Marcha Popular do Clima: a Revolução começa aqui (por Ricken Patel, publicado no periódico britânico “The Guardian”)

Criar um mundo movido a energia limpa para nos salvar da catástrofe climática é um desafio central do nosso tempo, e requer uma transição revolucionária nas nossas economias. Não podemos esperar por nossos líderes pela solução deste problema; a menos que sintam uma forte pressão pública, eles nunca irão longe o suficiente, ou rápido o suficiente. As revoluções começam com as pessoas, e não com políticos.

Para sobreviver no século 21, temos de descobrir o sentido de propósito comum que tem impulsionado mudanças revolucionárias através da história, a construção de um movimento de massa para ir além do que os nossos políticos acreditam que seja o possível. Temos de estar à frente, não seguir atrás, e arrastar os líderes conosco.

Líderes Mundiais Discutindo a Catástrofe Ecológica...

Líderes Mundiais Discutindo a Catástrofe Ecológica…

Nos anos que antecederam a 2014, com a diferença entre o que a ciência exige e o que nossos políticos fizeram tendo se alargado, um fatalismo começou a se espalhar em parte do movimento climático. Em seguida, um punhado de organizadores fez uma aposta importante no poder das pessoas – chamando a maior mobilização climática na história para mudar a dinâmica política.

E Uau! Isso funcionou. No ano passado, a Marcha Popular do Clima em setembro foi, sem qualquer dúvida, um divisor de águas. Quase 700.000 de nós tomaram as ruas, de longe a maior mobilização climática já realizada. As marchas foram esperançosas, positivas inclusive. Por incrível que pareça, ao redor do mundo, sequer uma única pessoa foi presa. Milhares de organizações, desde ativistas ambientais até grupos religiosos e sindicatos, reuniram-se, mostrando que a mudança climática não é mais uma questão dos ‘verdes’; é um problema de todos agora.

O impacto sobre os políticos foi palpável. Dezenas de ministros de diferentes países terminaram se juntando à marcha, bem como o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Com o rugido da multidão a arrastá-los, vi em seus rostos a percepção de que eles estavam testemunhando a história. Na Cúpula das Nações Unidas no dia seguinte, um líder após o outro citou as marchas e sua intenção de ser mais ambicioso.

As ruas de NYC durante a Marcha Popular do Clima (People's Climate March) 2014

As ruas de NYC durante a Marcha Popular do Clima (People’s Climate March) 2014

Nos meses que se seguiram, os especialistas disseram-nos que não havia nenhuma saída que não fosse a Europa adotar uma meta de redução de emissões de carbono “de pelo menos 40%” até 2030. Com uma campanha constante e a liderança de alguns desses ministros que participaram da marcha, isso foi feito. Em seguida, EUA e China apareceram com compromissos de emissões surpreendentemente fortes, com a China prometendo um pico em suas emissões até 2030 – um passo enorme. O impulso continuou, com um movimento de desinvestimento constrangendo a indústria de combustíveis fósseis, grandes corporações abraçando energia limpa e o Papa trazendo sua enorme credibilidade moral para apoiar a causa. E o movimento tem-se desenvolvido, com milhares de novas flores desabrochando, e um crescente ativismo de ação direta aumentando a urgência moral da questão.

A cúpula climática da ONU em Paris em dezembro será a maior cúpula do clima mundial desta década. Os estágios nacionais e globais trabalham em conjunto, seja arrastando o outro para cima em termos de ambição, seja numa espiral descendente. Devemos fazer de Paris um momento para dar o impulso e aumentá-lo. Uma poderosa forma de fazer isso seria o mundo inteiro, pela primeira vez, concordar com o objetivo de uma economia global descarbonizada, alimentada por energia limpa. Isso serviria como um sinal imediato para os que investem ao mesmo tempo em energia limpa e suja, em todos os lugares, para acelerarem a transição energética que já está em andamento.

