REVIVENDO 1968 – O dever de memória diante de um continuum de atrocidades

REVIVENDO 1968 – A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com)

“Impor a uma sociedade a brutalidade da ditadura, da censura e da exceção e ainda esperar que a integralidade de seus cidadãos não use de todos os meios para se rebelar é desconhecer as dinâmicas mais profundas da história dos povos. Nesse sentido, Maio de 68 no Brasil mostrou claramente como emergia uma juventude que não estava disposta a continuar a ser sufocada.” – Vladimir Safatle na Folha De São Paulo (11 de Maio de 2018)

Em 28 de Março de 1968, Edson Luís Lima Souto (1950 – 1968), estudante secundarista carioca, foi assassinado com um tiro no peito pela Ditadura. Foi “um tiro no coração do Brasil”, como tão bem expressa o título do documentário de Carlos Pronzatohttps://youtu.be/ZNRxpfUMwQw (assista na íntegra, 58 min).

Poucos dias depois do crime perpetrado pelo terrorismo de Estado, o jornal Correio da Manhã de 07 de Abril de 1968 publicava um potente texto de Hélio Pellegrino: “tombou morto um jovem estudante brasileiro, varado pela bala assassina que o matou… o tempo de sua vida, ao qual tinha direito e do qual foi miseravelmente roubado, ergue-se de súbito diante da nação como uma imensa catedral sagrada, sob cujas abóbadas milhões de vozes deflagraram sua revolta. O tempo de Edson Luís, dilacerado e destruído pela bala homicida que o cortou, tornou-se de repente tempo histórico, tempo brasileiro, tempo de cólera e consciência, tempo de gritar: BASTA! Há instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no movimento da história. Nesses instantes, a formidável alquimia da história faz refulgir, com luz imperecível, o destino no qual toca. Edson Luís, assassinado pela polícia, cujos clarões varreram de ponta a ponta a noite reacionária que o poder militar fez desabar sobre o país.”

(Citado do livro de Maria Ribeiro do Valle: “1968 – O Diálogo é a Violência – Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil”, 2ª ed., Editora UNICAMP, 2016)

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Memórias da Ditadura assim resumiu o evento histórico em que se transformou o enterro do estudante:

No Rio de Janeiro, a cidade parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: “A noite dos Generais”, “À queima roupa” e “Coração de luto”. Com faixas, cartazes e palavras de ordem, a população protestava: “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão”, “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?” e “PM = Pode Matar”. Edson Luís foi enterrado ao som do hino nacional brasileiro, cantado pela multidão. Na manhã de 4 de abril, foi realizada a missa de sétimo dia de Edson Luís na Igreja da Candelária. Ao término da cerimônia religiosa, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas pela cavalaria da polícia militar a golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas.

http://memoriasdaditadura.org.br/…/edson-luis-de…/index.html

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UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas relembra um fato pouco conhecido: Edson Luís não foi a única vítima fatal daquele dia: “Na época, os estudantes estavam organizando uma passeata relâmpago para protestar contra o alto preço da comida servida no Calabouço. A Polícia Militar, que outras vezes já havia reprimido os estudantes no local, chegou ao restaurante com muita repressão. Na invasão, cinco jovens ficaram feridos e dois foram mortos pela polícia. Um foi Benedito Frazão Dutra, que morreu no hospital, o outro foi Edson, que levou um tiro covarde no peito à queima-roupa de uma arma calibre 45. O episódio marcou a resistência estudantil contra o regime militar.”

(http://ubes.org.br/2013/edson-luis-presente/)

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EBC na Rede iforma ainda: que “o cineasta Eduardo Escorel filmou o enterro do estudante Edson Luís no dia 29 de março de 1968. Com o aumento da repressão, ele entregou o rolo com as imagens para a Cinemateca do Museu de Arte Moderna, de onde o material se extraviou e ficou perdido por cerca de 40 anos. Reencontrado e restaurado em 2008, o material com 12 minutos de filmagem em estado bruto, em preto e branco e sem áudio, está na Cinemateca Brasileira e pode se tornar um documentário sobre o período.”

http://www.ebc.com.br/…/2…/03/edson-luis-cenas-de-um-funeral

http://www.ebc.com.br/…/ha-45-anos-a-morte-do-estudante-eds…

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Como revelado por Contestasom, a música “Menino”, de Milton “Bituca” Nascimento e Ronaldo Bastos, censurada pela Ditadura e que só seria lançada no album “Geraes” (1976), oferece a gema poético-musical mais pungente sobre o caso:

“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou no tempo
No incêndio repetido
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo”

OUÇA:

A lembrança do enterro de Edson Luís, como recorda Marcelo Ridenti em seu livro ‘Em Busca do Povo Brasileiro’, também inspirou Milton Nascimento e Wagner Tiso na composição de “Coração de Estudante”, em 1983, para a trilha sonora do filme Jango, de Silvio Tendler (RIDENTI, p. 56). Já o compositor Sérgio Ricardo também dedicou ao Caso Edson Luís uma de suas canções, “Calabouço”: https://youtu.be/Lbi08Ls7c00.

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Em reflexão publicada em Folha de São Paulo aos 50 anos do emblemático mês de Maio de 1968, o filósofo Vladimir Safatle falou sobre o contexto brasileiro:

“É sintomático o silêncio dominante atual a respeito de Maio de 68 no Brasil. Em circunstâncias normais, poderíamos esperar uma reflexão articulada a respeito deste momento importante da história nacional, suas aspirações e impasses. No entanto, algo funciona atualmente sob a sombra da lógica do esquecimento, como se fosse questão de melhor não lembrar o que pode sempre retornar.

Lembremos como a ditadura militar brasileira havia se imposto como uma experiência “transitória”. Logo após o golpe, ainda se falava em eleições presidenciais em 1965. Foi aos poucos que a “intervenção militar” mostrou sua verdadeira face, a saber, aquela de um regime que nunca iria passar por completo, que mesmo depois de terminado saberia como continuar.

O sentimento social de sufocamento crescia com a promulgação de uma Constituição autoritária, com a consciência da impossibilidade da via eleitoral, como os casuísmos que apareciam diante dos resultados eleitorais desfavoráveis à ditadura.

Nesse contexto, as revoltas estudantis aparecem como o primeiro momento efetivo de resistência à ditadura. Elas colocavam em questão os modos de oposição reinantes, já que o Brasil desenvolvera uma ditadura com uma capacidade de amortização de tensões maior do que aquelas que conheceriam seus vizinhos.

Estamos a falar de uma ditadura que criou um partido de oposição para chamar de seu, não por acaso o conhecido MDB. Uma ditadura que aplicou não o princípio do assassinato em massa, mas do assassinato seletivo que tinha a força de paralisar todo o conjunto da vida social com um esforço menor.

Nesse horizonte, constituíram-se os primeiros grupos efetivos de luta armada no Brasil. Ou seja, a história de Maio de 68 no Brasil é indissociável dessa opção pela luta armada que levaria boa parte dos estudantes à clandestinidade.

A violência contra eles seria ainda mais brutal do que aquela que ocorreria em outros países latino-americanos. Pois até hoje seus corpos continuam desaparecidos, seus nomes, apagados da memória nacional, suas ações, recusadas.

Mas seria importante lembrar como o contexto legitimava tal escolha. O Brasil se situava em meio a uma ditadura claramente tipificada enquanto tal.

Um princípio fundamental a ser aceito em qualquer democracia que queira fazer jus a tal nome, mesmo uma democracia liberal, é: toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Mesmo segundo princípios liberais, a luta armada contra a tirania é um direito. Note-se como vários líderes da luta armada, como Carlos Marighella, eram até então atores políticos bastante integrados ao que se chamaria de jogo democrático. Marighella opta por organizar a luta armada apenas após a implantação da ditadura militar, abandonando assim a diretriz hegemônica do PCB de então. Ou seja, sua escolha é motivada por um fechamento do horizonte político nacional, ela responde a tal fechamento.

