“No dia seguinte ninguém morreu” – José Saramago sonda a tragicomédia da existência em “As Intermitências da Morte” (2005)

Nunca houve, desde que há mundo, um único dia que tenha transcorrido sem mortes. Não há registro ou notícia, desde que há vidas nesta esfera que rodopia ao redor do sol, de um giro completo do planeta ao redor de seu próprio eixo em que não tivessem se entremesclado no Theatrum Mundi os primeiros gritos dos recém-nascidos com os últimos suspiros dos agonizantes (como já nos ensinava a poesia epicurista de Lucrécio).

Se na realidade nunca houve época em que a morte tivesse entrado em férias, na literatura pode-se fantasiar livremente sobre o inaudito, o inédito, o nunca-dantes-nos-anais-da-história: como aquela formidável época em que a gente parou de morrer. A crônica imaginária destes sucessos extraordinários foi realizada em As Intermitências da Morteromance publicado em 2005 por José Saramago e que assim se inicia:

“No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme… não havia notícia nos 40 volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas 24 horas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.” (SARAMAGO – Cia das Letras, 2005, p. 11)

Na trajetória do escritor, este livro é da fase tardia, escrito após a consagração mundial de Saramago em 1998, quando o hoje defunto autor português foi laureado com o Nobel de Literatura, aquele prêmio que concede a tão poucos e seletos mortais a aura de sua glória, auréola de fama que promete a seu detentor que sua obra irá seguir ecoando, enganando a bocarra gigantesca da obscuridade do túmulo que engoliu quem esta obra pariu.

Neste livro, como de praxe, o Saramago é o cronista sagaz de nosso absurdo individual e coletivo. É o autor capaz de enxergar com profunda ironia, tingida de melancolia, todas as nossas adversidades, todas as nossas idiotices, todas as nossas incompletudes. É também o crítico mordaz das religiões instituídas, das máphias políticas, das velharias autoritárias, agindo como um iluminista tardio que age contra todos os obscurantismos que insistem em medievalizar a terra.

Saramago atua, através de sua caudalosa escrita, como um pedagogo sábio que quer nos ensinar a travessia que vai da cegueira à lucidez. Pela via régia do ateísmo, busca a emancipação do pensamento e da sensibilidade, libertos das cataratas de mentiras que nos vendam os olhos. O pior cego é o que não quer ver, o que pôs vendas em seus próprios olhos, em atitude análoga à daquele que está perecendo em uma cela de prisão sem perceber que a chave está por dentro.

Explorado em outras de suas obras, como Ensaio Sobre a Cegueira, o tema da cegueira – não literal, mas sim moral, existencial, relacional – parece estar correlacionado, na obra saramaguiana, com a condição mortal. Como se fôssemos demasiado covardes, a maioria de nós e a maior parte do tempo, para estar with eyes wide open diante de nossa condição.

Preferimos a semi-obscuridade – a falta de lucidez – de nossas fés e ideologias, que tanto contribuem para que vivamos com eyes wide shut (nome, aliás, do notável filme de despedida de Stanley Kubrick). Cegos de propósito, pois nunca suficientemente corajosos para encarar, no espelho, a caveira que nos olha de volta por detrás da pele da face. Crânio escondido por detrás da cara que é o retrato de nosso futuro incontornável.

O único animal que sabe que vai morrer inventa, através da história, os ópios e morfinas espirituais que mediquem sua angústia da finitude. A música do Morphine expressa isto à perfeição em Cure for Pain, uma das mais belas canções do finado Mark Sandman: “someday there’ll be a cure for pain, that’s the day I’ll throw my drugs away”.

Saramago sabe que as religiões instituídas, aí incluída a católica apostólica romana, sempre insistiram no tema da “morte como porta única para o paraíso celeste, onde, dizia-se, nunca ninguém entrou estando vivo, e os pregadores, no seu afã consolador, não duvidavam em recorrer a todos os métodos da mais alta retórica e a todos os truques da mais baixa catequese para convencerem os aterrados fregueses de que, no fim de contas, se podiam considerar mais afortunados que os seus ancestres, uma vez que a morte lhes havia concedido tempo suficiente para prepararem as almas com vista à ascensão do éden” (p. 133). A extinção da morte é um perigo para a sobrevivência das religiões instituídas, estas profanas criações humanas destinadas a pôr em circulação os ópios fantasiosos que acalmam os terrores e angústias do bicho que sabe que vai morrer.

Há muito tempo estou convencido – e nisto a leitura de Saramago muito contribuiu – de que as religiões e as mitologias são incompreensíveis em um horizonte onde não coloquemos, no cerne, a mortalidade humana e o nosso protesto contra ela. Diante da morte invencível, os seres humanos erguem suas catedrais e suas preces; imaginam-se triunfantes em um além-túmulo que o poeta Tennyson chamará de local do Segundo Nascimento; Idolatram a figura de um crucificado que supostamente voltou à vida depois de três dias morto. Só inventamos deuses pois morremos – e é porque morremos que “se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.”

Pintura de Andrea Mantegna – “Lamentação de Cristo”

Mortais humanos apegam-se com esperanças fervorosas ao sonho de ressurreição, e olhando, seja de frente ou de soslaio, seus destinos de criatura temporárias, abraçando ou recusando esta ciência fatal, os seres que somos recusam-se a ir ladeira abaixo, no processo que conduz pra baixo da terra, em silêncio e resignação. Para lembrar o célebre estribilho poético: We not go quietly into that good night… We rage, rage against the dying of the light! (Dylan Thomas)

Como disse Albert Camus, “o ser humano é a única criatura que se recusa a ser o que é.” E a danada da morte tem tudo a ver com isso. Ela é, para os viventes, aquilo que Manuel Bandeira chamou de “a indesejada das gentes” – e os suicidas sempre foram minoria da humanidade, pois os que buscam com ânsia uma morte que lhes dê fim aos tormentos e angústias sempre foram menos numerosos do que aqueles que foram impelidos à sobrevivência resiliente até que o tempo os matasse com seus instrumentos do costume, como as doenças e as violências bélicas. Ainda assim, o suicídio e a eutanásia são fenômenos que nos obrigam a refletir sobre o direito de morrer, quando a vida não é mais sentida como digna de ser vivida, um tema abordado com muita sensibilidade e pungência por filmes como Mar Adentro de Amenábar ou Amor de Haneke.

Saramago, no espaço livre de seu livro, suspende as leis natural que estão por aí desde que o mundo é mundo. Mago plenipotente no espaço de seu romance, ele conta uma história fantasiosa: na alvorada de um ano novo, todos os 10 milhões de habitantes de um certo país subitamente descobrem que a morte saiu de férias. Por tempo indeterminado. Sem aviso prévio, abandonou o posto e desistiu de seu fatal ofício, há tantos milênios incansavelmente exercido.

Não se sabe os motivos de sua greve, e ninguém explicou se o fenômeno é uma casual e efêmera transformação da ordem cósmica, que logo re-entrará nos eixos costumeiros, ou se as regras da vida e da morte foram alteradas para sempre neste pequeno rincão da terra. A princípio, é o fervor patriótico e todos comemoram o privilégio. Logo depois, percebem que a morte sair de férias irá acarretar um imenso transtorno – tanto é assim que os fluxos migratórios irão se acentuar, com inúmeros nômades-peregrinos querendo chegar a outro país onde ainda se tem a possibilidade de morrer.

Tudo se transtorna com as férias que a morte resolveu tirar: os hospitais ficam repletos de doentes terminais, os asilos de velhos sofrem com o excesso dos agonizantes estão à espera de seu ocaso, os escritórios das companhias de seguros e os bancos onde elas depositam seus capitais entram em crise…

Os impactos na economia são tremendos – e não apenas no pequeno nicho que são as empresas funerárias, que fornecem aos que sobrevivem os necessários auxílios para o despojo daquelas partes do ex-vivo tão brutalmente chamados por alguns de “restos mortais”, aquilo que, abandonado pela chama da vida, apodrece logo com exalações de odores pútridos e que por isso corremos a afastar de nossas fuças e vistas.

A teledramaturgia, nos últimos anos, foi responsável pela criação de uma obra-prima das séries dramáticas com A Sete Palmos (Six Feet Under), da HBO, cujas 5 temporadas expuseram em minúcias as vidas da família Fisher e seus agregados afetivos enquanto tocam avante a difícil empreitada de gerir uma funerária.

