O BUDA E A SERPENTE – por Heinrich Zimmer

O BUDA E A SERPENTE
por Heinrich Zimmer

“Gautama Siddharta, o Buddha histórico que pregou nos séculos VI e V a.C., era um reformador monástico que, aceitando o contexto da civilização indiana, permaneceu nele inserido. Jamais negou o panteão hindu nem rompeu com o ideal tradicional indiano de libertação através da iluminação (moksa, nirvana). Sua obra específica não consistiu numa refutação, mas numa reformulação; baseou-se em sua profunda vivência pessoal dos atemporais preceitos indianos que instruem sobre a libertação dos laços de maya.

(…) Como todos os santos importantes da Índia, Gautama foi venerado, mesmo enquanto viveu, como veículo humano da Verdade Absoluta. Depois de morto, sua memória foi vestida com as roupagens exemplares do mito. Quando a seita budista expandiu-se… o grande fundador tornou-se cada vez mais um símbolo digno de veneração – representativo do poder redentor da iluminação latente em todo o ser enredado pela ilusão.

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Jardim

Quando o Bem-Aventurado, na última vigília da Noite do Conhecimento, compreendeu o mistério da originação dependente, os dez mil mundos ribombaram ao alcançar ele a onisciência. Por sete dias permaneceu em postura de meditação sob a árvore Bo (ou Bodhi, a “Árvore da Iluminação”), às margens do rio Nairanjana, absorvido na iluminada bem-aventurança.

Refletiu, com a compreensão que viera de adquirir, sobre a servidão de toda a existência individualizada; sobre o poder fatal da ignorância inata que subjuga com seu sortilégio todos os seres vivos; sobre a irracional sede de vida que se segue e que impregna tudo; sobre o círculo infinito de nascimento, sofrimento, declínio, morte e renascimento.

Transcorridos sete dias, ele se ergueu, caminhou um pouco e deteve-se junto a uma grande figueira, sob a qual retomou sua postura de meditante; assim esteve por mais sete dias, mergulhado na bem-aventurança da iluminação. Depois ergueu-se de novo e alcançou outra árvore – a terceira.

Sentando-se outra vez, reverenciou por novos sete dias o estado de excelsa calma. Essa terceira árvore recebeu o nome de “Árvore de Mucalinda, o Rei-Serpente”. Mucalinda, uma serpente prodigiosa, vivia numa cavidade do chão, entre as raízes. Percebeu, assim que Buddha mergulhou em sua bem-aventurança, que uma grande nuvem de tempestade começava a adensar-se, embora não estivessem na estação chuvosa. Saiu no mesmo instante de sua morada escura e envolveu sete vezes, nas espirais de seu corpo, o corpo santo do Iluminado; sob o diâmetro do gigantesco capelo dilatado abrigou, como sob um guarda-chuva, a cabeça sagrada.

Por sete dias choveu e soprou vento frio, mas Buddha permaneceu em meditação. No sétimo, dispersou-se a tempestade extemporânea. Mucalinda despiu-se de suas espirais, transformando-se num jovem de nobre aparência e, levando à testa as mãos unidas, inclinou-se para adorar o salvador do mundo.

A lenda e as imagens de Mucalinda-Buddha representam uma perfeita reconciliação de princípios antagônicos. A serpente, simbolizando a força vital que dá origem a nascimento e renascimento, e o salvador, aquele que vence a cega ânsia de vida, que rompe os laços do nascimento e aponta o caminho da imperecível transcendência, desvendam aqui, em harmoniosa união, uma visão para além de todas as dualidades do pensamento.

Onde quer que encontremos uma sucessão de monumentos budistas que denote uma continuidade razoável, e que se refira aos séculos imediatamente anteriores à nossa era – aqueles que sobreviveram aos rigores do clima indiano e às vicissitudes históricas -, verificamos que as representações dos espíritos ofídicos estão associadas a inúmeros outros protetores divinos da fertilidade, prosperidade e vitalidade terrestre.”

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ZIMMER, Heinrich. Mitos e Símbolos Na Arte e Civilização da Índia.
Ed. Palas Athena, São Paulo, 1989. Pg. 60 a 62.

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QUARTETO VITAL: Em “Vida”, Paulo Leminski (1944-1989) traça retratos de Cruz e Souza, Bashô, Jesus & Trótski

Leminski em Ilustração de Rafael Sica

Leminski em Ilustração de Rafael Sica

I) GRAFAR A VIDA DE GUIAS DE LUZ E DE LUTA

VidaCom seu ciclo de 4 biografias, Paulo Leminski (1944-1989) pretendeu retratar “quatro modos de como a vida pode se manifestar: a vida de um grande poeta negro de Santa Catarina, simbolista, que se chamou Cruz e Souza; Bashô, um japonês que abandonou a classe samurai para se dedicar apenas à poesia e é considerado o pai do haikai; Jesus, profeta judeu que propôs uma mensagem que está viva 2.000 anos depois; Trótski, o político, o militar, o ideólogo, que ao lado de Lênin realizou a grande Revolução Russa, a maior de todas as revoluções, porque transformou profundamente a sociedade dos homens.” (p. 10)

Segundo Alice Ruiz, que foi casada com Leminski de 1968 até a morte dele e com quem teve 3 filhos, comenta sobre os 4 biografados: “guias de luz e de luta, esses heróis nos fazem lembrar de nossos próprios heróis, aqueles lá no fundo da memória, que, de alguma forma, determinam e orientam nossos próprios sonhos. (…) Esses mortos precoces, dois por assassinato e dois por precariedade, foram seus heróis por excelência. (…) [E] Paulo Leminski soube, a exemplo de seus biografados, sobreviver à própria vida.” (RUIZ, Alice. P. 11-14)

