VÍTIMAS & ALGOZES NO CINEMA DE FERNANDO COIMBRA – Sobre “O Lobo Atrás da Porta” (2013) e “Castelo de Areia” (2017)

Chico Buarque, que escreveu a tragédia Gota D’Água em 1975 (em parceria com Paulo Pontes), deu uma ótima resposta à seguinte questão: por que adaptar uma peça trágica grega – a Medéia de Eurípides, no caso – para o contexto brasileiro? “No Rio de Janeiro”, retrucou Chico, “acontecem umas 5 tragédias gregas por dia.”

O longa-metragem de estréia de Fernando Coimbra, O Lobo Atrás da Porta (2013), entrega ao espectador, com pitadas de uma dramaturgia à la Nelson Rodrigues, um thriller que é uma autêntica tragédia carioca. Inspira-se num caso real que chocou o Brasil em Junho de 1960, quando Neyde Maria Maia Lopes, a mulher que ficou conhecida como A Fera da Penha, sequestrou, assassinou e carbonizou o corpo de uma criança de 4 anos, Tânia Maria Coelho Araújo, filha de seu amante Antonio Couto Araujo.

A imprensa marrom debruçou-se intensamente sobre este caso, seguindo os preceitos do jornalismo sensacionalista que tem como lema “espreme que sai sangue!”, e ainda nos anos 1960 o cinema já havia se apropriado da história, com a realização de Crime de Amor (1965), de Rex Endsleigh. Mais do que requentar um enredo de sangue com novos atores, o cineasta e roteirista Coimbra pôde realizar uma obra impactante, memorável, que permite ao espectador fazer profundas reflexões sobre o que leva os seres humanos ao extremo, ou seja, ao mal radical.

O filme O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, convida a pensar nos complexos meandros das relações humanas que acabam mal, que tem um fim trágico, um desenlace fatal, em que vidas arruinadas são o fruto de um amor cujos efeitos são a ruína e a destruição. Encarnada de maneira muito autêntica por Leandra Leal, a protagonista Rosa envolve-se emocional e sexualmente com Bernardo (interpretado por Milhem Cortaz), homem casado e com filha. Para falar feito um grego: Eros, no caso, cairá em hýbris; e os excessos passionais terão que ser punidos pela Nêmesis que re-estabelece os equilíbrios do mundo, mas com um alto preço a ser pagos pelos humanos desiquilibradores….

Os dois se conhecem em uma estação de trem do Rio e um clima de paquera e tesão logo se instaura, com a aproximação erótica ocorrendo, a princípio, naquela ingênua inconsequência dos amantes que não tem a mínima idéia das consequências futuras daqueles primeiros flertes e encontros. A história tem algo do tempero de Nelson Rodrigues e este caso extraconjugal tem inúmeros análogos nos casos relatados em A Vida Como Ela É. A arte brasileira, aqui, mostra-se novamente afim de sujar de sangue o vestido de noiva…

Já o lobo do título, se inicialmente ficamos tentados a imaginá-lo com figura masculina, como uma figura peluda que quer praticar de seus malefícios e crueldades contra a Chapéuzinho Vermelho (a criança desaparecida / sequestrada), o fluxo narrativo virá embaralhar todas as cartas. Pois se “o homem é o lobo do homem”, na formulação de Hobbes, fica-se tentado a esquecer, pelo próprio masculinismo da frase e pelo vício de linguagem, que a mulher inclui-se dentro do conceito “homem”, e que as mulheres também podem ser lobas – em especial, quando violadas, violentadas, humilhadas, oprimidas, silenciadas, situação existencial propícia para que germine, no solo do ressentimento, a colheita fatal da fúria assassina, da fatal desforra.

A fúria de Bernardo se destrava contra a moça quando ela, ao invés de manter-se na posição submissa e servil da amante eventual, demonstra estar querendo coisa mais séria. Bernardo parece desejar que Rosa se submeta à posição de mera boneca sexual, que aceite seu papel de mulher-secundária. Rosa, porém, não aceita ser posta em segundo plano e começa a tomar medidas para se envolver mais de perto com a família do amante, talvez averiguando a possibilidade de uma intervenção para destruir o casamento e abrir uma brecha para assim fazer de seu amante um marido.

Quando Rosa começa a penetrar perigosamente no lar da família, dando bolas e bonecas para a filha do casal, Bernardo sente-se em risco e precisa impedir a verdade do adultério de vir à tona, por quaisquer meios possíveis. A violência do macho que deseja manter a fachada hipócrita do marido monogâmico fiel, quando sua conduta cotidiana é de um lascivo que deseja se aproveitar de mulheres com as quais não deseja compromissos muito estreitos, irrompe para fora do recalque.

Quando Rosa fica grávida e passa a carregar em seu ventre o filho (ilegítimo) de Bernardo, o macho diante daquele flagrante passa a ver o rebento em potencial como um destruidor de seu Castelo de Areia matrimonial. O feto, futuro filho, não é visto com bons olhos por Bernardo, mas sim como uma evidência perigosa de seu adultério. E é aí que ele comete contra Rosa uma enorme violência: convence-a que deve ir ao médico, fazer uns exames para checar se de fato a gravidez se confirmava. Mas Bernardo estava de conluio com o doutor: ambos já haviam combinado em fingir que tirariam sangue de Rosa, mas na hora H iriam injetar nela uma anestesia geral para consumar, sobre o corpo desacordado da jovem, um aborto forçado.

