Os últimos dias e palavras de Paulo Freire (1921 – 1997): sobre um índio pataxó incinerado e uma Marcha do MST em Brasília

Em 02 de Maio, no Hospital Albert Einstein em São Paulo, faleceu Paulo Freire, fulminado por um “infarto agudo do miocárdio” (acesse: cronologia no Projeto Memória).

Em seus últimos dias entre os vivos, ele havia testemunhado um Brasil cravejado por contradições, a um só tempo profundamente indignante e promissor. No mês anterior ao falecimento de Freire, em Abril de 2017, uma imensa Marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) fez Freire vibrar e pulsar com seu ânimo revivificado.

O MST descruzava os braços para a construção coletiva de um mundo menos opressivo e anunciava um outro Brasil, que tivesse vencido a “agressiva injustiça que caracteriza a posse da terra entre nós” – e por isso fez por merecer as palavras celebratórias do mestre:

“O MST, tão ético e pedagógico quanto cheio de boniteza, não começou agora, nem há 10 ou 15 ou 20 anos. Suas raízes mais remotas se acham na rebeldia dos quilombos e, mais recentemente, na bravura de seus companheiros das Ligas Camponesas que há 40 anos foram esmagados pelas mesmas forças retrógadas do imobilismo reacionário, colonial e perverso. (…) A luta pela reforma agrária representa o avanço necessário a que se opõe o atraso imobilizador do conservadorismo.

Exemplo histórico de retrocesso é a luta perversa contra a reforma agrária, em que os poderosos donos de terras e que querem continuar donos das gentes também, mentem e matam impunemente. Matam camponeses como se fossem bichos danados e fazem declarações de um cinismo estarrecedor: ‘Não foram os nossos seguranças que atiraram nos invasores, mas caçadores que andavam pelas redondezas.’ O menosprezo pela opinião pública revelado neste discurso fala do arbítrio dos poderosos e da segurança de sua impunidade. E isto no fim do segundo milênio… E ainda se acusam os Sem Terra de arruaceiros e baderneiros porque assumem o risco de concretamente denunciar e anunciar. Denunciar a realidade imoral da posse da terra entre nós e de anunciar um país diferente.

Com a experiência histórica os Sem Terra sabem muito bem que, se não fosse por suas ocupações, a reforma agrária pouco ou quase nada teria andado.” (FREIRE, P. Pedagogia da Indignação. P. 69-62-35)

E por falar em matar gente como se fosse bicho, vale lembrar o que ocorreria, neste Abril de 2017, poucos dias depois do MST colocar cerca de 100.000 pessoas na Esplanada dos Ministérios, acirrando a pressão sobre o governo FHC, no ano seguinte ao massacre de Eldorado dos Carajás. Na mesma Brasília que havia sido palco da grande manifestação dos Sem Terra, seria incinerado vivo o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. É sobre este tema que Paulo Freire escreve suas últimas palavras públicas, em uma carta pedagógica toda encharcada da emoção que tanto o caracterizou e o comoveu: a indignação ardente diante das opressões injustas e das “trágicas transgressões da ética”:

Galdino Jesus dos Santos, da etnia pataxó, na ala dos queimados do Hospital de Brasília. Ele foi queimado por cinco jovens enquanto dormia no dia 20 de abril de 1997. No dia seguinte, dia 21, Galdino morreu. (Brasília, DF, 20.04.1997. Foto de Leopoldo Silva/Folhapress). SAIBA MAIS: Memorial da Democracia

“Cinco adolescentes mataram hoje, barbaramente, um índio pataxó, que dormia tranquilo, numa estação de ônibus, em Brasília. Disseram à polícia que estavam brincando. Que coisa estranha. Brincando de matar. Tocaram fogo no corpo do índio como quem queima uma inutilidade. Um trapo imprestável. Para sua crueldade e seu gosto da morte, o índio não era um tu ou um ele. Era aquilo, aquela coisa ali. Uma espécie de sombra inferior no mundo. Inferior e incômoda, incômoda e ofensiva.

É possível que, na infância, esses malvados adolescentes tenham brincado, felizes e risonhos, de estrangular pintinhos, de atear fogo no rabo de gatos pachorrentos só para vê-los aos pulos e ouvir seus miados desesperados, e se tenham também divertido esmigalhando botões de rosa nos jardins públicos com a mesma desenvoltura com que rasgavam, com afiados canivetes, os tampos das mesas de sua escola. E isso tudo com a possível complacência quando não com o estímulo irresponsável de seus pais.

Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.

Penso em suas casas, em sua classe social, em sua vizinhança, em sua escola. Penso, entre outras coisas, no testemunho que lhes deram de pensar e de como pensar. A posição do pobre, do mendigo, do negro, da mulher, do camponês, do operário, do índio neste pensar. Penso na mentalidade materialista da posse das coisas, no descaso pela decência, na fixação do prazer, no desrespeito pelas coisas do espírito, consideradas de menor ou de nenhuma valia. Adivinho o reforço deste pensar em muitos momentos da experiência escolar em que o índio continua minimizado. Registro o todopoderosismo de suas liberdades, isentas de qualquer limite, liberdades virando licenciosidade, zombando de tudo e de todos.