Paulo Leminski e Alice Ruiz, em 1980

Paulo Leminski e Alice Ruiz em 1980

O livro Vida, lançado em 2013 pela Companhia das Letras, oferece-nos a chance rara de conhecer um dos mais brilhantes escritores brasileiros do século 20 no processo de celebrar seus heróis. Mas não são de modo algum biografias que pretendam ser lineares, ir “passo a passo e dia a dia / exumando o passado”, mas sim obras que pretendem, nas palavras de Domingos Pellegrini, “revelar vidas lapidadas / pela visão de um poeta.” (PELLEGRINI, P. 9)

Há poetas, pondera Leminski, que são “heróis de guerras e batalhas interiores, invisíveis a olho nu. Tem outros, porém, cuja vida é, por si só, um signo. O desenho de sua vida constitui, de certa forma, um poema. Por sua singularidade. Originalidade. Surpresa. Um Camões. Um Rimbaud. Um Ezra Pound. Um Maiakóvski. Um Oswald de Andrade.” (p. 21)

Talvez o próprio “polaco loco paca” tenha intentado transformar sua própria existência em poema ao arriscar-se em tão múltiplas atividades e mestiçagens: filho de mãe negra com pai polaco, Leminski foi faixa-preta de judô, mestre zen-budista nos trópicos, estudioso da Revolução Russa e do trotskismo, compositor de canções populares, além é claro de poeta dos mais talentosos do século 20 na América Latina. Parece-me que Leminski entendia o ser-poeta como uma Foucaultiana estilização da existência, exercício ético que exerceu com rara maestria, consagrando-se como figura inesquecível na história da (contra)cultura brasileira.

II. UM GÊNIO NASCE NA SENZALA

Filosofando sobre a negritude no Brasil, Leminski entoa seus evoés a gênios da literatura (Machado de Assis), da música (Gilberto Gil) e do esporte (Pelé), inserindo neste time seleto “nosso mais fundo e intenso poeta”, Cruz e Souza. Se este poeta interessa tanto a Leminski, é também pela radicalidade de seu destino paradoxal, pela intensidade das contradições e anomalias manifestas nesta vida-poema:

O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema;
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o poeta, o grande assinalado;
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na natureza prodigiosa e rica,
Toda a audácia dos nervos justifica,
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Sousa

Cruz e Souza

A senzala e a casa grande mesclam-se no espírito de Cruz e Souza, conduzindo-o a viver um fado excepcional. “Negro retinto, filho de escravos do Brasil imperial, mas nutrido de toda a mais aguda cultura internacional de sua época, lida no original” (p. 21), Cruz e Souza foi uma “anomalia sociocultural no Brasil escravocrata do Segundo Império” – e Leminski sabe bem: “exceção, desvio, aí temos a matéria-prima para um poeta. Afinal, que é poesia senão discurso-desvio, mensagem-surpresa, que, essencialmente, contraria os trâmites legais da expressão numa dada sociedade?” (p. 29)

Se tivesse nascido nos EUA, Cruz e Souza talvez tivesse ajudado seus comparsas de sofrimento a inventar o blues, este “sentimento que produziu uma das modalidades musicais mais poderosas do século” (“basta dizer que todo o rock and roll deriva, diretamente, do blues e suas variantes, traduzidas para um repertório branco e comercializadas: Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones”). Nascido escravo no Brasil colonial, Cruz e Souza, quase um blueseiro brasileiro, entendia de banzo, este “sentimento historicamente situado dos negros brasileiros, submetidos ao estatuto da escravidão. Quando um negro ‘banzava’, ele parava de trabalhar, nenhuma tortura chicote ferro em brasa o fazia se mover. Ele ficava ali, sentando, ‘banzando’… Vinha o desejo de comer terra. E, comendo terra, voltar para a África, através da morte.” (p. 25)

Desde a juventude, Cruz e Souza, que teve o privilégio, raro para os negros, de ser o protegido de um rico marechal e de sua esposa D. Clarinda, brilhou na escola: “eclipsou todos os colegas brancos, em vivacidade e rapidez de aprendizado”, a ponto de chamar a atenção de Fritz Müller, o colaborador de Darwin: aquele “brilhante aluno negro desmentia as teorias racistas correntes que proclamavam a inferioridade intelectual da raça negra.” (p. 33) Leminski abre seu Quarteto Vital, sinfonia polifônica e mestiça, refletindo sobre a História Brasileira de modo crítico e pungente, atento às peculiaridades regionais que distinguem o Nordeste e o Sul (a Bahia de Gilberto Gil e a Santa Catarina de Cruz e Souza):

