“O socialismo é antidemocrático?” – Por Joseph M. Schwartz na Jacobin

O socialismo é antidemocrático?

(Rosa Luxemburgo em um comício em)

(Rosa Luxemburgo em um comício em 1907)

Por Joseph M. Schwartz*, na Jacobin

Tradução Mauricio Búrigo

Ensinaram a uma geração de norte-americanos que a Guerra Fria se travou entre a liberdade e a tirania, com a vitória decisiva a favor do capitalismo democrático. O socialismo, de todos os tipos, foi confundido com os crimes da União Soviética e jogado na pilha de lixo das ideias ruins.

No entanto, muitos socialistas foram sólidos opositores do autoritarismo, quer fosse de esquerda, quer de direita. O próprio Marx compreendeu que somente pelo poder democrático da maioria os trabalhadores poderiam criar uma sociedade socialista. Para tal fim, o Manifesto Comunista termina com um toque de clarim aos trabalhadores, para que vençam a batalha pela democracia contra as forças aristocráticas e reacionárias.

Legiões de socialistas seguiram esta trilha, defendendo com ardor direitos políticos e civis, ao mesmo tempo que lutavam para democratizar o controle sobre a vida econômica e cultural através de direitos sociais ampliados e democracia no local de trabalho. Apesar da afirmação comum de que “o capitalismo é igual à democracia”, os próprios capitalistas, sem a pressão de uma classe trabalhadora organizada, nunca apoiaram reformas democráticas.

Enquanto o sufrágio universal para homens brancos chegou aos Estados Unidos por volta do período jacksoniano (de 1824 a 1840), os socialistas europeustiveram de lutar até o fim do século 19 contra regimes capitalistas autoritários na Alemanha, França, Itália e em outras partes para conquistar o direito ao voto para os homens da classe trabalhadora e os pobres. Os socialistas ganharam apoio popular como os mais sólidos defensores do sufrágio universal masculino –e, em seguida, do sufrágio feminino–, bem como do direito legal de formar sindicatos e outras associações voluntárias.

Os socialistas e seus aliados no movimento trabalhista também compreenderam há muito que o povo num estado calamitoso de necessidade não pode ser um povo livre. Assim, a tradição socialista é popularmente identificada, fora dos EUA, com a manutenção pelo Estado da educação, da saúde, da assistência infantil e das aposentadorias, e, dentro dos EUA, por defender muitas destas lutas.

(Marcha do Partido Socialista dos EUA em 1914. Foto: Biblioteca do Congresso)

(Marcha do Partido Socialista dos EUA em 1914. Foto: Biblioteca do Congresso)

Para muitos socialistas, o apoio a reformas democráticas era incondicional; mas eles também acreditavam que o poder de classe necessário para deter o poder do capital tinha de ser fortalecido a fim de que os trabalhadores pudessem controlar totalmente seu destino social e econômico. Enquanto criticavam o capitalismo como antidemocrático, os socialistas democráticos se opunham de forma consistente aos governos autoritários que se proclamavam socialistas.

Revolucionários como Rosa Luxemburgo e Victor Serge criticaram o governo soviético desde o início, por proibir partidos de oposição, eliminar experiências de democracia no local de trabalho e fracassar em abraçar o pluralismo político e as liberdades civis. Se o Estado possui os meios de produção, a pergunta permanece: quão democrático é o Estado?

Como escreveu Luxemburgo em seu panfleto de 1918 sobre a Revolução Russa, “sem eleições gerais, sem liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de reunião, sem a livre batalha de opiniões, a vida em cada instituição pública murcha, torna-se uma caricatura de si mesma, e a burocracia surge como a única condição determinante”.

Luxemburgo compreendeu que a Comuna de Paris de 1871, a breve experiência de democracia radical à qual Marx e Engels se referiam como um verdadeiro governo da classe trabalhadora, tinha múltiplos partidos políticos em seu conselho municipal, dos quais apenas um estava afiliado à Associação Internacional de Trabalhadores de Marx.

Leais a esses valores, socialistas, comunistas dissidentes e sindicalistas independentes lideraram as rebeliões democráticas contra o governo comunista na Alemanha Oriental em 1953, na Hungria em 1956 e na Polônia em 1956, 1968 e 1980. Os socialistas democráticos lideraram também a breve, mas extraordinária experiência do “socialismo com uma face humana” sob o governo de Dubček na Tchecoslováquia em 1968. Todas estas rebeliões foram esmagadas por tanques soviéticos.

A queda da União Soviética, porém, não significou que a democracia venceu. Os socialistas rejeitam a alegação de que a democracia capitalista seja inteiramente democrática. Os ricos, na verdade, abandonaram seu comprometimento até mesmo com a democracia mais básica quando se sentiram ameaçados por movimentos de trabalhadores.

A análise de Marx, em O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, do apoio capitalista francês ao golpe de Napoleão III contra a Segunda República francesa, prenuncia friamente o apoio do capital, mais tarde, ao fascismo nos anos 1930. Em ambos os casos, uma pequena burguesia decadente, uma classe média acossada e as elites agrárias tradicionais ganharam o apoio dos capitalistas para frustrar a militância nascente da classe trabalhadora, derrubando governos democráticos.

Os regimes autoritários dos anos 1970 e 1980 na América Latina recorreram da mesma maneira a um apoio corporativo de natureza semelhante. Muito do prestígio da esquerda europeia do pós-guerra e da esquerda latino-americana de hoje deriva de serem as mais coerentes opositoras do fascismo.