Saramago também se interessa por todas as indústrias que lucram com a morte, mas é mais como um crítico ácido que ele atua, nunca como alguém que não enxergue a problemática complexa que envolve hospitais, asilos, funerárias e os elos que os conectam aos poderes políticos e eclesiásticos. As altas cúpulas do clero e as altíssimas autoridades do reino são alvo da pena mordaz de Saramago, que em inúmeros livros despeja sua ironia sobre o fenômeno da vinculação teologia-política (Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Caim etc.).

Em As Intermitências da Morte, o romance revela tudo o que ocorre no curto período em que a morte cessa de desempenhar suas funções.

“A igreja”, por exemplo: “saiu à arena do debate montada no cavalo-de-batalha do costume, isto é, os desígnios de deus são o que sempre foram, inescrutáveis, o que, em termos correntes e algo manchados de impiedade verbal, significa que não nos é permitido espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.

Dizia também a igreja que a suspensão temporária e mais ou menos duradoura de causas e efeitos naturais não era propriamente uma novidade, bastaria recordar os infinitos milagres que deus havia permitido se fizessem nos últimos 20 séculos, a única diferença do que se passa agora está na amplitude do prodígio, pois que o que antes tocava de preferência o indivíduo, pela graça da sua fé pessoal, foi substituído por uma atenção global, não personalizada, um país inteiro por assim dizer possuidor do elixir da imortalidade, e não somente os crentes, que como é lógico esperam ser em especial distinguidos, mas também os ateus, os agnósticos, os heréticos, os relapsos, os incréus de toda a espécie, os afeiçoados a outras religiões, os bons, os maus e os piores, os virtuosos e os maphiosos, os verdugos e as vítimas, os polícias e os ladrões, os assassinos e os doadores de sangue, os loucos e os sãos de juízo, todos, todos sem exceção, eram ao mesmo tempo as testemunhas e os beneficiários do mais alto prodígio alguma vez observado na história dos milagres…” (p. 75)

Descrente em milagres como bom ateu, Saramago brinca de imaginar as consequências que tomariam o mundo caso este milagre ocorresse e a “Velha da Capa Preta” parasse de trabalhar. O desemprego dos coveiros seria a menor de nossas encrencas. A editora Companhia das Letras sintetizou bem os charmes e graças do romance:

De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.

Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?

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Vale lembrar que, na arte brasileira, há também um magnum opus que se equipara a Saramago na capacidade de expressar de maneira criativa e expressiva o enrosco humano com a mortalidade: estou falando da música de Siba, depois regravada por Juçara Marçal em seu álbum Encarnado, “A Velha da Capa Preta”:

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação
Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não
Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro
Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro
A vida é corno um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela
Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela
Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar
Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar
Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar

A personificação da morte não é novidade na história da arte – de Van Gogh (pintura acima) a Bergman (em um filme como O Sétimo Selo), artistas de várias vertentes já representaram a dita cuja de muitas maneiras, como um esqueleto que fuma um cigarro ou como uma jogadora de xadrez que oferece ao rival a oportunidade de adiar sua estadia entre os vivos, desde que consiga não tomar um xeque-mate.

No caso de Saramago, ele se deleita em imaginar as enrascadas em que a morte responsável por matar os humanos entraria caso mudasse seus métodos imemoriais. A morte, quando sai dos trilhos, acaba por descarrilhar todo o trem da vida. Primeiro, ela escolhe as férias, mas depois decide retornar à labuta, mas com outra estratégia: mandará pelo correio uma carta de cor violeta, avisando aos que estão na iminência de morrer que lhes resta apenas uma semana de vida…

Poética, a morte pensa em enviar, ao invés de cartas, borboletas – em especial a espécie acherontia atroposdotada pela natureza de um visual curiosamente fúnebre. São maneiras irônicas de Saramago nos sugerir, com muita graça, que a morte sempre fez parte da vida e que ainda bem que é assim. Esta funcionária exemplar causaria o caos caso falhasse no desempenho de suas funções. Hospitais engarrafados de tantos doentes, asilos às dúzias tendo que ser construídos às pressas, empresas de enterros indo à falência, e religiões instituídas caindo no colapso – tudo isso como resultado da temporária intermitência da morte em seu ofício.

Se a vida fosse impossível de perder, que valor teria? Não temos apreço senão por aquilo que é a um só tempo precioso e destrutível. Sabemos e sentimos que tudo de bom que vivemos é efêmero e temporário, e André Gide ensinava que quem não pensa suficientemente na morte não consegue dar o devido peso e urgência à vida: “Um pensamento insuficientemente constante sobre a morte”, escrevia Gide, “nunca deu valor suficiente ao mais ínfimo instante de vida.”

Nas páginas de Saramago, é como se a morte aparecesse como a necessária força de renovação das coisas. Sem morte, tudo estagnaria e o mundo viraria um amontoado de velharias. O fluxo cósmico perderia sua fluidez. As velharias se amontoariam, sufocando o novo. Só através da morte é que a vida pode inovar. No balé infindável de Eros e Tânatos, o palco do mundo vê a emergência sem fim de novas formas. Metamorfoses advindas interminavelmente da dialética inextirpável da vida e da morte.

Pintura de Michael Wolgemut, “A Dança dos Esqueletos”

Em seus momentos mais filosóficos, As Intermitências da Morte nos faz refletir sobre os diversos modos de findar a existência, de acordo com o organismo vivo que chega a seu ocaso, como no capítulo 6, em que um peixinho de aquário, alçando-se por sobre as águas, pergunta (perdendo seu pobre fôlego):

“Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoia giganteum com os seus 100 metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido a vida de uma da morte da outra, a vida da borboleta da morte da lagarta, e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-seda porque está na borboleta… Disse o espírito que paira sobre as águas do aquário, o bicho-da-seda não morreu, dentro do casulo não ficou nenhum cadáver depois de a borboleta ter saído, tu o disseste, um nasceu da morte do outro, Chama-se metamorfose, toda a gente sabe do que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo….” (p. 72)

Morte e vida dançam o rock da metamorfose no fluido palco do universo, mas cada organismo tem seu modo de experenciar o seu próprio processo de dissolução: se é verdade que o homo sapiens é o único animal consciente de sua própria mortalidade, ainda que ele tanto se esforce para recalcar e reprimir esta ciência (através de métodos psicológicos brilhantemente iluminados por Ernest Becker em A Negação da Morte, belíssimo livro laureado com o Pulitzer), não se pode negar que outros animais dotados de sistema nervoso central e altamente sensíveis aos estímulos ambientais também batalhem com todas as forças de seu âmago contra quem quer lhes impor a morte. Ser um animal é estar animado pelo duro desejo de durar.

Um pomar não nos dá a mesma impressão de resiliência, de perseverança na existência, de manifestação concreta do conatus conceituado na filosofia de Spinoza, o que torna bastante cômicos e risíveis os argumentos de certos carnívoros que, diante da argumentação de vegetarianos em prol da libertação animal, argumentam que as cenouras e os alfaces gostam tão pouco de terem suas vidas abreviadas quanto os porcos e bois abatidos nas milhares de factory farms desde nosso mundo.

Neste debate, Jacques Derrida foi ao cerne do problema ao dizer que a questão crucial a se colocar, diante da vida de um outrem não-humano, é esta: “esta criatura pode sofrer?” E só um mentecapto seria capaz de avaliar, no termômetro da sofrência, que um porco ou uma galinha sofrem menos que uma maçã ou um brocólis com a interrupção de sua existência para fins alimentícios humanos. O apego à vida é evidente maior quanto mais ampla é a consciência que o animal possui de sua condição existencial – e, como Peter Singer argumenta, é um escândalo global chocante o quanto nossas economias ainda estão baseadas no morticínio ultra-disseminado de criaturas que sofrem imensamente com o processo mortífero que os humanos lhes impõem, ao invés de adotarmos uma cultura culinária mais sábia pois atenta aos interesses de seres sencientes semelhantes a nós mesmos.

Passando ao largo dessas questões, o romance de Saramago prefere focar nas reações humanas diante da aproximação da data fatal nas novas condições impostas pela Dona Morte, que no âmbito do romance resolveu inovar em seus métodos. O affair quase romântico da morte com um violoncelista serve como emblema saramaguiano para os poderes transformadores da arte: sob o impacto da aproximação da morte, o músico toca seu Bach, seu Chopin, seu Beethoven, com tal feeling e potência expressiva que tudo transfigura a seu redor.

