Fascínios e armadilhas da ideologia meritocrática – Sobre “Jogada Decisiva” (He Got Game), de Spike Lee (1998)

HE GOT GAMEDownload do filme em torrent (5,47 Gb) + Legenda em Português

“Ele se chama Sonho Americano”, dizia o ácido comediante George Carlin, “pois você precisa estar dormindo para acreditar nele.” Apesar das alfinetadas de críticos e humoristas, o tal do American Dream ainda não cessou de suscitar seu fascínio sobre corações e mentes, não só nos EUA mas em todos os países submetidos à influência cultural, econômica e política do Império.

Neste contexto, os esportes decerto animam os sonhos e esperanças de muitos jovens que encontram-se favelizados ou guetificados por razões racistas e xenófobas. Essa juventude desprivilegiada e subalternizada, em seu processo de vencer a opressão estrutural que lhe aflige, muitas vezes cai na armadilha montada pela ideologia meritocrática hoje hegemônica nas democracias burguesas-liberais: sonham em se tornar heróis da NBA ou craques defendendo suas pátrias na Copa do Mundo de futebol, investindo num caminho individual para vencer uma situação sentida visceralmente como desprivilegiada.

A ambição de vencer na corrida pelas pouquíssimas vagas no topo da pirâmide – que alimenta as mais variadas obsessões de fama e glória – é frequentemente alimentada por uma mídia de massas cujo lucrativo entretenimento é tão marcado pelos esportes espetacularizados que são, assim como as religiões para Marx, um dos mais consumidos e adorados “ópios do povo”.

Nos EUA, um país que atravessou uma Guerra Civil (1861 a 1865) para conseguir abolir sua escravatura (vale lembrar que uma crônica histórica excelente disso foi realizada por The Civil War, série de Ken Burns), só para depois soçobrar no apartheid das leis Jim Crow, exigindo depois toda a mobilização do movimento pelos Direitos Civis e pelo Black Power nos 1960s, até hoje sobrevivem os legados e as sobrevivências do racismo legalizado e estrutural. E numa sociedade racista, os esportes são um dos melhores atalhos para um jovem negro sair do gueto pobre rumo ao estrelato global.

Refletir sobre as relações entre os esportes, de um lado, e os sonhos de meteórica ascensão social da juventude afroamericana, de outro, é uma das intenções do espetacular Jogada Decisiva (He Got Game), filme realizado por Spike Lee em 1998. Mais de 20 anos depois de seu lançamento, é uma obra que prossegue “essencial e incandescente” (Vanity Fair).

No filme, o drama humano de pai e filho – Jake & Jesus Shuttlesworth – ocorre sempre em meio ao frenesi pelo basquete, ramo muito lucrativo da indústria de entretenimento em massa nos EUA. Que o diga o atleta Ray Allen, que jogou 18 temporadas na NBA e encarna um dos protagonistas de He Got Game ao lado de Denzel Washington (que já havia trabalhado com o diretor em outros filmes, como o épico biográfico Malcolm X).

Há um tom meio jocoso e irônico no modo como Lee descreve toda a idolatria que rodeia esse personagem que, desde seu nome bíblico, parece convidar a sociedade a seu redor a paparicá-lo. Ao invés de focar sua atenção sobre os afroamericanos que vivem em situações de miséria e vulnerabilidade social, o filme dá sua atenção àquilo que poderíamos chamar de negros do privilégio, aqueles que se alçam aos píncaros da fama por se destacarem nos esportes ou na música pop.

Apesar dos momentos de alívio cômico, o filme de Lee é altamente dramático e revela toda a maestria dramatúrgica deste grande cineasta. Em muitos aspectos, He Got Game explora uma trama de ressonâncias míticas (e psicanalíticas) no Complexo de Édipo: assim como Vinícius de Moraes realizou uma peça de teatro que transpunha o mito de Orfeu para o Rio de Janeiro em época de Carnaval (obra filmada por Marcel Camus: Orfeu Negro), poderíamos dizer que Spike Lee realizou uma espécie de Édipo Afro, transpondo para Coney Island, New York, um enredo que coloca um filho (Jesus) diante do dilema afetivo-cognitivo de lidar com seu pai (Jake) após este ter assassinado sua mãe e encarcerado por isso.