A esperança está se ampliando, a iniciativa está conosco, mas nós já estivemos aqui antes. Desde a Cúpula da Terra em 1992 até o Protocolo de Quioto em 1997, o mundo avançou no passado, apenas para retroceder pela política tóxica do lobby de combustíveis fósseis, com sua ciência-lixo e negacionismo climático bem financiados. A cada momento, a diferença entre a ação que está sendo adotada e a ação necessária à nossa sobrevivência se alarga. Precisamos de um movimento que seja construído para durar, construído para vencer e continuar vencendo, ao longo de décadas por vir.

É por isso que, em 29 de novembro, um dia antes de os líderes mundiais convergirem em Paris, as pessoas vão se reunir novamente nas ruas para as uma Marcha Popular do Clima global – para quebrar o recorde do ano passado de maior mobilização mudança climática na história. Em milhares de cidades e vilas em todo o planeta, nós vamos nos reunir ou marchar pelas nossas comunidades e por aqueles já em risco pelas mudanças climáticas, pelo futuro dos nossos filhos e netos, e por um mundo mais seguro alimentado por energia limpa. Vamos mostrar aos políticos que este é um movimento que chegou para ficar e está crescendo rapidamente. E vamos inspirar outros a aderirem a este movimento aberto e sem porteiras, para o qual não há é preciso convite – todos são convidados, não só a participar, mas para organizar e liderar. Porque, para uma revolução climática que mude tudo, precisamos de todos.

RICKEN PATEL
People’s Climate March: The Revolution Starts Here
The Guardian (UK), 29 de Julho de 2015

LEIA O ARTIGO ORIGINAL EM INGLÊS:

Este texto foi reblogado do “O Que Você Faria Seu Eu Soubesse O Que Sei”, blog crucial do Alexandre Costa, que é insurgente do PSOL e um dos mais relevantes militantes ecosocialistas do Brasil

P.S. – Em 2014, ano de andanças pelo norte do continente, nós – eu e a Gi Toassa – participamos da Marcha Popular do Clima, lá em Toronto, e foi uma impressionante experiência cívica (além de inesquecível vivência humana!). Eram cerca de 10.000 pessoas que tomaram as ruas da metrópole canadense bradando por energia limpa, pelo fim dos combustíveis fósseis, pelo diminuição radical das emissões de CO2 etc. Nos cartazes e nos gritos, manifestaram preocupações, demandas, revoltas – além de ofensas (legítimas!) dirigidas ao presidente Stephen Harper, ecocida de carteirinha e amicíssimo dos donos de petrodollars em Alberta. O Canadá tem razões de sobra para marchar contra o status quo – a exploração do petróleo dos “tar sands” já é amplamente reconhecido como um dos projetos energéticos mais obscenamente poluidores do planeta, um verdadeiro crime contra a humanidade no atual cenário de agravamento do aquecimento global. Alberta é o nome de um lugar onde os netos de nós, os mortais hoje vivos, estão sendo assassinados por antecipação.

Apesar de pequena em comparação com a marcha de Nova York (que levou cerca de 400.000 manifestantes às ruas), a marcha em Toronto mostrou aos participantes a força deste movimento social nascente. Na próxima década, os destinos políticos globais vão começar a ser diretamente impactados por estas mobilizações que vão ganhando momentum e que talvez impressionem os desavisados em Paris, 2015.

Outro sinal dos tempos estava nas livrarias do Canadá, por todo lado, em 2014 – justo nesta época da Marcha do Clima estava sendo lançado, com alta tiragem e estardalhaço midiático (a revista Now!, publicação gratuita que circula em Toronto, fez um ótimo trabalho neste sentido) de um livro seminal, que li com grande gosto e admiração em 2014, de uma das figuras públicas mais lúcidas e influentes do país, Naomi Klein. Após Doutrina do Choque Sem Logo, Naomi Klein, com seu This Changes Everything, deu à luz uma obra-prima do jornalismo e do ativismo em nosso tempo – e leitura obrigatória para entender o presente e o futuro das “lutas climáticas” (que já começaram a raiar com mais força). O que me estarrece é que no Brasil este livro ainda não foi lançado, o que é um crime contra o brasileiro, que necessita urgentemente ter acesso à informação que Klein ali compartilha.