Em outra uma cena terrível, encarnando o falocentrismo e o patriarcado em suas atitudes repletas de testosterona em excesso e razão em déficit, Bernardo espanca e estapeia Rosa com truculência, de uma maneira que lembra os PMs em seus baculejos contra a juventude pobre-preta-periférica (o filme, aliás, também tem escárnio a despejar sobre os Procedimentos Padrão do delegado de polícia, que ameaça Rosa com a tortura quando a interroga sobre a desaparição da criança).

O machão, para mostrar quem está no comando, ordena com voz grossa que ela tire a calcinha. Com a cinta nas mãos, ameaça Rosa com os punhos levantados, puxa seus cabelos, manda que ela abra as pernas. Rosa chora, treme de pavor, está em pânico diante da besta fera que Bernardo se transformou. O homem delicado e galante dos primeiros encontros agora mostrou-se como lobo que se vestia com pele de cordeiro.

O trauma psíquico, ainda que o estupro não tenha sido consumado, é certamente equivalente a de um estupro concreto, com penetração. Há críticos que evocam, para falar das atitudes de Bernardo com Rosa, o conceito de gaslighting, um estrangeirismo que serve para se referir a táticas de manipulação e humilhação do outro praticadas, em especial, por homens misóginos contra mulheres que são estigmatizadas como loucas.

O termo origina-se numa peça de teatro de Patrick Hamilton, escrita em 1938, depois adaptada pelo menos duas vezes para o cinema, com destaque para o filme Gas Light (1944), dirigido por George Cukor e estrelado por Ingrid Bergman, obra que, segundo o artigo da Vox, é o melhor tratado sobre o gaslighting que temos à disposição. Não faltam, atualmente, críticos do governo de Donald Trump, atual ocupante da Casa Branca, que apontam no presidente-bilionário tendências não só para o racismo, a xenofobia, o elitismo e a misoginia – Trump seria quase um PhD em gaslighting…

Cena do filme “Gaslight” (1944), de George Cukor

No caso de O Lobo Atrás da Porta,  Rosa é penetrada simbolicamente, mas com estragos concretos em sua estrutura psíquica, por uma postura e um discurso machista, de truculência e de apagamento da vontade feminina, um modo de proceder que visa reduzir a mulher a objeto servil e obediente, que abre as pernas quando ordenada pelo chefe da pica grossa.

Quando Bernardo obriga que ela repita a frase que ele ditou – “por favor, eu quero que você me coma pelo resto da minha vida!” -, Rosa só lhe obedece para não tomar mais sopapos, para não pegar um caso grave de olho roxo. Obedece com aquele ódio recalcado com o qual os súditos e oprimidos de todos os tempos obedeceram a seus tiranos, déspotas, reis, imperadores… Rosa, oprimida mas sem poder reagir à altura diante de uma força física que lhe é superior, obedece externamente, mas mantendo dentro de si uma íntima recusa e uma secreta revolta.

Nelson Rodrigues, que como dramaturgo escreveu inúmeras tragédias, volta a ser evocado pelo desfecho de O Lobo Atrás da Porta, em que Rosa comete façanhas dignas de uma heroína trágica como Medéia (uma peça que ganhou um tratamento forte nas mãos de Lars Von Trier). Não se trata, é claro, de uma mãe matando seu próprio filho: Rosa, na verdade, foi privada à fórceps do feto que crescia em sua barriga por uma brutal intrusão do macho, que tratou o bebê-em-potência apenas como prova incriminadora, como índice de seu adultério, e que ignorou completamente o desejo da mulher. O querer de Rosa, nesta relação, é repetidas vezes violado. A vontade da mulher é tida como pouca porcaria pelo Bernardão, que com seu caráter de macho-alfa impõe sua vontade e não aceita tê-la negada.

Vítima de abusos tremendos, Rosa não fica resignada na posição de vítima. Só que seu ressentimento, transbordando com a fúria de uma lava de vulcão artificialmente tampado, acaba vindo à tona como violência vingativa. É da própria natureza do ressentimento que ele se manifeste, tempos depois de uma ofensa que não pode ser respondida na hora (penso no conceito Freudiano de ab-reação); os ofendidos que não puderam levantar-se ou sublevar-se contra seus ofensores, guardam dentro de si uma mágoa que, conforme o tempo passa, contamina a psiquê e espraia-se pelo inconsciente, impulsionando para uma ação tardia, uma ab-reação, um golpe que se dá hoje contra uma ofensa sofrida no passado.

Rosa quer ferir Bernardo, mas ao invés de ir direto a seu corpo, ao crivá-lo de balas ou empurrá-lo em um abismo, ela prefere uma via de sadismo indireto: ferir a filha de Bernardo para que possa feri-lo aonde mais lhe doeria; ela parece querer fazê-lo sentir o próprio terrível ferimento que ela sentiu ao ver-se na situação traumatizante de passar por um aborto importo pela coerção bruta.

O filme de Coimbra consegue, através deste enredo, problematizar o problema do aborto e fornecer muito alimento para debates pós-filme, pois se é perfeitamente legítimo que as mulheres possam ter direito à interrupção da gravidez, caso tenham boas justificativas para isso (como no caso de estarem grávidas por causa de um estupro prévio, ou seja, se são vítimas de uma agressão sexual e não desejam carregar a criança do violador), não conheço vertente do feminismo que justifique a legitimidade de um aborto que possa ser uma decisão de terceiros e não da própria mulher que escolhe interromper sua prenhez.

