O barco de Apolo no mar das pulsões dionisíacas: a tragédia para Nietzsche – Por Rosana Suarez em “Os Filósofos e a Arte”, org. Rafael Haddock Lobo, ed. Rocco, p. 125-147))

“Moby Dick ataca o barco Pequod” (Leroy Neiman)

POR ROSANA SUAREZ
(autora de Nietzsche ComedianteNietzsche e a Linguagem)

“O barco de Apolo no mar tempestuoso: é com essa imagem que desejo avançar na concepção do trágico em O Nascimento da Tragédia, de Nietzsche (1844-1900). Friso que, nessa visão, a tragédia representa o apogeu da arte justamente porque compõe e consuma, ainda que provisoriamente, a tensa aliança entre os dois impulsos artísticos da natureza representados pelas divindades olímpicas Apolo e Dioniso.

Para compreender esse encontro, é preciso explicar que o pensamento alemão possui algumas noções de sentido marcadamente dinâmico. Uma dessas noções é impulso ou pulsão (Trieb, etimologicamente = pressão). A “pulsão”, como se sabe, é central em Freud. No pensamento de Nietzsche, está ligada à noção capital de vontade de poder (Wille zur Macht). O mesmo campo semântico dinâmico ressoa no conceito Schopenhaueriano de Vontade (Wille) e encontra um ancoradouro no lema do pré-romantismo alemão, Sturm und drang (“Tempestadfe e ímpeto”). As notas centrais de Trieb são: pressão, impulsão, irradiação; no extremo: desencadeamento e excesso.

Neste sentido, “TEMPESTADE E ÍMPETO” é uma imagem exemplar: o real é como um mar tempestuoso, cortado por relâmpagos, em permanente ebulição, analogia perante a qual até mesmo a formulação de Heráclito acerca da luta eterna dos contrários parece pecar por excessiva sobriedade. Esse imaginário típico reluz em Goethe: “Nas ondas da vida, na tempestade das ações, subo e desço, teço aqui e ali, nascimento e morte, um mar eterno, uma vida de mudança! Assim crio no estrepitoso mar do tempo. […] Em meio ao mar enfurecido que, ilimitado em todos os quadrantes, ergue e afunda as vagas bramantes…”

Para Nietzsche, a arte e a cultura apolíneas, ligadas ao “princípio de individuação”, à medida, à consciência de si, surgem como solução para a Grécia num momento em que esta se vê assolada por pulsões que beiram o incontrolável em seu desencadeamento selvagem e potencialmente destruidor: as pulsões dionisíacas. Contra estas o grego apolíneo erige as belas imagens de seu sonho artístico, principalmente  a poesia épica e o panteão dos deuses olímpicos, deuses da beleza e da luz…

Esses artifícios, entretanto, não conseguem domar para sempre a força dionisíaca. Há um momento em que esta cobra o seu preço, como o oceano borrascoso.

Imaginemos Apolo na figura do marinheiro de um pequenino barco nos mares da Grécia. Esse barco tem a dimensão de uma casca de noz em relação ao oceano. Mas, vejamos bem: é a tensão do mar que sustenta o barquinho! Isso já seria quase suficiente para ilustrar a tensão Dioniso-Apolo em O Nascimento da Tragédia. Imaginemos então uma tempestade. É de se esperar que, em determinado momento, o mar dionisíaco ganhe passagem e destroce o barco de Apolo. Mas não. Segundo Nietzsche, acontece aqui o “milagre da vontade helênica”.

John William Waterhouse – Ulisses e as Sereias (1891)

Num mar eminentemenete épico, o barco apolíneo não se abisma: sabemos que Ulisses retorna à Ítaca. […] Comparemos o épico Ulisses ao trágico Édipo, por exemplo. Num episódio central da Odisséia, Ulisses se faz acorrentar ao navio e evita jogar-se ao mar, tornando-se o primeiro mortal a admirar estrategicamente o perigoso canto das sereias. Já o infeliz Édipo, ao abrir o inquérito contra o facínora de Tebas, matador do rei Laio e corruptor do trono – ele mesmo, afinal, acaba sendo tragado no redemoinho de suas próprias intenções, embora seja intérprete da Esfinge e benfeitor da cidade.

É que o herói trágico, posto sob a influência do mundo dionisíaco, seria levado a experimentar “as mais elevadas e mais fortes emoções” passíveis ao humano; e a encarnar todos os potentes e inextricáveis aspectos da natureza, de júbilo e dor, criação e destruição, vida e morte; mas sempre sob o efeito transfigurador da arte.

“Assim, a difícil relação entre o apolíneo e o dionisíaco na tragédia poderia realmente ser simbolizada através de uma aliança fraterna entre as duas divindades. Dioniso fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, ao fim, fala a linguagem de Dioniso: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia e da arte em geral.” Nietzsche, O Nascimento da Tragédia, #21

ROSANA SUAREZ
in: Os Filósofos e a Arte
Ed. Rocco

IMPEACHMENT PREVENTIVO – Sem provas, mas com muitas convicções, prisão de Lula fere de morte a legitimidade das eleições de Outubro de 2018

 

A PRODUÇÃO DO CAOS 

Por Vladimir Safatle – Fim da Nova República terá brutalização da espoliação e Estado tutelado pelas Forças Armadas. Arte por Vitor Teixeira.

Talvez a formulação mais precisa a respeito do sentido da prisão do ex-presidente Lula, ocorrida na semana passada, tenha sido fornecida pelo filósofo Renato Lessa: “impeachment preventivo”.

Dentro do horizonte de radicalização da brutalidade das relações de classe pela qual passa atualmente o Brasil, não há mais espaço para pactos e compromissos. Lula foi a encarnação mais bem acabada dos pactos nacionais. Sua prisão é uma forma dos operadores tradicionais dizerem que esta era definitivamente acabou.

Por mais que esse sistema de pactos que imperou na Nova República tenha sido responsável por preservar uma democracia de fachada com sua violência armada contra setores desfavorecidos da população, é inegável que ela conseguiu frear, por um momento, os arroubos mais fortes do neoliberalismo.

O Brasil é um país que chegou a 2018 como uma espécie de capitalismo de Estado no qual, por exemplo, 2 dos 4 principais bancos são públicos, assim como as duas maiores empresas nacionais (Petrobras e BR distribuidora).

Suas universidades públicas são completamente gratuitas, seu sistema de saúde público (embora problemático) é universal para uma população de 209 milhões. Tudo isso está completamente fora da cartilha neoliberal reinante.

Mas para avançar no choque de acumulação primitiva e de concentração de renda seria necessário impor o aumento exponencial e a generalização completa da violência de Estado, isso em um país no qual esta já era responsável por uma política contínua de desaparecimento, tortura e simples execução.

Como fazer isso não produzindo deliberadamente o caos, ou seja, dando a impressão de que nenhuma resposta política seria mais possível, sendo necessário apelar à força? Mas produzir o caos significava eliminar todos os atores políticos críveis, assim como impedir que novos sujeitos políticos aparecessem.

Dentro dessa estratégia, a Operação Lava Jato teve um papel central. Desde que o juiz Sergio Moro decidiu por divulgar em cadeia nacional os grampos de conversa entre Dilma e Lula, a fim de impedir sua posse como ministro, ele transformara uma operação importante de combate à corrupção em modo de intervenção política.

Sua caçada a Lula foi construída a partir do calendário político do país, seus passos foram claramente calculados para impedir um grupo político de atuar. Ou seja, sua operação foi uma farsa por estar politicamente comprometida e interessada.

Seus resultados concretos no que diz respeito a combate contra a corrupção são inexistentes. Ao contrário, o Brasil caiu 17 posições no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) nos últimos dois anos.

Nosso governo atual é explicitamente mais corrompido do que o anterior sem que nada possa pará-lo.

Sem contar que a Lava Jato normalizou práticas impensáveis até mesmo em uma democracia liberal, como grampear telefones de advogados de um acusado.

O resultado não poderia ser diferente do alcançado por seu congênere italiano, a Operação Mãos Limpas: entregar o país para um grupo ainda mais corrompido e “apolítico” (no caso, Berlusconi).

No entanto, há uma especificidade brasileira. Dentro desse cenário de caos, as Forças Armadas sentem-se completamente à vontade para retornar seu protagonismo e se impor ao país como verdadeiro poder.

Este será o saldo do fim da Nova República: brutalização da espoliação e Estado tutelado pelas Forças Armadas.

Nesse horizonte, espero que as forças progressistas lembrem do destino de Lula.

Aquele que melhor encarnava as dinâmicas de negociação entre classes da Nova República terminou na cadeia.

Aquele que acreditou que os processos de transformação poderiam ser garantidos por meio de um reformismo gradual e seguro foi simplesmente jogado na cadeia na primeira oportunidade, independente do caos que isso possa gerar.

Esta é uma aula sobre o que de fato é o Brasil.

*Filósofo, é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

Originalmente publicado na Folha de São Paulo

 




SEM LULA, A LEGITIMIDADE DO PROCESSO ELEITORAL FICA COMPROMETIDA

Texto por Luis Felipe Miguel, Arte por Vitor Teixeira

A principal informação da pesquisa Datafolha não é que Lula “perde votos” depois de preso – é o impacto inicial e esperado do massacre midiático dos últimos dias. Também não é que, apesar disso, ele continua liderando a corrida presidencial – a popularidade de Lula já mostrou sua resiliência diante das adversidades. Nem é que, com Lula fora, o candidato fascista fica na frente – a direita cevou seu pit bull e agora não sabe bem como controlá-lo. Tampouco que os outros candidatos da esquerda pontuam mal – há um longo caminho a ser percorrido.

A informação mais importante é que, sem Lula, o grupo dos “sem candidato”, pessoas inclinadas a não votar em ninguém, lidera, com larga vantagem.

Ou seja: com o candidato que lidera as preferências do eleitorado afastado de forma arbitrária, a legitimidade do processo eleitoral fica comprometida. Sua capacidade de gerar um governo com alguma legitimidade é anulada. Somente um projeto de poder voltado a impor uma ordem de dominação nua, sem espaço para qualquer pactuação com os dominados, julgaria razoável patrocinar um processo eleitoral desta forma. – Luis Felipe Miguel.




– Thaís, você acredita mesmo que o Lula é inocente?

– Inocente do quê?

– Que ele não roubou, você acredita?

– Roubou o quê?

– Ah, você sabe como é, eles roubam, veja o Lula, hoje, tá milionário…

– Ele trabalhou como presidente por 8 anos, recebendo um salário de R$ 30 mil, isso resulta em quase R$ 3 milhões; além disso, ele é uma liderança mundialmente respeitada e admirada, cada palestra dele custa em torno de R$ 100 mil. Ou seja, ele teve acesso a uma renda honesta, que bem administrada, o deixou milionário. De todo modo, quero voltar a sua pergunta, o que ele roubou?

– O triplex no Guaruja! O sítio!

– Esses imóveis nunca foram dele ou de qualquer familiar dele. Não há nada, nenhuma prova material que demonstre que Lula é proprietário, pelo contrário, há documentação pública de que pertencem a terceiros.

– Ah, Thais, você está sendo muito ingênua, lógico que ele não é inocente, veja as pessoas com quem ele anda.

– Não é ingenuidade, é respeito pelo Estado de Direito; é consciência de que a necessidade de provas é essencial para condenação e prisão. Imagine se eu ou outra pessoa te acusa de roubar e você não tem direito a uma defesa conforme a lei determina, que não seja necessário prova, apenas convicção; como você se sentiria? Você acha razoável?

– É… hmmm… ah, mas é impossível que não tenha se corrompido… Deve ter milhões no exterior.

-Você consegue provar? Porque faz mais de 30 anos que viram do avesso a vida dele e da sua família e não encontraram uma única prova material. Isso diz muito, não?

– Pode ser… mas não é possível…

– Mas não cabe a gente exigir condenação e punição por algo que não pode ser comprovado, concorda? Isso para ninguém, para você, sua mãe, para mim, para o Lula e para o Aecio. Se bem que esse tem até vídeo com mala de dinheiro e áudio dele exigindo propina…

– Nenhum político presta, Thais!

– Eu não concordo, mas é seu direito pensar assim. O que não é seu direito é exigir condenação e prisão de alguém que não recebeu um julgamento legítimo.

– É minha opinião, você tem a sua.

– Isso não é opinião, é legislação, procedimento do Código Penal, são fatos.

– Eu não entendo de lei.

– Mas você é inteligente o suficiente para entender que prenderam o político que está em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais sem que haja prova e sem esperar o processo finalizar. Não lhe parece perseguição política, uma manobra para evitar que ele se eleja presidente?

– Pode ser… quer saber, eu não gosto do Lula, nunca gostei…

(Por Thais Moya)

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A CORAGEM DA VERDADE: A filosofia como aposta no risco


A CORAGEM DA VERDADE:
A filosofia como aposta no risco

Uma das obras mais fascinantes de Foucault chama-se A Coragem da Verdade (Le Courage de La Verité) e talvez possa servir de emblema de toda sua vida. Em 1984, ano de sua morte, Foucault explora a fundo em suas aulas a noção de parresía, palavra grega que poderia ser traduzida com esta expressão poética – a coragem da verdade – que o autor de Vigiar e Punir usa para batizar este derradeiro fruto de seus hercúleos labores do espírito.

A verdade, longe de ser apenas o alvo visado por uma investigação intelectual, longe de ser apenas aquilo que a razão do homem visa descobrir, é inserida por Foucault no âmbito da ética, logo no terreno da vontade e da ação: a verdade é algo que deve determinar nosso comportamento, forjar nosso ethos, definir nossa prática, e não há sabedoria (sophia) possível sem que tenha a verdade como norte. Porém nada disso é fácil ou simples pois o serviço da verdade é uma coisa perigosa. É perigoso perseguir a verdade, e mais perigoso ainda ousar expressá-la aos outros. Vejamos porquê.

A parresía, parece-me, será descrita por Foucault tanto como um direito quanto como virtude. Na obra teatral de Eurípides, ensina Foucault, o termo parresía “aparece designando o direito de falar, o direito de tomar publicamente a palavra, de dizer a sua palavra, de exprimir sua opinião numa ordem de coisas que interessam a cidade.” (8 de Fevereiro de 1984, p. 31) Podemos dizer, provisoriamente, que parresía traduz-se por “liberdade de expressão”, ou seja, direito de dizer o que acreditamos ser verdadeiro.

Em uma peça como As Fenícias, por exemplo, podemos aprender o que significa parresía através da experiência de exilado de Polinice, um dos quatro filhos nascidos do casamento amaldiçoado de Édipo e Jocasta. A tragédia do Rei Édipo, originalmente uma trilogia escrita por Sófocles, também foi tema para Eurípides e este nos apresenta vários impressionantes quadros dos sofrimentos horríveis da estirpe infeliz nascida do descomunal crime de Édipo (o assassinato do pai seguido pelo matrimônio com a mãe).

A parresía  é aquilo que Polinices perde ao ir para o exílio, é aquilo de que ele fica privado ao abandonar o seu torrão natal e perder o vínculo com o território onde era reconhecido como cidadão, integrante da pólis: “no exílio, não se tem o direito de falar, somos escravos dos senhores e não podemos nem mesmo nos opor à loucura deles.” (pg. 32)

Ou seja, se o exílio é difícil para Polinices suportar, não é apenas pois no exílio somos estrangeiros numa terra estranha, strangers in a strange land, mas porque ali estamos privados de qualquer voz e vez na determinação dos destinos coletivos, estamos excluídos de todos os processos de participação, de deliberação, de decisão.

Perder a parresía é equivalente a perder alguns dos direitos políticos mais elementares. Quando não temos direito à fala pública, quando não há espaço para a expressão daquilo que julgamos ser a verdade, a política naufraga. E neste vácuo quem arrisca-se a vencer é a guerra, a violência, a tirania: o despotismo da opinião ao invés da democratização do diálogo.

Antígona enterra o corpo de seu irmão Polinice

É imperativo que a pólis justa extenda a todos o direito à parresia, ou seja, à fala pública, àquilo que poderíamos chamar de participação social ou exercício da cidadania. Trata-se, afinal de contas, de defender a liberdade de expressão, de manifestação, de debate franco com nossos concidadãos, algo consubstancial tanto ao ideal democrático quanto à vida filosófica. Talvez por isso Cornelius Castoriadis afirme que democracia e filosofia são como carne-e-osso, dois elementos inseparáveis e consubstanciais, um sendo incompreensível sem o outro, até mesmo em virtude de sua emergência histórica conjunta, simultânea. (Cf A Instituição Imaginária da Sociedade)

Democracia e filosofia, ademais, estão unidas pela parresía. Trata-se de apostar numa coletividade onde a diversidade de opiniões possa manifestar-se na arena pública, para ali ser debatida, com posições e opiniões conflitantes sendo resolvidas em assembléias, pela via do voto etc.