Os movimentos socialistas e anticolonialistas do século 20 compreenderam que os objetivos democráticos revolucionários de igualdade, liberdade e fraternidade não poderiam ser realizados se o poder econômico desigual for transformado em poder político e se os trabalhadores forem dominados pelo capital. Os socialistas lutam pela democracia econômica a partir da crença democrática radical de que “o que atinge a todos deveria ser decidido por todos”.

O argumento capitalista de que a escolha individual no mercado é sinônimo de liberdade mascara a realidade de que o capitalismo é um sistema antidemocrático no qual a maioria das pessoas perde a maior parte da vida sendo “chefiada”. As corporações são formas de ditaduras hierárquicas, visto que aqueles que nelas trabalham não têm voz alguma em como produzem, o que produzem, e em como o lucro que geram será utilizado.

Os democratas radicais acreditam que a autoridade obrigatória (não somente a lei, mas também o poder de determinar a divisão de trabalho numa firma) será válida apenas se cada membro da instituição afetado por suas práticas tiver voz igual na tomada de decisões.

Democratizar uma economia complexa poderia tomar uma variedade de formas institucionais, estendendo-se desde a propriedade do trabalhador e as cooperativas até a propriedade estatal de instituições financeiras e monopólios naturais (tais como telecomunicações e energia) –bem como o regulamento internacional de padrões trabalhistas e ambientais.

A estrutura geral da economia seria determinada pela política democrática e não por burocratas do Estado. Mas permanece a pergunta: como passar além da oligarquia capitalista para a democracia socialista?

No final dos anos 1970, muitos socialistas democráticos reconheceram que a lucratividade corporativa foi pressionada pelos constrangimentos que os movimentos trabalhistas, feministas, ambientais e antirracistas dos anos 1960 causaram ao capital. Eles compreenderam que os capitalistas retaliariam através de mobilização política, terceirização e retenções de capital.

Assim, por toda a Europa, os socialistas fizeram pressão por reformas que visassem ganhar maior controle público sobre os investimentos. O movimento operário sueco abraçou o Plano Plano Meidner, um programa que tributaria lucros corporativos durante um período de 25 anos a fim de instituir a propriedade pública de grandes firmas. Uma coalizão socialista-comunista que elegeu François Miterrand à presidência da França, em 1981, nacionalizou 30% da indústria francesa e aumentou radicalmente a capacidade coletiva de barganha.

(O primeiro-ministro sueco Olof Palme com Fidel Castro em 1975)

(O primeiro-ministro sueco Olof Palme com Fidel Castro em 1975)

Em resposta, o capital francês e sueco abandonou os investimentos domésticos e investiu no exterior, criando uma recessão que deteve os passos promissores do país na direção do socialismo democrático. As políticas de Thatcher e Reagan, que resultaram em mais de 30 anos de retrocesso nos sindicatos e em cortes à rede de seguridade, confirmaram a predição da esquerda de que, ou os socialistas iriam além do estado de bem-estar social em direção ao controle democrático do capital, ou o poder capitalista iria fazer erodir as conquistas da social democracia do pós-guerra.

Hoje, socialistas em todo o mundo encaram o desafio desencorajador de como reconstruir o poder político da classe trabalhadora para que seja forte o bastante para derrotar o consenso, tanto dos conservadores quanto dos sociais-democratas da Terceira Via, em favor da austeridade ditada pelas corporações.

Mas e os vários governos no mundo em desenvolvimento que ainda se chamam socialistas, em particular estados de partido único? De muitas maneiras, os estados comunistas de partido único tinham mais em comum com estados autoritários capitalistas “desenvolvimentistas” do passado –tais como a Prússia e o Japão do fim do século 19, e a Coréia do Sul e Taiwan do pós-guerra– do que com a visão de mundo do socialismo democrático. Estes governos priorizavam a industrialização dirigida pelo estado ao invés de direitos democráticos, em particular aqueles de um movimento trabalhista independente.

Nem Marx nem o socialismo clássico europeu anteciparam que partidos socialistas revolucionários pudessem tão prontamente tomar o poder em sociedades autocráticas, predominantemente agrárias.

Em parte, estes partidos tinham origem numa classe trabalhadora nascente que se radicalizou pela exploração do capital estrangeiro. Mas, na China e na Rússia, os comunistas também chegaram ao poder porque a aristocracia e os comandantes militares fracassaram em defender o povo contra invasões –exércitos de camponeses derrotados queriam paz e terras.

A tradição marxista tinha pouco a dizer acerca de como sociedades pós-coloniais predominantemente agrárias poderiam se desenvolver de uma maneira equitativa e democrática. O que a história nos diz é que tentar forçar camponeses, aos quais recentemente foram dadas terras privadas por revolucionários comunistas, a voltar para fazendas coletivas estatais, resulta em guerras civis brutais que impedem o desenvolvimento econômico por décadas.

Reformas econômicas contemporâneas na China, Vietnã e Cuba favoreceram uma economia de mercado misto com um papel significativo ao capital estrangeiro e camponeses proprietários de terras. Mas as elites do partido único que instituem estas experiências de pluralismo econômico têm quase sempre reprimido os defensores do pluralismo político, das liberdades civis e dos direitos trabalhistas.

Apesar do contínuo assédio do estado, as crescentes lutas trabalhistas independentes em lugares como a China e o Vietnã talvez renovem o papel da classe trabalhadora na promoção da democracia. É a estes movimentos, não a governos autocráticos, que os socialistas dirigem sua solidariedade.

