VIOLÕES QUE CHORAM – Versos de Cruz e Souza acompanhados por concertos e álbuns clássicos da música violonística

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VIOLÕES QUE CHORAM
Cruz e Souza (1861 – 1898)

“Ah! Plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
gemidos, prantos, que no espaço morrem…

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
e vibra e se contorce no ar, convulso…
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho,
almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar à flor de espumas.

Oh! Languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa…
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que outros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos…

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras…

Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas…
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros,
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;

Velhinhas quedas e velhinhos quedos,
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos…

E como que há histéricos espasmos
Na mão que esses violões agita, largos…
E o som sombrio é feito de sarcasmos
D de sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os violões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alívio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos tempos o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorções de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!”

(Do livro Faróis)

* * * * *

AUDIÇÕES RECOMENDADAS PARA JORNADAS VIOLONÍSTICA SUBLIMES:

CONCERTO DE ARANJUEZ (1939), de Joaquín Rodrigo, tocado por JOHN WILLIAMS e orquestra:


“SUÍTE POPULAR BRASILEIRA” de VILLA-LOBOS por DUO ASSAD


ANDRÉS SEGOVIA toca: 1. “Capricho Catalán” by Isaac Albéniz; 2. “La Maja de Goya” by Enrique Granados; 3. “Torre Bermeja” by Isaac Albéniz; 4. “Sonata in E Minor” by Domenico Scarlatti; 5. “Minuet” by Jean-Philippe Rameau; 6. “Minuet” by Fernando Sor; 7. “Ballet and Allegretto” by Manuel Ponce; 8. “Gavotte I & II” by Johann Sebastian Bach; 9. “Leyenda” by Isaac Albéniz; 10. “El Noi de la Mare” a Catalan folk song.


DILERMANDO REIS toca PIXINGUINHA


JULIAN BREAM e JOHN WILLIAMS


YAMANDU COSTA e DOMINGUINHO


PAULINHO NOGUEIRA – Antologia do Violão


BADEN POWELL – AfroSambas

:: Cidade do Cão ::

Da Suíça à Etiópia,
em um quarteirão.
Cidade do cão.

Um domingo atrás,
fui um aristocrata paulistano
ou em erudito endinheirado
por um dia — estranho dia.

O concerto matinal mensal da OSESP,
gratuito, é uma rara chance pr’um
FFLCHiano des-bolsado e pobretão
banhar seus tímpanos em linda música
Sem ficar 100 contos mais pobre —
Ou seja, próximo da indigência.

Sempre que piso na Sala SP,
sinto como se saísse do Brasil
por uma espécie de mágico portal
e fosse dar em Viena ou Paris,
como as idealizo, sem conhecer.

Adentro o ventre dum
imponente deus de pedra,
onde muito graves e chiques
desfilam as gravatas e paletós
as jóias e os belos vestidos:
Quase uma cena de Proust,
de um luxo que quase não dá nojo.

Quase.

Quase choro de emoção quando a orquestra
com cem simultâneas adagas ataca o silêncio,
agita os ventos e impõe seu império sobre o éter.

A “mesma” obra, ouvida em casa, gravada,
me deixou indiferente.

A “Grande Páscoa Russa”, de Rimsky-Korsakov,
como que me pega pelo colarinho
e me espanca com sua beleza
Até que eu quase vá a nocaute.
Beleza tão excessiva que
quase dá em desmaio.

Penso nos russos e imagino-os trágicos,
doloridos, cheios de rugas e sofrimentos.
Pinto-os na imaginação aguerridos,
catárticos, cheios de lamentos viris,
uivando a dor de viver
pelas frias catacumbas da matéria…

Depois vem Villa-Lobos.
O mais desconhecido das massas
De todos os “orgulhos nacionais”,
ficando bem atrás da Canarinho e do Senna,
quase anônimo frente ao Fausto, o Silva, e o Silvio.

Esta beleza bachiana-tropical me choca menos:
é tranquila, pacífica, harmoniosa,
como se vivéssemos num cosmos,
e não num num caosmos.

A boniteza daquilo
me fede um pouco a otimismo,
viro um pouco o rosto,
chego a sentir sono.