Saramago imagina então que a morte, encantada com a musicalidade deste mortal que ela não consegue se decidir a matar, escolhe fazer o que nunca antes fizera – é só lembrar que ela não teve piedades, em sua ação pretérita, de gênios musicais colhidos tão cedo do jardim da vida como Schubert, Mozart ou Janis. A morte depõe suas armas diante da música, adia suas tarefas, deixa para depois o único mandamento que segue – “matarás!” Enfeitiçada pela música que fazem os vivos, a morte que nunca dorme decide-se a deixar a foice encostada e vai tirar uma soneca – afinal suas pálpebras pesam após tanto tempo de ação em completa insônia. “E no dia seguinte ninguém morreu…”

“O que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naquela música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa ainda tivesse ficado por dizer… (p. 171)

É nossa sina de seres temporários que nunca possamos abandonar o palco depois de tudo termos dito. Resta sempre muito por dizer, e o resto é silêncio. Na literatura de Saramago, este incontornável da condição humana recebe um tratamento literário que é tonificante, não só pela liberação lúdica que nos fornece, aliviando a gravidade com que costumamos tratar do assunto e polvilhando tudo com um espírito de jocosa ironia, mas também pela intensificação de nossa consciência do quão tragicômico é este clarão entre dois nadas que cada um de nós chama de vida.

A morte saramaguiana tem muita graça e lendo este romance pude me divertir a imaginá-la como um funcionária exemplar, que desde a alvorada da vida exerceu suas funções de maneira impecável, mas que enfim decide reclamar seus direitos trabalhistas e reclamar do patrão (deus ou o universo, segundo o gosto do freguês…), já que ela já labuta há milênios, sem férias nem direito a greve, matando 24 horas por dia, inclusive em feriados religiosos e nos horários mais impróprios da madrugada.

A morte é parte inextricável e incontornável da vida de que cada um de nós não detêm a posse mas somente o fugaz usufruto. E a sabedoria epicurista sempre ensinou que não há carpe diem sem memento mori. Saramago, acredito, assinaria embaixo caso a morte tivesse lhe deixado mãos para escrever. Também assinaria embaixo, provavelmente, de duas idéias filosóficas que muito aprecio: a primeira, de Montaigne, que dizia que “filosofia é aprender a morrer”, e a segunda, de André Comte-Sponville, que ensina que “é preciso pensar a morte para amar melhor a vida – em todo caso, para amá-la como ela é: frágil e passageira.”

O pensamento de Saramago, tão filiado a um certo ímpeto de lucidez iluminista que batalha contra o obscurantismo e o fanatismo, busca conduzir-nos a esta sábia apreciação de nossa existência mortal que é tão rara e preciosa. Escrevendo logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, Saramago soube conectar com profundidade os fatores inextricáveis mortalidade religiosidade ao escrever “O Factor Deus”, excelente provocação filosófica-política que é recomendável como posfácio às Intermitências da Morte:

“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que isto seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel.

Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conluio pactuado entre Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos, o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de torpor e sangue as páginas da História.

Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “factor Deus”, esse está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “factor Deus” o que se exibe nas nota de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos e não a outra…) a benção divina. E foi o “factor Deus” em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “factor Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem, acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “factor Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.” – SARAMAGO / O FACTOR DEUS

Por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Julho de 2018

 

150 DOS MELHORES ÁLBUNS BRASILEIROS DO SÉCULO XIX – Ouça todos na íntegra no canal A Casa de Vidro no YouTube

150 DOS MELHORES ÁLBUNS BRASILEIROS DO SÉCULO XIX – Ouça todos na íntegra no canal A Casa de Vidro em YouTube: http://bit.ly/1Z9c2Ef. Seleção de ótimos discos da nossa música no período entre 2000-2017, em ordem decrescente de popularidade. Tem Criolo, Tom Zé, Sabotage, Pitty, Emicida, Nação Zumbi, Elza Soares, BaianaSystem, Planet Hemp, Tulipa Ruiz, BNegão & Seletores de Frequência, Céu, Metá Metá (oficial), Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Rodrigo Amarante, Bixiga 70, Boogarins, Curumin, Karina Buhr, Carne Doce, Baleia, Abayomy, Vespas Mandarinas, Macaco Bong, Siba, O Terno, Vivendo do Ócio, Gustavito, Cidadão Instigado, Diego Mascate, Lenine, Hurtmold, Camarones Orquestra Guitarrística, Tagore, e por aí vai.

Acesse: http://bit.ly/1Z9c2Ef. Se curtiu, compartilhe e dissemine!

Adentre: www.acasadevidro.com – Link curto pro post: http://wp.me/pNVMz-3XP.

100 DISCOS BACANAS DA MÚSICA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 – Ouça todos na íntegra: Criolo, Pitty, Emicida, Planet Hemp, Nação Zumbi, Lenine, Tom Zé, Elza Soares, Boogarins etc.

Subam o volume, abram os tímpanos e façam recurso aos expansores de consciência prediletos! Eis aqui um banquete musical farto e diverso que serve como um passeio turístico pela produção musicográfica no Brasil de 2000 pra cá. Os mais de 100 álbuns completos aqui reunidos pretendem ofertar portais de entrada para alguns dos mais significativos e expressivos álbuns gravados desde que o atual século raiou e a lista inteira pode ser acessada também em nossa playlist no Youtube (shortlink: http://bit.ly/1Z9c2Ef). A imagem que ilustra o post (acima) é uma obra do estúdio de ilustração goiano Bicicleta Sem Freio.

Voilà alguns dos artistas que vale a pena acompanhar no cenário musical brazuca contemporâneo: Criolo; Emicida; Pitty; Planet Hemp; Elza Soares; Los Hermanos; Siba; Lenine; Juçara Marçal e Metá Metá; Céu; Curumin; Apanhador Só; Karina Buhr; Móveis Coloniais de Acaju; Vivendo do Ócio; Cidadão Instigado; Tom Zé;  etc.

OBS: Algumas ausências importantes deste listão devem-se simplesmente à indisponibilidade atual do álbum no Youtube: é o caso, por exemplo, de obras excelentes – que esperamos poder adicionar à lista em breve – como: ModeHuman do Far From AlaskaCorpura, do Aláfia; A Dança da Canção Incerta, da Pó de Ser; a estréia do Carne Docedo Hellbenders, do Overfuzz; além dos discos de Mariana Aydar, Ceumar, Luiz Tatit etc.

(P.S. – Vocês podem sugerir álbuns ausentes desta playlist pelos comentários ou via msg de Facebook! Compartilhe no FB e no Tumblr.)

criolo

CRIOLO – “Convoque Seu Buda”


CRIOLO – “Nó Na Orelha”


PAULO CÉSAR PINHEIRO, “Capoeira de Besouro”


SABOTAGE – “Rap É Compromisso”


EMICIDA – “O Glorioso Retorno…”


CÍCERO – “Canções de Apartamento”


NAÇÃO ZUMBI – “Fome de Tudo”


PLANET HEMP – “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça”


B NEGÃO – “Sintoniza Lá”


ELZA SOARES – “A Mulher Do Fim Do Mundo”


CÉU – “Vagarosa”


RODRIGO AMARANTE – “Cavalo”


TULIPA RUIZ – “Efêmera”


JUÇARA MARÇAL – “Encarnado”


JUÇARA MARÇAL E KIKO DINUCCI – “Padê”


RACIONAIS MCS – “Nada Como Um Dia”


CÉU – “Catch a Fire” (Live)


LITTLE JOY


B NEGÃO – “Enxugando Gelo”


RUSSO PASSAPUSSO – “Paraíso da Miragem”


PITTY – “Anacrônico”


PITTY – “Sete Vidas”


PITTY, “Admirável Chip Novo”


NÔMADE ORQUESTRA


KAMAU – “Non Ducor Duco”


CURUMIN – “Japan Pop Show”


BOOGARINS – “Manual”


BOOGARINS – “Plantas Que Curam”


KARINA BUHR – “Eu Menti Pra Você”


B NEGÃO – “Transmutação”


O TERNO (2014)


MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU (2005)


AVA ROCHA – Ava Patrya Yndia Yracema (2015)


MACUMBIA – Carne Latina


TÁSSIA REIS


ACADEMIA DA BERLINDA (2007)


MACACO BONG – “Artista Igual Pedreiro”


ANELIS ASSUMPÇÃO E OS AMIGOS IMAGINÁRIOS


DINGO BELLS – “Maravilhas da Vida Moderna”


VIVENDO DO ÓCIO – “O Pensamento É Um Ímã”


