CONTRIBUIÇÕES PARA UM NATAL VERMELHO! – Leminski, Boulos, Freixo

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Jesus Cristo segundo Paulo Leminski

Profeta, poeta, utopista: Jesus aparece a Leminski como tudo isso junto e misturado. Este messias, tão incômodo quanto um Spartacus (ambos terminaram pregados na cruz pelos romanos), demandava um outro mundo e teve sua boca calada com violência. Em uma interpretação que talvez soe herética aos ouvidos daquelas seitas cristãs mais conservadoras e elitistas, Leminski reclama que a utopia de Jesus seja inserida na galeria do socialismo utópico. E denuncia os inúmeros desvios e perversões que transformam a mensagem de Jesus de Nazaré em algo capaz de produzir Cruzadas, Inquisições e Massacres.

“O Reino de Deus era a restauração da autonomia nacional do povo hebreu. Sobre isso, a autoridade romana não se equivocou, ao pregar o profeta na crux, exemplar suplício com que os latinos advertiam os rebeldes sobre os preços em dor da sua insurreição. Esse o suporte material, sócio-econômico-político, da pregação, por Jesus, de um (novo) Reino, um (outro) poder. Nessa tradução/translação do material para o ideológico, Jesus forneceu um padrão utópico para todos os séculos por vir. As duas grandes revoluções, a Francesa e a Russa, estão carregadas de traços messiânicos de extração evangélica. Ambas prometeram a justiça, a fraternidade, a igualdade, enfim, a perfeição, o ideograma da coisa-acabada projetada sobre o torvelinho das metamorfoses. Natural que seja assim. Afinal, as utopias são nostálgicas, saudades de uma shangrilá/passárgada, estado de excelência que lá se quedou no passado, Idade de Ouro, comunidade de bens na horda primitiva, antes do pecado original da divisão da sociedade em classes, plenitude primitiva, paleolítica, intra-uterina, antes do pesadelo chamado História.

A revolução é o apocalipse, o Juízo Final de uma ordem e de uma classe social: o cristianismo primitivo cresceu à sombra da expectativa da segunda vinda, quando Jesus, vitorioso sobre a morte, voltaria, apocalipticamente, para julgar, ele que foi julgado e condenado pelas autoridades: o retorno do reprimido, a vendeta, o acerto de contas entre os miseráveis da terra e seus prósperos opressores e exploradores. (…) O programa de vida proposto por Jesus é, rigorosamente, impossível. Nenhuma das igrejas que vieram depois invocando seu nome e cultuando sua doutrina o realizou. Religião saída de Jesus não poderia ter produzido Cruzadas, inquisição, pogrons e as guerras de religião entre católicos e protestantes, que ensangüentaram a Europa nos séculos XVI e XVII. O programa de Jesus é uma utopia. Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais.” (PAULO LEMINSKI, Vida, Cia das Letras, p. 221)

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Natal Sem Hipocrisia
Guilherme Boulos

“Jesus Cristo, do modo como nos apresenta a Bíblia, não era um apologeta da ordem e da tradição. Enfrentou os poderosos de seu tempo e defendeu ideias que a consciência dominante não podia admitir.

Não por acaso morreu na cruz, depois de perseguido, preso e torturado. Como gosta de lembrar Frei Beto, Jesus não morreu de hepatite na cama nem atropelado por um camelo em alguma esquina de Jerusalém. Morreu como preso político nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Isso, as escrituras nos dizem.

Nos falam também sobre as razões que fizeram de Jesus tão odiado pelos poderosos. Defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19-24).

Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social: “Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lucas 1, 53). E assim o fez, partilhou o pão e os peixes entre todos (Marcos 6,41).

Jesus enfrentou também decididamente os preconceitos, como mostra o caso bíblico da mulher samaritana (João 4, 1-42). Acolheu os marginalizados (Marcos 7, 31) e foi misericordioso com as prostitutas (Lucas 7, 36-50). Combateu o ódio e intolerância.

Hoje, mais de dois milênios depois, nosso mundo permanece profundamente desigual. Os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. Os donos do poder, via de rega, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la.

Muitos dos que hoje se dizem cristãos consideram a desigualdade como fato imutável e a legitimam pelo discurso hipócrita da meritocracia. Sem falar no ódio e na intolerância. Defendem o linchamento público de “marginais”, silenciam como cumplicidade ante a chacina da juventude negra nas periferias, ofendem homossexuais e toleram a agressão à mulheres.

Jesus dedicou sua vida à igualdade, justiça e paz entre os povos. Se reaparecesse em 2014, no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da internet. Seria chamado de bolivariano na avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria a ele:”Vai pra Cuba, Jesus!”

LEIA O ARTIGO NA ÍNTEGRA

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O NATAL DOS COVARDES
Marcelo Freixo

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

(…) Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: “quando vier, que venha armado”.

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

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Laerte

Jesus Cristo segundo Paulo Leminski

“Ecce Homo”, de Caravaggio

 JESUS SEGUNDO LEMINSKI

Uma exploração da bio publicada em “Vida” (Cia das Letras)

por Eduardo Carli de Moraes

O signo Jesus é um dos mais polissêmicos da História humana: sobre o crucificado empilham-se interpretações inumeráveis. Leminski, quando produz sua biografia, publicada em 1984, procura apresentar sua perspectiva de Jesus como um “subversor da ordem vigente, negador do elenco dos valores de sua época e proponente de uma utopia“. Também deseja “revelar o poeta” por trás do profeta (p. 159). A obra inicia-se brincando de noticiário e relatando feito imprensa marrom um factóide ocorrido em Jerusalém:

Pintura de Rembrandt: Jesus expulsa os vendilhões do Templo.

Pintura de Rembrandt: Jesus expulsa os vendilhões do Templo.

“Alguém que atende pelo nome de Jesus invadiu as dependências do Templo, agredindo e expulsando toda a casta de vendedores que ali exercia seu ofício. O lunático, galileu pelo sotaque, entrou, subitamente, chutando as mesas dos mercadores de pombas e outros animais destinados ao sacrifício. Na confusão que se seguiu ao incidente, entre as moedas que rolavam pelas escadas, gaiolas quebradas, pombas que voavam, acorreram os guardas, que não conseguiram deitar mãos no facínora. O tal Jesus desapareceu no meio da multidão. A reportagem apurou que o referido é natural de Nazaré, na Galileia, filho de um carpinteiro. Arrebanhou inúmeros seguidores entre os pescadores do mar da Galileia. Dizem que opera milagres. E descende, por linha direta, do rei Davi.” (p. 160)

O Jesus de Leminski raia no céu do livro com certos arroubos anarquistas, enfurecido contra os adoradores do vil metal, movido pelo desejo de dilacerar os idólatras do bezerro de ouro. Este gesto radical interessa intensamente a Leminski, que sabe muito bem que um poeta não precisa traficar somente com palavras escritas, mas pode expressar-se com seus atos, através de seus ditos e feitos. Como Sócrates e Sidarta Gautama (o Buda) antes dele, Jesus não deixou nada escrito de próprio punho; no entanto, “mudou o mundo como poucos” (p. 165).

Para compreender as raízes e o contexto sócio-cultural de onde emergiu Jesus de Nazaré, Leminski faz-se historiador e pondera:

“O Oriente Médio era o lugar culturalmente mais rico da Antiguidade. (…) Essa parte do globo, afinal, foi berço do judaísmo, do cristianismo e do Islã, as religiões de Moisés, Jesus e Maomé. Não nos deixemos iludir pelas aparentes diferenças entre essas três confissões religiosas, nem por seus conflitos históricos. Com variantes de detalhes, as três afirmam, no fundo, os mesmos princípios: o tribal monoteísmo patriarcalista, o moralismo fundado em regras estritas, a tendência ao proselitismo expansionista, a intransigência. ‘Não haverá outros deuses diante de ti’, parecem dizer as três, afirmando Javé, Jesus e Alá.”

Jesus insere-se numa longa tradição de profetas que anunciam o advento futuro de um certo Reino de Deus, “a começar por esse extraordinário Isaías, que Jesus, superpoeta, gostava de citar. (…) Pela extrema criatividade imagética, voos quase surrealistas de fantasia, vigor e pujança de expressão e formulação, Isaías tem de ser contado entre os grandes poetas da humanidade, no time de Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Bashô, Goethe.” (p. 167)

Leminski também sabe muito bem que o ofício dos profetas do Antigo Testamento desenvolve-se “no auge das agruras que afligiram o povo hebreu, estraçalhado entre os poderes do Egito e da Babilônia-Assíria. (…) Nesse quadro, os profetas exerceram agudo papel político, como assessores e conselheiros dos reis de Judá e Israel. Alguns pagaram com a vida esse envolvimento direto com a História. Quer a lenda que Isaías, aos cem anos de idade, por intrigas de cortesãos, foi acusado de alta traição, condenado à morte e serrado ao meio. (…) A profecia sempre foi uma profissão perigosa.” (p. 168-169)

Jesus, antes de mais nada, é um judeu, que traz em seu próprio corpo a marca de sua pertença aos hebreus: “era circuncidado”. Já adulto, aos 30, Jesus será batizado por João no Rio Jordão, um rito “articulado com a confissão dos pecados, com a categoria ascética da penitência. (…) Entre os judeus, esse rito parece que começou a competir com o da circuncisão, a ablação do prepúcio, que sempre foi, desde Abrão, a marca distintiva do Ham Israel. A história dos conflitos originais entre o judaísmo e o cristianismo poderia ser, liturgicamente, entendida como uma luta entre os ritos da circuncisão e do batismo.” (p. 171-172)

Entre Moisés e Jesus, há um abismo de tempo, cerca de um milênio. Segundo Leminski, “Jesus veio para exagerar a pureza da doutrina de Moisés” (p. 174):

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Moisés

“Entre Moisés e Jesus, há, pelo menos, um bom milênio. Natural que, em mil anos, a religiosidade judaica tenha evoluído para exigências mais sofisticadas e formas mais complexas e abstratas de expressão. Afinal, quando Moisés formulou a Lei, os hebreus eram um povo de beduínos nômades, recém-fugido do cativeiro no Egito, onde os faraós da XXIII Dinastia os empregavam, como escravos, entre dezenas de outros povos, na edificação dos templos e palácios que fizeram a glória do país do Nilo. Depois disso, o povo hebreu passou por uma extraordinária peripécia histórica, conquistando Canaã, constituindo-se em Estado, triunfando com o rei Davi, prosperando com seu filho Salomão, vivendo, enfim, toda a complexidade política e militar dos reinos semitas do Oriente Médio, primeiro, estraçalhado entre as superpotências egípcia e assíria, depois, invadido por persas, gregos macedônios e, enfim, romanos. Por bem ou por mal, a Palestina e o povo hebreu se viram envolvidos pela imensa onda de helenismo que desabou sobre a Ásia com a invasão de Alexandre. A doutrina de Jesus representa uma resposta criativa aos novos tempos que o povo judeu vivia.” (p. 176)

Pieter Brueghel, O Jovem - Cristo e a Adúltera (1600)

Pieter Brueghel, O Jovem – Cristo e a Adúltera (1600)

Jesus não respeita com ortodoxia perfeita os rituais mosaicos, como prova o episódio célebre da adúltera. Uma mulher foi pega no flagra traindo seu marido e “conforme a lei mosaica, a adúltera deveria ser apedrejada pelo povo até a morte” (p. 177). Um sintoma evidente de que estamos diante de uma religião patriarcal e, portanto, machista, é o fato de que o homem que pratica o adultério não é de modo algum sujeito a tais rigores punitivos. Dois pesos, duas medidas. Diante do iminente apedrejamento da adúltera, Jesus lança a provocação:

Quem não tiver pecado
Atire a primeira pedra.

Leminski comenta:

“Homem assim não ia ter vida longa nem morrer na cama. Ia ter um fim como João, seu ‘guru’ e batista, que teve a cabeça cortada por Herodes. Isaías, serrado ao meio. Jeremias, exilado no Egito… A vida de um nabi não era muito segura. Não se brinca, impunemente, com os poderes deste mundo. Jesus chegou a tocar no sacrossanto repouso do sábado, talvez, com a circuncisão, os dois ritos fundamentais do judaísmo. É extraordinariamente minucioso o elenco de proibições, interditos e tabus do sábado judaico, o dia em que se repete, ritualmente, o descanso de Javé, no sétimo dia, depois de criar o universo. No sábado judeu, as atividades são reduzidas a um mínimo. Rabinos extremamente meticulosos, ao longo dos séculos, foram legislando os gestos que violam o sábado, indo do trabalho à alimentação da vida diária à sexual, limitando até o número de passos lícitos, nesse dia de não fazer nada. Ora, sucedeu que, num sábado, discípulos de Jesus passavam ao lado de um campo de trigo. Estavam com fome, agarraram espigas e as comeram. Fariseus estavam presentes e, escandalizados, interpelaram Jesus: ‘Teus discípulos violam o sábado’. É proibido colher nesse dia. Jesus arrasou: ‘O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado’.” (p. 178)

Agindo menos como teólogo e mais como historiador, Leminski prefere retratar Jesus em seu contexto social e político, em suas interações intersubjetivas, não se aventurando muito a comentar ou criticar as lendas transformadas em dogmas – como a concepção imaculada ou a ressurreição no terceiro dia após a execução. Jesus é essencialmente uma figura subversiva aos olhos do status quo imperial romano, essencialmente um inovador perigoso que é visto com desconfiança pelas autoridades judaicas instituídas. Por isso a biografia leminskiana tem um certo sabor realista, similar àquele que anima o filme de Pier Paolo Pasolini, O Evangelho Segundo Mateus. Podemos polemizar o quanto quisermos sobre os supostos super-poderes milagreiros do nazareno, mas o inegável é que, como figura histórica, Jesus torna explícitos os conflitos, no Oriente Médio, entre Roma e as populações pelo império oprimidas:

“Na teocracia semita, o líder religioso é sempre chefe político. E vice-versa. Basta ver o caso do Irã do Ayatolah Khomeyni. Descendente do rei David, Jesus era o líder carismático do povo numa guerra de libertação contra o imperialismo romano. Sua condenação final diante do poder de Roma, encarnada na pessoa do procônsul Pôncio Pilatos, é significativa: o povo o aclamava, abertamente, como rei. Ao colocar sobre a cruz onde o supliciavam uma placa com a inscrição ‘Jesus de Nazareth, Rei dos Judeus’, os romanos mostravam que não estavam brincando em serviço.

Deixemos de lado as lendas messiânicas sobre o nascimento em Belém. Jesus sempre é chamado de ‘nazareno’, natural de Nazaré. E os primeiros cristãos eram chamados de ‘galileus’. A fábula da fuga ao Egito deu margem a muitas outras lendas. Está em Mateus. Jesus nasce, os magos vêm visitá-lo, o rei Herodes fica sabendo, consulta os sábios para saber onde nasceria o Messias. Citando Miquéias, os sábios apontam Beth-Lehem: Herodes ordena o massacre de todas as crianças com menos de um ano de idade. Avisado por um anjo, José pega a mulher e o filho e foge para o Egito, donde só volta depois que o mesmo anjo, pontual funcionário do Senhor, lhe avisa, em sonho, que dá para voltar, tudo está limpo. Daí, José volta.

A fábula é inverossímil. Só ver a distância a percorrer entre a Galiléia e o Egito, numa época quando as estradas da Ásia viviam infestadas de assaltantes e ainda havia grande quantidade de leões, depois extintos pela caça contínua e sistemática. Não é assim, no entanto, que se trata uma fábula: uma lenda vale por seus significados simbólicos. A fuga da família de Jesus para o Egito era uma volta às origens. Afinal, foi lá que o povo hebreu viveu escravo dos faraós. De lá, Moisés o tirou, para a liberdade, a plenitude, a maioridade, depois da invasão de Canaã (a Palestina), realizada com implacáveis hecatombes, massacres e aniquilação, ao estilo assírio, de cidades inteiras, como conta o Livro de Josué.” (p. 182)

Pintura de Alexander Ivanov (1806 - 1858): Cristo aparece a Maria Madalena após a Ressurreição

Pintura de Alexander Ivanov (1806 – 1858): Cristo aparece a Maria Madalena após a Ressurreição

Frequentador assíduo da obra dos linguistas e estudiosos de semiótica, de Propp a Jakobson, de Peirce a Bakhtin, Leminski enxerga também em Jesus um emissor de linguagem que tem suas peculiaridades: “Talvez, à luz de uma estética da recepção, adequasse seu discurso ao universo dos pequenos lavradores e pescadores dentre os quais arrebanhou seus primeiros seguidores. (…) Jesus parece ter sido muito livre na escolha de suas companhias. Os evangelhos estão cheios das queixas dos fariseus pelo fato de Jesus frequentar pecadores, estrangeiros, publicanos (coletores de impostos para Roma), meretrizes e até gente pior.” (p.  188-189)

Jesus não inventou a parábola destinada a provocar epifania: este já era um “gênero linguístico” praticado por uma antiga tradição oriental, praticada por Confúcio na China, pelos gurus da Índia, pelos sufis do Islã etc. (p. 195). A idolatria a textos considerados sagrados também não foi criação de Cristo, que participa de uma cultura onde livros-ídolos, como a Torá, são comuníssimos. De todo modo, os relatos sobre Jesus, em especial as lendas sobre seus poderes prodigiosos e milagreiros, não perderam sua capacidade de encantar uma vasta fração dos humanos, mesmo após dois milênios já transcorridos:

“Nos evangelhos, Jesus vive fazendo milagres, signa, prodígios, que demonstram sua força sobrenatural. São, na maior parte, milagres médicos ou econômicos: cura de doenças (cegueira, surdez, paralisia) ou multiplicação de alimentos (pão, peixe, vinho), o que bem situa Jesus em seu universo de gente miúda, sempre às voltas com a penúria ou a moléstia. De qualquer forma, os signos foram dados. E, quase dois mil anos depois, estão longe de parar de rolar. De desistir de sua capacidade de serem interpretados.” (p. 198)

Tanto é assim que a literatura não cessa de produzir novas variações sobre este tema aparentemente inesgotável: mesmo um livro altamente experimental e vanguardista como o Finnegans Wake de James Joyce dialoga com os evangelhos, e no século XX tivemos muitos romances importantes publicados e que re-interpretaram o mito, caso de Nikos Kazantzakis com A Última Tentação de Cristo ou José Saramago com O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Em artigo publicado na Revista Cult, o crítico literário Manoel Ricardo de Lima afirma que, com Vida, Leminski elegeu quatro vidas que estariam “posicionadas radicalmente contra algo que mais atinge o homem moderno: o dinheiro… Essas quatro figuras surgem contra o capital”, considera Manoel. Ora, no caso da biografia sobre Jesus, é explícito um retrato de um profeta-poeta anti-capitalista, como exemplificado pelo episódio no Templo de Jerusalém ou pelo Sermão da Montanha, que enuncia que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.

“Quando Jesus viveu, a economia de todo o mundo mediterrâneo já era monetária. Nas mãos de egípcios, gregos, gauleses, ibéricos, judeus, circulavam sestércios e asses, cunhados por Roma, pequenos círculos de metal trazendo o perfil e o nome do Imperador, onipresença de Roma. No mundo em que Jesus vivia, o dinheiro era a evidência da presença do dominador: o povo de Israel estava nas mãos do goiim, os pagãos, idólatras, politeístas, que não reconhecem o poder de Jeová, que não sabem que só há um Deus e que esse Deus escolheu um povo para crer nele e só nele. Na Judéia, a mais ínfima moeda era um índice da humilhação nacional.” (p. 203)

O César de então cobrava seus tributos através de todo o Império Romano, acumulando capital às custas de multidões espoliadas, de modo que este ímpeto capitalizador acaba identificado por Jesus com o domínio satânico de Mammon. Conta-se que Jesus e seus doze discípulos inclusive puseram seus bens em comum, vivendo efetivamente em um micro-regime comunista, característica que também marcou a seita de Pitágoras cerca de 500 anos antes. De todo modo, “entre os doze principais [discípulos] que o seguiam, a administração do dinheiro comum estava a cargo de Judas Iscariotes. Pois foi Judas, o homem do dinheiro, quem traiu Jesus, apontando-o às autoridades. Por exatamente trinta dinheiros. Trinta belas moedas de prata, com a imagem do Imperador de Roma.” (p. 206)

O contexto sócio-político que engloba a figura de Jesus é portanto dominado por um Império monetarizado e patriarcal, contra o qual ele realiza uma espécie de levante de escravos. Há mais de Spartacus em Jesus do que sonha a nossa vã historiografia. E Nietzsche, no século 19, saberá ler com clareza o quanto a moral do cristianismo representa uma inversão de valores, uma afirmação dos valores contrários aos vigentes nas classes dominantes, numa espécie de revolução moral preconizada pelos escravos contra a moral de seus senhores. Os últimos serão os primeiros, e se não for na Terra… será no Céu.

Leminski também é magistral ao destacar o caráter machista e falocêntrico das instituições sociais e das mitologias culturais dos monoteísmos nascidos no Oriente Médio. É só lembrar que o mito do Gênesis, “fundamento metafísico do patriarcalismo semita”, conta que Eva nasceu depois de Adão e foi edificada a partir de uma reles costela do macho. “Notável na estrutura do mito da origem de Eva é que ele constitui uma inversão da realidade: biologicamente, é o homem que sai da mulher, não a mulher do homem.” (p. 207)

Ló e suas filhas com a destruição de Sodoma e Gomorra ao fundo. Pintura de Lucas van Leyden (1520).

Ló e suas filhas com a destruição de Sodoma e Gomorra ao fundo. Pintura de Lucas van Leyden (1520).

“O patriarcalismo falocrático, próprio dos pastores nômades, que eram todos os semitas em sua origem, encontrou sua tradução mais literal na poligamia, regime no qual a mulher desaparece enquanto pessoa, reduzida a uma fração de um harém. Os antigos hebreus e o judaísmo posterior são fundamentalmente patriarcalistas, bem como o cristianismo e o Islã, derivados diretos da fé de Moisés. Nesses três credos (no fundo, um só), a mulher não tem acesso às funções sacerdotais: os intermediários entre o sacro e a humanidade são rabinos, padres, ulemás. Isso vem de muito longe. No livro do Gênesis, os primeiros grandes patriarcas hebreus (Abrão, Isaac, Jacó) têm muitas mulheres, como cabe a um próspero sheik do deserto. Como distinguir o esplendor do reino de Salomão, sem lembrar das setecentas mulheres do seu harém, entre as quais brilhava, inclusive, uma filha do faraó do Egito? Nesse universo patriarcal, falocrático, poligâmico, a mulher só pode ter uma existência, uma condição ontológica rarefeita, essencialmente subalterna, secundária, menor, algo entre os camelos e rebanhos e os humanos plenos, que são os machos. Daí, os rigores da lei mosaica contra o homossexualismo e a sodomia, instâncias de aguda feminilização do homem, punidos com a morte.” (p. 207 – 208)

Leminski, nietzschianamente, pondera: “religião de escravos, em seus primórdios, o cristianismo passou por um processo de ascensão social até chegar ao palácio dos imperadores romanos. Nessas altíssimas rodas, os primeiros convertidos foram imperatrizes e grandes damas da família imperial.” (p. 210) Apesar de muitos episódios da saga de Jesus envolverem mulheres, seria exagero fazer dele um feminista. Ademais, “não há traços da vida sexual de Jesus… um homem abstinente dos prazeres da bela aparência e do desfrute de fêmeas.” (p. 211) Aquilo que Nietzsche chamará de ideal ascético manifesta-se em toda a pureza em Jesus, negador da carne e da matéria, influência sobre inúmeras gerações de repressores da sensualidade e da sexualidade: “Para nós, geração permissiva, que viemos depois de Freud e Reich, é incompreensível um mundo em que o sexo é negado. Mas isso é possível. Milhões de monges e monjas, padres e freiras, disseram não ao mais imperioso desejo.” (p. 211)

Em um de seus capítulos mais ousados, Jesus Jacobino, Leminski compara o projeto social de Jesus com o de Robespierre. Este último, cognominado “o incorruptível”, liderou a revolução burguesa na França e, como sabemos, “milhares de cabeças rolaram na guilhotina, condenadas pela sumária justiça revolucionária (revoluções não costumam primar pela gentileza nem pelas boas maneiras).” (p. 216) Se Jesus e Robespierre tem algo em comum, sugere Leminski, é isto: “Eles querem o exagero, a pureza de um princípio. (…) Erro pensar que Jesus veio abrandar os rigores farisaicos da religião de Israel. Ele veio para tornar mais agudas as exigências dessa fé. (…) Ninguém, porém, que conheça os evangelhos pode deixar de ver o caráter violentamente utópico, negador (utopias são negações da ordem vigente: o imaginário é subversivo), prospectivo, des-regrado (r) da pregação de Jesus.” (p. 218)

Profeta, poeta, utopista: Jesus aparece a Leminski como tudo isso junto e misturado. Este messias, tão incômodo quanto um Spartacus (ambos terminaram pregados na cruz pelos romanos), demandava um outro mundo e teve sua boca calada com violência. Em uma interpretação que talvez soe herética aos ouvidos daquelas seitas cristãs mais conservadoras e elitistas, Leminski reclama que a utopia de Jesus seja inserida na galeria do socialismo utópico. E denuncia os inúmeros desvios e perversões que transformam a mensagem de Jesus de Nazaré em algo capaz de produzir Cruzadas, Inquisições, Massacres.

“O Reino de Deus era a restauração da autonomia nacional do povo hebreu. Sobre isso, a autoridade romana não se equivocou, ao pregar o profeta na crux, exemplar suplício com que os latinos advertiam os rebeldes sobre os preços em dor da sua insurreição. Esse o suporte material, sócio-econômico-político, da pregação, por Jesus, de um (novo) Reino, um (outro) poder. Nessa tradução/translação do material para o ideológico, Jesus forneceu um padrão utópico para todos os séculos por vir. As duas grandes revoluções, a Francesa e a Russa, estão carregadas de traços messiânicos de extração evangélica. Ambas prometeram a justiça, a fraternidade, a igualdade, enfim, a perfeição, o ideograma da coisa-acabada projetada sobre o torvelinho das metamorfoses. Natural que seja assim. Afinal, as utopias são nostálgicas, saudades de uma shangrilá/passárgada, estado de excelência que lá se quedou no passado, Idade de Ouro, comunidade de bens na horda primitiva, antes do pecado original da divisão da sociedade em classes, plenitude primitiva, paleolítica, intra-uterina, antes do pesadelo chamado História.

A revolução é o apocalipse, o Juízo Final de uma ordem e de uma classe social: o cristianismo primitivo cresceu à sombra da expectativa da segunda vinda, quando Jesus, vitorioso sobre a morte, voltaria, apocalipticamente, para julgar, ele que foi julgado e condenado pelas autoridades: o retorno do reprimido, a vendeta, o acerto de contas entre os miseráveis da terra e seus prósperos opressores e exploradores. (…) O programa de vida proposto por Jesus é, rigorosamente, impossível. Nenhuma das igrejas que vieram depois invocando seu nome e cultuando sua doutrina o realizou. Religião saída de Jesus não poderia ter produzido Cruzadas, inquisição, pogrons e as guerras de religião entre católicos e protestantes, que ensangüentaram a Europa nos séculos XVI e XVII. O programa de Jesus é uma utopia. Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais.” (p. 221)

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Siga viagem:

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Depoimento de Paulo Botas

Utopia’s dangers and toils: some remarks on Hawthorne’s “The Blithedale Romance” (1852)

Brook Farm, experimental socialist commune in the 1840s in the U.S.

Brook Farm, a experimental socialist commune in the state of Massachusetts in the 1840s

Utopia’s dangers and toils: some remarks on Hawthorne’s “The Blithedale Romance” (1852)

Reproduzido do Awestruck Wanderer

In 1841, Hawthorne moved to Brook Farm, an experimental socialist community in Massachussets. This Utopian rural commune, connected with the Transcendentalism movement, drew inspiration from the ideas of Ralph Waldo Emerson and Charles Fourier, among others. Hawthorne spent six months there, experiencing first-hand this attempt to build an alternative society. Ten years later, in 1851, after he had published The Scarlet Letter (1850) and The House of The Seven Gables (1851), Hawthorne finally put pen to paper and wrote The Blithedale Romance, a book born out of the Brook Farm experience. It’s not a celebration of triumph: “Brook Farm was no more”, explains Annette Kolodny in her introdution’s to the Penguin Classic’s edition. “Financial difficulties had plagued it from its inception and, after a devastating fire in 1846, the entire experiment was abandoned in the spring of 1847.”

animalfarmEven tough Hawthorne tries to reveal why the experiment failed, he writes about it with no bitter sarcasm nor diminishing its value. This is not a satire like George Orwell’s Animal Farm, a viperish tale about Stalinism in the Soviet Union. The Blithedate Romance isn’t trying to critically demolish and ridicule the Brook Farm experiment. In the first pages of the book we can feel how the author affectionaly describes the heroism of those around him, who had turned their backs to a life of confort and indolence, and were now devoted to a collective experience which aimed at the renovation of human society. There’s more than a bunch of drops of Romanticism in his earlier descriptions of the Blithedale farm:

“If ever men might lawfully dream awake, and give utterance to their widest visions, without dread of laughter or scorn on the part of the audience – yes, and speak of earthly happiness, for themselves and mankind, as an object to be hopefully striven for, and probably attained – we, who made that little semi-circle round the blazing fire, were those very men. We had left the rusty iron frame-work of society behind us. We had broken through many hindrances that are powerful enough to keep most people on the weary tread-mill of the established system, even while they feel its irksomeness almost as intolerable as we did. We had stept down from the pulpit; we had flung aside the pen; we had shut up the ledger; we had thrown off that sweet, bewitching, enervating indolence, which is better, after all, than most of the enjoyments within mortal grasp. It was our purpose – a generous one, certainly, and absurd, no doubt, in full proportion with its generosity – to give up whatever we had heretofore attained, for the sake of showing manking the example of a life governed by other than the false and cruel principles, on which human society has all along been based.” (p. 19)

In Hawthorne’s book, Brook Farm appears as an isolated place, in more than one sense: it’s far away from the city and its polluted air, but it’s also disconnected from other similar communes. But, as Kolodny states, in this historical moment – the two decades preceding the Civil War – there was a “proliferation of experimental socialist communities and increasingly organized public activism directed at correcting a host of perceived social ills”:

“The great financial Panic of 1837 had shut banks, closed off credit, and caused many smaller farmers to lose their holdings. In the ensuing depression, which lasted into the 1840s, (…) newly dispossessed rural population moved into cities and factory towns, joining there with recently arrived European immigrants to form an underclass of urban poor. By the 1840s, the sight of small children begging on the streets of major urban centers was no longer unusual. At the same time, a rapidly developing industrialization made possible by a technology forged of steam and iron was changing the face of what had formerly been a self-consciously agrarian nation. While the bulk of the population remained on the land, by the 1840s there was a demonstrable centripetal movement toward the town, the city, and the factory. Although the image had largely been an ilussion, the nation’s image of itself as a land of independent yeoman farmers was quickly being eroded by the reality of a ruthless market economy and the exploitation of wage laborers in the cities and factory towns.

In response, Americans were gripped by a wave of anti-urbanism that lasted until the eve of the Civil War. The unprecedented accumulation of capital in the hands of a powerful few, the new technology, city tenements, overcrowded factory towns, and callous public institutions were all blamed as the causes of urban poverty, increased crime, and general moral decay. Private societies and philanthropic organizations sprang up to attempt the rehabilitation of criminals, the protection of prostitutes, and the care of orphans and paupers – though no group had resources adequate to the task. Those who despaired of such ameliorative measures took upon themselves more ambitious tasks for the reformation of society. All across the country, independent communities – generally organized around agriculture rather than manufacturing – were formed according to various idealistic blueprints for social and economic harmony. Brook Farm was only one such experiment.”  (XII)

Hawthorne doesn’t paint a sociological picture of his epoch in The Blithedale Romance. John Steinbeck’s Grapes of Wrath, for instance, delves much more deeply into the context of the 1930’s Great Depression than Hawthorne does about the 1837 Panic, the crisis in the years preceding the outbreak of the Civil War. It may be said that Hawthorne writes magnificently about individuals, but only outsketches the traits of societies. He’s a master when delving into the inner secrets of the human heart, and when depicting human relations in all its complexities of feeling, but I couldn’t help but feel that Blithedale Romance could be a more impressive work-of-art if the author had focused a little bit more on sociological insight. Sometimes it seems he’s engaging in a debate with those 19th century doctrines, like that of Fourier, usually labeled Utopic Socialism – but the reader barely gets any information about the general characteristics of Fourier’s ideal society. Fourier seems much more like a punching-bag for Hawthorne to punch an “idealist” he seems to despise. This is also the case in the character of Hollingsworth, the philanthopist, who is described by the narrator, Miles Coverdale, in many portions of the book, with some scorn and scepticism. It reminded me a little bit of the ironic attitude of Lars Von Trier’s Dogville towards Thomas Edison Jr.

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A scene of Lars Von Trier’s film “Dogville”: something in the Tomas Edison Jr. and Grace’s relationship resembles the dwellings of Hawthorne’s Zenobia and Holdsworth

Even though Coverdale finds a lot to admire and cherish in Hollingsworth, he’s also descibed as someone who was a victim of

“a stern and dreaful peculiarity, such as could not prove otherwise than pernicious to the happiness of those who should be drawn into too intimate a connection with him. (…) This is always true of those men who have surrendered themselves to an over-ruling purpose. It does not so much impel them from without, nor even operate as a motive power within, but grows incorporate with all that they think and feel, and finally converts them into little else save that one principle. When such begins to be the predicament, it is not cowardice, but wisdom, to avoid these victims. They have no heart, no sympathy, no reason, no conscience. They will keep no friend, unless he make himself the mirror of their purpose; they will smite and slay you, and trample your dead corpse under foot, all the more readily, if you take the first step with them, and cannot take the second, and the third, and every other step of their terribly straight path.” (pg. 70)

 Nietzsche used to describe fanaticism as some kind of psychic disease that causes its victim to transform one particular point-of-view (among thousands of possible perspectives) in an absolute. Hollingsworth seems like a fanatical figure, wholly devoted to his project of regenerating criminals, and bound to follow his straight path with stubborn inflexibility. Coverdale, the first-person narrator of The Blithedale Romance, kind of sees through the mask of the philanthropist and discovers in his inner core a monstruous egotism. When writing about people like Hollingsworth, he claims:

“They have an idol, to which they consecrate  themselves high-priest, and deem it holy work to offer sacrifices of whatever is most precious, and never once seem to suspect – so cunning has the Devil been with them – that this false deity, in whose iron features, immitigable to all the rest of mankind, they see only benignity and love, is but a spectrum of the very priest himself, projected upon the surrounding darkness. And the higher and purer the original object, and the more unselfishly it may have been taken up, the slighter is the probabily that they can be led to recognize the process, by which godlike benevolence has been debased into all-devouring egotism.” (pg. 71)

Two women – that it takes the reader some chapters to discover are sisters  – are also focused by Hawthorne’s ouevre: Zenobia and Priscilla. They are the daughters of Mr. Moody in different epochs of his life: Zenobia, a daughter of triumph and wealth; Priscilla, a daughter of decadence and poverty. These two sister reunite at Blithedale Farm: the fragile Priscilla seeking refuge and solace in the bosom of the queen-like powerfulness of Zenobia. Researches and scholars have pointed out that Hawthorne based Zenobia on a real-life figure, Margaret Fuller, a “women’s rights advocate associated with the American transcendentalism movement. She was the first full-time American female book reviewer in journalism. Her book Woman in the Nineteenth Century is considered the first major feminist work in the United States.” (Wikipedia) Hawthorne’s words in describing her are magnificent, full of poetry and admiration, and he suceeds in painting an almost Shakespearean portrait of this woman, part Cleopatra, part Ophelia.

“In fact, so great was her native power and influence, and such seemed the careless purity of her nature, that whatever Zenobia did was generally acknowledged as right for her to do. The world never criticised her so harshly as it does most women who transcend its rules. It almost yielded its assent, when it beheld her stepping out of the common path, and asserting the more extensive privileges of her sex, both theoretically and by her practise. The sphere of ordinary womanhood was felt to be narrower than her development required.” (p. 190)

Hawthorne has a great talent for creating unforgettable female characters, such as The Scarlet Letters’ Hester Prynne, and with Zenobia he does an amazing job also. Hawthorne’s women have some many dimensions, and their hearts are so maze-like and complex, that he seems to broaden the horizons of womanhood. Hawthorne’s is a writer with an unusual power to embrace the human condition. And he’s portrayal of Zenobia shows how much empathy has between the author and its creature. Zenobia is also a sign of the times: in the 1840s, North America was witnessing the rise of Feminism, as Annette Kolodny recalls:

“Adding to the feverish political pitch of the decades preceding the Civil War was the increasing agitation on behalf of the country’s two largest disenfranchised groups: blacks and women. The first women’s rights convention was held at Seneca Falls, New York, in 1848. And, in a last-ditch effort to placate southern secessionists, Congress passed the notorious Compromise of 1850, with its more severe fugitive slave act. Increasingly, antislavery activists and women’s rights advocates made common sense, demanding that the nation live up to its democratic pretensions.” (XII)

In Hawthorne’s America, slavery and the condition of womanhood were still thorns in the so-called American Dream, which this alternative-life communes were struggling to re-build in other basis, more respectful of the dignity of all human beings, and aiming to revert institutions based on opression, forced labor, and misogyny. Zenobia, the hero of The Blithedale Romance, is described as a generous heart, bursting with life. She has the gift of entrancing listeners when she goes on to the stage, like an Shakespearean actress, and enthralls the audience with marvelous tales (such as The Veiled Lady story). Zenobia, tough she seems independent and never acts with servility, falls in the Hollingsworth’s magnetic field. The philanthropist and Zenobia are seem walking hand in hand, whispering to themselves words that the narrator can’t hear, and they even plan to build a nest where to live together. In this relationship seems to lie a seed of catastrophe that, even tough is there right from the start, takes a while to blossom. What starts as romance ends in tragedy. Zenobia is described as someone who had nurtured high hopes, but saw them crumbling down. She aimed really high, and then couln’t stand to discover herself so low. When the clouds of her passion for Hollingsworth are blown away, she attacks him:

“Are you a man? No; but a monster! A cold, heartless, self-beginning and self-ending piece of mechanism! (…) It is all self… nothing but self, self, self! (…) I see it now! I am awake, disenchanted, disenthralled! You have embodied yourself in a project. You are a better masquerader than the witches and gipsies yonder; for your disguise is self-deception.” (p. 218)

After this break-up between Zenobia and Hollingsworth, it seems very unlikely that Blithedale Farm will live on. Hawthorne takes his characters in a journey from hope to despair, from idealistic dreams to rude sorrowful awakening. By the end of the book, Zenobia is

“weary of this place, and sick to death of playing at philanthropy and progress. Of all varieties of mock-life, we have surely blundered into the very emptiest mockery, in our effort to establish the one true system. I have done with it; and Blithedale must find another woman to superintend the laundry… It was, indeed, a foolish dream! Yet it gave us some pleasant summer days, and bright hopes, while they lasted. It can do no more; nor it will avail us to shed tears over a broken bubble.” (p. 227)

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The difficulties are tremendous on the path of those who try to build a better society, and high hopes may sometime lead to terrible despair. I wouldn’t say Hawthorne’s book throws buckets of freezing water in the burning hearts of revolutionaries and other people devoted to social change; it just tell a story, magnificently told, which makes it clear how complex and intricate is the effort to bring an Utopia to life. It never seems to be built in reality with all the perfections it had when it was but a dream, a project in the Mind’s phantom-land. Is this a reason to abandon all utopian dreams and just accomodate to what is? That’s not the case, according to great Uruguayan writer Eduardo Galeano: he says that each step forward we take, Utopia takes ten steps back, as if it’s running away from us. No matter how many steps in her direction we take, Utopia is always retreating and we can’t fully grasp it. We can’t make it real. Does it mean it’s useless? No, Galeano says: this bettered-world in our horizon has one very important aim, which is exactly providing a motive for our steps. As if it’s pulling us from distant horizons, or as tough we are being propelled to meet it at some Future day that gets constantly postponed. 

* * * * *Nathaniel Hawthorne

“…standing by Zenobia’s grave, I have never since beheld it, but make no question that the grass grew all the better, on that little parallelogram of pasture-land, for the decay of the beautiful woman who slept beneath. How much Nature seems to love us! And how readily, nevertheless, without a sigh or a complaint, she converts us to a meaner purpose, when her highest one – that of conscious, intellectual life, and sensibility – has been untimely baulked! While Zenobia lived, Nature was proud of her, and directed all eyes upon that radiant presence, as her fairest handiwork. Zenobia perished. Will not Nature shed a tear? Ah, no! She adopts the calamity at once into her system, and is just as well pleased, for aught we can see, with the tuft of ranker vegetation that grew out of Zenobia’s heart, as with all the beauty which has bequeathed us no earthly representative, except in this crop of weeds. It is because the spirit is inestimable, that the lifeless body is so little valued.” NATHANIEL HAWTHORNE, The Blithedale Romance