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“O Brasil, qualquer transeunte sabe, foi descoberto por Cabral e fundado pela violência. Violência física e espiritual do branco adventício e invasor sobre o índio nativo e o negro sequestrado na África e escravizado. Conquista e catequese ou catequese e conquista.Do índio, o massacre foi completo. Já com o negro é outra história. O africano conseguiu preservar suas formas culturais, em corpo e alma, da lavagem cerebral exercida por missionários e pregadores. (…) Basta ver como os africanos de nação gege-nagô, falantes do iorubá, mantiveram vivos seus orixás, num genial gesto quilombola de defesa e resistência, traduzindo-os e disfarçando-os sob as aparências legais dos santos católicos do hagiológio romano. (…) Na Bahia, os cultos africanos já passaram por seu período de catacumbas. E os orixás circulam livremente, entre as pessoas… Sobretudo nas ruidosas festas religiosas, as festas do Largo, onde o povo baiano cultua seus antigos deuses, sob as aparências do ritual católico. Essa fonte de vida, na presença da África, foi negada a Cruz, negro em terra onde o africano era pouco e, portanto, não podia se afirmar culturalmente, como no norte. Cruz e Souza não viu os orixás se movendo em torno. Nem os exus, nas encruzilhadas. No palácio de seu corpo, o fantasma de uma alma branca.” (p. 36)

O poeta negro, carregando o fantasma de uma alma branca, muda-se para o Rio de Janeiro, em 1890, “na efervescência dos primórdios da República”; ingressa no jornalismo; casa-se com Gavita, com quem tem 4 filhos homens; “come o pão que o diabo amassou no terreno da sobrevivência” (p. 43), até que sua vida de apenas 37 anos vividos é ceifada pela tuberculoso, “certamente provocada por precárias condições de vida” (p. 49). Destino meteórico e marcante, que legou-nos uma obra seminal, um dos cumes do simbolismo na poesia brasileira. Leminski lê na própria vida de Cruz e Souza um símbolo inesquecível de uma “loucura social” encarnada no fato deste “negro retinto, no Brasil do século XIX, possuir o repertório de bens abstratos que um Cruz e Souza possuía. O poeta como assinalado. O marcado (Caim?) por um sinal.” (p. 71)

Quem imaginaria o surgimento de um gênio das letras em meio a um grupo social tão estigmatizado, judiado, escorraçado e torturado? Cruz e Souza, aponta Leminski, é um destino insólito e singular em uma época histórica em que “o negro era mantido na senzala numa condição de dor física institucionalizada – açoites, queimaduras com ferro em brasa, algemas, colares de ferro, máscaras de lata para os negros que, com intenção de se matar, comiam terra. A mesma terra que plantavam para os senhores lusos.” (p. 70) A senzala deu à luz um poeta de gênio superior à qualquer dos poetas já gerados pela casa grande. Leminski quer que os brasileiros tomem providências para jamais esquecer este símbolo. Escrever sobre esta vida e esta obra foi uma providência, tomada por um poeta, para que outro poeta pudesse enfim ser reconhecido por seus compatriotas em toda a sua grandeza.

Basho

III. EX-SAMURAI, PAI DO HAIKAI, POETA ZEN

Nascido em 1644, Bashô é considerado por Leminski “o máximo poeta que o Japão produziu” (p. 87). Em seus 23 primeiros anos, Bashô assimilou os valores da casta samurai, “braço armado da classe dominante, a nobreza feudal do Japão medieval” (p. 89). “Assimilava, também, toda uma complexa ideologia, baseada no confucionismo, com ênfase no dever, no sacrifício e na supremacia do social sobre o individual. E no budismo, em sua manifestação zen.” (p. 90) Abandonando a vida militar, Bashô adere a uma vida errante, tornando-se uma espécie de proto-hippie, que deixa-se soprar pelo vento como uma nuvem nos céus. Torna-se alguém, para lembrar um haikai elegíaco de Alice Ruiz, capaz de “enxergar a lágrima no olho do peixe.” (p. 94)

Com Bashô nasce esta forma poética extremamente sintética e peculiar, o haikai, no qual o poeta procura expressar-se em apenas 17 sílabas. “Seu haikai”, celebra Leminski, “é a fina flor de tudo que de melhor o Extremo Oriente produziu… Todos os rios de signos do Oriente correm e concorrem para fazer das parcas sílabas do haikai de Bashô, sempre, uma obra-prima de humor, poesia, vida e significado.” (p. 99) Séculos antes do Twitter, os criadores de haikai procuravam dizer um monte em um espaço minúsculo. Utilizavam as palavras de modo a evocar quadros, utilizando o verbo de maneira pictórica, como se pintassem com as letras. Os ideogramas das línguas orientais – ou seja, aquelas letras-desenhos, bem mais artísticas do que nossos caracteres ocidentais padronizados  –  são inseparáveis do métier do haikai, de modo que “nenhum tipo de poema é mais traído na tradução” (p. 101). De todo modo, Leminski tenta.

velha lagoa
o sapo salta
o som da água

Bashô

Nesta “microilíada zen”, Leminski enxerga alguns elementos paradigmáticos do haikai. Quase sempre, o “primeiro verso [do haikai] expressa uma circunstância eterna, absoluta, cósmica, não humana”; o “segundo verso exprime a ocorrência do evento, o acaso da acontecência, a mudança, a variante, o acidente casual”; já “a terceira linha do haikai representa o resultado da interação entre a ordem imutável do cosmos e o evento.” (p. 112) Poesia que procura transcender o antropocentrismo, o haikai muitas vezes não fala sobre o ser humano: o protagonista de Bashô, no exemplo aqui citado, é o sapo; o tema do poema, a interação ancestral e sempre recomeçada do anfíbio com a água de uma velha lagoa. Qual o sentido de um tal poeminha pictórico tão “banal”? É um quadro do real, e isso basta; o mestre zen ensina a não procurar sentido onde há somente a plenitude do real em sua profusão de acontecências.