(Há coisas belas que dão sono.)

Sinto falta da ebulição do sangue,
dos jatos sônicos de angústia,
que eu julgo ouvir nos russos,
e que me fizeram sentir,
quando vi, faz uns anos,
a “Sagração da Primavera”,
no coro, debruçado sobre os tambores,
como se uma enxurrada
de força selvagem e primal
se derramasse impolida e incontida
sobre minha pobre e grata carcaça.

Os russos!

Penso, mais uma vez, no quanto a música é mágica.
Relembro uma de minhas frases-de-efeito prediletas,
que guardo como um zap na manga,
aguardando o dia para  lançá-la na mesa de jogo,
para causar grande efeito:
“A música é a redenção da humanidade”.

E ralhem o quanto quiserem contra o Nietzsche;
o fato é que ao menos uma incontestável verdade ele disse:
“Sem música, a vida seria um erro.”

Se alienígenas predadores nos invadissem o planeta,
dispostos a eliminarem a nossa fracassada raça,
para recomeçarem o planeta do zero,
talvez a única chance de sobrevivência,
o único meio de dissuadi-los do genocídio,
seria dar a eles alguma prova indubitável de nosso valor.

Mas para isto não serviriam nossas metrópoles,
tão sujas de miséria e balbúrdia,
nem nossos aviões, tantas vezes usados
como armas de morte por kamizakes e xiitas,
nem mesmo isto que chamamos de História,
tão escabrosamente violenta,
oceano transbordante de sangue.

Creio eu que nossa única salvação seria a música.
O fato de termos inventado coisa tão bela
Nos redimiria, talvez, no juízo dos aliens!
Acho difícil acreditar num Beethoven marciano…

* * * * *

Mas o sonho encantado
de embarcar numa Viena provisória
logo se esvai.

O encantamento não dura mais que hora e meia,
ainda que o vivido e experenciado nesta fração de tempo
seja absolutamente inquantificável,
um pesadelo para a matemática…

Logo dou meus passos para longe do palácio,
e caio direto nas ruas de São Paulo.

Eu, com a alma benta de Bach,
lavada com a água límpida do sublime,
avanço para fora do Castelinho de Música
ousando até, para meu pasmo,
sentir uma terna gratidão
por uma cidade que me proporciona, de graça,
um espetáculo tão lindo,
uma experiência estética tão encantadora….

E aí a realidade abre sua bocarra
e bafeja em mim seu bafo de bêbado.
Vomita carne mau-digerida sobre minhas flores.
Nubla com miséria meus céus azuis.

A poucos metros do Colossal Teatro onde
as melodias mais sublimes me encantaram,
minhas narinas tem a ousadia horrível
de reclamarem do fedor que soltam os
farrapos dos mendigos, maltrapilhos,
mau-lavados, que não vêem banho
faz mês e meio, quem sabe um ano…

A poucos passos da Suíça brasileira,
já se agita a nossa Etiópia.
A Crackolândia já levantou-se
para um novo dia,
indigno de ser vivido,
no qual homens e mulheres
irão atrás do crack nosso de cada dia,
e também do pão,
esta prioridade segunda,
enquanto sonham, talvez,
em serem os novos Ronaldinhos.

Os transeuntes caminham apressados,
indiferentes aos corpos estendidos no passeio,
destes que morrem na contramão
atrapalhando o tráfego.

Aqueles que estão ali,
jogados pelo chão,
tratados como piolhos,
poderiam talvez,
com um punhado oportunidade e incentivo,
se tornar nossos Jimis Hendrix ou Gil-Scott-Herons.

Mas a única música que ouvem
é a que faz seus estômagos que roncam.
Ou no máximo um CD Pirata dos Racionais,
comprado num camelô da Santa Ifigênia,
a ser ouvido em algum MP3 roubado
de algum gringo ou plêiba incauto
que deu bobeira na Rio Branco.

Penso, então, naquilo que chamam de
“o pessimismo de Lars Von Trier”
e volto a achar que não passa de realismo.
Não temos razão para,
terminada a saga de Grace,
nos sentirmos reconfortados,
alegres e saltitantes,
pois moramos em São Paulo.

Dogville é aqui.