É inimaginável uma república democrática – ou seja, um arranjo político onde a voz do povo, em sua diversidade de cores e opiniões, possa manifestar-se e debater sobre os melhores caminhos para a gestão do bem público, da res publica –  onde a parresía não seja direito e valor. A coragem da verdade é indispensável à política – e digo mais: algo que nenhuma utopia política pode negligenciar.

Para além desta dimensão de um direito cívico, com frequência desrespeitado ou não concedido, a parresía também é um imperativo ético, uma virtude que deveríamos nos esforçar por praticar. É próxima daquilo que André Comte-Sponville analisa no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes em seu capítulo sobre “a boa fé” (a veracidade), texto em que ele esclarece muito bem este sentido de parresía como virtude daqueles quem praticam a fala franca, sincera, autêntica.

A fala franca é ao mesmo tempo a fala justa: falar a verdade é prestar tributo de justiça àquilo que sentimos e pensamos de fato. Uma linda expressão musical disto está também na canção, tão maravilhosamente entoada por Ceumar, onde “justo é o equilíbrio perfeito entre o dito e o feito, entre o ato e o discurso”:

O sujeito dotado de parresía é aquele que busca ser sempre veraz; não conta nunca uma mentira deliberada; não busca ludibriar os outros com falsas lisonjas ou argumentos que sabe serem falaciosos; trata-se do princípio do não enganar os outros para que não sejamos por eles enganados, erguido a uma espécie de patamar ético fundacional, fundamental.

Foucault, no fim de sua vida, ecoando e desenvolvendo os temas que lhe ocuparam durante os três volumes da História da Sexualidade, interessa-se pelas multiformes encarnações, através da História, de um ideal ético baseado na coragem da verdade e no cuidado de si.

Mas por que descrever a verdade como algo que exige nossa coragem? Alguns argumentariam que a verdade poderia ser simplesmente um alvo para a razão, aquilo que o lógos persegue. Por que Foucault esforça-se tanto por transformar um problema que poderíamos restringir ao âmbito da ciência, ou que poderíamos manter na “gaveta” da epistemologia, em algo tão visceralmente conectado à ética?

A verdade, poderíamos dizer bem toscamente, é desvelada por Foucault como um problema não só para a cabeça, mas também para o coração. O que a verdade exige de nós é coragem, além de inteligência. Não basta ser esperto, para encontrar a verdade é preciso ousar sair à sua caça, derrubar as barreiras que se interpõem no nosso caminho para ela, inclusive aquelas cegueiras voluntárias através das quais às vezes preferimos não enxergar certas verdades desconfortáveis (“mentir pra si mesmo”, cantava Renato Russo, “é sempre a pior mentira”).

Confesso que tudo isso exerce um imenso fascínio sobre este jovem professor de filosofia, tão ansioso em despertar, durante as aulas, um senso da aventura excitante e perigosa que a filosofia pode ser! Pois uma filosofia que recusa o risco e o perigo é uma pseudo-filosofia e uma fanfarronada de covardes. Um filósofo que não tem a coragem da verdade não é digno do nome de amigo da sabedoria.

Por que a busca da verdade pode ser perigosa? Primeiro, é óbvio, pois exige que recusemos o conforto de repousar a-criticamente no divã estofado das opiniões recebidas, dos preconceitos inculcados, das crenças aprendidas.

A aventura do pensamento exige que lancemos aos mares tempestuosos nossos barcos, levantando âncora do porto dos saberes reconhecidos. A mera submissão à ideologia hegemônica – um dizer-sim de ovelha àquilo que prega o pastor ao seu rebanho, como se fosse a verdade absoluta e indiscutível – jamais fará um filósofo digno deste nome.

Filosofar envolve necessariamente a contestação de ideologias vigentes, o exame crítico de idéias que são vendidas como verdadeiras, mas que talvez sejam embustes. A crença cega e a obediência acéfala estão nas antípodas da atitude filosófica.

Porém, não se pode excluir o filósofo, jamais, de seu contexto sócio-histórico, de seu enraizamento político. A coragem da verdade não é apenas questão de heroísmo pessoal, mas de possibilidades concretas. Não se trata de elogiar o herói solitário que ousa descobrir verdades e propô-las em alto e bom som; trata-se de pensar em uma sociedade que permita a presença da parresía como direito cívico fundamental e como virtude reconhecida como essencial ao bem comum.

Vejamos o caso de Atenas, o berço da democracia ocidental: dela diz Foucault que, “orgulhosa das suas instituições, pretendia ser a cidade na qual o direito de falar, de tomar a palavra, de dizer a verdade, e a possibilidade de aceitar a coragem desse dizer-a-verdade eram efetivamente realizados melhor que em outros lugares.” (p. 33)

Ora, Atenas vende-se como pólis da parresía, como sociedade que permite e incentiva a fala franca. Porém, a mesma Atenas, tão celebrada como berço da democracia, exclui da cidadania as mulheres, os escravizados, os estrangeiros (os metecos) – são os inumeráveis, pois muito numerosos, párias da parresía. A mesma Atenas irá condenar o filósofo Sócrates à morte, legando à posteridade um emblema imorredouro do quão perigoso pode ser uma vida filosófica “falastrona”.

O trágico desenlace da vida de Sócrates – sua condenação à morte em Atenas – é um dos problemas mais complexos na história da filosofia e Foucault encara-o em seus últimos dias com sua extraordinária ousadia investigatória. Nestes derradeiros cursos que ofertará no Collège de France, onde lecionava deste 1971, Foucault  demonstra toda sua fascinação diante do “ciclo da morte de Sócrates”. No ano em que morreria, Foucault focava boa parte de seus esforços intelectuais na decifração de um dos maiores enigmas da história da filosofia: as últimas palavras de Sócrates.

“A Morte de Sócrates”, por Jacques Louis David.

Antes de morrer, Sócrates solicita a seu discípulo Críton que sacrifique um galo em homenagem ao deus Esculápio. Por que diabos, após engolir a cicuta, ele teria se despedido dos vivos de modo tão bizarro, tão inquietante, tão difícil de decifrar?

Muitos comentadores, entre eles Nietzsche, irão dizer que Sócrates revela-se aí como alguém que concebia a vida como uma doença. O veneno viria para salvá-lo da doença que é viver. Ou seja, Sócrates moribundo reitera para seus discípulos, como o Fédon de Platão deixa explícito, que é um homem de fé. A morte não passa, em sua visão, de uma separação entre alma e corpo, e depois da morte a alma continuaria sua existência em outro plano.

Nietzsche destacará muitas vezes que Sócrates morre dizendo aos seus discípulos: não descuidem de pagar a dívida com Esculápio, o deus da medicina, pois com esta cicuta estou me curando desta doença terrível que é ter uma alma atada a um corpo. Em seu delírio fatal, Sócrates acredita que o veneno, no fundo, lhe fará muito bem. Ele acredita que o veneno mortal lhe fará bem, mas não por causa de um argumento niilista – “o nada é melhor que a vida”. Sócrates não é Cioran e tampouco é um budista. Seu argumento é proto-cristão: morrer pode ser um bem pois a morte virá libertar a alma de seu cativeiro-corporal.

O que é impressionante na condenação de Sócrates em Atenas é que isto parece gerar o colapso completo da noção de que esta cidade-Estado grega é o berço esplêndido da democracia e da liberdade de expressão. O crime cometido por Sócrates, afinal, não pode ser descrito como nenhum derramamento de sangue, nenhuma violência psicopata: Sócrates não matou ninguém, não é mandante ou executor de nenhum homicídio, tampouco é culpado de crimes contra a propriedade privada alheia.

Não sendo nem assassino, nem ladrão, nem estuprador, nem malfeitor na gestão pública, torna-se misteriosa a razão que fez Atenas condená-lo à pena mais severa que existe, a pena capital. A acusação de que ele é ímpio e corruptor de menores leva-nos à suspeita de que Atenas tenha, em Sócrates, executado um preso político, alguém que estava sendo punido principalmente por suas opiniões e práticas, por seu ethos.

Ora, na aula de 15 de fevereiro de 1984, Michel Foucault escancara suas opiniões sobre a posição emblemática de Sócrates na história do pensamento:

“Sócrates é aquele que prefere enfrentar a morte a renunciar a dizer a verdade, mas não exerce esse dizer-a-verdade na tribuna, na Assembleia, diante do povo, dizendo sem disfarces o que pensa. Sócrates é aquele que tem a coragem de dizer a verdade, que aceita se arriscar à morte para dizer a verdade, mas praticando a prova das almas no jogo da interrogação irônica.” (p. 63)

São frases em que Foucault reconhece em Sócrates uma espécie de ativista da parresía, mas alguém que preferiu exerceu seu direito à fala franca não no âmbito da política institucional, mas no calor dos diálogos cotidianos. Eu arriscaria até um paralelo com nossa atualidade: se morasse em Brasília, em 2017, ao invés da Atenas do século IV a.C., Sócrates não seria um político profissional, um senador engravatado, que fala dentro do Congresso; seria sim um senhor impertinente que fica vagando pela cidade, papeando com os transeuntes na Esplanada dos Ministérios, sempre inquisitivo e irônico, botando as crenças dos sabichões em maus lençóis com uma avalanche de perguntas.

Sócrates pratica algo que Foucault reconhece como inovação política: uma vida filosófica, que tem valor pedagógico, mas que se dá em interação com o povo; Sócrates ensina, de fato, mas é através de uma pedagogia da pergunta, cujo motor é o diálogo, processo sem fim de exame das opiniões, norteado pelo desejo de chegar à verdade, à alethéia, e usando como meio ou faculdade o lógos, a razão.

Obviamente que Sócrates não é a-político, não recusa totalmente a política, mas sim propõe um outro modo de agir politicamente, bem diferente, por exemplo, da atuação de Sólon. Se há sábios que agem no âmbito do Estado instituído, como Sólon, há também sábios que preferem agir no âmbito da sociedade mais ampla, como fizeram não só Sócrates, mas também muitos dos chamados cínicos, a começar pelo lendário Diógenes. (Saiba mais em A Razão Inadequada)

Diógenes e Alexandre, por Edwin Henry.

Conta a lenda, lembremos, que um dia Diógenes, dormindo em seu barril, totalmente despreocupado em relação aos seus trajes (ou falta deles), andrajoso e negligente com sua aparência a ponto de ter o visual de um velho mendigo pulguento, recebe a visita do super-poderoso imperador Alexandre, o Grande. Alexandre aparece ricamente paramentado, bem-vestido e bem perfumado, acompanhado pelos soldados de sua guarda pessoal, na pompa de um proto-metrosexual que caminha sobre o mundo na empáfia de quem foi educado por ninguém menos que Aristóteles. O todo-poderosismo de Alexandre é logo reduzido a escombros por Diógenes. Este, quando o imperador lhe oferece um cargo político importante, teria respondido: tudo o que quero, senhor, é que você saia da frente do meu sol.

Há algo de similar na atitude de Sócrates, talvez: ele não quis ser, em Atenas, um Sólon ou um Péricles. Porém, não se trata, nem no caso de Sócrates, nem naquele de Diógenes, de uma recusa completa da política, mas sim de modos diferentes de agir politicamente. Sócrates não quer escrever livros complexos e ser lido apenas pela minoria minúscula de aristocratas letrados; pelo contrário, Sócrates é um filósofo da fala, um tagarela incansável, um questionador oral que age na cidade como a também lendária “mosca” que irrita os cidadãos, picando-os com o ferrão de sua crítica e assim acordando-os para a tarefa mais importante da vida: o cuidado de si, compreendido como indissoluvelmente ligado a uma ética ascética, onde a busca da verdade e a prática das virtudes devem ter primazia sobre a ânsia de ir atrás dos objetos de nossos desejos carnais.

Não sejamos ingênuos: Sócrates pode até gabar-se de sua capacidade inaudita de reconhecer sua própria ignorância. Mas Sócrates é um pseudo-cético e não é possível levar tão a sério o seu famoso “só sei que nada sei”. Acredito que podemos ler os diálogos platônicos que descrevem o fim da vida de Sócrates como evidências de uma série de crenças dogmáticas que este filósofo nutria na época em que Atenas o condena à cicuta. Reler, na sequência, a Apologia, o Críton e o Fédon revela um homem de uma empáfia tão imoderada, de uma convicção tamanha em certos artigos-de-fé, que mais parece um precursor de Jesus Cristo do que um livre-pensador célebre por seu ceticismo.

O Fédon, por exemplo, traz Sócrates argumentando em prol da imortalidade da alma em um modo de parresía que evoca não um cético fanfarrão e lúdico como Diógenes, mas sim algo mais solene, pomposo e autoritário – como esta imagem de São Paulo pregando, tal como retratado pelo pincel de Rafael:

Podemos ficar estarrecidos com a dificuldade em compreender como Atenas, cidade que se gaba de ser “democrática”, condena à morte um filósofo, como Sócrates, somente por dar expressão às suas opiniões, ou seja, por praticar aquela parresía que parece consubstancial à própria democracia. Sócrates, porém, não é um democrata; o fato de dialogar cotidianamente com pessoas de vários estratos sociais não significa que ele defenda a democracia como melhor sistema político.

Sócrates está em conflito com Atenas na querela sobre a democracia; Sócrates participa, talvez, de um movimento de contestação da democracia que em A República torna-se explícito: a utopia, ali, consiste no governo de um só, o filósofo-rei. Sócrates, afinal de contas, era um… monarquista! Acreditava que o rei deveria ser o mais sábio, e que ele, Sócrates, um dia apontado pelo próprio deus Apolo, através do oráculo de Delfos, como o mais sábio dos homens, era nada menos que o modelo deste monarca do porvir, que iria gerir a pólis ideal.

Se Sócrates é “ímpio”, corruptor da juventude, cidadão de atitudes inaceitáveis, segundo o julgamento de Atenas, talvez seja pelo altíssimo conceito de si que ele nutre e que o faz merecedor de uma espécie de coroa do narcisismo, de cúmulo da arrogância: ele crê-se apontado pelo deus Apolo para servir como benefício à humanidade…

O “sei que nada sei” aparece assim como mera máscara de modéstia. Este homem acreditava-se eleito por Apolo para desenvolver na terra uma tarefa divina, um encargo dos céus: não seria difícil enxergar aí alguns dos sintomas que caracterizam, através dos tempos, a figura do fanático religioso. Guiado por um enigmático daimon interior, que hoje chamaríamos de “voz da consciência”, mas que os primeiros cristãos interpretaram como manifestação do Espírito Santo, Sócrates revela-se, em seus últimos dias, muito mais próximo de um padre do que de um bufão. Muito mais próximo de Pitágoras e sua seita de crentes na transmigração de almas do que de Diógenes e dos cínicos.

Sócrates, como bem veria Nietzsche, mostra-se como um dogmático pregador de um governo baseado na monarquia meritocrática: o filósofo-rei é quem merece reinar sozinho. Revela-se também dogmático em matéria de religião, afirmando a imortalidade da alma e sua separabilidade do corpo – é isto que permite, como relatado no Fédon, sua morte serena. O filósofo morre com a morfina da fé correndo em suas veias para reconfortá-lo. Morre sonhando que acordará curado da doença que é ter um corpo, que levantará todinho-alma no Olimpo, que em breve estará na companhia de Esopo, tecendo fábulas em sua morada celeste…

Se Sócrates é um exemplo tão excelente do que significa parresía, é pois seu destino demonstra todo o perigo e toda a aventura da filosofia como abertura ao risco de dizer em público aquilo que acreditamos ser a verdade.

Filosofia sem debate, sem diálogo, não é filosofia; monólogo solipsista pode até ter seu interesse no âmbito da arte ou da literatura, da filosofia e da psiquiatra, mas filosofia é essencialmente interlocução, engajamento social, debate público, direito à expressão, dever de escuta do outro etc. Sócrates pagou com sua própria vida o ter-se lançado aos mares tempestuosos da parresía. Ensina-nos, por seu exemplo, que a política é o âmbito do conflito, do antagonismo, da discordância, mas que é preferível à guerra, ou seja, à decisão na base da força física ou da técnica militar. Política é gerir os conflitos pela via do diálogo, da deliberação, do sopesamento sábio das razões em discórdia etc.