É claro que também existe uma rica história de experiências de socialismo democrático no mundo em desenvolvimento, que se estende desde o governo da Unidade Popular de Salvador Allende no Chile, nos anos 1970, até os primeiros anos de governo de Michael Manley na Jamaica, naquela mesma década.

A “maré vermelha” latino-americana na Bolívia, Venezuela, Equador e Brasil representa hoje experiências diversas de desenvolvimento democrático –embora suas políticas de governo dependam mais da redistribuição de ganhos de exportações de commodities do que da reestruturação das relações de poder econômico. Mas o governo dos EUA e os interesses capitalistas globais trabalham consistentemente para minar até mesmo estes modestos esforços de democracia econômica.

A CIA e a inteligência britânica derrubaram o governo democraticamente eleito de Mohammed Mossadegh no Irã em 1954, quando ele nacionalizou o petróleo britânico. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial cortaram crédito ao Chile, e a CIA participou ativamente do brutal golpe militar de Augusto Pinochet naquele país. Os EUA igualmente conspiraram com o FMI para exercer pressão sobre a economia jamaicana da era Manley.

A hostilidade capitalista até mesmo para com governos reformistas moderados no mundo em desenvolvimento não conhece quaisquer limites. Os EUA derrubaram pela força tanto o governo de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 como a presidência de Juan Bosch na República Dominicana em 1965 porque eles promoviam modestas reformas agrárias.

Para os estudantes de História, a questão não deveria ser se o socialismo leva necessariamente à ditadura, mas se um movimento socialista renovado pode superar a natureza oligárquica e antidemocrática do capitalismo.

*Joseph M. Schwartz é vice-presidente nacional dos Socialistas Democráticos da América e professor de Ciência Política na Temple University, na Filadélfia.

Reblogado do Socialista Morena

UM EPITÁFIO PARA O PIG: “O jornalismo brasileiro vive um dos mais ignóbeis períodos de sua história” – Por Cynara Menezes, a Socialista Morena

UM EPITÁFIO PARA O P.I.G.
por Cynara Menezes

Exatamente como em 1964, coube de novo à mídia hegemônica brasileira o papel vexaminoso de dar suporte a um governo que chegou ao poder sem passar pelas urnas. Enquanto veículos de comunicação do mundo inteiro questionam o processo pelo qual uma presidenta honesta foi arrancada do cargo, os daqui apenas se calam e trabalham diuturnamente para conferir legitimidade a um governo ilegítimo. Mesmo a Folha de S.Paulo, que publicou as conversas entre políticos investigados na Lava Jato (todos agora confortavelmente aboletados no Governo Federal) que evidenciam a existência de um complô para derrubar Dilma, é incapaz de se dignar a defendê-la. Ora, se houve uma conspiração e se todos os que participaram dela são cúmplices, o que se pode dizer de uma mídia que apoiou esta conspiração?

GreenwaldO jornalismo brasileiro vive um dos mais ignóbeis períodos de sua história. Não só se transformou, em pouquíssimo tempo, em uma imprensa adesista, como se mostra disposta a omitir, escamotear e falsear fatos no intuito de defender os golpistas. Qualquer pessoa que se colocar no caminho da mídia hegemônica e seu apoio ao governo ilegítimo de Temer terá sua reputação atirada no lixo. E dizem que é o PT quem possui uma “máquina de moer reputações”… Escrevo este artigo sob o forte impacto do editorial do Estadão que atacou abertamente um trabalhador da notícia, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald. Autor das reportagens que revelaram as escutas do governo dos EUA sobre o mundo, Greenwald mora no Rio de Janeiro e tem criticado o golpe parlamentar que se deu no Brasil. Como quem joga carne fresca às hienas, o Estadão o chamou de “ativista”, dando brecha a uma possível tentativa de expulsá-lo do País, já que a atividade política é vedada a estrangeiros.

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, dizia Marx. Como não recordar neste momento a trajetória de Samuel Wainer (1910 – 1980), o menino pobre do Bom Retiro que construiu um império de comunicações, desafiando os ricos donos dos jornais brasileiros, e por isso foi perseguido sem trégua? A acusação é a mesma que certamente farão à Greenwald: quiseram expulsar Wainer do País por ser estrangeiro, nascido na antiga Bessarábia – o que só se comprovou como verdade após sua morte. Outra coincidência: assim como Greenwald e de forma diferente dos mesmos donos de jornais que apoiam o governo ilegítimo de Temer, Samuel Wainer se posicionou contrário ao golpe militar de 1964. A Última Hora, tal como foi criada, desapareceu, e junto com ela os jornais de oposição ao regime.

Tínhamos diários não alinhados com a ditadura além da Última Hora, como O Semanário e o Diário Carioca. Todos foram empastelados. É por essa razão que tantos países no mundo possuem jornais diários progressistas e o Brasil não. A Inglaterra tem, o Uruguai tem, a Itália tem, a França tem, os EUA têm… Em nosso País só sobreviveram os jornais de direita, que apoiaram o golpe. E que mal disfarçam o conservadorismo do seu DNA apelando a uma falsa pluralidade, dando espaço, em suas bolorentas páginas, a algum pensador de esquerda que ainda aceita participar dessa farsa. O lado bom dessa história toda é nos dar conta de que, mesmo sem lei de meios, a mídia de esquerda se consolidou e tem incomodado a direita e seus veículos de estimação. Fazemos muito barulho nas redes, a ponto de sermos atacados por jornalões centenários à beira da falência. A internet possibilitou que qualquer um possa ter seu próprio meio de comunicação, algo impensável no passado, e com custos muito menores do que os jornais convencionais, que necessitam de papel.

