MEU CARO AMIGO: Uma carta musicada, de Chico Buarque para Augusto Boal

Augusto Boal (Arena/Teatro do Oprimido)

Aproveitando a melodia de um choro de autoria de Francis Hime, Chico Buarque escreveu a letra desta canção/carta dando notícias do Brasil ao amigo Augusto Boal, que estava no exílio, em Lisboa, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Enviou-a em fita K7 e a gravaria no elepê Meus caros amigos, de 1976, com a participação da flauta de Altamiro Carrilho, do clarinete de Abel Ferreira, do bandolim de Joel Nascimento e, mais uma vez, com Francis Hime ao piano. – CORREIO IMS

Rio de Janeiro, 1976

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo pessoal
Adeus


“ALENTO” de Paulinho da Viola

ALENTO

Violão esquecido num canto é silêncio
Coração encolhido no peito é desprezo
Solidão hospedada no leito é ausência
A paixão refletida num pranto, ai, é tristeza
Um olhar espiando o vazio é lembrança
Um desejo trazido no vento é saudade
Um desvio na curva do tempo é distância
E um poeta que acaba vadio, ai, é destino

A vida da gente é mistério
A estrada do tempo é segredo
O sonho perdido é espelho
O alento de tudo é canção
O fio do enredo é mentira
A história do mundo é brinquedo
O verso do samba é conselho
E tudo o que eu disse é ilusão

Paulinho da Viola

SE LIGA NO SOM! – Jazz Liberatorz, Rincon Sapiência, Seun Kuti, Lenine, Madlib, Tássia Reis, A. Nóbrega, Francisco El Hombre e muito mais… [#1]

SE LIGA NO SOM!

Por Eduardo Carli de Moraes

Sou o tipo de criatura tão fissurada em música, o mais delicioso de todos os vícios, que dou razão à hipérbole Nietzschiana: “sem música, a vida seria um erro”. É como se a existência perdesse em qualidade e deleite sempre que o ar ao redor não está animado e vivificado com o som e o sentido (para lembrar a obra do mestre Wisnik) criados pela musicalidade humana em sua infinita inventividade.

No dia a dia, além de aprendiz de músico que arranha uns instrumentos de corda (violão, guitarra e ukelele) e assopra uma gaitinha, também compartilho várias canções e videoclipes na página d’A Casa de Vidro no Facebook, pondo na roda de convivas algumas das sonzeiras que tem encantado meus dias, compartilhando os meus pet sounds como uma espécie de radialista ou DJ da web.

Na série de posts que agora se inaugura e que escolhi intitular Se Liga No Som! em homenagem ao livro de Ricardo Teperman, que adoro e com o qual muito aprendi – planejo coletar num “postzão” os vários “postzinhos” dispersos pela página do FB. Pelo menos uma vez por mês, deve pintar aqui em www.acasadevidro.com uma nova “coletânea digital” com o que mais tem encantado meus tímpanos e instigado minha reflexão em termos de produção musical. Ofereço também alguns humildes comentários e pitacos que visam contextualizar as obras e esclarecer um pouco as razões que tenho para admirá-las, curti-las e recomendá-las.

Por hora, este é um catálogo de sons de estimação e estou me abstendo daquele viés da crítica musical que consiste em descer o cacete naquilo que a gente não gosta. Em futuras edições, talvez, eu me aventure à arte de falar mal daquilo que ofende meus ouvidos e que me parece enveredar por rumos lastimáveis. Por hora, convido a todos a subirem o volume e embarcarem em viagens nas asas do som, convocando à comunhão musical na vibe de alguém que chega a um amigo, na empolgação de uma fissura vigente, e diz: “pira nesse som!” ou “cê tá ligado nesta banda?”