Sócrates, longe de neutro e apolítico, longe de cético e cínico, não encarna uma atitude realmente condizente com a frase mais famosa que lhe atribuem: “sei que nada sei”. Pois Sócrates pretendia saber muita coisa sobre o melhor modo de nos conduzirmos na vida. Sócrates acreditava piamente em certas verdades éticas e religiosas que ele propugnava: crê, sobretudo, na excelência da

“vida filosófica, a vida pura, a vida que não é perturbada por nenhuma paixão, nenhum desejo, nenhum apetite não refreado, nenhuma opinião falsa. Ele diz que a vida filosófica consiste em ‘evitar com cuidado a sociedade e o comércio do corpo, salvo em caso de força maior, sem nos deixar contaminar por sua natureza, mas, ao contrário, permanecendo puros de seu contato até a hora em que a própria divindade nos libertar.'” (Foucault, p. 88)

Sócrates aparece-nos então, como apareceu também para Nietzsche ou para Oswald de Andrade, como dogmático pregador do ideal ascético, avô de todos os puritanismos religiosos que se seguiriam, “professor” de austeridade e de repressão sexual, patriarca de uma visão de mundo falocêntrica e logocêntrica, anti-democrata radical que vê a panacéia na monarquia do filósofo-tirano.

Que ele tenha talhado o ideal do filósofo-rei partindo de seu próprio exemplo – ou que Platão o tenha realizado a despeito de seu mestre – importa pouco, o fato é que trata-se de um monumento do narcisismo humano, um caso limite de húbris ou de exagero no auto-enaltecimento. Sócrates quer que o governo seja monárquico e que o governante supremo – o soberano – seja caracterizado por seu perfeito ascetismo, por sua pureza moral, por sua capacidade de ser todo espírito e de renegar toda a carne.

A tirania do puritanismo e do ascetismo decorre do ideal político socrático com tal clareza que não faltarão aqueles que verão em A República, texto de Platão de nome tão enganador, nada menos que o advento primeiro de uma utopia totalitária. Tirano solitário em seu trono de pureza, o filósofo-rei proclama seu próprio exemplo de ascetismo e devoção ao cultivo da alma imortal como verdade suprema. Expulsemos da pólis os artistas que ousarem discordar! Lançemos às chamas os poemas e as canções que ousarem propor uma estilo de vida mais hedonista, que busquem propor a redenção dos corpos e a beleza da carne

! As fogueiras da Inquisição nunca estão muito longe das propostas políticas de Sócrates. É o que tentarei mostrar no futuro, dando continuidade a estas reflexões, tomando como base a crítica absolutamente devastadora e extremamente atual que André Comte Sponville efetuou da filosofia política do socratismo-platonismo nos dois volumes de O Mito de Ícaro – O Tratado do Desespero e da Beatitude Viver.

Que Sócrates tivesse todo o direito de falar com franqueza sobre suas idéias e crenças, não há dúvida: sem parresía, a sociedade acaba segregada entre os que tem voz e os que são silenciados, situação análoga e simultânea à coletividade cindida entre dominadores e oprimidos. Sócrates assumiu o risco da fala franca, exemplificou a coragem da verdade, porém a cartilha dogmática de seus últimos dias precisa ser radicalmente questionada e desconstruída.

É um dentre os inúmeros méritos de Foucault ter, na esteira do Nieztsche, problematizado tão a fundo a questão da vontade de verdade e da coragem de verdade, que alguns chegam ao extremo – ao qual não me arrisco – de dizer, como Oswaldo Giacóia, que vige no pensamento foucaultiano a noção de uma “inexistência da verdade”.

Questão imensa, a ser encarada em outra ocasião. Minha sensação – muito mais do que uma conclusão racional e plenamente fundamentada – é que Foucault não é um cético tão radical assim, um relativista total, um daqueles que bate o martelo e diz: “não há verdades, só interpretações”.

Seus imensos esforços intelectuais não parecem se explicar senão por um interesse infatigável e uma curiosidade pluriforme que Foucault tinha pela história do pensamento e pela variabilidade impressionante dos modos de perseguir e dizer a verdade, além é claro do fascínio que dele emana diante da pluralidade das maneiras de viver, cuidar de si e relacionar-se com os outros.

Falar da impossibilidade de chegarmos um dia à Verdade é uma coisa; reduzir o verdadeiro à mera inexistência é outra. Foucault, se tanto nos fascina, inspira, informa, provoca e encanta, só pode ser, proclama meu coração, pois é ele mesmo um emblema vivo do que significa devotar a existência à coragem da verdade.

Eduardo Carli de Moraes
Maio de 2017

LEIA TAMBÉM: VOMITANDO A VERDADE – DIÓGENES, O CÍNICO

TODAS AS CITAÇÕES:

FOUCAULT, Michel. A Coragem da Verdade. Curso no Collège de France (1983-1984). Volume II de O Governo de Si e dos Outros. Ed. Martins Fontes, 2014, trad. Eduardo Brandão.

VLADIMIR SAFATLE: Dois artigos sobre a Crise dos Refugiados

Guernica

“Guernica 2015”. Por Javcho Savov.

Refugiados que devem ser ‘educados’

Vladimir Safatle – Folha de SP (05/02/2016)

 

“De fato, a tua sina deve ser terrível, e não lhe ficarei indiferente, eu que cresci no exílio, um desterrado como tu, e que arrisquei como ninguém a minha vida lutando muitas vezes em terras estranhas. Por isso, a nenhum forasteiro igual a ti eu hoje poderia recusar ajuda.”

Essas palavras, que todo leitor de Sófocles reconhecerá como um trecho central de “Édipo em Colona”, são as palavras de Teseu a um dos mais célebres refugiados da história do pensamento ocidental, Édipo.

Expulso de sua terra, sem lugar e sem posses, Édipo pede asilo e recebe de Teseu mais do que esperava. Recebe o reconhecimento de que o desterro não deixa ninguém indiferente, mesmo que este outro seja alguém “irrepresentável” para nós, alguém cujas filiações não conhecemos.

Édipo, após furar os olhos, é guiado por Antigona através de Tebas, rumo ao exílio. Pintura de Charles François Jalabert.

Édipo, após furar os olhos, é guiado por Antigona através de Tebas, rumo ao exílio. Cena da trilogia de peças trágicas de Sófocles, em pintura de Charles François Jalabert.

É difícil não lembrar da importância desse dever de acolhimento enunciado na aurora do Ocidente ao ler o artigo de Slavoj Zizek, publicado nesta Folha no último domingo [caderno “Ilustríssima”].

Para criticar a posição “humanitária” que consiste em aceitar todos os refugiados com seus costumes pretensamente arcaicos e contrários aos pouco evidentes “valores europeus”, Zizek parte de uma desconsideração sistemática e deliberada da diferença entre refugiados e imigrantes.

Refugiados são pessoas fugindo de guerras e perseguições pedindo asilo porque o que tinham foi destruído ou confiscado, não são imigrantes procurando sua sorte em países em melhor situação econômica. Eles são o estrato mais vulnerável da população mundial, vendo-se muitas vezes nesse limiar entre a vida e a morte.

Todos os países europeus assinaram acordos claros que os comprometem a recebê-los. Nesse ponto, Habermas foi ao menos mais claro: “O asilo é um direito humano universal”.

No entanto, se hoje um refugiado tiver a infeliz ideia de ir à Dinamarca, ele será acolhido por uma “lei de confisco” que permite ao Estado confiscar seus bens e dinheiro para custear os gastos do governo. Não por acaso, uma prática nazista aplicada sistematicamente contra judeus.

Se ele tentar ir aos EUA, responsáveis diretos por essa situação catastrófica devido à sua intervenção irresponsável no Iraque, ele não será acolhido devido a uma lei criminosa aprovada pelo Congresso americano que o impede de pedir asilo.

O chocante das decisões dinamarquesa e americana não é apenas a lei, mas a ausência de reações ferozes a ela. Zizek prefere outra via e, há meses tem defendido abertamente a “militarização” do problema, ou seja, a criação de uma força militar europeia responsável por triar os refugiados no próprio Oriente Médio, separando o joio do trigo, decidindo, assim, de maneira soberana, quem pode viver e quem deve continuar sob chuva de balas e morrer.

É como dizer: a sorte dessas pessoas não me diz respeito. Pergunto-me se a reação seria a mesma se esses refugiados fossem finlandeses ou australianos, em vez de sírios.

Claro que se pode sempre utilizar o argumento de que os refugiados em questão são muçulmanos que desconhecem nossos pretensos valores de igualdade e tolerância, que entraram em uma espiral de ódio contra o Ocidente e, por isso, deveriam ser antes “educados para a liberdade”.

Slavoj Zizek

Slavoj Zizek

“A difícil lição a tirar disso tudo é que não basta dar voz aos injustiçados do modo como eles estão: para concretizar a emancipação real, eles precisam ser educados – por nós e por eles mesmos – para a liberdade”, foi o que disse Zizek. Como exemplo da necessidade urgente de tal educação, ele usa os ataques e assédios a mulheres perpetrados em Colônia (Alemanha) no Ano-Novo.

No entanto, seria melhor começar por lembrar como, um mês depois dos ataques, a polícia alemã tem 30 suspeitos, sendo 25 argelinos e marroquinos, ou seja, suspeitos que simplesmente não são refugiados (que são sírios, iraquianos e líbios).

Dos outros cinco, não há informações disponíveis. Tais ataques são, infelizmente, uma ação recorrente em várias grandes cidades europeias no Ano-Novo há décadas, são casos de delinquência, de comportamento miserável de grupo que nada tem a ver com o problema dos refugiados.

Pois, se for para falar de machismo e homofobia, é melhor expulsar da Europa boa parte dos próprios europeus e seus líderes políticos, a começar, por exemplo, pelo campeão do machismo rasteiro Silvio Berlusconi.

Temo que essas colocações de Zizek apenas repitam algumas das piores páginas de Hegel, que acreditava que os africanos eram como crianças fora do processo de amadurecimento próprio à história. Tudo se passa como se devêssemos “educá-los” porque eles não têm ideias, apenas afetos como inveja e ódio.

Talvez seria melhor lembrar que ninguém precisa ser educado por um europeu para saber o que significa igualdade e alteridade. Toda sociedade tem uma tendência igualitária e de abertura. Mas às vezes é mais fácil ver, no estrangeiro, uma criança frustrada.

* * * * *

“Cada vez mais próximos de Hitler”

Vladimir Safatle – Folha de SP (12/02/2016)

cms-image-000450982Aqueles que estão a debater sobre a possibilidade ou não de publicar livros de Hitler deveriam voltar sua atenção para um fenômeno que tem modificado radicalmente a natureza do que chamamos até agora de sociedades democráticas.

Do ponto de vista jurídico, o nazifascismo tinha dois pilares fundamentais. O primeiro era a transformação do estado de emergência em modo normal de governo. O segundo era a possibilidade de espoliar legalmente sujeitos de toda sua condição de cidadãos.

Certas constituições preveem a decretação do estado de emergência em situações de guerra, insegurança nacional e catástrofes de várias naturezas. Sob estado de emergência, o governo pode suspender garantias legais, impor censura e tomar decisões por meios que não seriam aceitáveis em situações normais. Assim, o governo assume claramente a posição de poder soberano que está, ao mesmo tempo, dentro e fora da lei. Dentro, porque é o seu fundamento. Fora, porque pode suspendê-la.

Por exemplo, a constituição alemã da República de Weimar tinha o famoso artigo 48, que dava ao presidente do Reich poderes para decretar o estado de emergência em situações nas quais a “segurança e a ordem” estavam seriamente em perigo.

Assim, quando Hitler chegou ao poder, bastou atear fogo no Reichstag, afirmar que o país estava em estado de grave insegurança e governar a Alemanha impondo um estado de emergência que durou 12 anos. Ou seja, e isso deveria nos fazer pensar muito, a constituição da Alemanha nazista continuava sendo a constituição democrática da República de Weimar.

Nesse sentido, Hitler não precisou fazer como nossos militares, que tiveram de dar um golpe de Estado e escrever uma nova constituição em 1966. Ele apenas se serviu das zonas de sombra da democracia. Do ponto de vista meramente jurídico, o Estado nazista era totalmente legal, e este era seu dado mais aterrador.

Bem, nesta semana a Assembleia Nacional francesa aprovou a primeira etapa para a “constitucionalização do Estado de emergência”.

Depois dos ataques terroristas do ano passado e da situação de “grave insegurança”, seu governo apresentou um série de medidas por meio das quais o Estado procura se aproveitar da situação para criar uma suspensão legal da lei por tempo indeterminado. Seu primeiro-ministro já afirmou claramente que o estado de emergência deveria durar até que o Estado Islâmico deixasse de ser uma ameaça.

Mas e se demorar 12 anos para “destruir” o Estado Islâmico? E se depois do EI vier outro grupo, da mesma forma que os próprios vieram depois da Al Qaeda? Não estaríamos atualmente a assistir a uma espécie de autodestruição das democracias parlamentares?

Vejamos a outra lei que foi aprovada. Ela permite ao Estado retirar a nacionalidade de alguém que “cometeu um crime ou um atentado grave à vida da nação”. A princípio, a redação da lei deixava claro que o alvo eram os cidadãos binacionais, ou seja, majoritariamente aqueles que vieram da imigração árabe.

Agora, o alvo está pressuposto. Toda a discussão da lei foi feita a partir dessa distinção entre cidadãos que podem perder sua nacionalidade e outros que não perderão. Não por outra razão, seus opositores recordam que o regime nazista criou leis semelhantes para lembrar que os judeus não eram cidadãos completos e que eles poderiam simplesmente perder sua cidadania.

Uma lei dessa natureza (que está também a ser discutida em outros países, como a Bélgica) é simplesmente criminosa e joga uma pá de cal no resto de democracia que as sociedades liberais eram obrigadas a suportar. Primeiro, ela dá ao Estado o direito de jogar seus cidadãos em uma zona de não direito, desde que o aparato estatal compreenda que houve um “grave atentado contra a vida da nação”.

Aproveitando-se da comoção nacional por um atentado brutal, o Estado francês propõe um lei que não terá efeito algum para lutar contra as causas da insegurança, ou afinal alguém acredita que uma pessoa disposta a fazer um ataque terrorista iria se deixar tocar pela possibilidade de perder sua nacionalidade?

Na verdade, a lei serve apenas para mostrar aos filhos da imigração que eles nunca foram vistos como cidadãos de fato, já que eles podem simplesmente deixar de serem franceses. Ou seja, ela serve para aprofundar o sentimento de exclusão, preconceito e assimetria que é verdadeiro elemento que alimenta radicalizações.

Desta forma, cada vez mais nossas sociedades se assemelham àquilo que elas pareciam querer combater. Assim, a democracia parlamentar será engolida pelas zonas de sombra que ela mesma criou.

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Confira também:

2
Entrevista da Rádio Eldorado com Vladimir Safatle, filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo. Inclui algumas canções escolhidas por Safatle, incluindo Joy Division, Patti Smith e João Bosco. 53 minutos.

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Metrópolis – TV Cultura

No Labirinto Com o Sr. Minotauro

Édipo diante da Esfinge

“Decifra-me ou Devoro-te!” – Édipo diante da Esfinge


“Le labyrinthe dont les dédales ne permettent aucune fuite
et òu la destruction par le minotaure est imminente,
est le but et le destin de celui qui connaît.”

 (KARL JASPERS, Introdução à Filosofia de Nietzsche, Pg. 230)

Qual o destino do homem que busca o conhecimento? Tornar-se-á o saber uma carga, um fardo, um pesadume, ou conseguirá converter-se em prática renovadora, em sabedoria de vida, em alimento para a criação de belas obras? Eis um tema que filósofos poetas e dramaturgos têm explorado com muitas variações em suas obras – é algo que marca presença, por exemplo, no Fausto de Goethe ou no Manfred de Byron.

No mito de Édipo, como este aparece na tragédia grega, em especial nas obras de Sófocles, Nietzsche enxerga um símbolo de um tipo de conhecimento que é a danação daquele que o conquista. Édipo adquire um conhecimento fatal. “Édipo assassino de seu próprio pai, marido de sua mãe, Édipo decifrador do enigma da Esfinge! O que nos diz a misteriosa trindade destes atos fatídicos?” – pergunta Nietzsche (JASPERS: p. 228, 1, 67-68).

EdipoE logo nos pinta o retrato de Édipo como mártir do conhecimento, alguém que foi tão fundo em sua tentativa de compreensão de seu próprio destino, que foi obrigado a desvelar verdades intragáveis e enxergar o horror de seus próprios atos. Édipo fura seus olhos após descobrir a intragável verdade sobre si: eis um símbolo trágico do homem que, em sua curiosidade irrefreável  em busca de solucionar os mistérios da esfinge da existência, acaba por descobrir verdades que podem ser fardos mais pesados do que nossos ombros mortais são capazes de carregar.

A tragédia grega colocaria, pois, sobre o destino humano, esta pergunta (dentre muitas outras): a verdade, se descoberta, se desvelada, será, para seu humano descobridor e desvelador, fonte de benesses ou de desgraças? Este conhecimento fará bem ou acabará por destruí-lo?