Imagino a importância do viver fácil na escala de seus valores em que a ética maior, a que rege as relações no cotidiano das pessoas, terá inexistido quase por completo. Em seu lugar, a ética do mercado, do lucro. As pessoas valendo pelo que ganham em dinheiro por mês. O acatamento ao outro, o respeito ao mais fraco, a reverência à vida não só humana mas vegetal e animal, o cuidado com as coisas, o gosto da boniteza, a valoração dos sentimentos, tudo isso reduzido a nenhuma ou quase nenhuma importância.

Se nada disso, a meu juízo, diminui a responsabilidade desses agentes da crueldade, o fato em si de mais esta trágica transgressão da ética nos adverte de como urge que assumamos o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como do respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e das florestas. Não creio na amorosidade entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornamos capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importância fundamental neste fim de século. Ela tem de estar presente em qualquer prática educativa de caráter radical, crítico ou libertador.

Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor.

Se a educação sozinha não transforma a realidade, sem ela tampouco a sociedade muda.

Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outros caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fizemos e o que fazemos.

Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.” (FREIRE, Paulo. PI. P. 76)

Segundo Nita, estas foram as últimas palavras escritas por Paulo, em 21 de Abril de 1997, e servem como emblema para os últimos dias vivenciados pelo autor da Pedagogia do Oprimido: “Paulo mostrava sua alegria incontida ao ler em voz alta as passagens que escrevera sobre a Marcha do MST e indignado alguns esboços que então tinha feito, naquele mesmo dia, sobre o atentado criminoso contra Galdino”, relembra Nita (p. 79).

“As notícias da mídia estiveram voltadas para a dramática história que acontecera na madrugada de Brasília, irônica ou propositadamente (?) no Dia do Índio… Ao ter a notícia de que o nosso índio pataxó não resistira à ‘dor indizível de seu corpo em chamas’, Paulo escreveu então essas palavras derradeiras. Mais contundentes e mais cheias de indignação… Testemunharam a energia emanada de sua indignação e de seu amor; a vontade de trabalhar e de participar, criticamente, da vida de seu país; e o gosto de viver que Paulo levou consigo na madrugada de 2 de Maio de 1997.” (ANA MARIA ARAÚJO FREIRE, p. 79)

Que importância teria para nós, no Brasil de 2017, há 20 anos já separados da morte de Paulo Freire, relembrar as circunstâncias em que ele se foi? Em primeiro lugar, eu diria que a importância é extrema pois ele é um daqueles poucos intelectuais públicos de impacto histórico que mantêm muita viva sua capacidade de nos comover. De nos acordar para uma vida ativa, de intervenção no mundo, e não de acomodação covarde a um mundo visto como imutável ou fatalmente determinado. Capaz de nos colocar na senda da prática coletiva que é a única que jamais trilharam os transformadores sociais que puseram mãos à obra na construção de um alter-mundo.

Em segundo lugar, relembrar e reavivar a chama de Paulo Freire é também essencial para pensarmos nossa utopia, aquilo que lá do horizonte distante guia os nossos passos presentes. Concretizar totalmente a utopia de um mundo menos opressivo e mais justo do que descalabro de mundo atual talvez seja impossível, talvez até mesmo indesejável, mas abdicar totalmente de utopia nos faz chafurdar na apatia dos que não se mobilizam, ou mesmo no conservadorismo imobilista dos reacionários, apegados demais às tradições passadas – por mais perversas e injustas que sejam – para ousarem inventar um amanhã melhor. Paulo Freire está aí, no presente e no futuro, para nos ensinar a “pensar o amanhã”.

Paulo Freire ensina-nos, a todos, sobre o “direito que tem o ser humano de comparecer à História não apenas como seu objeto, mas também como sujeito. O ser humano é, naturalmente, um ser da intervenção no mundo… Inacabado como todo ser vivo – a inconclusão faz parte da experiência vital -, o ser humano se tornou, contudo, capaz de reconhecer-se como tal. A consciência do inacabamento o insere num permanente movimento de busca… Só o ser inacabado, mas que chega a saber-se inacabado, faz a história em que socialmente se faz e se refaz. (…) Aí radicam, de um lado, a sua educabilidade, de outro, a esperança como estado de espírito que lhe é natural.” (p. 139)

Frases assim – que fazem Freire merecer figuras nas páginas de O Princípio Esperança de Ernst Bloch – fazem de Freire uma espécie de profeta. Sua dialética da denúncia e do anúncio revela pensador atento àquilo que o filósofo marxista Karel Kosík chamada de A Dialética do Concreto. Somos seres vivos condenados à finitude, à inconclusão, e os únicos cientes de seu inacabamento que os move à permanente busca em que se radica o processo educativo – que também não pode ser concebido senão como processo permanentemente recomeçado, nunca acabado.

