjuntura bastante lúcido através dos escritos de Giannetti. Ele realiza, assim, a autópsia de uma utopia míope, escrevendo uma espécie de esperançoso epitáfio para a modernidade e seus equívocos. “Os três ídolos da modernidade – a ciência, a tecnologia e o crescimento econômico – e os impasses oriundos dos seus cultos” (Prefácio, #2) são objeto de uma pontiaguda crítica que revela alguns dos descaminhos que nos fizeram chegar à presente “crise civilizatória” que tem por emblema o aquecimento global e a devastação das próprias bases materiais da vida (a atmosfera, a água, a alimentação etc.).

Sua abordagem do tema das utopias, e mais especificamente do Brasil no contexto dos pensamentos utópicos, carece de um debate mais complexo da obra de Oswald de Andrade, cuja utopia antropofágica mal é discutida pelo livro afora (o que soa um tanto omisso em um livro, ademais, que se diz tão inspirado em Viveiros de Castro, ele mesmo um oswaldiano bastante entusiástico). A pobreza e superficialidade do trato com a obra e o legado de Oswald de Andrade talvez seja o déficit mais grave de uma obra que, sem dúvida, chega para provocar excelentes debates e para propiciar aos leitores mais um banquete de belíssimos escritos.

Com a promessa de voltarmos à obra no futuro próximo em um artigo que discuta mais a fundo algumas das idéias ali apresentadas, compartilhamos por enquanto uma seleção de excertos; boa leitura! Você pode comprar o livro pela Estante Virtual, pela Amazon ou pela Cultura.

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A TRÍPLICE ILUSÃO – O mundo moderno nasceu e evoluiu embalado por três ilusões poderosas: a de que o pensamento científico permitiria gradualmente banir o mistério do mundo e assim elucidar a condição humana e o sentido da vida; a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar o seu contrário – a ameaça de um terrível descontrole das bases naturais da vida; e a de que o avanço do processo civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas. Se é verdade que uma era termina quando as suas ilusões fundadoras estão exauridas, então o veredicto é claro: a era moderna caducou. (#1)

A CRISE DE SENTIDO – O culto da ciência no mundo moderno – o fato de que o veredicto da comunidade científica se tornou, ao fim e ao cabo, o único com direito à cidadania no reino do conhecimento verdadeiro – produziu uma situação exótica.

Por um lado, abrir mão de buscar respostas ao que está além do horizonte da razão científica seria empobrecer – e no limite negar – a nossa humanidade; a fome de sentido do animal humano existe desde que ele próprio existe e seria irrealista supor que ela pode ser suprimida por algum tipo de cordão sanitário cognitivo ou interdição intelectual.

Por outro lado, contudo, o próprio avanço da ciência se encarregou de minar de forma implacável, como um ácido corrosivo que a nada poupa, os credos religiosos e as crenças metafísicas de toda ordem que no passado permitiam a seu modo, se não aplacar a falta, ao menos distrair e enganar a fome de sentido; a consequência foi a erosão da confiança na capacidade humana de encontrar respostas que sobrevivam ao crivo de um exame crítico mais exigente e atendam a um padrão de integridade e honestidade intelectuais adequado. Aí reside o cerne da crise: a ciência ilumina, mas não sacia – e pior: mina e desacredita todas as fontes possíveis de repleção.

(…) A percepção do déficit de sentido e a sensação de vazio, desamparo e futilidade associadas à vitória da perspectiva científica – a pura positividade sem mistério do mundo – tendem a fomenta duas modalidades de reação regressiva que se tornaram traços definidores do nosso tempo: a reversão em massa a formas infantilizadas e caricatas de religiosidade, não raro afeitas ao fanatismo fundamentalista, e o recurso ao consumismo cego e desenfreado como fuga ou válvula de escape diante da perda de qualquer senso de transcendência e propósito na vida. (#21)

ROLETA RUSSA COM O PLANETA – Gentileza gera gentileza; violência gera violência. Com a natureza não é diferente. Quem deseja ou defende a devastação do meio ambiente? E, não obstante, ela se tornou o fato capital do nosso tempo. Como um sonâmbulo ecocida, a humanidade está realizando um gigantesco, temerário e quase certamente irreversível experimento no único lar que possui – a biosfera.

No intervalo de apenas cinco ou seis gerações desde a Primeira Revolução Industrial – uma fração minúscula da nossa existência como espécie – a natureza vem sendo submetida a uma agressão cega e desmedida: a área coberta por florestas foi reduzida a um terço do total existente em 1700; cerca de 87% dos oceanos estão superexplorados ou exauridos (eram menos de 10% nesse estado em 1900); a calota polar do hemisfério Norte tem perdido 475 bilhões de toneladas de massa anualmente em média; o ritmo atual do desaparecimento de espécies vivas é o maior desde a extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos.

Mas o mais preocupante vetor de mudança – em parte causa e, em menos grau, efeito dos fenômenos descritos – é o aquecimento provocado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. O aumento de 0,85º C da temperatura média global desde o início da era industrial é um fato estabelecido; em maio de 2013, a concentração de CO2 na atmosfera ultrapassou (possivelmente pela primeira vez em 4,5 milhões de anos) a marca de 400 partes por milhão – e o futuro?

Qualquer previsão está cercada de incertezas: as ações humanas dependem das escolhas futuras e o clima é um sistema de alta complexidade regido por um número extraordinário de variáveis que interagem… Duas incógnitas desafiam a ciência do clima: estimar a magnitude do impacto de um aumento na emissão de gases sobre a temperatura global e prever os efeitos específicos de uma elevação da temperatura sobre os diferentes ecossistemas do planeta. Supondo que a emissão de gases venha a dobrar nas próximas décadas – um cenário plausível na trajetória vigente do business as usual – os melhores modelos estimam que a probabilidade de o aumento de temperatura superar 4,5ºC é de 17%; essa contingência, por sua vez, teria como efeitos prováveis a desertificação da Amazônia, a devastação de cidades litorâneas, a submersão de grande parte de Bangladesh e o colapso da agricultura mundial, entre outras catástrofes.

Seis culatras, uma bala no tambor: por uma peculiar coincidência, a chance de que algo assim ocorra com o nosso planeta é justamente aquela de alguém estourar os miolos ao praticar roleta-russa. (#37)

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AIR-CONDITIONED NIGHTMARE – Tecnologia é a resposta, mas qual é a questão? O caso do ar-condicionado é ilustrativo. O que era um luxo restrito, virou artigo de uso comum. Graças ao aumento da renda das famílias, ao barateamento dos aparelhos e à maior eficiência energética dos compressores, a proporção de domicílios americanos dotados de condicionadores de ar passou de 20% em 1960 para 85% hoje em dia. Mas, como ficou muito mais em conta ter e usar, o resultado foi a explosão do consumo – e desperdício – de energia: a eletricidade usada atualmente só para alimentar os aparelhos de ar condicionado nos lares ianques equivale ao consumo americano total de meio século atrás; os EUA gastam mais energia elétrica com essa única finalidade do que o continente africano para todos os fins. E a febre, ao que parece, é contagiosa: enquanto a China precisou de uma década para triplicar o uso de condicionadores de ar – a compra do equipamento é subsidiada pelo governo -, a previsão é que a Índia multiplique por 10 o número de aparelhos entre 2005 e 2020. E, assim, a imagem cunhada pelo dramaturgo americano Henry Miller ao retratar o deserto espiritual dos seus afluentes conterrâneos – “um pesadelo com ar-condicionado” – salta as fronteiras da América para assaltar o mundo.