A película de Spike Lee turbina essa dramaticidade e essa relação tensa e intricada com as música de Aaron Copland e Public Enemy. Para além do espetáculo fílmico lindo que nos oferta, há também uma alquimia sônica que faz desta soundtrack uma obra-prima à parte:


Versão 2 – Com cenas da NBA


Ouça mais Aaron Copland: Billy The Kid Suite

O protagonista da trama, Jesus Shuttlesworth, exatamente como Ray Allen foi em sua vida real antes de encarnar Jesus na telona, está no epicentro de uma “caçada” capitalista por um jogador fora-de-série. Spike Lee não economiza no sarcasmo quando descreve Jesus como uma sensação midiática, em disputa como se fosse uma mercadoria que valesse mais que uma tonelada de ouro.

Várias universidades estão se digladiando para ver qual será a escolhida pelo atleta, que está diante daquilo que é insistentemente descrito como “a decisão mais importante de sua vida”. As vantagens financeiras e sexuais – na forma de carrões e prostituas de luxo – são estendidas a Jesus como iscas tentando capturar este player para que integre uma determinada corporação.

“He Got Game” – A Spike Lee joint. Denzel Washington delivers some of his finest work as a prison inmate trying to win early release through his son’s basketball talent. If this sounds like a shaky premise, rest assured that the film is buttressed by Spike Lee’s bold cinematic style and human insight. This is a heavy critique of the corruption rife within basketball that has family relationships at its core, with a killer Public Enemy soundtrack to boot. (VANITY FAIR)

Spike Lee realizou, em He Got Game, uma obra cinematográfica que reflete crucial sobre a sociedade estadunidense: o quanto os esportes – não só o basquete, mas também o baseball, o football, o golf – estão pulsando no cerne de muitas vidas afroamericanas que lutam para conseguir uma meteórica ascensão social.

No entanto é preciso perguntar: para cada Michael Jordan, Neymar ou Tiger Woods, quantos milhões que tentam usar os esportes como foguete social e atalho-pro-topo, mas fracassam? Para cada um que vira um multimilionário atleta brilhante sob os holofotes do star system e papando poupudos contratos com a Nike ou a Adidas para fazer propaganda de tênis, quantos milhares naufragam tentando navegar neste mar de enfurecidos tubarões que é o capitalismo selvagem movido a racismo estrutural?

O discurso meritocrático típico da burguesia liberal e neoliberal quer que todos nós nos acomodemos na visão de que a todos e todas é concedida a chance de um lugar à luz dos clicks dos paparazzis, uma fama lucrativa e todos os confortos de uma vida repleta do que de bom o Dólar pode comprar, desde que alguém mereça ali chegar por suas competências e talentos.

Tendo isso em mente, He Got Game é uma das melhores obras do cinema para animar um bom debate sobre a ideologia da meritocracia. Pois Jesus chega lá – no sucesso, na riqueza, no stardom – por ter ralado muito, por ter sido incentivado intensamente por seu pai (Jake) a treinar e se auto-superar sempre, incansavelmente. Um winner com todo o mérito.

Não é que Spike Lee problematize de modo explícito a meritocracia enquanto ideologia que, segundo o Prof. Silvio Almeida, “permite que a desigualdade racial vivenciada na forma de pobreza, desemprego e privação material seja entendida como falta de mérito dos indivíduos” (p. 63). Mas o filme de fato foca toda sua atenção nesta figura do jovem negro que vence na vida por causa de seus dons esportivos, em um enredo em que o mérito de Jesus acaba por se mesclar com o mérito de seu pai Jake, seu coach de juventude.

O drama desta família envolve as razões pelas quais Jake foi parar detrás das grades. Em uma briga doméstica, em que dava broncas em seu filho Jesus ainda menino, Jake tem um estúpido surto de agressividade e agride a esposa, que machuca a cabeça fatalmente ao batê-la em sua queda. Aprisionado por este feminicídio, ainda que involuntário, Jake está num presídio – eufemisticamente chamado de correction facility, apesar de sabermos o quão pouco o sistema prisional contribui para facilitar a correção dos sujeitos ali internados – e treina basquete nas primeiras cenas do filme. No segundo plano da bola que voa das mãos de Denzel Washington, Spike Lee filma, de modo desfocado mas extremamente significativo, o policial negro cuja silhueta permite que o espectador distingua um rifle.

O crítico de cinema Roger Ebert percebeu bem que este filme, mais do que tematizar os vínculos entre esportes e racismo, é sobretudo uma reflexão dramática sobre o capitalismo na era do entretenimento em massa – e mesmo no triunfo deste Jesus basqueteiro, o filme está falando sobre a vitória deste sistema. 

This is not so much a movie about sports as about capitalism. It doesn’t end, as the formula requires, with a big game. In fact, it never creates artificial drama with game sequences, even though Ray Allen is that rarity, an athlete who can act. It’s about the real stakes, which involve money more than final scores, and showmanship as much as athletics.

For many years in America, sports and big business have shared the same rules and strategies. One reason so many powerful people are seen in the stands at NBA games is that the modern game objectifies the same kind of warfare that takes place in high finance; while “fans” think it’s all about sportsmanship and winning, the insiders are thinking in corporate and marketing metaphors.

“He Got Game” sees this clearly and unsentimentally (the sentiment is reserved for the father and son). There is a scene on a bench between Jesus and his girlfriend in which she states, directly and honestly, what her motivations are, and they are the same motivations that shape all of professional sports: It’s not going to last forever, so you have to look out for yourself and make all the money you can. Of course, Spike Lee still cheers for the Knicks, and I cheer for the Bulls, but it’s good to know what you’re cheering for. At the end of “He Got Game,” the father and son win, but so does the system.

Esse Sistema que triunfa não é outro senão o capitalismo selvagem baseado na ideologia meritocrática, um arranjo que mascara as injustiças e desigualdades sociais conectadas ao racismo estrutural com o discurso de que tudo estaria muito bem na vigência do domínio hegemônico dos mais meritórios. Sobre esse tema, vale lembrar a excelente argumentação de Silvio Almeida, que aplica-se muito bem a uma reflexão sobre tudo aquilo que He Got Game de Spike Lee nos faz sentir e pensar:

“A meritocracia se manifesta por meio de mecanismos institucionais, como os processos seletivos das universidades e dos concursos públicos. Uma vez que a desigualdade educacional está relacionada com a desigualdade racial, mesmo nos sistemas de ensino públicos e universalizados, o perfil racial dos ocupantes de cargos de prestígio no setor público e dos estudantes nas universidades mais concorridas reafirma o imaginário que, em geral, associa competência e mérito a condições como branquitude, masculinidade e heterossexualidade e cisnormatividade.

Completam o conjunto de mecanismos institucionais meritocráticos, os meios de comunicação – com a difusão de padrões culturais e estéticos ligados a grupos racialmente dominantes, – e o sistema carcerário – cujo pretenso objetivo de contenção da criminalidade é, na verdade, controle da pobreza, e mais especificamente, controle racial da pobreza.

No Brasil, a negação do racismo e a ideologia da democracia racial sustentam-se pelo discurso da meritocracia. Se não há racismo, a culpa pela própria condição é das pessoas negras que, eventualmente, não fizeram tudo que estava a seu alcance. Em um país desigual como o Brasil, a meritocracia avaliza a desigualdade, a miséria e a violência, pois dificulta a tomada de posições políticas efetivas contra a discriminação racial, especialmente por parte do poder estatal. No contexto brasileiro o discurso da meritocracia é altamente racista, uma vez que promove a conformação ideológica dos indivíduos com a desigualdade racial.” (SILVIO ALMEIDA: BH, Letramento, 2018, pg. 63)

O destino cinematográfico de Jesus Shuttlesworth, no filme de Spike Lee, é uma das ilustrações do fascínio insidioso e pervasivo da ideologia meritocrática. Este adolescente, alçado ao estrelato, à fama e à riqueza pelos seus méritos desportivos, apesar de sua tragédia familiar (a morte violenta de sua mãe e o cárcere de seu pai), simboliza esta doutrina que tenta nos convencer que há alguns lugares no topo para aqueles que o fizerem por merecer. A meritocracia é responsável pela domesticação de uma sociedade fraturada por apartheids e privilégios injustos, pois convence os sujeitos de que todos podem ascender de maneira meteórica nas asas de seus dons. A meritocracia nos diz que todos podem sonhar em se tornarem Beyoncé, Jay Z ou Michael Jordan.

Só não gosta de mencionar que, para cada um que triunfa, há milhares que fracassam e naufragam em uma sociedade que permanece estruturalmente racista, comandada pela velharia ainda não aposentada da elite de homens  brancos e ricos que fornecem, aos oprimidos e despossuídos, a lambuja e a esmola meritocrática: alguns seletos indivíduos entre a imensa massa dos massacrados pela opressão poderão brilhar debaixo dos holofotes de nossa Sociedade do Espetáculo, para que as coletividades não entrem em processos perigosos de rebelião e revolução que pudessem reivindicar para todos o que o capitalismo neoliberal meritocrático deseja conceder apenas para poucos: a dignidade de existência.

 

Por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro
Goiânia, 25 de Novembro de 2018

A senti-pensante Juliette Binoche e a infinitude dos afetos

“A simpatia é o ato pelo qual meus irmãos me ajudam a carregar minha cruz, isto é, compartilham ativamente meu destino, participam do nosso destino comum, atestam por sua solidariedade essa comunidade de essência de todas as criaturas que era, segundo Schopenhauer, o fundamento da piedade e, segundo Proudhon, o princípio da justiça.” – Vladimir Jankélévitch (1903-1985), filósofo francês, professor da Sorbonne (de 1951 a 1979), em seus Cursos de Filosofia Moral. Editora Martins Fontes, 2008, Pg. 211.

juliette_binocheQual o segredo de Juliette Binoche? O que explica que ela seja uma atriz tão impressionante, uma autêntica gênia da atuação? Talvez uma parte da resposta esteja na coragem com que ela busca personagens desafiadores. Papéis fáceis não a interessam. É como se ela seguisse o conselho que Rilke oferece em suas Cartas a um Jovem Poeta: “Prefira sempre o difícil, e assim sua vida não cessará de expandir-se. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita…”

Ela parece ir à procura de personagens que a conduzam a limites, a abismos, a confrontações existenciais de uma radicalidade que o comum dos mortais não ousaria encarar. Mesmo na escolha dos diretores com quem trabalha, ela demonstra coragem e procura a companhia de artistas nada fáceis como Michael Haneke, Abel Ferrara, Bruno Dumont, Patrice Leconte, Abbas Kiarostami… Longe de querer aparecer na telona sempre sob uma luz favorável, ela aceita ser filmada em um estado emocional “estraçalhado”, caótico, multi-facetado: como quando “encarna” uma mulher estilhaçada pelas dores do luto após perder o marido e a filha em um acidente de carro (em A Liberdade é Azul, de Kieslowki) ou vivendo na pele uma traumatizada e misteriosa artista-mendiga a vagar por Paris como uma Basquiat de saias (em Os Amantes da Ponte Neuf, de Leos Carax).

Antes de filmar seu filme mais recente, De Coração Aberto (de Marion Laine), Juliette Binoche, como contou em sua entrevista ao Estado de São Paulo, foi assistir a algumas cirurgias cardiológicas para sentir em carne viva o que significa estar diante de pacientes com o tórax literalmente escancarado. Foi lá e olhou para dentro de um peito humano que exibe suas entranhas, que está sendo operado pelo bisturi do cirurgião, por mais dura que fosse a experiência, por mais que a aflição e a angústia lhe empurrassem para longe daquele desagradável confronto com a doença e a mortalidade. “Foi barra pesada”, confessa. Mas ela só é uma atriz tão genial pois encara a barra pesada e aceita sentir nos extremos, entregar-se radicalmente mesmo aos afetos mais tenebrosos e terrificantes.

Sem ter uma prévia experiência vivenciada sobre um certo “estado afetivo” que ela deseja comunicar, sem esse confronto com a realidade concreta, Juliette Binoche não poderia atuar: se na tela ela impressiona tanto, nos faz sentir tanto, é pois há afeto autêntico correndo por trás, como uma seiva subterrânea. Os afetos são sua matéria-prima; seu rosto e seu corpo e sua voz são o palco deste carrossel variegado e múltiplo de afetos que se sucedem mas que portam sempre uma marca vigorosa de autenticidade.

Talvez não haja outra atriz viva que eu admire tanto, e com certeza a razão não está somente na beleza deslumbrante que ela tem em profusão e que o envelhecimento não pôde fazer fenecer: como Liz Taylor ou Nicole Kidman, Binoche dá a sensação de que o envelhecimento nada pode contra sua beleza, já que esta emana de outra fonte que não a mera quilometragem baixa do corpo… Emana, talvez, da radiância de uma existência vivida não somente sem medo dos afetos, mas muito mais numa entrega quase devocional a eles, num mergulho na multiplicidade do mundo afetivo que existem poucos atores na história do cinema que tenham feito de um modo tão genuíno e cheio de audácia.

Juliette Binoche expande a consciência da humanidade quanto às cores do arco-íris do afeto a ponto de jamais sermos capazes de acreditarmos que elas se reduzem a sete. São bem mais que sete (quiçá até bem mais que setenta!) as cores do arco-íris dos afetos: Juliette Binoche é alguém que surfa neste colorido, que sabe ir do mais sombrio negrume ao êxtase mais beatífico, que flui através das emoções mostrando que entre os pólos existe todo um oceano, e nele infindáveis ilhas… Juliette Binoche, se pedíssemos para que ela nos dissesse quantos são os afetos que existem, talvez nos respondesse: “Eu sempre perco a conta.”

Depois de vermos esta mulher no cinema, qualquer leitura maniqueísta de mundo nos parece um logro, uma balela, uma mentira. Ela é a encarnação viva da multiplicidade. Não mais acreditamos ser possível compreender os atos humanos a partir de esquematismos simplificadores: 7 pecados capitais, 3 virtudes teologais, ou mesmo a infantil divisão em dois “Reinos”, simplista e redutora, característica da cisão cristã entre o domínio do pecaminoso e do santo, do celestial e do diabólico. Enfim: eis alguém que sabe que os afetos são bem mais numerosos do que suspeita a vã filosofia daqueles que querem julgar os homens como se a única rotulação possível para eles fosse “bons” ou “maus”, “mocinhos” ou “vilões”. Ela demole e faz ruir qualquer visão-de-mundo que queira sustentar que os homens ou estão com Deus, ou estão com o Capeta.

Capaz de atuações desprovidas de moralina, plenamente consciente da estreiteza simplista do maniqueísmo, Juliette Binoche parece acreditar na infinidade dos afetos assim como Van Gogh parecia acreditar na infinitude das cores – se perguntássemos a ele, “quantas cores existem?”, ele talvez nos respondesse: “Nunca consegui contá-las, assim como são para mim incontáveis as estrelas que povoam a noite!”

O que talvez me faça empatizar tanto com ela, e gostar tão imensamente de tantos filmes dela (em especial A Viúva de Saint Pierre, Cópia Fiel, A Liberdade é Azul, Amantes do Ponte Neuf, Elles, A Insustentável Leveza do Ser…), seja este “leque” tão aberto de emoções que ela consegue “acessar” e comunicar. Ela vai à procura de vivenciar os estados afetivos, mesmo os mais dolorosos e angustiantes; não foge do medonho, do trágico, do destrutivo; vai à beira do abismo, às vezes flerta com a loucura; também sabe ser deprimida, estóica, epicurista, socrática; pode ser serena e irascível, ferida e invulnerável, caída-ao-chão e triunfante… Ela é o desespero de qualquer um que seja de mentalidade demasiado “classificante”.

Juliette Binoche Wallpapers @ go4celebrity.com

É através de tamanha multiplicidade de vivências e afetos, que ela desfila frente a nossos olhos através destas personagens sobre os quais ela infunde vida, que ela acaba nos impactando a sensibilidade a expandir-se para além de suas estreitezas costumeiras. Descobrimos que somos mais múltiplos e complexos do que pensávamos. Me parece até que uma das vocações do cinema francês, desde Godard, Truffaut, Rohmer, Resnais, têm sido um pouco esta: a de sublinhar a complexidade humana, sempre em protesto contra a vertente mais comercial do cinema, que apóia-se em estereótipos fáceis para a produção de suas mercadorias vendáveis e que apela tão comumente para a comodidade de um happy end moralista onde vilões sejam punidos e os bons recompensados com um “felizes para sempre…”. Acossado, por exemplo, já trazia o gosto amargo mas tonificante das palavras de Faulkner: “entre o sofrimento e o nada, escolho o sofrimento.” Não se trata de mentir sobre a vida, mas pintar um retrato o mais próximo possível de sua complexidade e riqueza cromática real.

A lição de Faulkner, como a leio, é que entre a vida, necessariamente recheada de dores, e uma morte que nada nos deixa a sentir e que nos reduz à insensibilidade, os artistas genuínos, me parecem, dizem “sim!” à dolorenta realidade de sentir. Juliette Binoche é uma sábia do sentir e uma professora de expansão da sensibilidade; quando a assistimos e nos deixamos emocionar por ela, as capacidades empáticas que temos em nós são exercitadas, como se fôssemos a uma academia dos afetos para vê-los “malhados”, isto é, forçados a retirarem da inação seus músculos. Esta artista brilhante escancara múltiplas portas em seu próprio peito e, de coração aberto, exibe diante de nós um leque tão amplo dos sentimentos que não podemos evitar: ampliam-se também os nossos.

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E como não simpatizar com uma atuação que parece se confundir com uma autêntica vivência? Atuar = vivenciar, parece pensar Binoche. E sua atuação me assombra não só pela quantidade imensurável de beleza que emana dela, mas por abrir no horizonte a percepção do arco-íris de infinitude cromática que é Reino dos Afetos, os múltiplos e sempre moventes afetos! Por isso estou convicto de que esta artista magistral tem muito a ensinar à humanidade, ao chamado homo sapiens – que, longe de poder ser definido por sua universal sapiência (com quanta frequência somos tolos e insanos, irados e ciumentos, gananciosos e exagerados, descabidos e inconsequentes!), poderia ser muito melhor definido como uma criatura senti-pensante, como diria Eduardo Galeano.

Juliette Binoche nos convida a substituir a noção de homem racional pela de pessoa senti-pensante. Em seu fundamento existencial mesmo, desde a raiz de nosso ser, somos criaturas que sentem e que não podem “guardar no armário” seus afetos para pensar “friamente” ou “com completa pureza”. A Razão Pura é só uma fantasia delirante de filósofo, e por trás dela encontram-se muitos afetos! Engana-se o filósofo, o cientista ou o político que pensa poder alcançar a “neutralidade afetiva absoluta”, esta quimera positivista. Além do mais, como Nietzsche denunciou tão eloquentemente em O Crepúsculo dos Ídolos, “todos os velhos monstros morais são unânimes na opinião de que il faut tuer les passions“, isto é, “é preciso matar as paixões”. Juliette Binoche, antípoda deste moralista denunciado por Nietzsche como monstruoso e que deseja um ser humano purgado de paixões, como se essas fossem impurezas, como se fossem sintomas de um mal d’alma ou de um pecado, é o mergulho dado de bom grado no cosmos caótico, variegado e diverso dos afetos.

Binoche é uma força viva, em plena atividade, que milita contra o embrutecimento sensível daqueles que querem ser meramente racionais, calculistas e economicacamente eficientes. É a arte de gente como Juliette Binoche que nos garante que estamos, felizmente, bem providos de obras que nos ajudam a jamais deixar atrofiar esta capacidade não só essencial à nossa sobrevivência, como também um dos charmes maiores do viver: a ampliação da consciência e da capacidade afetiva. “Aniquilar as paixões e os apetites”, dirá Nietzsche, “nos parece hoje apenas uma forma aguda de estupidez. Não admiramos mais os dentistas que arrancam os dentes para que não doam mais… Arrancar as paixões pela raiz significa arrancar a vida pela raiz… Só se é fértil ao preço de ser rico em contradições; só se permanece jovem se a alma não sente preguiça, não anseia pela paz… A realidade nos mostra uma riqueza encantadora de tipos, a exuberância de um pródigo jogo de formas…”

Juliette Binoche é, sobretudo, uma criatura capaz de despertar da letargia e do sono esta capacidade em nós de empatia ou simpatia que, como lembra Jankélévitch, muitos filósofos consideram como a raiz da piedade e o princípio da justiça – e sem a qual jamais experienciaríamos o que é amar.

Filmografia Recomendada:

Artigo originalmente publicado no Cinephilia Compulsiva.