Trata-se de pôr em questão o vínculo, que alguns supõem necessário, entre o saber e a felicidade, entre o saber e a virtude, entre o saber e a sabedoria. Nietzsche considera como um credo otimista esta aposta de que o saber possa ser uma panacéia – crença encarnada de modo paradigmático por Sócrates, cuja ética poderia ser resumida à fórmula: “saber = virtude = felicidade”.

Schopenhaeur - Frankfurt - 1845

Arthur Schopenhauer em Frankfurt, 1845

Tendo frequentado os bosques sombrios mas tonificantes da filosofia de Arthur Schopenhauer, Nietzsche lidava com o fenômeno socrático já “vacinado” contra as ilusões em que se enreda o otimismo racionalista. A leitura de Nietzsche nos impregna com a impressão de que não é legítimo afirmar, de forma peremptória, como se fosse fato indubitável, que isto que chamamos verdade, quando descoberta ou possuída, acarretará como consequências necessárias a virtude, a felicidade, a sabedoria. “E se a verdade for triste?”, pergunta Renan. É também uma questão visceralmente nietzschiana!

Suas travessias pelas páginas de O Mundo Como Vontade e Representação capacitaram Nietzsche com uma arguta capacidade de inserir a categoria da vontade em suas tentativas de elucidação dos fenômenos humanos. Não é possível compreender a questão da busca pelo conhecimento separada da questão da vontade – tanto que Nietzsche refletirá, com frequência, destacando que a tentativa de conquistar o saber tem de ser explicada por algo de subjacente: a vontade de verdade seria uma das manifestações da vontade de potência.

Na filosofia nietzschiana encontraremos em ação uma vasta campanha  de desconstrução da noção de “verdade”: aquilo que o Platonismo chama de verdade, por exemplo, não passa, para Nietzsche, da ilusão de um reino transcendente e imutável, morada eterna dos paradigmas que o tempo não corrói. Platão chama de verdade aquilo em que acredita; e acredita possuir a verdade. Que a verdade possa ser possuível é o que Nietzsche nos propõe que questionemos: será que não há uma ilusão envolvida na própria ambição de conquistar uma verdade absoluta e imutável?

A tônica, na filosofia nietzschiana, recai no afeto: a vontade de possuir uma verdade, ou seja, algo que se considera absoluto, imutável, verídico desde sempre e para sempre, não será esta um tanto suspeita? A mente humana tem mesmo uma capacidade que a permita saber com certeza a verdade última sobre as coisas? De certo modo, julgo que Nietzsche referenda muitas das conquistas da Crítica da Razão Pura de Kant, em especial o banho de água fria que o criticismo kantiano lançou sobre as ambições dos filósofos metafísicos ou idealistas de saberem algo de absoluto ou infalível sobre Deus, a Imortalidade da Alma e o Livre-Arbítrio. Nietzsche também julga, como Kant, que sobre isto não há conhecimento possível, não há nenhum porto de certeza infalível onde atracar.

Mas Kant, após impor limites às ambições desmesuradas da razão humana, abriu as portas do fundo para o retorno sorrateiro da fé, ainda que somente postulada pela razão prática; esta não é a senda de Nietzsche. Justamente pois não é possível saber com certeza, diria um kantiano fiel ao seu mestre de Königsberg, é que temos o direito de acreditar; já Nietzsche, ao contrário, põe sob suspeição este suposto direito de ter fé que decorreria – por hipótese – da limitação necessária de nosso intelecto e da incapacidade em que este se encontra de compreender o mistério do céu estrelado, dentre outras esfinges.

Kant confessa que não pôde prescindir de uma lei moral em seu coração; já Nietzsche, um tanto mais ousado (ou deveríamos dizer temerário?), arrisca-se a desconfiar das veneradas confianças tradicionais na correlação ou vínculo necessário entre Verdade e Bem, Verdade e Valor.

“Édipo e Antígona exilados em Tebas”, por Eugene-Ernest Hillemacher (1843)

É por isso que Édipo desponta, para Nietzsche, como figura trágica que, através de seu destino, põe o ponto-de-interrogação crucial: não será possível que certas verdades possam ser um fardo, um peso fatal, um horrendo e insuportável desvelamento? Não existem verdades cuja descoberta é um trauma tamanho para as retinas que exige que furemos depois nossos próprios olhos?

O que a tragédia de Édipo nos conta, em suma, é que “talvez um conhecimento completo traga a ruína” (JASPERS, p. 229, 7, 59). Nietzsche, que elogiava os filósofos do “perigoso talvez”, não esconde que trata-se de uma hipótese, de uma possibilidade, que seu pensamento experimental arrisca-se a colocar. Não se trata de afirmar de modo dogmático que a verdade é terrível e que conhece-la equivale a ser esmagado por um peso insustentável.

Isto não é tudo que a tragédia pode nos fazer pensar sobre a condição humana, nem é este o único ou o menor dos pontos de interrogação que ela nos lança. A convivência íntima que Nietzsche nutriu com a tragédia o capacitou a desestabilizar as crenças costumeiras – presentes, como dissemos, de forma vigorosa, historicamente marcante, na figura de Sócrates – numa benigna conjunção entre conhecer, ser bom e ser feliz.

"Nietzsche" - por Edward Munch

“Nietzsche” – por Edward Munch

A tragédia desestabiliza este otimismo e rasga o tecido destas reconfortantes promessas de happy end. De modo que Nietzsche nos convida, várias vezes, a realizar experimentos de pensamento em que coloca em questão quais as vontades que estão por detrás das crenças apaziguadoras e otimistas. A vontade de verdade pode conduzir a uma ilusão; em outros termos, pode ser ilusório acreditar na possibilidade de possuir uma verdade estável e absoluta sobre as coisas. E pode ser que aqueles que crêem possuir a verdade sejam os mais iludidos de todos, os mais distanciados da verdade por sua presunção de conhece-la…

Bem se sabe que Sócrates também advogava o “sei que nada sei”, gabava-se de sua humildade ao reconhecer sua própria ignorância, enquanto desmascarava a maioria de seus interlocutores como ignorantes que só achavam que sabiam, mas não sabiam de fato, já que lhes faltava o saber de suas próprias insuficiências e lacunas como conhecedores.  Nietzsche, neste ponto em específico, chega a assemelhar-se a Sócrates, por exemplo quando diz que “nenhuma pessoa pode, sem ilusão, acreditar firmemente possuir a verdade.”

Se a filosofia deve ser uma vigilante e sempre recomeçada escola de suspeita, para Nietzsche, é pois há o perigo de tombarmos na ilusão, no engodo, na alucinação, quando nos deixamos enredar na crença de que possuímos a verdade. E sobre a questão: “é permitido sacrificar a humanidade a uma ilusão?”, Nietzsche é categórico em dizer não (JASPERS: p. 229, 12, 410).

Uma exploração minuciosa dos textos que Nietzsche dedica ao cristianismo nos mostraria o quanto desta crítica se baseia na suspeita de que este sacrifício da humanidade por uma ilusão é justamente o que se opera na cultura judaico-cristã. O dionisismo, para Nietzsche, representará uma espécie de antípoda a dois inimigos ou rivais que o filósofo elegeu como seus alvos de crítica: o “socratismo”, que exacerba as tendências apolíneas e racionalistas de modo unilateral e despótico, e o cristianismo, este “platonismo para o povo”, que prega a mortificação perpétua da carne, um silenciamento forçado dos desejos corporais e dos deleites sensuais, em nome da ideia de que a Verdade transcende esta dimensão terrestre onde existimos.

Nietzsche recusará a pretensão de verdade do socratismo, do platonismo, do cristianismo, do positivismo, de quaisquer doutrinas ou seitas que queiram proclamar-se donas de uma verdade certa, indubitável e imorredoura. O filósofo é aquele que, por paixão pelo conhecimento, lança-se à aventura de conhecer – e sem possuir certeza prévia alguma de que tirará proveitos, benefícios e recompensas disso.

É o que Nietzsche nos diz em Aurora:

“Nosso impulso ao conhecimento é demasiado forte para que ainda possamos estimar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e firme ilusão; apenas imaginar esses estados é doloroso para nós! A inquietude de descobrir e solucionar tornou-se tão atraente e imprescindível para nós como o amor infeliz para aquele que ama: o qual ele não trocaria jamais pelo estado de indiferença; – sim, talvez nós também sejamos amantes infelizes! O conhecimento, em nós, transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão sua própria extinção…” (Aurora, aforismo 429, p. 225)

Não se sabe de antemão se a jornada do conhecer conduzirá à virtude, à felicidade, à sabedoria – pode ser que conhecer nos arruíne, nos desgrace, nos preencha com angústia e desassossego! – mas só será um filósofo digno de ser chamado de “espírito livre” aquele que ainda assim se aventurar no labirinto, sem medo de “conhecer o Senhor Minotauro.” (JASPERS: p. 231, 16, 437)

"Teseu e o Minotauro", de Étienne-Jules Ramey (1796-1852).  Escultura de mármore nos Jardins des Tuileries (Paris), 1896.

“Teseu e o Minotauro”, de Étienne-Jules Ramey (1796-1852). Escultura de mármore nos Jardins des Tuileries (Paris), 1896.

to be continued…

Os Relâmpagos da Fatalidade: Reflexões Sobre o Trágico a Partir de Nietzsche & Shakespeare

“Ofélia” – John Everett Millais (1828-1896)

Caros leitores desta goma vítrea,

Segue abaixo um artigo que escrevi na tentativa de ilustrar as reflexões nietzschianas sobre a Tragédia com o auxílio das desgraceiras geniais presentes na obra shakespeareana. Eis um estudo dedicado a todos os inocentes que não escaparam que lhes caísse na cabeça um raio; a todos os que morreram em terremotos e tsunamis; a todas as vítimas de tiranias, e que nada fizeram para merecer uma existência desgraçada… É uma reflexão sobre todo o sofrimento, neste mundo, que não se explica por uma culpa prévia nem é justificável por qualquer raciocínio razoável. Chestóv me convenceu de que o trágico só está nos livros pois faz parte da vida e é parte integrante da história. Este trabalho foi apresentado na XIX Semana de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás), em maio de 2012, na mesa sobre Estética/Filosofia da Arte, e deve muito ao inspirador curso sobre o trágico do Prof. Adriano Correia. Para ler com mais facilidade, sugiro dar um pulo lá no Scribd.

NA NATUREZA SELVAGEM – “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente.” (Krishnamurti)


“…prefiro o céu salpicado de estrelas a um teto,
a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido,
a qualquer estrada pavimentada…”

Última carta de Everett Ruess
(11 de Novembro de 1934)

in:
 Jon Krakauer
 “Na Natureza Selvagem”
(Ed. Cia das Letras, pg. 97)

NA NATUREZA SELVAGEM
Reflexões De Rédeas Soltas

Decerto que há os conformados e que eles formam imensas manadas. Raul Seixas quiçá diria deles: são “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar“. Morrem de medo da chuva. Gente que quer imitar o reino mineral ao invés de assumir o risco de aventurar-se a ser humano, isto é, uma metamorfose ambulante em busca sempiterna de ser-mais.

Há criaturas com propensão para a estagnação e que sonham ser montanha ao invés de rios a fluir. Apegam-se às suas “identidades”, agarrados a um dogma que formaram sobre aquilo que são e devem ser, e seguem pelas vias estreitas de um mundo domado. Seguras em suas fortalezas, detrás de seus muros e grades, protegidos pelo arame farpado ou pelo carro blindado, dizem em suas melancolias, com sorrisos forçados:

“Pois não é verdade que se deve adorar as benesses da civilização? Ó estradas e pontes, edifícios de concreto e fortalezas de metal! Aleluias à riqueza material que nos permite viver no conforto, no Sacrossanto Conforto! Tudo isso não merece ser glorificado, ó Deusa Tecnologia, ó Deidade Engenharia, como algo que nos torna a vida mais fácil e confortável?” Eis a ladainha dos tempos.

Em contraste com esta “roda morta” da “manada dos normais”, como canta Sérgio Sampaio, na contracorrente desta gente adormecida na crença de que a melhor vida é aquela “fácil e confortável”, há uma série de seres humanos bem mais turbulentos, inquietos, inconformados. É a eles que o mundo deve alguns dos maiores exemplos de heroísmo, subversão da ordem, revolução de costumes e obras de arte de impacto.

Alguns restringem seu heroísmo ao “mundo do espírito”: inventam histórias de gente que realiza as proezas que eles nunca fizeram ou farão. Há desses pretendentes à Jack London que ficam, seguros em suas casas, de cachecol diante da lareira, escrevendo sobre aventuras na neve e confrontos com lobos… Mas há outros para quem o único heroísmo que conta é a ação real sobre o palco do planeta. Como não trepidar e não se excitar ao ler a descrição que faz Jon Krakauer, por exemplo, desses humanos intrépidos que ousam encarar a natureza selvagem?

Eles, os born to be wild da canção antológica do Steppenwolf, atravessam a história, audazmente contrahegemônicos. Dinamietzsches, Blakeanos, Tolstoístas, Thoreauastas, Supertramps, Hippies… todos aqueles que preferem o destino de nuvens ciganas e pedras que rolam. São mendigos iluminados, malucos-beleza transbordantes de lucidez, xamãs involuntários de uma sociedade doente. “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”, diz Krishnamurti. Eles concordam.

Buscam estradas heróicas frequentemente sob a influência fascinante de algum herói prévio que idealizam. O heróico para Nietzsche, por exemplo, parece ser uma mescla de Diógenes e Heráclito, Sófocles e Dionísio… um “espírito livre”, desafiador de todas as convenções e convicções aprisionantes, que é sátiro e dançarino, que prefere usar a coroa de flores de Zaratustra à coroa de espinhos de Cristo, que conhece as tragédias mas sabe afirmar a vida, não foge do sofrimento mas aprende com ele, sabe-se descendo a corredeira do Tempo mas medita sobre os ciclos e os retornos…

A figura das montanhas altaneiras, escaladas por um audaz “espírito livre” sem temor de enxergar mais longe e mais fundo do que o comum dos mortais, que suporta com o máximo de júbilo possível o seu fardo de solidão e clarividência, desenha uma auréola de heroísmo em torno de Nietzsche que talvez explique, ao menos em parte, sua “popularidade” póstuma.

O Capitão Nemo, protagonista de Vinte Mil Léguas Submarinas (Júlio Verne), personagem que “foge da civilização e corta todos os laços com a terra”, foi uma das inspirações do andarilho-alpinista infatigável Everett Ruess. Só que, ao invés de descer às profundezas do Oceano, Ruess preferiu lançar-se sem muitos escudos em meio à indomada Natureza. “Duas vezes quase fui morto pelos chifres de um touro selvagem; escapei por pouco de cascavéis e do desmoronamento de rochas; fui atacado por abelhas selvagens e algumas ferroadas a mais poderiam ter sido fatais para mim…”

De relatos de proezas assim está repleto o relato de Everett Ruess que Krakauer reproduz. O que será isso: vontade de fazer disparar no sangue a adrenalina? É ser um junkie de excitações orgânicas? Ou será mero gosto pela bravata? Uma espécie de desejo de auto-glorificação ao buscar experiências de alto risco? Vive-se para vivê-las ou para contá-las?

O caso de Christoppher McCandless é para mim outro fascínio intenso. Muito por causa do impacto do filme Into the Wild – Na Natureza Selvagem, uma das obras que me são mais queridas no cinema deste jovem século. Sean Penn, em sua adaptação cinematográfica do livro-reportagem de Krakauer, soube “heroicizar” a figura de McCandless (vulgo Alexander Supertramp) ao invés de reduzi-lo através da “psico-patologização”.

Em outras palavras: tratou McCandless/Supertramp não como um biruta qualquer, um cara com parafusos a menos, um vicioso “desajustado social”, mas sim revelando tudo que havia de romântico, idealista, rebelde, subversivo, doce e ambíguo neste destino tão heróico – e tão trágico.


DESPOJAMENTO & ABERTURA
Alexander Supertramp rumo à Natureza Selvagem

“Ele se chama Sonho Americano
pois você precisa estar dormindo
para acreditar nele.”

George Carlin

Christopher McCandless, no começo da Década Grunge, era um rapaz de uma abastada família americana de Washington, D.C. Excelente aluno, atleta de elite, tinha um Datsun que adorava e uma poupança pançuda. Ou seja: todos os ingredientes de um futuro “garantido”. McCandless se encontrava no que alguns veriam como uma situação privilegiada “invejável”, pronto para ajustar-se perfeitamente ao Sistemão Norte-Americano.

Ao invés, porém, de seguir obediente nos trilhos do american way e sonhar de olhos abertos, junto com a manada dos normais, o Sonho Americano, McCandless, “no verão de 1990, logo após formar-se com distinção na Universidade, sumiu de vista. Mudou de nome, doou os 24 mil dólares que tinha de poupança a uma instituição de caridade, abandonou seu carro e a maioria de seus pertences, queimou todo o dinheiro que tinha na carteira” (Krakauer, pg. 9).