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SIGA VIAGEM:

SEMPRE UM PAPO: Eduardo Giannetti no debate e lançamento do livro “Trópicos Utópicos – Uma Perspectiva Brasileira da Crise Civilizatória” (Companhia das Letras), no Palácio das Artes em Belo Horizonte, dia 16/08/2016:

“Existe uma utopia brasileira?” – Ciclo de Conferências “Utopias contemporâneas” da Academia Brasileira de Letras, em 02/08/2016:

Diálogos com Mário Sergio Conti

A NOVA CONDIÇÃO HUMANA: O ADVENTO DO ANTROPOCENO [MICHEL SERRES, JARED DIAMOND, HANNAH ARENDT]

A NOVA ERA: O ADVENTO DO ANTROPOCENO, SEGUNDO MICHEL SERRES

“Fluindo na direção da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo, faculdade inerente à ação como perene advertência de que os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar.” HANNAH ARENDT em “A Condição Humana”

Pode-se chamar a Humanidade de tudo, menos de estática: ela é sempre móvel e mutante. Metamorfose ambulante, tamanho “família”. A teia da vida, lembrava a sabedoria do xamã Seattle, é algo que nós integramos, mas que o “Ocidente” hegemônico enxerga como algo a controlar, explorar, consumir. Tudo o que fizermos à teia, faremos a nós mesmos – a isso, no entanto, muitos são cegos. Hoje a intervenção humana sobre a evolução da vida atingiu proporções tão gigantescas que estudiosos falam que chegamos a uma nova era, o Antropoceno. O homem é capaz de criar terremotos – man-made earthquakes – e tem condições de, através da continuação de suas práticas industriais, causar um aumento exponencial das temperaturas do globo, com consequências bastante funestas para a teia da vida em evolução. Tudo isso, novo e inaudito, tem com urgência que ser pensado – donde a valiosidade de jóia rara da obra, sábia e recompensadora, de Michel Serres.

Ora, “a evolução resulta de seleções e mutações. Darwin descobriu (…) que mutações criam novidades. O novo aparece e subsiste pela mutação, o mais adaptado subsiste pela seleção.” (SERRES, Hominescências, pg. 17). Como Michel Serres lembra, uma mutação, no sentido biológico do termo, é uma novidade que emerge no seio dos seres vivos. Pode ser novidade benéfica ou malsã para o seu “portador”, para o ser vivo que carrega em seu corpo esta novidade. Quem decidirá se o novo vencerá sobre o “antigo” é o meio ambiente e a seleção natural nele operante. No entanto, dentre as novidades desta era de que somos contemporâneos está o aumento do poderio da espécie humana sobre o conjunto do planeta Terra. De modo que praticamos, ao mesmo tempo, ações capazes de causar a extinção de incontáveis espécies de bichos e plantas, ao mesmo tempo em que já “começamos a decifrar a biblioteca dos genes destruídos e a sonhar com a reconstituição, ou mesmo a invenção de espécies.” (SERRES, Hominescências, pg. 15)

Antropobichos, fiquem alerta! É o advento, chegada, gênese, de uma nova época: o antropos em sua húbris destravou uma nova era. O advento do Antropoceno, que tem sido tão alardeado por autores como Bruno Latour e Eduardo Viveiros de Castro, antropobichos da estirpe curiosa, altamente auto-reflexiva e alter tropista, dos antropólogos. Não faltam representantes, dentre os que puseram seu Lógos para refletir sobre o Antropos, que garantem que agora  nós – os humanos em seu conjunto – transformamo-nos numa força planetária como nunca dantes fomos.

E isso não é necessariamente uma boa notícia, porque há a possibilidade de que a humanidade seja, em seu conjunto, uma potência muito mais destrutiva do que construtiva – ou, para relembrar uma provocação de um professor de biologia que tive, “talvez o homo sapiens seja a pior praga ecológica sobre a face da Terra”. Será? De todo modo, meu xará Dudu Viveiros de Castro garante que deveras entramos no tal Antropoceno e que não há mais como escapar pra trás voltar ao passado, além de ser impossível cancelar as catástrofes que já causamos e cujos efeitos ainda sentiremos, num longo prazo muito mais amplo do que a duração, limitada, de qualquer civilização.

Apertem os cintos: o clima vai ficar tenso. A panela de pressão planetária tenderá a ficar explosiva com 450ppm de CO2 na atmosfera… Com o espectro da geoengenharia a rondar nossas catástrofes climáticas, somos constantemente lembrados pelas acontecências recentes de que “as civilizações também morrem”, para citar a frase lapidar do poeta Paul Valéry. É também uma percepção que emana da obra de Jared Diamond, estudioso dos colapsos civilizacionais, que soube encontrar um tom bem pedagógico para comunicar, pela televisão, o tamanho gigante do problema em que estamos, nós os humanos, metidos até o pescoço.

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Jared Diamond (born September 10, 1937) is an American scientist and author best known for his popular science books The Third Chimpanzee (1991), Guns, Germs, and Steel (1997, awarded a Pulitzer Prize), Collapse (2005) and The World Until Yesterday (2012). Originally trained in physiology, Diamond’s work is known for drawing from a variety of fields, including anthropology, ecology, geography, and evolutionary biology. As of 2013, he is Professor of Geography at the University of California, Los Angeles.

GGS

Guns, Germs, and Steel – Episódio 1

Guns, Germs, and Steel – Episódio 2

What can we learn from traditional societies?

London Real (Full Interview)

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Em Michel Serres, escritor que venho descobrindo com grande deleite, fascinado por sua sabedoria, encontrei algumas das mais fortes palavras que descrevem este nosso desconhecido, o Antropoceno. Ele ainda está raiando; muitos milhões de humanos ainda nem ficaram sabendo que ele está entre nós. No que consiste? Nisto:

Michel Serres, filósofo francês, nascido em 1930, membro da Academia Francesa.

Michel Serres, filósofo francês, nascido em 1930, membro da Academia Francesa.

“Sem dúvida, jamais tivemos meios tão eficazes e universais para mudar o mundo e a nós mesmos, assim como o ar, poluído ou puro, a terra, cultivada ou desertificada, a água, potável ou envenenada, o fogo, enérgico ou destruidor, o clima global, nosso meio ambiente inerte e vivo, nossos corpos individuais, as espécies vivas em seu conjunto, a função da descendência, a ocupação da terra e do espaço, nossas relações e nossas coletividades, a vida ou a morte das línguas e culturas, o estatuto e a continuação das ciências, a cognição em geral, a luta contra a ignorância e a pedagogia. De agora em diante, cada uma dessas coisas e todas elas em conjunto dependem de nós… Comparados com nossos antigos poderes, os que adquirimos agora mudaram rapidamente de escala; passamos recentemente do local ao global, sem que dele tivéssemos nenhum domínio conceitual e nem prático.” (SERRES, Hominescências, pg. 20)

É imensa, pois, também esta nossa nova e recém-nascida responsabilidade, teorizada tão brilhantemente por Hans Jonas em sua obra seminal O Princípio de Responsabilidade. Michel Serres, na história da ética contemporânea, tem uma importância que julgo equiparável à de Hans Jonas, em especial por ter proposto uma utopia, por ter ousado apostar na esperança de uma hominescência. A nova condição humana exige o advento de uma nova Humanidade, com outra (expandida) consciência. Pois, como lembra Serres, aqui e agora a gente “decide, em tempo real, como sobreviverão as gerações futuras.” (SERRES, Hominescências, pg. 21)