CONEXÃO AFROBEAT TROPICAL

É hora da conexão Brasil / Nigéria nas Aerolíneas A Casa de Vidro: basta dar um play e viajar sônicamente na companhia do filho caçula do mito Fela Kuti, fundador e pioneiro do Afrobeat. Em “Black Woman”, cujo clipe foi inteiramente filmado em solo brasileiro, Seun Anikulapo Kuti e a banda Egypt 80 celebram o “black power” unido ao feminismo. Reverenciam não apenas suas mais célebres encarnações – Nina Simone, Angela Davis, Maya Angelou etc. -, mas também a cotidianidade do “struggle” e da “strenght” da mulher negra “comum”, que com tanta frequência encara uma vida em que é um espetáculo invisível de força, perseverança, fortitude…

ASSISTA O CLIPE:

“Black Woman”, com seus metais calientes, seus coros femininos, seu neo-Afrobeat de impecável apelo transcontinental, suas imagens de exuberância tropical e feminilidade em efervescência, parece-me que serve também para abrir novos horizontes para a arte do videoclipe filmado no Brasil no âmbito da música global.

Desde que Spike Lee subiu o morro com Michael Jackson – este último vestindo uma camiseta da Banda Olodum Samba Reggae – para filmar o clipaço de “They Don’t Care About Us”, atualmente com “apenas” 350.000.000 views no Youtube, tenho a impressão que o Brasil pode ser um “point” global para o avanço da arte da videoclipagem. Assistir aos trabalhos audiovisuais de um rapper como Rincon Sapiência (“Meu Bloco”, por exemplo) só fortalece essa impressão.

Para bombar esse cenário da afrolatinidade, resistente, em expressão transcultural e cosmopolita, como fazem Seun Kuti e Rincon Sapiência, como fez Spike Lee em seu joint-clipe, turbinemos a conexão com o Atlântico Negro (brilhantemente analisado por Paul Gilroy), seu passado, seu presente e sua futuridade! Esta aí, quem sabe, a mais fecunda fonte para a cultura brasileira seguir efervescendo e propondo caminhos inovadores para o resto do mundo. Nosso pioneirismo será estético ou não será!

“I write this song for you
(Black woman)
And I see everything you go through
(Black woman)
I see your tears and your joy and your pain and your fears
(Black woman)
And your strength to endure all the beatings and the war
(Black woman)
That’s why me respect you
and I believe in you and I see your struggle
I never fear your strength…”
Seun Kuti

BIOGRAFIA SEUN KUTI: http://www.allmusic.com/ar…/seun-kuti-mn0000999541/biography

 


LIBERTANDO O JAZZ PARA TRANSAS HIP

O trio francês Jazz Liberatorz, neste impressionante disco “Clin D’oeil” [literalmente, Pisco d’Olho] (2008), insere o jazz na era do movimento hip hop, libertando a tradição de quaisquer amarras dogmáticas e livrando o caminho para interessantes fusões. No Brasil, também tem gente explorando este casório: é só pensar em Tássia Reis e seu “Rap Jazz”  (veja o clipe abaixo) ou no radical fusion tropical do Metá Metá – Juçara Marçal pode não ser uma rapper, mas seu verbo está tão enraizado de ancestralidade que evoca, de fato, toda a história da expressão artística proveniente da diáspora pelo Atlântico Negro (cf. Gilroy).

Sobre esta bolacha do Jazz Liberatorz (dê o play abaixo), lê-se na AllMusic: “The album reclaims the brief love affair between hip-hop and jazz that took place in the U.S. in the mid-’90s, using deep basslines, sampled horns, and beat poet-styled phrasings from a slew of guest MCs. The sound is ultra-cool, combining European hip-hop’s love of slicker, more urban beats with the simplest jazz instrumentation — atomic chunks of sound and songs that are reworked to soften the edges of a rapped delivery and convert it to a strong flow through sheer musicality.” (Adam Breenberg)

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RITMO E POESIA: O VERBO QUE JOGA E DANÇA

Um artista que desponta no cenário hip hop brasileiro encarna à perfeição a união entre ritmo e poesia que, segundo a lenda, batizou o estilo musical rap (rhythm and poetry): Rincon Sapiência chega para mostrar toda a exuberância de um verbo que joga e dança, dando prosseguimento aos experimentos percussivos-linguísticos brilhantes de seus contemporâneos mais ilustres em terra brasilis, Criolo e Emicida. Rincon é de fato muito bom de rima, desliza bonito no flow e não deixa a contundência de sua mensagem impedir a manifestação de um senso de humor afiadíssimo e de uma miríade de referências. Estamos na era da música linkada e em cada uma de suas composições, repletas de fato duma Sapiência colhida em suas vivências como artista periférico e poeta dos guetos, Rincon ascende como uma das figuras que mais impressiona na nossa música. Um tiragosto:

LINHAS DE SOCO, de Rincon Sapiência [FB]

“O rap me deixa alto, tipo THC
E o palco é o octógono do UFC
A batida é um soco, rap, a voz da plebe
No flow, deslancho, tipo um gancho, um jab
Na rima, Jackie Chan, na Hora do Rush
E a dama pensando em mim, bem na hora do blush
Um trato nas duas, diz que me ama, idem
Fiel e amante, aí vocês decidem
Sem teclados, mouse, tive meu panorama
Lan house, não, sou do tempo do fliperama
Bote a ficha e jogue, muito antes dos blogs
Dava a cara a tapa e batia feito Balrog
Tipo GOG, rolo compressor passando
Eles ficam grogue, vendo estrelas girando
Linhas de soco, minha poesia irônica
Microfone é que nem o coelho na mão da Mônica
Corre, Cebolinha, ataco!
Se passam por malacos, mas escrevendo linhas são flacos
Cômico, rap chapa, hidropônico
Fome de rima, overdose de Biotônico
Queremos o “faz-me-rir”, então, corra
Mas, por enquanto, é só piada do Zorra
E nóis segue, assim, na humilde
Sem aquele “faz-me-rir”, estilo Mussum, cacildis
Ó, meu dom nas ruas se exibe
Tipo rei Roberto no calhambeque, bi-bi
Tô quebrando grilhões, mesmo sem os milhões
MCs Trapalhões, Dedé e Didi
Opiniões divide, ataques, revides
Meu corpo é fechado, eu sou que nem Thaide
Ouvidos são profundos, penetro que nem Kid
Sou raro, que nem os paletós no meu cabide
Vide bula, playboy, na moral
Rap tarja preta, efeito colateral
As cores no visual, que nem graffiti do OPNI
Dois tipos de MC, eu sou que nem um OVNI
Vou passeando nos discos, marciano
É a lua e eu, que nem Cassiano
Língua afiando, línguas fatiando
Dom é como vinho, deixe que passem anos
Mando o papo quente, não levo desaforo
Rap sem calor, não passam de calouros
Cuspo fogo, Dhalsim, no Street Fighter
Rap light, mas mata que nem Marlboro
Choro, o racista de olho vermelho
Nem olha no meu olho, eu sou que nem um touro
Hip-hop é a clínica onde fui internado
Música no sangue, África no soro
Sem jaco de couro, aqui estou
Na pegada punk, que nem Sex Pistols
Batida, rima, DJ e um bom flow
Quatro integrantes clássicos, que nem os Beatles
Longe da música, saudade, eu fico como?
Inseparáveis, como Lennon e Yoko Ono
Roube a música de mim, se quiser uma guerra
Não vai ter paz pelo Papa e nem pela ONU
O mundo não tem dono, Sampa não tem sono
Microfone broca, pistas eu detono
Na ZL, rap ruim, isso eu questiono
Xis é rei e eu serei sucessor do trono
Cena rap Malhação, isso eu cancelo
Minha cena é preta, clássica, Grande Otelo
Sem estresse, trabalho só me engrandece
Que nem Super Mario, depois do cogumelo!”

VEJA TAMBÉM:


EXCURSOM DO MADLIB PELO BRASIL 

“Me vê uma viagem sonora gratuita pela multidiversa musicalidade do Brasil, DJ!” É pra já; suba o volume e embarque nesta excitante excursom turística do Madlib:

 Flight to Brazil é um incrível álbum/mixtape, lançado em 2010, de 1h 20 min, parte da série “Madlib Medicine Show” – Número #2, assim resenhado por Thom Jurek:

“Madlib goes all out — all the way out — on this platter: there are elements of MPB, early folk styles and field recordings, funk, jazz, psychedelia, tropicalia, carnival, forro, bossa nova, samba, Afoxe, and more, from Brazilian sources. In addition to the killer found sounds from his four-ton stack of vinyl, the mad mixer produces a truckload of new beats and creates wave upon wave of phased atmospheres and textures to accent what he samples. His manner of taking recordings and artists and juxtaposing them to create something new is his trademark. Examples are as rich as segments of Hermeto Pascoal’s Slaves Mass against a track by O Quarteto from 1969, then adding a bit of trippy guitar, three different rhythm tracks, a flute solo by Carlos Jimenez, and some of Moacir Santos’ Opus 3, before touching on Emilio Santiago, Maria Bethânia, and on and on and on. There are psychedelic rock groups here whose music we may never hear anywhere but here, as well as some we already know — Som Imaginario, Modulo 1000, Inferno No Mundo, and many others. The entire thing is a wild head and heart trip, saturated in gorgeous melodies, killer, slippery rhythms, and sonics that are so spaced out, they could only occur on one of Madlib’s recordings. This second volume is more of a treat than its predecessor, perhaps because of, rather than in spite of, its exotic point of departure. This is a spliffed-out joy to listen to. Fans of Madlib’s more jazz-oriented modes may dig this a bit more than those who dig the hard-edged beats, but this is an adventure to appreciate as much for its ambition as what it offers.”

TRACKLIST >>>

Rio De Janeiro 0:00
Sao Paulo 12:13
Belo Horizonte 19:19
Porto Alegre 27:31
Salvador 33:16
Recife 40:43
Fortaleza 53:23
Brasília 1:04:24
Curitiba 1:14:20

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EN VIVANT – Grandes álbuns ao vivo

Odetta at Carnegie Hall (1960, Show Completo, 44 min)

“A towering figure of folk revival and Civil Rights Movement, the African-American singer-songwriter provided voice for the voiceless.” – AllMusic: http://www.allmusic.com/artist/odetta-mn0000888730/biography


UM SAMBA DE BOTECO

“Vou de boteco em boteco
Bebendo a valer
Na ânsia de esconder
As dores do meu coração

Conselhos não adiantam
Estou no final
Perdi o elã, perdi a moral
Meu caso não tem solução

Eu bebo demais pro meu tamanho
Arranjo brigas e sempre apanho
Isso me faz infeliz

Entro no boteco
Pra afogar a alma
As garrafas então batem palmas
Me embriago
Elas pedem bis…”

NELSON SARGENTO (FB)


“BOLSONADA”: IRREVERÊNCIAS ANTI-FASCISTAS

Duas das principais novidades do cenário musical cá de Pindorama – Francisco, el hombreLiniker e os Caramelows – juntaram suas forças irreverentes para um caliente petardo anti-fascista, “Bolsonada”. Presente no álbum Soltasbruxa, vemos nesta canção de bem-humorada contestação todo uma atitude que realiza, no campo estético, o que seria no âmbito político pura desobediência civil. Desrespeitando o “mito” da extrema-direita Brazileira, o asno vociferante Jair Bolsonaro, a música pretende reduzir a nada o discursinho de ódio, xenofobia, racismo, misoginia, armamentismo e homofobia daquele que pretende candidatar-se à presidência da República, ainda que não passe de uma caricatura grotesca de líder autoritário e desmiolado. Em um mundo em que vimos a eleição de Trump e em que a vitória da Frente Nacional de Le Pen na França é plausível, devemos ficar atentos e ativos diante da ameaça fascista que também aqui nos ronda; ao invés do militarismo do “às armas, cidadãos!”, super-estimado slogan bélico cantado na Marselhesa, sou mais um “às rimas e melodias, foliões!” Franciso El Hombre e Liniker apontam o caminho de um alegre sarcasmo, aguerrido e combativo, que faz da luta anti-fascista (por que não?) também uma festa.

“Esse cara tá com nada
sabe pouco do que diz
muito blablabla que queima quem podia ser feliz
desrespeito é o que prega
então é o que colherá!
jogo purpurina em cima
para o feio embelezar
esse cara escroto
mucho escroto!

Esse já não sei se bate bem
se é um fascista concedido
cargo alto e voz viril
vai lucrar do desespero
da loucura já civil
bolso dele sempre cheio
nosso copo anda vazio…

Mesquinhez, intolerância,
Bolsonada que pariu…

Esse cara escroto
mucho escroto!!!”

(FB)

Se a “Bolsonada” é pra embalar um quente e envolvente anarco-baile, “Triste Louca Ou Má” já é de outra vibe, uma canção e um clipes lindos de chorar. 



NAÇÃO PLURI-ÉTNICA, ARCO-ÍRIS TERRESTRE DA SOCIOBIODIVERSIDADE

Dois mestres que muito reverencio na cultura brasileira, ambos vivos e operantes, revelam em suas canções o quanto esta terra é de fato pluri-étnica, manifestação visível e audível de diversidade acachapante: Lenine e Antônio Nóbrega foram capazes de encapsular em canção aquilo que Eduardo Galeano chamou de “arco-íris terrestre”. Ouçam “Tuby Tupi” (em que Lenine brinca com o mote de Oswald de Andrade, “tupi or not tupi, that’s the question” e “Chegança” (umas das obras-primas de Nóbrega) e tenham contato com duas músicas que expressam com perfeição o conceito, tão propalado nos ideais e práticas do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, de sociobiodiversidade. 

(FB)

TUBY TUPI – Lenine

Eu sou feito de restos de estrelas
Como o corvo, o carvalho e o carvão
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão
Sou o índio da estrela veloz e brilhante
Que é forte como o jabuti
O de antes de agora em diante
E o distante galáxias daqui

Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci
Natural, analógico e digital
Libertado astronauta tupi
Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas
Sou o corvo, o carvalho, o carvão

O meu nome é Tupy
Guaicuru
Meu nome é Peri
De Ceci
Sou neto de Caramuru
Sou Galdino, Juruna e Raoni

E no Cosmos de onde eu vim
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral
Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual
As misérias e mil esplendores
Do planeta Neanderthal

“CHEGANÇA” – A. Nóbrega

Sou Pataxó
sou Xavante e Cariri
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá
Sou Pancaruru
Carijó, Tupinajé
Potiguar, sou Caeté
Ful-ni-o, Tupinambá

Depois que os mares dividiram os continentes
quis ver terras diferentes
Eu pensei: “vou procurar
um mundo novo
lá depois do horizonte
levo a rede balançante
pra no sol me espreguiçar”

Eu atraquei
Num porto muito seguro
Céu azul, paz e ar puro
Botei as pernas pro ar
Logo sonhei
Que estava no paraíso
Onde nem era preciso
Dormir para se sonhar

Mas de repente
Me acordei com a surpresa:
Uma esquadra portuguesa
Veio na praia atracar
De grande-nau
Um branco de barba escura
Vestindo uma armadura
Me apontou pra me pegar

E assustado
Dei um pulo da rede
Pressenti a fome, a sede
Eu pensei: “vão me acabar”
Me levantei de borduna já na mão
Ai, senti no coração
O Brasil vai começar


LISTAS


PSICOLOGIA DE MASSAS: VISLUMBRE DO DELÍRIO COLETIVO INDUZIDO PELA MÚSICA

Impressionante e acachapante o efeito que tem a espetaculosa “De Música Ligera”, do Soda Stereo, sobre a multidão em Buenos Aires: parece que o povo vira um megaorganismo, composto por 50.000 pessoas, saltando e delirando em uníssono. Os fãs de futebol que me perdoem, mas a música é capaz de realizar façanhas em termos de psicologia de massas que você nunca verá parecido em nenhum clássico Boca Juniors vs River Plate… (FB)


RAGIN’ AGAINST THE MACHINE

Nasceu o supergrupo perfeito para confrontar furiosamente o início da Era Donald J. Trump! Mesclando membros do Rage Against The Machine, do Public Enemy e do Cypress Hilll, nasceu o crossover de thrash metal, hip hop e punk dos Prophets of Rage. Com EP de estréia já lançado, e com Tom Morello sempre endiabrado nas seis cordas, a banda promete subverter o slogan oficial daquele fascista YanKKKe que hoje dorme na Casa Branca; eles querem botar na boca do povo um outro lema: “Make America RAGE again!”

“Prophets of Rage” (Official Video, 2016, +700.000 views)

por Eduardo Carli de Moraes – Abril de 2017


LEIA TAMBÉM EM A CASA DE VIDRO – SOBRE MÚSICA: 200 clássicos da MPB nos anos 60, 70 e 80Gil Scott-HeronNina SimoneJanis JoplinSergio SampaioBob DylanVioleta ParraFestival de Jazz de Montreal –  Bananada 2016 – Björk’s Biophilia.

CONFLUÊNCIAS: Festival de Artes Integradas, 3ª Edição: Domingo, 02 de Abril, na Trip

Vem aí o Confluências: Festival de Artes Integradas, 3ª edição, chegando para unir as tribos e somar as vertentes artísticas em um mesmo caldeirão efervescente! Neste Domingão (02 de Abril), lá na Trip (Rua 115e, Setor Sul), teremos vários MCs mostrando toda a força do rap de Goiânia em shows com Tati Ribeiro, A Jay Ajhota e Subversão Feminista.

Vai rolar também uma exposição com algumas das melhores ilustrações de Heitor Vilela, da Rabiscos e Escarros, além de roda-de-prosa com o artista. Vão rolar ainda intervenções poéticas com Walacy Neto, William Trapo, Ma Ha (Siririca Poética), Goitacá Escafandrista, Kesley Rocha Dias. Complementando as artes visuais, teremos o Vinícius Yano grafitando a entrada da Trip. Além disso, discotecagens timbradas com os DJs Bruno Vieira Batista (Caveira) e Eduardo Carli de Moraes.

Não perca!

Abertura da casa: 16h. Ingresso: R$ 10. Conflua!

Endereço: Rua 115e, Setor Sul.

CONFLUÊNCIAS é uma produção d’A Casa de Vidro


Design gráfico e identidade visual: Annie Marques.

Página do evento: https://www.facebook.com/events/277267286060351/


APERITIVOS:

Ilustração: Heitor Vilela. Acesse o álbum completo.


A JAY A JHOTA
Ep de Estréia


DJ BRUNO CAVEIRA




TATI RIBEIRO




RELEMBRE: Vídeos das primeiras edições do Confluências

CÉREBRO ELETRÔNICO | Gilberto Gil, 1969

“O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo

O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda

Só eu posso pensar
Se Deus existe (só eu!)
Só eu posso chorar
Quando estou triste (só eu!)

Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso

Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei

Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei

Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus
Olhos de vidro…”

200 DISCOS CLÁSSICOS DA MPB NOS ANOS 60, 70 E 80 PARA OUVIR ONLINE (COMPLETOS E EM ORDEM CRONOLÓGICA) [PARTE II]

Os Mutantes

Os Mutantes

Ilustração por Daniel Gnatalli

Ilustração por Daniel Gnatalli

“Sem música a vida seria um erro.”
Nietzsche (1844-1900)

Uma das maravilhas maiores que a Internet nos proporciona é o acesso a uma imensa biblioteca musical. Este baú de tesouros está acessível a qualquer um que se conecte à grande rede digital planetária, mas as pepitas estão dispersas por toda parte e a compilação da fina flor deste acervo gigante exige todo um trampo de garimpagem e coleta. Na intenção de organizar um pouco todo este vasto material musical, A Casa de Vidro apresenta aqui uma seleção com 200 álbuns da música brasileira nas décadas de 60, 70 e 80, todos eles disponíveis para audição na íntegra no YouTube. Obras cruciais na história cultural brasileira estão aí reunidas para degustação livre. A lista vai ser expandida constantemente e as sugestões de vocês são muito bem-vindas. Subam o volume e boa viagem! Apreciem sem moderação!

CLICK AQUI E CONFIRA A PRIMEIRA PARTE DESTE ESPECIAL COM OS 100 PRIMEIROS ÁLBUNS POSTADOS

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  1. Dorival Caymmi
    Eu Não Tenho Onde Morar (1960)
  2. Moacir Santos
    Coisas (1965)
  3. Elis Regina e Zimbo Trio 
    O Fino do Fino (1965)
  4. Sidney Miller (1967)
  5. Caetano Veloso (1968)
  6. Orquestra Afro-Brasileira (1968)
  7. Teatro Arena Conta Zumbi (1968)
    Texto: G. Guarnieri e A. Boal, Música: Edu Lobo (e Vinícius de Moraes)
  8. Os Brazões (1969)
  9. João Donato
    A Bad Donato (1969)
  10. Rita Lee
    Build Up (1970)
  11. Gerson King Combo
    E A Turma Do Soul (1970)
  12. Módulo 1000
    Não Fale Com Paredes (1970)
  13. Novos Baianos
    É Ferro na Boneca (1970)
  14. Vinicius De Moraes, Maria Bethânia & Toquinho
    Ao Vivo em Mar del Plata (1971)
  15. Erasmo Carlos
    Carlos, Erasmo… (1971)
  16. Bango (1971)
  17. Spectrum
    Geração Bendita (1971)
  18. Os Mutantes
    Jardim Elétrico (1971)
  19. Gal Costa
    Fa-Tal (1971)
  20. Clube da Esquina (1972)
  21. Os Mutantes
    E Seus Cometas No País dos Baurets (1972)
  22. Elis Regina (1972)
  23. Elza Soares
    Pede Passagem (1972)
  24. Sá, Rodrix e Guarabyra
    Passado, Presente, Futuro (1972)
  25. Hermeto Pascoal (1972)
  26. Rita Lee
    Hoje É O Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972)
  27. Gilberto Gil
    Expresso 2222 (1972)
  28. Tom Zé
    Se O Caso É Chorar (1972)
  29. Paulinho da Viola
    Nervos de Aço (1973)
  30. Rita Lee & Lucinha Turnbull: Cilibrinas do Éden (1973)
  31. Nelson Cavaquinho (1973)
  32. Tim Maia (1973)
  33. Airto Moreira
    Free (1973)
  34. Milton Nascimento
    Milagre dos Peixes (1973)
  35. João Donato
    Quem É Quem (1973)
  36. Sá, Rodrix e Guarabira
    Terra (1973)
  37. Flaviola e o Bando do Sol (1974)
  38. Elis Regina e Tom Jobim (1974)
  39. Moto Perpétuo (1974)
  40. Gal Costa
    Cantar (1974)
  41. Som Nosso De Cada Dia
    Snegs (1974)
  42. Altamiro Carrilho e Carlos Poyares
    Pixinguinha De Novo (1975)
  43. Martinho da Vila
    Maravilha de Cenário (1975)
  44. João Bosco
    Caça à Raposa (1975)
  45. Jorge Ben e Gilberto Gil
    Ogum Xangô (1975)
  46. Raul Seixas
    O Novo Aeon (1975)
  47. Gonzaguinha
    Plano de Vôo (1975)
  48. Jorge Ben
    África Brasil (1976)
  49. Rita Lee & Tutti Frutti
    Entradas e Bandeiras (1976)
  50. Terreno Baldio (1976)
  51. Made In Brazil
    Jack O Estripador (1976)
  52. Casa das Máquinas
    Casa de Rock
  53. Banda Black Rio 
    Maria Fumaça (1977)
  54. Elizeth Cardoso, Zimbo Trio e Jacob do Bandolim
    Ao Vivo (1977)
  55. João Gilberto
    Amoroso (1977)
  56. Francis Hime
    Passaredo (1977)
  57. Sônia Santos
    Crioula (1977)
  58. Caetano Veloso e Banda Black Rio
    Bicho Baile Show (1978)
  59. Olívia Byington & A Barca do Sol
    Corra o Risco (1978)
  60. João Nogueira
    Vida Boêmia (1978)
  61. Maria Bethânia
    Álibi (1978)
  62. Beto Guedes
    Amor de Índio (1978)
  63. A Barca do Sol
    Pirata (1979)
  64. Rita Lee (1979)
  65. Lourenço Baêta (1979)
  66. Ângela Ro Ro (1979)
  67. Beto Guedes
    Sol de Primavera (1979)
  68. Gilberto Gil
    Realce (1979)
  69. 14 Bis (1979)
  70. Elis Regina
    Ao vivo no Festival de Montreux (1979)
  71. Lula Côrtes
     O gosto novo da Vida  (1981)
  72. Flávio Venturini
    Nascente (1981)
  73. 14 Bis
    Além Paraíso (1982)
  74. Camisa de Vênus (1983)
  75. Nei Lisboa
    Pra Viajar No Cosmos Não Precisa Gasolina (1983)
  76. Júlio Reny
    Último Verão (1983)
  77. Bacamarte
    Depois do Fim (1983)
  78. Arrigo Barnabé
    Tubarões Voadores (1984)
  79. Ratos de Porão
    Crucificados Pelo Sistema (1984)
  80. Tributo a Torquato Neto
    Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia (1985)
  81. Plebe Rude
    O Concreto Já Rachou (1985)
  82. Garotos Podres
    Mais Podres Do Que Nunca (1985)
  83. Arrigo Barnabé
    Cidade Oculta (1986)
  84. Os Replicantes
    O Futuro É Vórtex (1986)
  85. Cólera
    Pela Paz Em Todo Mundo (1986)
  86. Celso Blues Boy
    Marginal Blues (1986)
  87. Bezerra da Silva
    Alô Malandragem, Maloca o Flagrante! (1986)
  88. Violeta de Outono (1986)
  89. Inocentes
    Pânico em SP (1986)
  90. Ira!
    Vivendo e Não Aprendendo (1986)
  91. Os Paralamas do Sucesso
    Selvagem? (1986)
  92. Blues Etílicos (1987)
  93. TNT (1987)
  94. Picassos Falsos (1987)
  95. Ratos de Porão
    Cada Dia Mais Sujo e Agressivo (1987)
  96. Engenheiros do Hawaii
    A Revolta dos Dândis (1987)
  97. Inocentes
    Adeus Carne (1987)
  98. Os Replicantes
    Histórias de Sexo e Violência (1987)
  99. Picassos Falsos
    Supercarioca (1988)
  100. Joelho de Porco
    18 Anos Sem Sucesso (1988)
  101. Cazuza
    Ideologia (1988)
  102. Cazuza
    O Tempo Não Pára – Ao Vivo (1988)
  103. Os Cascavelletes (1988)
  104. Egberto Gismonti
    Dança de Escravos (1989)
  105. Os Cascavelletes
    Rock’a’Lua (1989)