Até daria para dizer que aí já está presente um certo “elemento Tyler Durden”. Tyler Durden, me parece, é outro dos símbolos da época, de estandartes do zeitgeist, de retrato da nossa disgrama. “As coisas que você possui acabam por te possuir”, diz Brad Pitt a Edward Norton em um momento da obra de David Fincher em que ainda nem suspeitamos que está rolando uma alucinada conversação entre um funcionário do mundo corporativo e seu amigo-imaginário, Tyler Durden, o subversivo, o terrorista, o incendiário. Conforme a civilização nos EUA foi degringolando para um anarco-capitalismo cada vez mais irracional em sua fome de lucros e em sua ideologia kitsch em prol do Conforto, mais e mais pipocaram rebeldias, terrorismos, contra-culturas – e heroísmos.

Não se trata, porém, de “idealizar” o heroísmo, dizer que ele é a solução para o planeta e lançar toda uma carga positiva pra cima da idéia de um estilo-de-vida heróico. Com certeza muitos crimes e injustiças podem ser cometidos por gente que acredita estar agindo “heroicamente”. Reflitamos um pouco no fato de que, na perspectiva dos sujeitos que realizaram o Atentado do 11 de Setembro, eles estavam cometendo um ato de heroísmo religioso, um digníssimo e elogiável martírio (sem dúvida comemorado por muitos em Kabul ou Bagdá como se comemora, no Brasil, uma vitória na Copa do Mundo…).

Derrubar um dos símbolos da arrogância capitalista da América, trazer abaixo o Templo onde os ímpios, esquecidos de Deus, cultuam o Bezerro de Ouro, tudo isso representava “missão”, “destino”, possibilidade de ascensão ao Paraíso. Enfim: Alá aprova e glorifica os que destroem a mundana ganância cega da América…

 Porém, não é este o único meio – explodir prédios comerciais com aviões sequestrados numa hecatombe de milhares de mortos – para protestar contra o sistema econômico-político. Chris McCandless é uma figura tão instrutiva pois ele procura escapar das garras deste Capitalismo Neo-Liberal Ecocida que está aí por outras vias: segue o exemplo de Tolstói, Thoreau e Jack London, buscando a independência em relação às obsessões consumistas e às neuroses urbanas de que estão repletas as nossas metrópoles e os nossos subúrbios.

Inteligente, bem-informado, sensível aos problemas alheios, mesmo aqueles de países distantes, McCandless é um desses que desperta para o fato óbvio de que o Capitalismo não está funcionando, que gera concentração imensa de capital nas mãos de pouca gente, gerando efeitos colaterais terríveis em termos de fome, miséria, doença, poluição, destruição ambiental – em suma: o Capitalismo é a desgraça de bilhões, ainda que seja a maravilha de alguns. No planeta Capitalista, é “normal” que 2 bilhões morram de fome para que uns 2 mil possam ter seus palácios, mansões e carrões onde possam sofrer de indigestão e obesidade.

McCandless, impregnado por um ideário ético que valoriza o vivenciar e não o possuir, o despojamento ao invés do conforto, a abertura de consciência contra o auto-aprisionamento em convenções, doa tudo o que tem para ajudar os necessitados – a Oxfoam recebe 100% de sua poupança – e parte para a aventura de ser um SuperMendigo, cuca-fresca e cabeça-aberta, que sabe que neste mundo, de onde nada se leva, quem perde o teto em troca ganha as estrelas.

Vade retro, Superman!!!

PREFERINDO O DIFÍCIL

“Eu queria movimento e não um curso calmo de existência.
Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor.
Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranquila.” 

Léon Tolstói
Felicidade Conjugal”
Trecho sublimado em um dos livros encontrados com o cadáver de Chris McCandless

 

Eddie Vedder, nas canções que compôs e cantou sobre a inspiradora figura de Chris McCandless, destaca com frequência o fato de Alex Supertramp ter nascido de um desejo de sumir, desaparecer, vazar: ir pra bem longe da “sociedade” como a conhecia. “Society, you’re a crazy breed… hope you’re not lonely without me…” 

Estamos falando, é claro, daquela sociedade yuppie dos EUA, que celebrizou-se por criações como Walt Disney, Hollywood, McDonalds, Mickey Mouse, Tio Patinhas… As crianças que crescem sob tais influências sonham desde o berço em possuir a beleza de Barbies, ainda que a custo de plásticas, lipos e anorexias; obcecam com viagens maravilhosas à Disneylândia; com um imenso apetite por milk-shakes, marshmallows e Big Macs… O “ideal de vida” que por lá é vendido convida a todos a perceber a felicidade exatamente igual à maneira como um pato imbecil a concebia: aspirantes a Tios Patinhas, eles têm fantasias colonizadas pelo sonho de um dia nadarem em uma imensa piscina de moedinhas de ouro – e 18 quilates!…

“It’s a mystery to me:  we have a greed with which we have agreed. You think you have to want more than you need. Until you have it all you won’t be free.” Em três versos riquíssimos (das riquezas que contam, do “ouro de dentro”, como diria Hilda Hilst), Vedder sintetiza a ópera: há um acordo tácito em relação à ganância; todos pensam que precisam ter mais e mais, esquecidos de suas verdadeiras necessidades; e é crença geral que só existe liberdade no possuir, no “have it all”. Uma imensa catarata sobre os olhos de milhões causa essa miopia epidêmica: só conseguir imaginar a felicidade sob a perspectiva do consumo e da posse. “Para ser feliz, é preciso comprar e comprar, possuir e possuir!” – assim prossegue a ladainha dos tempos…

Jon Krakauer insiste, em vários pontos de seu livro, no fato de Chris McCandless ser uma pessoa “extremamente ética” que “se impunha padrões bastante elevados” (pg. 30) e com “traços de idealismo obstinado que não combinavam facilmente com a existência moderna” (pg. 10). Krakauer relembra-nos com recorrência do culto que McCandless prestava ao escritor russo Tolstói: caroneiro atravessando milhares de quilômetros da América que está fora dos cartões-postais, McCandless costumava recomendar a seus companheiros de jornada a leitura de Guerra e Paz.

 Entre a dúzia de livros encontrados junto a seu cadáver no busão abandonado no Alasca, estavam livros de Tolstói e Thoreau, duas figuras que ele parecia enxergar como “paradigmas” éticos, modelos a serem imitados, “sábios” à cuja aprovação ele aspirava. “Cativado há muito tempo pela leitura de Tolstoi, admirava em particular como o grande romancista tinha abandonado uma vida de riqueza e privilégios para vagar entre os miseráveis” (pg. 10). Krakauer conta também dos cursos que McCandless frequentou sobre o problema racial na África do Sul do apartheid, de seu veemente interesse e preocupação em relação ao problema da fome no mundo e sua “intensa aversão ao governo” (pg. 204).


“Não é nada incomum para um homem jovem ser atraído para uma atividade considerada imprudente pelos mais velhos; o comportamento de risco é um rito de passagem em nossa cultura. O perigo sempre exerceu um certo fascínio. É em larga medida por isso que muitos adolescentes dirigem depressa demais, bebem demais e tomam drogas demais, e que sempre foi fácil para as nações recrutar jovens para a guerra. […] Chris McCandless  tinha necessidade de se testar em questões, como gostava de dizer, “que importavam”. Possuía grandiosas ambições espirituais. Conforme o absolutismo moral que caracterizava as crenças de McCandless, um desafio em que o sucesso está garantido não é desafio nenhum. […] O significado que ele tirava da existência estava longe do caminho confortável: ele não confiava no valor das coisas que vêm facilmente.”

JON KRAKAUER (pg. 192)

Alexander Supertramp, que tem nome de imperador mas aspirações a “mendigo iluminado”, é a encarnação de uma prática rebelde em relação ao estilo-de-vida dominante. Decerto que existem muitos exemplos na História de homens ricos que renunciam à sua fortuna: é uma estória tão velha quanto… Buda. Não se conta que Sidarta Gautama também abdicou de todo o luxo do palácio para se procurar a iluminação em andrajos pelos campos e debaixo de árvores?

McCandless é um dos poucos norte-americanos que, tomando consciência mais plena dos rumos de sua pátria, decide pular do barco, procurar uma via própria, longe das estradas pavimentadas. O dinheiro não lhe interessa – não mais. Uma vida fácil e confortável, rodeada de consumos e simulacros, lhe enoja. Prefere estar ao ar livre, sujando as botas na lama dos caminhos que ainda não foram trilhados, escalando montanhas rumo a cumes por poucos pisados. Não quer manter a Natureza à uma distância segura, só saber dela através dos livros ou dos vidros. Quer sentir a brisa na face e dormir sob um céu salpicado de indecifráveis estrelas.

A facilidade é insossa, a busca por conforto é neurótica, a AmériKKKa está louca! E é assim que Chris McCandless larga tudo, aventura-se na Natureza Selvagem, como se seguisse o conselho que Rilke deu ao Jovem Poeta: “Prefira sempre o difícil; desse modo, sua vida não cessará de expandir-se.”

 

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

“Os mortos retornam ao seio da terra-mãe na esperança de participar da sorte das sementes.” (Mircea Eliade, 1907-1986)

MIRCEA ELIADE
História das Crenças e das Ideias Religiosas
(Volume 1 – Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis)

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A IDADE DA PEDRA E O SENHOR DAS FERAS

O homem é o produto final de uma decisão tomada “no começo do tempo”: a de matar para poder viver. Os homínidas conseguiram superar os seus ancestrais transformando-se em carnívoros. Durante 2 milhões de anos, os paleantropídeos viveram da caça. […] A “solidariedade mística” entre o caçador e suas presas é revelada pelo próprio ato de matar; o sangue derramado é em todos os aspectos semelhante ao sangue humano. […] As primeiras indicações arqueológicas referentes ao universo religioso do caçador paleolítico remontam a 30.000 antes de Cristo. […] Os caçadores primitivos consideram que os animais são semelhantes aos homens; que o homem pode transformar-se em animal e vice-versa; que as almas dos mortos podem penetrar nos animais. […] A matança do animal constitui um ritual, o que implica a crença de que o senhor das feras zela para que o caçador só mate aquilo de que necessita para se alimentar e para que o alimento não seja desperdiçado. […] Foram descobertas ossadas de ursos em cavernas dos Alpes, por exemplo. […] Um culto baseava-se na conservação do crânio e dos ossos largos do urso abatido para que o senhor das feras possa ressuscitá-lo no ano seguinte. […] Crânios e ossos longos são conservados ou como oferendas a um ser supremo/senhor das feras, ou são conservados porque existe a esperança de que serão recobertos de carne… (Cap. 2-3)

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A AGRICULTURA E A FEMINILIDADE SAGRADA

“A primeira – e talvez a mais importante – consequência da descoberta da agricultura provoca uma crise nos valores dos caçadores paleolíticos: as relações de ordem religiosa com o mundo animal são suplantadas pelo que podemos chamar de solidariedade mística entre o homem e a vegetação. […] A mulher e a sacralidade feminina são promovidas ao primeiro plano. […] A fertilidade da terra é solidária com a fecundidade feminina: consequentemente, as mulheres tornam-se responsáveis pela abundância das colheitas pois são elas que conhecem o “mistério” da criação. […] Durante milênios, a terra-mãe dava à luz sozinha, por partenogênese. A lembrança desse “mistério” sobrevivia ainda na mitologia olímpica: Hera concebe sozinha e dá à luz Hefesto e Ares. […] Nascido da terra, o homem, ao morrer, retorna à sua mãe. […] Um simbolismo complexo, de estrutura antropocósmica, associa a mulher e a sexualidade aos ritmos lunares, à Terra (associada ao útero) e àquilo que devemos chamar o “mistério” da vegetação. Mistério que reclama a “morte” da semente a fim de assegurar-lhe um novo nascimento, tanto mais maravilhoso quanto se traduz por uma espantosa multiplicação. (Cap. 12)

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O EGITO CULTUA O SOL… E O FARAÓ.

Pode-se dizer que o Egito era constituído por uma massa rural dirigida pelos representantes de um deus encarnado, o faraó. […] Durante mais de 3 milênios, os faraós foram coroados em Mênfis. […] Como o faraó era imortal, sua morte significa somente sua transladação ao Céu. […] Esse ‘imobilismo’ que caracteriza a civilização egípcia, a fixidez das formas hieráticas e a repetição das gestas e façanhas efetuadas na aurora dos tempos são a consequência lógica de uma teologia que considerava a ordem cósmica uma obra essencialmente divina, e via em toda mudança o risco de uma regressão ao caos e, por consequinte, o triunfo das forças demoníacas.” […] A tendência era para manter intacta a primeira Criação, pois era perfeita… a idade de ouro da perfeição absoluta, “antes que a raiva, ou o barulho, a luta ou a desordem fizessem seu aparecimento”. Não havia morte nem doença durante essa era maravilhosa denominada “o tempo de Ré”, ou de Osíris, ou de Horus.

Os egípcios acreditavam que os homens nasceram das lágrimas do deus solar Ré. O deus-Sol fez o ar para vivificar-lhes as narinas… para eles fez a vegetação e os animais, as aves e os peixes, a fim de alimentá-los. […] Depois da morte, as almas iam encontrar as estrelas e compartilhavam a eternidade delas. Uma vez que o Céu era imaginado como uma deusa-mãe, a morte equivalia a um novo nascimento, ou seja, a um renascimento no mundo sideral…

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A REFORMA DE AKHENATON E O PRIMEIRO MONOTEÍSMO SOLAR

O faraó Akhenathon (cerca de 1375 a.C.), pela vontade de libertar-se do domíno do sumo sacerdote, abandonou a velha capital, Tebas, e construiu outra 500 km mais ao norte, a que chamou Akhenaton, onde ergueu palácios e templos para Aton, o disco solar, única divindade suprema. Os santuários de Aton não eram cobertos, não tinham teto: podia-se adorar o Sol em toda a sua glória. Esse faraó raquítico e quase disforme, que morreria muito jovem, descobrira o sentido religioso da “alegria de viver”, a felicidade de desfrutar a Criação inesgotável de Aton, fonte universal de vida. O essencial da teologia de Akhenaton encontra-se em dois hinos que dizem que o Sol é “o começo da vida”, os seus raios “beijam todos os países”. “Embora estejas muito distante, teus raios estão sobre a Terra…”

A prece encontrada no sarcófago de Akhenaton continha estas linhas: “Vou respirar o doce hálito da tua boca. A cada dia, vou contemplar tua beleza. Chama o meu nome no decorrer da eternidade: ele jamais faltará a teu apelo!” O curso do Sol representa o modelo exemplar do destino humano: passagem de um modo de ser a outro, da vida à morte e, depois, a um novo nascimento. (Capítulos 32-33)

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A PEDRA E A BANANA (MITO INDONÉSIO)

Não podemos deixar de recordar um mito indonésio: no começo, quando o Céu estava muito próximo da Terra, Deus recompensava o casal primordial com presentes suspensos à extremidade de uma corda. Um dia, enviou-lhes uma pedra, mas nossos ancestrais, surpreendidos e indignados, a recusaram. Depois de algum tempo, Deus desceu novamente a corda; desta vez, com uma banana, que foi prontamente aceita. Então se fez ouvir a voz do criador: “Já que escolhestes a banana, vossa vida será como a vida desse fruto. Se tivésseis escolhido a pedra, ela teria sido como a existência da pedra, imutável e imortal.”

Como vimos, a descoberta da agricultura mudou radicalmente a concepção da existência humana: ela se revelava tão frágil e efêmera quanto a vida das plantas. Mas, por outro lado, o homem compartilhava o destino cíclico da vegetação. […] Os mortos retornam ao seio da terra-mãe, na esperança de participar da sorte das sementes.

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JAVÉ, ABRAÃO E O DESPERTAR DO FANATISMO

O primeiro artigo do Decálogo, “Não terás outros deuses diante de mim!”, demonstra que não se trata de monoteísmo no sentido estrito do termo. A existência de outros deuses não é negada. Pede-se, porém, a fidelidade absoluta. E a luta contra os falsos deuses começa…

Pois Javé é imaginado como só e único. Devemos ver outro traço antropomorfo no fato de ele solicitar aos fiéis uma obediência absoluta, como um déspota oriental? A intolerância e o fanatismo, característicos dos profetas e dos missionários dos três monoteísmos, têm seu modelo e justificativa no exemplo de Javé. […] Sua raiva revela-se às vezes de tal maneira irracional que se pôde falar no “demonismo” de Javé. […] Trata-se de uma nova expressão, e a mais impressionante, da deidade como absolutamente distinta da Criação…

O 12º capítulo do Gênese nos introduz em um mundo religioso novo. Javé [Jehovah] diz a Abraão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, vai para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome… Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.”