BAIANA SYSTEM – “Duas Cidades”


CIDADÃO INSTIGADO – “Fortaleza”


CIDADÃO INSTIGADO E O MÉTODO TUFO DE EXPERIÊNCIAS


TOM ZÉ – “Vira Lata na Via Láctea”


ELO DA CORRENTE – “Cruz”


ÑANDE REKO ARANDU – Memória Viva Guarani  (2000)


ESTRILINSKI E OS PAULERA – “Leminskanções”


NOÇÃO DE NADA – “Sem Gelo” (2006)


MOMBOJÓ – “Nada de Novo” (2004)


FINO COLETIVO (2007)


PITTY – “Ciaroescuro”


MATEUS ALELUIA – “Cinco Sentidos” (2010)


LOS HERMANOS – “Ventura” (2003)


ABAYOMY AFROBEAT ORCHESTRA – “Abra Sua Cabeça”


SIBA – “Avante”


SIBA E A FULORESTA – “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” (2007)


MUNDO LIVRE S/A – O outro mundo de Manuela Rosário (2004)


NÁ OZZETTI E ZÉ MIGUEL WISNIK – Ná e Zé (2015)


CAETANO VELOSO – Cê (2006)


HURTMOLD – Mestro


INSTITUTO – Coleção Nacional


CORDEL DO FOGO ENCANTADO


RODRIGO CAMPOS – “Conversas com Toshiro”


DUDA BRACK – “É”


CURUMIN – “Achados e Perdidos” (2005)


LUISA E OS ALQUIMISTAS – “Cobra Coral”  (2016)


A TROÇA HARMÔNICA (2015)


MAHMED – Sobre a Vida em Comunidade


LETUCE – Estilhaça


FILARMÔNICA DE PASÁRGADA – “O Hábito da Força” (2013)


LENINE – “Chão” (2011)


LENINE – “Labiata” (2008)


MUÑOZ – “Nebula” (2014)


JARDS MACALÉ – “Amor, Ordem e Progresso”


OTTO – “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” (2009)


TOM ZÉ – “Jogos de Armar”


SARA NÃO TEM NOME – “Ômega III”


FORGOTTEN BOYS – “Stand by the DANCE”


GUSTAVITO – “Só o Amor Constrói”


BLUBELL – “Eu sou do Tempo…”


THALMA E GADELHA – “Mira”


NOÇÃO DE NADA – “Trajes e Comportamentos”


MUNDO LIVRE S/A vs NAÇÃO ZUMBI


ZULUMBI (2014)


IAN RAMIL – Derivacilização (2014)


CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA – Rytmus Alucynantis


CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA – Espionagem…


ABAYOMY (2012)


LOS HERMANOS – “Bloco do Eu Sozinho”


VOLVER – “Acima da Chuva”


ORQUESTRA IMPERIAL – “Carnaval Só Ano Que Vem”


SUPERCORDAS – “Terceira Terra” (2015)


CÉREBRO ELETRÔNICO – “Pareço Moderno”


PATA DE ELEFANTE – “Um Olho no Fósforo…”


GUIZADO – “Calavera”


SIBA E A FULORESTA – “Fuloresta do Samba”


LURDEZ DA LUZ – Ep


RED BOOTS – “Touch the Void”


SUBA – SP Confessions


DIEGO E O SINDICATO – “Parte de Nós”


DIEGO MASCATE


APANHADOR SÓ


APANHADOR SÓ – “Antes Que Tu Conte Outra”


BIXIGA 70 III (2015)


BIXIGA 70 (2013)


HELLBENDERS – “Peyote”


BERIMBROWN (2000)


RENATA ROSA, “Zunido da Mata” (2012)


RENATA ROSA, “Encantações” (2015)


SERENA ASSUMPÇÃO, “Ascensão” (2016)


METÁ METÁ – “MM3” (2016)


METÁ METÁ (2011)


JULIANO GAUCHE – “Nas Estâncias de Dzyan” (2016)


JULIANO GAUCHE (2013)


THE BAGGIOS – Brutown (2016)


Abayomy Afrobeat Orquestra

Abayomy Afrobeat Orquestra

DESLACRANDO A LIBERDADE: O Festival Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

DESLACRANDO A LIBERDADE

O Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

por Eduardo Carli de Moraes

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
CECÍLIA MEIRELLES (1901-1964)

PRELÚDIO ETIMOLÓGICO

DESLACRANDO = gerúndio do verbo deslacrar
DESLACRAR = abrir o que está lacrado

I. A BLITZKRIEG LIBERTÁRIA DE LINIKER E OS CARAMELOWS

Quiseram os rumos da História que o Festival Bananada 2016, em sua 18ª edição anual consecutiva, acontecesse logo nos primeiros dias do (des)governo interino de Michel Temer. Com o punho direito no alto – um gesto típico do Black Power e celebrizado nas Olimpíadas do México em 1968 pelos atletas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos, Liniker começou seu show no Bananada garantindo: “estamos aqui pela liberdade, sempre!” Quando a música começou a rolar, como uma maná de frescor e vida que caía em exuberância, era difícil resistir à blitzkrieg libertária, mezzo Dzi Croquettes e mezzo Itamar Assumpção e Isca de Polícia, que tomou conta do recinto.

Para o jovem multi-artista de Araraquara (SP), liberdade tem tudo a ver com a afirmação jubilante do empoderamento. Quando despontou com vídeos que viralizaram na Internet – “Zero” já tem mais de 2 milhões e 500 mil views – o Liniker apareceu para confrontar todos os códigos do politicamente correto: quando ele canta “deixa eu bagunçar você”, está pondo em prática um programa anarco-estético ousado, que tem na ruptura das ortodoxias um dos seus principais nortes. Deixe-se bagunçar! Pois o atual discurso de “salvação nacional” da “Ponte Para o Futuro”, baseada na recuperação do “ordem e progresso”, não merece nada mais que ser caotizado por nossas energias ingovernáveis e nossa desobediência civil.

Liniker3

A “atitude lacradora” que Liniker e sua banda de apoio, os açúcarados e cheios-do-groove Caramelows, propagaram em seus dois shows no Bananada (o primeiro, no teatro Sesi, e o segundo, no Centro Cultural Oscar Niemeyer) mostraram a perfeita conjunção entre música e atitude, relembrando que a revolução comportamental pode ter como uma de suas melhores aliadas a cultura, renovada, que têm nascido. Calcados na melhor tradição da black music nativa e gringa, mesclando a gafieira Black Rio com a funkeira à la Sly and the Family Stone, Liniker demonstrou ser um dos nomes mais magistrais da nova música brasileira.

Sua empatia com a multidão, sua capacidade de comandar a massa, sua performance exuberante e sem pudores beatos, fez dele o grande destaque do Bananada. Contra todo tipo de racismo, homofobia, machismo ou apartheid, Liniker e seus asseclas provaram que há sim plena possibilidade de congregação entre gente diferente e que não foi inventado nada melhor que a música como agente catalisador da fraternidade imediata entre desconhecidos (uma lição que os gregos, em seu dionisismo, já conheciam muito bem!).

Com um carisma fora de série, um senso de humor delicioso, uma expressão corporal livre e desinibida, Liniker demonstrou ser um band leader daqueles que surge muito raramente na música popular de qualquer país. A platéia foi ao transe diante da ousada confrontação de todas as carolices. Congregar-se é isso, justamente: agregar amorosamente as diferenças, permitir o convívio alegre do dissonante. Faltam palavras suficientes para descrever o sopro de vida e esperança desta celebração artística da liberdade em nosso tempo de tenebrosos fascismos, que saem do armário tacando suas pedras sobre negros, bichas, índios, ateus, petistas, comunistas, secundaristas e “vândalos”, num triunfo grotesco do discurso do ódio.

LinikerNum país onde Bolsonazi faz apologia da tortura, elogiando o carrasco de Dilma na ditadura em uma sessão da Câmara comandada por um delinquente contumaz (Cunha) e em que um sindicato de ladrões cagou em gangue sobre o sufrágio universal, foi uma injeção de vida na veia poder testemunhar a simbiose artistas-público no Bananada, com o ódio acéfalo e o golpismo segregador sendo confrontados lindamente pela amorosidade  contagiante dos Caramelows. Mostraram que ainda há a coragem de sobra, neste país, de afirmar toda a nossa diversidade e colorido – com o volume no talo e sem medo de porra nenhuma.