Nossa educação não acaba nunca, e nossas lutas contra a opressão tampouco. Recusar-se a participar do mundo comum, cruzar os braços e nada fazer, é uma ofensa que realiza-se contra nossa vocação ontológica de ser-mais. Juntos, coligados, nas lutas contra a multiplicidade de opressões que nos esmagam, solidários no ímpeto de rebeldia criativa contra um mundo caduco, é que mais fazermos rebrilhar o ser-mais que está entre os nossos possíveis. Freire, sábio do in: intervenção, inserção, interação, inconclusão na ciência de si mesma e que sai então em busca de uma inter-educação, dialógica e mutuamente instrutiva.

Em sua “radical recusa à ordem desumanizante” (p. 49), Paulo Freire afirma a necessidade do pensamento e da práxis utópicos. Em Pedagogia da Indignação, lemos Paulo Freire confessar ao leitor, com sua costumeira sinceridade desabrida, que suas cartas “devem se achar ‘ensopadas’ de fortes convicções ora explícitas, ora sugeridas. A convicção, por exemplo, de que a superação das injustiças que demanda a transformação das estruturas iníquas da sociedade implica o exercício articulado da imaginação de um mundo menos feio, menos cruel. A imaginação de um mundo com que sonhamos, de um mundo que ainda não é, de um mundo diferente do que aí está e ao qual precisamos dar forma… Gosto de ser gente porque o mudar o mundo é tão difícil quanto possível.” (PAULO FREIRE, op cit, p. 43)

Eduardo Carli de Moraes
21 de Novembro de 2017

 

BIBLIOGRAFIA:

SAIBA MAIS SOBRE A VIDA E OBRA DE P.F.:


TRILHA SONORA SUGERIDA:

“Índio”
Autores: Gabriel Moura, Seu Jorge e Sergio Granha
Intérprete: Farofa Carioca
Ano de lançamento: 1998
Ouça o álbum completo Moro no Brasil

“Hoje são 250 mil, mataram milhões
De tristeza e solidão
Na bala, no chicote, na humilhação
Índio foi queimado vivo quando dormiu
Índio comeu peixe poluído do rio
Índio quer saber se chega ao ano dois mil
Índio veio morar numa favela do Rio.”


LEIA TAMBÉM:

 

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“Escola Sem Partido: esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira” – Acesse o ebook (Gaudêncio Frigotto – org., UERJ, 2017)

Livro “Escola Sem Partido: esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira”, organizado pelo professor Gaudêncio Frigotto, publicado pelo Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), disponível para download. Acesse ebook completo: http://bit.ly/2vzqPn6.

“Mestres da América Latina” – Série televisiva argentina explora, em 8 episódios, a vida e obra de educadores essenciais como Paulo Freire, José Martí, Mariátegui, dentre outros [Assista tudo!]

“Mestres da América Latina” é uma série televisiva argentina que explora, em 8 episódios, a vida e obra de educadores essenciais em nosso continente: Paulo Freire, José Martí, José Carlos Mariátegui, Simón Rodríguez, Domingo F. Sarmiento, Gabriela Mistral, Jesualdo Sosa, José Vasconcelos. Foi produzida pelo “Laboratorio de Medios Audiovisuales” da Universidad Pedagógica (Unipe), pela “Organización de Estados Iberoamericanos para la Cultura y la Educación (OEI)” e pelo “Canal Encuentro”.

“Sin idealizaciones simplificadoras, el programa intenta acercar a los docentes, pero también al público en general, las propuestas de estos pedagogos latinoamericanos de una manera amena y atractiva. El ciclo busca renovar el debate sobre las pedagogías latinoamericanas desde un abordaje profundamente humano, y sin renunciar a la complejidad y contradicciones propias de personalidades que, desde diferentes perspectivas, se comprometieron activamente con la causa de la Patria Grande.”

Assista abaixo todos os 8 episódios completos:

PAULO FREIRE

JOSÉ MARTÍ

JOSÉ CARLOS MARIÁTEGUI

GABRIELA MISTRAL

JOSÉ VASCONCELOS

SIMON RODRÍGUEZ

JESUALDO SOSA

DOMINGO FAUSTINO SARMIENTO

SER OU NÃO SER? – A Educação >>> 7 episódios do programa de TV da Viviane Mosé

Vivi Mosé

Ser ou Não Ser? – A Educação é um programa de 7 episódios, produzido pela TV Futura e comandado por Viviane Mosé, devotado a analisar os desafios da educação contemporânea e a explorar projetos pedagógicos inovadores. Com reportagens realizadas no Brasil e em Portugal, a série traz depoimentos de educadores e pensadores do tema como Rubem Alves, Moacir Gadotti, José Pacheco, Rui Canário (Lisboa), Antônio Carlos Gomes da Costa, Celso Antunes, Pedro Demo, Cristovam Buarque, Maria Pilar, dentre outros. O programa é apresentado por Viviane Mosé, poetisa, filósofa, psicóloga psicanalista e especialista em elaboração e implementação de políticas públicas. 58 minutos.