[…] A concepção religiosa implícita na “eleição” de Abraão prolonga crenças e costumes familiares no Oriente Próximo do segundo milênio. […] A fé abraâmica se tornará com o tempo a experiência religiosa específica do judaísmo e do cristianismo.

No Gênese, apenas um sacrifício – o de Isaac (22:1-19) é minuciosamente descrito. Deus pedira a Abraão que lhe oferecesse o filho em holocausto… Abraão sentia-se ligado a seu Deus pela “fé”. Não compreendia o sentido do ato que Deus acabava de lhe solicitar, mas de modo algum duvidava da santidade, da perfeição e da onipotência de seu Deus. Por conseguinte, se o ato prescrito tinha todas as aparências de um infanticídio, era pela impotência da compreensão humana…

E a guerra realizada em seu nome era uma guerra santa…

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A ÍNDIA VÉDICA E A BEBIDA SAGRADA SOMA

…nenhuma tradição religiosa se prolonga indefinidamente sem modificações, produzidas seja por novas criações espirituais, seja por empréstimo, simbiose ou eliminação.

Os indianos védicos praticavam a agricultura, mas sua economia era sobretudo pastoril. O gado desempenhava a função de moeda. […] O ferro só começou a ser utilizado por volta de ~1500. Os hinos revelam que os indianos da época védica apreciam a música e a dança: tocam flauta, alaúde e harpa. Apreciam as bebidas embriagantes, soma e surâ. […] No Rig Veda, Indra é o mais popular dos deuses. Cerca de 250 hinos lhe são consagrados. Indra é o herói por excelência, modelo exemplar dos guerreiros, demiurgo e fecundador, personificação da exuberância da vida, da energia cósmica e biológica. Infatigável consumidor de soma, arquétipo das forças genesíacas, ele desencadeia os furacões, derrama as chuvas e comanda todas as umidades. O mito central de Indra é o mais importante mito do Rig Veda: narra seu combate vitorioso contra Vrtra, dragão gigantesco que retinha as águas no “oco da montanha”. Fortificado pelo soma, Indra parte-lhe a cabeça e liberta as águas. O combate de um deus contra um monstro ofídio ou marinho constitui, como se sabe, um tema mítico bastante difundido… (Cap. 68)

A bebida sagrada soma provavelmente substituiu a bebida indo-européia madhu, o “hidromel”. Todas as virtudes do soma são solidárias da experiência extática ocasionada pela sua absorção. “Bebemos o soma”, lê-se num hino célebre, “e nos tornamos imortais”. Implora-se ao soma que prolongue “o nosso tempo de vida” pois ele é “o guardião de nosso corpo”. […] O soma estimula o pensamento, reanima a coragem do guerreiro, aumenta o vigor sexual, cura as enfermidades. Bebido em comum pelos sacerdotes e pelos deuses (ele é o amigo de Indra…), ele aproxima a Terra do Céu, reforça e prolonga a vida, garante a fecundidade. Na verdade, a experiência extática revela ao mesmo tempo a plenitude vital, o sentido de uma liberdade sem limites, a posse de forças físicas e espirituais apenas suspeitadas. […] A revelação de uma existência plena e beatífica, em comunhão com os deuses, continuou a obsedar a espiritualidade indiana muito tempo depois do desaparecimento da bebida original. Procurou-se, pois, alcançar tal existência com auxílio de outros meios: a ascese, os excessos orgíacos, a meditação, as técnicas da ioga, a devoção mística…” (Cap. 70)

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OS GREGOS E O MITO DAS PRIMEIRAS RAÇAS: CRONOS, PROMETEU & PANDORA…

Segundo Hesíodo (em Os Trabalhos e os Dias), houve cinco raças de homens: as raças de ouro, de prata e de bronze, a raça dos heróis e a raça de ferro. Ora, a primeira raça vivia sob o reinado de Cronos, ou seja, antes de Zeus. Essa humanidade da idade de ouro, exclusivamente masculina, vivia perto dos deuses, “com o coração isento de cuidados, a salvo de dores e misérias” (Teogonia, 112s.). Não trabalhavam, pois o solo lhes oferecia tudo aquilo de que necessitavam. A vida transcorria-lhes em meio a danças, festas e divertimentos variados. Não conheciam a doença nem a velhice. Essa época paradisíaca – da qual encontramos paralelos em numerosas tradições – terminou com a queda de Cronos. […] O mito da “perfeição dos primeiros tempos” e da felicidade primordial, perdidos em consequência de um acidente ou de um “pecado”, é bastante difundido.

Prometeu trouxe o fogo do céu. Enervado, Zeus decidiu punir de uma só vez os homens e seu protetor. Prometeu foi acorrentado e uma águia passou a devorar-lhe, todos os dias, o “fígado imortal”, que se recompunha durante a noite. Um dia ele será libertado por Héracles, filho de Zeus, a fim de que a glória do herói aumente ainda mais. Quanto aos seres humanos, Zeus enviou-lhes a mulher, essa “bela calamidade” (Teogonia, 585), sob a forma de Pandora, “armadilha profunda e sem saída destinada aos homens, tal como a denuncia Hesíodo, “pois foi dela que proveio a raça, a corja perniciosa das mulheres, terrível flagelo instalado entre os homens mortais…” (Teogonia, 592s).

Em suma, longe de ser um benfeitor da humanidade, Prometeu é o responsável pela sua atual decadência. Ao furtar o fogo, irritou Zeus, suscitando assim a intervenção de Pandora, isto é, o aparecimento da mulher e, por conseguinte, a propagação de todas as espécies de tormentos, atribulações e infortúnios. Para Hesíodo, o mito de Prometeu explica a irrupção do “mal” no mundo; em última análise, o “mal” representa a vingança de Zeus. Para Ésquilo, que substitui o mito da idade de ouro primordial pelo tema do progresso, Prometeu é o maior herói-civilizador. Foi Prometeu quem ensinou aos homens todos os ofícios e todas as ciências. […] Só Prometeu ousou opor-se ao plano do senhor do mundo. […] Na Atenas do século V, Prometeu já tinha sua festa anual…

O gesto de Prometeu, crime de lesa-majestade contra Zeus, o deus supremo, representa um titã que toma o partido dos homens contra os olímpicos. […] Zeus não toleraria uma humanidade poderosa e altiva. […] Se Ésquilo, por um lado, exaltara a grandeza ímpar desse herói-civilizador, protetor dos homens, por outro lado também ilustrara a benevolência de Zeus e o valor espiritual da reconciliação final, elevado a modelo exemplar da sabedoria humana. Prometeu só recuperará sua estatura sublime – vítima eterna da tirania – com o Romantismo europeu. (Capítulos 85-86)

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OS GREGOS E O DESTINO (MOÎRA)

Julgada na perspectiva judaico-cristã, a religião grega parece constituir-se sob o signo do pessimismo: a existência humana é, por definição, efêmera e sobrecarregada de preocupações. Homero compara o homem com as “folhas que o vento lança por terra” (Ilíada, VI, 146s.). A comparação é retomada pelo poeta Mimnermo de Cólofon (século VII a.C.) em sua longa enumeração dos males: pobreza, doenças, mortes, velhice etc. “Não existe um único homem a quem Zeus não envie mil males”. Para seu contemporâneo Simônides, os homens são “criaturas de um dia”, que vivem como o gado, “sem saberem porque caminho Deus conduzirá cada um de nós ao seu destino”. […] Teógnis, Píndaro e Sófocles proclamam que a maior ventura para os homens seria não nascer, ou, tendo nascido, morrer o mais cedo possível.

A morte, porém, nada resolve, já que não traz a extinção total e definitiva. Para os contemporâneos de Homero, a morte era uma pós-existência diminuída e humilhante nas trevas subterrâneas do Hades. […] O bem realizado na Terra não era recompensado, e o mal não sofria punição. Os únicos condenados às torturas eternas eram Íxion, Tântalo e Sísifo, porque tinham ofendido Zeus em pessoa.

Essa concepção pessimista impôs-se irremediavelmente quando o grego tomou consciência da precariedade da condição humana. […] Ele não tem a ousadia de esperar que suas preces possam estabelecer certa “intimidade” com os deuses. Por outro lado, sabe que sua vida já está decidida pelo destino (moîra) e que é o próprio Zeus quem determina as sortes.

O próprio Zeus reconhece a supremacia da justiça (díkê), que nada mais é que a manifestação concreta, na sociedade humana, da ordem universal. […] O primeiro dever do homem é ser justo e demonstrar “honra, consideração” com relação aos deuses. […] Em suma, os deuses não ferem os homens sem motivo, enquanto os mortais não transgridem os limites prescritos. Porém, é difícil não transgredir os limites impostos, pois o ideal do homem é a aretê, a “excelência”. Ora, uma excelência excessiva corre o risco de suscitar o orgulho desmedido e a insolência (húbris). Foi o que sucedeu a Ajax… A húbris provoca uma loucura temporária que “cega” a vítima e a leva ao desastre.

A sabedoria começa com a consciência da finitude e da precariedade de qualquer vida humana. Trata-se, pois, de aproveitar tudo aquilo que o presente pode oferecer: juventude, saúde, alegrias físicas ou oportunidades de exercer as virtudes. É a lição de Homero: viver totalmente, mas com nobreza, no presente.

Esse “ideal” surgido do desespero nunca se apagou. Em vez de inibir as forças criativas do gênio religioso grego, essa visão trágica conduziu a uma revalorização paradoxal da condição humana. […] O homem redescobriu o sentido religioso da “alegria de viver”, o valor sacramental da experiência erótica e da beleza do corpo humano, a função religiosa de todo júbilo coletivo organizado – procissões, jogos, danças, cantos, competições esportivas, espetáculos, banquetes etc.

É sobretudo a valorização religiosa do PRESENTE que importa destacar. O simples fato de existir, de viver no tempo, pode encerrar uma dimensão religiosa. A “alegria de viver” descoberta pelos gregos não é um gozo de tipo profano: ela revela a satisfação de existir, de participar – mesmo de maneira fugidia – da espontaneidade da vida e da majestade do mundo. Como tantos outros antes e depois deles, os gregos aprenderam que o meio mais seguro de escapar do tempo é explorar as riquezas, à primeira vista insuspeitáveis, do instante vivido.” (Capítulo 87)

(Capítulo 87: O homem e o destino. Sentido da “alegria de viver”)

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A SER CONTINUADO…

Cenas dos próximos capítulos: ZARATUSTRA, DIONÍSIO e OS MISTÉRIOS DE ELÊUSIS

:: Inocentes Que Não Escapam dos Raios ::

A TRAGÉDIA SHAKESPEAREANA
SOB UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA


“Há inocentes que não escapam
que lhes caia um raio na cabeça.”

WILLIAM SHAKESPEARE
(Antônio e Cleópatra)

(Para referências bibliográficas,
acesse o trabalho no Scribd)

           

              I.       A TRAGÉDIA GREGA NA PERSPECTIVA NIETZCHIANA

             Nietzsche, filósofo que iniciou sua carreira na área da filologia, tornando-se mestre na arte de interpretar os textos clássicos da Antiguidade greco-romana, demonstra já em suas primeiras obras um rico e extenso conhecimento sobre a produção cultural da civilização grega. Provam-no sua obra dedicada aos filósofos pré-socráticos, A Filosofia Na Era Trágica dos Gregos, onde discute as concepções de Demócrito, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, dentre outros, e O Nascimento da Tragédia, em que reflete sobre a história da cultura grega tendo como fio condutor a transformação histórica que gerou, após o período homérico, a tragédia ática de Ésquilo e Sófocles, especulando como esta foi posteriormente “assassinada” pela ascensão da filosofia de Sócrates e seu arauto na dramaturgia, Eurípides.

             O Nascimento da Tragédia é um livro de juventude, cujas ideias surgiram sob a influência  intensa de Schopenhauer e Wagner, escrito em estilo intempestivo e repleto daquela “tempestade e  ímpeto” [Sturm und Drang] que era então  lema dos românticos. Nesta obra, Nietzsche ousa “ver a ciência com a óptica do artista, mas a arte, com a da vida…” [1] Um dos mistérios que o filósofo se dedica a aclarar é o seguinte: “a mais bem-sucedida, a mais bela, a mais invejada espécie de gente até agora, a que mais seduziu para o viver, os gregos – mas como? Precisamente eles tiveram necessidade da tragédia? Mais ainda – da arte?”[2]

             Segundo Nietzsche, a tragédia grega representaria uma síntese entre dois princípios adversários, batizados em homenagem aos dois deuses da arte no panteão helênico, Apolo e Dioniso. Haveria um “extraordinário antagonismo, tanto de origem como dos fins, que subsiste no mundo grego entre a arte plástica, a apolínea, e a arte não-plástica da música, aquela de Dioniso”[3]. Do casamento entre estes princípios aparentemente irreconciliáveis, e que segundo Nietzsche estabelecem sua primeira aliança com o advento da tragédia ática, surge esta notável obra-de-arte mesclada e inédita: a tragédia musical grega, a um só tempo apolínea e dionisíaca.

             O apolíneo, que representaria uma “divinização do princípio de individuação” (de que tanto fala Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Representação), preza pela conservação da individualidade, da razão, da medida, da moral. “Apolo nos aparece como a divinização do principium individuationis”, escreve Nietzsche:

            “Essa divinização da individuação, particularmente se for considerada como imperativa e prescritiva, não conhece senão uma única lei, o indivíduo, isto é, a manutenção dos limites da personalidade, a medida, no sentido helênico. Apolo, como divindade ética, exige dos seus a medida e, para poder conservá-la, o conhecimento de si. E assim, à necessidade estética da beleza vem se juntar a disciplina desses preceitos: ‘Conhece-te a ti mesmo!’ e ‘Nada em demasia!’ – enquanto a autopresunção e o exagero são os demônios hostis da esfera não-apolínea e, nessa qualidade, pertencem realmente ao tempo pré-apolíneo, à época dos Titãs e do mundo extra-apolíneo, isto é, ao mundo bárbaro. Por causa de seu amor titânico pelos homens, Prometeu acabou sendo dilacerado pelo abutre; por causa de seu excessivo saber que o levou a decifrar o enigma da esfinge, Édipo foi arrastado num turbilhão inextricável de monstruosos crimes: é assim que o deus de Delfos interpretava o passado grego.”

             Já o princípio dionisíaco é responsável pela “abolição do eu” típica dos estados de embriaguez ou êxtase místico, estado aparentado àquilo que Romain Rolland, num conceito que tornar-se-ia caro a Freud, chamava de “sentimento oceânico”. O apolíneo fala em prol do Eu; o dionisíaco, em prol da dissolução do Eu no todo. O apolíneo é “socrático”, racionalista, sensato; o dionisíaco é “pagão”, sensualista, desmesurado. No templo de Apolo, os estandartes são o “Conhece-te a ti mesmo!” e o “Nada em Demasia!”; já o deus Dioniso, apesar de não ter templo fixo (os rituais em sua homenagem são celebrados nos carnavais, nas festas, nas danças, nas orgias…), sugere a seu entusiasta algo como: “Dissolve teu Eu naquilo é maior que Ti!” e “Embriague-se até esquecer-se de si mesmo!” Nos rituais dionisíacos gregos, sugere Nietzsche, “era como se a natureza soluçasse por seu despedaçamento em indivíduos” e como se quisesse reunificá-la misticamente (“…sob o grito de júbilo místico de Dionísio, é rompido o feitiço da individuação e fica franqueado o caminho para as Mães do Ser, para o cerne mais íntimo das coisas…”[4]).

 “Seja por influência da beberagem narcótica, da qual todos os povos e homens primitivos falam em seus hinos, ou com a poderosa aproximação da primavera a impregnar toda a natureza de alegria, despertam aqueles transportes dionisíacos por cuja intensificação o subjetivo se desvanece em completo auto-esquecimento.” (…) “Sob a magia do dionisíaco torna a selar-se não apenas o laço de pessoa a pessoa, mas também a natureza alheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem.” (…) “Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente não só unificado, conciliado, fundido com seu próximo, mas um só, como se o véu de Maia tivesse se rasgado e, reduzido a tirar, esvoaçasse diante do misterioso Uno-primordial”[5].