Pode-se dizer que as redes sociais fizeram uma democratização da mídia a fórceps. E é justamente por este perigo que representamos que prevejo dias difíceis para os jornalistas e blogueiros de oposição. Tentarão nos calar de todas as formas. Os processos judiciais se somarão às batidas acusações de que recebemos dinheiro para pensar como pensamos e defender o que defendemos (nos julgam pelo que são). Todo blogueiro e jornalista independente deve tomar muito cuidado com as palavras agora. Governos ilegítimos adoram a censura. Confesso que ainda me choca, como jornalista, assistir os principais veículos de comunicação do País passarem da oposição à adulação em um piscar de olhos. Vamos ver o que o governo de Michel Temer dará à atual mídia chapa branca como recompensa. Será o suficiente para salvar a carcomida imprensa da falência? Duvido. Ninguém mais quer ler isso. Desde que o PT chegou ao poder, em 2003, que jornais, TVs e revistas esqueceram o jornalismo para se transformarem em panfletos de oposição. Jornalismo se faz com boas histórias, não só com denuncismo.

Pig 2Não é à toa que os leitores vêm minguando ao longo desta última década, e continuarão a minguar. Não há qualquer perspectiva de melhora na qualidade do jornalismo produzido ali. A novidade, o frescor, está no digital e nas iniciativas independentes. Ao longo destes anos petistas, a mídia hegemônica ganhou o nada honroso apelido de PIG (Partido da Imprensa Golpista), que sempre refutou. Agora que participou ativamente de outra deposição de chefe de Estado legitimamente eleito, não há como fugir. O epíteto de PIG cabe à perfeição na velha mídia brasileira. E poderá lhe servir de epitáfio.


♦ Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialista Morena (www.socialistamorena.com.br)

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manipulação em 10 lições-N Chomsky
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Galeano7

CAMPOS DE EXTERMÍNIO MENTAL – A classe mídia e o mainstream do Golpe @ O Cafezinho

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Ao que tudo indica, a classe média que serviu de massa de manobra para o golpe tornou-se uma autêntica classe mídia, e isso tem que ser entendido a partir do mainstream que dominou no Brasil nos últimos anos. Para essa nova classe mídia, a televisão foi, em especial na última década e meia, um vasto campo de extermínio mental. Um dos efeitos dessa liquidação em massa da inteligência foi o ódio à cultura. Basta atentar para a perseguição aos artistas, chamados de vagabundos, ao clima de caça às bruxas instaurado contra a Lei Rouanet, às agressões à classe artística nas redes sociais.

É difícil, porque vivemos todos sob o peso dessa atmosfera, ganhar a distância suficiente para fazer o diagnóstico desse período. Mas podemos esboçar um breve inventário da tragédia que foi a programação servida na mesa durante a última década e meia. Tomo esse período de uma década e meia porque já estamos na 16ª edição do Big Brother, portanto, já temos quase uma geração de brasileiros que nasceu e cresceu sob esse império da visibilidade, da invasão de privacidade, do desejo de devassar com o olhar espaços que, em principio, estariam resguardados dessa intrusão.

Entre outras coisas, talvez sejam esses dezesseis anos de Big Brother, mas não só eles, que tornaram tão aceitáveis os vazamentos de delações premiadas (e até as próprias delações), a divulgação de conversas grampeadas, a exposição de espaços privados (como o interior dos cômodos do sítio que a Lava Jato quer que seja de Lula a qualquer preço). Sem os vícios adquiridos nesses anos de reality shows, seria difícil que não soasse repulsivo à maioria dos brasileiros esse regime de invasão, espionagem e divulgação criminosa. Mas a mídia nos anestesiou contra a indignação.

Para se ter um breve vislumbre da dimensão do poder de impacto dessas mídias, é bom ter presente que o Brasil tinha em 2014, só contando as TVs comerciais, 6.197 retransmissoras, com 272 geradoras sendo 39 com sinal digital. A Rede Globo sozinha controla 124 dessas emissoras. Já para as rádios, contando apenas AM e FM, as emissoras chegam a 3.089. Dessas rádios, a Globo informa possuir 11 emissoras próprias e 61 afiliadas. Esses números não deixam dúvidas quanto ao poder e ao impacto dessa mídia privada para impor interesses e reduzir as cabeças.

Mas o mais nefasto é quando se constata que o poder de fogo da artilharia pesada desse aparato da mídia se concentra em uma programação extremamente tóxica. O inventário que faremos aqui está longe de ser exaustivo. Vejamos:

1) Tivemos 16 anos de Big Brother Brasil, aos quais se deve acrescentar as inúmeras outras variações do modelo reality show no país. Uma wiki dedicada ao tema lista nada mais nada menos que 86 programas nessa modalidade no período. O que isso representa em termos de idiotização em massa está na casa do imponderável ou dos números astronômicos. O pior é a avidez pela privacidade alheia, a incitação do desejo de sobrepujar qualquer barreira posta à visão. O que esse modelo constrói é um tipo de delinquência visual que, no fundo, nos ensina que nenhuma interdição (e as leis são interdições) devem ser respeitada.