Num intervalo entre as músicas, a platéia, galvanizada, berrava a plenos pulmões e com insistência: “não vai ter golpe! não vai ter golpe!” Ao sabor da hora, Liniker retorquiu com palavras de fraternidade na resistência, clamando pra que a gente não deixe que arranquem nossa democracia e conclamando à união: “não vai ter golpe, o que vai ter é lacre!” Acompanhado pelas duas deslumbrantes backing vocals, Liniker deu um show de humanidade (este valor fora-de-moda em nossa época desumana). Foi isso que busquei sintetizar no vídeo abaixo que, em 20 minutos, tenta transmitir um pouco das razões (e das emoções) que me levam a considerar este o show mais emblemático daquele que talvez tenha sido, como disse a Noisey da Vice Brasil, o melhor Bananada destes 18 anos de vida do festival goiano.

Banana2 

* * * * *

II. #FUCK TEMER E OUTRAS SUBVERSÕES E RESISTÊNCIAS

ethos da resistência aos Podres Poderes marcou o palco do Bananada em vários momentos, numa ironia histórica notável: numa época em que a Republiqueta de Bananas se manifesta em todo o seu desprezo pela democracia, golpeando o sufrágio popular em prol de um complô plutocrático das elites, coube ao Bananada ser uma ruidosa voz resistente contra os desmandos da corja delinquente chefiada por Cunha, Temer, Serra, P.I.G., Fiesp e demais escrotos golpeadores.

Vários artistas se apresentaram numa vibe de indignação política, com várias manifestações sobre o tema: Siba brincou com a linguagem – “teve goipe e teve goipada!”, disse o genial músico e poeta pernambuco, clamando para que sigamos Avante com nossos ideais e não deixemos o país ir, de vez, para o fundo do poço. A folia na galera foi ao auge com canções inesquecíveis como “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar”. O talento como letrista de Siba é explícito e acachapou-nos quando, no encerramento do show, com veia de repentista somada a um certo sabor de Ariano Suassuna, ele inventou na hora, de improviso, uma série de estrofes rimadas que provaram mais uma vez a maestria deste nosso queridíssimo gênio do cancioneiro popular.

 O indie rock a um só tempo ruidoso e psicodelizante dos Supercordas também agradou. De cima do palco, Bonifrate e companhia bradaram em cartazes: “Não vai ter governo” e “Vai ter luta”.

Superchords

Super

Helio Sequence

The Helio Sequence (USA), foto de Ramon Ataide

O grupo de rock psicodélico Bike, que homenageia em seu disco de estréia, 1943, o químico Albert Hoffmann, sintetizador do LSD e primeiro ser humano a dar um rolê de bicicleta pela Holanda após consumir acido lisérgico, também clamou para que a gente “desça da montanha” pra lutar contra o governo usurpador, “se não a gente tá fudido”.

Mesmo as estrelas do stoner local, os Hellbenders, fizeram pela primeira vez um discurso político, criticando os retrocessos na cultura anunciados pelo presidente biônico. Até os gringos (estadunidenses) do The Helio Sequence juntaram-se ao coro e lacraram: “#FuckTemer!”.

As guitarradas comeram soltas, dando fuel pra indignação e pras rodas de pogo, com o Riviera Gaz – o excelente power-trio estrelado por Gustavo Riviera (vocalista e guitarrista, do Forgotten Boys) e o batera do Sonic Youth, Steve Shelley. O Killing Chainsaw tentou cortar cabeças com serra elétrica com seu indie-punk raivoso, ensurdecedor. E quando o Planet Hemp chegou, precedido de um DJ Set na vibe “Killing in the Name”, o poderio contestatório e revolucionário do rock estava flamejando em toda a sua fulminância, com Marcelo D2 e BNegão, neste revival em boa hora, mostrando porque esta é uma das bandas mais foda da história deste país.

É uma delícia ouvir, berrado, “adivinha, doutor, quem tá de volta na praça: Planet Hemp, esquadrilha da fumaça!”. Ainda mais considerando a atualidade da mensagem Hempiana, dada a continuidade grotesca do proibicionismo contra-producente, da política de encarceramento em massa, do racismo institucionalizado em nossas prisões e polícias, das Tropas de Choque e de Elite que defendem o tope repleto de bandidos de colarinho-branco. Diante desta situação, graças ao Planet Hemp temos artistas sem rabo preso, com consciência social, devotados ao protesto construtivo em prol de maior justiça social, que nos ajudam a questionar e com quem é preciso sempre re-perguntar, diante de todo o sangue que derrubam e de toda a injustiça que cometem os nossos “líderes” do controle e da repressão, se não é o caso de pararem de apontar o dedo acusador para maconheiros, como se fossem parte do problema, quando são, na real, parte da solução! Avante, rumo ao Planeta Maconha!

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Foto por Ariel Martini.

Foto por Ariel Martini.

A CULPA É DE QUEM?
“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão
Militares torturaram e não foram pra prisão
Eu fumo minha erva, me chamam de ladrão
Os negros já fumavam a erva antes da África deixar
Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar
E os senhores de hoje em dia estão proibindo também
Se o pobre começa a pensar parece que incomoda alguém
Crianças crescem nas ruas, não confiam em ninguém
Escondem nossa cultura, referência ninguém tem
O país tá uma merda e a culpa é de quem?

A culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eles roubam no planalto e não pensam em ninguém
Manipulam as leis e vêm com papo furado
Tudo que incomoda eles, eles dizem estar errado
Então quem é o marginal?
Crianças morrem por sua culpa e eu que vivo ilegal
Tenho que me esconder por uma coisa natural
Enquanto eles metem a mão na maior cara de pau
Não vou ficar calado porque está tudo errado
Políticos cruzam os braços e o país está uma merda
Trabalho pra caralho e fumo a minha erva, aí eu te pergunto:

A culpa é de quem? A culpa é de quem?”

* * * * * *

III. O “PACOTE DE MALDADES” DO GOLPISMO vs A CULTURA EM MARCHA CONTRA A BARBÁRIE

O festival ocorreu em meio a um clima político de estarrecimento geral, e muitas vezes revolta incontida, diante do “pacote de maldades” que o PMDB batizou (seria irônico, caso não fosse trágico!) de “Ponte Para O Futuro”, e que é o novo nome para uma velharia: a proposta, útil só aos 1% no tope, da Privataria Generalizada somada às brutais “Austeridades Para O Povo”. Uma farsa elitista que já foi “gloriosamente” instalada entre nós, nos anos 1990, pelo sociólogo transmutado em parceiraço do capital transnacional oni-privatizante, o FHC [Fumando Henrique de Cardoso].

Como prova empírica do caráter elitista, misógino e plutocrático do regime golpista instalado às pressas nesta republiqueta-de-bananas, a “nova” Esplanada dos Ministérios não tem como ministro nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum representante dos povos indígenas. É um Ministério para agradar o P.I.G.: para que a Veja se satisfaça com a reiteração maldita do dogma machista-patriarcal que obriga a mulher a ficar restrita a subalterna e serviçal: “bela, recatada e do lar”. 

O golpe é engomadinho, tem visual de quem vai aparecer na TV: veste terno-e-gravata, faz discursos na Globo, dirige BMWs comprados por lavagem de dinheiro pela Suíça ou pelo Panamá. Os golpistas são olimpicamente desdenhosos da vida dura dos reles mortais que vivem em favelas, ou estão no desemprego, ou das mulheres que querem abortar, ou de todos os que não aceitam o molde familiar da heterossexualidade compulsória, ou dos mortos e feridos pela brutalidade banalizada de nosso complexo policial-carcerário e da conexa e absurda Guerra às Drogas.

O ministério do golpe é todo de velhos homens brancos, fedendo a mofo e à interesses egocêntricos, boa parte deles réus em processos de corrupção e enriquecimento ilícito, com nada menos que 7 deles na mira da Lava Jato. Todos eles representantes de elites que já estão demasiado bem-bancadas, no Parlamento, pelas Bancadas BBB (Boi, Bala e Bíblia). O que significa que a Cultura perdeu muitas batalhas para a Barbárie nos últimos tempos!