Budfha

A força determinante na vida de Bashô, destaca Leminski, “era uma coisa chamada zen… uma das inúmeras seitas de budismo chinês, que começaram a aportar às ilhas do Sol Nascente a partir do século VIII da nossa era. Em termos de expansão geográfica (Índia, China, Birmânia, Tibete, Vietnã, Sião, Camboja, Coreia, Laos, Japão), brilhante a performance dessa ideia nascida de um príncipe do norte da Índia, que virou iogue, meditou no Parque dos Cervos, teve sua iluminação ao nascer do sol: a suprema intuição de que o viver era Dor. E bem, viver era trabalhar, com todos os seres vivos, para diminuir a Dor. Sem dúvida: o mundo seria muito melhor se fosse budista, a ‘religião’ mais doce, mais humana, mais compassiva. Bashô foi monge budista. Botou em prática, no haikai, a fé que alimentou sua alma durante 50 vagabundos anos, com signos substanciais.

O budismo não é, propriamente, uma ‘religião’, uma ligação entre o homem e os deuses: se não ateu, o budismo é, pelo menos, agnóstico. Não há deuses a adorar, nenhuma potência transcendental: os atos de homenagem a Buda são apenas e exatamente isso, homenagens a alguém extraordinário, o herói fundador, o signo original. (…) O que realmente interessa é que os seres vivos são vítimas da dor. E só a solidariedade, no sentido mais cósmico, pode minorar este fundamento da condição humana, feita de miséria, carência e penúria de ser. (…) O zen não é uma fé. Nem uma teoria. Realiza-se através de práticas (formas sociais) concretas, materiais, físicas. Zen é que nem jazz. E humor. Dessas coisas que não se explicam (isto não é uma explicação).” (p. 127)

5Leminski explica que, para o zen budismo, é preciso descrer na linguagem verbal e nos processos racionais, em prol da emergência de uma consciência que desabrocha a partir da superação de nosso logocentrismo. “Os processos usados pelos mestres zen, no adestramento aos pretendentes à iluminação, são os mais aberrantes, para nossos conceitos ocidentais de pedagogia, centrados na palavra.” (p. 130)

Tanto é assim que o zen budismo inteiro nasce de um gesto de Sidarta Gautama: em silêncio, ele levanta uma flor. Repara bem no que não foi dito. O que importa não é tagarelar uma diarréia verbal, como fazem tão comumente os pregadores religiosos do Ocidente; para Buda, importava mais tornar explícita uma presença. Uma singela presença capaz de ser testemunhada como beleza sublime a quem tem olhos para ver, a quem está com a mente suficientemente quieta para deixar-se penetrar pela plenitude de um mundo que não necessita de sentido para ser lindo.

IV. O DIÓGENES-ZEN DE PAULO LEMINSKI

No Ocidente, Leminski localiza entre os filósofos gregos uma figura que se assemelha a um mestre zen: é Diógenes, lendária figura a quem Emil Cioran dedicou algumas de suas melhores páginas (leia em: http://bit.ly/1GapYU5). Sabe-se que Diógenes contestou de modo provocativo e punk os platônicos de que foi contemporâneo. Platão, afinal, preconizava uma espécie de idolatria dos conceitos, considerados como paradigmas imorredouros a habitar em um paraíso transcendental, algo que Diógenes não conseguia engolir: ao ficar sabendo, por exemplo, que Platão definia o ser humano como um “bípede implume” (está escrito no céu das idéias que é isto o homem!), Diógenes, brincalhão, teria agarrado uma galinha, retirado dela todas as penas, para então acorrer na Academia platônica, berrando: “eis o homem de Platão! Eis o homem de Platão!”

“A figura de Diógenes confina com certo tipo de santo popular, o beato, ‘o louco de Deus’, o peregrino, os portadores de utopias, cuja vida ensina outra vida, proposta alternativa de existência, o modelo de um possível, um dos possíveis do tesouro de possibilidades humanas. (…) Diógenes, ao meio-dia, procurando um homem com uma lâmpada acesa, é um koan perfeito. Como koan é aquilo de Diógenes mandar sair da frente de seu sol um Alexandre Magno que lhe oferecia a satisfação de qualquer desejo.” (LEMINSKI, Vida. Cia das Letras, 2014. Pg. 129-130)

Sem nunca ter ouvido falar em zen budismo, Diógenes agiu um pouco à maneira zen; foi um punk avant la lettre, um poeta do gesto provocativo; foi um koan em carne viva. O paralelo com Bashô, estabelecido por Leminski, afirma a importância do criador de haikais japonês como figura que combate o logocentrismo e a verborragia. Em suma, para Leminski, também ele praticante do zen, criador de haikais e provocador cínico, “o zen é uma fé de artistas. Uma fé que valoriza, absolutamente, a experiência imediata. A intuição. O aqui e agora. A superfície das coisas. O instantâneo. O pré ou post-racional.” (Op cit. p. 143)

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Estátua dedicada a Diógenes em Sinope, Turquia

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V. ECOS DO ORIENTE

Mapeando os ecos do zen e do haikai da cultura ocidental, Leminski revela não só a amplidão de sua erudição literária e sua paixão pela poesia, mas revela também a cultura como uma grande teia, viva, interdependente, de influenciação e interação intensas:

“É de suspeitar odores nipônicos no ‘imagismo’ de García Lorca e na brevidade aforismática do poeta espanhol Antonio Machado. (…) Difícil não desconfiar, de resto, que os poemas-minuto de Oswald de Andrade, micromomentos de superinformação, não tenham inspiração no haikai… Nos anos 1930, até a celebérrima pedra no caminho de Drummond traz consido um certo perfume zen… Poucos criadores brasileiros, porém, prestaram tantos serviços à forma cultivada por Bashô quanto Millôr Fernandes. Via Millôr, o haikai é uma das formas do humor brasileiro de hoje, ao lado do cartum, do picles e da frase de efeito.” (p. 144)

Humilde, Leminski não destaca o óbvio: que ele mesmo é um dos maiores mestres da poesia lapidar brasileira, um gênio dos versos curtos de alto potencial mnemônico, um virtuose na arte do poeminha inesquecível. Ele, que dizia: “Não discuto com o destino / O que pintar eu assino.” Ele, que sobre o “dínamo estrelado da noite” (para citar Allen Ginsberg) soube cravar esta pintura memorável: “A noite me pinga uma estrela no olho e passa.” Ele, que viajou a existência e concluiu: “Essa vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem.”

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por Eduardo Carli de Moraes [Junho de 2015]

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BROKEN REPUBLIC (Penguin Books, 2011) – The “World’s Biggest Democracy” according to Arundathi Roy

DSC05338DSC05331DSC05332DSC05333Photos from Arundhati Roy’s Broken Republic

INDIA: THE WORLD’S BIGGEST DEMOCRACY?
By E.C. Moraes @ Awestruck Wanderer 

AA1998: while we were reaching the end of the 20th century, India was testing nuclear weapons. The civilization which gave to the world masters of wisdom such as Gandhi and Sidarta Gautama, Ambedkar and Tagore, was very un-wisely on the brink of war.  It was like a reawakening of the politics of the Cold War, in which both the U.S. and the Soviet Union had atom bombs at their disposal, with both India and its next-door-neighbour Pakistan with weapons of mass destruction pointing at one another. The scars of Partition still imprinted in memory. Sad news, indeed. It’s as if, instead of learning from History (Hiroshima and Nagasaki: “the horror, the horror!”), some governments just won’t let go of this very lousy idea of messing with nuclear warfare – a situation so brilliantly mocked by Stanley Kubrick’s film Dr. Strangelove.

One of India’s greatest writers, Booker-Prize winning novelist Arundhati Roy, instead of writing a follow-up for The God of Small Things (1997) – widely considered a masterpiece of contemporary literature – felt she had to devote herself to write about the political reality of her nation’s turmoil. She accused India’s government of dangerously throwing fuel to a fire of nationalist pride with the Hindu H-Bomb. “When you have dispossession and disempowerment on this scale as a result of corporate globalization”, she told David Barsamian, “the anger that it creates can be channeled in bizarre and dangerous ways. India’s nuclear testes were conduced to shore up people’s flagging self-esteem. India is still flinching from the cultural insult of British colonialism, still looking for its identity.” (The Checkbook and the Cruise Missile, p. 37) Nuclear warfare on the hands of India and Pakistan was certainly no reason to celebrate, argued Arundhati Roy, who feared the worst might end up happening  -she finished one of her articles with apocalyptic imagery: “This world of our is 4.600 million years old. It could end in an afternoon.” (read The End of Imagination at Outlook Magazine)

broken-republic-arundhati-roy1Arundhati Roy’s political essays also denounce fiercely the Human Rights abuses in Kashmir, where India’s army imposes its rule with the colossal force of half-a-million soldiers (the largest military occupation in the world), crushing with violence all the demands of independence made by Kashmiris. Opposing the recent wave of celebration of India’s “economic miracle” and skyrocketing GDP, Arundhati Roy states that we shouldn’t be fooled by the ideology marketed by “experts in economics”. One shouldn’t measure the success of a nation by the number of new billionaires it produces each year. And wealth going into the pockets of large corporations and their politicians should never be confused with Common Wealth or Social Justice. She argues that India is a fake democracy, a society still deeply hierarchical, clinging to its rigid Caste System, with obscene rates of deaths by starvation and mass suicides by empoverished peasants (since 1997, it’s estimated that 200.000 of them have killed themselves, often by drinking Monsanto’s pesticides). Arundathi Roys, in her BBC interview, stated that no less than 800 million people in India live on less than 20 rupees a day (which means: 30 cents of a dollar).

According to Roy, after the collapse of the Soviet Union, India aligned with the U.S.A. and the Indian state decided to open its gates to all the marvels of Free Market and “Development”. When the new century dawned, however, the September 11th attacks on New York and Washington were to be followed by a surge of islamophobia, fueled by the Yankees “War on Terror” that was beggining to plan its military invasions and bombings of Afheganistan. In India, this epidemic of islamophobia caused disaster, a re-awakening of communal violence, culminating in tragedy: in Gujarat, 2002, Muslims were massacred  by Hindu nationalists in a pogrom which killed at least 2.000 people and forced at least 150.000 out of their homes. Welcome to the “World’s Largest Democracy”.

Is Indian Capitalism working? If we look at growth rates and skyrocketing GDP, oh yes Sir! But let’s not get blinded by economists and their statistics: India is a country ravaged by famine: “836 million people of India live on less than 20 rupees a day, 1.500.000 malnourished children die every year before they reach their first birthday. Is this what is known as ‘enjoying the fruits of modern development’?” (ROY, Broken Republic, pg. 154).