O Antropoceno, esta era em que a Humanidade torna-se força geológica, capaz de desencadear gigantescas mudanças climáticas, manipuladora e aniquiladora de outras espécies, aprendiz de feiticeira com o gênio da genética, ainda com a memória atordoada pelos cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki, traumatizados ainda com as gulags e os campos de concentração, chocados com o que pudemos fazer sob fascismos e totalitarismos, mas por outro lado espantosamente amelhorados em nossa expectativa de vida, em nossa farmacopéia de intervenção medicamentosa e psicotrópica, em nossa capacidade de comunicação inter-conexa e na velocidade de nossas novas mídias, vivemos na gangorra entre a catástrofe e a promessa. Estamos nas dores de parto de uma nova Humanidade e ainda não é possível saber quais seus atributos, quais serão suas proezas e seus horrores; só sabemos que:

“Nossas novas capacidades de construção, exploração, destruição, aliadas ao nosso crescimento populacional e à violência arcaica e comum, arrastaram-nos, hoje, a um ponto, a uma extremidade inesperada no tempo em que essa eficácia recente de nossos saberes, técnicas, enfim, de nossos poderes, encontra e transforma o destino global dos seres humanos, a evolução das espécies vivas e o estado do planeta. (…) Descrevo o momento preciso e decisivo que vivemos hoje. Ei-lo: pela primeira vez convergem, nesse ponto, nossa história cultural, milenar, a cronologia hominal, milionária, a evolução dos seres vivos e a física da Terra, ambas bilionárias… Instante de tal novidade, que nos mantemos ainda cegos ao seu advento.

Esse polo policromático jamais ocorreu; desde que o Mundo funciona, ele jamais se apresentou. Insensíveis a essa data tão estranha, não a percebemos. (…) O fluxo da História despeja suas águas, rápidas, naquelas, lentas, da hominização, e naquelas, mais estranhas, da evolução e da cosmogonia. Vivemos, pensamos e agimos hoje… em face do Homem, da Vida e do Mundo, três antigas abstrações que se concretizam conjuntamente nessa e por essa confluência de tempos. (…) Na data presente é essa a referência segundo a qual nossas ações devem, daqui para a frente, orientar-se, definir-se, decidir-se.” SERRES, Michel. A Guerra Mundial (La Guerre Mondiale). Bertrand Brasil, RJ, 2008. Pg. 18.

SAIBA MAIS SOBRE A OBRA E AS IDEIAS DE MICHEL SERRES
(ESTUDOS SOBRE EPICURO E LUCRÉCIO)

ASSISTA: VIVEIROS DE CASTRO, “A REVOLUÇÃO FAZ O BOM TEMPO”

QUE PAÍS É ESSE? SOLIDARIEDADE SOCIAL OU PRÁTICAS DO APARTHEID?

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INSEGURANÇA PÚBLICA E SEGREGAÇÃO SOCIAL NO BRASIL

Em uma das entrevistas mais tocantes do documentário Falcão – Meninos No Tráficouma criança carioca, moradora do morro, trabalhadora do tráfico, revela às câmeras o alto grau de seu desespero e desamparo, que resume através de uma gíria muito eloquente: é o “esculacho”. O menino sente-se, desde sempre, do berço até o presente em que o filme o flagra, como alguém que foi esculachado, isto é, que sofreu maltratos, agressões, humilhações, esculhambações, dentre outras violências cotidianizadas. Eliane Brum, em uma das reportagens de seu livro O Olho da Ruasoube encontrar a expressão exata do problema:

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Os meninos do tráfico estão a um quase da morte. São crianças com essa força, a de viver com a probabilidade do fim no minuto seguinte. A insanidade do menino está no excesso de lucidez: “Se morrer nasce outro como eu. Ou melhor, ou pior. Se morrer vou descansar. É muito esculacho nessa vida.” Morreu. [1]

Falcão – Meninos No Tráfico revela-nos um real chocante (quase todos os entrevistados pelo filme não ficaram vivos o bastante para assisti-lo, já que fazem parte de uma fração da juventude brasileira, como diz Eliane Brum, que tem “expectativa de vida: 20 anos”. No Brasil, não passa um único dia sem que crianças e jovens, quase sempre negros e pobres vivendo nas periferias, morram por aqui. Ninguém derrama lágrimas por estes anônimos com a profusão que derramam para ídolos da música pop que morrem em acidentes de automóvel.

Um famoso que morre: dramalhão nacional. Já as crianças do tráfico: estes mortos não merecem as lágrimas nem o luto de quase ninguém “na pista”;  preferimos nem levá-los muito em consideração e não nos preocupamos muito quando aparecem nas estatísticas como  exemplares anônimos destes “menores delinquentes” cujos assassinatos “legais” integram apenas uma fração dos índices obscenos de letalidade de nossa Polícia Militar. Menores mortos pela polícia em sua Guerra ao Narcotráfico: isto é descrito pelas autoridades como derramamento de sangue justificável; afirma-se a doutrina do Estado como detentor do monopólio da violência legítima. 

É como se os esculachados pelo sistema, a quem impõe-se que vivam segregados marginalizados, tratados às vezes pelas elites como subhumanos, são justamente aqueles que vão parar nas penitenciárias, onde o esculacho prossegue. Como o sambista Bezerra da Silva soube tão bem retratar, o Estado-esculachador tende a trata toda a comunidade do morro como se fossem todos ou bandidos, ou criminosos em potencial. Na real, canta o malandro, a bandidagem de verdade está “escondida lá embaixo” (na pista, no asfalto, nas coberturas… no Leblon e não no Alemão!); os infratores peixe-grande, estes estão disfarçados “detrás da gravata e do colarinho” [2]:

“Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho!
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho!

No morro ninguém tem mansão
Nem casa de campo pra veranear
Nem iate pra passeios marítimos
E nem avião particular!

Somos vítimas de uma sociedade
Famigerada e cheia de malícias!
No morro ninguém tem milhões de dólares
Depositados nos bancos da Suíça!…” [2]

Como canta Criolo (e tantos outros rappers), nas periferias dos grandes centros urbanos brasileiros a molecada é facilmente aliciada para trabalhar nas “firmas” (bocas de fumo). “As criança daqui, tão de fuzil HK”, canta Criolo em “Subirusdoistiozin”, algo que evidentemente é sintoma de uma tragédia social que só os lunáticos podem considerar resolvível através de uma medida como a redução da maioridade penal. E o desarmamento geral, reforma da polícia para sua desmilitarização, onde é que fica nisso? Que adianta enjaular em doses ainda mais altas os jovens brasileiros que violam as leis, se é pra permitir que prossigam os esculachos cotidianos que cindem o Brasil em dois, como diz o MV Bill em Falcão, gerando na prática uma nação rachada, onde estão vigentes as práticas do apartheid?

Vejamos, por exemplo, o que diz a Constituição brasileira de 1988 em seu artigo 227, atentando para o abismo gigantesco existente entre a letra da lei (aquilo que ela formula como ideal) e nossa realidade social (tão distante da utopia quanto a Terra está longe de Plutão):

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“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” [3]

A Constituição estipula um dever que para qualquer brasileiro consciente e bem-informado soa como uma fantasia utópica que ainda estamos muito longe de concretizar. Como diz Edson Sêda, em seu livro A Proteção Integral (vencedor do prêmio “Criança e Paz” da UNICEF em 1995), “parece um poema. Na verdade é um poema. Parece uma síntese do belo com o bom. Para completar a síntese há que tornar essa norma verdadeira e justa. (…) Esta fórmula inscrita na Constituição Brasileira contém a síntese dos compromissos firmados pelo povo brasileiro como signatário da Convenção (da ONU).” [4]

Não tem como não lembrar de Renato Russo e seus versos: “Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da Nação / Que país é esse?”