2) Outro feijão com arroz na telas dos brasileiros tem sido o telejornalismo policial em programas como Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta, que celebrizaram o tipo de narrador autoritário, grosseiro, que simula uma caricatura de apresentador mais próxima de um bicheiro que de um comunicador de massa. Além dos clássicos das grandes emissoras, como Datena, o formato se reproduz às centenas pelo país inteiro, em não só na TV mas também na forma do radiojornalismo policial. O medo de ser vítima daqueles tantos crimes narrados diariamente e a busca de proteção em figuras fortes (teatralizadas pelos próprios apresentadores), é um ingrediente antidemocrático. Tanto pela descrença que infunde – e uma persistente aversão aos direitos humanos, alimentada pelo bordão de que só se protege o bandido e não o “homem de bem” –, quanto pela ideia de que a solução para o crime passaria por alguma figura autoritária (juiz, justiceiro, delegado, etc.) que poria fim ao estado de violência. O debate sobre as origens da violência, o debate público e qualificado, não tem lugar nessa programação.

3) O veneno é servido na mesa também na forma dos programas humorísticos que, sob o manto da crítica ao politicamente correto, investem na propagação do assédio moral (Danilo Gentili, Rafinha Bastos, o falecido CQC, o Pânico, etc.). Uma das faces interessantes desse humorismo é que se apresenta como moderno e inovador quando, na verdade, reedita e até agrava os defeitos do velho humorismo tacanho. Lembrem-se das diversas piadas sobre o estupro protagonizadas por Danilo Gentili. Um exemplo é a piada contada e recontada em inúmeros shows pelo Brasil, um clássico da imbecilidade, desde 2011:

“─ Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia… Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.”

Essa dose cavalar de insensatez foi reprisada em uma das pérolas do humorista em 2012, seguindo o mesmo padrão de apologia à violência sexual contra a mulher: “Um cara esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá para um cara desses: gênio. “

Lembremos também que Gentili é uma das figuras que, através de diversas investidas grotescas, reeditou as práticas racistas que explodiram nas redes nos últimos anos. A sua ‘piada’ perguntando a um rapaz negro que o questionava no Twitter quantas bananas queria para acabar com uma discussão, foi um marco nesse sentido. Não há surpresa, principalmente depois que o caso foi julgado e o humorista absolvido por um juiz bem humorado, em que atrizes, apresentadoras e cantoras negras tenham sofrido barbaramente nas mãos dos racistas nos últimos meses.

4) Um enorme reforço a essa tendência racista vem com a predominância na TV brasileira das apresentadoras louras, por um lado, e da quase exclusão completa das negras, de outro. Não se discute a qualidade ou o talento, mas apenas o fato de que a TV insista em privilegiar e impor um único modelo de beleza através da seleção de apresentadoras louras: Angélica, Xuxa, Eliane, Adriane Galisteu, Ana Maria Braga, Ana Hickmann, Sheherazad, Andressa Urach, etc. O mais trágico, nesse caso, é que esse modelo se repete numa infinidade de programas locais, tanto na modalidade do entretenimento quanto nas bancadas dos telejornais regionais. Além dos nomes citados, o Brasil tem hoje centenas de apresentadores louras que se sucedem ao longo do dia nas telas de muitos milhões de espectadores pelo país afora.

E que ninguém diga que a televisão brasileira, ao conceder esse monopólio às louras, segue uma tendência internacional. Muito pelo contrário. A apresentadora mais bem paga do mundo, e mais conhecida na atualidade, é Oprah Winfrey, uma mulher negra e de meia idade.

5) Outro aspecto significativo dessa mídia é transformação crescente dos Portais em locais de exposição de corpos femininos, retalhados segundo uma lógica de fragmentação mental semelhante a que exibe peças de carne em um açougue. A mulher é exposta em partes (“barriga”, “bumbum”, “coxas”, etc.) sobre as quais se aplicam rótulos classificatórios (por exemplo, a barriga é rotulada como barriga sarada, barriga negativa, barriga trincada, barriga chapada, barriga tanquinho, barriga definida, barriga perfeita, etc. ). Cada vez mais se impõe um modelo que se assemelha aos manequins de vitrine, quer dizer, como um objeto sem vida. O interessante desse modelo de corpo, o que faz dele um modelo de corpo morto, é que ele desconhece duas coisas, essenciais na beleza dos corpos vivos: o detalhe e os gestos. O detalhe é o que uma percepção sensível apreende no outro e que são singularidades intransferíveis (a beleza de uma boca, um nariz, ombros, de sardas, de tonalidade da pele, etc.). O gesto, evidentemente, é a expressão de um corpo com a carga de personalidade que ele carrega. A destruição dessas referências é um modo de privar os espectadores do conhecimento e da experiência, e colocar em seu lugar algo que qualquer imbecil pode reconhecer e valorizar e que, na verdade, só reconhece e valoriza porque é imbecil (o corpo sarado, a barriga trincada, etc.).

O que tem de monstruoso e trágico nessa compreensão do corpo ficou patente justamente com um dos produtos extremos dessa nossa mídia nos últimos tempos, a história da modelo e apresentadora Andressa Urach. O regime químico monstruoso ao qual submeteu seu corpo, para se enquadrar e se manter dentro de certa estética do corpo objeto, foi denunciado pela própria degradação física extrema que acabou por se manifestar. E o espetáculo chegou ao flerte total com o horror, quando a modelo posou no hospital e vendeu as imagens das suas chagas. E nisso, na verdade, não poderia haver nada de errado já que era o mesmo comércio do corpo que ela fazia enquanto apresentadora e musa e, como confessou em livro logo depois, também como prostituta. Enfim, o modelo do corpo parcelado e vendido nos Portais talvez tenha mesmo por base, como seu modelo implícito, o mercado da prostituição. E ao tentar seduzir o leitor através da venalidade desses corpos retalhados, a mídia não faz outra coisa que degradar a sociedade num imenso sistema de meretrício.