O vídeo que compartilho a seguir é o documentário de 15 minutos que nasceu daquele dia, em que, excitados e alvoroçados, fomos um casal enamorado e um tanto embriagado com a folia da participação cívica que “esverdejou” as ruas, em meio à impressionante maré humana que tomou conta de Toronto. A todo momento, por trás das câmeras, eu filmava tendo em mente que estava no seio de algo que acontecia simultaneamente mundo afora, em dúzias de outras cidades – foi o primeiro protesto autenticamente global que vivenciei. Filmei Toronto tendo na imaginação imagens do que poderia estar rolando durante as manifestações da Cúpula do Clima da ONU, em Nova York, que sentia o impacto de meio milhão de vozes, nas ruas ruidosas, ensurdecedoramente clamando por soluções para a catástrofe ambiental que se agrava a cada dia.

Confesso ainda – para desenvolver o argumento mais tarde, em outra ocasião… – que sinto que estou cada vez mais entre aqueles que considera, baseado no pequeno e sempre expansível conhecimento que tenho da realidade sócio-ambiental do planeta, que aqueles que mais próximos estão de oferecer uma solução  plausível para nossos dilemas globais são os ecosocialistas. Trata-se de realizar – urgente! – uma system change, not climate change, pra citar o nome de uma das organizações mais significativas do ecosocialismo canadense, e cujo discurso muito me agradou – e digo isso após ter ouvido pessoalmente a uma conferência de Brad Hornick, ativista de Vancouver, no Forum Social de Peuples  2014, em Ottawa. Atualmente estudo o livro de Michael Löwy, “O Que É o Ecosocialismo”, e em breve pinta por aqui um ensaio… Quem se interessar pelo tema, fique de olho na Casa de Vidro!…

GREEN POWER:
The People’s Climate March in Toronto / 2014

Ian McEwan, “Solar”

IAN MCEWAN. Solar.
(Ed. Vintage Books, Londres, 2010, 390pgs.)

Para os grandes capitalistas, acionistas, donos de indústrias e CEOs de mega-corporações, o aquecimento global talvez seja considerado como um estraga-prazeres desagradável, como um discurso de ecochatos que tentam lançar pedras nas engrenagens dos lucros desenfreados… Reduzir a mero discurso um FATO empiricamente comprovável e referendável por qualquer cientista honesto, para na sequência desligitimá-lo como falso e falacioso: eis a técnica de auto-engano utilizada por muitos daqueles que fazem fortunas às custas da exploração do trabalho e da poluição ambiental.

Secretamente, no fundo de seus coraçõezinhos mesquinhos, os endinheirados talvez pensem com desdém nesse “problema menor”, o aumento da temperatura do planeta, subestimando as consequências fatais desta para a nossa e para centenas de outras espécies. Consolam-se dizendo que, afinal de contas, serão os pobres, como de praxe, aqueles que mais irão penar. Pois aqueles que possuem capital (gerado, é claro, pela exploração dos miseráveis em Bangladesh, por exemplo, que trabalham por salários de miséria para que a Nike venda tênis por 300 doletas na 5ª Avenida…), esses que tem o poder da bufunfa, ah!… Esses sempre podem comprar potentes aparelhos de ar-condicionado ou terras fresquinhas no Canadá ou na Noruega…

À perspectiva da extinção eles são cegos: só enxergam a necessidade de manter rodando a maquinaria infernal de geração de “riqueza” (óbvio que uma riqueza bastante desigualmente distribuída e de que podem gozar só plenamente só os 1% lá no topo…). Esta grotesca concentração de capital em poucas mãos, que o velho Marx já denunciava, prossegue hoje numa dimensão grotesca, mas ao menos está sendo globalmente contestada – dos protestos de rua de Gênova e Seattle, anos atrás, quando os descontentes manifestaram sua discórdia contra os rumos que G-8, FMI e Bando Mundial queriam impor ao planeta, até a grande “sensação” política do momento, o Occupy Wall Street.


No epicentro deste furacão está a questão do aquecimento global, esmiuçado em ótimos documentários, como The 11th Hour e Meat The Truth, e que também é o eixo temático central de Solar, o mais recente romance do inglês Ian McEwan, um dos mais brilhantes e lúcidos dos escritores de ficção hoje em atividade. Mr. Beard, protagonista de Solar, é um cientista de renome, já laureado com o Prêmio Nobel de Física, cujo ofício é pesquisar e testar modelos alternativos de energia que façam a humanidade superar sua perigosa dependência em relação ao carvão e ao petróleo.