O último golpe, desferido dias antes do Bananada, foi o fim da existência independente do MinC: Temer decretou a fusão do ministério da Cultura e da Educação, entregou de mão beijada o Ministério a um partido da direita-grotesca (o DEM), com um desdém inimaginável pelo trabalho de Juca Ferreira, Ivana Bentes e de tantos outros guerreiros que têm lutado, ultimamente, em prol de nossa Cultura Viva. Uma ameaçadora espada de Dâmocles pendia sobre o pescoço do MinC durante o festival, enquanto dezenas de ocupações de prédios e escolas se multiplicavam pelo Brasil, exigindo do governo usurpador o respeito devido à cultura e à arte. Com as cabeças desabrigadas de teto, sob as estrelas do Goiás, nós nos movíamos (uns 5 mil humanos por noite!) entre a monumental arquitetura de Oscar Niemeyer na inquietude destes tempos caóticos.

Donde a importância, para além do entretenimento social e da venda lucrativa de espetáculos pela “Indústria Cultural” nacional – que, devido às minguadas verbas públicas para a cultura, hoje para bancar-se não está tendo como escapar dos conluios de patrocínio com as corporações de cerveja (a Skol é a patrocinadora oficial do festival) – o Bananada foi um sopro de vida muito bem-vindo. Ainda que o conteúdo político não estivesse no script oficial do evento, produzido com competência ímpar pela Construtora de Fabrício Nobre, este foi o Bananada de maior impacto político dentre os 6 ou 7 que já testemunhei.

Siba3

O Bananada reafirmou enfaticamente a potência da cultura nestes nossos tempos tão bárbaros, mostrando a quem lá esteve que este país, para além da crise política e econômica estraçalhante, tem vocação para driblar adversidades com muita capoeira, tem o dom da criatividade sem freios, tem a disponibilidade para as mestiçagens e hibridismos mais livres, tem propensão para a genialidade rítmica e melódica absolutamente ímpares. O Brasil autêntico que vive e resiste longe das cúpulas, não se preocupem, sempre foi ingovernável e de uma genialidade selvagem!

Siba

“Teve goipe sim, teve goipada!” – Siba

Se a política institucional é um lamaçal de podridão que nos envergonha diante do mundo, podemos muito bem nos orgulhar, isto é, dar um boost na auto-estima e um chega-pra-lá no “complexo de vira-latas”, por sermos os felizes e gratos conterrâneos de figuras de tão adorável musicalidade e poiésis: Jorge Ben Jor, Siba, Juçara Marçal, Liniker, Planet Hemp, Carne Doce, Pó de Ser etc. Junto deles é que estamos em boa companhia.

IV. CONTRAGOLPES DA LUZ EM TEMPOS DE TREVAS

A experiência me deixou matutando que não há época de trevas que não seja também repleta de contragolpes da luz. Sem A.I.5 não haveriam nascido as “É Proibido Proibir” e as “Cálices” que fizeram com que nossa MPB, mesmo sob as mordaças e os horrores da Ditadura, florescesse resistindo. E que luz brilha com mais esplendor, nas trevas impostas pelas elites, que a da liberdade cantada e da dançada de um povo que constrói na união e na fraternidade seu próprio empoderamento?

Liberdade de afirmarmos a nossa diversidade e celebrarmos o pluralismo de nossa criatividade. Liberdade também de demolir paradigmas de bom comportamento, destroçar imposições autoritárias de conduta, ir além da jaula estreita do politicamente correto, do imposto pelas caretices reinantes. Liberdade para ser absolutamente anárquico (no bom sentido!) na bagunça de gênero, número e cor que dá o tom no Liniker e os Caramelows, com toda a maravilhosidade sem culpa de um protagonista que é ao tempo negão, bicha e lacradora, demolindo a golpes de genialidade qualquer idiotice racistóide ou puritanismo teocrático.

Liberdade para defender, com impacto expressivo e estético de intenso vigor e verve, um “Planeta Maconha” de cannabis livre e Estado policial-carcerário aposentado de vez da história, como fez o Planet Hemp em show arrebatador (os caras são de um poderio ao vivo que os equipara a Rage Against The Machine ou MC5!).

Liberdade para quem é careca, é gordo, é feio, é veado, é de esquerda, é vesgo, tem pele com mais melanina, é ativista do socialismo, é anarquista libertário, é feminista e lésbica, é o que diabo for, de ser quem é, sem ter que tomar pedradas ou sofrer discriminações ofensivas. Os festivais de Goiânia – em especial o Bananada, o Vaca Amarela e o Grito Rock – parecem Zonas Autônomas Temporárias onde a lei do amor prevalece sobre a do ódio e ninguém fica “tacando pedra e bosta na Geni”. Locais onde damos razão à Hannah Arendt quando escreveu, em A Vida do Espírito, que “a pluralidade é a lei da terra.”

Nestes pavorosos tempos de fascismo em ascensão e de golpes de Estado financiados pelo capital transnacional, sempre com seus bem-pagos serviçais na elite nativa, é um sopro de esperança e vitalidade um festival assim, tão bom e tão vivo. Um sopro – ou melhor, para citar os Hellbenders, um hurricane! – de um outro mundo possível onde artistas empunhem, não só guitarras e baixos, tambores e baquetas, mas que também levantem bandeiras libertárias.

Helio2

O festival ficou marcado na carne pelas urgências da época histórica, e até mesmo as bandas estrangeiras envolveram-se com o “clima de golpe de Estado”, como fez o vocalista do The Helio Sequence quando disse: “here’s something I guess most of you will relate to!”, disse o antes de erguer um cartaz branco onde se lia, em letras garrafais negras ali grafadas com spray: FUCK TEMER”.

As duas palavrinhas impertinentes que mandavam um foda-se ao usurpador também decoraram um dos palcos, no último dia de festival (15/05), e marcaram o background para a passagem do furacão goiano Hellbenders. Para onde quer que se olhasse naquele palco, o stoner-grungy da banda tinha por acompanhamento fuck Temers e fuck Malafaias às mancheias.

Hell

 Lançando seu segundo álbum, Peiote, gravado na Califórnia no Rancho de La Luna, os Hellbenders pela primeira vez desvelaram uma faceta politizada, como no prelúdio a “Hurricane”, em que o vocalista Diogo Fleury convocou para uma mega roda de pogo após dizer que um governo que nos seus primeiros passos comete atentados contra a cultura e a arte já começa bem mal.

Para além de teorias e debates sobre ela, a tal da Liberdade manifestou-se na práxis em corpos bailantes, coros de vozes em uníssono, cabelos e penteados de todas as cores e tipos (confesso predileção e carinho pelos cabelos azuis, que propagam ecos do filme Azul É A Cor Mais Quente). A variedade, além de estética e temática, foi também vista no colorido do público e na diversidade dos espaços que podíamos explorar – do point do skate ao das tatoos, da praça gastronômica deliciosa às projeções nos prédios (que recuperaram a obra do Bicicleta Sem Freio no prédio do CCON que foi censurada no ano passado). Como bem explorou a matéria da Noisey:

“Em sua 18ª edição, o Festival Bananada vem há tempos buscando transcender a esfera musical e proporcionar uma experiência completa ao público. Não estamos falando apenas de algumas bancas com comida — apesar do Circuito Gastronômico promovido pelo evento ter sido uma das experiências mais agradáveis do rolê —, mas sim de estúdios de tattoo, cabeleireiro, lojinhas das mais variadas bugingangas, merch dos artistas, tabacaria, espaço para as crianças (pode ser cedo demais para levar o bacuri a um show do Planet Hemp), campeonato de skate e até mesmo uma rinha de bartenders valendo prêmio para o melhor drink.

O excesso de opções no espaço, claro, tornou necessário um certo planejamento envolvendo o que assistir e o que fazer durante o festival, mas nada que comprometesse seriamente a chapação envolvida em três dias principais o festival (que ao todo se desenrolou entre os dias 9 e 15 de maio) de encontros com os brothers e muita música foda no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o CCON, em Goiânia.

(…) Em 18 anos de existência, talvez o festival tenha nos proporcionado sua versão mais acertada. Com uma estrutura inédita e muito bem planejada, grande parte dos perrengues de se ir a um evento deste porte passou em branco. Apesar da variedade de gêneros musicais presente na programação, ficou uma leve sensação de que faltou uma ou outra banda mais bombada no evento e — como a própria plateia disse durante o show do Rodrigo Ogi — faltou rap no Bananada.