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“Quem anda me comendo é o tempo…”

CURSO DE VLADIMIR SAFATLE: “RELER MARX HOJE” (2016, 14 aulas) – Leia e baixe na íntegra

VladimirSafatleImagem por Vinícius Siqueira

CURSO DE VLADIMIR SAFATLE:
“RELER MARX HOJE”

(2016, 14 aulas – Leia e baixe na íntegra no Academia.edu)

Excertos escolhidos:

“Talvez, para ler Marx hoje, devamos compreender como seus textos não representam exatamente um abandono, mas uma realização insurrecional da filosofia. “Insurrecional” por ser uma forma de realização que obriga a situação atual que configura o mundo presente a se transformar, a devir outro (verändern) permitindo a realização de uma emancipação que, como espero mostrar no interior deste curso, é muito mais complexa do que estamos normalmente dispostos a aceitar. Pois tal emancipação é incompreensível sem o recurso a considerações filosóficas sobre a “essência humana” que estarão claramente presentes no jovem Marx e que, contrariamente ao que acreditam alguns, nunca serão abandonadas.

(…) A dialética, quando não se deixa intimidar por nada, ou seja, quando opera expressando o movimento interno dos objetos com os quais ela lida, quando apreende toda forma desenvolvida no fluxo do movimento, é não apenas perspectiva crítica, mas também ação revolucionária. Ou seja, ela opera a transformação que as interpretações do mundo eram incapazes de produzir, pois mostra como o entendimento correto do que existe inclui a compreensão da necessidade de sua transformação, do movimento real que supera o estado de coisas existente.Quando não se deixa intimidar por nada, a dialética não fornece uma interpretação que justifica o existente, nem é a base para a aplicação de um programa de reforma social e de educação das massas no estilo daquele proposto pelos socialistas utópicos (Fourier, Saint-Simon). Ela é a lei de modificação, o entendimento do princípio de transformação que abre o mundo e os sujeitos ao que ainda não se realizou. Afinal, como dirá Marx em uma frase plena de consequências:

“O comunismo não é, para nós, um estado/situação (Zustand) que deve ser implementado, um ideal ao qual a realidade deve se sujeitar. Nós chamamos de comunismo o movimento real que supera o estado atual.” (A Ideologia Alemã, p. 59). O que Balibar compreendeu bem ao afirmar:

9782707184962“A prática revolucionária da qual nos fala as “Teses” não deve realizar um programa, um plano de reorganização da sociedade, ele deve ainda menos depender de uma visão de futuro proposta pelas teorias filosóficas e sociológicas (como estas dos filantropos do século XVIII e do início do XIX). Ela deve coincidir com ‘o movimento real que aniquila o estado de coisas existente’, como Marx não tardará a escrever na Ideologia alemã ao explicar que se trata da única definição materialista do comunismo” (BALIBAR, Etienne; La philosophie de Marx, La découverte, 2014, p. 59).

Ou seja, comunismo não é o nome de uma situação a ser implementada, de um ideal utópico a ser realizado. Ele é o nome de um tipo específico de movimento, um tipo de insurgência capaz de abrir a situação atual ao que ela só pode determinar como contradição profunda, produzindo assim o aniquilamento do modo de vida atualmente reproduzido.

(…) O jovem Marx insistia como depois da crítica iluminista à religião, cabia à filosofia desmascarar a auto-alienação humana em suas formas não-sagradas. Como ele dirá, “a crítica do céu se converte na crítica da terra, a crítica da religião na crítica do direito, a crítica da teologia na crítica da política” (MARX, Karl; Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel)

(…) Marx, como vimos, não se contenta em ser o expositor de uma teoria da necessidade das crises no interior das sociedades capitalistas. Ele quer, principalmente, pensar o ponto no qual a perspectiva crítica se transforma em ação revolucionária. Esta é a maior de suas realizações. Ela se concretiza a partir do momento que Marx nomear esse processo que indica uma contradição real no interior da racionalidade da economia política e que impulsiona a sociedade a uma transformação capaz de deixar para trás o mundo descrito pela economia política. Um nome que todos nós conhecemos, a saber, “proletariado”, uma classe produzida pela conjunção entre universalização do sistema capitalista de trocas e despossessão generalizada, completa alienação cada vez mais universal. A crítica da economia política é, em Marx, a reflexão sobre o processo de constituição do proletariado como ponto de contradição real da racionalidade econômica própria ao capitalismo.