6) Muito próximas dessa exibição do corpo como objeto aparecem ainda duas modalidades de exposição violadora: a dos assassinatos flagrados por câmeras de segurança e a de cadáveres originados de mortes violentas, seja de crimes ou acidentes de trânsito. Esta segundo modalidade não é o carro chefe das redes nacionais de TV e dos grandes portais na internet, mas não está ausente deles, aparecendo com relativa frequência. Já nas televisões regionais, em especial no interior do país e nos programas do telejornalismo policial, chega-se ao paroxismo de exibir da forma mais crua corpos mutilados, vítimas agonizantes, etc. É uma normalização do obsceno em grande escala. Nessa obscenidade os grandes portais investem também, mas o fazem através daquela primeira modalidade, a dos vídeos das câmeras de segurança. A diferença é que em grande parte dos casos, os assassinatos das câmaras de segurança são encobertos. Há alguns anos era comum que fossem apresentados mas hoje, com o público já viciado, basta apresentar algumas cenas do que as câmeras registraram.

O quadro geral é esse. Muitas coisas poderiam ser acrescentadas a ele. Por exemplo, o imenso universo do que Manuel Castells chamou de auto-comunicação de massas (as redes, os blogs, o compartilhamento de mensagens, vídeos e imagens pelos celulares, etc.). Se entrássemos aqui o horror só faria crescer. Certamente, nesse caso, temos também muitas tendências de uma nova mídia, livre dos vícios nefastos da grande mídia brasileira. Contudo, viceja ai também o pântano da submídia que repercute, até de forma mais chocante, o universo da violência presente nas grandes redes.

Muito provavelmente, sem que a percepção fosse trabalhada maciçamente por essas formas que violam o pensamento, a compreensão, o gosto, a experiência do que é aceitável e do que não é, as interdições em relação ao mundo público e ao mundo privado, e que promovem atitudes e personagens antidemocráticos, o golpe não teria espaço para vingar no Brasil. Compreender as diversas regressões mentais, sociais, políticas e estéticas operadas pela mídia dominante no Brasil é a tarefa prévia para imaginar um sistema de comunicação democrático. Certamente, se houver luz e câmera no final do túnel escuro que atravessamos hoje, não bastará que a comunicação ganhe caráter público. Ela terá que começar encontrando formas de curar as lesões profundas causadas por esses anos em que, para a maior parte da população brasileira, a mídia tem funcionado como um campo de extermínio mental.

Por Bajonas Teixeira de Brito Junior –http://www.ocafezinho.com/2016/06/24/campos-de-exterminio-mental-a-classe-midia-e-o-mainstream-do-golpe/

LIVROS MUDAM VIDAS @ GLÜCK PROJECT

Livros Mudam Vidas 2
Livros Mudam Vidas 3
Livros Mudam Vidas 4

Camarada Fred DiGiacomo com a palavra:

“Nós do Glück acreditamos que a educação, aliada ao hábito de ler livros, é a melhor arma numa revolução pacífica que pode mudar as pessoas e o mundo. Acreditamos que leitura e estudos podem ajudar as pessoas a transformarem suas situações e suas histórias, a conquistarem autonomia e a se conhecerem melhor.

Já tínhamos publicado aqui um texto contando como os livros mudam vidas e também um texto indicando livros que podem te fazer uma pessoa mais feliz. Aí ficamos quebrando a cabeça para pensar como poderíamos estimular as pessoas a lerem um pouco mais. A resposta foi tentar mostrar que pessoas incríveis tiverem suas vidas transformadas por livros. Foi um livro que ajudou o rapper Dexter a sair da cadeia, foi um livro que fez a blogueira Karol Pinheiro a virar jornalista e foi um livro que transformou o DJ KL Jay, dos Racionais,em vegetariano. Sem um livro, Cynara Menezes não seria hoje a Socialista Morena e, provavelmente, o escritor Ferréz teria uma vida muito mais dura na periferia de São Paulo. Livros salvam vidas.

Acredite. Eles salvaram a minha. :-)

Abaixo a gente reuniu 12 pessoas legais (músicos, escritores, empreendedores, ativistas e jornalistas) que nos contaram que livros mudaram suas vidas. E, você? Que livro mudou sua vida? Compartilhe conosco, usando a hashtag #livrosmudamvidas!

SIGA VIAGEM:
http://www.gluckproject.com.br/livros-mudam-vidas/

Livros Mudam Vidas

“Cresci no interior da Bahia nos anos 1970 e pouco ouvíamos  falar, por lá, sobre a ditadura militar. Aprendíamos na escola a marchar no 7 de setembro e que a princesa Isabel e dom Pedro I eram heróis. Qual não foi a minha surpresa ao ler, já no segundo grau, o livro “História da Sociedade Brasileira, de Francisco Alencar e Lúcia Carpi… Ali dizia todo o contrário: que os negros foram jogados à própria sorte após a abolição e que pagamos indenização pelos “danos” causados pela independência, por exemplo. Falava dos horrores da tortura, dos desaparecidos, da repressão. Foi um choque. Este livro foi fundamental para mim, me transformou em uma pessoa de esquerda e até hoje não esqueço o poema de Bertolt Brecht, Perguntas de Um Operário que Lê, que lhe servia de introdução. E o mais curioso: somente há dois anos descobri que o autor Francisco Alencar é o deputado federal Chico Alencar, do PSOL.”