ótica daqueles que defendem a redução da maioridade penal, ou seja, uma política de encarceramento em massa, consiste em enxergar o menor em conflito com a lei como alguém culpado e que merece ser punido, sem que jamais se coloque a questão das causas que conduziram tais crianças e adolescentes a este estado: pois não são os chamados “delinquentes” aqueles que são cotidianamente esculachados por uma sociedade que fracassa em fornecer-lhes o fundamental para uma existência digna? Não são efeitos do desastre das políticas públicas previstas na Constituição? Não nos conduzem a pensar que a solução estaria muito mais na ampliação dos serviços públicos de qualidade (saúde, educação, cultura, lazer, cidadania) do que na cegueira simplista do punitivismo autoritário?

Por exemplo: o sequestro do Ônibus 174, documentado no excelente filme de José Padilha, só é explicável se levarmos em consideração que Sandro foi um menino-de-rua que sobreviveu ao Massacre da Candelária. A violência do delinquente é muitas vezes a desforra contra os esculachos sofridos em uma sociedade que prossegue fracassando em fornecer serviços públicos que estão entronados na Lei como direitos essenciais. Sem acesso à educação, à saúde, ao lazer, à profissionalização, à convivência cívica solidária, as crianças e adolescentes que vivem em situação econômica de pobreza conhecem a (lendária) “eficiência do Estado” apenas em sua faceta policial, penal, repressiva. Na favela, o Estado é mínimo mesmo, como pregam os neoliberais…

Maioridade Penal

Quem sobe o morro é o Caveirão, não os médicos de ponta (tivemos até que importar médicos de Cuba, lembram-se? Os nossos médicos “de elite” não gostam de se misturar com a “gentalha”…); no Morro tem polícia de sobra, já professor quase não se encontra… Enquanto isso, na “pista”, no asfalto, professores precarizados e depauperados entram em greve – como neste histórico 2015, com forte movimento dos profissionais da educação em especial nos estados do Paraná e São Paulo (mas também em Goiás e outros) – e este Estado truculentão trata educadores como bandidos. Demandas por melhorias na educação são respondidas com bombas de gás lacrimogêneo e tiros de balas de (d)efeito moral, disparadas pela mesma instituição que na favela dispensa as balas de borracha e prefere a munição letal (e os tanques de guerra).

Quer dizer então que o pior problema do país é o “menor infrator”, que precisa ser enjaulado, e não estas instituições que são encrustes de Ditadura ainda fincadas na carne do Brasil como um velho espinho de outrora? Os esculachados do Brasil estão acostumados é com os soldados da PM praticando seus esculachos e enchendo o bolso com “arregos”; na fábrica de delinquentes que é nosso estado-de-coisas grotescamente desigual e nossa segregação de raízes racistas, os pobres estão já habituados (como se normal e natural fosse!) com o tenebroso Caveirão a rondá-los. Estão sempre na ansiedade apavorada de quem pode ser baleado por balas-perdidas disparadas pelas Tropas de Elite. As classes médias e altas não tem o monopólio do medo; os pobres também sofrem com o aguilhão da vulnerabilidade e da insegurança. Estamos no mesmo barco (e ele está todo cheio de furos…) – quase indo à naufrágio pelo excesso de tiroteios.

Eis o Brasil: na Lei, celebra-se a solidariedade social, a “ordem e o progresso” (o amor, que completa a tríade positivista de Comte, foi censurado…); já no chão do cotidiano, o que reina é a lógica do apartheid, da exclusão social, da sociedade cindida, jogando em replay a trama insana e já tantas vezes repetida do Senhor de Engenho e dos Escravos, da Casa-Grande e da Senzala. Com o aumento da população prisional no “divino e maravilhoso” sistema carcerário brasileiro teremos decerto inúmeras rebeliões no futuro – e novos PCCs. Com uma PM que mata criança e adolescente todo dia, como se a pena de morte fosse realmente uma prática institucionalizada no país, não sanaremos violência nenhuma, já que a polícia produz tais graus de ódio e repulsa na população civil periférica (mas não só nela: Junho de 2013 ensinou que qualquer manifestante pode ser subitamente enquadrado como vândalo e tratado como inimigo público… E dá-lhe bomba de veneno na gente!).

Alian
Anistia

Precisamos de uma outra ótica para enxergar a questão do “delinquente”, do “menor infrator”, que leve em conta que toda criança tem direitos humanos fundamentais e que em milhões de casos estão sendo negados a milhões de brasileiros (com menos de 18 anos, mas também aos maiores de idade…) o mais básico fundamental para o exercício da cidadania. Cito Edson Sêda:

“Embora quando se veja criança na rua (sem família, sem educação, sem abrigo) todos ainda enxerguem criança em situação irregular (porque olham através da luneta do obsoleto Direito de Menores), o que o novo jurista em verdade percebe é política pública em situação irregular  porque se utiliza da ótica do nosso atualíssimo Hubble social, com sua poderosa lente: a Convenção da ONU Sobre Os Direitos Da Criança. Os países zelosos estão reforçando a ótica da Convenção com sua própria lente constitucional e legal locais.  Mas em todos os países da América Latina há autoridades do legislativo, do executivo, da polícia etc. que, como entre lunáticos, preferem praticar sua autoridade (só) em cima das vítimas, repetindo ad nauseam: criança em situação irregular, criança em situação irregular… Negam a própria situação irregular do serviço público, afirmando a situação irregular dos ameaçados ou violados em seus direitos.” [6]

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1
Em seu artigo “A Bancada do Medo”, publicado na Folha de São Paulo (2015), Vladimir Safatle critica a proposta de redução da maioridade penal, supostamente destinada a combater a violência. Para Safatle, a proposta provêm do pavor que sentem certos setores da sociedade brasileira, em especial entre as classes médias e altas. Os abastados que encerram-se em espaços apartados e defendem-se de uma realidade social hostil por detrás dos muros dos condomínios, protegidos por cercas elétricas e seguranças fardados.

Segundo Safatle, é como se deste apavoramento dos proprietários, diante da vastidão da violência e da criminalidade em nossa pátria, que nascem medidas de cunho fascista, que batem recordes na Escala F de Adorno ao pregarem um Estado truculento, encarcerador, que trabalhe com a lógica do apartheid mais desabrido. Que tranque em jaulas um imenso contingente da juventude pobre, vulnerável e periférica desta terra de dimensões continentais e abissais desigualdades sociais. Escreve Safatle sobre nossa experiência nacional:

“Por trás da proposta de redução da maioridade penal não está uma reflexão sobre as formas mais eficientes de se combater a violência. Na verdade, ela é apenas a expressão de um forte sentimento social de vingança e de tentativa desesperada de materializar uma sensação difusa de insegurança que anima setores da sociedade civil.

Para tais setores, o afeto político sempre foi o medo. É o medo que os mobiliza e que os leva a constituir personagens que encarnem seus fantasmas mais primários, como o “delinquente juvenil que pode matar impunemente”, mesmo se o percentual de assassinatos cometidos por pessoas entre 16 e 18 anos é menos de 1%.