The Indian State also has to deal with another kind of menace, the “inner enemy”, those dozens of thousands of Indians, called “Maoists” or “Naxalites”, who decided to insurrect in armed rebellion. They want nothing less than to overthrow the Indian State. “Right now in central India, the Maoists’ guerrilla army is made up almost entirely of desperately poor tribal people living in conditions of such chronic hunger that it verges on famine of the kind we only associate with sub-Suharan Africa”, writes Arundhati Roy (pg. 7).

In 2006, India’s prime minister described the Maoists as “the single biggest internal security challenge ever faced by our country”, a statement which Roy considers very exaggerated.  By magnifying in discourse the danger posed by the Maoist guerrilla, by painting in the media a portrait of them as cruel terrorists, the Indian government aims, argues Arundhati Roy, to justify its war measures against the poorest of its citizens. Quite honest in revealing the masters who he serves, the prime minister also told the Parliament in 2009: “If Left Wing extremism continues to flourish in important parts of our country which have tremendous natural resources of minerals and other precious things, that will certainly affect the climate for investment.” (B.R., pg. 3)

For a quick example of the “tremendous natural resources”, it’s enough to mention that “the bauxite deposits of Orissa alone is worth 2.27 trillion dollars (twice India’s gross domestic product)” (pg. 23). In order for the mining corporations to have access to this precious things, India needs to be turned into a Police State. It needs to wage war against the hungry, desperate and destitute people who live in this very “profitable” lands, against the people who revolt against being displaced, impoverished and opressed. To simply leave the bauxite in the mountains seems out of the question for the government and the industrialists, of course, who have eyes only for the money that can be made and not to the environmental damage and social havoc that such procedures of extraction will cause. The alliance between a neo-liberal state and its corporate friends leads to a situation in which military power and police repression are massively used to enforce the so-called Free Market. In order to clear the way for the corporations to extract their profits from India’s natural resources, genocide is seen as an acceptable means, if only you preach in the media that a terrorist threat to national security needs to be crushed.

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Comrade Kamla, member of the Maoist guerrillas.

“What are we to make of the fact that just around the time the prime minister began to call the Maoists the ‘single biggest internal security challenge’ (which was a signal that the government was getting ready to go after them) the share prices of many of the mining corporations in the region skyrocketed? The mining companies desperately need this war… To justify the militarization, it needs an enemy. The Maoists are that enemy. They are to corporate fundamentalists what the Muslims are to Hindu fundamentalists. (…) Here’s a maths question: if it takes 600.000 soldiers to hold down the tiny valley of Kashmir, how many will it take to contain the mounting rage of hundreds of millions of people?” (31-34)

Arundhati Roy speaks from experience: she went to witness first-hand what’s happening in the areas where India’s State and the Maoist guerrilla clash. She tells the tale in Walking With The Comrades, one astonishing feat of investigative journalist that proves how courageous Arundathi Roy really is. She puts herself in danger in order to see for herself what’s going on there, in order to be able to write truly about the battle for the “mineral-rich forests of Chhattisgarh, Jharkhand, Orissa and West Bengal – homeland to millions of India’s tribal people, dreamland to the corporate world.” (pg. 42) It seems to be a situation with many similarities with Mexico’s conflict in Chiapas, where the Zapatista’s armed insurrection confronts the Mexican State in its tendency to favour corporate plunder of indigenous lands.

“The antagonists in the forest are disparate and unequal in almost every way. On one side is a massive paramilitary force armed with the money, the firepower, the media, and the hubris of an emerging Superpower. On the other, ordinary villagers armed with traditional weapons, backed by a superbly organized, hugely motivated Maoist guerrilla fighting force with an extraordinary and violent history of armed rebellion.” (pg. 39)

India’s Constitution, adopted in 1950, “ratified colonial policy and made the state custodian of tribal homelands. Overnight, it turned the entire tribal population into squatters on their own land.” (pg. 43) Dispossessed of their right to livelihood and dignity, the tribal people became pawns in the Big Business game. “Each time it needed to displace a large population – for dams, irrigation projects, mines – it talked of ‘bringing tribals into the mainstream’ or of giving them ‘the fruits of modern development’. Of the tens of millions of internally displaced people (more than 30 million by big dams alone), refugees of India’s ‘progress’, the great majority are tribal people.” (pg.  43) Here we have an example of what Bruno Latour calls The Modernization Front. In India, The Modernization Front, in order to protect corporate interests (after all, corporations are vehicles of Progress…), won’t refrain from engaging in a war against its own people. A War that Arundhati Roy prefers to call by another name: Genocide.

ArundhatiIn the 10-hour drive she untertook through areas known to be “Maoist-infested”, she noted: “These are not careless words. ‘Infest/infestation’ implies disease/pests. Diseases must be cured. Pests must be exterminated. Maoists must be wiped out. In these creeping, innocuous ways the language of genocide has entered our vocabulary.” (pg. 45) She walks for hours and hours each day, along with the comrades, under the shining and vehement sun, carrying a backpack filled with essentials for jungle-survival – and when it comes the time for sleep, she doesn’t mind that much not having a roof over her head. Resting on a sleeping-bag on the forest floor, she celebrates her “star-spangled dormitory” (pg. 63): “It’s my private suite in a thousand-star hotel. (…) When I was a child growing up on the banks of the Meenachal River, I used to think the sound of crickets – which always started up at twilight – was the sound of stars revving up, getting ready to shine. I’m surprised at how much I love being here. There is nowhere else in the world I would rather be.” (pg. 57-60)

While she walks with the comrades, she knows some areas they’re crossing run the risk of going underwater because of Mega Dams. Since Independence, 3.300 big dams were built, and the amount of displaced is estimated in over 30 million people.