Para muitos que residem em Goiânia, Brasília e região o Bananada funciona como a única forma de reencontrar alguns amigos, o que torna todo o rolê mais essencial a cada ano que passa. A tônica política também foi forte: praticamente todos os artistas que se apresentaram nos três dias do festival no CCON se posicionaram contra o golpe — e alguns até discursaram para o público. Considerando a situação cívica caótica que estamos vivendo nos últimos tempos, o Festival Bananada foi um pontinho reconfortante de esperança e descontração no meio do Cerrado.” – NOISEY

Salma Jô por Ariel Martini

Salma Jô, vocalista do Carne Doce – Fotografia por Ariel Martini

V. TODA A FORÇA DA DOÇURA DA CARNE

Naquele tenebroso 17 de Abril do golpe parlamentar de Cunha e sua corja – confrontado pela maré vermelha de ativismo que registrei no documentário O Céu e o Condor – Jean Wyllys acusou o processo de impeachment contra Dilma de ser uma “farsa sexista”. O caráter patriarcal, retrógado e machista se confirmou com o ministério de Temer, sem nenhuma presença feminina, colocando mais lenha na fogueira das insurgências feministas, mais necessárias do que nunca diante do atentado à democracia que é também um ataque à figura da mulher em figura de proeminência e protagonismo na política. Neste contexto, não economizo palavras para adorar uma banda como o Carne Doce, que já faz por merecer a posição dentre as melhores bandas do Brasil.

Com apenas um EP (Dos Namorados) e um álbum (Carne Doce), o quinteto goianiense já consagrou-se pelo brilhantismo e pela lindeza de sua arte e de suas performances. Nasceu em Goiânia nos últimos anos, em especial com os Boogarins, o Pó de Ser e o Carne Doce, uma espécie de vertente do indie rock brasileiro que prima pela originalidade, pela experimentação, pela ousadia estética e comportamental, em contraste com o hype do cenário stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders, Overfuzz), que é um furacão de potência mas está ainda bem apegado a modelos estrangeiros, às letras em inglês e ao desejo de ser como o Queens of the Stone Age.

A emergência das bandas com letras em português e autenticidade estonteante – no caso do Boogarins, capaz de transcender as fronteiras nacionais e tornar-se fenômeno global – torna este um dos momentos mais geniais da história de Goiânia Rock City. E não há dúvida de que Salma Jô e seu comparsas de banda estão no centro deste protagonismo – e com todo o mérito, já que a qualidade do trabalho Carne Dociano é algo de deixar boquiaberto o crítico musical, que se transmuta logo em outra coisa: fã em estado de adoração. O modo como acabou o show do Carne Doce neste Bananada 2016 é a maior prova disso: na cena mais inesquecível do festival, numa imitação de Eddie Vedder (Pearl Jam) em seus dias de loucão grungy, o Dan Pimentel escalou a estrutura do palco, fugindo do guardinha da segurança, e enlouqueceu total dependurado no topo, num headbanging xamânico ao som de “Adoração”.

SalmaNão se trata de um caso isolado: o Carne Doce é capaz de despertar reações extremas no público, em especial pela capacidade descomunal de Salma Jô em interpretar as suas canções de modo visceral, com expressão corporal de uma autenticidade e uma liberdade que são muito raras e admiráveis, agindo sempre como se estivesse curtindo imensamente o som produzido por Macloys, Aderson, Ricardo e João Vitor. Apesar de soar prematura uma profecia diante de uma banda tão nova, eu diria que Salma tem o potencial para tornar-se uma das mais importantes cantoras do Brasil – no nível de uma Cássia Eller ou uma Elis Regina – e já pode ser elencada, dentre as vozes contemporâneas, na companhia de Juçara Marçal ou Ceumar como uma de nossas mais incríveis intérpretes.

No Bananada, houve aula magna de liberdade com a refulgência do Carne Doce, uma banda que tematiza sexualidade e sensualidade indo ao cerne do coração selvagem de que nos fala Clarice Lispector. Numa música nova, que eu desconhecia e que muito me impressionou, o eu-lírico da Salma adota a perspectiva em primeira pessoa de uma mulher que decide-se, ao descobrir-se grávida, que o filho “não vai nascer”. Salma Jô canta-nos e convence-nos com uma encarnação (a um só tempo teatral e autêntica!) dos dilemas femininos como são sentidos por dentro. É um antídoto empoderador contra os discursos obscurantistas e fanáticos daqueles que desejam subtrair da mulher seu poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Ava Rocha e Salma Jô

Ava Rocha e Salma Jô

A participação tempestuosa de Ava Rocha, pela primeira vez dividindo o palco com o Carne Doce, foi uma lição a mais de empoderamento e excentricidade. No “Auto das Bacantes”, cantada em dueto com Salma, o chamado é para “tomar os espaços”: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA / da mulher maravilha / e meta um grelo na geopolítica!Ava – responsável por um dos álbuns mais inadjetiváveis da nova música brasileira, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), trouxe ao transe carne-dociano um elemento transgressor a mais, subvertendo todos os paradigmas de beleza, como naquele estranho ritual bacântico em que Salma foi “coroada”, não como a crística coroa de espinhos, mas com uma coroa de facas. O público, extasiado, só agradecia às loucuras maravilhosas que via no palco e que provavam a maravilha das rebeldias estéticas e comportamentais. Nossa arte e nossa política só tem a ganhar com o talento e o carisma inestimáveis de mulheres como Salma e Ava.

Foram momentos momento de re-afirmação coletiva da capacidade de dizer não: no caso, não ao retrocesso, não à barbárie, não ao golpismo, não ao capitalismo destroçador de dignidade. Uma ocasião de dizer nãos produtivos e criativos, muito para além da negatividade, numa afirmação de que “eu grito sim / é pra você escutar / que eu quero ver / você fazer / eu me calar!”

Cito a letra de “Passivo”, do Carne Doce, tanto por considerá-la emblemática da qualidade estética estonteante da banda, mas também para destacar outras camadas de sentido que podem ser desveladas na canção. O “não se calar” desta canção, onde o foco narrativo é uma relação amorosa interpessoal, na performance vocal visceral de Salma transita para outro domínio, para outra vibe, e que me parece ter potencial de ser pura dinamite política: é uma voz de autonomia e rebeldia. É o som da lindeza inestimável da insubmissão. É o som que faz o empoderamento do desejo que afirma-se sem pudor nem culpa pois se sabe digno de auto-afirmação plena.

É esplendorosamente subversivo, em especial com a explosão de uma sexualidade indomável dos versos “vem me fuuuuder”“vem me fazer daaaaaaaar!” Ainda que possa soar a alguns ouvidos como pornografia letrística, aos meus ouvidos soa como uma das manifestações mais impressionantes, na nossa música contemporânea, dum brado libertário do Corpo que demanda o seu direito de gozar, que quer dignificar o gozo e desculpabilizar a carne, em insurgência (necessária e urgente) contra todos os estigmas caretas e condenações pias que aniquilam nosso deleite por sermos quem somos e por nos amarmos como nos amamos.

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VI. O ESPLENDOR DA LUTA: JUÇARA MARÇAL EM CARNE VIVA

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Para terminar este relato, não posso deixar de me derreter em adoração pelo esplendor que foi a performance da Juçara Marçal, uma das mais lindas vozes deste nosso Brasil, no Festival Bananada 2016. Um dos momentos mais comoventes do show foi uma interpretação do samba “Opinião”, de Zé Keti, que caiu como uma luva no contexto da crise política brasileira: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião!”

Estes versos, com um prelúdio em que Juçara alertava que cantaria algo “sobre o Golpe”, ganharam uma nova gama de significados que insuflaram vida nova a esta imorredoura pérola do cancioneiro popular em que o protagonista é a “voz do povo” e a “sabedoria da quebrada”. A visceralidade e a graça que emanam do gogó da Ju Marçal despertaram em mim esperanças de que, mesmo com este grotesco atentado contra o MinC, mesmo com um crápula do DEM tendo recebido o ministério da Educação e Cultura, mesmo com o rolo compressor de esmagar cidadania com que o golpismo galopante já nos atropela, o nosso presente já é de florescimento exuberante de uma “arte-de-resistência”. A cultura autêntica não vai se calar.

Anos atrás, eu tinha visto um show do Metá Metá no CCUFG que havia deixado meus sentidos acachapados de admiração diante de uma bandas mais inovadoras e originais que surgiram no país nos últimos anos. Depois, o “Encarnado”, álbum solo da Juçara, tornou-se um dos meus álbuns prediletos da música brasileira contemporânea, com suas versões ousadas e criativas de Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba, dentre outros. Depois do Bananada 2016, não tenho mais dúvidas: Juçara é uma das artistas mais expressivas, inteligentes e sábias que temos entre os vivos. E é em fontes assim que preencho com um bocadinho de esperança um coração e uma mente que, às vezes, diante das escabrosas atrocidades de nossas elites e das castas políticas plutocráticas, ameaçam soçobrar no completo desespero.