O Lobo Atrás da Porta concede ao debate público uma espécie de emblema exemplar de um aborto injustificável, pois provêm de uma decisão unilateral e violenta do macho, que impõe à mulher grávida algo que esta, em sua autonomia, não havia escolhido. Que possamos dar às mulheres, como direito cívico, o aborto como escolha, é uma pauta importante, legítima e urgente, mas que seja sempre a partir do máximo de decisão autônoma da mulher sobre seu próprio corpo, e não uma imposição heterônoma e coercitiva que viola a vontade do corpo a sofrer a intervenção…

Bernardo, na perspectiva de Rosa, virou uma espécie de mutilador, uma espécie de besta truculenta que fez uma intervenção horrorosa nas entranhas de seu delicado e complexo corpo de mulher. O crime de Bernardo, para Rosa, beira o imperdoável – e ela talvez nem mesmo saiba como proceder para procurar Justiça nos termos da lei, buscando profissionais do Direito para processarem o infrator. A dor extremada de Rosa a fez atravessar a fronteira fluida entre vítimas e carrascos. Seu trauma psíquico a leva ao mal radical de uma vingança brutal que se realiza sobre uma criança inocente. Ela, vitimada em uma fase de seu relacionamento, em outro momento urde um plano para vitimar seu ofensor. A espiral de decadência moral é chocante: todos vão chafurdando em um mal radical, até que fetos e crianças comecem a ser sacrificados no jogo fatal desses adultos enlouquecidos, que utilizam como armas de seus jogos de tesão e fúria as sacrificáveis vidas dos mais novos e dos ainda não nascidos.

Tudo isso me deixou pensando no seguinte: temos a tendência a pensar em vítimas e algozes como se fossem dois grupos heterogêneos, isolados um do outro, cada um estanque em seu tanque. Porém, a vítima pode tornar-se algoz, e vice-versa, ao sabor das alterações das relações de poder. Lembremos de Adolf Eichmann, que um dia foi um assassino de gabinete a serviço do III Reich, obedecendo à Ordem Hitlerista e sendo um dos operadores da Solução Final: este algoz acabou sendo levado a julgamento e condenado à morte pelo Estado de Israel no Julgamento de Jerusalém (documentado pelo livro-reportagem de Arendt). O mesmo Estado de Israel, nascido após a 2ª Guerra Mundial para acolher os sobreviventes do Holocausto, jamais poderia ser considerado como um Estado de Vítimas, já que tornou-se, por décadas, o cruel algoz do povo palestino, aprisionado e massacrado pelo carrasco sionista em Gaza e na Cisjordânia.

O que me lembra também de uma importante lição de Augusto Boal sobre a opressão: o grande dramaturgo, criador do Teatro do Oprimidosempre disse que um mesmo sujeito pode ser simultaneamente opressor e oprimido, ou seja, algoz e vítima. Um exemplo de fácil compreensão é um pobre operário, explorado e humilhado em seu trabalho pelo patrão burguês, que vivencia todos os dias a condição de oprimido da luta de classes, mas que quando chega em seu lar entra na pose e na postura do Poderoso Chefão, sendo o machista-mandão que oprime a mulher e os filhos.

 Para além de qualquer vitimismo – a noção de que uma vítima é sempre inocente e pura -, o filme de Coimbra desnuda os mecanismos que conduzem Rosa a atravessar situações onde ela é claramente a vítima de um relacionamento abusivo, tornando-se alguém capaz de ser a carrasca de seu antigo amante. Essa assustadora transmutação de vítimas em algozes deveria nos alertar sobre a necessidade de fundar uma ordem social onde multidões de humanos não estejam condenados à cotidiana humilhação, espoliação e exploração, pois esta é a receita da catástrofe e da violência infinita: os ofendidos da terra, em outra configuração de poder, motivados pelo impulso de seu ressentimento e seu ímpeto vingativo, vão à desforra e assim a tragédia não cessa.

Era este um dos ensinamentos de Paulo Freire quando dizia que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor”. Poderíamos parafraseá-lo dizendo que quando a sociedade está repleta de exploradores e algozes, a tendência inevitável dos ofendidos é a brutal vingança que pensa poder equilibrar as balanças ao pagar a maldade com a maldade. É neste lodaçal que repetidas vezes afundamos, são estas as marés cíclicas de violência que derrubam sem piedade aquilo que nossa civilização pretensamente civilizada constrói: nossos Castelos de Areia.

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Convidado pela Netflix a dirigir o filme Sand Castle – Castelo de Areia, o cineasta brasileiro levou para o exterior uma reflexão sobre vítimas e algozes que já era o cerne de O Lobo Atrás da Porta. Após a Invasão do Iraque pelos EUA em 2003, vemos um grupo de soldados do U.S. Army descobrindo as realidades iraquianas transtornadas pela guerra, sendo que nenhum heroísmo patriótico marca os acontecimentos. Mais uma vez, Coimbra inspirou-se em fatos reais: o roteiro foi escrito por Chris Roessner, soldado que esteve lutando em solo iraquiano e relatou experiências autobiográficas.

No centro do enredo, há uma cidade iraquiana cujo sistema de abastecimento de água foi devastado pelos bombardeios dos Yankees. Em uma cena chave, a população está desesperada: com seus galões e garrafas vazias, clamam por água. Com metralhadoras e rifles, os estadunidenses tentam comandar a distribuição de água com caminhões-pipa. Quem assistiu ao filme Até a Chuva (Hasta La Lluvia), de Iciar Bollain, sobre a Guerra da Água de Cochabamba, pode estabelecer os vínculos entre as tragédias hídricas análogas, a do Iraque e a da Bolívia.