Qualquer discussão séria sobre o assunto deveria começar lembrando que o índice de reincidência dos que passam por medidas socio-educativas é de 20% a 30%, enquanto o do sistema prisional é de 70%.” [7]

O tema da vingança é crucial neste debate: o presídio, longe de ser baluarte da justiça, tem muito de uma instituição nascida do pavor e do ressentimento das classes possuidoras,  elas que muitas vezes só enriquecem por serem apropriadoras da riqueza produzida pelo trabalho alheio. As classes proprietárias, que instituíram na lei a sacralidade da propriedade privada – de bens, de imóveis, de capitais – sentem-se profundamente ultrajadas pelos chamados “crimes contra a propriedade”. Como se a maioria dos milionários no mundo não fossem criminosos bem-sucedidos! A “coesão social” de que fala Safatle, e que conhecemos faz tempo sob o nome de solidariedade, é cotidianamente sacrificada nos altares da vendeta, da barbárie, praticada pela elite que sustenta nosso apartheid. Lucros não produzem solidariedade mas sim apartamento. Prisão: fruto da burguesia, pós-Revolução Francesa, e em vasta medida uma instituição vingativa, onde a Justiça avizinha-se perigosamente da descerebrada e cruel vendetta.

Não é possível aprisionar sem cometer uma violência contra aquele que, como um bicho trancafiado em uma jaula, tem assim sua vontade torcida violada pela autoridade repressiva. Não faltam aqueles que aplaudem os rigores repressivos, tipos que bateram palmas quando a rebelião no Carandiru foi “resolvida” pelo governo de SP com um massacre grotesco, com uma cena de carnificina que fez nossos governantes escancararem sua faceta açougueira, em um episódio que a maioria dos brasileiros sente vergonha e indignação em relembrar. (Vale lembrar que o Brasil tornou-se muito mais inteligível a si mesmo desde que foi publicado um dos livros já clássicos de nossas Letras: Estação Carandiru, de Drauzio Varella.)

Rejeitar a truculência repressiva, o encarceramento em massa, o Estado policial, é lutar por um Brasil sem Carandirus, sem Bangus, sem o sangue diário que mancha a camisa branca ensopada de escarlates dos Direitos Humanos.

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Na contundente canção  de Juçara Marçal, “Damião” (do álbum Encarnado, uma composição de Douglas Germano), o tema da vingança é explorado com brilhantismo. Esta pequena obra-prima do cancioneiro brasileiro contemporâneo é também uma crônica social muito expressiva. Nela, Damião é conclamado a “dar neles”, a ir à desforra, praticar o princípio: quem bateu, agora vai levar. Damião é guerreiro e não submisso: não aceita quieto os esculachos que lhe são impostos. Não apanha quieto mas revida. E o eu lírico parece contente de lançar combustível à chama.

“Dá neles, Damião!
Mira no meio da cara
Dá com pé, com pau, com vara
Bate até virar a cara da nação!

Sangue e suor pelo vão S
entir mais a dor, vingar

Ver respingar o pavor
Quem bateu, levar!

Dá neles, Damião!
Bate até cansar.
E quando cansar

Me chama!”

[8]

Parece-me que caímos no “olho por olho e todo mundo acaba cego” que Gandhi alertava quando seguimos a lógica do pagar com violência às violências que sofremos. Não quero com isso soar como um pacifista absoluto que pregasse uma postura de sempre “dar a outra face”. Não: há algo de heróico nestes Damiões, nestes Panteras Negras, nestes Malcolm Xs, nestes Zapatistas, nestes cubanos de Sierra Maestra, que erguem-se em resistência armada contra as opressões e inequidades. É ingênuo acreditar no pacifismo quando parcelas tão gigantes da humanidade vivem no esculacho, sofrendo misérias em meio à opulência dos proprietários e das vitrines nas lojas de shopping center (onde, é claro, o “rolêzin'” é mau-visto, malquisto, chama-se logo a polícia…).

Não creio que haja solução violenta para a violência – e a redução da maioridade penal, com o consequente encarceramento em massa exacerbado, só põe lenha na fogueira de nossa insânia coletiva. Medidas fascistas não serão nunca pacificamente aceitas pela população que delas é vítima. A criminalidade existe pois a estrutura de poder no Brasil é criminosa em seus mais altos escalões: criminosa no empresariado endinheirado e mafioso, com seus Carlinhos Cachoeiras e seus Odebrechts; criminosa lá dentro do Congresso e do Senado, onde uma corja de políticos engravatados enfia no bolso verbas públicas e age como marionete do lobby corporativo; criminosa inclusive nos Ministérios, onde a Madame Motosserra, Kátia Abreu, está “cuidando” do Meio Ambiente por nós (tamos fudidos!); criminosa em seu complexo policial-carcerário, como Tropa de Elite escancarou, como Marcelo Freixo tão heroicamente revelou e combateu, já que além de ser legado da Ditadura, entulho autoritário, a PM no Brasil constitui milícias, ou máfias, que aí sim são blindados com a impunidade, Robocops com licença pra matar… 

Há sim o problema da impunidade no Brasil, mas não é a impunidade de que fala a Barbie televisiva Rachel Sherazade. Impunes ficam as empresas que depredam o meio ambiente; impunes ficam os candidatos à presidência da República que desviam milhões da saúde e envolvem-se com helicópteros Perrellianos lotados de pó; impunes ficam as empreiteiras e seus cabeças Cachoeiristas, que praticam a especulação imobiliária, sabotam uma autêntica política pública de moradia e ainda usam governadores Marconistas como seus títeres; impunes, enfim, fica a nossa elite econômica de pendores fascistas, que quer instalar Shopping e Templo no Parlamento, modelo Miami, e pelo resto do Brasil espalhar uma profusão de cárceres, públicos e privados, onde encerrar todos aqueles que vivem esculachados.

Capital

Quem vai se beneficiar com a redução da maioridade penal? Em um artigo para o Jornal da UFG, Dijaci David de Oliveira (doutor em Sociologia e diretor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG), tenta responder:

“Ao contrário do que se fala, a redução da maioridade penal tem todos os ingredientes para ampliar o número de mortes violentas (homicídio, mortes no trânsito e suicídios). Dos desdobramentos possíveis e imediatos de uma eventual aprovação da proposta são o direito de dirigir aos 16 anos e a venda de bebidas alcoólicas para os adolescentes de 16 e 17 anos. Separadamente cada um já produz estragos. Já a combinação terá um desfecho ainda mais trágico para a sociedade que anseia tanto por garantias de segurança.  (…) Quem lutará contra dois dos segmentos mais virulentos da indústria brasileira, o setor automotivo e a indústria de bebidas? O pesado lobby desses dois poderosos segmentos será capaz de santificar quaisquer propostas, por pior que sejam, desde que favoreçam a ampliação das vendas dos seus produtos.” [9]

Ou seja: é uma fatia do empresariado endinheirado, aliado a uma fatia do establishment político que é subserviente aos interesses capitalistas, que tanto defende as medidas punitivas fascistas, de repressão autoritária truculenta, que valem para os pobres, para os favelados, para os operários sindicalizados, para os funcionários públicos em greve etc. A Bancada da Bala, do Boi e da Bíblia, a Bancada Evangélica Teocrática, a Bancada que vê no Capitão Nascimento um herói nacional e não um modelo de policial a extinguir, eis nossos adversários, infelizmente demasiado poderosos para que possamos nos iludir com róseas esperanças de um arco-íris no fim-do-túnel.