              II. O SOCRATISMO E A MORTE DA TRAGÉDIA

             Desta aliança apolínea-dionisíaca teriam surgido as mais clássicas das tragédias de Ésquilo (Prometeu Acorrentado) e Sófoles (Édipo Rei, Antígona). Mas se perguntássemos a Nietzsche quem foi que matou a tragédia, ele apontaria um dedo indicador acusatório ao homem que Atenas condenou a beber a cicuta: Sócrates. “Em Sócrates, se materializou um dos aspectos do helenismo, aquela claridade apolínea, sem mescla de nada estranho”[6]. É com ele que uma “tendência antidionisíaca” irá “ganhar uma expressão inauditamente grandiosa”[7]. Este “lógico despótico”, este “mistagogo da ciência”, que não gostava das tragédias e dissuadia seus dissípulos de frequentar peças trágicas, foi o carrasco da arte que tinham criado Sófocles e Ésquilo. “Basta imaginar as consequências das máximas socráticas: ‘Virtude é saber; só se peca por ignorância; o virtuoso é o mais feliz’; nessas três fórmulas básicas jaz a morte da tragédia…”, aponta Nietzsche[8]. Em contraste com isto, “a tragédia, que surgiu da profunda fonte da compaixão, é pessimista por essência. A existência é nela algo de extremamente horrível e o ser humano algo realmente insensato. O herói da tragédia não fica em evidência, como pensa a estética moderna, na luta com o destino – e tampouco sofre o que merece. Pelo contrário, precipita-se em sua desgraça cegamente e de olhos vendados.[9]

             “Sócrates é o protótipo do otimista teórico”, escreve Nieztsche. Ele possui “fé na escrutabilidade da natureza das coisas” e “atribui ao saber e ao conhecimento a força de uma medicina universal”, percebendo “no erro o mal em si mesmo”[10]. Sócrates, pois, é o primeiro “homem teórico”, o precursor ancestral da ciência, tida por Nietzsche como “a oposição mais ilustre à consideração trágica do mundo”:“Todo o nosso mundo moderno está preso na rede da cultura alexandrina e reconhece como ideal o homem teórico, equipado com as mais altas forças cognitivas, que trabalha a serviço da ciência, cujo protótipo e tronco ancestral é Sócrates. Todos os nossos meios educativos têm originariamente esse ideal em vista…”[11]

             Com o socratismo vem ao mundo “uma profunda representação ilusória”: a “inabalável fé de que o pensar, pelo fio condutor da causalidade, atinge até os abismos mais profundos do ser e que o pensar está em condições, não só de conhecê-lo, mas inclusive de corrigi-lo…”. Atitude esta que Nieztsche não poupa de rotular como uma “sublime ilusão metafísica”[12]. Pois há aquilo que a ciência não explica, aquilo que a assombra, aquilo que derruba sua fé em si mesma. Pois todo homem de ciência acaba por “tropeçar, e de modo inevitável, em tais pontos fronteiriços da periferia, onde fixa o olhar no inesclarecível”[13].

             Sob a influência do “socratismo”, nasce a dramaturgia de Eurípides: “a divindade que falava por sua boca não era Dionísio, tampouco Apolo, porém um demônio de recentíssimo nascimento, chamado Sócrates. Eis a nova contradição: o dionisíaco e o socrático, e por causa dela a obra de arte da tragédia grega foi abaixo… o mais esplêndido templo jaz em ruínas…”[14] Este socratismo estético assassina o trágico e o dionisíaco ao exigir que tudo fosse inteligível e compreensível para que pudesse ser belo. A arte estava se tornando engessada pela razão, e Sócrates nascia como um adversário, inimigo em franca batalha contra o deus Dionísio.

             Em Nietzsche, pois, começa a ser tirada a coroa de rainha da cabeça presunçosa da Razão, que havia sido coroada pela primeira vez por Sócrates e que havia recebido novo glorioso coroamento pela vitória do Iluminismo contra as trevas medievais. No tempo de Nieztsche, porém, uma desconfiança em relação aos poderes da ciência já se espraiava: o Fausto de Goethe, homem dotado de uma imensa sede de saber, mas que descobre-se insatisfeito e insaciável, entregando-se à magia e ao diabo, é um mito-símbolo do “homem moderno que começa a pressentir os limites daqueles prazer socrático de conhecimento e, do vasto e deserto mar do saber, ele exige uma costa”[15].

                 Nietzsche não cessará de denunciar a ilusão que está por detrás desta crença cega nos poderes da ciência, que “se arroga o poder de sondar o ser mais íntimo das coisas”, exilando para o reino da “mentira” e da “ficção” toda a arte e toda a mitologia. “A enorme bravura e sabedoria de Kant e Schopenhauer”, escreve Nietzsche, “conquistaram a vitória mais difícil, a vitória sobre o otimismo oculto na essência da lógica, que é, por sua vez, o substrato de nossa cultura.” [16]

             A arte trágica apolíneo-dionisíaca, ao contrário da arte fiel aos princípios do “socratismo estético”, não nos esconde os horrores da condição humana, não os varre para baixo de tapetes e sempre nos há de fazer reconhecer que “tudo quanto nasce precisa estar pronto para um doloroso ocaso”[17]. Mas isto não significa que seu sentido esteja no ensinamento de que os bens deste mundo não seriam dignos de apego, o que conduziria ao que Nietzsche chama de “resignacionismo” de Schopenhauer. Segundo O Nascimento da Tragédia, esta forma de arte nos faz perceber, para além do indivíduo, a “exuberante fecundidade da vontade do mundo” e  nos estende o convite para que nos abracemos ao “uno vivente, com cujo gozo procriador estamos fundidos…”; por isso, a tragédia não cai sobre nossa espinha intentando destruir-nos: “um consolo incomparável deve ser próprio à verdadeira tragédia”.[18] Segundo Nietzsche, os gregos devem servir como “nossos luminosos guias”[19], pois para eles a tragédia era uma “necessária beberagem curativa” que a cultura contemporânea faria bem em “ressuscitar” para curar-se de sua própria cultura ressecada pelo socratismo!

            III. NIETZSCHE E SHAKESPEARE: UM DIÁLOGO POSSÍVEL?

             As reflexões de Nietzsche sobre Shakespeare estão dispersas em aforismos de várias obras e nos indicam que, ainda que não haja uma análise sistemática da obra do dramaturgo inglês, o filósofo alemão nos oferece muitos elementos de reflexão sobre as criações do autor de Hamlet, Otelo, Macbeth, King Lear e tantas outras tragédias. “Em Shakespeare pode-se encontrar uma sabedoria ética tal que, diante dela, o socratismo aparece como algo impertinente e pedante”[20], escreve Nietzsche, apontando que a obra trágica shakespeareana não se vincula ao “socratismo estético”, sua condenação dos instintos e sua veneração da “inteligibilidade”. Em Shakespeare as paixões humanas mais arrebatadas são descritas e muitos comportamentos motivados por ânsias semi-conscientes têm consequências tremendas.

            “Shakespeare refletiu muito sobre as paixões e, provavelmente por seu temperamento, teve acesso íntimo a muitas delas (os dramaturgos são, em geral, pessoas um tanto más). Porém não conseguiu, como Montaigne, falar a respeito delas, e colocou suas observações sobre as paixões na boca de figuras apaixonadas: o que (…) torna seus dramas tão ricos de pensamentos, que eles fazem os demais parecerem vazios… As sentenças de Shakespeare fazem honra ao seu modelo Montaigne.” [21]

            Em um aforismo de Humano Demasiado Humano que trata da “irreligiosidade dos artistas”, Shakespeare é classificado na ilustre companhia de Homero, Ésquilo, Aristófanes e Goethe como um autor capaz de lidar com desenvoltura e liberdade diante das superstições e crenças populares de seu tempo:

              “Homero está tão à vontade entre seus deuses, e tem, como poeta, tamanha satisfação com eles, que deve ter sido profundamente irreligioso: com o que a crença popular lhe oferecia – uma superstição mesquinha, grosseira e às vezes terrível -, ele lidava tão livremente quanto o escultor com sua argila, ou seja, com a mesma desenvoltura que possuíam Ésquilo e Aristófanes, e mediante a qual, nos tempos modernos, distinguiram-se os grandes artistas do Renascimento, assim como Shakespeare e Goethe.”[22]

            Shakespeare também é referido quando Nietzsche reflete sobre o culto ao gênio e as ilusões relacionadas a isto – como aquela de acreditar em um talento inato que seria dádiva dos céus:

            “Porque pensamos bem de nós mesmos, mas não esperamos ser capazes de algum dia fazer um esboço de um quadro de Rafael ou a cena de um drama de Shakespeare, persuadimo-nos de que a capacidade para isso é algo sobremaneira maravilhoso, um acaso muito raro ou, se temos ainda sentimento religioso, uma graça dos céus… só quando é pensado como algo distante de nós, como um miraculum, o gênio não fere (mesmo Goethe, o homem sem inveja, chamava Shakespeare de sua estrela mais longínqua…)”.[23]

            Já a tese nietzschiana de que “o que constitui a dolorosa volúpia da tragédia é a crueldade” parece descrever bem certas peças shakespeareanas, especialmente aquelas mais sanguinolentas como Titus Andronicus, Ricardo III ou Macbeth.

            “O que produz efeito agradável na chamada compaixão trágica (…) obtém sua doçura tão-só do ingrediente crueldade nele misturado. O que o romano, na arena, o cristão, nos êxtases da cruz, o espanhol, ante as fogueiras e as touradas, o japonês de hoje, quando corre às tragédias, o operário de subúrbio parisiense, com saudade de revoluções sangrentas, a wagneriana que, de vontade suspensa, ‘deixa-se tomar’ por Tristão e Isolda – o que todos eles apreciam, e procuram beber com misterioso ardor, é a poção bem temperada da grande Circe ‘crueldade’. Nisso devemos pôr de lado a tola psicologia de outrora, que da crueldade sabia dizer apenas que ela surge ante a visão do sofrimento alheio: há também um gozo enorme, imensíssimo, no sofrimento próprio, no fazer sofrer a si próprio – e sempre que o homem se deixa arrastar à autonegação no sentido religioso, ou à automutilação, como entre fenícios e astecas, ou à dessensualização, descarnalização, compunção, às convulsões da penitência puritana, à vivissecção de consciência e ao sacrifizio dell’intelletto pascaliano, ele é atraído e empurrado secretamente por sua crueldade…”[24]

               Harold Bloom, em seu estudo comparativo entre Milton e Shakespeare, sustenta teses sobre o bardo inglês que o tornam muito próximo da filosofia nietzschiana: “Shakespeare nem moraliza nem endossa o niilismo”, escreve Bloom, e esta dupla rejeição do moralismo e do niilismo seria perfeitamente legítima também para a descrição de Nietzsche.[25] Mas dizer que Shakespeare “não é nem moralista nem cristão”, opinião referendada por Harold Bloom, não equivale a dizer que o dramaturgo inglês é um imoralista ou um pagão. As peças shakespeareanas frequentemente problematizam as questões éticas e jurídicas de modo a despi-las de sua aparente simplicidade e mostrá-las em suas múltiplas determinações e complexidades.

             Em Shakespeare, não há nem sinal do simplismo ou da ingenuidade daquela visão de mundo que concebe os virtuosos como felizes, os viciosos como desgraçados, a recompensa sempre recaindo sobre os santos e a punição sempre sendo infligida sobre os corruptos e iníquos. A realidade retratada por Shakespeare é bem mais matizada e complexa; nela, como aponta o personagem Escalo, de Medida por Medida, “uns sobem à custa do pecado, outros caem por causa da virtude; alguns saem de uma selva de vícios sem ter que prestar contas de nenhum deles e outros são condenados por uma única falta.”[26].

             Em Shakespeare, não se trata tampouco de sustentar que vivemos em um mundo tão “fora dos eixos” e tão apodrecido (“há algo de podre no reino da Dinamarca…”) que tiranos corruptos e genocidas saiam sempre impunes de seus crimes. Em Shakespeare, a impunidade do mal não é obrigatória, assim como não o é a recompensa do bem. Macbeth e Ricardo III, por exemplo, não escapam à punição – que não é uma punição divina, à maneira do monoteísmo judaico-cristão, nem uma “justiça poética” alavancada por um deus ex machina, como em Eurípides, mas uma punição da própria história, ou seja, de outros agentes históricos que se rebelam contra a tirania e o derramamento de sangue e, através da guerra, da revolta ou da conspiração, retiram à força do poder os usurpadores. A ambição desmesurada, o ciúme destemperado e irracional, a utilização sistemática da violência contra os opositores políticos, tudo isto acaba desgraçando seus possuidores: Macbeth, Ricardo e Otelo terminam mortos nas respectivas peças.

             Nossa intenção nos capítulos que seguem é uma tentativa de pôr a filosofia nietzschiana, em específico suas reflexões sobre a tragédia, a serviço de uma interpretação de algumas das principais tragédias de Shakespeare. Dada a riqueza semântica de qualquer grande obra-de-arte, que pode ser enfocada por múltiplos aspectos e ser interpretada de muitas formas diferentes, cabe alocar neste prefácio a mesma ressalva que antepôs Vigostki ao seu estudo sobre Hamlet: “a interpretação que lhe dá o autor é apenas mais uma dentro dessa multiplicidade de possíveis interpretações, que a nada obriga.”[27]


IV. A INOCÊNCIA DESTROÇADA E A VIRTUDE SEM RECOMPENSA
:
Desdêmona e a negação do otimismo socrático

     A tragédia shakespeariana jamais fornece ao espectador a consolação otimista, típica do que Nietzsche chama de “socratismo”, que sustenta que a recompensa da virtude é a felicidade e a raiz de todo o mal está na ignorância. Analisemos brevemente, na peça Otelo, a figura de Iago, um dos mais memoráveis vilões de Shakespeare, e descobriremos nele algo que Sócrates ou Platão jamais poderiam aceitar: uma perfídia triunfante, que consegue de fato atingir os fins cruéis aos quais se propõe. Sugerir que o mal praticado por Iago seria decorrente de um conhecimento insuficiente da realidade, fazendo seu vício decorrer de sua falta de saber, seria de um imenso simplismo e equivaleria a desconsiderar intensos afetos – por exemplo de inveja, ressentimento e vingança – que borbulham em segredo em seu peito e o empurram no caminho do desgraçamento voluntário do amor de Otelo e Desdêmona.

       A maldade de Iago, tão imensa que beira o ininteligível, é um mistério que a peça de Shakespeare só aclara um pouco, deixando ao leitor a tarefa de compreender o mistério deste aflitivo vilão. Perguntemo-nos a fundo: o que move Iago a agir de modo a destruir o idílio amoroso de Otelo e Desdêmona? Seria meramente a inveja por testemunhar um casal feliz, a insuportável ferida de continuamente observar as delícias de um amor que ele não pode viver? É como se Iago fosse movido por um sádico e destrutivo afã de arrasar todos os jardins onde os amantes se deitam entre as flores, movido por um ódio cortante contra o triunfo alheio.

     Iago não inveja somente querendo possuir o que o outro possui, mas querendo destruir o bem de que o outro goza. Procura trazer para o inferno quem antes curtia em paz seu céu. É um manipulador de homens que os trata como peões num jogo de xadrez e se deleita com o prazer obsceno de vê-los expulsos do doce tabuleiro da felicidade. Diante do espetáculo insuportável do amor de Otelo e Desdêmona, encharca-se de ódio e decide-se à tarefa maligna: “i’ll poison his delight!” (“envenarei sua delícia!”)

      E mais: Iago comete as mais monumentais monstruosidades sem nunca deixar que suspeitem de seu veneno secreto e sem molhar as mãos de sangue. Ele não é um bruto ou um selvagem; é um vilão que, durante a peça, não apunhala ou atira em ninguém, não atenta diretamente contra a vida de pessoa alguma. Iago é pérfido como poucos personagens na história da literatura, mas sua perfídia é quase inteiramente verbal: Iago não esfaqueia; Iago fala, persuade, semeia a discórdia. E com suas pérfidas palavras planta em outros as sementes de paixões explosivas que, se não forem contidas, levarão amores e felicidades a destroçarem-se e reduzirem-se a pó. Talvez seja isto o que ele secretamente deseja: que o circo pegue fogo, simplesmente. Que ninguém tenha o direito de ser feliz quando ele não é.

     A tragicidade decorrente da malignidade de Iago só se consuma quando cai a vítima inocente, Desdêmona, uma das figuras femininas mais trágicas de toda a obra shakespeariana. Desdêmona é descrita como a encarnação da virtude e da beleza (“a fair, fine, sweet woman”; “so gentle a nature”; “she could sing savageness out of a bear”; “so high and plenteous in wit and invention”). Esta mulher gentil, doce, casta, inteligente e fiel jamais poderia ser vítima de um destino tão atroz caso os cânones seguidos pelo artista fossem aqueles do que Nietzsche chama de “socratismo estético”. Shakespeare mostra-se aqui muito mais aparentado à tragédia grega de Ésquilo e Sófocles do que um referendador da filosofia platônica. Ora, Desdêmona é a inocente que morre, aquela que é punida por pecados que não cometeu, aquela cujas inúmeras virtudes não são recompensadas com a felicidade e a paz, como o otimismo socrático nos convidaria a esperar, mas é destruída em sua juventude como uma flor estraçalhada pelo temporal da perversidade de Iago e do ciúme desmesurado de seu títere manipulado, Otelo.