O grupo de soldados que protagonizam o filme acabam se envolvendo no trabalho de reconstrução do que acabam de destruir. O protagonista, chamado Soldado Ocre, sente-se um pouco fora-de-lugar naquela conjuntura alucinante e, em meio ao caos das bombas que explodem, busca – em vão – conter sua confusão e seus arroubos de pura fúria irracional.

O diretor brasileiro, Coimbra, estreou bem em sua primeira incursão na carreira gringa – seguindo os passos de outros cineastas brasileiros que tentaram o mesmo, como Fernando Meirelles, que fez O Jardineiro Fiel Ensaio Sobre a Cegueira lá fora, Walter Salles, que cometeu Água Negra Diários de Motocicleta, e José Padilha, que fez o remake de Robocop 7 Days in Entebbe. Coimbra, sem ser panfletário, imprimiu uma sutil veia crítica ao filme, o que o torna bem diferente de uma patriotada que tenderia a justificar a Cruzada dos EUA batizada de “Guerra Contra o Terror”.

Os iraquianos são descritos em seus dramas e urgências, mas só são “humanizados” só até certo ponto, pois são vistos pela ótica deformadora daqueles soldados estadunidenses, brainwashed com o sabão ideológico do militarismo. A empatia é difícil entre estes campos antagônicos, mas ainda assim a experiência direta com os iraquianos concretos faz com que o canto de sereia da ideologia oficial seja soterrado.

Em uma das melhores cenas, um pai tenta atravessar uma estrada com sua filha doente, em busca de uma farmácia, mas é visto como suspeito pelas forças de ocupação. Suspeito não por portar armas ou fazer qualquer coisa ameaçadora, mas sim pela velocidade que imprime ao seu veículo ao acelerar rumo à ajuda médica que tanto precisa. Um pai com pressa para salvar sua filha da doença que a tortura: eis o que é logo convertido, na alucinada “lógica” paranóica dos soldados, em um perigo público, um suspeito de jihadismo… E é por um triz que esse pai aflito não acaba todo estropiado com balas no chão da estrada. É só por pouco que essa criança não testemunha o assassinato de seu pai pelas forças militares de ocupação que dizem estar lá para “ajudar”…

Em outra cena memorável, o diretor de uma escola desespera-se diante da situação insustentável que a guerra trouxe: alunos e equipe de educadores estão sem acesso à água, o que coloca o estabelecimento escolar em estado de colapso humanitário total. Difícil não lembrar dos ensinamentos de Naomi Klein sobre New Orleans devastada pelo Furacão Katrina, quando os business men apaixonados pelas doutrinas dos Chicago Boys viram no desastre… uma oportunidade para uma mega-privatização do sistema público de educação.

“Depois do Furacão Katrina, hordas de prestadores de serviços militares privados chegaram à cidade de New Orleans inundada. Estavam em busca de formas de lucrarem com o desastre, enquanto milhares de habitantes da cidade, abandonados por seu governo, eram tratados como criminosos perigosos apenas por tentarem sobreviver… Com a cidade atordoada e seus residentes espalhados pelo país, incapazes de proteger seus próprios interesses, emergiu um plano para pôr em prática uma lista de desejos corporativos em velocidade máxima. Milton Friedman, então com 93 anos, escreveu um artigo para o Wall Street Journal no qual declarava: ‘A maioria das escolas de New Orleans está em ruínas… É uma tragédia. É também a oportunidade de promover uma reforma radical no sistema educacional.'” (KLEIN, Não Basta Dizer Não, capítulo 8, p. 147 – 171)

A situação que Coimbra escolhe para a sua crônica – esta escola desafortunada, atingida pela guerra, incapaz de seguir seu trabalho educativo, circunstância provavelmente considerada pelo Pentágono como mero Dano Colateral (para lembrar do livro brilhante de Bauman), serve como emblema da estupidez de todo o processo da Guerra Contra Um Terror.

A guerra não constrói porra nenhuma, está lá mesmo é para destruir – com um adendo, um requinte de crueldade: aqueles que destruíram, estarão por perto para oferecer ótimos deals para a reconstrução do que eles aniquilaram. Com excelentes lucros para as empresas norte-americanas, é claro… No Iraque, a própria Zona Verde era administrada pela Halliburton, e as áreas destruídas pelos bombardeios eram depois “rifadas” para empresas interessadas na reconstrução civil ou na construção de penitenciárias privadas…

Por tematizar a questão da educação pública em tempos de guerra, o filme ganha pontos. Em outro momento, um engenheiro mecânico iraquiano estarrece o Soldado Ocre por seu conhecimento técnico e sua maestria no manejo tecno-científico dos equipamentos. É que Ocre sofreu com a lavagem cerebral que o leva ao preconceito dogmático de que os iraquianos são todos os bárbaros, uns selvagens, uns jihadistas medievais, e quando este preconceito desmorona diante das evidências empíricas, ou seja, do testemunho humano do outro, sua mente entra num tilt. Ele percebe que lhe mentiram pra caralho sobre o Iraque e os iraquianos.

Uma das lições mais preciosas que ele tira desta guerra estúpida, neste Novo Vietnã, está nas interações com iraquianos que lhe ensinam algo de bom. O engenheiro mecânico iraquiano, dizendo que aprendeu tudo aquilo estudando de graça na Universidade, estarrece o Soldado Ocre – e o o estadunidense responde com uma síntese da perversão que carcome o cerne de seu país: “In America, nothing’s free.”

A descoberta de que o ensino universitário iraquiano é grátis deixa o soldado em maus lençóis na tentativa de acreditar que os EUA são a Civilização e o Iraque a barbárie. O filme está repleto de alfinetadas na atitude etnocêntrica e narcísica dos Yankees, que vem imbuídos de uma ideologia que conta a lorota suprema: eles estão ali para levar Liberdade e Democracia para um país antes governado pelo doidão-das-armas-de-destruição-em-massa, Saddam Hussein.

Hoje já sabemos que a Coalizão liderada por George W. Bush, apoiada pela Inglaterra e pela Espanha, cometeu alguns dos piores crimes contra a humanidade deste jovem século XXI com o início das agressões ao Iraque em 2003 – já que não havia vínculo demonstrável entre o regime de Hussein e o 11 de Setembro,  e além disso jamais foram encontradas as tais armas de destruição em massa que foram utilizadas para justificar a empreitada militar. De tudo o que já se escreveu sobre o tema, para além de recomendar as análises de Noam Chomsky, considero que Arundhati Roy foi a pensadora-ativista que melhor expressou a verdade sobre o tema.

Em sua estréia como cineasta brasileiro no exterior, Fernando Coimbra soube imprimir uma perspectiva crítica, talvez conectada ao seu status de latino-americano, a esta história em que o protagonista vai deixando de crer na ideologia simplista do “ou você está conosco, ou está com os terroristas”.

É a crônica do colapso da ideologia conexa à Guerra Contra o Terror que Castelo de Areia flagra. As comunidades devastadas pelos bombardeios, sistemas de água e eletricidade destruídos, abastecimento de alimentos caotizado, tudo isso por graça da Intervenção Filantrópica das Forças Armadas dos EUA!

No meio de tal overdose de desespero, crianças iraquianas circundam os tanques made in USA, desprovidas de armas mas fazendo com as mãos o gesto de atirar contra os invasores. Os soldados, por detrás de seu heavy gear militar, protegidos por coletes à prova-de-bala e capacetes anti-choque, às vezes olham para aquilo e tentam se apegar ao discurso oficial: essa criançada não presta, são um bando de jihadistas, não podemos ter piedade!

Para o protagonista Ocre, porém, a máscara da ideologia já está caída no solo, arruinada, rasgada pelas próprias violações constantes e brutais dos direitos humanos cometidas pelo Exército Interventor.

Torna-se impossível crer que os soldados dos EUA estão ali como força filantrópica, para o bem dos iraquianos, pois eles são testemunhas oculares do imenso sofrimento humano acarretado pelo caos bélico instaurado pela invasão. Não se trata de pintar um retrato idílico do Iraque antes de 2003 – o filme destaca que vem de longe, na história, o conflito sangrento entre xiitas e sunitas, com períodos de exacerbamento das rixas que constituem irrupções de guerra civil sectária.

Mas o que Castelo de Areia torna explícito é que os EUA não estavam ali como Anjos da Redenção, mas sim aplicando à risca aquilo que Naomi Klein teorizou sob o conceito de Doutrina do Choque.

Primeiro, uma intervenção militar brutalizante, shock therapy com munição bélica pesada, realizada com todo o poderio de destruição possuído pela nação do mundo de maior orçamento militar do planeta, além de ser a pátria com maior arsenal atômico e a única a já ter utilizado de bombas atômicas contra populações civis (em Hiroshima e Nagasaki). Depois, com o país arruinado pelas bombas, o “Momento da Bondade”: os EUA, delegado pelo próprio Bom Deus misericordioso como agentes de exportação da Freedom and Democracy, oferecem aos Iraquianos umas excelentes oportunidades de negócios na reconstrução do país.

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Junho de 2018


ASSISTA CURTAS-METRAGEM DE F. COIMBRA:

TRÓPICO DAS CABRAS (2007)

POBRES-DIABOS NO PARAÍSO (2005)

O Thriller Que Nossos Tempos Distópicos Merecem – Sobre “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, um filme de Martin McDonagh

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Um Filme de Martin McDonagh, uma produção Fox Searchlight Pictures. Estrelado por Frances MacDormandWoody HarrelsonSam Rockwell, entre outros. 2017, 115 min.

Três outdoors são colocados à beira de uma estrada por onde quase ninguém passa. Todavia serão capazes de causar altos estragos.

A autora da utilização heterodoxa dos outdoors é uma mãe enfurecida com a impunidade do estuprador e assassino de sua filha. Encarnada por uma Frances McDormand em uma de suas atuações mais magistrais desde “Fargo” (The Coen Brothers), este belo thriller indicado a 7 Oscars é também um campo minado repleto de dilemas éticos e ações repletas de ambiguidade.

Pode parecer à primeira vista mais um hollywoodiano da Fox sobre sexo e violência, pondo em cena o clichêzento duelo entre policiais e bandidos, mas no fundo é uma obra-de-arte que aborda a condição humana em seus aspectos mais dark, no que se aproxima de “Os Três Enterros de Melquiades Estrada”, de Tommy Lee Jones ou de “Onde Os Fracos Não Têm Vez” dos irmãos Coen.

Cansada de esperar sentada, a mãe arregaça as mangas para demandar da polícia a solução do caso de sua filha, vítima de horrendo estupro-com-homicídio ainda sem solução após 7 meses. Com vermelho-sangue como cor de fundo, faz com que as mega-placas, usualmente postas a serviço de fisgar consumidores de mercadorias, agora anuncie em 3 doses: “Raped While Dying. Still no Arrests? How Come, Chief Whilloughy?”

A mensagem é direcionada ao chefe de Polícia, encarnado por Woody Harrelson, personagem que está em seus últimos alentos devido a um câncer pancreático que às vezes o faz tossir sangue na cara de seus convivas. O tira até tenta solucionar o caso e morrer como herói, mas só consegue tornar-se um suicida que lega aos sobreviventes a continuação do mesmo mistério e da mesma impunidade.

A certos momentos, o roteiro parece decair para um esquema um pouco simplório: good cop, bad cop. Se Woody Harrelson assume a primeira função, como detetive comprometido com a descoberta da verdade, mas tendo por obstáculos intransponíveis a falta de evidências palpáveis, para além da brevidade de sua própria vida carcomida pela doença, o estereótipo do “bad cop” é a princípio assumido pelo policial Dixon, interpretado por Sam Rockwell.

Dixon, acusado de torturas e racismo, por boa parte do filme é o porco fardado puro sangue, aquele que resolve tudo na porrada, pratica abusos de autoridade e tem toda a soberba que costuma acompanhar os medíocres. Suas atitudes tresloucadas lhe fazem perdem o emprego: após o suicídio de seu chefe, ele decide descontar sua raiva sobre o dono da agência de publicidade que aluga os outdoors, Red. Quando Dixon lança Red pela janela do segundo andar e quebra-lhe os ossos de tanta porrada estamos diante do paroxismo da caricatura “bad cop”.

O filme de Martin McDonagh prepara, porém, uma redenção para seu tira mau, uma estranha aliança que se forja entre ele e a mãe em sua cruzada. Interessado em questionar quais as forças sociais que fazem com que “fúria gere mais fúria” (“anger begets more anger”), a obra faz as violências proliferarem como epidemias, ou melhor, como incêndios: os outdoors em chamas irão gerar os coquetéis molotovs que reduzem a cinzas a delegacia de Polícia – com Dixon dentro…

Não faltam sintomas de uma sociedade adoecida pelo machismo, pelo patriarcado, pelo militarismo, onde a força bruta é com frequência utilizada no lugar da inteligência. Mesmo esta mãe está bem longe de ser a pureza moral sem nódoas que se esperaria de uma obra mais maniqueísta, pelo contrário: ela está atormentada pelas memórias de um matrimônio cruel, rompido mas resiliente, com o espancador-de-mulheres e semi-pedófilo interpretado por John Hawkes. Além disso, a lembrança-fantasma do dia em que não emprestou a caranga pra filha e esta saiu de casa enfurecida, berrando ironias: “Espero que eu seja estuprada no caminho!”, e a mãe contaminada de fúria respondeu que também gostaria. O filme deixa em aberto a questão: a discussão ocorreu no próprio dia do crime? Pouco importa. E sim que esta mãe não age como paradigma da ética e dos bons costumes, mas como um coração fervendo no coração da fúria e carregando insuportáveis cargas de culpa.

Ela beira nisso o Tarantinesco, e há na construção de personagem feito por Frances McDormand uma espécie de insistência na “virilidade”, na atitude “mulher-machona”, que não deixa de ter precedentes na Beatrix Kiddo de Uma Thurman e na “Monster” de Charlize Theron. Em “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, a protagonista parece determinada: “this time the chick ain’t losing.”

Nenhuma luz no fim do túnel: o ciclo infernal das violências prossegue até o fim. E invade os créditos finais como sugestão de mais sangue ainda por correr. O real responsável pelo estupro e assassinato, o culpado que os 3 outdoors demandavam ser capturado e punido, é esquivo e permanece escorregando para longe das mãos de qualquer justiça. E esta mãe se pergunta, em diálogo com um Bambi, se é porque Deus não existe e não há nenhuma força cósmica que se importe em impor o que é justo aos descalabros humanos.

A força do filme está em transmitir o quão errôneos e errantes são os caminhos humanos na busca por justiça e reparação – que muitas vezes tornam-se rotas rumo à vingança e à perpetuação das hostilidades. Neste caso a justiça não é do tipo que “tarda mas não falha”; ela falha até mesmo ao ponto de nunca chegar, e seus nobres escudeiros de fardas revelam-se não só como seres humanos falíveis, mas também como uns baitas duns escrotos fardados culpáveis de crimes que também ficarão impunes – como a “tortura de pessoas de cor” de que o policial Dixon permanece impune e que é justificada por seu chefe com a candidata a melhor frase do filme: “Se fôssemos despedir todos os policiais racistas, só sobrariam meia-dúzia na corporação – e eles seriam odiadores de bichas.”

Se Dixon encarna o tipo de macho-alfa cérebro-de-titica que se parece muito com o eleitor de Donald Trump (ou João Dória…), a forte e imponente personagem de Frances McDormand, ainda que sem as piroctenias de efeitos especiais e fantasias rocambolescas do Wonder Woman de Mary Harron, põe em questão o empoderamento feminino, apesar de não conseguir escapar à tosquice de um modelo masculinizante de heroísmo, em que a violência é mobilizada como meio para reparar injustiças e impunidades, o que só faz proliferar violências de um modo que o Patriarcado vem fazendo a milênios. Mas seria irrealista esperar de um filme que deseja o retrato dark de um real que beira o pesadelo que pudesse nos iluminar o caminho para o porvir com a utopia de um Matriarcado de Pachamama. Não é aqui a fonte para utopismos, mas um filme que nos ajuda a decifrar a distopia em que estamos afogamos.

Na cena final, em estranha aliança, a mãe da vítima e o ex-policial estão indo a Idaho, na direção da casa de um suspeito de ser estuprador, e diante do acúmulo de escombros que é o passado recente acabam por ser assolados pela dúvida. Não sabem se o certo a fazer é matar o sujeito com o pretexto de que seria um estuprador a menos no mundo.

É um dilema semelhante àquele de “Thelma & Louise”, de Ridley Scott: é verdade que a personagem de Susan Sarandon matou o estuprador de sua amiga na intenção de libertá-la da tirânica violência sexual do macho-tarado, mas caso se justificasse dizendo “fiz muito bem: é um estuprador a menos no mundo!”, sempre poderíamos responder: “sim, mas também é uma assassina a mais no mundo!”

Debatendo tais dilemas éticos, “Three Billboards…” faz bem em acabar sem solução, mergulhado no ambiente salutar da dúvida. Pois não é só a fúria que gera mais fúria, é também o excesso de certezas um dos vilões de nossos intermináveis ciclos de violência. Duvidar, não saber como agir, hesitar nas encruzilhadas da ação, é essencial para aquela parada para reflexão sem a qual o que se faz é tresloucado e grávido de consequências imprevistas e muitas vezes nefastas.

Afinal, na cena final, paira a neblina da dúvida sobre o oceano de sangue – e esta é uma pequena réstia de luz que vaza por debaixo da porta de uma humanidade que teima em se massacrar sem fim. É um interlúdio de dúvida reflexiva que não afasta a sensação de tempestade que se acerca. Pois haverá fúria, sem dúvida.

#CinephiliaCompulsiva2018 em A Casa de Vidro. Crítica por Eduardo Carli de Moraes.

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LINKS:

https://en.wikipedia.org/wiki/Three_Billboards_Outside_Ebbing,_Missouri

https://www.rottentomatoes.com/m/three_billboards_outside_ebbing_missouri/

http://www.metacritic.com/movie/three-billboards-outside-ebbing-missouri

CINEPHILIA COMPULSIVA – Trajetórias cinematográficas: Listas de filmes assistidos em 2017 / Parte 2 (Julho a Dezembro)

CINEPHILIA COMPULSIVA
Trajetórias cinematográficas
Itinerários 2017 / Parte 2 (Junho a Dezembro)

“Animal Político”, de Tião
(Pernambuco / BR, 75 min, 2017)



CANÇÃO DA VOLTA (2016, 1h 38min)
Direção: Gustavo Rosa de Moura
Elenco: Marina Person, João Miguel, Marat Descartes.



CORRA! (Get Out), de Jordan Peele (EUA, 2017)
Reviews: Salon



MUNDO CÃO (2016), um filme de Marcos Jorge. Com Lázaro Ramos, Adriana Esteves, Babu Santana
Disponível no Netflix Br





A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA,
um filme de Vinicius Coimbra, inspirado em conto de Guimarães Rosa



À Queima Roupa, Documentário de Theresa Jessouroun (Brasil, 2014).



Trash (2015), um filme de Stephen Daldry e Christian Duurvoort,
baseado no romance de Andy Mulligan, com Wagner Moura e Selton Mello.

Resenhas em Rotten Tomatoeshttps://www.rottentomatoes.com/m/trash_2015



 


COMO FUNCIONAM QUASE TODAS AS COISAS
Um filme de Fernando Salem (Argentina, 2016)
Assistido em Goiânia durante o Sappi no Lumière Bougainville




BORN IN FLAMES ou NASCIDAS EM CHAMAS
de Lizzie Borden



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CINEPHILIA COMPULSIVA

NO PEACE, NO PUSSY! >>> “A Greve do Sexo” segundo Spike Lee: “Chi-Raq” traz Aristófanes ressuscitado na Chicago contemporânea [#CinephiliaCompulsiva2017]

 

“NO PEACE, NO PUSSY!”

Este picante e provocativo joint do Spike Lee é uma adaptação livre da peça satírica do dramaturgo grego Aristófanes (447 a.C. — 385 a.C.), “Lisístrata”, obra também conhecida como “A Greve do Sexo” ou “A Revolução das Mulheres” (Saiba mais sobre a edição em português da Ed. Zahar, RJ, 1996).

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673841O cineasta transpôs o enredo da Grécia Antiga em tempos de Guerra do Peloponeso para a Chicago contemporânea, onde as guerras de gangues causam mais mortes do que as baixas de soldados norte-americanos no Iraque e no Afeganistão.

O resultado prova que segue repleta de vivacidade e atualidade a dramaturgia grega clássica, em especial autores trágicos, como Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e clássicos cômicos, como o Aristófanes que Spike Lee decidiu ressuscitar – um autor célebre também pela chacota contra Sócrates em As Nuvens.

O filme descreve um levante feminista que busca estancar a sangria e a carnificina através de um pussy-strike, uma greve das bocetas, que transforma-se em fenômeno mundial que enlouquece os machos do planeta (até a Marcha das Vadias Sampa faz uma participação especial no filme cantando seu slogan: “sem paz, sem xana!”).

Humorístico e sagaz, o filme se desenrola como uma espécie de musical black ou ópera-rap, em que Spike Lee demonstra não só sua maestria no domínio irrestrito da linguagem cinematográfica, mas também arrasa na capacidade de escrever um roteiro verbalmente esperto, repleto de gírias e referências à atualidade, dos riots de Ferguson ao movimento #BlackLivesMatter.

É um dos filmes mais cômicos da carreira do diretor e carrega uma sensualidade sadiamente desavergonhada que traz à lembrança uma obra magistral do passado de Spike Lee como “Jungle Fever”.

Ainda que seja carregado de conteúdo político e propostas libertárias, e ainda que prossiga discutindo os legados de Malcolm X, Martin Luther King e outras lideranças afroamericanas, o filme traz Spike Lee investindo numa estética mais leve, de chacota, beirando às vezes a vibe Sacha Baron Coen.

Realiza uma espécie de manifesto lúdico-pacifista, conexo ao feminismo negro que ele parece venera e que auxilia turbinar com sua criatividade exuberante. “Chi-Raq” demole a golpes de sarcasmo o militarismo, o machismo, o patriarcado, com várias alfinetadas nos machomen que utilizam canhões e trabucos como se fossem instrumentos fálicos. Em uma cena bacana, enquanto um endiabrado Samuel L. Jackson narra, Spike Lee exibe um tanque de guerra onde se lê “penis envy”. O filme oferece este e muitos outros ensejos para uma psicanálise crítica da psicose militarista.

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A heroína black, líder do levante, Lisístrata, comanda o lockdown dos acessos e entradas ao gozo, exigindo dos homens o cessar-fogo, caso queiram retornar ao rock and roll costumeiro. Re-significando o cinto de castidade, esta velha imposição da dominação masculina em tempos de tirania eclesiástica, elas viram o tabuleiro de jogo: a dominação masculina torna-se submissão ao poderio muito maior da mulherada em greve de sexo.

O nome do filme, neologismo que funde Chicago com Iraq, serve como emblema para aquelas regiões da América do Norte onde há matança generalizada que rivaliza com o que de pior ocorre no Oriente Médio em decorrência do imperialismo Yankee. Philadelphia vira Killadelfia, Illinois vira Drillinois… não há limites para a irreverência de spiky Spike!

John Cusack brilha no papel de um padre indignado que discursa ferozmente diante do caixão da pequena Patti, criança assassinada por uma bala perdida. Em cena memorável, o personagem de Cusack serve como veículo para Spike Lee criticar com veemência o encarceramento em massa, a segregação racial, as novas leis no molde “Jim Crow”, o frenesi armamentista, a estupidez da política proibicionista, dentre outros alvos.

Divertido e instigante, este filme altamente encenado, quase operístico, abre também novos horizontes para o movimento hip hop em sua expressão audiovisual. Com “Chi-Raq”, Spike Lee mostra estar em plena forma e segue adicionando excelentes obras à sua filmografia, explorando um cinema que brinca com os limites entre ficção e documentário, invenção e realidade.

Na Era da Shock Doctrine, no país onde a devastação do Katrina é bem menos que as cotidianas atrocidades da mentalidade e da práxis “KKK”, é o Spike Lee decerto um dos artistas mais relevantes em atividade no país que agora afunda na barbárie ultracapitalista e neofascista de Donald Trump.

Em um mundo onde o cinema comercial às vezes parece agir como fábrica de alienação, vendedor de sonhos vãos e mercador de mentiras lucrativas, é revitalizante e entusiasmante ver que há artistas do cinema que se percebem como intelectuais públicos e ativistas de causas sociais justas, que com resiliência e audácia permanentes seguem em frente inventando uma obra de relevância muito além da mercadológica. Mais do que nunca, precisamos de mais Spike Lee joints, somando-se às obras de seus contemporâneos, igualmente imprescindíveis, como Angela Davis, Cornel West, Alice Walker etc.

Quando já havia posto o ponto final nestes apressados escritos acima, descobri em Susan Sontag a informação de que Virginia Woolf, às vésperas da conflagração da carnificina da 2ª Guerra Mundial e já contemporânea da Guerra Civil Espanhola deflagrada pelo golpe de Estado fascista de Franco (conflito que se estende de 1936-1939), fez-se Lisístrata de 25 séculos depois: sustentou a tese que o fenômeno da guerra, na História, é de responsabilidade majoritariamente masculina – que a belicosidade, enfim, é uma espécie de doença da testosterona com elefantíase (com o perdão da expressão nada Woolfiana…).

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“In June 1938 Virginia Woolf published ‘Three Guineas’, her brave, unwelcomed reflections on the roots of war. Written during the preceding two years, while she and most of her intimates and fellow writers were rapt by the advancing fascist insurrection in Spain, the book was couched as the very tardy reply to a letter from an eminent lawyer in London who had asked, “How in your opinion are we to prevent war?” Woolf begins by observing tartly that a truthful dialogue between them may not be possible. For though they belong to the same class, “the educated class,” a vast gulf separates them: the lawyer is a man and she is a woman. Men make war. Men (most men) like war, since for men there is “some glory, some necessity, some satisfaction in fighting” that women (most women) do not feel or enjoy.” – SUSAN SONTAG, Regarding the Pain of Others

A mitologia vinculada à epopéia homérica, presença forte e hegemônica naquela cultura em que Aristófanes viveu e na qual agiu como cômico cáustico e corrosivo (a encarnação da contracultura, da cultura contra-hegemônica…), carrega o ranço do machismo glorificador dos feitos de guerra e das carnificinas que supostamente devem ser eternizadas pelo canto do poeta. Através de Chi-Raq, Spike Lee alinhou-se à Virginia Woolf, assinou embaixo de Aristófanes, pôs Homero em maus lençóis e legou-nos um ótimo material de debate sobre as raízes de nossa permanente psicose patriarcal guerreira – aquilo que, cada vez mais explícito torna-se, é um dos principais alvos que os movimentos de transformação social radical devem ter como télos revolucionar.

Por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro – Série #CinephiliaCompulsiva2017.

SAIBA MAIS: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lisístrata
http://www.imdb.com/title/tt4594834/