Greve

“Essa discussão sobre maioridade penal é mais uma cortina de fumaça usada por aqueles que, no fundo, não se interessam em combater a violência. Se realmente estivessem, estariam a punir banqueiros que lavam dinheiro do tráfico, policiais que agem como bandidos alimentando um forte sentimento de revolta social, a lutar contra a extrema vulnerabilidade e invisibilidade dos que moram nas periferias. O melhor remédio contra o crime nunca foi “a punição como espetáculo”, mas a construção da coesão social.” VLADIMIR SAFATLE [10]

Ninguém iluda-se crendo que é fácil a edificação da solidariedade.

“Uma geração de brasileiros tem sido apagada do futuro à bala”, escreve Eliane Brum. “As cenas do extermínio foram exibidas no documentário Falcão, do rapper MV Bill e do produtor Celso Athayde, da Central Única das Favelas (CUFA). Não chocou o país pela novidade, mas pela crueza. Dos 17 garotos do filme, só um está vivo. Falcão provou que nas favelas brasileiras – e não apenas no Rio de Janeiro – a expectativa de vida é de 20 anos. São executados antes se tornar adultos.

Um estudo da UNESCO, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, mostrou que no Brasil a principal  causa da morte entre jovens é tiro. Em 24 anos, de 1979 a 2003, a população brasileira cresceu 52% – e os homicídios por arma de fogo 543%. O aumento foi causado pelo assassinato de adolescentes: das 550 mil mortes, quase a metade atingiu brasileiros entre 15 e 24 anos. A violência matou mais no país que a Guerra do Golfo e os conflitos entre Israel e Palestina.” ELIANE BRUM [11]

A lenda do brasileiro como “homem cordial”, pacífico, desfaz-se como uma estátua de areia à beira-mar quando olhamos para os fatos concretos de uma das nações mais violentas do globo. Não costumamos nos referir à nossa realidade social como algo que inclui o apartheid, o Estado policial, o complexo fascistocarcerário, como constituindo estado de guerra civil. No entanto, do mesmo modo que no México, o Brasil vive nas periferias a guerra civil prolongada e normalizada. Há décadas, esta guerra recebe recursos e é justificada, por exemplo, por uma política proibicionista de Guerra às Drogas que pretende imitar o modelo yankee. 

Importar a truculência do FDA foi uma das piores idéias-de-jerico que nossas autoridades políticas tiveram nestas últimas décadas onde não cessaram de deflagrar a Cruzada Anti-Droguística, limitada, é claro, a seus trabalhadores do varejo, das “firmas” no morro. A mídia corporativa tende a falar dos “mortos no tráfico” como delinquentes justamente assassinados. Não são casualties of war, pelo contrário: para Olavo de Carvalho e seus fascitóides asseclas, estas pessoas assassinadas pela polícia não passam de lixo humano, ou escória social, digna apenas de encarceramento ou assassinato estatal sumário. Está aí, entre nós, esta nefasta doutrina, de vasta história em meio aos nazis, da superioridade inata de uma certa etnia ou grupo social, que pode legitimamente tratar os sub-humanos como bucha-de-canhão, burro-de-carga, bicho a enjaular em prisão…

“A guerra brasileira é revelada pelo olhar e pela voz das mães dos mortos no tráfico. São dessas mulheres os úteros que geram soldados – jamais comandantes – para a narcopátria. Seus meninos tombam por tiro, faca, granada. Não como exceção, mas como fato corriqueiro. Ao enterrar um filho e descobrir outro em seu lugar, estas mulheres são lançadas um passo além da insanidade.

A morte não tem apenas idade, mas cor e classe social. No estudo Cor e vitimização por homicídios no Brasil, os pesquisadores I. Cano, D. Borges e E. Ribeiro, da UERJ, mostraram que a probabilidade de ser assassinado é quase o dobro para os pardos e perto de três vezes maior para os negros. As estatísticas são mais altas onde a renda é menor e os serviços urbanos mais deficientes.” BRUM [12]

Um pais onde

O Brasil parece ser, parodiando Stefan Zweig, um Brasil cujo “Futuro” idealizado insiste em nunca chegar, o País Do Futuro Perfeito (Mas Sempre Adiado). Parece que neste curioso cosmos onde convivemos a distopia tem muito maior potencial de concretizar-se do que a utopia, este não-lugar, este lócus imaginário que foge no horizonte conforme caminhamos Tempo adiante – mas que, é a esperança de Eduardo Galeano, pode dar-nos força para caminhar – e lutar.

 Maria Rita Kehl fala da juventude – como faixa etária, como grupo social – dizendo que os “jovens são depositários da virtualidade contida no presente” e também “caixa de ressonância dos sintomas da cultura”; para o jovem, “a vida é um eterno agora” e eles tem “disponibilidade em abraçar a atualidade”; jovem é aquele que

“Ingressa na vida adulta sem bagagem, sem bula, sem mapa. Mas essa condição agravou-se na modernidade em que, segundo Walter Benjamin, a velocidade das inovações desmoralizou a possibilidade da experiência entre gerações.” KEHL, M. R. [13]

Betinho

Ser jovem e periférico, hoje, é estar desnorteado e sem mapas. É estar disposto a arriscar-se em ações radicais. Os Black Blocs, em Junho de 2013, chegaram a apavorar tanto nosso establishment que a Editora Abril, através da Veja, fez o diabo para crucificá-los, pregando-lhes na cruz como vândalos destruidores da segurança pública. Certo… mas e as causas produtoras de tamanha revolta, não vale a pena refletir nelas? E não vale a pena perguntar pela responsabilidade daqueles que foram alvos destes ataques, ou seja, o quanto contribuíram os bancos e as multinacionais na produção de nosso apartheid militarmente sustentado?

Não deveríamos estar perguntando mais a sério às empreiteiras, às mega-corporações, aos bancos – como o HSBC, envolvido num mega-esquema bilionário de fraude e corrupção – os mesmos desafios combativos que expressam os molotovs que voam contra as agências bancárias e os McDonald’s (dentre outras corporações junk-food-ficadoras da vida)? Não chegamos a uma era onde há necessidade de molotovs intelectuais, ataques críticos mais ferinos, contra a corja de Bolsonaros e Felicianos, Malafaias e Olavos de Carvalho, que pretendem impor-nos seu obscurantismo teocrático e sua ditadura do caretismo?

Contra os Hitlers e Mussolinis do futuro, precisaremos também inventar os beatniks e os hippies, os zapatistas e os guevarinhas, do futuro aqui-e-agora a ser inventado. Nos anos 1960, lembra Maria Rita Kehl, houve uma explosão de juventude que abalou os alicerces do status quo ocidental – os levantes de 1968 (França, México, Tchecoeslováquia…) somaram-se à bela balbúrdia de Woodstock e dos Verões do Amor para mostrar que a juventude era uma força de ação, de mobilização, de criação, de subversão (no bom sentido: agentes de viradas revolucionárias). Ícone contra-cultural: Hendrix, voodoo child, inserindo genialmente o ruído e a discórdia em seu anti-hino, seu punkaço “Star Spangled Banner”, uma cusparada na cara da Yankeelândia que inventou a KKK e a Guerra do Vietnã, que mandou assassinar Luther King e Malcolm X, que insiste em querer meter-se nos altos escalões de Washington para ali fazer fortuna servindo aos lobbies de quem tem a grana alta e disposição para comprar políticos prostituíveis e gananciosos…