Mas notemos com mais vagar o que Marx realmente tem em mente ao nomear esse processo que indica uma contradição real no interior da racionalidade da economia política. Marx não é responsável pela criação do termo “proletário”. Na verdade, nós o encontramos em Roma antiga. Segundo a Constituição Romana, proletário é a última das seis classes censitárias, classe composta por aqueles caracterizados por, embora sendo livres, não terem propriedade alguma ou por não terem propriedades suficientes para serem contado como cidadão com direito a voto e obrigações militares. Sua única possessão é a capacidade de procriar e ter filhos. Reduzidos assim à condição biopolítica a mais elementar, à condição de reprodutor da população, os proletários representam o que não se conta. Daí uma colocação importante de Jacques Rancière: “Em latim, proletarii significa “pessoa prolífica” – pessoa que faz crianças, que meramente vive e reproduz sem nome, sem ser contada como fazendo parte da ordem simbólica da cidade” (RANCIÈRE, Jacques; “Politics, identification and subjectivation” in: RAJCHMAN, John; The identity in question, Nova York: Routledge, 1995, p. 67).

É no bojo da Revolução Francesa, e principalmente depois da Revolução de 1830, que o termo será paulatinamente acrescido de conotação política, agora para descrever os que só possuem seu salário diário pago de acordo com a necessidade básica de auto-conservação, sejam camponeses ou operários, e que devem ser objetos de ações políticas feitas em nome da justiça social. Neste sentido, os proletários são apenas o nome de um ponto de sofrimento social intolerável, um “significante central do espetáculo passivo da pobreza” (STALLYBRASS, Peter; “Marx and heterogeneity: thinking the lumpemproletariat” In: Representations, vol 0, n. 31, p. 84).

Assim, mais do que cunhar o uso social do termo, o feito de Marx encontra-se em vincular o conceito de proletariado a uma teoria da revolução ou, antes, a uma teoria das lutas de classe que é a expressão da “história da guerra civil mais ou menos oculta na sociedade existente” (MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; Manifesto Comunista, São Paulo: Boitempo, p. 50). Daí porque Marx falará, a respeito dos saint-simonistas e de outros socialistas “crítico-utópicos”: “Os fundadores desses sistemas compreendem bem o antagonismo de classes, assim como a ação dos elementos dissolventes na própria sociedade dominante. Mas não percebem no proletariado nenhuma iniciativa histórica, nenhum movimento político que lhes seja peculiar” (Idem, pg. 66)..

A operação de Marx consistiu em colocar-se à escuta dos movimentos concretos de seu tempo, das explosões sociais que paralisavam as fábricas e a produção, isto a fim de ver em tais explosões a expressão imediata de um mesmo movimento de constituição de sujeitos políticos emergentes capazes de colocar em marcha uma negatividade dialética que tem a força de desabar mundos…

Marx será o primeiro a perceber que “proletário” não nomeia apenas o ponto máximo de despossessão econômica daqueles que não tem mais nada a não ser sua força de trabalho. O termo não é apenas a descrição sociológica de uma classe de trabalhadores. Ele é a condição ontológica (como veremos, o termo não está aqui por acaso) de toda ação revolucionária possível. Muitas vezes, nomear não é descrever, mas é produzir uma realidade outra. Ao nomear alguém, posso levar aquele que nomeio a se ver, a partir de agora, a partir do nome, mudando sua consciência a respeito de quem ele é e do que ele é capaz de fazer. Chamamos tais processos de nomeação transformadora de “atos de fala perlocucionários”. Algo disto estava em operação em Marx, seu uso do termo “proletariado” é um uso perlocucionário.

Daí sua forma de atuação, na qual a escrita analítica se mistura ao esforço sobrehumano de acompanhar os fatos do mundo, de escrever como um jornalista, de estar envolvido na organização prática dos trabalhadores em associações, partidos e Internacionais, de conclamar através de manifestos. Como se a realização insurrecional da filosofia terminasse necessariamente por uma mudança daqueles a quem ela se endereça, até porque, a filosofia dos jovens hegelianos foi expulsa da universidade alemã. Ela se endereçará agora a todos os que se reconhecem como ontologicamente despossuídos.”

SAFATLE, Reler Marx Hoje (Aula 1)

 

VEJA TAMBÉM:








A DIGNIDADE DA POLÍTICA EM TEMPOS SOMBRIOS: Acontece de 13 a 17 de Junho na UFG-Goiânia o X Encontro Internacional Hannah Arendt e VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo

 X Encontro Internacional Hannah Arendt
e VI Colóquio Pensamento Político Contemporâneo
Na UFG (Universidade Federal de Goiás) – Goiânia
De 13 a 17 Junho 2016
Blog do evento
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Participantes externos à UFG:
Alejandro Oropreza (Obs. H. Arendt/Venezuela)
Anabella di Pego (Univ. Nac. La Plata)
André Duarte (UFPR)
Bethania Assy (UERJ)
Beatriz Porcel (Univ. Nac. Rosario)
Claudia Bacci (Univ. Buenos Aires)
Claudio Boeira Garcia (Unijuí)
Daiane Eccel (UFSC)
Diego Paredes (Univ. Autônoma da Colômbia)
Eduardo J. de Moraes (Puc-Rio)
Fábio Abreu dos Passos (UFPI)
Helton Adverse (UFMG)
Jean Wyllys (Dep. PSOL/RJ)
José Luiz de Oliveira (UFSJ)
Julia Smola (Univ. Nac. General Sarmiento)
Kathlen Luana de Oliveira (IFRS)
Maria Cristina Müller (UEL)
Maria Teresa Muñoz (Univ. Autonoma do México)
Maria Francisca Pinheiro Coelho (UnB)
Odilio Alves Aguiar (UFC)
Paula Hunziker (Univ. Nac. de Córdoba)
Rodrigo Ribeiro (Unirio)
Sebastian Torres (Univ. Nac. de Córdoba)
Sonia Schio (UFPEL)
Vanessa Sievers de Almeida (UFBA)
Yara Frateschi (Unicamp)

DEU NA IMPRENSA: A RedaçãoJornal Opção – …

PROGRAMAÇÃO

Dia 13/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

09:00 – Início das inscrições no local

10:30-11:00 – Abertura

11:00-12:00 – Eduardo Jardim de Moraes (PUC-RJ): Como curar um fanático? Hannah Arendt e Amós Oz

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Yara Frateschi (Unicamp): Arendt e a questão de gênero; André Duarte (UFPR): Arendt e Butler, um diálogo possível?

15:00-15:15 – Intervalo

15:15h-16:45 – Helton Adverse (UFMG): Hannah Arendt, Leo Strauss e o problema da filosofia política; Julia Smola (UNGS/Argentina): Tras una teoría política no escrita de Hannah Arendt;

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 –Claudia Bacci (UBA): Narración y testimonio – una revisión arendtiana de la escena judicial en Argentina Anabella di Pego (ULP/Argentina): Reflexiones en torno del mal. Figuras literarias de la banalidad del mal y de la potencia de no

18:30-18:45 – Lançamento do livro Política y filosofía en Hannah Arendt: el camino desde la comprensión hacia el juicio (Anabella di Pego)

18:45-19:15 – Intervalo

19:15-20:45 – Fábio Abreu dos Passos (UFPI): O terror: Revolução Francesa e totalitarismo como exemplificações; José Luiz de Oliveira (UFSJ): A liberdade de opinião no papel do senado nas análises de Hannah Arendt

20:45-21:00 – Lançamento do livro do VIII Encontro Hannah Arendt

Dia 14/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

10:00-12:00 – Maria Francisca Pinheiro Coelho (UnB): Política e esfera pública; Antonio Glauton Varela Rocha (UFC): o mundo comum como lugar da política em Hannah Arendt; Alejandro Oropreza G. (Obs. H. Arendt/Venezuela: El traslado de la esfera pública a la privada del ejercicio del poder en democracias en peligro

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Rodrigo Ribeiro Alves Neto (Unirio): O presentismo como forma contemporânea da temporalidade e suas implicações políticas; Paula Hunziker (UNC/Argentina): Algunas hipótesis sobre la recepción arendtiana de Kant, en la década del cincuenta

15:00-15:15 – Intervalo

15:15h-16:45 – Sebastian Torres (UNC/Argentina): Arendt en el debate del neo-republicanismo; Elivanda de Oliveira Silva (UFMG): O retorno do republicanismo: a contribuição de Hannah Arendt

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Beatriz Porcel (UNR-Argentina): Arendt: el inter-esse como protección de los tiempos sombríos; Vanessa Sievers de Almeida (UFBA): “Tempos sombrios”: as metáforas da luz e da escuridão no pensamento de Hannah Arendt

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Maria Teresa Muñoz (UAM-México): Violencia y guerra. Reflexiones arendtianas acerca del llamado intervencionismo humanitario; Diego Paredes (Conicet-IIGG-Argentina/UAC-Colômbia): Violencia y política en el diálogo entre Arendt y Marx

20:30-20:45 – Lançamento do livro Violencia y Revolución en el pensamiento de Hannah Arendt (comp. Maria Teresa Muñoz)

Dia 15/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

10:00-12:00 – Lauro Rodrigues de Moraes Rêgo Júnior (UnB): A ideia da política em Max Weber e Hannah Arendt: um exame baseado em afinidades conceituais; Nei Fonseca (UFPEL): A responsabilidade entre política e educação; Cícero Samuel Dias Silva (UFCA): O domínio do kitsch: considerações a partir de Hannah Arendt e Hermann Broch; Halanne Fontenele Barros (UFC): O espaço potencial do domínio público

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Fernando José do Nascimento (UFPE): O tempo do pensamento em Hannah Arendt: entre a filosofia e a política; Diego Avelino de Moraes Carvalho (UFG): Sobre a importância do legado de Hannah Arendt para os debates historiográficos contemporâneos (ou do como “escovar a história a contra-pêlo”); Marcello Cavalcanti Barra (UNB): O conceito de massas em Hannah Arendt e Walter Benjamin

15:00-15:15 – Intervalo

15:15-16:45 – Wander Arantes de Paiva Segundo (UFG): A desobediência civil no atual cenário político sob a perspectiva do pensamento de Hannah Arendt; Nádia Junqueira Ribeiro (UFG): Constituição e Desobediência Civil – entre a estabilidade e a novidade da ação política; Mariana de Mattos Rubiano (USP): Contestação e resistência em tempos sombrios

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Lucas Barreto Dias (UFMG/Unicatólica): Os fragmentos da ruptura entre passado e futuro: sobre o método arqueológico de Arendt; Daiane Eccel (UFSC) O ocaso da tradição e as possibilidades de uma refundação; Igor Vinícius Basílio Nunes (Unicamp): O professor da garota trácia: a disputa por uma anedota

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Adriano Correia (UFG): Ação, subjetivação e mentalidade alargada: da dignidade da política; Bethania Assy (UERJ/PUC-RJ): Subjetivação e ontologia da ação política: uma curva fora do ponto no debate universalismo versus multiculturalismo

20:30-20:45 Lançamento do livro Ética, responsabilidade e juízo em Hannah Arendt (Bethania Assy)

Dia 16/06 – (SALÃO NOBRE DA FAC. DE DIREITO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)

09:30-12:00 – Exibição do filme Iphigenia (Dir.  Mihalis Kakogiannis, 1977) e debate com Konstantinos P. Nikoloutsos (Saint Joseph’s University/EUA)

12:00-13:30 – Almoço
Dia 16/06 (AUDITÓRIO DA FAC. DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I – PÇ. UNIVERSITÁRIA)
13:30-15:00 – Geraldo Adriano Emery Pereira (UFV/UFMG): Tudo é possível? Verdade e limite na teoria da ação de Hannah Arendt; Klelton Mamed de Farias (UFPA/Cesupa): Verdade e política; Kathlen Luana de Oliveira (IFRS): Fiat iustitia, ne pereat mundus: sobre memória e verdade em Arendt

15:00-15:15 – Intervalo

15:15-16:45 – Ana Carolina Turquino Turatto (UEL): Os refugiados: considerações arendtianas e a atual experiência; Ricardo George de Araújo Silva (UVA): A ideia de pertencimento de mundo e a questão dos refugiados em Arendt; Eduardo Jose Bordignon Benedetti (UFPEL): O uso político da “mentalidade alargada” em Arendt: notas acerca dos movimentos migratórios da atualidade

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Thiago Dias da Silva (USP) Sobre o significado da fala pública no Retrato calado de Luiz Roberto Salinas Fortes; Carmelita Brito de Freitas Felício (UFG): Notas sobre a condição judaica: para compreender o pertencimento de Hannah Arendt ao judaísmo como um problema político; Odilio Aguiar (UFC): Sobre “Nós, refugiados” de Hannah Arendt

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Edson Teles (UNIFESP) e Jean Wyllys (Dep. PSOL/RJ): A democracia no Brasil

20:30-20:45 – Lançamento do livro Democracia e estado de exceção: transição e memória política no Brasil e na África do Sul (Edson Teles)

Dia 17/06 (CINE UFG/CAMPUS II – SAMAMBAIA)

10:00-12:00 – Pedro Lucas Dulci (UFG): Da ideologia à idolatria: a profanação como método em Giorgio Agamben; Adriana Delbó (UFG): Sobre a ação: reflexões a partir de Nietzsche; Iarle Ferreira (IFG): Ação política na contemporaneidade: reflexões a partir da técnica moderna; João Lourenço Borges Neto (UFG): Não há nada de natural na natureza

12:00-13:30 – Almoço

13:30-15:00 – Alfons Carles Salellas Bosch (UFRGS): Amizade e filosofia em Hannah Arendt; Willian Bento Barbosa (UFG): Pensar a política em tempos sombrios: a dimensão política da amizade; José dos Santos Filho (UFG): A era moderna e a alienação da política ou sobre “o fardo de nosso tempo”

15:00-15:15 – Intervalo

15:15-16:45 – Priscilla Normando (UnB): Internet entre o totalitário e o democrático? Uma leitura a partir da obra de Hannah Arendt; Aline Soares Lopes (PUC-PR): As similaridades da crise política atual com as origens do totalitarismo: uma reflexão atual; Anelise Gonçalves Lauz (UFPEL): Sociedade e cultura: sua importância política na “Era da Informação”, a partir do referencial teórico arendtiano

16:45-17:00 – Intervalo

17:00-18:30 – Rosângela Almeida Chaves (UFG): Revolução, poder e liberdade: confluências entre Arendt e Tocqueville; Shênia Souza Giarola (UFMG): Trabalho e necessidade: o triunfo do animal laborans e a perda da liberdade segundo Hannah Arendt; Samarone Oliveira (UFG): A questão da liberdade no pensamento de Hannah Arendt

18:30-19:00 – Intervalo

19:00-20:30 – Sônia Maria Schio (UFPEL): Hannah Arendt: dignidade humana e política; Maria Cristina Müller (UEL): A possibilidade de novos começos: uma homenagem a Claudio Boeira Garcia; Helena Esser dos Reis (UFG):Revolução Francesa: malogro da democracia? Discussões a partir de Tocqueville e Arendt

20:30-20:45 – Intervalo

20:45 – Encerramento: Claudio Boeira Garcia (Unijuí).

[VÍDEO]: Claudio Willer e a “Bomba” beatnik de Corso – Declamação e palestra no XI Colóquio Filosofia e Literatura “Catástrofe: Pensamento e Criação” [31 min]

O poeta, tradutor e crítico literário Claudio Willer participou do XI Colóquio Filosofia e Literatura – “Catástrofe: Pensamento e Criação”, em Goiânia, evento que aconteceu na PUC-Goiás entre os dias 31 de maio e 2 de junho de 2016. Neste vídeo, Willer declama o poema “Bomba”, do beatnik Gregory Corso (1930-2001), um cara que “estava literalmente no inferno quando descobriu bibliotecas”: “menino de rua delinquente”, explanou Willer sobre a biografia do poeta-bombardeador, “foi preso 3 vezes antes de completar 20 anos.” Estabelecendo conexões entre Corso e o lendário poeta francês Arthur Rimbaud (“Uma Temporada no Inferno”), Miller também faz ponderações sobre os convívios e as interpenetrações entre luminares da Geração Beat como Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti. Hospede-se no Beat Hotel com Willer e ganhe uma “trip verbal” através dos meandros da verborragia poética de Greg Corso – “nele, o poeta e o delinquente coexistiam”. Neste vídeo, assista alguns trechos da declamação do poema ‘Bomba’, além de excertos da palestra de Willer:

cartazC. WILLERSobre o poeta beatnik Gregory Corso
https://youtu.be/e6JpTUteIQw
(31 min, Maio de 2016, filmagens por Eduardo Carli de Moraes e Ramon Ataide)

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#VIDEODROME @ A Casa de Vidro

Ginsberg

Ginsberg

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Corso

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Em seu blog, Willer escreveu (25 de Maio de 2016):

“Este é o 11º Colóquio de Filosofia e Literatura, regularmente organizado por Fábio Ferreira de Almeida, um intelectual ativo. Textos apresentados são depois publicados pela Edições Ricochete, de Céline Clement. Já participei duas vezes: uma delas, tratando de Lautréamont; a outra, de criação poética e algumas drogas.

Quando Fábio me comunicou o tema, ocorreu-me mais uma leitura de Bomb! de Gregory Corso – outras foram apreciadas (uso a boa tradução brasileira de Márcio Simões). Direi algo, antes. Mais em tom de crônica do que de comunicação acadêmica e respectivo ensaio, sobre as relações entre beats e catástrofes: ambientais, ameaça atômica, econômicas, e o cenário de Segunda Guerra Mundial no qual essa Geração Beat se constituiu. E também a relação de alguns de seus integrantes – Burroughs, Kerouac, Ginsberg – com o pensamento do autor de “A decadência do Ocidente”, Oswald Spengler, assimilando-o, porém seletivamente. Destacarei, outra vez, a capacidade de antecipação de Ginsberg. E, é claro, a radicalidade e o valor de Corso – o mais marginal dos beats importantes, que descobriu a poesia na cadeia.

O evento terá outros bons conferencistas: Carla Milani Damião, Mariza Wernek, Fernando Paixão, Goiamérico Felício, Eliane Robert Moraes. E Annie Le Brun, uma pensadora importante, especialista em surrealismo, que lançou ontem (24/05), aqui em São Paulo, “O sentimento da catástrofe: entre o real e o imaginário” (Iluminuras, tradução de Fábio Ferreira de Almeida, prefácio de Eliane Robert Moraes). Estou lendo. Foco ambientalista. Chernobyl e Fukushima são temas – no segundo desses episódios, o modo como foi normalizado. Annie reflete sobre a importância de respostas poéticas a catástrofes. E cita uma frase de André Breton, de 1948: “Este fim de mundo não é o nosso”.

Penso que tanto a idéia da resposta poética quanto a frase de Breton valem para o poema de Corso e para outros beats.

Divulguem. Informem. Estas catástrofes não são nossas – mas aguçarão nossa capacidade de reflexão.” (Carlos Willer)

SIGA VIAGEM:

Blog de Claudio Willer: https://claudiowiller.wordpress.com/.

Matéria da revista Cult: Willer – A Jornada Em Busca Do Encantatório
 http://revistacult.uol.com.br/home/2014/06/claudio-willer-a-jornada-em-busca-do-encantatorio/

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