O problema é que Mr. Beard, longe de ser um modelo de escrúpulo, é um beberrão, um mulherengo e um sujeito de preceitos éticos bastante duvidosos, apesar de ter sido “con-sagrado” pelo pózinho mágico de Estocolmo como uma das mentes mais à vanguarda em seu tempo. À medida que McEwan progride em sua narrativa, com a elegância e a espirituosidade da melhor prosa irônica britânica, com arroubos quase “machadianos”, acompanhamos a quixotesca jornada de Beard em busca do Santo Graal da energia eternamente renovável. Mas a vida amorosa – aliás bastante desastrosa – de Beard não cessa de se intrometer em seu trabalho científico. E a Ciência leva rasteiras frequentes dos ímpetos passionais e irracionais dos homens – e sempre consegue se reerguer sem ir à nocaute.

Solar, um dos romances mais “selvagemente engraçados” de McEwan, como disse o Sunday Times, é livro que nos convida a refletir em profundidade sobre os grandes dilemas de nosso tempo através das desventuras surreais de um herói falhado que tenta salvar a Humanidade da hecatombe, mas percebe que sua própria vida pessoal é uma hecatombe em miniatura. Em meio à complexidade desnorteante de nosso planeta endoidecido, que prossegue atulhando a atmosfera com tóxicos e continua sem tomar medidas drásticas contra a grotesca concentração de capital e desigualdade de renda, aguardamos atônitos os próximos capítulos da novela da História sem saber se o futuro nos terá como agentes – ou se seremos um curioso caso de espécie suicida que, através de sua cegueira e estreiteza egocêntrica, destrói àquilo sem o quê é incapaz de sobreviver.

Não se trata de ser apocalíptico e pessimista ao ponto de beirar o fatalismo derrotista (tendência devidamente escarnecida por McEwan); trata-se de reconhecer a urgência do problema e de agir o quanto antes, como diz Manu Chao, para “frear a loucura do Sistema”. As calotas polares, uma vez derretidas, não poderão ser re-congeladas. Não existe tecnologia disponível para reverter isso!  E dá-lhe tsunami e inundação para matar multidões como se fossem formigas e reduzir civilizações a barro – como quando um formigueiro é devastado por um dilúvio…

UM TRECHO NOTÁVEL…

“Beard was not wholly sceptical about climate change. It was one in a list of issues, of looming sorrows, that comprised the background to the news, and he read about it, vaguely deplored it and expected governments to meet and take action. And of course he knew that a molecule of carbon dioxide absorbed energy in the infrared range, and that humankind was putting these molecules into the atmosphere in significant quantities. But he himself… was unimpressed by some of the wild commentary that suggested the world was ‘in peril’, that humankind was drifting towards calamity, when coastal cities would disappear under the waves, crops fail, and hundred of millions of refugees surge from one country, one continent, to another, driven by drought, floods, famine, tempests, unceasing wars for diminishing resources.

There was as Old Testament ring to the forewarnings, an air of plague-of-boils and deluge-of-frogs, that suggested a deep and constant inclination, enacted over the centuries, to believe that one was always living at the end of days, that one’s own demise was urgently bound up with the end of the world, and therefore made more sense, or was just a little less irrelevant. The end of the world was never pitched in the present, where it could be seen for the fantasy it was, but just around the corner, and when it did not happen, a new issue, a new date would soon emerge.

The old world purified by incendiary violence, washed clean by the blood of the unsaved, that was how it had been for Christian millennial sects – death to the unbelievers! And for Soviet Communists – death to the kulaks! And for Nazis and their thousand-year fantasy – death to the Jews! And then the truly democratic contemporary equivalent, an all-out nuclear war – death to everyone! When that did not happen, and after the Soviet empire had been devoured by its internal contradictions, and in the absence of any other overwhelming concern beyond boring, intransigent global proverty, the apocalyptic tendency had conjured yet another beast…”

IAN MCEWAN. Solar. pgs. 20-21.