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A vida de Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”, em quadrinhos – Saiba mais @ A Casa de Vidro Livraria

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SINOPSE – Carolina Maria de Jesus foi um dos grandes fenômenos literários do Brasil nos anos 1960. Seu livro de estreia, Quarto de Despejo, ficou no topo da lista de mais vendidos e foi publicado em mais de 13 países. Negra, pobre, moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, e mãe de três, Carolina narrava no livro seu cotidiano na favela. Foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a publicar o trabalho. A história de luta, fama e declínio de umas das mais marcantes vozes femininas da literatura brasileira está em Carolina, biografia em quadrinhos de João Pinheiro e Sirlene Barbosa. O livro narra sua infância pobre em Minas Gerais, sua vida sofrida em São Paulo, a fama, as ilusões, as decepções e o esquecimento. 128 páginas. Sirlene Barbosa é doutoranda em Educação pela PUC-SP e professora de língua portuguesa. João Pinheiro é artista visual e autor de histórias em quadrinhos, publicou os álbuns Kerouac (2011, Devir) e Burroughs (2015, Veneta). Já colaborou para revistas como Hipnorama (Argentina), Inkshot (Eua), Serafina, Rolling Stone e Bill.

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“Embora em princípio qualquer um possa fazer literatura ou fazer política, o reconhecimento de um discurso como literário ou como político passa pela adequação aos códigos consagrados no campo. (…) Tomando como base os romances publicados pelas editoras de maior prestígio entre 1990 e 2004, verifica-se que 93,9% dos autores são brancos, 78,8% têm diploma universitário, 72,7% são homens. As personagens também são quase todas brancas, heterossexuais e pertencentes às elites econômicas ou às classes médias, com uma significativa maioria do sexo masculino, disparidades acentuadas quando são isolados os protagonistas. Num universo de 258 romances analisados, aparecem apenas 3 mulheres negras como protagonistas e uma única é narradora. Nesse cenário, surgem, vez por outra, vozes diferenciadas. O caso mais emblemático é o de Carolina Maria de Jesus, negra, pobre, favelada, mãe solteira, catadora de papel, descoberta por um jornalista e que publicou seu diário – Quarto de Despejo – em 1960.” (LUIS FELIPE MIGUEL, Democracia e Representação, Ed. Unesp, p. 228-29) – SAIBA MAIS

OUÇA:
Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1961) Álbum Completo

VEJA:
Poética da diáspora – Pesquisa Fapesp