“The Bodhgat Dam will submerge the entire area that we have been walking in for days. All that forest, that history, those stories. More than a hundred villages. Is that the plan then? To drown people like rats, so that the integrated steel plant and the bauxite mine and aluminium refinery can have the river? (…) There was a time when believing that Big Dams were the ‘temples of Modern India’ was misguided, but perhaps understandable. But today, after all that has happened, and when we knoe all that we do, it has to be said that Big Dams are a crime against humanity.” (pg. 142-143)

 In the People’s Liberation Guerrilla Army, 45% of its cadre are women. The so-called Maoists or Naxalites consist mainly of people from the lowest caste of India’s piramidal society: the Untouchables, the pariahs of India, those who are treated as human scums, crushed underneath a heavy weight of hierarchical machinery. When the Prime Minister said the Maoists were a grave security challenge, “the opposite was true”, argues Roy, who remembers that the rebels were being decimated in a Purification Hunt destined to “send the share-value of mining companies soaring” (pg. 80)

What it all boils down to is a clash between Corporate Capitalism, on the one side, and the majority of the population, on the other. In times where ideologies of Free Trade reign, the exploration of natural resources is made not in order to provide for the commonwealth of the whole of society, but for private profits gained through ecocidal and genocidal means.

“Allowing ‘market forces’ to mine resources ‘quickly and efficiently’ is what colonizers did to their colonies, what Spain and North America did to South America, what Europe did (and continues to do) in Africa. It’s what the Apartheid regime did in South Africa. What puppet dictators in small countries do to bleed their people. It’s a formula for growth and development, but for someone else. (…) Now that mining companies [in India] have polluted rivers, mined away state borders, wrecked ecosystems and unleashed civil war, the consequence of what the coven has set into motion is playing out like an ancient lament over ruined landscapes and the bodies of the poor.” (pg. 170)

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“If the motion picture were an art form that involved the olfactory senses – in other words, if cinema smelled – then films like Slumdog Millionaire would not win Oscars. The stench of that kind of poverty wouldn’t blend with the aroma of warm popcorn.”  – Arundathi Roy

Arundathi Roy’s political thought is so intensely relevant nowadays because she is one of the fiercest critics of what goes by the name of “Democracy” nowadays. States that impose with authoritarian means – including military atrocities and police brutality – the policy of Free Market (which means: let’s protect the private interests of wealthy corporations and billionaires!), call themselves “democracies”. India is often called the world’s biggest democracy, and yet “the Indian State, in all its democratic glory, is willing to loot, starve, lay siege to, and now deploy the air-force in ‘self-defense’ against its poorest citizens.” (pg. 186) So we have to distinguish between Ideology / Propaganda (“India is a Democracy, a Fast-Growing Economy, with a State concerned in providing Security from terrorists”) from Reality (there are a lot of natural resources that corporations are eager to get a hold of… if only the people are thrown out of the way!).

The essential question to be asking is this: what about the future of the planet? If the current model of development continues, what will happen to mankind as we move towards a future that’s bound to be filled with ecological crisis and all the cataclysms ensuing from Climate Change? In India, there’s “several trillion dollars’ worth of bauxite, for example. And “there is no environmentally sustainable way of mining bauxite and processing it into aluminium. It’s a highly toxic process that most Western countries have exported out of their own environments. To produce 1 ton of aluminium, you need about 6 tons of bauxite, more than a 1000 tons of water and a massive amount of energy. For that amount of captive water and electricity, you need big dams, which, as we know, come with their own cycle of cataclysmic destruction. Last of all – the big question – what is the aluminium for? Where is it going? Aluminium is a principal ingredient in the weapons industry – for other countries’ weapons industries…” (p. 211)

Such is the suicidal logic of the Powers That Be, a situation so bleak that many of us are worrying about Mankind’s path: are we following a road that will lead to our own extinction? Does our future hold new horrendous explosions of Atom Bombs and civil wars?  Will Corporate Capitalism be allowed to proceed with its ecocidal practices and its obscene tendencies to concentrate wealth in a few hands (while millions die from hunger and curable diseases)? How to shift direction in order for us to slow down this process that has been turning Planet Earth into an Ecological Wreck? This is how Arundathi Roy finishes this deeply moving and concerning book, Broken Republic:

“Can we expect that an alternative to what looks like certain death for the planet will come from the imagination that has brought about this crisis in the first place? It seems unlikely. The alternative, if there is one, will emerge from the places and the people who have resisted the hegemonic impulse of capitalism and imperialism instead of being co-opted by it. Here in India, even in the midst of all the violence and greed, there is still hope. We still have a population that has not yet been completely colonized by that consumerist dream. We have a living tradition of those who have struggled for Gandhi’s vision of sustainability and self-reliance, for socialist ideas of egalitarianism and social justice. We have Ambedkar’s vision, which challenges the Gandhians as well as the socialists in serious ways. We have the most spectacular coalition of resistance movements, with their experience, understanding and vision. Most important of all, India has a surviving adivasi population of almost 100 million. They are the ones who still know the secrets of sustainable living.