Sonhos e Urnas

Talvez aproxime-se a época de urgências onde novamente seremos solicitados à ação direta em massa para impedir o prosseguimento da destruição ecológica planetária perpetrada, por exemplo, pela indústria dos combustíveis fósseis – ou seja, quero dizer que talvez se faça necessário que nos tornemos um pouquinho mais incendiários em nossas relações com Shells querendo drillar o Ártico e Monsantos querendo dominar todas as sementes da terra e patentear tudo quanto é transgênico G.M.O… Não poderemos imitar os rebeldes de outrora, que levantavam-se contra outros adversários e debatiam sobre outros problemas, mas tampouco é infrutífero relembrar um pouco da efervescência sócio-cultural dos anos 1960, já que podemos tirar de lá inspiração e força, como Maria Rita Kehl lembra também:

“A sexualidade saiu à luz do dia (com ajuda, convenhamos, dos anticoncepcionais), dispensando as culpas e tabus que fizeram a angústia e a acne das gerações anteriores. Mais que o sexo, jovens eram as pulsões de vida todas, eróticas ou agressivas que impregnaram a música, a política e os costumes, na esperança de que a vida pudesse se revolucionar de ponta a ponta, se estetizar, se fazer puro fluxo, em nome de tudo o que parecesse com o desejo. Titio Nietzsche, aquele velho bigodudo que pensava como um eterno rebelde, teria adorado.” [14]


Jimi Hendrix ao vivo em Woodstock. Agosto de 1969.

Para que a juventude possa pôr em ação seus ímpetos criadores de um outro mundo possível é preciso, parece-me, antes de mais nada, superar a noção de que juventude é apenas uma faixa etária no mercado de consumo, um poderosíssimo exército de consumidores, que as forças do capitalismo disputam para abocanhar e aliciar através de seus tentáculos midiáticos. A juventude faz muito mais do que consumir entreter-se, papel que quer-lhe impor boa parte de nosso establishment Global, e às vezes inventa o novo. E estamos sempre precisados de inventar o novo diante destas velharias obscurantistas que hoje são tanto hegemônicas quanto vendidas a nós como modelos insuperáveis (a “democracia de mercado” neo-liberal, dominada pela mão invisível do Deus de Wall Street, seria o “fim da história”, o cume mais alto a que podemos chegar!?!).

No Brasil dos últimos tempos, temos exemplos às mancheias de uma juventude que inventa o novo sob a forma, por exemplo, das redes de produção cultural e circulação de artistas bolada pelo Fora-do Eixo; nos festivais de música independente fabulosos que fazem do Brasil numa potência cultural-sônica de impacto potencialmente global; nos movimentos sociais de ativismo organizado à la RUA (Juventude Anti-Capitalista) ou Juntos; nos partidos políticos renovadores, como o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) – onde reúnem-se alguns dos mais ilustres dos novos heróis do ativismo brasileiro, como Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Luciana Genro – ou em iniciativas feministas como a Marcha das Vadias e o partido PartidA deflagrado por Márcia Tiburi; em ONGs respeitáveis e empoderáveis como a Anistia Internacional ou o Greenpeace; nos laboratórios midiáticos interessantíssimos como a Ninja, a Pública, o Rafucko, o Guerrilha GGR, etc.; além disso, temos provas recentes do poderio transformador e mobilizador que possui o Movimento Passe Livre, o MTST (Trabalhadores Sem Teto), o MST (Movimento Sem Terra), a CUT, em especial quando somam forças em prol de uma mesma pauta; temos ainda intelectuais iluminantes de primeiríssima valia, como Viveiros de Castro, V. Safatle, Maria Rita Kehl, Mauro Iasi, Maria Cristina Franco Ferraz, Viviane Mosé… dentre muitos outros.

Tudo isso me dá entusiasmos para acreditar que não estamos assim tão desnorteados e que há sim lideranças de qualidade por aí. Tudo isso permite ver luzes não só no fim-do-túnel, mas na presença plena do presente de que somos contemporâneos. Em comum, trata-se de inventar um novo mundo comum, este palco da condição humana que, por uma série de cegueiras individualistas e competitivistas, esquecemos de enxergar como aventura-em-comum, convivência no seio da alteridade diversa, maravilhosa justamente pois incerta e aberta à possibilidade do melhoramento permanente, ainda que acossada pelo perigo da decadência e da extinção. Viver é muito perigoso, e só vivem visceralmente os que não se acovardam diante destes perigos e tomam os riscos necessários no processo de parir o novo.

“O mundo comum é aquilo que adentramos ao nascer e que deixamos para trás quando morremos. Transcende a duração de nossa vida tanto no passado quanto no futuro: preexistia à nossa chegada e sobreviverá à nossa breve permanência. É isto o que temos em comum não só com aqueles que vivem conosco, mas também com aqueles que aqui estiveram antes e aqueles que virão depois de nós. Mas esse mundo comum só pode sobreviver ao advento e à partida das gerações na medida em que tem uma presença pública. É o caráter público da esfera pública que é capaz de absorver e dar brilho através dos séculos a tudo o que os homens venham a preservar da ruína natural do tempo. (…) Fluindo na direção da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo, faculdade inerente à ação como perene advertência de que os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar.” [15] HANNAH ARENDT

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JUVENTUDE: NO BANCO DA ESCOLA OU NO BANCO DOS RÉUS?

No 10º e último vídeo da série “Sobre Crimes e Castigos”, da Ponte Jornalismo​, o historiador e deputado estadual Marcelo Freixo​ (PSOL 50 – Partido Socialismo e Liberdade​) afirma que a proposta de redução da maioridade penal é desumana, injusta e ineficaz sobre os números da criminalidade. Ele desafia o País a definir o que quer para suas juventudes urbanas e ricas e as as pobres e periféricas.

“É uma inversão do ônus, quem é a vítima da violência? Dos 50 mil homicídios que nós tivemos, 33 mil foram contra jovens, 70% era negros, os números são categóricos, a principal vítima da violência é a juventude pobre, negra, moradora de favela e da periferia. São eles que estão perdendo a vida. Qual é a solução para isso? Pega o jovem pobre e negro e bota no cárcere. E você não tem sequer eficácia nessa medida, essa é uma proposta exclusivamente vingativa.”

Educar primeiro para não ter que encarcerar depois: receita tão simples, mas à qual são surdos os que pregam em prol dos cárceres. Freixo refere-se a uma “inversão do ônus”, uma culpabilização da vítima: é a lógica de esculachar os esculachados que a elite brasileira pratica desde os tempos dos Senhores de Engenho, reinando pela violência e pela tirania sobre a Senzala, pregando a santa intervenção militar genocida no trato com os Quilombos…

No Brasil de hoje, talvez a cultura hip hop seja um dos principais locus de resistência, uma espécie de Quilombo cultural que tem nos Racionais MCs, no Criolo, no Emicida, no Planet Hemp (e nos vôos-solo de seus membros Marcelo D2, B Negão, Black Alien), dentre outros, alguns de seus mais expressivos representantes. Maria Rita Kehl enxerga na obra dos Racionais MC’s um “esforço civilizatório dos rappers” que procuram agir através de sua arte para emancipar os manos, mas que também acabam por revelar ao Brasil as nossas próprias contradições e cisões internas, o nosso não-declarado apartheid social:

Racionais

“Os Racionais MC’s se dirigem diretamente ao mal-estar que sinto por viver num país que reproduz diariamente, numa velocidade de linha de montagem industrial, a violenta exclusão de milhares de jovens e crianças que, apesar dos atuais discursos neoliberais que enfatizam a competência e o esforço individual, não encontram nenhuma oportunidade de sair da marginalização; jovens cujas vidas correm o risco de ser apenas o ‘efeito colateral que o sistema fez’ (Cap. 4, Versículo 3 – Mano Brown). É a capacidade que eles têm de simbolizar a experiência de desamparo destes milhões de periféricos urbanos, de forçar a barra para que a cara deles seja definitivamente incluída no retrato atual do país (um retrato que ainda se pretende doce, gentil, miscigenado), é a capacidade de produzir uma fala significativa e nova sobre a exclusão, que faz dos Racionais MC’s o mais importante fenômeno musical de massas no Brasil dos anos 1990.