Impor a uma sociedade a brutalidade da ditadura, da censura e da exceção e ainda esperar que a integralidade de seus cidadãos não use de todos os meios para se rebelar é desconhecer as dinâmicas mais profundas da história dos povos. Nesse sentido, Maio de 68 no Brasil mostrou claramente como emergia uma juventude que não estava disposta a continuar a ser sufocada. Ela foi fundamental para que o Brasil conservasse uma dinâmica de transformações possíveis e de tensões. Ela deixou filhos e netos, de sangue e de espírito, que nunca estarão dispostos a esquecer o que eles fizeram e o que representaram.

Há um dever de memória a ser feito, ainda mais nos momentos sombrios da história nacional.” (SAFATLE, 2018)

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50 anos depois de 1968, em Março de 2018, a vereadora Marielle Franco (1978 – 2018), do PSOL 50, foi barbaramente assassinada no mesmo Rio de Janeiro onde tombou o sangue de Edson Luis cinco décadas antes. Como emblema de um continuum de atrocidades, a morte de Marielle entra para a história: dias antes, havia sido nomeada como relatora de uma investigação sobre a Intervenção Militar na segurança pública do Rio, ordenada pelo governo de Michel Temer. Se esta voz foi tão brutalmente silenciada, decerto é pois ela fazia ressoar pelo espaço social as salutares mensagens e denúncias de uma empoderada existência, ativa na defesa dos direitos humanos, que denunciava “o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada”, como expressa no título de seu artigo, publicado em livro pela Editora Zouk e que começa com a seguinte reflexão:

“O impeachment sofrido recentemente pela primeira presidente mulher brasileira foi uma ação autoritária, ainda que tenha se utilizado de todo arcabouço legal como justificativa. De um lado a presidenta, mulher, vista por parcela significativa da população como de esquerda. De outro lado um homem, branco, visto por parcela expressiva como de direita e socialmente orgânico às classes dominantes. A conjuntura brasileira, determinada pelo cenário do golpe, marca-se, para além da correlação de forças políticas, favorável às classes dominantes e seus segmentos mais conservadores. Principalmente por alterações sociais significativas na esfera do poder do Estado e no imaginário. Trata-se de um período histórico no qual se ampliam várias desigualdades, principalmente as determinadas pelas retiradas de direitos e as que são produto da ampliação da discriminação e da criminalização de jovens pobres e das mulheres, sobretudo as negras e pobres. Este é um momento que asfixia o processo de democratização, aberto no fim da ditadura militar, e abre um novo cenário de crise, colocando desafios profundos para as esquerdas.” (Marielle Franco)

Leia o texto na íntegra: http://www.editorazouk.com.br/Capitulo-MarielleFranco.pdf

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O FILME QUE CONTA COMO FOI O EXÍLIO DE CAETANO E GIL DURANTE A DITADURA: “Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo” (2011) – Um documentário de Geneton Moraes Neto

Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo

Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo (2011),
Diretor: Geneton Moraes Neto, Duração: 1h 31min
DOWNLOAD TORRENT (1.3 gb)

 

Documentário de Geneton Moraes Neto conta a saga de Caetano e Gil no exílio forçado pela ditadura militar – Por João Máximo em O Globo (07/02/2011)

Duas semanas depois da decretação do AI-5 e dois dias depois do Natal de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos por oficiais do Exército. Como jamais souberam o motivo, admite-se que possa ter sido pela participação em passeatas, ou em movimentos estudantis, ou por suas nada convencionais performances em festivais, ou ainda por suas atitudes de rebeldes tropicalistas, que tanto incomodavam civis e militares. Os dois passaram por celas de vários quartéis do Rio, depois ficaram em prisão domiciliar em Salvador, e só em julho de 69, com uma advertência de três estrelas – “Só voltem quando forem autorizados” -, partiram para um exílio forçado que se estenderia por dois anos e meio, até janeiro de 1972.

Mautner e Macalé participam

Os detalhes dessa história, contados pelos dois personagens, já seriam motivo para Geneton Moraes Neto realizar “As canções do exílio – Uma labareda que lambeu tudo”, documentário em três partes de 50 minutos cada, que o Canal Brasil exibiu. Mas há pelo menos mais um motivo: Geneton inspirou-se na foto em que, aos 15 anos, aparece entrevistando Caetano para o “Diário de Pernambuco”, e a partir dela se entregou ao que considera uma guinada profissional. Tendo começado a vida como jornalista e caído na TV quase por acaso, esses anos todos ele deixou de lado o que realmente queria fazer: cinema documental.

– Este é o meu rompimento amigável com o jornalismo e a retomada da carreira de cineasta interrompida pela TV – diz Geneton, antecipando que os 150 minutos da série serão reduzidos a 120 para os cinemas.

Na produção, e também na edição do filme, ele contou com a parceria de Jorge Mansur, cujos modernos recursos tecnológicos viabilizaram uma empreitada que, na era pré-digital, seria financeiramente inviável.

Caetano e Gil – mais Jorge Mautner e Jards Macalé, que, por diversos caminhos, foram se encontrar com os amigos no exílio – contam a história cronologicamente. A detenção, o ano-novo passado atrás das grades, os tempos de prisão domiciliar, a proibição de fazer shows e gravar discos, a vinda ao Rio de um chefe de polícia de Salvador para mostrar aos superiores o absurdo da situação. Graças a isso, foi dada autorização (ou ordem) para que saíssem do país. A fim de que os dois conseguissem dinheiro para a viagem, os militares permitiram que fizessem dois shows em Salvador.

Permissões como esta, em tom de favor, fazem da história um retrato do Brasil da época, mistura surrealista de brutalidade com cordialidade. Um episódio narrado por Gil é exemplar: os mesmos homens que o prendiam sem motivo arranjaram-lhe um violão e ainda pediram que fizesse um show para os soldados do quartel. Outro oficial, generosamente, ajudou-o em sua dieta vegetariana.

– Se eu fosse antropólogo ou sociólogo, poderia escrever, partindo deste documentário, um tratado sobre a alma brasileira – diz Geneton.

Pelos depoimentos, constata-se que o exílio foi menos doloroso para os outros do que para Caetano. Gil, por exemplo, admite ter “caído na gandaia”, frequentando a noite londrina sem pensar tanto no que ficara para trás. Já para Caetano, a palavra depressão pontua algumas das passagens de sua narrativa. Mas, no homem que lembra, e não no que viveu, há lugar para humor, como suas discussões com Glauber Rocha. E palavras afetuosas, como as que dedica a Violeta Arraes (“Ainda a adoro, vou adorá-la sempre”), a mulher que abria o coração aos exilados que a procuravam em Paris.

Deprimido, Caetano chegou ao Rio para o que esperava ser um reencontro feliz: autorizaram-no a participar da festa dos 40 anos de casamento de seus pais. Logo ao desembarcar, foi preso e levado para um depoimento de seis horas, cujo objetivo era tão somente pressioná-lo a fazer uma canção enaltecendo a Transamazônica. Negativo. Só concordou com duas apresentações na TV, quando, em vez de cantar algo a alegre, pop, como supunham ele ter trazido de Londres, reviveu a triste “Adeus, batucada”.

Callado, futebol e Chico

Gil guarda detalhes de sua prisão e, mais ainda, do exílio: o apoio que o escritor Antônio Callado lhe deu no cárcere ao vê-lo de cabeça raspada; a criação de “Aquele abraço”; como “Can’t find my way home” virou sua canção de exílio; as palavras “Rivelino Revelation” pintadas nos muros de Chelsea no dia seguinte à vitória do Brasil sobre a Inglaterra em 1970 (torcer ou não pelo Brasil de Médici era a questão, resolvida pela paixão maior pelo futebol). Gil conta, ainda, como escreveu com Chico Buarque a proibida “Cálice” (ou “Cale-se”), já de volta a um país ainda sem liberdade.

Caetano fala do medo de morrer e da certeza de que matar, mesmo, os militares só queriam o Geraldo Vandré. E de como prefere não passar recibo da informação que os policiais lhe deram sobre quem eram seus “colaboradores”.

As histórias são muitas e se desenrolam depois de a atriz Lorena da Silva lembrar trechos de crônicas de Caetano para o “Pasquim” e de Paulo César Peréio dizer um texto de Geneton sobre seu projeto.

Jorge Mautner, que foi dos Estados Unidos para a Inglaterra ao encontro dos amigos, tem de tudo uma visão mais filosófica. E, mais que tudo, positiva. Acreditava e ainda acredita que o futuro está no Brasil. Dizendo-se “filho do Holocausto criado no candomblé”, não esquece o pai judeu para quem toda a cultura europeia acabou em campos de concentração. “Isso aqui é o Brasil”, bradava o velho Mautner.

Jards Macalé viajou a convite de Caetano para ajudá-lo no que seria o LP “Transa”. Vêm dele as únicas referências à relação do grupo com as drogas, já que, sabidamente, todos, menos Caetano, recorreram a elas nos tempos de exílio. Foi sob a ação de LSD que Macalé, em visita ao museu de Madame Tussaud, apaixonou-se por uma Branca de Neve de cera. Não fosse o guarda, teria matado o desejo ali mesmo: “Ainda hoje sinto saudades daquela Branca de Neve.” É dele o subtítulo de “Canções do exílio”. Ao retornar ao Rio, vindo do inverno britânico, sentiu uma forte calor entrar pela porta do avião adentro, como “uma labareda que lambeu tudo”.

Saiba mais em Gilberto Gil.com.br

 

SIGA VIAGEM:

 

EM INGLÊS:

MATÉRIA DO JORNAL THE GUARDIAN



P.S. – Como já dizia o sábio Spinoza: “Que coisa pior pode imaginar-se para um Estado que serem mandados para o exílio como indesejáveis homens honestos, só porque pensam de maneira diferente e não sabem dissimular? Haverá algo mais pernicioso, repito, do que considerar inimigos e condenar à morte homens que não praticaram outro crime ou ação criticável senão pensar livremente?” Via NADLER, Steven. Um Livro Forjado No Inferno – O Tratado escandaloso de Espinosa e o nascimento da era secularTrês Estrelas, p. 258.

O CINEMA COMO ARTE SUBVERSIVA (Film As a Subversive Art), E-book e Documentário sobre a obra de Amos Vogel

AMOS VOGEL Film As a Subversive Art
DOWNLOAD EBOOK
(PDF, 79 MB. New York: Random House, 1974)

A classic returns. The original edition of Amos Vogel’s seminal book, Film as a Subversive Art was first published in 1974, and has been out of print since 1987. According to Vogel -founder of Cinema 16, North America’s legendary film society – the book details the “accelerating worldwide trend toward a more liberated cinema, in which subjects and forms hitherto considered unthinkable or forbidden are boldly explored.” So ahead of his time was Vogel that the ideas that he penned some 30 years ago are still relevant today, and readily accessible in this classic volume. Accompanied by over 300 rare film stills, Film as a Subversive Art analyzes how aesthetic, sexual, and ideological subversives use one of the most powerful art forms of our day to exchange or manipulate our conscious and unconscious, demystify visual taboos, destroy dated cinematic forms, and undermine existing value systems and institutions. This subversion of form, as well as of content, is placed within the context of the contemporary world view of science, philosophy, and modern art, and is illuminated by a detailed examination of over 500 films, including many banned, rarely seen, or never released works. I think that it must be the most exciting and comprehensive book I’ve seen on avant-garde, underground, and exceptional commercial film. The still pictures are so well chosen that their effect is cumulative and powerful. – Norman Mailer



Film as a Subversive Art: Amos Vogel and Cinema 16(2003) tells the story of Austrian-born film historian and curator Amos Vogel, who in 1947 established Cinema 16, America’s most important film club, and later the New York Film Festival, as well as publishing in 1974 one of the most legendary books on cinema ever, Film as a Subversive Art. When screened at the Viennale in 2004, Vogel was the subject of a retrospective. Watch Film as a Subversive Art here and read the dialogue transcript here. A collection of audio/visual clips about Amos Vogel is here. – THE STICKING PLACE

A SAPIÊNCIA DE RINCON EM 20 RAPS MAGISTRAIS [Vídeos completos]

A SAPIÊNCIA DE RINCON EM 20 RAPS MAGISTRAIS [Vídeos completos]

 

+ Rincon Sapiência

por Negro Belchior em Carta Capital

Com a originalidade de suas composições, marcadas por influências das músicas africana, eletrônica, jamaicana e vertentes do rock, desde o ano 2000, o artista traduz em versos inteligentes e sagazes as experiências vividas nas ruas da periferia paulistana desde os anos 80. Abordando questões raciais e sociais no contexto da metrópole, Rincon Sapiência apresenta um rap com clima de positividade, sem prejuízo à postura crítica do discurso, resultado da sua notável fome de rima aliada à sua habilidade nata de jogar com as palavras. Versátil, ele também atua como beatmaker em seus próprios trabalhos.

Em 2005, Rincon lançou sua primeira faixa, intitulada “Aventureiro” e, em 2008, participou no disco solo de Kamau, Non Ducor Duco, nas faixas “Porque eu Rimo” e “Tambor”. No ano seguinte, se firmou como protagonista na cena rap com o sucesso “Elegância”, cujo videoclipe entrou na programação da MTV Brasil e foi indicado ao VMB 2010 na categoria Melhor Videoclipe de Rap. No mesmo ano, Rincon Sapiência participou do álbum Projeto Paralelo, da banda NX Zero, na faixa “Tarde pra Desistir”.

A referência e a exaltação de temas relacionados à negritude e às raízes africanas são frequentes nas músicas de Rincon Sapiência, que abordam a consciência e a valorização da afrodescendência, reconhecidas em solo africano durante os renomados festivais dos quais Rincon participou em 2012 (Festival 2H, em Dakar, Senegal; e Festival Asalam Maleikum Hip Hop, na Mauritânia). Em 2014, Rincon lançou o EP SP Gueto, com oito faixas oficiais e duas faixas bônus. Um dos destaques do rap nacional daquele ano, o EP foi em grande parte produzido pelo próprio Mc, e traz uma forte identidade musical, com influências das músicas eletrônica, rock, ska, reggae, samba, timbres 808 e até o clássico estilo boombap dos anos 90.

A universalidade da música e dos temas abordados pelo repertório de Rincon favorecem o seu trânsito em outros círculos que não sejam necessariamente periféricos. Sua forte identidade artística, reforçada por um estilo original, também está presente nos clipes “Elegância”, “Transporte Público”, “Linhas de Soco”, “Profissão Perigo” e “Coisas de Brasil”. A estreia como ator veio nas telonas em 2013, ao contracenar com o ator Wagner Moura no filme “A Busca”, dirigido por Luciano Moura, seguida da participação no filme “Jonas”, dirigido por Lô Polliti, do qual também participaram os rappers Criolo e Karol Conka. – N. Belchior

RESISTIR É PRECISO: A imprensa alternativa e clandestina durante a ditadura – Um projeto do Instituto Vladimir Herzog

Em 1º de abril de 1964, as forças que se opunham ao aprofundamento da democracia social e econômica em curso no Brasil consumaram sua cartada mais radical, a tomada do poder pelas armas. Um mês depois, o jornalista Millôr Fernandes  lançava a revista PifPaf e indagava, na capa de um dos primeiros exemplares: “Mas afinal, o que é a liberdade?”

A pergunta pairou no ar nos vinte anos que se seguiram. Na busca por respostas, milhares de jornalistas, intelectuais e ativistas políticos acabaram por fazer da palavra impressa uma das armas mais poderosas de combate à ditadura militar, à desigualdade social, à opressão, ao discurso moralista que mascarava a hipocrisia e o autoritarismo dos que assaltaram o Estado em nome da velha ordem.

Entre 1964 e 1979, o ano em que as forças democráticas conquistaram a anistia, centenas de publicações produzidas à margem dos aparatos institucionais de comunicação deram voz à resistência política e cultural no Brasil. Disputaram palmo a palmo o campo simbólico em que os donos do poder tentavam legitimar a dominação pela força. Enfrentaram a truculência da censura e da perseguição policial. E conseguiram se impor graças à capacidade de inovar não apenas a agenda temática, mas a própria linguagem e os códigos formais com que se expressava o debate público no país.

A história dos jornais alternativos, clandestinos  e produzidos no exílio nesse período está sendo reconstruída pelos pesquisadores e jornalistas do Instituto Vladimir Herzog, no projeto “Resistir é preciso”. Aqui neste site, ela é contada pelos próprios protagonistas, em dezenas de depoimentos registrados em vídeo. E é ilustrada pelas capas das edições mais significativas de cada uma dessas publicações, acompanhadas por textos que resumem suas trajetórias.

Reunimos aqui também uma coleção de cartazes produzidos por artistas gráficos que colaboraram intensamente com a imprensa da resistência. Resgatamos ainda exemplos precursores de jornalismo combativo, como os pasquins do século 19, os jornais libertários do início do século 20, as publicações de partidos e organizações que influenciaram pela esquerda o processo político no período anterior ao golpe militar.

O que tudo isso tem em comum? A inscrição no DNA de uma convicção expressa por Millôr Fernandes, com quem abrimos e fechamos esta apresentação: “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”.

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CONHEÇA OS PROTAGONISTAS DESTA HISTÓRIA

Protagonistas
A História narrada na primeira pessoa, por quem a fez e viveu com intensidade um dos períodos mais ricos e conturbados da imprensa brasileira. O projeto “Resistir é Preciso…” recolheu sessenta depoimentos de jornalistas e militantes políticos que combateram a ditadura militar armados de máquinas de escrever, mimeógrafos e impressoras offset. De quebra, ajudaram a revolucionar a linguagem, os métodos e as práticas do nosso jornalismo. Nesta página, você encontra uma breve biografia de cada um dos protagonistas. E ao clicar nos links embutidos nas fotos, você navegará por um mar de histórias saborosas, divertidas e dramáticas que registramos em vídeo. Boa viagem!

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Da ideia inicial de elaborar um livro diferenciado e pioneiro até o envio para a gráfica foram 90 dias de trabalho incansável de uma equipe que se comportou como se estivesse numa alegre e saudável linha de montagem, tal o entrosamento entre a pesquisa, as possibilidades do texto, a direção de arte e os cuidados de cada escolha para o encaixe perfeito, nas páginas duplas, das 340 ilustrações escolhidas com base em dois critérios aparentemente contraditórios: o rigor histórico e a liberdade jornalística.

Participaram diretamente desta aventura de final feliz: o editor de contexto, José Luiz Del Roio, o editor de pesquisa, Vladimir Sacchetta, o editor de texto, José Mauricio de Oliveira e o jornalista Carlos Azevedo, como consultor, Kiko Farkas e sua sofisticada direção de arte, junto com Mateus Valadares, a historiadora Juliana Sartori, a jovem jornalista Paula Sacchetta e o pesquisador Luis Zimbarg, sob a coordenação da minha eterna curiosidade.

São quatro capítulos que obedecem a uma linha editorial muito clara. É dado o justo destaque a uma publicação historicamente importante e, na página espelhada, encaixamos as capas dos jornais ou revistas que ajudam a compor um formidável caleidoscópio, suficiente para explicar aquela fração de realidade, sempre do ponto de vista do jornalismo. Ao lançar uma publicação alternativa, de oposição, no exílio ou mesmo clandestina, o jornalista cria também um caldo de cultura fundamental para entender a história recente do Brasil, sem os filtros da análise mais tradicional.

Temos até a ousadia de dizer que está todo mundo aqui, como joias raras que finalmente ganham o palco e o reconhecimento. Uma delas é o Jornal do Subiroff, editado em 1920 por um filho dileto da burguesia paulista, que surpreende em todos os quesitos: criatividade, atrevimento e humor.

Dá gosto abrir o capítulo Imprensa Alternativa com o PifPaf, ousadia de Millôr Fernandes, que colocou nas bancas a sua revista semanas depois do golpe de 64 e deu no que deu.

O capítulo sobre a imprensa clandestina deixa claro, pelos fac-similes apresentados, a enorme dificuldade de fazer e distribuir publicações que, em muitos casos, eram o único oxigênio possível para o contato entre militantes de organizações estraçalhadas pela ditadura.

No capítulo Imprensa no Exílio estão as publicações que, feitas por brasileiros exilados, correram mundo denunciando os desmandos do golpe militar.

Este material foi reunido em 34 anos de paciente trabalho de José Luiz Del Roio e é, pela primeira vez, mostrado.

E mais. A cada início de capítulo, você terá o prazer de ler uma introdução que o coloca dentro das várias histórias.

Portanto, aguce o olhar, prepare o espírito, porque chegou a hora de ter um grande prazer intelectual.

Ricardo Carvalho – Editor

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“Os Cartazes desta História” é um livro que reúne manifestações políticas da América Latina em prol dos Direitos Humanos

A obra é parte do projeto “Resistir é Preciso…”, que resgata a memória da resistência contra a ditadura no Brasil (1964-1984) e a rearticulação da sociedade civil depois da Anistia de 1979, os cartazes retratam denúncias e solidariedade dos brasileiros em face da situação no País e também nas nações vizinhas que viviam sob a intervenção militar. A obra é divida em seis capítulos: Resistências, Anistia, Movimentos, Mulheres, Trabalhadores e Estudantes, Solidariedade e Mortos e Desaparecidos.

Organizada pelo jornalista Vladimir Sacchetta e com projeto gráfico de Kiko Farkas, a edição conta com um ensaio de Chico Homem de Melo, professor da FAU-USP e autor de artigos e livros sobre design gráfico. A publicação tem o patrocínio da Sabesp, por meio da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Os Cartazes desta História é mais uma iniciativa do Instituto Vladimir Herzog no âmbito do projeto Resistir é Preciso…, idealizado pela entidade, que tem por objetivo manter viva na memória dos brasileiros a luta da imprensa contra a ditadura, período em que inúmeros profissionais do meio jornalístico foram presos, torturados e assassinados. A obra segue os padrões do livro As Capas desta História (2011), patrocinado pelo BNDES, em que o destaque foram as publicações da imprensa alternativa e clandestina brasileira, produzidas por jornalistas (muitos deles exilados) entre 1964 e 1979. Integra também o projeto a coletânea de 12 DVDs Os Protagonistas desta História, patrocinada pela Petrobras, com depoimentos de 60 jornalistas e “fazedores de jornais” que vivenciaram e enfrentaram as dificuldades da época.

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SÉRIE TV BRASIL

No primeiro episódio de Resistir é Preciso, a série recua no tempo para contar como tudo começou, dos primórdios, em 1808, até a década de 1920, quando entra em cena o Barão de Itararé.

Foram muitos jornalistas punidos, naquela época, pelos poderosos de plantão a começar com Cypriano Barata que foi, a partir de 1832, preso várias vezes e em diferentes lugares, por conta do seu implacável “Sentinela da Liberdade”.

A série ainda mostra as perseguições e mortes de Frei Caneca, em Pernambuco e Libero Badaró, em São Paulo.

Neste episódio, a série fala da Semana De Arte Moderna de 1922 e da revista “Klaxon”, porta-voz do movimento.










 

DESLACRANDO A LIBERDADE: O Festival Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

DESLACRANDO A LIBERDADE

O Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

por Eduardo Carli de Moraes

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
CECÍLIA MEIRELLES (1901-1964)

PRELÚDIO ETIMOLÓGICO

DESLACRANDO = gerúndio do verbo deslacrar
DESLACRAR = abrir o que está lacrado

I. A BLITZKRIEG LIBERTÁRIA DE LINIKER E OS CARAMELOWS

Quiseram os rumos da História que o Festival Bananada 2016, em sua 18ª edição anual consecutiva, acontecesse logo nos primeiros dias do (des)governo interino de Michel Temer. Com o punho direito no alto – um gesto típico do Black Power e celebrizado nas Olimpíadas do México em 1968 pelos atletas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos, Liniker começou seu show no Bananada garantindo: “estamos aqui pela liberdade, sempre!” Quando a música começou a rolar, como uma maná de frescor e vida que caía em exuberância, era difícil resistir à blitzkrieg libertária, mezzo Dzi Croquettes e mezzo Itamar Assumpção e Isca de Polícia, que tomou conta do recinto.

Para o jovem multi-artista de Araraquara (SP), liberdade tem tudo a ver com a afirmação jubilante do empoderamento. Quando despontou com vídeos que viralizaram na Internet – “Zero” já tem mais de 2 milhões e 500 mil views – o Liniker apareceu para confrontar todos os códigos do politicamente correto: quando ele canta “deixa eu bagunçar você”, está pondo em prática um programa anarco-estético ousado, que tem na ruptura das ortodoxias um dos seus principais nortes. Deixe-se bagunçar! Pois o atual discurso de “salvação nacional” da “Ponte Para o Futuro”, baseada na recuperação do “ordem e progresso”, não merece nada mais que ser caotizado por nossas energias ingovernáveis e nossa desobediência civil.

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A “atitude lacradora” que Liniker e sua banda de apoio, os açúcarados e cheios-do-groove Caramelows, propagaram em seus dois shows no Bananada (o primeiro, no teatro Sesi, e o segundo, no Centro Cultural Oscar Niemeyer) mostraram a perfeita conjunção entre música e atitude, relembrando que a revolução comportamental pode ter como uma de suas melhores aliadas a cultura, renovada, que têm nascido. Calcados na melhor tradição da black music nativa e gringa, mesclando a gafieira Black Rio com a funkeira à la Sly and the Family Stone, Liniker demonstrou ser um dos nomes mais magistrais da nova música brasileira.

Sua empatia com a multidão, sua capacidade de comandar a massa, sua performance exuberante e sem pudores beatos, fez dele o grande destaque do Bananada. Contra todo tipo de racismo, homofobia, machismo ou apartheid, Liniker e seus asseclas provaram que há sim plena possibilidade de congregação entre gente diferente e que não foi inventado nada melhor que a música como agente catalisador da fraternidade imediata entre desconhecidos (uma lição que os gregos, em seu dionisismo, já conheciam muito bem!).

Com um carisma fora de série, um senso de humor delicioso, uma expressão corporal livre e desinibida, Liniker demonstrou ser um band leader daqueles que surge muito raramente na música popular de qualquer país. A platéia foi ao transe diante da ousada confrontação de todas as carolices. Congregar-se é isso, justamente: agregar amorosamente as diferenças, permitir o convívio alegre do dissonante. Faltam palavras suficientes para descrever o sopro de vida e esperança desta celebração artística da liberdade em nosso tempo de tenebrosos fascismos, que saem do armário tacando suas pedras sobre negros, bichas, índios, ateus, petistas, comunistas, secundaristas e “vândalos”, num triunfo grotesco do discurso do ódio.

LinikerNum país onde Bolsonazi faz apologia da tortura, elogiando o carrasco de Dilma na ditadura em uma sessão da Câmara comandada por um delinquente contumaz (Cunha) e em que um sindicato de ladrões cagou em gangue sobre o sufrágio universal, foi uma injeção de vida na veia poder testemunhar a simbiose artistas-público no Bananada, com o ódio acéfalo e o golpismo segregador sendo confrontados lindamente pela amorosidade  contagiante dos Caramelows. Mostraram que ainda há a coragem de sobra, neste país, de afirmar toda a nossa diversidade e colorido – com o volume no talo e sem medo de porra nenhuma.

Num intervalo entre as músicas, a platéia, galvanizada, berrava a plenos pulmões e com insistência: “não vai ter golpe! não vai ter golpe!” Ao sabor da hora, Liniker retorquiu com palavras de fraternidade na resistência, clamando pra que a gente não deixe que arranquem nossa democracia e conclamando à união: “não vai ter golpe, o que vai ter é lacre!” Acompanhado pelas duas deslumbrantes backing vocals, Liniker deu um show de humanidade (este valor fora-de-moda em nossa época desumana). Foi isso que busquei sintetizar no vídeo abaixo que, em 20 minutos, tenta transmitir um pouco das razões (e das emoções) que me levam a considerar este o show mais emblemático daquele que talvez tenha sido, como disse a Noisey da Vice Brasil, o melhor Bananada destes 18 anos de vida do festival goiano.

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* * * * *

II. #FUCK TEMER E OUTRAS SUBVERSÕES E RESISTÊNCIAS

ethos da resistência aos Podres Poderes marcou o palco do Bananada em vários momentos, numa ironia histórica notável: numa época em que a Republiqueta de Bananas se manifesta em todo o seu desprezo pela democracia, golpeando o sufrágio popular em prol de um complô plutocrático das elites, coube ao Bananada ser uma ruidosa voz resistente contra os desmandos da corja delinquente chefiada por Cunha, Temer, Serra, P.I.G., Fiesp e demais escrotos golpeadores.

Vários artistas se apresentaram numa vibe de indignação política, com várias manifestações sobre o tema: Siba brincou com a linguagem – “teve goipe e teve goipada!”, disse o genial músico e poeta pernambuco, clamando para que sigamos Avante com nossos ideais e não deixemos o país ir, de vez, para o fundo do poço. A folia na galera foi ao auge com canções inesquecíveis como “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar”. O talento como letrista de Siba é explícito e acachapou-nos quando, no encerramento do show, com veia de repentista somada a um certo sabor de Ariano Suassuna, ele inventou na hora, de improviso, uma série de estrofes rimadas que provaram mais uma vez a maestria deste nosso queridíssimo gênio do cancioneiro popular.

 O indie rock a um só tempo ruidoso e psicodelizante dos Supercordas também agradou. De cima do palco, Bonifrate e companhia bradaram em cartazes: “Não vai ter governo” e “Vai ter luta”.

Superchords

Super

Helio Sequence

The Helio Sequence (USA), foto de Ramon Ataide

O grupo de rock psicodélico Bike, que homenageia em seu disco de estréia, 1943, o químico Albert Hoffmann, sintetizador do LSD e primeiro ser humano a dar um rolê de bicicleta pela Holanda após consumir acido lisérgico, também clamou para que a gente “desça da montanha” pra lutar contra o governo usurpador, “se não a gente tá fudido”.

Mesmo as estrelas do stoner local, os Hellbenders, fizeram pela primeira vez um discurso político, criticando os retrocessos na cultura anunciados pelo presidente biônico. Até os gringos (estadunidenses) do The Helio Sequence juntaram-se ao coro e lacraram: “#FuckTemer!”.

As guitarradas comeram soltas, dando fuel pra indignação e pras rodas de pogo, com o Riviera Gaz – o excelente power-trio estrelado por Gustavo Riviera (vocalista e guitarrista, do Forgotten Boys) e o batera do Sonic Youth, Steve Shelley. O Killing Chainsaw tentou cortar cabeças com serra elétrica com seu indie-punk raivoso, ensurdecedor. E quando o Planet Hemp chegou, precedido de um DJ Set na vibe “Killing in the Name”, o poderio contestatório e revolucionário do rock estava flamejando em toda a sua fulminância, com Marcelo D2 e BNegão, neste revival em boa hora, mostrando porque esta é uma das bandas mais foda da história deste país.

É uma delícia ouvir, berrado, “adivinha, doutor, quem tá de volta na praça: Planet Hemp, esquadrilha da fumaça!”. Ainda mais considerando a atualidade da mensagem Hempiana, dada a continuidade grotesca do proibicionismo contra-producente, da política de encarceramento em massa, do racismo institucionalizado em nossas prisões e polícias, das Tropas de Choque e de Elite que defendem o tope repleto de bandidos de colarinho-branco. Diante desta situação, graças ao Planet Hemp temos artistas sem rabo preso, com consciência social, devotados ao protesto construtivo em prol de maior justiça social, que nos ajudam a questionar e com quem é preciso sempre re-perguntar, diante de todo o sangue que derrubam e de toda a injustiça que cometem os nossos “líderes” do controle e da repressão, se não é o caso de pararem de apontar o dedo acusador para maconheiros, como se fossem parte do problema, quando são, na real, parte da solução! Avante, rumo ao Planeta Maconha!

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Foto por Ariel Martini.

Foto por Ariel Martini.

A CULPA É DE QUEM?
“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão
Militares torturaram e não foram pra prisão
Eu fumo minha erva, me chamam de ladrão
Os negros já fumavam a erva antes da África deixar
Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar
E os senhores de hoje em dia estão proibindo também
Se o pobre começa a pensar parece que incomoda alguém
Crianças crescem nas ruas, não confiam em ninguém
Escondem nossa cultura, referência ninguém tem
O país tá uma merda e a culpa é de quem?

A culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eles roubam no planalto e não pensam em ninguém
Manipulam as leis e vêm com papo furado
Tudo que incomoda eles, eles dizem estar errado
Então quem é o marginal?
Crianças morrem por sua culpa e eu que vivo ilegal
Tenho que me esconder por uma coisa natural
Enquanto eles metem a mão na maior cara de pau
Não vou ficar calado porque está tudo errado
Políticos cruzam os braços e o país está uma merda
Trabalho pra caralho e fumo a minha erva, aí eu te pergunto:

A culpa é de quem? A culpa é de quem?”

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III. O “PACOTE DE MALDADES” DO GOLPISMO vs A CULTURA EM MARCHA CONTRA A BARBÁRIE

O festival ocorreu em meio a um clima político de estarrecimento geral, e muitas vezes revolta incontida, diante do “pacote de maldades” que o PMDB batizou (seria irônico, caso não fosse trágico!) de “Ponte Para O Futuro”, e que é o novo nome para uma velharia: a proposta, útil só aos 1% no tope, da Privataria Generalizada somada às brutais “Austeridades Para O Povo”. Uma farsa elitista que já foi “gloriosamente” instalada entre nós, nos anos 1990, pelo sociólogo transmutado em parceiraço do capital transnacional oni-privatizante, o FHC [Fumando Henrique de Cardoso].

Como prova empírica do caráter elitista, misógino e plutocrático do regime golpista instalado às pressas nesta republiqueta-de-bananas, a “nova” Esplanada dos Ministérios não tem como ministro nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum representante dos povos indígenas. É um Ministério para agradar o P.I.G.: para que a Veja se satisfaça com a reiteração maldita do dogma machista-patriarcal que obriga a mulher a ficar restrita a subalterna e serviçal: “bela, recatada e do lar”. 

O golpe é engomadinho, tem visual de quem vai aparecer na TV: veste terno-e-gravata, faz discursos na Globo, dirige BMWs comprados por lavagem de dinheiro pela Suíça ou pelo Panamá. Os golpistas são olimpicamente desdenhosos da vida dura dos reles mortais que vivem em favelas, ou estão no desemprego, ou das mulheres que querem abortar, ou de todos os que não aceitam o molde familiar da heterossexualidade compulsória, ou dos mortos e feridos pela brutalidade banalizada de nosso complexo policial-carcerário e da conexa e absurda Guerra às Drogas.

O ministério do golpe é todo de velhos homens brancos, fedendo a mofo e à interesses egocêntricos, boa parte deles réus em processos de corrupção e enriquecimento ilícito, com nada menos que 7 deles na mira da Lava Jato. Todos eles representantes de elites que já estão demasiado bem-bancadas, no Parlamento, pelas Bancadas BBB (Boi, Bala e Bíblia). O que significa que a Cultura perdeu muitas batalhas para a Barbárie nos últimos tempos!

O último golpe, desferido dias antes do Bananada, foi o fim da existência independente do MinC: Temer decretou a fusão do ministério da Cultura e da Educação, entregou de mão beijada o Ministério a um partido da direita-grotesca (o DEM), com um desdém inimaginável pelo trabalho de Juca Ferreira, Ivana Bentes e de tantos outros guerreiros que têm lutado, ultimamente, em prol de nossa Cultura Viva. Uma ameaçadora espada de Dâmocles pendia sobre o pescoço do MinC durante o festival, enquanto dezenas de ocupações de prédios e escolas se multiplicavam pelo Brasil, exigindo do governo usurpador o respeito devido à cultura e à arte. Com as cabeças desabrigadas de teto, sob as estrelas do Goiás, nós nos movíamos (uns 5 mil humanos por noite!) entre a monumental arquitetura de Oscar Niemeyer na inquietude destes tempos caóticos.

Donde a importância, para além do entretenimento social e da venda lucrativa de espetáculos pela “Indústria Cultural” nacional – que, devido às minguadas verbas públicas para a cultura, hoje para bancar-se não está tendo como escapar dos conluios de patrocínio com as corporações de cerveja (a Skol é a patrocinadora oficial do festival) – o Bananada foi um sopro de vida muito bem-vindo. Ainda que o conteúdo político não estivesse no script oficial do evento, produzido com competência ímpar pela Construtora de Fabrício Nobre, este foi o Bananada de maior impacto político dentre os 6 ou 7 que já testemunhei.

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O Bananada reafirmou enfaticamente a potência da cultura nestes nossos tempos tão bárbaros, mostrando a quem lá esteve que este país, para além da crise política e econômica estraçalhante, tem vocação para driblar adversidades com muita capoeira, tem o dom da criatividade sem freios, tem a disponibilidade para as mestiçagens e hibridismos mais livres, tem propensão para a genialidade rítmica e melódica absolutamente ímpares. O Brasil autêntico que vive e resiste longe das cúpulas, não se preocupem, sempre foi ingovernável e de uma genialidade selvagem!

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“Teve goipe sim, teve goipada!” – Siba

Se a política institucional é um lamaçal de podridão que nos envergonha diante do mundo, podemos muito bem nos orgulhar, isto é, dar um boost na auto-estima e um chega-pra-lá no “complexo de vira-latas”, por sermos os felizes e gratos conterrâneos de figuras de tão adorável musicalidade e poiésis: Jorge Ben Jor, Siba, Juçara Marçal, Liniker, Planet Hemp, Carne Doce, Pó de Ser etc. Junto deles é que estamos em boa companhia.

IV. CONTRAGOLPES DA LUZ EM TEMPOS DE TREVAS

A experiência me deixou matutando que não há época de trevas que não seja também repleta de contragolpes da luz. Sem A.I.5 não haveriam nascido as “É Proibido Proibir” e as “Cálices” que fizeram com que nossa MPB, mesmo sob as mordaças e os horrores da Ditadura, florescesse resistindo. E que luz brilha com mais esplendor, nas trevas impostas pelas elites, que a da liberdade cantada e da dançada de um povo que constrói na união e na fraternidade seu próprio empoderamento?

Liberdade de afirmarmos a nossa diversidade e celebrarmos o pluralismo de nossa criatividade. Liberdade também de demolir paradigmas de bom comportamento, destroçar imposições autoritárias de conduta, ir além da jaula estreita do politicamente correto, do imposto pelas caretices reinantes. Liberdade para ser absolutamente anárquico (no bom sentido!) na bagunça de gênero, número e cor que dá o tom no Liniker e os Caramelows, com toda a maravilhosidade sem culpa de um protagonista que é ao tempo negão, bicha e lacradora, demolindo a golpes de genialidade qualquer idiotice racistóide ou puritanismo teocrático.

Liberdade para defender, com impacto expressivo e estético de intenso vigor e verve, um “Planeta Maconha” de cannabis livre e Estado policial-carcerário aposentado de vez da história, como fez o Planet Hemp em show arrebatador (os caras são de um poderio ao vivo que os equipara a Rage Against The Machine ou MC5!).

Liberdade para quem é careca, é gordo, é feio, é veado, é de esquerda, é vesgo, tem pele com mais melanina, é ativista do socialismo, é anarquista libertário, é feminista e lésbica, é o que diabo for, de ser quem é, sem ter que tomar pedradas ou sofrer discriminações ofensivas. Os festivais de Goiânia – em especial o Bananada, o Vaca Amarela e o Grito Rock – parecem Zonas Autônomas Temporárias onde a lei do amor prevalece sobre a do ódio e ninguém fica “tacando pedra e bosta na Geni”. Locais onde damos razão à Hannah Arendt quando escreveu, em A Vida do Espírito, que “a pluralidade é a lei da terra.”

Nestes pavorosos tempos de fascismo em ascensão e de golpes de Estado financiados pelo capital transnacional, sempre com seus bem-pagos serviçais na elite nativa, é um sopro de esperança e vitalidade um festival assim, tão bom e tão vivo. Um sopro – ou melhor, para citar os Hellbenders, um hurricane! – de um outro mundo possível onde artistas empunhem, não só guitarras e baixos, tambores e baquetas, mas que também levantem bandeiras libertárias.

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O festival ficou marcado na carne pelas urgências da época histórica, e até mesmo as bandas estrangeiras envolveram-se com o “clima de golpe de Estado”, como fez o vocalista do The Helio Sequence quando disse: “here’s something I guess most of you will relate to!”, disse o antes de erguer um cartaz branco onde se lia, em letras garrafais negras ali grafadas com spray: FUCK TEMER”.

As duas palavrinhas impertinentes que mandavam um foda-se ao usurpador também decoraram um dos palcos, no último dia de festival (15/05), e marcaram o background para a passagem do furacão goiano Hellbenders. Para onde quer que se olhasse naquele palco, o stoner-grungy da banda tinha por acompanhamento fuck Temers e fuck Malafaias às mancheias.

Hell

 Lançando seu segundo álbum, Peiote, gravado na Califórnia no Rancho de La Luna, os Hellbenders pela primeira vez desvelaram uma faceta politizada, como no prelúdio a “Hurricane”, em que o vocalista Diogo Fleury convocou para uma mega roda de pogo após dizer que um governo que nos seus primeiros passos comete atentados contra a cultura e a arte já começa bem mal.

Para além de teorias e debates sobre ela, a tal da Liberdade manifestou-se na práxis em corpos bailantes, coros de vozes em uníssono, cabelos e penteados de todas as cores e tipos (confesso predileção e carinho pelos cabelos azuis, que propagam ecos do filme Azul É A Cor Mais Quente). A variedade, além de estética e temática, foi também vista no colorido do público e na diversidade dos espaços que podíamos explorar – do point do skate ao das tatoos, da praça gastronômica deliciosa às projeções nos prédios (que recuperaram a obra do Bicicleta Sem Freio no prédio do CCON que foi censurada no ano passado). Como bem explorou a matéria da Noisey:

“Em sua 18ª edição, o Festival Bananada vem há tempos buscando transcender a esfera musical e proporcionar uma experiência completa ao público. Não estamos falando apenas de algumas bancas com comida — apesar do Circuito Gastronômico promovido pelo evento ter sido uma das experiências mais agradáveis do rolê —, mas sim de estúdios de tattoo, cabeleireiro, lojinhas das mais variadas bugingangas, merch dos artistas, tabacaria, espaço para as crianças (pode ser cedo demais para levar o bacuri a um show do Planet Hemp), campeonato de skate e até mesmo uma rinha de bartenders valendo prêmio para o melhor drink.

O excesso de opções no espaço, claro, tornou necessário um certo planejamento envolvendo o que assistir e o que fazer durante o festival, mas nada que comprometesse seriamente a chapação envolvida em três dias principais o festival (que ao todo se desenrolou entre os dias 9 e 15 de maio) de encontros com os brothers e muita música foda no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o CCON, em Goiânia.

(…) Em 18 anos de existência, talvez o festival tenha nos proporcionado sua versão mais acertada. Com uma estrutura inédita e muito bem planejada, grande parte dos perrengues de se ir a um evento deste porte passou em branco. Apesar da variedade de gêneros musicais presente na programação, ficou uma leve sensação de que faltou uma ou outra banda mais bombada no evento e — como a própria plateia disse durante o show do Rodrigo Ogi — faltou rap no Bananada.

Para muitos que residem em Goiânia, Brasília e região o Bananada funciona como a única forma de reencontrar alguns amigos, o que torna todo o rolê mais essencial a cada ano que passa. A tônica política também foi forte: praticamente todos os artistas que se apresentaram nos três dias do festival no CCON se posicionaram contra o golpe — e alguns até discursaram para o público. Considerando a situação cívica caótica que estamos vivendo nos últimos tempos, o Festival Bananada foi um pontinho reconfortante de esperança e descontração no meio do Cerrado.” – NOISEY

Salma Jô por Ariel Martini

Salma Jô, vocalista do Carne Doce – Fotografia por Ariel Martini

V. TODA A FORÇA DA DOÇURA DA CARNE

Naquele tenebroso 17 de Abril do golpe parlamentar de Cunha e sua corja – confrontado pela maré vermelha de ativismo que registrei no documentário O Céu e o Condor – Jean Wyllys acusou o processo de impeachment contra Dilma de ser uma “farsa sexista”. O caráter patriarcal, retrógado e machista se confirmou com o ministério de Temer, sem nenhuma presença feminina, colocando mais lenha na fogueira das insurgências feministas, mais necessárias do que nunca diante do atentado à democracia que é também um ataque à figura da mulher em figura de proeminência e protagonismo na política. Neste contexto, não economizo palavras para adorar uma banda como o Carne Doce, que já faz por merecer a posição dentre as melhores bandas do Brasil.

Com apenas um EP (Dos Namorados) e um álbum (Carne Doce), o quinteto goianiense já consagrou-se pelo brilhantismo e pela lindeza de sua arte e de suas performances. Nasceu em Goiânia nos últimos anos, em especial com os Boogarins, o Pó de Ser e o Carne Doce, uma espécie de vertente do indie rock brasileiro que prima pela originalidade, pela experimentação, pela ousadia estética e comportamental, em contraste com o hype do cenário stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders, Overfuzz), que é um furacão de potência mas está ainda bem apegado a modelos estrangeiros, às letras em inglês e ao desejo de ser como o Queens of the Stone Age.

A emergência das bandas com letras em português e autenticidade estonteante – no caso do Boogarins, capaz de transcender as fronteiras nacionais e tornar-se fenômeno global – torna este um dos momentos mais geniais da história de Goiânia Rock City. E não há dúvida de que Salma Jô e seu comparsas de banda estão no centro deste protagonismo – e com todo o mérito, já que a qualidade do trabalho Carne Dociano é algo de deixar boquiaberto o crítico musical, que se transmuta logo em outra coisa: fã em estado de adoração. O modo como acabou o show do Carne Doce neste Bananada 2016 é a maior prova disso: na cena mais inesquecível do festival, numa imitação de Eddie Vedder (Pearl Jam) em seus dias de loucão grungy, o Dan Pimentel escalou a estrutura do palco, fugindo do guardinha da segurança, e enlouqueceu total dependurado no topo, num headbanging xamânico ao som de “Adoração”.

SalmaNão se trata de um caso isolado: o Carne Doce é capaz de despertar reações extremas no público, em especial pela capacidade descomunal de Salma Jô em interpretar as suas canções de modo visceral, com expressão corporal de uma autenticidade e uma liberdade que são muito raras e admiráveis, agindo sempre como se estivesse curtindo imensamente o som produzido por Macloys, Aderson, Ricardo e João Vitor. Apesar de soar prematura uma profecia diante de uma banda tão nova, eu diria que Salma tem o potencial para tornar-se uma das mais importantes cantoras do Brasil – no nível de uma Cássia Eller ou uma Elis Regina – e já pode ser elencada, dentre as vozes contemporâneas, na companhia de Juçara Marçal ou Ceumar como uma de nossas mais incríveis intérpretes.

No Bananada, houve aula magna de liberdade com a refulgência do Carne Doce, uma banda que tematiza sexualidade e sensualidade indo ao cerne do coração selvagem de que nos fala Clarice Lispector. Numa música nova, que eu desconhecia e que muito me impressionou, o eu-lírico da Salma adota a perspectiva em primeira pessoa de uma mulher que decide-se, ao descobrir-se grávida, que o filho “não vai nascer”. Salma Jô canta-nos e convence-nos com uma encarnação (a um só tempo teatral e autêntica!) dos dilemas femininos como são sentidos por dentro. É um antídoto empoderador contra os discursos obscurantistas e fanáticos daqueles que desejam subtrair da mulher seu poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Ava Rocha e Salma Jô

Ava Rocha e Salma Jô

A participação tempestuosa de Ava Rocha, pela primeira vez dividindo o palco com o Carne Doce, foi uma lição a mais de empoderamento e excentricidade. No “Auto das Bacantes”, cantada em dueto com Salma, o chamado é para “tomar os espaços”: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA / da mulher maravilha / e meta um grelo na geopolítica!Ava – responsável por um dos álbuns mais inadjetiváveis da nova música brasileira, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), trouxe ao transe carne-dociano um elemento transgressor a mais, subvertendo todos os paradigmas de beleza, como naquele estranho ritual bacântico em que Salma foi “coroada”, não como a crística coroa de espinhos, mas com uma coroa de facas. O público, extasiado, só agradecia às loucuras maravilhosas que via no palco e que provavam a maravilha das rebeldias estéticas e comportamentais. Nossa arte e nossa política só tem a ganhar com o talento e o carisma inestimáveis de mulheres como Salma e Ava.

Foram momentos momento de re-afirmação coletiva da capacidade de dizer não: no caso, não ao retrocesso, não à barbárie, não ao golpismo, não ao capitalismo destroçador de dignidade. Uma ocasião de dizer nãos produtivos e criativos, muito para além da negatividade, numa afirmação de que “eu grito sim / é pra você escutar / que eu quero ver / você fazer / eu me calar!”

Cito a letra de “Passivo”, do Carne Doce, tanto por considerá-la emblemática da qualidade estética estonteante da banda, mas também para destacar outras camadas de sentido que podem ser desveladas na canção. O “não se calar” desta canção, onde o foco narrativo é uma relação amorosa interpessoal, na performance vocal visceral de Salma transita para outro domínio, para outra vibe, e que me parece ter potencial de ser pura dinamite política: é uma voz de autonomia e rebeldia. É o som da lindeza inestimável da insubmissão. É o som que faz o empoderamento do desejo que afirma-se sem pudor nem culpa pois se sabe digno de auto-afirmação plena.

É esplendorosamente subversivo, em especial com a explosão de uma sexualidade indomável dos versos “vem me fuuuuder”“vem me fazer daaaaaaaar!” Ainda que possa soar a alguns ouvidos como pornografia letrística, aos meus ouvidos soa como uma das manifestações mais impressionantes, na nossa música contemporânea, dum brado libertário do Corpo que demanda o seu direito de gozar, que quer dignificar o gozo e desculpabilizar a carne, em insurgência (necessária e urgente) contra todos os estigmas caretas e condenações pias que aniquilam nosso deleite por sermos quem somos e por nos amarmos como nos amamos.

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VI. O ESPLENDOR DA LUTA: JUÇARA MARÇAL EM CARNE VIVA

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Para terminar este relato, não posso deixar de me derreter em adoração pelo esplendor que foi a performance da Juçara Marçal, uma das mais lindas vozes deste nosso Brasil, no Festival Bananada 2016. Um dos momentos mais comoventes do show foi uma interpretação do samba “Opinião”, de Zé Keti, que caiu como uma luva no contexto da crise política brasileira: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião!”

Estes versos, com um prelúdio em que Juçara alertava que cantaria algo “sobre o Golpe”, ganharam uma nova gama de significados que insuflaram vida nova a esta imorredoura pérola do cancioneiro popular em que o protagonista é a “voz do povo” e a “sabedoria da quebrada”. A visceralidade e a graça que emanam do gogó da Ju Marçal despertaram em mim esperanças de que, mesmo com este grotesco atentado contra o MinC, mesmo com um crápula do DEM tendo recebido o ministério da Educação e Cultura, mesmo com o rolo compressor de esmagar cidadania com que o golpismo galopante já nos atropela, o nosso presente já é de florescimento exuberante de uma “arte-de-resistência”. A cultura autêntica não vai se calar.

Anos atrás, eu tinha visto um show do Metá Metá no CCUFG que havia deixado meus sentidos acachapados de admiração diante de uma bandas mais inovadoras e originais que surgiram no país nos últimos anos. Depois, o “Encarnado”, álbum solo da Juçara, tornou-se um dos meus álbuns prediletos da música brasileira contemporânea, com suas versões ousadas e criativas de Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba, dentre outros. Depois do Bananada 2016, não tenho mais dúvidas: Juçara é uma das artistas mais expressivas, inteligentes e sábias que temos entre os vivos. E é em fontes assim que preencho com um bocadinho de esperança um coração e uma mente que, às vezes, diante das escabrosas atrocidades de nossas elites e das castas políticas plutocráticas, ameaçam soçobrar no completo desespero.

Raia a esperança, emanada de João do Vale ou Zé Keti, de Wilson das Neves ou do Aláfia, de Jorge Ben em modo “Záfrica Brasil” ou Juçara Marçal dando vida à pluridiversidade de nossa cultura popular, de que, apesar dos pesares, Nelson Cavaquinho ainda terá a última palavra: “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de voltar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor… será eterno novamente.”

 A “ponte para o futuro” (na real um atalho para o abismo!) que está sendo imposta por aquilo que Noam Chomsky chamou de “golpe brando” (mas que entre nós já recebeu a denominação mais humorística de golpe à paraguaia) é fruto de uma obscurantista e retrógrada elite econômica e política que, sistematicamente derrotada nas urnas nas 4 últimas eleições presidenciais, não conteve seu mandonismo, seu coronelismo, e tomou de assalto o poder de modo fraudulento e ilegítimo.

Algumas das inteligências mais refulgentes e brilhantes da nossa vida política, como o ministro Juca Ferreira e a secretária Ivana Bentes, foram “despedidos” de seus cargos no MinC, como prova cabal de quão deturpado é o juízo dos Temerianos e o quanto eles querem sangrar o Cultura Viva até que se torne um zumbi. Emblemático disso foi que no Rio de Janeiro o monumento na Cinelândia em homenagem a Gilberto Gil, muso tropicalista que tão esplêndidas contribuições fez à nossa cultura popular e um dos mais revolucionários e visionários dos Ministros da Cultura que já tivemos, foi “deletado” do cenário urbano: a tinta cinza dos censores apagou o colorido de Gil horas antes de uma manifestação contra o golpe marcada para aquele local.

Com a nossa cara coletiva toda gotejante depois de tantas cusparadas (há cuspes e cuspes: o de Jean Wyllys é digno de aplausos, pois seria sórdido e grotesco permitir que a apologia da tortura e a prática cruel da homofobia, por parte do Bolsonazista, fosse aceita em silêncio, sem que protestássemos com escarro!), fomos ao Bananada 2016 pra ver se a música lavava a alma de toda esta sujeira. E lavou. O vigor, o poderio, o ruído ensurdecedor feito pelo Bananada 2016, em sua 18a edição, no coração do Cerradão onde repousa a cidade de Brasília, foi um contragolpe à altura das urgências históricas de que somos contemporâneos. A Cultura resiste. O pulso ainda pulsa. Não estamos derrotados. “E eu quero ver / Você fazer / Eu me calar!”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Maio de 2016

CONFIRA OS VÍDEOS FILMADOS NO BANANADA 2016:







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Fotos: ARIEL MARTINI | RAMON ATAIDE E EDUARDO CARLI | PEDRO MARGHERITO

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EM BREVE: DOC COMPLETO: DESLACRANDO A LIBERDADE NO BANANADA 2016