Primeiras impressões do visitante extraterrestre sobre o bicho humano! Do filósofo espanhol Fernando Savater em “As Perguntas da Vida” (Ed. Martin Fontes, 2011)

Calvin

– Às vezes penso que o sinal mais seguro de que vida inteligente existe em algum outro lugar do Universo é que ninguém tentou nos contatar. (Calvin & Haroldo)

AS PERGUNTAS DA VIDA
por Fernando Savater

Suponhamos que um extraterrestre venha a nosso mundo e comece a nos estudar, a você e a mim. Tem à sua frente um ser vivo, talvez até o considere inteligente (sejamos otimistas!), mas uma das primeiras perguntas que se fará é: onde começa e onde acaba esse bicho?

A pergunta não é absurda… não é fácil determinar, por exemplo, se o casulo da crisálida também deve ser considerado crisálida como o resto do animal que o segregou. Do mesmo modo, o extraterrestre pode achar que eu também sou minha casa e que acabo na porta da rua, ou que pelo menos minha poltrona favorita e meu avental fazem parte de mim, ou que o cigarro que estou fumando é um de meus apêndices e a fumaça constitui minha respiração malemolente. Você, que tem carro e passa o dia dentro dele, certamente seria classificado pelo marciano entre os terrícolas de quatro rodas.

Mas, se o forasteiro interplanetário chegar a se comunicar conosco, explicaremos a ele que está enganado, que nossas fronteiras são estabelecidas por nosso tecido celular e que – por mais que amemos nossas posses e nosso alojamento urbano – nosso eu vivente só chega até onde abrange a nossa pele. Ou seja, nosso corpo. Ao que o marciano poderia nos responder: “Tudo bem, e isso, como vocês chegaram a saber?”

Responder-lhe adequadamente não é tão óbvio como parece. Não poderíamos explicar-lhe que quando falo em corpo estou me referindo àquilo que sempre vai comigo, diferentemente de outras possessões, pois meu cabelo, minhas unhas, meus dentes, minha saliva, minha urina, meu apêndice etc. são partes do meu corpo, muito minhas, mas apenas transitoriamente. Cedo ou tarde deixam de ser eu sem que eu deixe de ser eu, tal como a serpente se desfaz na primavera da roupa velha que é sua pele usada.

Nem sequer poderíamos afirmar para o curioso interplanetário que o corpo é tudo aquilo de que não podemos prescindir para continuar vivos, uma vez que às vezes é preciso trocar meu coração por outro para eu não morrer, e certos doentes dependem dos aparelhos de diálise que substituem seus rins, para não falar no ar ou no alimento, que me são corporalmente imprescindíveis quanto os pulmões ou o estômago e no entanto não fazem parte do meu eu.

Se o extraterrestre estivesse estudando uma mulher grávida, o problema se complicaria mais ainda, pois não é facil resolver se o feto é simplesmente uma parte de seu corpo ou algo distinto dele. Quanta complicação! O perspicaz Lichtenberg, no final do século XVIII, disse em um de seus aforismos que “meu corpo é a parte do mundo que meus pensamentos podem mudar”. Uma ideia engenhosa, porque para realizar a maioria das modificações da realidade – mudar uma poltrona de lugar, fazer um carro arrancar, trocar de roupa – preciso agir através de meu corpo, ao passo que me basta desejar ou pensar para levantar o braço ou abrir a boca.

E, no entanto, não parece ser meu pensamento que me faz respirar ou digerir, tampouco minha vontade pode me devolver o cabelo e os dentes erdidos… para não falar em mudar a cor de minha pele ou meu sexo! As metamorfoses de Michael Jackson ou dos transexuais necessitam de intervenções externas para serem realizadas. Francamente, satisfazer à curiosidade do extraterrestre pode nos colocar numa situação comprometedora…

No entanto, minha convicção profunda é a de que eu começo e acabo em meu corpo, sejam quais forem os embrulhos teóricos que essa certeza me traga. Talvez, vendo meu nervosismo, o amável marciano aceite esse ponto para não me irritar mais; então, ele poderia me fazer a pergunta do milhão: “De acordo, você começa e acaba em seu corpo, mas… devo assumir que você tem um corpo ou que você é um corpo?” Uma tal interrogação poderia ser causa justificada para uma guerra interplanetária!

Provavelmente Descartes, que supunha que a alma fosse um espírito e o corpo uma espécie de máquina (segundo ele, os animais – que não têm alma – são meras máquinas… que nem sequer podem experimentar dor ou prazer!), responderia que eu – o espírito – tenho um corpo e me arranjo com ele o melhor que posso. Segundo uma certa visão popular, estamos dentro do nosso corpo à maneira de fantasmas encerrados em uma espécie de robôs que devemos dirigir e mover. Até há místicos que acham que o corpo é quase tão ruim quanto um cárcere e que sem ele nós nos moveríamos com muito maior ligeireza.

Sócrates talvez tenha se referido a isso em suas últimas palavras, conforme nos são citadas por Platão, em Fédon, quando ao notar que o efeito da cicuta estava chegando a seu coração, disse a seus discípulos: “Devemos um galo a Esculápio!”

Havia o costume de oferecer um animal como sacrifício de gratidão a Esculápio, deus da medicina, quando alguém se curava de uma doença.

Talvez Sócrates achasse que o veneno assassino estava prestes a livrá-lo da doença da alma que consiste em suportar um corpo. A verdade é que, com um sujeito tão irônico, nunca se sabe…” 

Fernando-Savater

Fernando Savater

FERNANDO SAVATER
No livro As Perguntas da Vida
Ed. Martins Fontes, 2001, pgs. 56 a 58
Disponível na biblioteca do IFG/Goiânia

flusser devaneia: “há vida em outros planetas? qual a unicidade da terra?”

“É moda ultimamente afirmar que a Terra não é um corpo excepcional dentre as esferas que perfazem a máquina celeste. Dada a enorme quantidade de bolas que giram por aí, deve haver pelo menos umas poucas muito semelhantes à Terra. Este é o argumento aparentemente razoável. Trata-se de uma nova forma de articular um problema antigo. Tem ou não nossa Terra uma posição central e única dentro do cosmos?

[…] Os astrônomos e os assim chamados ‘astrobiólogos’ estão empenhados em procura febril de uma segunda Terra. Suponhamos por um instante que a encontrem. Isto não seria o fim da briga [entre Ptolomeu e Copérnico]. Uma segunda Terra não seria, certamente, uma cópia fiel da nossa. Haveria diferenças consideráveis. E essas diferenças bastariam aos defensores de Ptolomeu para proclamar a unicidade de nossa terra.

Confesso, no entanto, que não creio na mínima possibilidade de uma tal descoberta. O contato com seres de outros ‘planetas’ é coisa da science fiction, e os marcianos que falam latim, e as plantas comedoras de gente de Betelgeuse… são coisas de Hollywood e de sanatórios para alienados.

[…] A procura por uma segunda Terra é produto do desespero e da sensação de isolamento. É a recusa de aceitar o fato brutal de que a vida se restringe não somente em tempo, mas também em espaço. Não queremos nos conformar com o caráter único da nossa Terra, e com o isolamento da vida que decorre desse caráter excepcional da Terra.

Consideremos a situação excepcional e única da nossa Terra no cosmos. Em primeiro lugar, é a Terra um corpo excepcionalmente moderado. Não arde em brasa incandescente. Não revolve no frio inimaginável do zero absoluto. Não consiste de matéria rigidamente compacta. Não flutua como gás rarefeito. Não gira violentamente em redor do seu eixo. Não é acompanhada por milhares de luas (pelo menos não o é ao escrevermos estas linhas). Não está isolada e perdida no espaço. Mas a quase totalidade dos corpos que conhecemos é radical num ou noutro sentido enumerado, exceção feita aos 2 ou 3 planetas em nossa imediata proximidade.

Mas em segundo lugar a Terra é excepcionalmente mutável. As suas nuvens se deslocam, as suas montanhas surgem e desaparecem, os seus continentes e seus mares viajam. A terra é um paradoxo: excepcionalmente moderada e excepcionalmente mutável. Ela representa, se comparada aos demais corpos celestes, um estágio de extrema instabilidade, um estágio fugaz e transitório entre dois extremos.

Como surgiu esse estágio precioso que deu origem à vida? As circunstâncias e as influências que possibilitaram esse estado de coisas são de tal complexidade, que imaginar que se repetiram ou repetirão não é sinal de imaginação, mas sinal de falta de conhecimento. Se uma única circunstância tivesse faltado, e se uma única influência tivesse falhado, a vida não teria surgido. Porque um único elo pode quebrar a cadeira precária dessa labilidade preciosa.

Por exemplo: a Terra tinha que ser planeta. Numa estrela são inimagináveis as condições terrestres. E planetas são raros. Mas como planeta, tinha que estar a uma distância exata de um astro de tamanho exato. Um pouco mais próxima deste astro, e seria um corpo em brasa como Vênus. Um pouco mais distante, e seria frígida como Marte. […] É preciso afirmar que a Terra é um corpo em tudo excepcional, e que a possibilidade de encontrar outro corpo assim é muito mais que improvável.”

VILÉM FLUSSER (1920-1991)
in: A História do Diabo (pgs. 42 a 44)
Editora Annablume