The day capitaism is forced to tolerate non-capitalist societies in its midst and to acknowledge limits in its quest for domination, the day it is forced to recognize that its supply of raw material will not be endless, is the day when change will come. If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers… It is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past but may really be the guides to our future. To do this, we have to ask: Can you leave the water in the rivers, the trees in the forest? Can you leave the bauxite in the mountain? If they say they cannot, then perhaps they should stop preaching morality to the victims of their wars.” (pg. 214)

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DOWNLOAD ARUNDATHI ROY’S BOOKS (HIGHLY RECOMMENDED!):

Budismo – Curso em 24 aulas de 30 min. com o Prof. Malcolm David Eckel (vídeos em H.D.)

buddha-thousands-of-candles“This course is a survey of the history of Buddhism from its origin in India in the sixth century B.C.E. to contemporary times. The course is meant to introduce students to the astonishing vitality and adaptability of a tradition that has transformed the civilizations of India, Southeast Asia, Tibet, China, Korea and Japan, and has now become a lively component in the cultures of Europe, Australia, and the Americas.

To understand the Buddha’s contribution to the religious history of the world, it is important to know the problems he inherited and the options that were available to him to solve them. In ancient India, before the time of the Buddha, these problems were expressed in the Vedas, the body of classical Hindu scriptures. The Vedas introduce us to scholars and ritual specialists who searched for the knowledge that would free them from the cycle of death and rebirth. The Buddha inherited this quest for knowledge and directed it to his own distinctive ends.

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“Born as Siddharta Gautama into a princely family in northern India about 566 B.C.E., the Buddha left his father’s palace and took up the life of an Indian ascetic. The key moment in his career came after years of difficult struggle, when he sat down under a tree and “woke up” to the cause of suffering and to its final cessation. He then wandered the roads of India, gathering a group of disciples and establishing a pattern of discipline that became the foundation of the Buddhist community. The Buddha helped his disciples analyze the causes of suffering and chart their own path to nirvana. Finally, after a long teaching career, he died and passed quietly from the cycle of death and rebirth.

After the Buddha’s death, attention shifted from the Buddha himself to the teachings and moral principles embodied in his Dharma. Monks gathered to recite his teachings and produced a canon of Buddhist scripture, while disputes in the early community paved the way for the diversity and complexity of later Buddhist schools. Monks also developed pattern of worship and artistic expression that helped convey the experience of the Buddha in ritual and art.

The Buddhist King Asoka, who reigned from about 268 to 239 B.C.E., sent the first Buddhist missionairies to Sri Lanka. Asoka left behind the Buddhist concept of a “righteous king” who gives political expression to Buddhist values. This ideal has been embodied in recent times by King Mongkut (18 October 1804 – 1 October 1868) in Thailand and Aung San Suu Kyi, who won the 1991 Nobel Peace Prize for her nonviolent resistance to military repression in Burma.

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Aung San Suu Kyi (born 19 June 1945), Nobel Peace Prize Winner – Wikipedia Bio: “Influenced by both Mahatma Gandhi’s philosophy of non-violence and more specifically by Buddhist concepts, Aung San Suu Kyi entered politics to work for democratization…”

Buddhism entered China in the second century of the common era, at a time when the Chinese people had become disillusioned with traditional Confucian values. To bridge the gap between the cultures of India and China, Buddhist translators borrowed Taoist vocabulary to express Buddhist ideas. Buddhism took on a distinctively Chinese character, becoming more respectful of duties to the family and ancestors, more pragmatic and this-worldly, and more consistent with traditional Chinese respect for harmony with nature. During the T’ang Dynasty (618-907), Buddhism was expressed in a series of brilliant Chinese schools, including the Ch’an School of meditation that came to be known in Japan as Zen.

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Since the end of the 19th century, Buddhism has become a respected part of life in countries far beyond the traditional home of Buddhism in Asia. The teaching that began on the plains of India 2.500 years ago has now been transformed in ways that would once have been unimaginable, but it still carries the feeling of serenity and freedom that we sense in the image of the Buddha himself. In its 2.500-year history, from the time of the Buddha to the present day, Buddhism has grown from a tiny religious community in  northern India into a movement that now spans the globe. It has shaped the development of civilizations in India and Southeast Asia; has had a major influence on the civilizations of China, Tibet, Korea, and Japan; and today has become a major part of the multi-religious world of Europe and North America.

In the following lectures (watch the videos below) we’ll explore the Buddhist tradition as the unfolding of a story. It is the story of the Buddha himself and the story of generations of people who have used the model of the Buddha’s life to shape not only their own lives but the societies in which they live…”

Professor Malcolm David Eckel, Course Guidebook. 

INFO ON THE AUTHOR:  Professor Malcolm David Eckel holds two bachelor’s degrees, one in English from Harvard University and a second in Theology from Oxford University. Professor Eckel earned his master’s degree in theology at Oxford University and his Ph.D. in the Study of Comparative Religion at Harvard University. He held teaching positions at Ohio Wesleyan University, Middlebury College in Vermont, and the Harvard Divinity School, where he served as acting director of the Center for the Study of World Religions. At Boston University, Professor Eckel teaches courses on Buddhism, comparative religion, and the religions of Asia. In 1998, Professor Eckel received the Metcalf Award for Teaching Excellence, the university’s highest award for teaching. In addition to writing many articles, Professor Eckel has published two books on Buddhist philosophy: “To See the Buddha: A Philosopher’s Quest for the Meaning of Emptiness” and “Buddhism: Origins, Beliefs, Practices, Holy Texts, Sacred Places”. – www.thegreatcourses.com

to be continued…

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