CYNARA MENEZES, Socialista Morena

DARCY RIBEIRO – UM BRASILEIRO [Documentário Completo]

darcy.jpgDARCY RIBEIRO – UM BRASILEIRO
Documentário Completo

Leia post da Socialista Morena
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o-povo-brasileiro-darcy

“O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil “, Darcy Ribeiro (Cia das Letras, 1995) DOWNLOAD EBOOK (PDF, 28 MB)

Re-eleição de Dilma comentada por Jean Wyllys, Cynara Menezes, Fernando Haddad, The Guardian, Sakamoto, dentre outros [A CASA DE VIDRO.COM]

Dilma Muda Mais

É TETRA! PT É ELEITO PARA A PRESIDÊNCIA PELA 4ª VEZ CONSECUTIVA

Jean Wyllys comenta a re-eleição da presidenta Dilma Roussef: “Não passarão, a gente disse — e não passaram! (…) Tem momentos históricos em que a gente precisa se unir para impedir um retrocesso, para não perder o que conquistamos, mesmo que esteja aquém dos nossos sonhos e utopias”, declarou Wyllys.

“A eleição do Aécio Neves teria sido uma tragédia para o Brasil não apenas pelo que ele mesmo representa, com sua arrogância machista, seu macartismo vintage, seu neoliberalismo radical e seu udenismo, falso como todo udenismo, mas também pelo conteúdo que sua campanha representou”, completou. [Jornal GGN]

O Brasil barrou o retrocesso… agora é expandir os avanços, nas redes e nas ruas, na demanda e na luta, puxando o PT pra esquerda com as múltiplas vozes dos movimentos sociais… Avante, MST – Movimento dos Trabalhadores Sem TerraPasse Livre São PauloMovimento Xingu Vivo para SempreNINJAJornal A Nova DemocraciaMtst Trabalhadores Sem Teto, Marcha da Maconha, PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), Agência Pública, Mães de Maio, entre tantos outros corações valentes!

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EXISTE AMOR EM SP?

Dilma Vitoria 3
Dilma Vitoria

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Fernando Haddad (o provável candidato do PT à presidência em 2018?), na Avenida Paulista, discursa frente à multidão que comemora a re-eleição de Dilma Rousseff. Haddad garante que a reforma política será prioridade, que os entulhos autoritários da sociedade brasileira precisam ser superados, e que o Brasil não deve se cindir em dois mas abraçar sua unidade. Ele aproveita também para alfinetar a sórdida campanha de Aécio Neves e do PSDB, em conluio com a imprensa burguesa golpista (vulgoP.I.G.), bradando: “Não se vence eleição no tapetão!” Não há dúvidas de que a revista Veja, da Abril, não escapará de punições na justiça e boicotes da população após seu crime eleitoral. Confira o vídeo de Haddad:

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Cynara

“A elite brasileira e a imprensa que a representa odeiam, em primeiro lugar, Lula. Não porque Lula despreza as famílias que são donas dos meios de comunicação. É o contrário: Lula despreza as famílias que são donas dos meios de comunicação porque sempre foi maltratado por seus jornais, TVs e revistas, porque foi vítima de seu enorme preconceito de classe. A elite e a imprensa que a representa não suportam que não seja um dos seus que esteja à frente do poder no Brasil. Dilma Rousseff achou que podia seduzir a imprensa, atraí-la para seu lado. Doce ilusão. Foi um dos maiores erros do primeiro mandato e espero que corrija no segundo.” Cynara Menezes, a Socialista Morena

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COMO VOTOU O BRASIL:

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AMERICA LATINA

Líderes da América Latina, relata a Carta Capital, também celebram a re-eleição de Dilma Rousseff: os presidentes da Venezuela (Nicolás Maduro), do Equador (Rafael Correa) e da Argentina (Cristina Kirchner) mandam suas saudações à presidenta re-eleita. O sucessor de Chávez na presidência venezuelana, Maduro, manifestou-se pelo twitter: “Dilma venceu a guerra suja e a mentira” (uma menção às calúnias golpistas a que o PSDB de Aécio Neves recorreu, em conluio com a imprensa burguesa?) “Pôde mais a verdade de um povo que mira o futuro com esperança.” Pelo jeito, a VEJA pode até esbravejar e a Rede Globo pode até espernear, mas nos próximos anos a reforma da mídia e a reforma política vão ser top-prioridade do governo federal e do PT, assim como a estreitação dos laços e dos intercâmbios latino-americanos, para horror dos paranóicos reacionários que tem pavor do “bolivarismo”… 

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REPERCUSSÃO INTERNACIONAL: THE GUARDIAN

Glenn Greenwald

Dilma Rousseff pledges unity after narrow Brazil election victory

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Leia também:

 

FASCISMO INC: Como os capitalistas financiaram o nazi-fascismo de Hitler e Mussolini – por Cynara Menezes (Socialista Morena) [Assista o doc completo]

FASCISM INC

FASCISMO INC.
Dirigido por Aris Chatzistefanou
(Grécia, 2014, 83 min)
Infowars Productions
Dos mesmos produtores de Dividocracia e Catastroika

por Cynara Menezes (Socialista Morena)

Quem fornecia o pesticida Zyklon-B (cianeto de hidrogênio) colocado nas chamadas “câmaras de gás” utilizadas pelos nazistas para exterminar milhões de judeus? A empresa alemã IG Farben, antecessora da mesma Bayer que continua a fornecer inseticidas mundo afora.