Raia a esperança, emanada de João do Vale ou Zé Keti, de Wilson das Neves ou do Aláfia, de Jorge Ben em modo “Záfrica Brasil” ou Juçara Marçal dando vida à pluridiversidade de nossa cultura popular, de que, apesar dos pesares, Nelson Cavaquinho ainda terá a última palavra: “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de voltar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor… será eterno novamente.”

 A “ponte para o futuro” (na real um atalho para o abismo!) que está sendo imposta por aquilo que Noam Chomsky chamou de “golpe brando” (mas que entre nós já recebeu a denominação mais humorística de golpe à paraguaia) é fruto de uma obscurantista e retrógrada elite econômica e política que, sistematicamente derrotada nas urnas nas 4 últimas eleições presidenciais, não conteve seu mandonismo, seu coronelismo, e tomou de assalto o poder de modo fraudulento e ilegítimo.

Algumas das inteligências mais refulgentes e brilhantes da nossa vida política, como o ministro Juca Ferreira e a secretária Ivana Bentes, foram “despedidos” de seus cargos no MinC, como prova cabal de quão deturpado é o juízo dos Temerianos e o quanto eles querem sangrar o Cultura Viva até que se torne um zumbi. Emblemático disso foi que no Rio de Janeiro o monumento na Cinelândia em homenagem a Gilberto Gil, muso tropicalista que tão esplêndidas contribuições fez à nossa cultura popular e um dos mais revolucionários e visionários dos Ministros da Cultura que já tivemos, foi “deletado” do cenário urbano: a tinta cinza dos censores apagou o colorido de Gil horas antes de uma manifestação contra o golpe marcada para aquele local.

Com a nossa cara coletiva toda gotejante depois de tantas cusparadas (há cuspes e cuspes: o de Jean Wyllys é digno de aplausos, pois seria sórdido e grotesco permitir que a apologia da tortura e a prática cruel da homofobia, por parte do Bolsonazista, fosse aceita em silêncio, sem que protestássemos com escarro!), fomos ao Bananada 2016 pra ver se a música lavava a alma de toda esta sujeira. E lavou. O vigor, o poderio, o ruído ensurdecedor feito pelo Bananada 2016, em sua 18a edição, no coração do Cerradão onde repousa a cidade de Brasília, foi um contragolpe à altura das urgências históricas de que somos contemporâneos. A Cultura resiste. O pulso ainda pulsa. Não estamos derrotados. “E eu quero ver / Você fazer / Eu me calar!”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Maio de 2016

CONFIRA OS VÍDEOS FILMADOS NO BANANADA 2016:







Eles também estão disponíveis no YOUTUBE.

Fotos: ARIEL MARTINI | RAMON ATAIDE E EDUARDO CARLI | PEDRO MARGHERITO

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EM BREVE: DOC COMPLETO: DESLACRANDO A LIBERDADE NO BANANADA 2016

MAIS DE 70 DOCUMENTÁRIOS COMPLETOS SOBRE MÚSICA BRASILEIRA

“Chorinho” (1942),
de Candido Torquato Portinari (1903 — 1962)

 

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Tropicalia-Salas

Tropicália (de Marcelo Machado, 2012)
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Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo

Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo (2011),
Diretor: Geneton Moraes Neto, Duração: 1h 31min
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o-homem-que-engarrafava-nuvens

Humberto Teixeira: O Homem Que Engarrafava Nuvens (2008)
um filme de Lírio Ferreira


nasparedes-594x848Nas Paredes da Pedra Encantada (2011, 1h57min)
A história por detrás do mítico álbum “Paêbirú” – Caminho da Montada do Sol, de Lula Côrtes e Zé Ramalho

Leia: Scream and Yell


A MPB nos Tempos da Ditadura


Chico Buarque – O País da Delicadeza Perdida (2003)


Chico Buarque – Meu Caro Amigo


Itamar-Assumpcao_Cartaz-2Itamar Assumpção – Daquele Instante em Diante



Elza Soares – O Gingado da Nega


Vinícius de Moraes – Centenário (Globo News)


Isto é Noel Rosa (de Rogério Sganzerla, 1990)

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Cartolacartola-musica-para-os-olhosCARTOLA – MÚSICA PARA OS OLHOS (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda)
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BBC – Brasil Brasil, Episódio 01: DO SAMBA À BOSSA


BBC – Brasil Brasil, Episódio 02: REVOLUÇÃO TROPICÁLIA


BBC – Brasil Brasil, Episódio 03: UMA HISTÓRIA DE QUATRO CIDADES


A Música Segundo Tom Jobim


Tom Brasileiro (1987)


Clara Nunes – Band, 1973


LokiiiiLÓKI – ARNALDO BAPTISTA (de Paulo Henrique Fontenelle, 2009)
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Candeia – 80 Anos


Eclats Noirs Du Samba (de Janine Houard, 1987)


Napalm – o Som da Cidade Industrial


Do Underground ao Emo


Saravah (1969, de Pierre Barouh)


Clube da Esquina – Sobre Amigos e Canções

História do Clube da Esquina – A MPB de Minas Gerais


Elis Regina – Por Toda A Minha Vida


Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano (2009)


Novos Baianos F. C. (1973)


Paulinho da Viola – Meu Mundo É Hoje (2003, de Izabel Jaguaribe)


Adoniran Barbosa – Por Toda a Minha Vida


Velha Guarda da Portela – O Mistério do Samba


Nelson Cavaquinho (de Leon Hirszman)


Partido Alto (de Leon Hirszman, com Candeia, Paulinho da Viola e outros)


Samba (2000, de de Theresa Jessouroun)


Bezerra da Silva: Onde a Coruja Dorme


A Sede do Peixe – Milton Nascimento e amigos


Uma Noite Em 67


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Coração Vagabundo – Uma Viagem Com Caetano Veloso (2008)
de Fernando Grostein Andrade
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Mosaicos – A Arte de Caetano Veloso


Lenine – Isto É Só O Começo


Alquimistas do Som


Os Doces Bárbaros (Gil, Caetano, Bethânia e Gal)


062649Cássia Eller (de Paulo Henrique Fontenelle)


O Som do Vinil –  Tropicália


Fabricando Tom Zé (2007)


Jards Macalé – Um Morcego Na Porta Principal


Chico Science e o Movimento Manguebeat


Wilson Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei


Raul Seixas – Por Toda a Minha Vida


Revista Bizz – Jornalismo, Causos e Rock’n’Roll


Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa


Botinada – A História do Punk No Brasil (2006, de Gastão Moreira)


Guidable – A História dos Ratos de Porão


Ruído das Minas – Heavy Metal em Belo Horizonte


Tim Maia – Por Toda a Minha Vida


Siba – Nos Balés da Tormenta


Los Hermanos – Esse É Só O Começo Do Fim Da Nossa Vida


Sabotage – Nós


O Rap Pelo Rap


Psicodália – Consciência em Transe


Hang The Superstars – Causos do Rock Proibidão


Zimbo Trio – Jazz Brasileiro


Desagradável: Gangrena Gasosa


Nas Rodas do Choro



MÚSICA CLÁSSICA

Nelson Freire (de João Moreira Salles)


Heitor Villa-Lobos – O Índio de Casaca (1987)


História da Música Brasileira – Episódio 01 a 10









Ernesto Nazareth


A Maestrina Chiquinha Gonzaga – Série 500 anos de História do Brasil (1999)


Entrevista com o Maestro Julio Medaglia (Provocações)

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Disse Dona Foice: “Quero me aposentar / Pra gozar tranqüilidade / Deixando a humanidade / Matando no meu lugar!”

“A Velha da Capa Preta”
(Siba)

Interpretação:
Juçara Marçal (Metá Metá)
Do álbum Encarnado (2014)

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação

Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não

Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro

Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro

A vida é como um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela

Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela

Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar

Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar

Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar!

Assista acima: programa “Ensaio” da TV Cultura com Juçara Marçal. Cantora e compositora, teve seu início de carreira como integrante do Grupo Vesper e por muitos anos participou da Barca. Em entrevista a Fernando Faro, ela relembra as viagens e o tempo de estudos sobre Mário de Andrade. No repertório, ela apresenta músicas de seu mais recente álbum, ‘Encarnado’, com participações de Kiko Dinnucci, Thomas Rohrer e Rodrigo Campos.