         Em sua investigação sobre “A Sabedoria Trágica”, conceito fortemente influenciado pela filosofia de Nietzsche, Marcel Conche sustenta que um dos elementos que define o trágico é o perecimento ou a destruição de algo precioso, valioso, valorizado. Em outras palavras, não há tragédia na aniquilação do que não vale nada: o trágico provêm do doloroso (e frequentemente prematuro) ocaso de algo tido como de valor inestimável. “O que há de mais trágico consiste neste fato: o que existe de mais elevado e de melhor é tão inexoravelmente destruído quanto aquilo que não vale nada”, escreve Conche. “Um pensamento realmente trágico é o pensamento para o qual aquilo que tem o máximo de valor é também aquilo que está inelutavelmente fadado a perecer.” [28]

         Desdêmona é ótimo exemplo disto: era uma mulher muito amada por Otelo, antes da intervenção fatal de Iago; era talvez o ser mais valioso que o mouro de Veneza tinha em sua vida. Seu ciúme não seria tão intenso, aliás, se seu apego apaixonado à esposa não fosse igualmente exacerbado. No filme de 1952, dirigido e estrelado por Orson Welles, isto é exposto com muita eloquência: a terrível ambivalência emocional de Otelo, na cena do estrangulamento, é escancarada pelo tenso confronto com Desdêmona no qual mouro simultaneamente beija apaixonadamente a boca daquela que estrangula[29]. Nada mais trágico do que destruir o que mais amamos, ou sermos destruídos por aqueles que mais adoramos.

      Se Otelo, Hamlet, King Lear etc. contem afinidades estreitas com a tragédia grega, talvez estas afinidades estejam mais claras em destinos como os de Desdemona e Ofelia: tal qual a Antígona de Sófocles, estas moças acabam morrendo jovens, apesar de serem muito virtuosas, de modo que qualquer conclusão “moralista” não pode ser tirada destas obras-de-arte. Elas não assinam embaixo da tese, cara a Sócrates, de que o comportamento racional e virtuoso conduziria necessariamente à felicidade. Pois a vida humana é também o entrechoque de forças de diferentes indivíduos, muitas vezes com objetivos conflitantes, frequentemente possessos por seus próprios apetites irracionais, paixões furiosas ou cegueiras enlouquecedoras. Em Otelo, a maldade de Iago triunfa e destrói de fato o casal que intentou destruir. E o triunfo da perfídia, do qual tantas provas nos dá a realidade, é algo que o socratismo estético jamais pode aceitar, mas que Shakespeare não temeu retratar com as mais trágicas tintas.

        Otelo é também a tragédia da precipitação, este vício tão aparentado com a intemperança, como Nietzsche soube sublinhar: “Saber esperar é algo tão difícil, que os maiores escritores não desdenharam fazer disso um tema de suas criações. Assim fizeram Shakespeare em Otelo e Sófocles em Ajax”[30]. O mouro de Veneza, se tivesse esta aptidão a que se refere Nietzsche, não teria de modo tão irrefletido e apressado atentado contra o pescoço de Desdêmona. Ele não soube conter os ímpetos de sua paixão para realizar, por exemplo, uma investigação racional, fria e sensata dos fatos e das evidências – o que provavelmente o levaria a concluir que a famosa evidência do handkerchief (o lenço que Desdemôna supostamente teria presenteado a seu suposto amante…) não era conclusiva, e que uma outra explicação, a verdadeira, poderia ser trazida à tona: a perfídia de Iago. Mas Otelo não seria uma tragédia se estes personagens agissem sempre de modo racional-socrático, mantendo seus desregramentos passionais sob rédeas firmes e jamais deixando que o domínio do comportamento caísse nas precipitadas mãos dos afetos irracionais. Como aponta Nietzsche, “a paixão não quer esperar; o trágico na vida de grandes homens está, frequentemente, não no seu conflito com a época e a baixeza de seus semelhantes, mas na sua incapacidade de adiar por um ou dois anos a sua obra; eles não sabem esperar.”

         Além disso, convêm destacar que a genuína tragédia, segundo Nietzsche, concebe como desvinculadas a infelicidade e a culpa, algo que a distingue de modo radical das noções cristãs de raiz platônica que sustentam que o pecado é necessariamente a causa de qualquer sofrimento. Contra esta noção de que a dor seria uma punição contra um pecador, Nietzsche destaca, no aforismo #78 de Aurora:

      “Infelicidade e culpa – essas duas coisas foram postas pelo cristianismo na mesma balança: de modo que, quando é grande a infelicidade que sucede a uma culpa, ainda hoje a grandeza da culpa é involuntariamente medida por ela. (…) Apenas ao cristianismo estava reservado dizer: ‘Eis uma grave infelicidade, e por trás dela tem de se esconder uma culpa grave, igualmente grave, ainda que não a vejamos claramente!’”

        Ora, em franco contraste com esta concepção cristã, “a tragédia grega, que tanto fala de infelicidade e culpa, embora em sentido bem diferente, está entre os grandes liberadores do ânimo, na medida que aos próprios antigos não era dado sentir”, sustenta Nietzsche. “Na Antiguidade ainda havia realmente infelicidade, pura, inocente infelicidade; apenas no cristianismo tudo se torna castigo, punição bem merecida: ele faz sofredora também a imaginação do sofredor, de modo que este, em tudo o que sucede de mau, sente-se moralmente reprovado e reprovável.” (p. 62 e 63)

          Em Desdêmona, Shakespeare criou uma figura realmente trágica, cuja infelicidade não decorre de nenhuma culpa (unicamente de uma culpa presumida por Otelo, absolutamente imaginária e ilusória). Desdêmona é, tal qual uma heroína trágica grega, “infelicidade pura” e morre, decerto em meio a terríveis sofrimentos, plenamente convicta de sua inocência e da injustiça da punição que recai sobre ela.

Macbeth e sua Lady na adaptação de Roman Polanski

        Macbeth: Tirano assassino no centro do palco

Um dos mais óbvios aprendizados que a obra de Shakespeare nos fornece é este: os homens de maior poder (reis, príncipes, duques…) não necessariamente são homens de sabedoria ou virtude. O fato de um homem estar sentado em um trono, ou de ter sua cabeça ornada com uma coroa dourada, não o torna, por isso, alguém de inegável mérito moral. Grande leitor de Montaigne, Shakespeare escancara em muitas de suas obras os ditos jocosos do filósofo francês: “Reis e Filósofos defecam, assim como Damas” ou “Mesmo ocupando o mais alto trono do mundo, ainda sentamos sobre nossa própria bunda”.

      Exímio conhecedor dos vícios humanos e dos desregramentos passionais – e lúcido investigador póetico das catástrofes causadas por eles -, Shakespeare pariu em Macbeth a insuperável tragédia da ambição. Como muitos dos protagonistas trágicos de Shakespeare, o casal Macbeth é movido por paixões desmesuradas. E, como tudo em desmesura, elas desregram e danam.

      Não há novidade alguma, para quem já se familiarizou com o universo shakespeariano, no apelo que se faz à violência nas altíssimas escalas da nobreza e da corte, em que pessoas tão frequentemente são cegadas por uma “thriftless and vaulting ambition”[31] e usam a força bruta ao invés da delicadeza diplomática. Mas Macbeth escancara o quão sanguinário pode tornar-se um tirano, ébrio pelo domínio político, que, à maneira de um vampiro, quanto mais sangue bebe, mais se embriaga e mais sangue derrama…

      Nieztsche, no aforismo de Aurora em que interpreta a peça shakespeariana, afirma: “Engana-se quem pensa que o teatro de Shakespeare tem efeito moral e que a visão de Macbeth afasta do mal da ambição; e engana-se novo se acha que o próprio Shakespeare sentiu como ele.” (#240) Ou seja, Nietzsche sustenta que qualquer interpretação moralista ou socrática de Macbeth falsearia a obra de Shakespeare, corrompendo-a com um reducionismo insustentável. Na sequência, Nietzsche expande suas reflexões para outras tragédias clássicas para demonstrar mais profundamente suas posições:

      “Vocês acham que Tristão e Isolda dão um ensinamento contra o adultério, ao sucumbir em virtude dele? Isso significaria pôr os poetas de cabeça para baixo: os quais, especialmente Shakespeare, são enamorados das paixões em si, e não de suas disposições mórbidas. (…) Não é a culpa e seu horrível desfecho que lhes importa, a Shakespeare e a Sófocles (em Ajax, Édipo, Filoctetes): teria sido fácil, nesses casos, fazer da culpa a alavanca do drama, mas certamente isso foi evitado. O autor de tragédias também não deseja, com suas imagens da vida, predispor contra a vida! Ele exclama, isso sim: ‘É o encanto supremo, essa existência estimulante, cambiante, perigosa, sombria e às vezes banhada de sol! É uma aventura viver – tomem aí o partido que quiserem, ela sempre terá esse caráter!’ – Assim fala ele, do interior de uma época intranquila e plena de força, meio ébria e entorpecida por sua profusão em sangue e energia – do interior de uma época mais malvada que a nossa…”[32]

       Macbeth é a descrição pormenorizada da bem-sucedida ascensão ao trono realizada pelo regicida Macbeth, os atos sanguinários de que ele faz uso para manter-se no poder e, por fim, o levante militar que o destrona. Nada mais distante, novamente, do cânone do socratismo estético, que jamais aprovaria uma obra-de-arte com um protagonista desta natureza (a não ser que a trama servisse como ilustração moralista, que edificaria o espectador ao convidá-lo a afastar-se dos vícios ali representados…).

      Há algo de muito podre no reino da Escócia. “Have we eaten on the insane root that takes the reason prisoner?”, pergunta-se Banquo. Todo a “ambientação emocional” da peça sugere que a insânia, e não a fria e contenedora razão, é que está vigente na maioria dos espíritos… A paixão pelo trono, a fascinação pela coroa, faz com que Lady Macbeth e seu esposo mancomunem-se para assassinar o Rei Duncan. Antes do crime, Macbeth implora às estrelas que se escondam e não espiem o ato grotesco de traição que está prestes a perpetrar: “Stars, hide your fires; let not light see my black and deep desires!” Depois do crime (“I have done the deed…”), vai progressivamente descobrir que a mancha não é fácil de lavar, ao contrário da ingênua medicina sugerida por Lady Macbeth: “a little water clears us of this deed…”.

       Macbeth não saiu incólume do ato: assassinou seu próprio sono (“Macbeth does murder sleep, the innocent sleep…”). E descobriu que para esconder um homicídio será preciso cometer muitos mais. E que todo homem assassinado tem aqueles que o amavam e que prometem vingá-lo. A tirania não tarda em despertar a revolta. A revolta não demora em desaguar na guerra. Da ambição individual à catástrofe coletiva, há só um mísero passo, que homens políticos irresponsáveis não cessam de dar, para desgraça de todos. Em uma de suas peças mais tétricas e sanguinolentas, talvez só comparável neste quesito a Titus Andronicus, Shakespeare não poupa nas tintas ao descrever as podridões de seu Macbeth: “Not in the legions of horrid hell can come a devil more damned in evils to top Macbeth…”.

        A única coisa desencadeada pela violência é mais e mais violência, assim como toda mentira simples gera um séquito de mentiras necessárias para sustentar a mentira primeira, numa espiral infernal que só sossegará quando os campos de batalha, entulhados de corpos, exigirem uma troca de regime…

        Mas seria muito raso fazer de Shakespeare um moralistinha a dizer que “o crime não compensa” e que há sempre um castigo para todo ato imoral. O que o gênio shakespeareano nos mostra, na verdade, são as complexas maquinações do afeto humano que conduzem ao desregramento sanguinário, às barbaridades passionais, descrevendo na sequência as inelutáveis consequências concretas, tanto no dilacerado mundo subjetivo quanto no domínio sócio-político, destes grandes crimes.

         E se as páginas de Shakespeare estão tão repletas de sabedoria é pois ele conheceu a fundo o maligno. Mas compreender o maligno é uma coisa; aplaudi-lo é outro. Fazer o retrato verossímil de vilanias é diferente de fazer o elogio delas. Shakespeare, ao invés de nos predispor contra a vida, nos ajuda a compreendê-la e vivê-la melhor, estando longe de referendar o pessimismo e o niilismo contra os quais Nietzsche tanto batalhou. Shakespeare põe seu imenso gênio a serviço da compreensão do Mal, mas jamais faz com que esta compreensão lhe leve à aquiescência ou à resignação. Sabe muito bem que a intemperança foi a desgraça de muitos reis: “boundless intemperance in nature is a tyranny; it has been the untimely emptying of the happy throne and fall of many kings…” (p.304). E conhece muito bem os efeitos corruptores do poder absoluto para os escrúpulos morais do sujeito, como a seguinte confissão de Malcolm, quando imagina-se alçado ao trono, mostra tão bem:

“…were I king, I should cut off the nobles for their lands,
Desire his jews and this other’s house;
And my more-having would be as a sauce
To make me hunger more; that I should forge
Quarrels unjust against the good and loyal,
Destroying them for wealth.

(…)

Had I power, I should
Pour the sweet milk of concord into hell,
Uproar the universal peace, counfound
All unity on earth.”

ACT IV, SCENE III

       Macbeth, um dos “vilões” mais sombrios de Shakespeare, nos dá calafrios por lançar-se neste turbilhão fatal da ambição sem a mínima lucidez. Não prevê a própria desgraça e se fia em duvidosas profecias benévolas de bruxas brincalhonas. Quando o exército inglês está prestes a derrubá-lo de seu trono manchado de sangue (para usar a expressão que batizou a adaptação cinematográfica de Kurosawa), ele enfim percebe que fez tudo em vão e que não escapará do castigo da História.

        Num dos monólogos mais célebres de Shakespeare, o tirano sanguinário, às beiras de ser destronado, diante do cadáver de sua esposa (Lady Macbeth) suicida, concebe a vida como nada além de “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e significando nada…”. Prova de que Shakespeare, séculos antes do Turguêniev de Pais e Filhos e do Dostoiévski de Os Demônios, já retratava e punha em discussão a questão do niilismo, debate que será tão crucial também no interior da reflexão nietzschiana. E prova, também, de que o moralismo fácil e ingênuo nunca dá as caras nas grandes peças do bardo inglês e que elas nos oferecem muito alimento para meditar sobre a arte da tragédia, desde suas raízes na Grécia, e sua capacidade ímpar de nos fazer vivenciar os maiores dramas da condição humana.

“Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”

MACBETH
ACT V. SCENE V.

:: The Human Planet (BBC Series) ::

“Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie eqüina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e arte inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélicas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.”


SÓFOCLES (496-406 a.C.) – Antígona.
Tradução do grego: Mário da Gama Kury
in: A Trilogia Tebana – Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona
(Editora Jorge Zahar, RJ, 1989)



A admiração e o espanto frente ao engenho humano para a sobrevivência em habitats dos mais hostis, diante de predadores de força física e ferocidade largamente superiores, não é nada recente – como testemunha este lindo trecho da Antígona de Sófocles, uma das mais célebres das tragédias gregas. The Human Planet, seriado da BBC recheado com imagens deslumbrantes e estórias prodigiosas sobre a vida humana neste planeta Água, compartilha deste assombro pelos feitos do animal homo sapiens. Registrada por lentes de altíssima definição, a sobrevivência humana em desertos e geleiras, montanhas e selvas, é retratada de forma cativante, de modo a expor tanto a “plasticidade” adaptativa de nossa espécie quanto as forças descomunais e impiedosas de uma Natureza que nos supera, às vezes nos esmaga, sempre nos fascina. O vozeirão do narrador John Hurt (Dogville) e a trilha sonora grandiosa ajudam a fisgar o espectador e fazer suas mandíbulas despencarem ao chão. Cenas um tanto chocantes de homens obrigados a se alimentar de tarântulas e morcegos, por exemplo, ou enfrentando penúrias extremas em cus-do-mundo onde a civilização é precária, podem incomodar os estômagos mais sensíveis. Mas aí está outra das qualidades da série: re-inserir o homem no mundo natural, ao invés de referendar lorotas criacionistas, mas não se esquecendo de sublinhar o quanto o descompasso no desenvolvimento técnico-científico entre diversas culturas, sem falar nas cegueiras da ganância e do descaso que imperam nos países mais ricos (muitos tornados ricos através do saque imperialista, é claro!), condenaram vastas regiões e populações do globo a uma vida animalesca, semi-bestial, reduzida ao que a Hannah Arendt chama de labor: a dura lida pela mera sobrevivência física, subtraída a existência de tudo o mais que torna bela a condição humana.  Recomendado!