A ignorância em torno do socialismo não resiste a cinco minutos de pesquisa no Google. A mais recorrente mentira que a direita tenta espalhar e que encontra receptividade em jovens sem leitura, desconhecedores da história e que se contentam com meia dúzia de frases nas redes sociais, é que o sanguinário Adolf Hitler foi um socialista. Isto baseado na “genial” sacada de que o nome do partido dele era Partido Nacional Socialista. Certamente devem achar que a Coréia do Norte é democrática e popular, já que se chama República Democrática Popular da Coréia. Ou talvez o PSB brasileiro seja socialista, né?

Vários esquerdistas na rede perderam algum tempo desmentindo a idiotice. Os melhores links, em minha opinião, estão no artigo Detonando a Mentira de que os Nazistas eram de Esquerda (em inglês), onde o blogueiro e tuiteiro Shoq escancara o total nonsense desta história. Mas o cineasta independente grego Aris Chatzistefanou foi além e praticamente desenhou para quem se recusa a pesquisar ou pelo menos usar a lógica.

A ascensão do nazismo de Adolf Hitler na Alemanha e do fascismo de Benito Mussolini na Itália durante os anos 1920, 1930 e 1940 só foi possível com a colaboração e o suporte financeiro de grandes corporações ainda hoje poderosas: BMW, Fiat, IG Farben (Bayer), Volkswagen, Siemens, IBM, Chase Bank, Allianz… Sem contar, é claro, com os grupos de mídia.

A sede da BMW, em Munique, fica localizada a 12 km de distância de onde ficava o campo de concentração de Dachau. Nesta foto de 1943, pode-se ver o trabalho forçado realizado nas fábricas da BMW por aqueles que haviam sido encarcerados em Dachau, reconhecíveis por seus uniformes listrados. Fonte: Forced Labor / BMW Group Archiv.

A sede da BMW, em Munique, fica localizada a 12 km de distância de onde ficava o campo de concentração de Dachau. Nesta foto de 1943, pode-se ver o trabalho forçado realizado nas fábricas da BMW por aqueles que haviam sido encarcerados em Dachau, reconhecíveis por seus uniformes listrados. Fonte: Forced Labor / BMW Group Archiv.

O filme Fascismo Inc. é o terceiro feito por Chatzistefanou para mostrar as origens da crise econômica na Europa e na Grécia em particular. São imperdíveis também os primeiros da série: Dividocracia e Catastroika, que denunciam a bolha imobiliária e depois a “ajuda” do FMI (Fundo Monetário Internacional), fiel à sua velha cartilha de socorrer os ricos em detrimento dos pobres. Em Fascismo Inc., o cineasta esmiúça a estreita colaboração de industriais e banqueiros com os nazistas para perseguir e destruir o sindicalismo e os socialistas, a quem chamavam de “terroristas” (qualquer coincidência com o Brasil de hoje será mera semelhança). Detalhe: Hitler extinguiu o Partido Comunista alemão um dia depois de tomar posse.

O documentário relata inclusive como a perseguição aos judeus não foi apenas uma questão racial, mas também tinha interesses econômicos. Como os judeus integravam uma poderosa classe média na Alemanha de então, os nazis se utilizaram do racismo para fazê-los bode expiatório da crise, acusando-os de “roubar os empregos” dos alemães não por acaso, o mesmo discurso que a direita utiliza atualmente em relação aos imigrantes na Europa. O fascismo de Benito Mussolini não foi, ao contrário do que os ditadores pregavam, um movimento de massas: o rei Emanuel III entregou o poder a Mussolini porque era o que queriam as indústrias do Norte da Itália. Para confrontar as massas de esquerda, era preciso criar um movimento de massas de direita. Que melhores líderes para isso do que o psico Adolf e o fanfarrão Benito?

O filme mostra ainda como, no tribunal de Nuremberg, as empresas envolvidas com o nazismo foram submetidas a uma pantomima de condenação. Enquanto os oficiais nazis foram enforcados, quem entrou com o dinheiro para financiar a empreitada foi solto anos depois os diretores da IG Farben (Bayer), que fornecia os químicos para matar gente, foram condenados a no máximo 8 anos.

Mas o pior são os sinais que Chatzistefanou está vendo, na sociedade grega, de recrudescimento deste nazi-fascismo financiado pela grana: os partidos neonazis gregos são apoiados por parte da elite econômica e dos grupos de mídia (olha eles aí de novo) do país. E o cineasta está convencido de que é uma tendência que pode se espalhar como consequência da crise. “Nosso lema é: ‘o que acontece na Grécia nunca fica na Grécia. Temo que este crescimento da extrema-direita e movimentos neo-nazistas que estamos vendo nos últimos anos na Grécia apareçam em outros países da Europa onde a austeridade foi imposta do mesmo jeito” (leia mais aqui).

Muita gente usa a tirania do ditador soviético Josef Stalin para atacar a esquerda. Stalin (cujo exército, por sinal, derrotou os nazistas) é acusado da morte de milhões, mas o socialismo foi uma de suas vítimas. Hitler também matou milhões, mas o capitalismo não sofreu sob o nazismo ou o fascismo. Pelo contrário: foi seu financiador.

Assistam o filme, é muito bom. Legendas em português.

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Assista também, dos mesmos produtores,
na íntegra e legendados em português: