Sátira cinematográfica repleta de sacrilégios e blasfêmias, “O Novíssimo Testamento” narra a Queda do Patriarcado em um sci-fi teológico

“O Novíssimo Testamento”
(Le Tout Nouveau Testament, Bélgica, 2015, 1h 54min),
Um filme de Jaco Van Dormael

Esta sátira cinematográfica é repleta de sacrilégios e blasfêmias entregues mais ao estilo O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain do que na vibe Monty Python em A Vida de Brian. Um roteiro cheio de malícia, fruto talvez de uma convivência fecunda com a obra de um Buñuel (em especial o extraordinário A Via Láctea, de 1969), de um Pasolini, de um Jodorowksky – três dos mais ousados blasfemadores da sétima arte.

Em Le Tout Nouveau Testament, ou O Testamento Novinho Em Folha, conhecemos uma família nuclear – Pai, Mãe e Filha – que são nada mais nada menos do que Deus-Pai, sua esposa e a irmãzinha de Jesus Cristo. Vivem num cafofo de classe-média-baixa em Bruxelas e o cotidiano deles não é nada celestial. Só treta e mutreta.

O Deus-Pai é um perfeito calhorda, agressivo, destemperado, espancador de crianças, personificação bem grosseirona do Patriarcado e da Dominação Masculina. Uma figura que parece incorporar todas as características sórdidas atribuídas a Jeová, Alá, Baal e outros deuses do panteão transcultural de deuses besta-fera. As feministas que estudam a fundo os temas da presença histórica da Supremacia do Macho talvez julguem este personagem muito caricatural para dar conta de representar a contento o real. Mas de todo modo “O Novíssimo Testamento” dá pano pra manga às discussões sobre opressão sexista e seus vínculos com a religião instituída.

A filha, Ea, rebelando-se contra o Pai e o tudo que ele pratica e simboliza, organiza um pequeno levante feminista que abalará toda a vida sobre o planeta Terra. A mocinha dá uma de hacker e invade o sistema computacional com o qual Deus-Pai realiza sua tosca gerência do mundo. Trata-se de um gerente que diverte-se vendo mocinhas tendo seus braços amputados. Um gerente que produz uma guerra para poder assistir a um bom filme de guerra. 

A menina tem muitas outras razões para estar em aberta rebelião contra o pater-theos: este é um daqueles canalhas sádicos que inventou terremotos e tempestades em seu divino tédio somente para divertir-se de seu enfado celestial. Aquele mesmo, enfurecido contra a diferença das expressões do amor humano, que lançou bolas de fogo  para exterminar as populações de Sodoma e Gomorra. Ou aquele que mandou Abraão cortar a garganta do seu próprio filho Isaac, na gag sádica perpetrada por uma autoriedade sedenta por obediência mais célebre do Testamento do Antigo Regime – aquele mesmo que este filme propõe-se a destronar a golpes de sarcasmo. Que pretensão impertinente! De uma arrogância que poderia ser dita Nietzschiana… com a verve pontiaguda de Diderot ou Voltaire, esclarecedores-bufões…

Boa parte da graça desta comédia sacrílega do cineasta belga Jaco Van Dormael (o mesmo de “Mr. Nobody / Sr. Ninguém”) está em imaginar Deus-Pai como o criador da Lei de Murphy, aquela que diz “nada é tão ruim que não possa piorar”. É tão sádico este Deus-Pai crudelíssimo que instituiu como lei: que nenhuma desgraça despenque sobre os seres humanos chegue sozinha. As desgraças vem sempre em manadas, por favor do escroto lá em cima.

Instituiu Ele também pequenas sacanagens cotidianas contra os humanos: decretou que as torradas sempre caiam com a geléia ou o requeijão de cara no chão; decretou que o telefone toque sempre que alguém acaba de entrar na banheira; decretou temporais que tornam o mundo intransitável e que chovem justo quando o sinal de libertação da escola tocou. É um Deus-Pai que mais parece com o Fradim do Henfil. É um Deus-Pai, para falar na linguagem atual dos interneteiros, que é um baita trollador. 


Diante disso, a mocinha se rebela, inflama-se em seu peito o ímpeto anarco-libertário que também estava em seu irmão Jesus segundo Leminski. Ela, a Ea do levante mirim anti-patriarcal, invade o bunker paterno e zoa todo o rolê: decide enviar as datas de morte de todas as pessoas sobre a face da Terra para que todos saibamos quantos anos, meses e vida cada um tem pela frente. É um transtorno geral.

Todo mundo, de repente, sente-se com os dias contados, tem a revelação incontornável da sua finitude. A notícia celestial, a revelação do prazo vital de cada um, cai do céu na forma de torpedos de celular. É o teatro do absurdo na era da cibercultura… Até as obras de ficção científica teológico-satírica no cinema atual parecem querer honrar às problematizações propostas por uma das melhores séries dos últimos anos: Black Mirror.

O espectador mais inquisitivo fica se perguntando como é que os bilhões de terráqueos humanos que não possuem um aparelho celular ficam sabendo da notícia que os céus – ou melhor, a hacker do céu – querem comunicar. Assim como no peito dos desafinados também bate um coração, e por isto os desafinados também têm direito à expressão musical, também no peito dos des-celulariados bate um coração com prazo de validade, e se todos agora ganharam acesso a uma informação que sempre nos foi tão misteriosa, também teriam pleno direito a ela por sua pertença à estirpe humana.

Os sem celulares, símiles sociais dos sans papiers, se não entram no círculo de receptores das mensagens celestiais, é pois são vítimas de um sistema de comunicação Deus-Homens que estabelece privilégios de classe absurdíssimos. Privilégios que tornam Deus-Pai, além de sexista e autoritário, também um baita dum capitalista selvagem, daqueles que só se comunica com “gente de classe”…

O filme, daí em diante, divide-se em 6 capítulos, quase como se fossem meia-dúzia de breves e poéticos contos, devotados aos 6 discípulos que Ea, em seu Êxodo, descendo à Terra como seu brother J.C. fizera um dia, busca aliciar.

Os 6 apóstolos novos terão suas histórias bizarras, quase sempre de teor e vibe bittersweet, contadas com muita graça – incluindo um impensável romance de Catherine Deneuve com um gorila.

Uma coisa esplendorosa em seu desprezo pelo bom gosto, em sua afronta ao kitsch, e que evoca também os experimentos estéticos de um dos melhores filmes brasileiros da década (2010-2019): Animal Político, do Tião lá do Recife.

No caso de ambos os filmes, apesar da forte presença do cômico às mancheias, tudo vem tingido por certa melancolia. Nisso também há uma atmosfera afetiva que lembra o delicioso Mary e Max (2009), animação australiana genial realizada por Adam Elliot. Estes filmes fazem uma mescla bem dosada de comédia inteligente e sondagem aflita dos mistérios existenciais desta coisa esquisitíssima que é a condição humana. Nisso, são algumas das comédias que melhor se conectam ao espírito e ao legado do grande gênio da comédia cinematográfica Woody Allen, por sua vez discípulo fértil de Buster Keaton.

No final de O Novíssimo Testamento – cuidado com os spoilers! – o que desenha-se no firmamento do filme é uma espécie de Queda Brutal do Patriarcado: Deus-Pai rebaixado ao status de um reles refugiado no Uzbequistão. Expulso do Éden como um dia fizera com Adão e Eva. A vitória do Matriarcado, porém, é descrita de modo altamente kitsch, beirando o mal gosto das demagogias de filmecos crowd-pleasing, o que quase que estraga a experiência estética que Van Dormael construiu. Um filme tão provocativo quase se afundou, em seu desfecho, no lodaçal de vender-se ao happy end comercialmente rentável. O final, aliás, prejudica muito o filme pois lança uma luz retrospectiva sobre a obra inteira como se sua meta fosse primordialmente ser um crowd pleaser muito mais que um crowd provoker.

Não tenho nada, absolutamente, contra a vitória do Matriarcado sobre o Patriarcado que o filme narra. Porém o filme parece comunicar de modo subliminar alguns preconceitos sexistas sobre a mulher, sobre o feminino, sobre o que seria um “mundo comandado pelas mulheres”, já que projeta nos céus de seu ideal supostamente feminista apenas o ímpeto decorativo, a vontade de adorno e boniteza, que vincula à figura da Mãe-Divina.

Poucos segundos antes da Revolução Teológico-Doméstica que a Teo Mama realiza nos céus, que ela torna livres do tirano Deus pintudo, ela passava o aspirador de pó no gabinete de trabalho do Pai-Marido-Patrão… A mãe, hackeando o Sistema, utiliza-o somente para usar o céu do mundo como parede em branco onde espalhar papéis-de-parede coloridos. Ainda está apegada à persona submissa e doméstica que o Patriarcado historicamente impôs. A autêntica revolução feminista que mandasse para o túmulo o sádico, horrendo e longevo Pesadelo do Patriarcado jamais poderia se limitar a atos tão estreitos e toscos quanto a personagem da Mãe faz no finzinho do filme.


Por isso senti que a real heroína do filme, aquela que mais entusiasma, aquela que é mais adorável (“endearing“, como diz uma bela palavra em inglês), é a criança, a menina rebelde, a insurgente Ea, a desobediente anarquistazinha Emma Goldmaniana, a rubra e ousada contestadora, a Mafalda belga, a Eva sem medo de pecar. Ela é a “filha de Deus” que, subvertendo o estereótipo Freudiano, ergue-se em levante contra a dominação masculina e o patriarcado teológico-político, ousando propor um Novíssimo Testamento.

A subversão da pirralha não só tem muita graça; tem chance de ser influência salutar nas lutas feministas atuais e na demolição de preconceitos machistas e sexistas que perpetuam o Pesadelo do Patriarcado. Isso que pra nada presta senão para aporrinhar o mundo todo, mulheres e homens em conjunto. O feminismo é algo cuja vitória deve ser desejada por todos nós pois envolve o aprimoramento do mundo e das relações para além da barbárie teológico-política da Dominação Masculina amparada em sagradas mentiras. Longe de causa apenas feminina, o feminismo é uma causa humana. Que nela nos engajemos todos pois nela todos temos a ganhar.

Que o cinema siga ensinando-nos, quando ousa, o caminho da subversão, da contestação e da superação – e, se puder, que o faça com graça, verve e fina sátira! “Le Tout Nouveau Testament”, neste contexto, é uma jóia artística que, através da comédia, retira o peso esmagador de seriedade com que costumamos envolver o tema dos deuses. Os deuses, longe de reverência, merecem nosso escárnio; longe de abaixarmos nossas tristes cabeças em obediência, devemos nos libertar da subserviência a eles que nos enclausura na melancolia da heteronomia.

Através de suas caricaturas, o filme mostra um Deus-Pai odioso, digno apenas de nossa revolta; um deus que é como um espelho distorcido dos próprios vícios humanos, e mais especificamente os masculinos. Subliminarmente, o filme sugere vias de pesquisa para aqueles que gostariam de desvendar como se deu, na História, a comunicação dos malefícios comportamentais destes humanos-de-testículos aos produtos de suas imaginações que eles projetaram no céu divino ou no Olimpo celestial, para assim sentirem-se melhor justificados para exercer, na Terra, a dominação opressiva.

* * * * *

Crítica Livre por Eduardo Carli de Moraes.

#CinephiliaCompulsiva2017 @ A Casa de Vidro >>> Leia outros artigos: http://www.acasadevidro.com/cinephilia-compulsiva-resenhas-sobre-filmes/

Ficha do filme em IMDb: http://www.imdb.com/title/tt3792960/?ref_=nm_knf_i2

Acessar no fórum Making Off (só para usuários cadastrados)

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SATIRIZANDO TEMER: Poemas-escracho de Daniel Ramos, do perfil fake @temerpoeta, mostram a potência do escracho cáustico e criativo

Nada obriga a contracultura a ser tão sisuda e truculenta quanto seus adversários, os epígonos da cultura oficial, quase sempre moralista e autoritária. A sátira é uma das armas mais afiadas que as forças libertárias, ditas “contraculturais”, podem usar para destronar aqueles que só sobem aos tronos através de “tenebrosas transações”, para relembrar Chico Buarque (ele mesmo tão capaz de brilhar os cale-se com cálices de suingado lirismo e malandra esperteza).

No Brasil, em 2016, um exemplo muito interessante, instrutivo, criativo e potente de prática cultural, a um só tempo crítica e lúdica, são os trabalhos de escracho-arte do Daniel Ramos. Criador do perfil fake @temerpoeta, que rapidamente logrou atingir certo hype na cibercultura, ainda que não ao ponto de viralizar como clipes-só-de-nudes-da-Clarice Falcão, o Daniel Ramos é o criador da revista Caroço (disponível na livraria A Casa de Vidro por R$12) e autor de alguns dos petardos mais bem atirados à testa do usurpador que ora nos desgoverna lá do Palácio do Planalto.

Brasília(DF), 27/04/2016 - Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros - Foto: Michael Melo/Metrópoles

Brasília(DF), 27/04/2016 – Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros – Foto: Michael Melo/Metrópoles

 O deboche também é uma arma do levante popular antigolpista e nisto iniciativas como a de Daniel Ramos ganham uma dimensão que vai além do humor de entretenimento. Ainda não conheço pensadores e artigos que tenham se debruçado sobre este fenômeno social efervescente que é o escracho como forma de manifestação política, algo que tem decerto uma contundente tradição no Brasil (como o Pasquim em sua cruzada anti-careta e anti-canhões, antagonizando a ditadura militar do Brasil a golpes de charges e anedotas), mas que ganha novos contornos hoje com a cultura dos memes e com uma cibercultura infestada pelo fenômeno da trollagem. 

É minha aposta, provocativa, de que para além das gangues e hordas de trolls fascistas que, na internet, deixam extravasar todo seu repugnante racismo e elitismo, pedindo Bolsonaro como presidente ou exigindo intervenção militar seguida de fuzilamentos de veados tipo o Jean Wyllys, existe também no âmbito da esquerda uma insurreição sócio-política que sabe utilizar-se das armas do humor e que – eis minha provocação – sabe trollar as pessoas certas (os opressores, os golpistas, os plutocratas, os tiranos em conluio com juntas financeiras…).

A esquerda também trolla, e isto se torna bem evidente diante de fenômenos recentes, como aqueles protagonizados pelo Levante Popular da Juventude, que realizou escrachos na frente da mansão do interino-inelegível em São Paulo, ou da Frente Povo Sem Medo e MTST que estrondosamente manifestaram com fogos de artifício seu repúdio ao papel da Fiesp (sediada na Av. Paulista e presidida por Skaf) no golpe de Estado. Artistas como Laerte, Angeli, Latuff, Dahmer, Aroeira, Vitor Teixeira, Rafucko, também demonstraram neste 2016, através da criação de espantosa e prolífica obra, que no Brasil temos pelo menos o consolo, após este ano tenebroso de tantos retrocessos, de que por aqui o senso crítico não morre tão fácil e segue super alerta e operante em nossos melhores comediantes e cartunistas – cáusticos e espertos agentes de um escracho libertário, aos quais se junta uma legião de nomes menos conhecidos, mas também atuantes na criação de uma cultura brasileira contestatória.

Também percebo enquanto cinéfilo que alguns dos filmes que mais me impressionaram por sua capacidade crítica e por sua contundência de denúncia são obras como A Ditadura Perfeita, do mexicano Luis Estrada, e O Ditador, de Sacha Baron Cohen, duas comédias que demonstram o quanto o escracho e a trollagem estão sendo mobilizadas de modo construtivo-crítico bastante instigante, incidindo sobre fenômenos como a manipulação de massas induzida pelos consórcios midiáticos e partidos políticos hegemônicos, revelados a golpes de piadas como uma pantomima grotesca de democracia, uma democracia falsa e de fachada que encobre a tragicomédia obscena de uma plutocracia ultracapitalista, desmiolada e rasa, que apenas constrói Pontes Para o Abismo da austeridade e do apartheid social.

Uma boa matéria em Hypeness destaca o trabalho do Daniel Ramos nos seguintes termos:

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temer-poetaQue o presidente interino Michel Temer é poeta, já vazou na internet. Mesmo tendo publicado o livro Anônima Intimidade, em 2012, foi só depois que chegou ao poder que a fama dos seus versos viralizou de vez – principalmente após a reportagem da Veja sobre a Marcela bela-recatada-e-do-lar Temer, em que uma de suas poesias é usada para ilustrar a relação dos dois.

Agora, a veia poética do presidente ganhou sua primeira paródia na rede: o perfil do Twitter @TemerPoeta, que brinca com diversos aspectos da política nacional, além de fazer piada com a possível relação de Temer com o satanismo. Segundo a Época, o criador da conta é Daniel Ramos, um funcionário público de Brasília, também poeta. A data de nascimento que aparece no perfil falso é de 8 de maio de 1896 – seria a mais antiga permitida pela rede social.

As seguintes sátiras saíram na segunda edição da revista Caroço:

caroco

SONETO DE BESTIALIDADE

Releitura do ‘Soneto de Fidelidade’ de Vinícius de Moraes

De tudo a Belzebu serei atento, antes
e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo a alface no sorriso branco
seja na sua boca ornamento

quero invocá-lo em cada pé-de-vento
e em seu louvor hei de investir no banco
metade dólar, meta franco
ou o que sobrar depois do parlamento

e assim quando mais tarde me procure
quem sabe a sorte (angústia de ser vice)
quem sabe a lava-jato (fim de quem dança)

eu possa me dizer do brasil (que tive)
que não seja europeu, posto que é bamba
mas que seja lucrativo enquanto dure

* * * *pecunia

Para mais pérolas, siga Daniel Ramos, o @temerpoeta, lá no Twitter.


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