O apelo parece simples: ‘permanecer vivo contrariando as estatísticas’. (…) O real se manifesta na figura do destino inexorável: hoje a pivetada, com o que restou da inocência infantil, vai para a escola, empina pipas na rua, joga bola. Logo mais estarão traficando, viciadas no crack, a caminho da morte certa. As letras de Brown e Edy Rock falam de um verdadeiro extermínio dos jovens de periferia; como acontece com os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração, não há lugar para o sublime, aqui. (…) Os sonhos de consumo, de apropriar-se dos fetiches burgueses, “moto nervosa / roupa da moda / mina da hora”, parecem acenar com um certo semblant de felicidade (assim como para os consumidores da classe média, aliás), mas ficam inacessíveis a não ser que o cara enverede pelo crime… A inveja dos ricos, da vida nos bairros burgueses, dos privilégios que o dinheiro compra, é inevitável… Apesar desta inveja, os manos tentam afirmam sua diferença.

A periferia que se valorize; os negros que tratem de bancar sua cultura, seus valores – este é o antídoto contra a alienação, contra a sedução promovida pela propaganda, pela tevê, arautos da sociedade de consumo. (…) O real é a matéria bruta do dia-a-dia da periferia, é a matéria a ser simbolizada nas letras do rap. Uma tarefa que, como todo trabalho de simbolização, depende de um trabalho de criação de linguagem que só pode ser coletivo. É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar a morte e a miséria. Para se manter junto à fonte de sua poesia eles não deixam a favela, não negam a origem.” KEHL [16]

A proposta de expandir o complexo carcerário (privatizando alguns de seus setores) e fortalecer o estado policial (com incrementos tecnológicos para os BOPEs e Robocops) é obviamente nascida da insânia paranóica das classes proprietárias, que sentem-se ameaçadas diante da ascensão dos pobres à plena cidadania; o Brasil, fatiado, tenta construir coesão e solidariedade, mas o sectarismo não permite unificação; estão apartados os Brasis que convivem no seio do Rio de Janeiro, antiga capital federal, já que uma coisa é ser jovem no Morro da Alemão ou na Maré ocupada pelo Exército (como se estivéssemos em 1968 e o AI-5 ainda estivesse valendo), outra coisa bem diferente é ser jovem no Leblon ou em Copabacana, em alguns dos cantos mais caros de todo o mercado imobiliário planetário…

A tendência repressiva – diminuir maioridade penal, construir mais presídios, tornar ainda mais truculenta a PM – é o desastre preconizado por alguns fascistas engravatados em Brasília. Doutrina devidamente tornada ressonante por essa corja de jornalistas elitistas de Veja, de demagogos da Direita (as Sherazades, os Constantinos, o “movimento Olavete”), para não falar do nefasto discurso e tenebrosa prática de vários pastores neopentecostais fundamentalistas (Malafaias, Felicianos, Edir Macedos, com vasto poderio sobre seus rebanhos). Diante do Brasil do apartheid, que deseja que permaneçamos cindidos entre um Bélgica e uma Etiópia, convivendo (em guerra) no mesmo território, é preciso afirmar o horizonte utópico de um outro mundo possível, inventado numa lógica da inclusão, da solidariedade, da radical redistribuição de renda, da reunião do diverso, da celebração do convívio e da cidadaniaUtopia: lugar que não há, lugar que há de se inventar e edificar. 

Calemos a boca e cortemos as asas da corja fascistóide que deseja pôr a juventude brasileira na jaula, em especial aquela fração desta juventude que a sociedade fracassa em fornecer acesso aos direitos humanos fundamentais, à todos os serviços públicos e seguranças sociais previstos na Legislação Federal de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente, nas Convenções da ONU de que somos pátria signatária. Que se povoe o Brasil com CEUs, onde a música seja ensinada, praticada, tocada; onde os cineastas e documentaristas do futuro possam frequentar escolas públicas do audio-visual; onde as artes gráficas desabrochem e pintem nossas ruas com grafites e poesias pixadas pelos muros; que nossa fabulosa capacidade de conexão-em-rede possa receber novos turbos, com a proliferação dos festivais – de música, de teatro, de dança, de circo… – e com a florescência profusa de nossa também fabulosa criatividade rítmica, artística, antropofágica. A juventude não foi feita para a jaula mas sim para as asas; não para o silêncio do cárcere, mas para pôr a boca no trombone, pra rimar ao microfone, pra guitarrar nos amplificadores, pra inventar o novo sem o qual a Vida cai na estagnação das múmias.

CONTINUA…

E.C.M. / Goiânia, Junho 2015

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E AUDIOVISUAIS:

[1] BRUM, Eliane. O Olho da Rua. Seção “Expectativa de Vida: 20 Anos”. Ed. Globo, 2006. Pg. 187 a 199. [2] DA SILVA, Bezerra. “Vítimas da Sociedade”. [3] Art. 227 da Constituição Federal do Brasil de 1988. [4] RUSSO, Renato. “Que País É Esse?”, da Legião Urbana.  [5] SÊDA, Edson. A Proteção Integral – Um Relato Sobre o Cumprimento do Novo Direito da Criança e do Adoloescente na América Latina. Campinas/SP, Ed. Adês, 1996. Pg. 55. [6] SÊDA. Op cit. Pg. 42. [7] SAFATLE, Vladimir. A Bancada do Medo. Jornal FSP. [8] MARÇAL, Juçara; GERMANO, Douglas. Canção “Damião”, do álbum Encarnado. [9] OLIVEIRA, Dijaci David de. Redução da Maioridade Penal: mais segurança ou mais violência?. Jornal da UFG, Ano IX, número 73, junho de 2015. [10] SAFATLE. Op cit. [11] BRUM, E. Mães Vivas de Uma Geração Morta.  Pg. 203. [12] BRUM. Op CIt. Pg. 205. [13] KEHL, Maria Rita. A Fratria Órfã. Pg. 6-7. [14] KEHL. Op cit. Pg. 10. [15] ARENDT, HANNAH. A Condição Humana. [16] KEHL. Op cit. Pg 73 e 96.

Dados
12

Carta

Fuco

Dilma
PSOL

SIGA VIAGEM:

Quero

 “QUERÔ” (2007, 08 minutos),
Da obra de Plínio Marcos,
Um filme de Carlos Cortez

“QUERÔ (interpretado por Maxwell Nascimento) é filho de uma prostituta, que foi expulsa do bordel em que trabalhava no dia em que deu à luz. Desesperada, ela se suicida tomando querosene. Violeta, a dona do prostíbulo, decide cuidar do garoto e o apelida de Querô, em referência ao modo como sua mãe morreu. Ao crescer Querô, revoltado com os maus tratos que recebe, passa a cometer pequenos delitos. Um dia ele é pego e encaminhado à Febem, onde sua vida é marcada para sempre.”

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